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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Junta-se a nós a atriz e apresentadora Daniela Ruah, a partir de Los Angeles. É a nossa convidada de hoje. Olá, Daniela, bem-vinda.

Olá, desde Los Angeles, oito horas de diferença.

É isso mesmo. Obrigada pela disponibilidade, apesar dessa diferença. Daniela, o que é mais difícil: ser mãe de dois miúdos pequenos ou fazer um papel numa série de ação?

Sendo que eu já faço um papel numa série de ação há 10 anos e sou mãe há cinco, acho mais fácil fazer série de televisão.

Portanto, já é um hábito.

Mas ser mãe de duas crianças pequenas também tem muita ação.

Tem muita ação. O meu filho, em particular, tem muita energia e nós tentamos focar essa energia em coisas positivas, desporto, atividades fora de casa. E felizmente meu marido e eu somos duas pessoas muito energéticas, portanto conseguimos acompanhá-lo mais ou menos, mas chega a um ponto em que digo: "Filho, senta-te um bocadinho, toma o livro." Tenho crianças muito energéticas, felizmente, prefiro que sejam assim do que apáticas.

E em relação à série, vocês chegaram há pouquíssimo tempo ao episódio 250.

É verdade. Foi na semana passada, atingimos o episódio 250, que porventura, neste caso, foi escrito pelo meu colega e meu cunhado, Eric Christian Olsen. É o primeiro episódio que ele escreve para nós. Há dois anos que anda a falar de escrever um episódio e finalmente conseguiu fazê-lo e acabou por ser o 250.

Mas isto acabou por superar todas as tuas expectativas? Já nos disse há 10 anos que começou a fazer esta série.

Sim, sem dúvida. No fundo, há muitas coisas que têm a ver com o trabalho da nossa parte, claro, mas por mais trabalho que eu faça ou por mais que me concentre numa personagem, isso não significa que o público vá reagir positivamente à personagem ou à série em geral. Portanto, o fato de termos durado tanto tempo, o fato de termos tido uma temporada, depois duas temporadas, esses detalhes pequeninos que se calhar passam ao lado do público em geral, para nós ganharmos qualquer coisa, termos mais uma temporada, é sempre surpreendente. Nós não damos nada por garantido. Sentimos que temos muita sorte em ter várias temporadas e sempre que há uma temporada nova, sempre que a CBS compra outra temporada, sentimo-nos muito felizes e muito gratos pelas oportunidades que nós temos tido.

É engraçado ir acompanhando a Daniela no Instagram e percebe-se precisamente isso, que vocês vão celebrando cada temporada que vai surgindo. A Daniela mexe muito as armas nesta série. Já se habituou ou é algo que vai estranhando?

Isso é uma pergunta interessante, porque eu não sou particularmente a favor de o público em geral ter armas, apesar de isso ser uma coisa cultural aqui nos Estados Unidos. Estamos um bocadinho na terra dos cowboys. Mas em termos de estar no platô, em termos de personagem, estou mais do que habituada a lidar com as armas. Nós lidamos sempre com as mesmas armas e já estou habituada. No princípio, deram-nos a oportunidade de treinar um bocadinho.

Tiveram treino específico?

Tivemos. Nas primeiras temporadas, tivemos, sem dúvida. Agora já faz parte da natureza da personagem. Quando ponho a arma na mão, já sei muito bem o que tenho que fazer para manter a arma em segurança, para não magoar outra pessoa. Já sabemos a distância que temos que estar uns dos outros. Um tem que estar sempre um bocadinho à frente e o outro um bocadinho atrás, porque no fundo, quando disparamos, mesmo que seja uma bala falsa, há sempre coisas que saltam da arma, portanto, sabemos que saem pelo lado direito e que vão um bocadinho para trás, portanto temos que nos posicionar uns em relação aos outros, de forma a não levar com qualquer coisa na cara. Já aconteceu várias vezes. E aquilo que sai da arma está muito quente.

Daniela, e é verdade que também costuma dispensar duplos para cenas de ação?

Não, não vou dizer dispensar. Acho que o meu marido me matava, porque o meu marido é duplo.

Isso, exatamente. Era isso que ia dizer.

Não dispenso de forma alguma, não. Os duplos têm várias funções: não só fazem as coisas mais perigosas, como é óbvio, como também muitas vezes coreografam a luta, neste caso, uma luta, por exemplo, e depois veem como é que a luta funciona num espaço, se calhar, fazem um vídeo dessa luta e depois mostram a mim, ao realizador e ao outro ator, que é para nós termos uma noção de como é que deve ser feito e em que geografia e onde é que as câmaras se vão posicionar. Portanto, eles no fundo fazem o trabalho de casa para nos depois ensinar o que temos que fazer.

Para facilitar a tarefa do ator.

Para facilitar o próprio dia, porque se tivessem que fazer isso com os atores, eram mais duas horas durante o dia que nós perdíamos quando podíamos estar a gravar outras coisas. Portanto, a função dos duplos é muito mais do que só fazer coisas perigosas. Eles ajudam muito e acho que esta indústria sem eles não seria a mesma. E até eu e vários outros estamos bastante chateados, por exemplo, que não existem prêmios Oscars para os duplos. Não faz sentido nenhum. Temos para o som, temos para a música, temos para a realização, mas no fundo, para os duplos não há.

Estava eu a dizer que até no último filme de Quentin Tarantino, se dá essa importância também aos duplos. No caso, até Brad Pitt, que interpreta o papel de um duplo, é algo muito importante também no cinema. Falava do seu dia a dia, como é o seu dia a dia em Los Angeles?

O meu dia a dia, quer dizer, um dia de trabalho, levanto-me mais ou menos às 5h30, depende de que horas é que eu começo. É sempre um bocadinho diferente, depende se estou na primeira cena, se só entro no meio do dia ou não. Mas se entrar na primeira cena, levanto-me mais ou menos às 5h, 5h30 da manhã, estou no trabalho às 6h30. Maquiagem, cabelo, vou para o platô, ensaiamos, enquanto iluminam a cena, vou me vestir E depois começamos a gravar. Nós gravamos a um ritmo bastante alucinante comparado com outras séries, porque temos muito material para filmar. E além disso, ao fim de 11, neste caso, já vamos no décimo primeiro ano, já conhecemos bem as personagens, já não precisamos de entrar em personagem, nos concentrarmos e tudo mais, porque então, em particular para as cenas de brincadeira e para trás e para frente, já é uma segunda natureza, já entramos muito facilmente no momento. E a mesma coisa com as cenas de ação e tudo. Portanto, o nosso dia até decorre bastante depressa para aquilo que nós temos que fazer. E temos bons realizadores e bons escritores e isto já é uma máquina muito bem oleada.

O trabalho de casa, de decorar texto toma aqui um papel muito importante, não é? Quanto tempo, mais ou menos? Eu imagino que ao fim de 11 anos isto já começa a ser mais fácil, a memória também se vai treinando, não é, Daniela?

A memória treina-se mesmo muito bem, sim. Eu vou ser sincera e não sugiro isto a ninguém, mas eu normalmente aprendo as falas quando estou no cabelo e na maquiagem.

Portanto, aí vai decorando tudo de forma rápida.

Na própria manhã.

Mas é muito em cima da hora.

Se tenho um grande bife para dizer, se eu tiver uma grande explicação para contar, elaborar, aí na noite anterior eu trabalho, mas se eu vir que são poucas coisas, se é mais ação do que propriamente falar, então é no próprio dia.

E Daniela, eu li-

Mas não sugiro isso.

Exatamente, não sugere como método de trabalho. Eu li algures que tinha um sonho de ganhar um Oscar. Esse sonho ainda existe, ainda está vivo?

Aquilo que leste já foi com 16 anos, que eu disse isso.

Foi há muito tempo.

Foi antes de começar a trabalhar.

Há sonhos que perduram.

Há sonhos que perduram, claro, mas os nossos sonhos vão adaptando à nossa maturidade, vão adaptando à nossa vida e, como é óbvio, com 16 anos eu não tinha filhos, não era casada, não tinha uma estabilidade de vida, que é mais importante do que ganhar um prêmio. E além disso, na altura pensei: "Bem, se eu fizer televisão, depois eventualmente salto para o mundo do cinema e isso depois o Oscar, etc." Hoje em dia, o próprio entretenimento está a mudar, está a fluir para outra coisa. Hoje em dia está tudo a entrar dentro das séries. Os maiores atores de cinema estão a fazer séries, quer seja no Netflix ou no Hulu, os vários serviços de streaming que nós temos hoje, fora a própria televisão. Eu acho que o cinema está a ter cada vez menos atenção e aquilo que nós vemos em termos de séries está a ter cada vez mais atenção. Portanto, neste momento, se me disserem: "Ok, esta série de investigação criminal vai acabar e gostávamos que participasses noutra série." Eu aceitava, se fosse uma boa personagem, aceitava com um grandessíssimo sorriso na cara. Portanto, isso de ganhar um Oscar ou ganhar prêmios já me é um bocadinho mais indiferente. Claro que seria positivo e divertido e celebrava o momento, mas poder alimentar a minha família, poder continuar a pagar a escola dos meus filhos, poder dar-lhes a melhor educação possível e com tudo o que eles precisam, para mim é muito mais importante do que ganhar um prêmio. Portanto, as minhas necessidades já mudaram.

Foram muitas mudanças desde os 16 anos e também desde que foi para os Estados Unidos, de forma mais permanente, também muito mudou. A realidade que se vive hoje nos Estados Unidos e aquilo também que nos chega aqui a Portugal é uma realidade que a assusta neste momento?

Está complicado aqui nos Estados Unidos, não haja dúvida nenhuma. Politicamente é muito difícil agradar a toda a gente, nós sabemos isso. Mas se pensarmos num país que tem mais do que 350 milhões de pessoas, isso torna-se ainda mais difícil, porque as pessoas que vivem em zonas rurais têm necessidades muito diferentes das pessoas que vivem em cidades grandes. E nós estávamos num ciclo que pode ter funcionado muito bem para algumas pessoas, mas que não funcionavam para outras. Então, o presidente Trump foi eleito por desespero de algumas pessoas e o sistema político aqui também é diferente. Temos o colégio eleitoral, que não existe em Portugal, ou num meio mais socialista. E eu, pessoalmente, não gosto muito do ambiente em que nós estamos a viver neste momento. Acho que é claro pelas notícias e vê-se perfeitamente mesmo quando nós falamos com pessoas, que o povo está completamente polarizado. Nunca na vida pensei em deixar de respeitar uma pessoa por ter uma opinião política diferente da minha. Eu aceito que as pessoas tenham visões diferentes das coisas, mas quando nós aceitamos uma certa pessoa que apoia a separação de pessoas de culturas diferentes, que não consegue perceber necessidades das pessoas que não são como elas, eu não consigo aceitar isso. Não consigo ser amiga de uma pessoa que desrespeite tanto outra pessoa. Não sei se me faço entender.

Sim, mas sem nos querermos centrar aqui também em personalidades, em individualidades, essa realidade que encontrou por aí, também na política, na sociedade, é uma realidade assim tão distante da nossa realidade portuguesa?

Vou ser completamente sincera, não tenho a certeza. Como não estou em Portugal a tempo inteiro, não só a tempo inteiro, eu estou em Portugal dois meses por ano, mais ou menos, torna-se mais difícil de conseguir perceber ou de sentir na pele a política portuguesa neste momento. Posso ouvir alguns comentários dos meus pais, mas não vos consigo dar uma resposta concreta nem justa, porque não estou aí.

E, portanto, não faz o seu, a sua vivência é por cá, obviamente. Daniela, já lhe vai faltando o pensamento às vezes em português? Como é que se vai matando saudades daquilo que deixou por cá? Como é que tudo isso vai constrangendo?

Nós estamos sempre a olhar para entrevistas anteriores da Daniela e vamos sempre aqui recuperando algumas frases. E olhando aqui para a pergunta da Ana, uma das frases era: "A atitude portuguesa faz-me falta."

É, nós temos um calor humano, nós temos uma meiguice Que é pelo menos o que eu sinto. Não sei se é o fato de como eu comecei a trabalhar publicamente com 16 anos e as pessoas viram-me crescer e têm acompanhado sempre. E agora com as redes sociais ainda conseguem acompanhar mais o meu casamento, os meus filhos. Eu sinto muita meiguice na rua quando passo pelas pessoas, recebo um abraço, recebo um beijinho. Isso é uma coisa que é diferente nos Estados Unidos, mesmo que as pessoas sejam meigas aqui, a meiguice é diferente, não é tão física. Em Portugal, nós tocamos, nós temos as emoções à flor da pele. Aqui é diferente, não é melhor nem pior, é diferente.

E já conseguiu explicar aos norte-americanos o que quer dizer saudade?

Como?

Já conseguiu explicar aos norte-americanos o que é que significa a palavra saudade?

Eu tento. Digo: "Ter saudades é que alguém ou alguma coisa faz falta, mas é de uma forma mais poética, mais bonita, mais profunda, mais intensa, vem mais da alma do que só dizer que qualquer coisa faz falta." Nós temos uma língua muito bonita, muito mais complexa. E é engraçado ver quando eu falo com os meus pais ao telefone, por exemplo, que as pessoas que estão a olhar eu desligo, "ai, que engraçado, o português é tão bonito." E eu: "É bonito? Falei tão depressa?" A maior parte das pessoas acham que eu pareço que estou zangada ao telefone. "Não, não estou nada zangada."

É muito melódica, também leva a achar isso. Daniela, olhando aqui para o futuro, projetos, eu não sei se a apresentação da Eurovisão deixou por aí um bichinho, se apresentar um programa era assim um desejo.

Eu tenho sempre o bichinho de tudo, vou ser sincera. Sempre que vem uma oportunidade bater à porta. Gosto muito de experimentar coisas novas. Não é que a parte da apresentação fosse particularmente nova, porque apresentei o Cinebox, mas obviamente o formato foi bastante diferente. Não era ao vivo, nem estava a trabalhar com outras três apresentadoras maravilhosas, do meu coração. E aprendi muito com esse processo, porque a experiência da Sílvia, da Catarina e da Filomena, são mulheres muito experientes na área da apresentação, em particular ao vivo. Portanto, aprendi muito com elas. Mas eu estou sempre aberta a oportunidades novas. No fundo, em termos daquilo que eu estou a fazer agora, é como se eu vivesse numa escola de cinema, numa escola de televisão, e só quem não aprende, quem não abre os olhos e observa aquilo que está à volta. Portanto, quem sabe, já fiz a parte da apresentação, faço a parte da representação e quem sabe posso vir a saltar para outras coisas que me inspirem. Por exemplo, eu observo o Diogo Morgado, que é um grande amigo meu, que durante as gravações da "Espia" para a RTP1, estava a desenvolver o filme "Irregular", que ele agora está a gravar. Quem o acompanha nas redes sociais, pode ver que ele está a gravar o filme.

Diogo Morgado, que é também hiperativo.

Hiperativo, mas no melhor dos sentidos.

No melhor dos sentidos, obviamente.

Ele tem uma paixão pela vida, tem interesse pelas pessoas, tem interesse pelos assuntos diferentes e ele quer representar isso nos filmes que escreve com o irmão e que produz. E estando ao lado dele durante as gravações da "Espia", fiquei super inspirada para talvez um dia desenvolver os meus próprios projetos, quem sabe. De momento, isso não está a acontecer, mas estando a fazer a mesma série há tanto tempo, já se torna parte do meu dia a dia normal. Portanto, agora preciso de mais, apesar de estar sempre super ocupada, e de ser mãe a tempo inteiro e de ser atriz a tempo inteiro, parece que isso já é tudo o meu normal. Portanto, agora tenho que dar um passo e avançar para outra coisa, sem deixar de fazer essas coisas. Não sei se me faço entender.

Muito bem, esse futuro então passará pela representação, se calhar também por projetos em nome próprio, como a Daniela aqui nos disse. A Daniela Ruah foi a nossa convidada de hoje, da tarde em direto, juntou-se a nós, apesar das oito horas de diferença, a partir de Los Angeles. Daniela, muito obrigada pela disponibilidade e muito sucesso. Até à próxima.

Obrigada. Um beijinho, tchau.

Um beijinho. Obrigada. Rádio Observador. 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Aconteça o que acontecer. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.