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Já está nas bancas a revista Observador Lifestyle deste mês, o número 6, e numa das capas disponíveis está uma banana. Uma banana em cerâmica da dupla Ana + Botânia. A Ana Cruz e a Maria de Botânia juntam-se a nós, são as nossas convidadas, como lhe dizia há pouco. Bem-vindas à vossa estreia na rádio.
Exatamente, obrigada.
Pronto, vai correr muito isso bem, estejam descansadas. Ana, se calhar começávamos por explicar como é que começaram a trabalhar juntas.
Foi por mero acaso.
Mas estudavam juntas e acabaram por se juntar também.
Sim, estudámos juntas na Faculdade de Belas Artes e integrámo-nos num programa de investigação de cerâmica e trabalhávamos as duas no mesmo espaço. E surgiu um convite para uma exposição. Nem eu nem a Botânia tínhamos tempo individualmente para produzir as peças. E foi um bocadinho juntar o-
Juntaram esforços, no fundo.
Duas cabeças e quatro mãos, porque tínhamos um tempo muito limitado e foi aí que começou pelo "Fé per Capita". Aliás, está em exposição agora na Úcla, essa peça. E a partir daí já não nos conseguimos separar.
E também fez sentido? Vocês tinham as mesmas ideias, criativamente era uma coisa muito compatível ou no início...?
Sim, era completamente compatível, porque nós ambas trabalhávamos muito na cerâmica figurativa e na escultura figurativa e o nosso processo de trabalho passava muito por situações metafóricas, surreais, de uma forma, eu se calhar com o projeto Bestiário, com animais, a Ana mais com a figura humana, mas a nossa linguagem era muito parecida, tanto é que nós costumávamos sempre dar "B-titles" uma à outra.
Entendo que é uma linguagem tão particular, como é que se consegue encontrar alguém para trabalhar? Deve ser difícil.
É muito difícil. Então se pensarmos numa forma mais abrangente a nível temporal e a nível local, é realmente mesmo único.
E perceberam isso logo desde o início também nesse trabalho?
Sim, e acabou por crescer também com a nossa própria amizade. Esta parceria artística acabou por crescer ao mesmo tempo que nós nos tornávamos cada vez mais amigas. E hoje em dia estas duas realidades são mundos paralelos e que estão sempre um ao lado do outro.
Eu falei aqui desta banana que faz uma das capas da revista Observador Lifestyle. Lá dentro temos também outras fotografias dos vossos trabalhos. Temos, por exemplo, roupa interior. Temos também os tampões Marshmallow, que também deram muito que falar. Quais são as vossas inspirações? É esta questão metafórica que nos dizia há pouco, Botânia.
Nós temos inspiração nas mais variadas coisas, tanto noutros artistas que nos inspiram, a situações que nós lemos ou que ouvimos, também nos inspiram, mas aquilo que mais nos inspira são mesmo as nossas sensações e o nosso sentir, como mulheres que somos e que fomos desde raparigas e até agora adultas. Estas dores de crescimento que fomos tendo durante os anos da nossa parceria, já levam seis, sete anos. Acho que esse é o ponto comum dos nossos projetos, de todos os nossos projetos.
Foram crescendo juntas também um bocadinho. Mas escolher a cerâmica à partida não é uma coisa fácil, ainda existe muito preconceito, não acham? Em relação a este caminho da cerâmica.
Sim, nós acabamos por remar um bocadinho contra a maré, até porque na faculdade éramos gozadas porque: "Elas vão para ali pintar azulejos".
É quase o parente pobre das Belas Artes.
Sim, exato.
Mas ainda por cima num país como o nosso, que tem uma tradição tão grande nesta área da cerâmica, por exemplo.
Sim, mas nós terminamos o curso em 2007, 2008, e o que estava em voga era a videoarte, a instalação. Era o que estava na moda e era super vanguardista. E a cerâmica, não, a cerâmica era para tontos que não tinham nada a fazer, tinham que ter aqueles créditos e acabou e vão para lá. Mas nós percebemos o potencial da cerâmica e de repente ficámos viciadas em cerâmica.
Até porque essa perspectiva agora está a mudar, não é? Vocês também se mudaram para as Caldas da Rainha, logo aí também, não sei se foi uma opção precisamente por ser um sítio tão rico em cerâmica. E até o rejuvenescimento, por exemplo, da fábrica da Bordalo Pinheiro, tudo isso também deu uma ajuda na perspectiva que hoje temos da cerâmica, que é diferente.
Sim.
Está claramente na moda. Vocês mudaram por quê para as Caldas? Foi uma questão prática?
Foi por uma questão de ser a cidade da cerâmica e seria ou Caldas ou Aveiro, e como nós temos um day job em Lisboa, portanto, Caldas era o mais confortável.
Queria falar também sobre isso, Ana, porque é impossível viver da cerâmica. No vosso caso, isso ainda não é possível?
Não, isso não é possível de momento.
Mas não está sequer nos planos para breve, não é? Porque vocês têm um trabalho, lá está, este não é o vosso único trabalho, trabalham as duas também com saúde mental.
Sim, trabalhamos.
Isso também vos vai inspirando no vosso trabalho ou é quase uma terapia sair da temática e fazer outras coisas?
Nós não damos aulas em saúde mental, não damos ateliers como terapia para nós.
Claro, é uma forma também de reabilitar estas pessoas.
Exatamente, é uma forma de reabilitar. Nós trabalhamos na reabilitação destes doentes. O que é superinteressante é perceber o processo criativo neste gênero de população e o quão aproximado pode ser até do processo criativo ponto de um artista sem doença ou com doença mental. E é muito engraçada essa troca, porque eles bebem de nós, mas nós também bebemos muito deles. Eu pelo menos sinto isso.
