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José Manuel Fernandes esteve aqui no sábado passado, no dia da posse do Governo, por isso não quer voltar a falar de António Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa no Contracorrente.
É verdade. Não me apetece estar a falar do maior governo de sempre, nem quero regressar aos recados do presidente, nem às promessas do primeiro-ministro. Acho que vamos ter tempo nos próximos dias para falar do programa do Governo. Mas também não queria deixar passar muito tempo sobre um vídeo que circulou na internet, numa manifestação à porta da Assembleia da República e que é uma manifestação um bocadinho misteriosa.
Misteriosa, por quê?
Misteriosa porque se falou pouco dela. Ela não teve muita gente, talvez umas 50 pessoas, e misteriosa também porque, você já vai ver, aquilo que se disse lá é estranho, até porque era uma manifestação de apoio a Joacine Katar Moreira. Até aqui tudo normal, não é nada especial, quem quer manifesta-se num país livre, como se costuma dizer. O que é especial, de facto, é o que se ouve naquele vídeo. Um dos manifestantes, que de resto é bastante aplaudido, faz uma intervenção longa, mas a parte importante é esta: ele considera que a bandeira portuguesa é racista e imperialista. O discurso é muito empolgado, acusa ter símbolos que remetem para uma determinada identidade religiosa, de resto, como se isso fosse uma vergonha, e como se essa não fosse a matriz do nosso país ao longo de quase nove séculos de história. Nós não aparecemos ontem. A nossa cultura, de facto, não se construiu no vazio, construiu-se sobre uma herança, e essa herança acontece que, por acaso, é a herança, como se costuma dizer, judáico-cristã. Mas isso nem é a maior questão. A maior questão é esse manifestante também vendo na esfera armilar a glorificação do assassinato de seres humanos e vai ao ponto de considerar que a nossa bandeira exalta a negação da humanidade de milhões e milhões de homens e mulheres. E é precisamente nesse momento que ele é mais aplaudido. Mas como se isto não fosse suficiente, ele considera que a bandeira nacional devia ter sido banida, tal como foi banida a bandeira nazi depois da Segunda Guerra Mundial, porque a bandeira simboliza um regime opressor e, portanto, devia ter sido abandonada.
Mas isso, José Manuel, a nossa bandeira não era a bandeira do Estado Novo, a nossa bandeira vem da Primeira República. Portanto, não entendo bem a argumentação aqui.
Bem, ele até se engana, porque ele diz que vem do século XIX, quando ela não é do século XIX, é do século XX, mas isso é um detalhe. Agora, eu acho que a intervenção mistura aquilo que é, de facto, ignorância, com muito preconceito e muito radicalismo. E eu acho que esse radicalismo é perigoso, porque eu acho que ele era um fanático, não consigo chamar ele de outra coisa. Ele podia ler um livrinho muito interessante da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde se conta a história dos símbolos nacionais. E é muito interessante, por quê? Porque conta como é que aquilo que no início eram apenas as armas de uma família, se foram fundindo com as armas de outras famílias, porque nós tivemos várias famílias reais ao longo dos anos, e foram a pouco a pouco corporizando a história de Portugal ao longo dos séculos. No fundo, os países, sobretudo quando são Estados-nações, como é o nosso caso, e nem sempre isso acontece, têm uma identidade e felizmente que a têm, porque senão nós não sabíamos onde é que estávamos. E também têm uma história e as armas e os símbolos nacionais contam essa história, no nosso caso, de uma forma muito particular.
Mas, em todo caso, não achas que na história de todos os países também pode haver momentos sombrios?
Quer dizer, eu acho que não só pode haver, como é inevitável que haja. Não há histórias puras, limpas e completamente branquinhas. Acontece é que os símbolos nacionais servem para nos unir, sobretudo em torno dos melhores momentos e não dos piores. Mesmo que se lembrem os mitos como a Batalha de Ourique, isso está presente na bandeira, que a gente sabe que provavelmente nem sequer existiu, elas estão lá ao lado de outros que também nos recordam os nossos melhores momentos, como os descobrimentos. E de resto, não, eu acho que não vamos pedir desculpa por termos dobrado Alpujarra, não vamos pedir desculpa por termos chegado ao Brasil, nem por termos aportado em Calicute. E não, não acho também que temos que pedir desculpa por Camões ou por Garcia da Orta ou pelo Padre António Vieira.
Mas achas que é isso que esses manifestantes pretendem?
Olha, francamente, acho. Acho até porque já o verbalizaram noutras ocasiões. Eu não me esqueço aqui há uns anos, uma manifestação pra tentar deitar abaixo a estátua do Padre António Vieira. E não era outro qualquer, era mesmo o Padre António Vieira. Por isso é que eu acho que este discurso não é um fait divers. Este discurso aconteceu numa manifestação onde estava presente Rui Tavares, que também fez uma intervenção. Eu acho que ele já se tinha ido embora na altura em que este senhor falou. Mas este discurso é um aviso do que aí vem. Há muita gente que acha muita graça a Joacine Katar Moreira. Eu aconselhava que dessem mais atenção àquilo que são as suas obsessões e que notassem que há muito radicalismo no seu discurso, e que percebessem que aquele discurso sobre a bandeira portuguesa, no fundo, não é mais do que uma versão grotesca, eu diria mesmo analfabeta, das políticas identitárias, que são as políticas de que ela durante muitos anos foi ativista. E eu acho que, vamos nisso ser claros. Não tenhamos dúvidas, para muita gente, a única bandeira que eles aceitavam que nós tivéssemos seria uma bandeira branca. Por quê? Porque seria uma bandeira da nossa rendição. Agora, aquilo que eu pergunto é: será que nós queremos render-nos?
Contracorrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge Carvalho, aqui na sua Rádio Observador. Amanhã, nova edição a não perder depois das 20:10.
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