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Uma das coisas que mais me comove e que me toca quando falo e quando penso neste caso em particular, é esta capacidade de superação. Tanto sofrimento e tantos anos de dificuldades acumuladas, se calhar até alguns momentos de desistência ao longo da vida e de repente eu estou aqui numa espécie de encruzilhada: "Para onde é que eu vou?" E esta pessoa supera. O meu nome é Ana Nunes da Silva, sou psicóloga clínica e psicoterapeuta e exerço já há cerca de 20 anos. Isto foi um senhor com cerca de 70 anos, que eu conheci num contexto de trabalho na área dos comportamentos aditivos. É alguém que chega pós-internamento num hospital geral, com uma série de condições físicas, e chega a esta equipa de tratamento. Esta pessoa vem com sete diagnósticos do foro médico, muitos deles associados ao consumo de álcool. Nós debatíamos sempre os casos que víamos em primeira consulta, cada um em separado, mas depois cruzávamos informação, e o psiquiatra usou uma expressão que eu na altura nem compreendi muito bem, que era: "Este senhor já só falta vir com os pregos". E eu na altura perguntei: "O que quer dizer com isso?" E ele: "Os pregos para o caixão". Era quase como se ele viesse como uma espécie de condenado. Quase como se não houvesse muito que nós pudéssemos fazer por ele. Eu era relativamente jovem e tinha aqui esta pessoa comigo, que quase que havia idade para ser meu avô, e fui sabendo assim várias coisas da história dele. Era um caso que tinha muitas questões sociais. Havia um enquadramento em que havia muitas dificuldades com uma filha e um neto com doenças crônicas e também com muitas dificuldades a que ele e a companheira iam ajudar. Era um homem que eu depois fui percebendo que tinha sido um agressor, do próprio ponto de vista físico e verbal, à mulher, que tinha estado na guerra e estimávamos que tinha um estresse traumático, provavelmente não identificado e não trabalhado, com 40 ou 50 anos de existência. Foram múltiplas coisas que me marcaram, principalmente a fase de treino, quando eu me recordo, estava muito no início. Depois a questão da idade. Esta diferença de idade que nós também tínhamos. Eu estava no início, mas estava de repente a intervir e a ajudar uma pessoa que era muito mais velha. A questão das múltiplas dimensões, era um caso que tinha dimensões sociais, económicas, questões relacionais, com a questão da esposa. Tinha a dimensão física, dos tais diagnósticos, e era um caso muito complexo e com muitas dimensões e penso que acabou por ser isso que me chamou a atenção. Depois, uma outra questão particular do processo, em que esta pessoa já estava em recuperação, sem consumir, com a vida de alguma forma reorganizada, e em que a mulher fica doente. Tem uma doença em que muito rapidamente as coisas se degradam e em que ela acaba por morrer, num curto espaço de tempo. Naquela altura, eu temia um bocado pela questão dos consumos e da regulação. Este homem usava o álcool de alguma forma para se anestesiar, o que é que vai acontecer aqui? E a realidade é que durante o processo de tratamento da esposa e depois quando ela morre, quando ele começa num processo de luto, é mais uma dimensão para o nosso processo. Depois entramos num processo de intervenção no luto. E este homem consegue se manter até como pilar da família. De repente, esta pessoa, que era passiva, que era desligada, que até era um agressor, passa a ser a pessoa que dá estrutura à família, que começa a tomar conta das coisas da casa. Isso também foi uma dimensão. Acho que isso ainda é outra dimensão que acresce àquilo que me faz senti-lo como um caso que me marcou de alguma forma, porque acho que mostra também, eu até me emociono um bocado quando falo disto, que é esta beleza das competências, das capacidades que o ser humano tem para se superar, mesmo em situações altamente adversas. Quer dizer, é um privilégio, enquanto psicóloga clínica, poder aceder a isso. Pensando naquilo que foi a longevidade, desde o início do acompanhamento, não consigo precisar exatamente em números exatos, mas eu diria que ele terá vivido mais cerca de 10 ou 12 anos, o que, tendo em conta a expectativa inicial, mostra que vale a pena, e que vale a pena as pessoas procurarem ajuda em qualquer fase de vida. E, neste caso, valeu a pena.

O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz. Conta ainda com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses.