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8:19, é hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Para nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo. Carla.

Não será todos os dias, mas é quase todos os dias. PRR para construir habitações a preço acessível, irremediavelmente atrasado. Novas centrais solares no Alentejo, as associações ambientalistas recorrem para os tribunais. Modernização do Aeroporto de Lisboa enquanto se espera pelo novo, o Ministério Público quer anular decisões do governo e fazer parar tudo. Abater umas dezenas de árvores em Lisboa com o compromisso de replantar o dobro, a população mobiliza-se em petições. Quase todos os dias há notícias como estas nos jornais, quase todos os dias nos falam de uma administração pública que não funciona, mas quase nunca nos acrescentam que também não a deixam funcionar. O que se passa neste país onde se gasta cada vez mais dinheiro público e cada vez há mais queixas de paralisia dos serviços públicos? Este é o ponto de partida do Contracorrente de hoje. Bom dia, José Manuel. Somos mesmo como terão dito os romanos, somos aquele povo que vive na Lusitânia e que não se governa nem se deixa governar?

Talvez. Já citei essa expressão muitas vezes, acho que tem um lado de verdade. Mas muitos desses exemplos que deste são exemplos que se podem aplicar a Portugal, à Espanha, à França, ao Reino Unido, à Alemanha, aos Estados Unidos. É uma doença dos tempos modernos, digamos assim. E uma doença que tem a ver com algo que se instalou nas sociedades contemporâneas, que é, por um lado, achar que o Estado pode fazer tudo e resolver os problemas todos, mas ao mesmo tempo desconfiar imenso das decisões do Estado, porque o Estado, para todos os efeitos, tem sempre um governo, o governo é sempre político e há sempre uma parte do país que está contra quem está no governo. Isto cria, muitas vezes, situações de bloqueio e investimentos que não acontecem. Se citar alguns exemplos, vamos falar um pouquinho menos deles, porque vale a pena, como se costuma dizer, esmiuçá-los. São histórias diferentes. Nós estamos a falar disto porque ontem foi notícia a história de um jacarandás em Lisboa. Por conta foi também notícia a história de três centrais solares no Alentejo, perto de Évora, no Divor, naquela região. E isto são notícias recorrentes. Acontece que precisamente nas últimas semanas, um dos temas de discussão nos Estados Unidos, e nos Estados Unidos entre o que lá chamam os liberais, os liberais lá é o equivalente à esquerda, e a esquerda lá é coincidente basicamente com os democratas, é mais ou menos a mesma coisa: por que nada funciona? Aliás, também no Reino Unido saiu recentemente um livro chamado "Por que nada funciona". E quando nós tentamos perceber por que nada funciona, encontramos dados muito surpreendentes. Por exemplo, em estados, estou a falar nesse caso dos Estados Unidos, onde isto foi estudado com algum detalhe por jornalistas e acadêmicos. Nos estados governados há décadas por democratas, pessoas que em princípio defendem mais energias renováveis, porque são contra as alterações climáticas, pessoas que se preocupam, teoricamente, com mais habitação para as classes baixas, são os estados onde é mais difícil fazer investimentos em energias renováveis e onde é mais difícil, por exemplo, construir habitação. Só para te dar um número que eu acho muito significativo, é que o número de casas construídas numa cidade como Los Angeles, isto são números de 2022, são duas habitações e meia por cada mil residentes. Isto é Los Angeles, que é uma cidade governada há décadas por democratas. Em Austin, no Texas, que é governado há décadas por conservadores, foram 18, em vez de dois e meio, foi 18. Por que isso acontece? A pressão sobre as duas cidades não é muito diferente, até porque outra das coisas curiosas, que também os mesmos estudos mostram, é que a principal razão para a existência de sem-abrigos, pessoas a viver sem abrigo, repara na Califórnia, o tal estado democrata por excelência, vive 12% da população, 30% dos sem-abrigo, 50% das pessoas sem-abrigo, que nem sequer têm um daqueles abrigos temporários. Há aqui uma desproporção brutal entre aquilo que é a população da Califórnia e os números de sem-abrigo da Califórnia. Depois de estudar por que são, se era o desemprego, se era os rendimentos, se era questões mentais, chega-se à conclusão de que a principal razão é falta de habitação. Falta de oferta de habitação, basicamente custo da habitação, custos exorbitantes da habitação. Regiões onde um T1, nós aqui falamos que um T0 ou um T1 no centro de Lisboa custa 500 mil, 600 mil euros. Em zonas rurais de um estado como o New Hampshire, que é outro estado governado pelos democratas, em zonas rurais, suburbanas, não se consegue uma casinha pequenina por menos de 1 milhão. Um milhão de dólares, neste caso, mas o dólar está quase igual ao euro. Isto é interessante para perceber, porque como nos Estados Unidos há estados governados à direita e estados governados à esquerda, consegue detetar melhor onde estão os problemas. Esses livros são escritos por jornalistas e acadêmicos de esquerda que dizem: "A esquerda tem que mudar por causa do que está a acontecer." Isto são dados, são factos. Em Portugal acontece uma coisa parecida, porque há muitos, por exemplo, ambientalistas ou ativistas pela habitação, que depois criam legislação ou desencadeiam ações judiciais cujo resultado prático é paralisia, ao mesmo tempo que induzem legislação que conduzem a essa mesma paralisia. Ao mesmo tempo, como tu disseste, se gasta cada vez mais dinheiro para fazer, muitas vezes, menos coisas. Vale a pena falar sobre isso, porque eu acho que é um dos problemas dos tempos modernos, sobretudo se compararmos com, e neste momento temos que fazer sempre essa comparação, com o que se está a passar no país do mundo que está a crescer mais depressa e com mais qualidade, digamos assim, em termos de qualidade de crescimento, que é a China.

Vamos fazer essa comparação, a doença dos tempos modernos. Até já. 91 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou deixar os seus comentários no nosso site ou nas nossas redes sociais.