É muito difícil nós dizermos que temos uma inspiração direta, mas inevitavelmente que isso acontece, até porque, tanto eu como a Betânia, e isto era um dos pontos que tínhamos em comum, a cerâmica era um meio para atingir algo que já estava pensado, ou seja, estava tudo muito programado. Normalmente partimos sempre de um desenho com cor e a cerâmica tem de obedecer àquele desenho e nunca era o contrário. Era um processo demorado. O material era para atingir aquele fim.
Sim, tinha que corresponder ao nosso pensamento, à nossa ideia. Exatamente.
E a trabalhar com esta população, o pensamento, o ato criativo é muito mais automático, é muito mais genuíno.
Descomprometido.
E esse é o encanto que se calhar nós também bebemos, até porque ao longo do nosso percurso temos mudado também um pouco a forma de fazer.
Mas como é que se gera também esse momento de partilha? Contem-nos um bocadinho. E também para quem nos está a ouvir, como é que funciona? As pessoas ficaram com esta informação, ou seja, temos doentes, pacientes psiquiátricos, doentes com problemas da área da saúde mental, que estão a trabalhar com profissionais desta área. Como é que funciona essa partilha? Como é que tudo isto existe?
Olha, para já, eles não sabem o quão profissionais nós somos. Nós não nos apresentamos propriamente como umas artistas. Para eles, nós somos as monitoras. Há uma relação desta proximidade. Eles não nos veem como aquele artista inalcançável.
Certo. Não há uma distância.
Não há essa distância.
Eles veem-nos como alguém que os vai ajudar no processo técnico.
Exato, que os está a ajudar no processo técnico a desconstruir uma ideia que às vezes pode ser muito difícil, mas a dar-lhes um caminho para atingir uma determinada-
Mas explicam-lhes qual é o objetivo? Mostram-lhes aquilo que será o produto final? Explicam-lhes como é que eles têm de fazer para chegarem? Ou há total liberdade que é dada também a estes pacientes, por exemplo, como é que funciona?
A liberdade a nível criativo, a nível de ideias, a liberdade é total. A única liberdade que não lhes é concedida, é a única liberdade que também não nos é concedida, nem a ninguém que faz cerâmica, que é a parte técnica. Há processos técnicos que são impossíveis de se quebrar. A própria parede de uma estrutura cerâmica não pode ter bolhas de ar, tem que estar uniformemente colada.
É um trabalho muito minucioso.
Tem que estar completamente seca antes de ir ao forno.
Há uma espécie de requisitos mínimos, um patamar mínimo e a partir daí trabalha-se e pode-se criar à vontade.
Exatamente.
E tem sido um trabalho muito proveitoso, imagino que sim. Já estão a trabalhar em mais peças, podem-nos revelar o que já vai na vossa ideia? Não sei, se calhar uma próxima capa de uma revista, não sei.
Está a sair. Nós neste momento estamos com o tema das bananas.
E está muito na moda.
Está muito na moda. Eu queria vos perguntar isso.
Nós juramos, nós não tivemos nada a ver com isso. Não tivemos nada a ver com o que aconteceu em Miami.
Sobre peças de arte que são uma banana que está numa parede.
E que vocês têm aqui, o plágio da obra.
Nós somos muito criativos também por aqui. E portanto alguém colou uma banana numa parede, é verdade.
Já tiveram de lidar com críticas ao vosso trabalho também, por exemplo, alguém dizer-vos: "O vosso trabalho é apenas isto". Já tiveram de lidar algumas vezes com esse tipo de críticas? Como é que lidam?
A nossa maior crítica até agora, e foi um sapo que nós até agora temos entalado, que foi o facto de sermos licenciadas em Belas Artes pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa e estarmos a trabalhar em cerâmica, porque a cerâmica não é uma arte, é uma arte aplicada.
Mas considera-se que não é uma arte nobre?
Não, isto foi o nosso professor de estética. Acho que essa foi-
Lá está o preconceito que falávamos há pouco
...mais do que o preconceito em relação ao teor das peças e às nossas ideias, foi este preconceito em relação à cerâmica em si, que foi tão triste, nós ficamos tão tristes.
E isto foi um episódio engraçado, mas que não tem graça nenhuma. Nós íamos a passar perto da faculdade e o nosso professor de estética estava lá, e nós já não estávamos na faculdade há uns anos. E ele encontrou-nos: "Olá, Maria Betânia, Ana Cruz, como estão? O que é que as traz por cá?" Assim, conversa da ocasião. "E então, o que é que têm feito?" E nós: "Estamos agora a preparar uma exposição". "Mas estão a trabalhar em quê?" "Estamos a trabalhar em escultura de cerâmica." E ele ficou assim a olhar para nós e disse: "Em escultura de cerâmica? Mas cerâmica é lá arte? Isso são artes aplicadas. Umas meninas tão inteligentes estão a trabalhar em cerâmica?" E nós ficamos assim de boca aberta.
E esse é um caminho andado para provarem exatamente o contrário ao longo da vossa vida profissional também.
Sim, acho que sim.
Se calhar uma cópia de uma revista Observador Lifestyle enviada para o professor.
Não, o que ele ia dizer era que isto não era arte, é lifestyle. Era o que ele ia dizer.
Bom, está nas bancas já esta sexta edição da revista Observador Lifestyle. Na capa está essa banana da autoria das nossas convidadas de hoje, da dupla Ana mais Betânia. Fica o convite a visitar também o site para conhecer o trabalho da Maria Betânia e também da Ana Cruz, que se juntaram a nós nesta tarde em direto. Muito obrigada. Vamos continuar a acompanhar o vosso trabalho e boa sorte, que corra tudo bem.
Muito obrigada.
Adeus, até à próxima.
Obrigado.
Um prazer.
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Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada