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Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos voltar a falar de acontecimentos que se passaram há 100 anos e, de alguma forma, como não podia deixar de ser, na Rússia, mais concretamente na jovem União Soviética. Nessa altura, o Partido Comunista, o partido de Lênin, Stalin e Trotsky, já tinha triunfado na guerra civil, mas estava a enfrentar uma revolta, porque as condições econômicas eram terríveis e havia grandes fomes. Tinha sido lançada, pouco tempo antes, no ano anterior, a chamada Nova Política Econômica. No entanto, a situação ainda era bastante difícil e em 1922 vai reunir-se, por esta altura, o Congresso do Partido Comunista da União Soviética, e é um congresso importante. É o congresso em que vai consagrar como secretário-geral, José Stalin. José Stalin não tinha desempenhado um papel muito importante durante a guerra civil, mas tinha vindo a ganhar peso dentro do partido. Dentro do partido havia cada vez duas figuras mais fortes, José Stalin por um lado e Trotsky por outro. Lênin ia perdendo força, por assim dizer. Ele viria a sofrer o seu primeiro acidente vascular cerebral pouco tempo depois deste congresso. A partir daí, ele estaria muito diminuído e há algo que vai ser decisivo na luta pelo poder que se vai travar entre Trotsky e Stalin, que é o facto de Stalin controlar, de alguma forma, a ligação entre Lênin e o partido, porque Lênin vai viver os últimos anos de vida, até 1924, vai passar a maior parte do tempo numa residência nos arredores de Moscovo, na mansão de Gorki. Ora bem, este momento é, de alguma forma, crucial, marca a ascensão, não é a ascensão definitiva, não é o triunfo ainda de Stalin no Partido Comunista da União Soviética, mas é um sinal de que vai ser ele o triunfador na luta pelo poder e na luta pela sucessão de Lênin. Jaime Gama, quem tivesse assistido à Revolução de Outubro não poderia imaginar que Stalin ia suceder a Lênin, porque a Revolução de Outubro é uma revolução em que temos a direção política nas mãos de Lênin, a direção dos sovietes na mão de Trotsky. Stalin tem um papel muito secundário nesse processo.
Stalin é um pouco mais novo que Lênin. Stalin não é russo.
É georgiano.
É georgiano. Stalin tem uma origem bastante humilde, é filho de dois servos. Não faz parte da elite intelectual que, de certa forma, constituía o núcleo dirigente da Revolução de Outubro e, portanto, a sua carreira é mais lenta, mas isso não significa que a sua carreira não tenha sido uma carreira com muitas provas dadas, porque ele esteve várias vezes preso, ele foi várias vezes exilado. Ele, ainda no Cáucaso, organiza grupos de ação para financiar o Partido Bolchevique. Esses grupos de ação fazem extorsão, assaltam bancos, portanto, têm um papel importante nessa consolidação organizativa. E se reparar, ele também tem algumas qualidades que o fazem reconhecer por Lênin, quando Lênin tem um pouco que arbitrar a relação dele com Trotsky. Lênin apreciava em Trotsky a inteligência fulgurante e a sua capacidade de iniciativa no plano militar, embora também o receasse, e apreciava em Stalin a sua capacidade de misturar poderes organizativos e de enquadrar a ação violenta, ao mesmo tempo que dotes para poder escrever, para desenvolver artigos e teses. É por isso, aliás, que logo aí nesse contexto de Petrogrado é designado editor do "Pravda". Stalin foi bastante bom aluno Na escola e depois no seminário que frequentou. Ele não é alguém que fala russo como língua materna, ele aprende russo numa escola religiosa, numa escola ortodoxa. E depois no seminário espiritual de Tbilisi, na capital da Geórgia, da Igreja Ortodoxa, ele tem uma atividade intelectual muitíssimo variada, porque ele lê muito. Esse seminário era um seminário para a formação de sacerdotes ortodoxos, mas bastante contaminado por leituras fora do contexto teológico, leituras de uma certa abertura. Literatura francesa e outras, teóricos revolucionários. Havia ali como que umas infiltrações da sociedade mais revolucionária daquela zona. E Stalin leu os clássicos, lê Marx. Stalin até chega a ser poeta, escreve poesia romântica, portanto, ele reúne essas capacidades. Alia capacidade organizativa e muito determinada, com também essa capacidade intelectual. É preciso ir ao fundo da figura e da pessoa. Há hoje biografias muito boas e não ficar também só pelo clichê. Depois, ele tem um percurso que se for visto, é um percurso bastante importante para um partido comunista e para um partido comunista que faz uma revolução, porque ele começa por ser um militante muito determinado. Ele vai a muitos congressos no exterior quando a questão alas mencheviques, alas bolcheviques, a questão do relacionamento com os sociais-democratas está a ser colocada em vários partidos na Europa. Ele é designado no governo provisório de Lênin, o governo dos comissários do povo, ele é logo designado comissário para as nacionalidades. E nesse contexto, as nacionalidades são as relações com as grandes nacionalidades como Bielorrússia, Ucrânia, Transcaucásia, a Finlândia, mas também as pequenas nacionalidades, porque a Revolução Russa, para se firmar, tem que fazer uma paz com as potências centrais e cede imenso território, e isso também é objeto de uma negociação. Depois, ele, na guerra civil, por ter esse seu conhecimento já no comissariado para as nacionalidades, é designado para o relacionamento com o Cáucaso e com a Ucrânia, quer do ponto de vista das políticas de abastecimento, mas também tendo autoridade sobre o sistema de segurança e o sistema militar. Depois, ele ocupa um cargo muito importante, que é o do controle da política de quadros, porque ele é diretor da inspeção operária ou camponesa, quer isto dizer, ele é diretor do organismo que fiscaliza quem se admite, quem se promove, quem se destitui, quem se transfere. E ele cria aí um grupo de apoio dentro do partido, com uma geração mais nova do que aquela que estava no poder à época e que lhe vem a valer no futuro. E ele é também designado diretor do departamento de agitação e propaganda do Comitê Central mais tarde. E é daqui que ele passa, por indicação de Lênin, para secretário-geral do Comitê Central, de certa forma equilibrando com a figura de Trotsky. Lênin arbitra Trotsky e Stalin no topo com ele. Portanto, é um percurso que não é tão surpreendente como isso. É um percurso menos fulgurante, mas é um percurso com raízes muito extensas na rede territorial da organização comunista. Ele não faz parte da estrutura militar, porque ele já no tempo do czar, foi isento do serviço militar, porque em criança tinha tido uma doença que lhe afetou gravemente um braço e isso tornava-o incapaz para o serviço militar, embora não tivesse deixado de ser depois, mais à frente, generalíssimo do sistema soviético da Segunda Guerra Mundial.
Não, eu não estava de forma nenhuma a desmerecer a figura de Stalin, nem o percurso de Stalin, que tinha uma extraordinária habilidade e era um homem indiscutivelmente inteligente. Aliás, o próprio Trotsky tinha alguns handicaps fortes. Trotsky não era membro do Partido Bolchevique até a Revolução de Outubro, só entra para o partido já na Revolução de Outubro. Tem muitos anticorpos dentro do partido. É indiscutivelmente um organizador, um grande orador, tem dotes de oratória, por isso é que ele já tinha sido dirigente do Soviete de Petrogrado na Revolução de 1905 e volta a sê-lo na Revolução de 1917, mas não tem a mesma capacidade de criar uma rede dentro do partido Que teve Stalin. E Stalin vai manter uma relação com Lênin muito particular e torna-se um homem em que ele tem que confiar pra sua capacidade de organização em momentos muito críticos. Agora, também é indiscutível que, por exemplo, na condução da guerra civil, a figura de Trotsky é muito importante.
Sim, Trotsky, claro que é.
É Trotsky que organiza e dirige o Exército Vermelho numa altura em que se pensava que praticamente era impossível ganhar a guerra civil. E nesse processo, inclusive, tem alguns choques com Stalin. José Manuel Pinto, este momento, que é um momento também importante, porque durante muito tempo o Partido Comunista da União Soviética era uma organização atravessada por muitas discussões, era uma organização muito plural, muito viva, cheia de intelectuais, até aquela organização monolítica, em que toda a dissensão é castigada quase com a morte ou mesmo com a morte, há uma evolução grande, mas ela começa a ocorrer ainda com Lênin.
