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E hoje, a iniciar a semana, estamos à conversa com Helena Antónia, a fundadora do projeto Vintage For a Cause, uma marca de moda sustentável que ocupa as avós com jeito pra coisa. A ideia é modificar peças e torná-las mais trendy. Tudo feito em casa para as ocupar também de forma mais criativa, feito em casa durante este período de pandemia. É um gênero de clube de costura à distância. Helena, bem-vinda.
Olá, boa tarde.
Explicamos isto bem?
Explicaram bem, embora haja coisas que valem ser um pouco melhores explicadas.
Vamos a isso. Vamos recuar até 2012, que foi quando este projeto surgiu, não foi assim? Como é que surgiu esta ideia?
Sim, a ideia surgiu nesse ano, no contexto de uma pós-graduação em empreendedorismo e inovação social, embora depois só tenha começado a ser implementada ou testada em 2013. Mas sim, tudo começou nesse momento e num contexto em que fui desafiada a pensar em possíveis modelos de negócio que pudessem resolver problemas sociais. E eu sou filha de costureira e sempre usei roupa transformada. Quando vim para o Porto morar, fui para uma zona muito envelhecida da cidade, que é as Fontainhas. E portanto, acho que nesse momento, se fez um clique que juntou vários ingredientes que depois se tornaram a Vintage For a Cause, claro. Depois de trabalhada a ideia, depois de contactadas pessoas e de fato, de ter tido a sorte de conseguir também ir entusiasmando outras pessoas pelo caminho.
Ou seja, existiam ali senhoras com muito tempo livre, com muito talento e, portanto, foi juntar as duas coisas.
Sim, o que eu percebi é que realmente a maior parte dessas senhoras tinham máquina de costura. Depois de deixarem a vida ativa, passavam os dias muito isoladas e sem fazer rigorosamente nada e realmente tinham imenso potencial. E depois também vi isso no exemplo da minha própria mãe, que depois de deixar de trabalhar de forma mais regular, passou a ficar mais isolada, a ter menos percepção de algumas coisas. Coisas como, por exemplo, a noção dos preços. E isso, claro, tem um impacto muito grande no bem-estar das pessoas e até na sua motivação para continuar a fazer alguma coisa. Há muito talento para aproveitar ainda nessa fase de vida. Muitas das vezes não existem as condições para as pessoas, ao seu próprio ritmo, poderem desenvolver os seus talentos ou aplicá-los de outra forma. Com quantas pessoas é que começaram este projeto? O piloto começou com 10 pessoas e foram todas recrutadas lá nas redes pessoais da equipe do projeto. Cada vez que falava sobre um clube de costura que se destinava a criar peças numa cocriação entre designers e mulheres acima dos 50 anos, fora da vida ativa. Sempre que eu falava nisso, havia um amigo que tinha uma mãe, uma tia, uma vizinha, uma avó que tinha este perfil. Os dados estatísticos mostram cada vez mais a população feminina, à medida que se vai envelhecendo, a ter muito mais peso nas estatísticas e também na faixa de desempregadas. E, portanto, não é difícil pensarmos, independentemente do estrato social ou da zona do país, não é difícil identificarmos uma pessoa com este perfil. E das pessoas que começaram, vão se mantendo ou vão rodando neste projeto? Durante alguns anos, as pessoas que inicialmente participaram no projeto foram se mantendo. O que sucede é que, fruto de um crescimento, de um amadurecimento e de muita tentativa, erro e melhoria dos próprios workshops, nós fomos alterando um pouco o modelo em que eles funcionavam e algumas pessoas foram integrando outros projetos, criando os seus próprios projetos. Posso dar um exemplo de algumas senhoras que preferiam tricô e então decidiram criar o seu próprio clube de tricô. Mas a verdade é que a permanência ou a ligação ao projeto é uma coisa quase permanente. A frequência dos workshops tem uma duração definida. Neste momento, são 12 sessões de costura, duração de três horas cada, com o propósito muito concreto, que é transformar um coordenado próprio, ou seja, a roupa que tenham nos seus armários para exibir numa sessão fotográfica e num desfile. Mas numa segunda fase, aquelas senhoras que têm capacidade de comunicação e têm essa disponibilidade, integram os clubes de costura como monitoras, transmitindo os conhecimentos das técnicas de reaproveitamento e criatividade que foram desenvolvendo a outras senhoras da mesma idade. Portanto, vai-se mantendo uma ligação muito emocional e muitas outras vezes efetiva.
