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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Depois, para entrar em direto, já sabe que só tem que ligar para nós 91 002 41 85, número que também pode usar para nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, se preferir deixe os seus comentários nas redes sociais ou no nosso site. Carla. Há pouco mais de dois anos, o Irão parecia no auge do seu poder. Tinha regimes amigos na Síria e no Iémen, exércitos de guerrilheiros no Líbano, na Faixa de Gaza e no Iraque. Tinha até tranquilidade suficiente para fornecer armas e drones ao amigo russo. Isto sem falar de um programa nuclear de que nunca desistirá. Todo esse mundo está hoje em xeque. As condições de vida degradaram-se enormemente e centenas de milhares de iranianos começaram a invadir as ruas e a destruir símbolos do regime. A repressão tem sido violenta, mas desta vez paira sobre os líderes outra ameaça, a de uma ação dos Estados Unidos, pois Trump já ameaçou que atacará se os massacres continuarem, o que leva muitos a considerar que o regime dos aiatolás pode mesmo estar no fim. Mas será mesmo assim? Este é o ponto de partida para o Contracorrente de hoje. José Manuel, acreditas que desta vez pode ser diferente? Bom dia.

Há essa possibilidade, e eu gostaria muito que fosse diferente e que dentro dessa diferença pudesse regressar ao Irão, uma antiga Pérsia, outro tempo e outras glórias. De alguma forma, nós muitas vezes identificamos o Irão com o mundo, como é do Oriente, de alguma forma como mundo árabe, por ser um grande país islâmico e por ser governado por aiatolás, por líderes religiosos. No entanto, a história do Irão é muito diferente e de alguma forma, aquilo que nós ainda hoje aqui, por exemplo, definimos como Ocidente, nós definimos o Ocidente por contraponto àquilo que era a antiga Pérsia, que era o Irão, e definimo-lo a partir de momentos marcantes que foram trazidos até nós pelo primeiro dos historiadores, pelo primeiro dos historiadores que identificamos com o nosso mundo ocidental, que foi Heródoto. Heródoto conta a história das guerras entre os gregos e os persas, a história da Batalha de Maratona, a Batalha de Termópilas, a Batalha de Salamina, a Batalha de Plateia, provavelmente a decisiva. E foi aí que muita da identidade ocidental se configurou. Depois a seguir temos Alexandre, e a conquista de Alexandre, o Grande, e a conquista, aí sim, ao contrário. A entrada pela Pérsia adentro, o próprio Alexandre a assumir vestes de imperador persa. E isto foi assim durante muito tempo, não foi apenas um episódio na muito antiga antiguidade, foi algo que se foi mantendo ao longo dos séculos e se manteve até recentemente. O Irão costuma dizer que é a monarquia mais antiga do mundo, o sistema político mais antigo do mundo. Enfim, podemos discutir isso, mas há seguramente ali uma tradição muito antiga, que, na minha perspectiva, e julgo que na perspectiva de muitos iranianos, não se compagina com um regime de aiatolás, castrador, limitador e com uma agenda que verdadeiramente não é propriamente a agenda imperial dos imperadores de outros tempos, que hoje em dia também já não é algo que nós possamos aceitar no mundo moderno, mas é uma agenda teológica, religiosa, fundamentalista, que provocou alterações radicais no mundo a partir de 1979. Quem viveu antes de 1979 lembra-se de um mundo onde havia terrorismo, mas era um terrorismo laico, era um terrorismo ideológico, e aliás, terrorismo pesado na Europa, também no Médio Oriente. Era um terrorismo nacionalista, não era um terrorismo religioso. E sabemos como isso tem marcado as últimas décadas e tem vitimado, sobretudo, povos e pessoas no mundo islâmico. Aquilo que se está a passar é muito resultado dessas opções, porque muitos destes países têm muitas riquezas naturais e têm também uma enorme tendência para aproveitar essas riquezas naturais para beneficiar os regimes e as agendas dos regimes e não o povo. Até porque, como têm essas riquezas, não precisam de prestar contas da mesma forma que os outros regimes, que têm que cobrar impostos para poder prestar os seus serviços. E aquilo que se passou no Irão nos últimos anos, últimas décadas, é um colapso absoluto. Quer dizer, estamos ao ponto de não haver água em muitas regiões, nomeadamente da capital. Estamos ao ponto de a inflação no passado mês de dezembro ter ultrapassado os 50%. No caso do pão, mais de 100%. E isto levou a que esta revolta tenha características novas por comparação com as revoltas anteriores. Nós tivemos uma revolta em 1979, que foi sobretudo de estudantes. Depois tivemos uma revolta em 2009, que foi mais generalizada e foi um protesto contra uma fraude eleitoral. Depois tivemos aquela revolta mais conhecida, mais recente, 2022, quando uma rapariga foi assassinada, literalmente assassinada pela polícia religiosa por não ter o cabelo devidamente coberto. Mas nenhuma dessas revoltas teve o caráter quase universal que esta revolta está a ter. Isto começou num sítio crítico, que são os bazares de Teerão. Habitualmente, os bazares são os comerciantes tinham tendência a ser apoiantes do regime. Foi também em boa parte nos bazares que começou a revolução de 1979, a revolução que derrubou o Xá, mas depois espalhou-se a tudo, espalhou-se a todas as classes sociais, a todas as idades, espalhou-se praticamente a todas as cidades e portanto, há um levantamento geral. Agora, nada assegura que isto possa triunfar. A repressão é violentíssima, é absolutamente brutal e o próprio regime não tem apenas uma cabeça, tem um líder supremo, mas tem uma teia muito intricada de poderes que tornam mais difícil atacar o seu coração. E além disso, esse líder supremo tem uma guarda pretoriana que não lhe é apenas fiel, é dependente desta cleptocracia em que o Irão também se tornou. A guarda revolucionária não serve apenas para reprimir os manifestantes. A guarda revolucionária tomou conta de boa parte da economia, enriqueceu com essa pilhagem e portanto tem uma fidelidade que não é apenas a fidelidade ao líder, é a fidelidade ao seu interesse próprio. É difícil de perceber o que possa acontecer, até porque uma possível intervenção externa é uma faca de dois gumes, porque os iranianos também são um povo muito orgulhoso, precisamente por causa dessa história muito antiga, e por isso podem não reagir a isso da melhor forma. É um momento crítico, porque às vezes a história acelera-se. De um momento para o outro acontecem coisas que não estamos à espera que aconteçam, que nem prevíamos que pudessem acontecer e de repente o mundo fica diferente. E quem olhasse para o poder do Irão há dois anos e hoje olhe para o desmoronar daquele castelo que tinha vindo a ser construído pelos aiatolás com o chamado eixo da resistência, aqueles satélites todos à volta, Hamais, Hezbollah, guerrilhas, regime sírio, Houthis, por aí adiante. Hoje tudo isso está a ruir e falta só ruir a cidadela. Será que vai ruir? Esperemos que sim, para o bem do povo iraniano.

Vamos analisar tudo isto daqui a pouco no "Contra Corrente". Até já, Samuel. Faça parte, ligue 91 002 41 85 e entre em direto logo a seguir ao jornal das 10. Se não puder, envie-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou deixe os seus comentários nas nossas redes sociais ou no nosso site.