Sim, pegando um pouco no que o José Manuel estava a dizer sobre Trotsky. Trotsky tinha alguns antecessores. Trotsky, de facto, foi decisivo. E uma das coisas que é muito importante e que se fala pouco, é que Trotsky, quando viu que estavam com problema gravíssimo, que era a falta de enquadramento, fez o seguinte: foi buscar os oficiais do quadro normal, do exército russo normal, e pô-los a servir os bolcheviques e enquadrar os bolcheviques, mas fazendo uma coisa muito importante e que do ponto de vista moral seria bastante reprovável, foi pondo as famílias como reféns. Caso eles tivessem alguma tentação de atuar de outra maneira. Além disso, Trotsky parece que era uma figura, pelo menos não tinha grande, mesmo entre os seus iguais, daquele núcleo duro, que é o Lênin, é o Stalin, é o Kamenev, é o Bucharin, é o Yezhov, desse grupo todo, que, aliás, curiosamente, tem um número grande de judeus russos. Trotsky, o próprio Lênin também tem uma ascendência pelo lado da mãe jugaica, e Kamenev e Yezhov também. Essa é uma das coisas que depois esse grupo é eliminado mais tarde por Stalin, praticamente são todos liquidados nas grandes purgas de 38. Mas voltando a esta questão, o Stalin, de facto, e como nós estávamos aqui a dizer, eu acho que é importante dizer isso, porque a imagem que ficou do Stalin foi muito a imagem de uma biografia do Stalin, do próprio Trotsky, e que, por exemplo, exatamente dizia que o Stalin era um personagem pouco educado, bruto. Agora, não há dúvida que ele consegue. É preciso ver que o Partido Comunista, em 1917, tinha cerca de 20 mil militantes. No fim da guerra civil, terá pra cima de 1 milhão. Ora bem, o que o Stalin faz, de facto. O Stalin era um bom organizador. E também há uma coisa muito curiosa, quer dizer, a maior parte deste núcleo, que eram, de facto, intelectuais, gostavam da discussão, eram homens de um certo meio social, até burguês, Trotsky, Kamenev, etc. Aquela coisa do secretariado, eles achavam uma coisa menor, preferiam coisas mais emocionantes, o Trotsky os negócios estrangeiros, a guerra, tudo isso. Portanto, quando foi a divisão pelos comissariados, curiosamente, uma das razões porque o Stalin fica com o secretariado é porque ninguém quer, no fundo. Quer dizer, não há grande interesse, acham que é uma coisa de secretaria, exatamente como o nome indica. E, portanto, ele aí tem duas coisas. Não é só o poder mexer, porque, aliás, vendo o comportamento dele, ele não foi tão saneador como se pode pensar, mas ele passa a ter uma informação muito importante do que sentem, de facto, as bases. E, portanto, numa estrutura onde o enquadramento médio acaba por ser, de certo modo, decisivo, ele primeiro tem essa sensibilidade, ele sabe exatamente o que essas bases, o que esses militantes espalhados por todo o território pensam. Ele vai dando a prioridade ao partido sobre, por exemplo, os sovietes, que é uma coisa também bastante importante. E depois, Stalin também tem outra coisa muito interessante. Ele tem uma certa flexibilidade, vai se aliando, ora àquilo que era um bocadinho a ala direita, que é o Bucharin, pra esmagar a ala esquerda, mas depois também faz exatamente o contrário. Ele, de certo modo, dentro do Partido Comunista, atua um bocadinho como se fosse uma espécie de centrista. Por outro lado, também teve o cuidado de apoiar Lênin em várias coisas, pois a própria opção em Brest-Litovsk, muita gente dentro do próprio comitê central. É preciso ver que também há uma evolução muito importante no próprio comitê central. O comitê central tinha relativamente pouca gente, dava para 19 pessoas. Depois é aumentado e depois dentro do comitê central, há um bureau político, que exatamente engloba esse núcleo duro que é o Lênin, o Stalin, o Trotsky, o Kamenev, o Zinoviev, o Bucharin e penso que o Yezhov também. Não sei, não tenho a certeza, talvez me esteja a enganar com este último. Mas quer dizer, depois esses grupos vão aumentando, o Stalin também está, como o Jaime Gama estava a sublinhar, em outras instituições partidárias importantes e de governo, está também na comissão militar. Ele praticamente é um homem muito assíduo e muito trabalhador na sombra. Além disso, como nós hoje sabemos, e recentemente foi publicado um livro muito interessante sobre isso nos Estados Unidos, ou se foi na Inglaterra, sobre exatamente a biblioteca do Stalin. Era um homem que lia muito, sublinhava os livros, estava atento às coisas. Portanto, ao contrário desse mito, que de certo modo foi espalhado pelo Trotsky, tinha também um lado intelectual forte, que coexistia com uma grande brutalidade de que ele era capaz, como se viu.
Era um homem implacável, mas já voltaremos a isso, até a propósito da forma como ambos se vão relacionar com Lênin no final da vida de Lênin. Uma das questões mais discutidas até hoje é até que ponto Lênin procurou impedir ou condicionar a sua sucessão. Há o famoso testamento de Lênin, muitas vezes ele é usado para dizer que Lênin não quereria que fosse Stalin a suceder-lhe, mas de facto, nesse testamento, ele praticamente desaconselha todos os seus possíveis sucessores, porque ele também dá vários recados a propósito dos defeitos de Trotsky e dos outros líderes mais importantes do Partido Comunista, e dá um bocado a ideia de que ele, no fundo, achava que não ia morrer logo, que ia ficar lá por mais tempo e que ia continuar a influenciar o Partido Comunista por mais anos. Não é assim, Jaime Gama?
Esta escolha do Stalin para secretário-geral é de 22. O Lênin desaparece praticamente em 24 e Stalin só assume o poder absoluto em 29. Porque Stalin, quando é investido em 22, é investido num triunvirato, ele com Zinoviev e Kamenev, alia-se a eles dois para eliminar Trotsky, e depois alia-se a Bucharin para eliminar Zinoviev e Kamenev e inaugurar em 29 um sistema muito mais centralizado e vertical de poder. Há também quem diga que esse testamento político de Lênin, que tem muito a impressão digital da viúva de Lênin, da Krupskaya, que detestava o Stalin, porque o Stalin em alguns momentos não a tinha tratado com a consideração e a deferência que ela achava que devia ser tratada. Portanto, há aí também um certo mistério nessa validação. Mas a verdade é que, entretanto, Stalin vem ganhando apoio, por exemplo, na Cheka, na Polícia Secreta, e vem criando apoios muito importantes no NKVD. Dois dos chefes que são aliados dele, Iagoda e Ezov, que aliás serão depois assassinados, são muito instrumentais para essa consolidação do poder, porque nós temos também que ver que nesta fase da consolidação do comunismo na Rússia, na própria União Soviética, as coisas tiveram imensa traição exterior, porque havia não só os exércitos brancos, havia amotinados, havia as várias tendências do movimento revolucionário, os socialistas revolucionários, os socialistas revolucionários de esquerda, os mencheviques, que eram ainda fortes em certas zonas, anarquistas com muito poder, como um grupo famoso no sul da Ucrânia, tudo isso ainda mexia muito. E a consolidação do poder é feita, por um lado, com o Exército Vermelho, e aí Trotsky tinha um papel determinante, mas, por outro lado, com esse controle dos chamados grupos revolucionários bolcheviques nas várias partes do território e aí também com o controle que era exercido sobre eles, quer por meios políticos a partir do partido, quer também por meios do intelligence e da política de quadros, que era uma política, no fundo, de depurações. E aí é que se inicia o grande instrumento de Stalin, que é o terror, primeiro o pequeno terror e depois o grande terror Que é uma coisa que leva a uma lógica de purgas, à criação do conceito de inimigo do povo. Essas purgas só de comunistas, terão sido assassinados 1 milhão de comunistas nessa disputa de internas, mais vários milhões que terão sido presos, desterrados, despachados pros gulags. E há 40 mil oficiais do exército que foram pura e simplesmente fuzilados. Portanto, há aqui essa lógica da imposição de um sistema já verticalizadíssimo. Stalin vem a ser desafiado em 34 por uma grande vedeta dos comunistas russos, que é Kírov, o benjamim do partido, em quem toda mundo via o modelo do revolucionário autêntico e que também é eliminado, porque há um complô em 34 para destituir Stalin da liderança do Partido Comunista. E ele aproveita esse complô, localiza em Kírov o principal instrumento e agente dessa operação e faz uma contraoperação, que é o início do terror e da depuração, e da limpeza de todo esse espectro de adversários e concorrentes, deixando-o num controle fortíssimo do aparelho do Partido Comunista.
Essa operação de Kírov, aliás, dá origem a uma fase particularmente violenta do terror. E é muito curiosa, porque Kírov tem uma intervenção muito aplaudida num congresso.
Foi mais votado que o Stalin, até, parece.
Mais votado que o Stalin, mais aplaudido que o Stalin. Ele percebe que é uma estrela em ascensão dentro do Partido Comunista e depois há um assassinato. Ele é o chefe do partido em Petrogrado, não sei se na altura já se chamava Leningrado, e é assassinado por um militante que tinha sido expulso do partido e que não se percebe muito bem por que esse assassínio.
Sim, é misterioso.
E isso serve de pretexto para uma daquelas purgas sem fim.
Sim, é o princípio, exatamente.