Helena, e há aqui um lado muito sustentável, esse reaproveitamento. Vocês só usam desperdício têxtil também, não é?
Exatamente. Algumas das senhoras que frequentam estes workshops ainda têm capacidade e têm interesse em trabalhar de forma profissional. E estas nós integramos numa rede de costureiras profissionais, da mesma faixa etária, a quem nós entregamos a produção de peças que são feitas reutilizando unicamente desperdício têxtil em fase de pré-consumo, ou seja, os restos de tecidos que sobram do corte industrial, ou então os excedentes de peças de coleções de algumas marcas que não foram vendidos por alguma razão E com a participação e design de vários estilistas e designers, independentemente do estado da sua carreira, criamos peças intemporais que depois são para comercializar.
Certo. E há esse lado, precisamente, que eu não referi no início, havia que esta pontinha para limar, que é essa colaboração com vários designers. Vocês há pouco tempo estiveram, por exemplo, à procura de colaborações, não foi?
Sim, a marca pretende ser, chamamos uma marca chapéu, que em vez de ter um diretor criativo, vai tendo edições limitadas com a participação de diferentes designers. Isto não só para poder ter também diversidade de modelos e de opções para o público em geral, mas também porque o que percebemos muito cedo é que a reutilização de tecidos diferentes, que muitas das vezes não existem em quantidades, não permitem escala, cria uma diversidade que se completa melhor se cada edição limitada tiver um cunho diferenciado. Para além de ser uma oportunidade para alguns designers poderem ter uma incursão no upcycling, e muitas das vezes verem as suas coleções lançadas, porque fomos percebendo à medida que fomos recebendo designers no projeto, que inicialmente eram voluntários e participavam até nestes workshops, que muitos deles tinham um interesse até bastante profundo pela moda sustentável e pelo upcycling, mas isso muitas das vezes cria alguns constrangimentos na gestão da própria marca, tem algum risco, e outras vezes não têm acesso a recursos, como o desperdício, ou até a sítios onde depois ter as peças à venda. Independentemente da motivação, porque temos designers, por exemplo, como a Cátia Mara, que participa desde o início e é uma embaixadora também, muitas das vezes também é fornecedora de desperdício, porque também doa restos de tecidos. Independentemente da motivação, percebemos que há também um interesse crescente por este tipo de experiências que depois podem ser incorporadas na sua própria marca ou até resultar na criação de uma marca para jovens designers.
E Helena, como é que vocês vão financiando isto? Ganharam um prêmio muito importante o ano passado, não foi?
Sim, nós desde o início que fomos tendo o apoio de investidores sociais, primeiro a Fundação EDP e neste momento a Fundação Calouste Gulbenkian, câmaras municipais, e este ano fomos premiados com o primeiro prêmio da Fundação Yves Rocher, o Terre de Femmes.
Exatamente. Eu aproveito para dizer, já agora, só numa nota, Helena, que as inscrições para a edição deste ano, desse prêmio da Fundação Yves Rocher, estão abertas até o final do mês, portanto, para quem nos está a ouvir. Mas no que se traduziu precisamente esse prêmio, por exemplo?
Esse prêmio trouxe imensa visibilidade ao projeto e eu acho que o classificou numa vertente que muitas das vezes tende a não ser tão valorizada, porque o projeto tem tantas valências que às vezes é difícil, ou nós sentimos que não fica enquadrado do ponto de vista ambiental. E este prêmio conseguiu valorizar e posicionar a marca sobre esse prisma. Para além de ser um prêmio de uma instituição que é quase um case study, ela própria, em termos de sustentabilidade, que tem um cariz de empoderamento muito grande. Portanto, foi uma surpresa e traduziu-se em vários benefícios, alguns deles até que depois resultaram em colaborações. Por exemplo, nós tivemos uma colaboração com a Grace Kelly Sá, que foi uma pessoa que nós conhecemos por causa, именно, dos prémios. E há uma ligação muito grande a uma comunidade de outras empreendedoras e portanto, isso acaba por trazer uma rede de suporte muito grande.
E a pandemia trocou-vos aqui também um pouco as voltas, não é? Como a toda a gente. Sentiram, de facto, esses testemunhos das pessoas que faziam parte do vosso projeto e que de repente ficaram em casa, sem se poderem encontrar nos workshops de forma presencial, com esse lado de comunidade e de conversa tão importante também. Como é que se foram reinventando, Helena, durante estes meses?
Sim, nós acertamos em cheio no grupo de risco. E ainda hoje estive a responder a mensagens, a senhoras a perguntar quando é que voltavam os workshops. Nós numa fase inicial, o que tentamos fazer foi criar condições para que elas se mantivessem em contacto e que cumprissem as normas de segurança, ou seja, que se protegessem. E também fomos percebendo que o meio de comunicação que seria mais simples, usar o online ou a adaptação de todo o programa a uma versão digital não ia ser possível, porque a maior parte delas não tem esse interesse ou essa disponibilidade. Por outro lado, fomos falando com as câmaras municipais e as associações com quem trabalhamos, e que são co-promotores destes clubes de costura, e fomos percebendo que a pandemia agravou o isolamento não só destas senhoras, mas também de outras instituições, nomeadamente lares, centros de dia, porque uma boa parte das pessoas idosas ficaram sem receber visitas. E depois de ouvidas estas pessoas e de pensarmos um bocadinho dentro da caixa, decidimos criar uma solução intermédia que permitisse ocupar as tardes destas senhoras, aplicando as técnicas que foram aprendendo nos workshops ou outras que até soubessem. E criamos uma revista da Upcycling, que é no mesmo tom dos workshops, muito a estimular a criatividade, muito a incentivar a arriscarem e a remodelarem o armário, que foi distribuída por estes parceiros que já estavam no terreno e que é acompanhada também com algum suporte audiovisual para quem tiver essa disponibilidade. E uma ajuda telefónica especial que é prestada por tutoras, que são anteriores participantes dos workshops. Também é uma forma de as colocar em contacto e ter uma amiga ou uma futura amiga com quem podem ir falando por telefone. Mas em geral, sim, a pandemia afetou muitas actividades. Muitos dos eventos também de promoção das peças que participamos a nível nacional e internacional ficaram suspensos e é toda uma reinvenção e um desafio diário para podermos acompanhar esta aceleração. E digo aceleração porque apesar da pandemia, não sentimos propriamente que houvesse um abrandamento do contexto e tivemos que ser muito rápidos. E, portanto, como o digital é a única forma, neste momento, de estar a ser contactos, de fazer vendas, tivemos que fazer muitas melhorias e muito rapidamente.
E para quem nos está a ouvir, porque é engraçado, nós estávamos aqui na conversa e eu recebi aqui uma mensagem de um ouvinte que não vou identificar e que dizia: "Eu quero fazer parte". É possível fazer parte da Vintage For a Cause? Como é que se pode fazê-lo, Helena Antónia?
Para participar nos clubes de costura, a participação tem que ser feita por inscrição nos clubes de costura que estão em vigor. E nós estamos, obviamente, a contactar mais câmaras municipais e mais associações, um pouco por todo o país, para ir fundando estes clubes de costura. E por quê? Porque o objetivo não é só facilitar estes workshops como entretenimento, é saber quem são estas pessoas, sinalizá-las, acompanhá-las e ir medindo também o impacto que isto tem na sua vida. Neste momento, nós só estamos a funcionar no Porto, em Guimarães, em Esposende e em Gondomar. Estamos a trabalhar para chegar a outros pontos do país, de norte a sul e mais para interior também. E a inscrição pode ser feita diretamente nas Juntas de Freguesia ou nas Câmaras Municipais e podem sempre enviar uma mensagem ou um e-mail. Isso está nas nossas redes sociais e nós à medida que formos abrindo os clubes de costura, vamos fazendo chegar a informação necessária para fazer parte.
E expandir isto internacionalmente, não sai? Temos uma comunidade muito grande lá fora. Não faz parte dos planos a longo prazo? Ou é pensar muito alto?
Não é pensar muito alto, na medida em que este problema é uniforme a toda a Europa. Agora há as estatísticas que diz que até 2070 a população vai ser muito envelhecida e há uma necessidade de promover o envelhecimento ativo e o projeto tem todos os ingredientes para se replicar de norte a sul e na Europa. Mas tem que ser um passo de cada vez e estamos em Portugal. Já temos presença fora, mais numa vertente comercial e até alguns colaboradores em regime externo, porque o mercado é mais favorável e há um interesse maior por parte dos lojistas fora, nomeadamente no norte da Europa e no Reino Unido, mas um passo de cada vez.
Exatamente, um passinho de cada vez. Se nos está a ouvir, pode sempre saber mais informações também no site vintageforacause.pt. A fundadora, a Helena Antónia, juntou-se a nós para nos contar tudo sobre este projeto. Helena, muito obrigada. Até à próxima. Tudo a correr bem.
Obrigada.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!