É o princípio.
A grande purga, exatamente.
A grande purga.
Isto é dezembro de 34, acho eu.
Sim, os grandes julgamentos, julgamento espetáculo, tudo isso. Há aqui algo que às vezes se discute, até que ponto há aqui um lado de despotismo asiático nesta forma de atuar de Lênin.
De Stalin.
De Stalin. Sim, começou com Lênin, porque muitos destes métodos já vêm de Lênin.
Os campos de concentração começaram com Lênin.
Campos de concentração, a Cheka, tudo isso já vem de Lênin.
Sim, de Lênin.
Não foram inventados com Stalin.
É sempre o bonzinho. Isso claro que ficará bastante estranho. Há umas teses que foi o próprio Stalin que mandou. Não há dúvida que na morte do Kírov, por exemplo, ele foi morto no corredor e a segurança dele não estava naquela altura presente. Portanto, há muita tese de que terá sido o próprio Stalin. Depois o assassino foi morto para aí 24 horas depois. Tudo aquilo é um romance. Depois, há uma coisa muito curiosa nesse sistema, é que os próprios chefes da secreta matam e liquidam, mas depois são eles também liquidados, até o Beria. Depois o Beria fica e só é morto depois já de Stalin ter morrido e ter desaparecido. Portanto, há, de fato, ali um sistema. Agora, o que é uma característica curiosa é que quando a gente vê estas grandes carnificinas, de facto, Hitler e Stalin e Mao Tsé-Tung, não há dúvida que Stalin matou, sobretudo, russos e comunistas. É muito curioso. Hitler matou, sobretudo, estrangeiros, judeus e estrangeiros. Mao Tsé-Tung também matou os chineses e comunistas também. Mas Stalin, de facto, caracteriza-se por isso. E há uma coisa muito curiosa, porque já vinha de Lênin, e que eu acho que no fundo é um bocado o paradigma deste modelo de partidos. Lênin tinha uma grande admiração por jacobinos. E essa grande admiração por jacobinos vinha não só da maneira como eles foram eliminando os seus inimigos. Sempre naquela linha de antes da eliminação, há uma espécie de ação de propaganda que retira aos inimigos, sejam eles de classe, de raça, do que for, qualquer simulacro de humanidade. Portanto, quando são executados, quando são torturados, quando são mortos, quando são calados, é quase uma obra de misericórdia que se está a efetuar. Portanto, há sempre essa demonização do inimigo. E Lênin tinha uma grande admiração pelos jacobinos, porque dizia que eles, por um lado, tinham eliminado esses inimigos de classe, que neste caso eram os nobres, eram os padres, eram depois os camponeses da Vendeia. Mas depois tinham eliminado também os girondinos e depois dentro deles, os próprios jacobinos, também se tinham continuado a eliminar. Portanto, no fundo, é o processo
A que nós vamos assistir na União Soviética. Vamos assistir a esse processo de revolução permanente com aquela característica, aliás, muito interessante do Stalin, que à medida que a revolução avança, que a princípio ficaria mais segura, os inimigos estariam mais neutralizados, ele acha que se deve intensificar o terror, porque é quando a burguesia vai resistir mais eficazmente.
Ele, aliás, diz: "Não se pode fazer omeletes sem partir ovos".
Um provérbio.
Nessa tendência asiática que lhe foi caracterizada por Lenine, ao que parece. E Stalin também terá confidenciado com ironia a Churchill que um morto é uma tragédia.
É uma estatística.
Um milhão de mortos é uma estatística, o que é uma frase que corresponde perfeitamente a este estilo de liderança. Ele era muito duro na sua educação, porque os pais eram servos, o pai quis libertar-se de servo, passou a sapateiro como profissão, independente, mas não conseguiu realizar esse desiderato e depois foi empregar-se como operário numa fábrica de sapatos e era alcoólico. E era de uma dureza implacável, designadamente com o filho.
Sim, batia-lhe muito. Stalin levava muita pancada.
Desse confronto e dessa experiência de dureza. Depois, como georgiano, ter-se afirmado na Rússia é também objeto de uma análise que deve ser ponderada. E parece também que ele considerava que essa sua origem de servo o libertava de problemas de consciência em relação ao cumprimento do seu programa político e ao recurso à violência, que ele desde cedo pratica, com esses assaltos e essa ação característica do caos, bandos se confundem com grupos de militantes políticos. Ele transporta muito isso pra dentro de si e da sua experiência. E depois, naturalmente, também na governação econômica, por um lado, contra esses grupos sociais que se opuseram bastante, é o caso dos camponeses que foram forçados a uma coletivização, ou também das nacionalidades, quer as grandes, quer as pequenas, que resistiram ao modelo soviético durante muito tempo. A utilização da violência e da força da coerção bruta é algo que ele assimila, possivelmente, como nenhum dos outros que estavam no comando. E é isso também que o faz vencer essa disputa que ele trava no interior do seu próprio campo político com os ex-camaradas que marcham pro fuzilamento com uma limpeza e uma tranquilidade verdadeiramente gélidas. A própria forma como ele conduz a guerra em 39, 45, no início, que é ele quem mais a trilha, com grandes perdas humanas, totalmente insensível às perdas humanas, e que só mais tarde vem a ser um pouco aplacada pelos militares russos, na valorização das táticas militares centradas também na poupança de pessoal e dos soldados e dos exércitos. Portanto, é uma coisa que também marca a sua personalidade de maneira muito cruel. É estranho é ver como em 2008, também o atual presidente da Rússia disse, numa valorização positiva imensa, que o líder russo com mais sucesso do século XX foi, sem dúvida, Joseph Stalin.
Era isso mesmo que eu queria chamar a atenção. Até que ponto o atual líder russo se inspira nele?
A admiração do setor mais ardentemente patriótico russo que fez esta experiência, valoriza imensamente em Stalin a derrota de Hitler, a industrialização da Rússia, a passagem da Rússia de país atrasado pra país em desenvolvimento e desenvolvido, ter sido Stalin quem levou as fronteiras russas à sua maior expansão em toda a história e também quem criou a Rússia como um poder nuclear no contexto mundial, uma superpotência, co-gerindo o mundo ex aequo com o outro vencedor da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos. Portanto, a valorização destes quatro fatores é algo que não deixa de figurar no imaginário de quem vem recorrer a uma afirmação nacional pra consolidar uma liderança. É óbvio que sim, por isso há Já depois da queda da União Soviética, as canções nascidas na União Soviética. Isso é uma nostalgia que está sempre presente, os gadgets e o cultivo da figura, e até a existência de museus sobre Stalin, porque existem em várias partes da Rússia ainda nichos de valorização da figura, para não falar até da própria terra natal, em que eu tive a oportunidade ao percorrer uma vez Tbilissi de me dizerem: "Olha, ali vão os parentes de Stalin, são ainda primos aqueles que ali vão na rua", apontaram-me para umas pessoas. Portanto, eu à distância fiquei a conhecer também uns primos atuais de Stalin.
Que não eram perseguidos, tinham a sorte de não ser perseguidos.
Sim, às vezes eram, às vezes não. Aliás, o Stalin tem aquela famosa frase com aquele filho que foi feito prisioneiro pelos alemães e que numa altura os alemães propuseram a troca desse filho pelo general von Paulus, que estava a comandar Stalingrad, e o Stalin respondeu: "Não, não se troca um tenente por um general". E o filho depois suicidou-se no campo de concentração onde estava, no campo de prisioneiros.
O culto do Stalin foi imenso, não só na Rússia. Eu lembro-me, na versão popular, o Zé dos Bigodes, era como ele era conhecido mais popularmente. Mas depois o livro do Jorge Amado, "Mundo da Paz", em que se descreve o mundo dorme, mas no Kremlin vela Stalin por todos nós.
E os franceses, o Aragon e essa gente toda.
Não, era o Pai dos Povos.
Pai dos Povos, e aqui também.
Sim, e figuras muito interessantes que até escreviam sobre o tema, como não basta compreender Stalin, é preciso amá-lo. O que também é muito curioso do ponto de vista da fixação nos espíritos absolutos e redentores da humanidade, como foi o Pai dos Povos para essa época.
Bem, nós terminamos mais um "Conversas à Quinta", recordando a ascensão ao poder, enfim, não ainda absoluto, porque ele demoraria quase mais de oito anos, consolidar o seu poder no Partido Comunista da União Soviética de Stalin, mas seria no final de março, princípio de abril, que num congresso em Moscovo, Stalin chegaria à Secretaria-Geral do Partido Comunista da União Soviética com Lênin ainda vivo, mas seria a partir daí que ele começaria a tornar-se o líder incontestado do Partido Comunista e depois da União Soviética. Foi há 100 anos e marcaria de forma indelével o século XX em toda a Europa. Foi mais um "Conversas à Quinta". Estaremos de regresso dentro de uma semana.