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Na tarde em direto, depois da síntese de notícias das 19h30, temos conversas de fim de tarde. Hoje convidamos para as conversas de fim de tarde um cantor, instrumentista e compositor. Nasceu no Rio de Janeiro e a influência da bossa nova, do samba e da MPB, da música popular brasileira, são evidentes na sua carreira e na música que vai produzindo. Pelo Brasil, já viu as suas músicas incluídas nas bandas sonoras de várias novelas e também já colaborou com artistas como Ney Matogrosso, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, também Maria Rita e muitos outros. No trabalho feito por cá, destaca-se o dueto com Jacques Morelenbaum, numa série de três concertos que aconteceram em 2019 em Lisboa, e ainda uma colaboração alargada na produção de um álbum da cantora Joana Amendoeira. 2021 é um ano de novos projetos com um novo álbum. Chama-se "Ultramarino". Fred Martins, bem-vindo às conversas de fim de tarde.
Boa tarde, Hugo. Tudo bem? Muito obrigado pela recepção.
Tudo ótimo. Bem-vindo. Começamos então exatamente pelo "Ultramarino". Fale-nos um pouco acerca deste trabalho. Quando pusermos o Ultramarino a tocar, o que vamos encontrar?
É uma conexão ibérica presente no Brasil, muito forte a presença portuguesa no Brasil, a espinha dorsal da cultura brasileira é portuguesa. Elementos que Portugal deixou ali, pegadas que estão muito vivas ainda na música, na cultura brasileira. Acho que estão presentes nesse disco. E também a base rítmica africana, que faz parte da nossa história e que também é muito presente, a base da música brasileira, como você citou, por exemplo, o samba, a bossa nova. Tem essa rítmica africana muito forte. Eu acho que esse disco tem a marca dessa presença africana, mais intensamente a musicalidade daqui de Portugal e também alguma coisa de Espanha, que eu vivi por ali também alguns anos. Então posso dizer que é um disco mais ibérico, afro-ibérico, comparado a todos que eu já fiz.
A Baía de Guanabara, entre o Rio de Janeiro e Niterói, é uma fonte de inspiração pra ti. Pra quem não conhece este lugar, consegues transportar-nos até lá? Como é a paisagem? O que é que sente? E como é que isso se encontra na tua música?
Sim, quando penso em Niterói, quando vou a Almada, aqui de barco ou pela Ponte 25 de Abril, eu lembro sempre dessa conexão Rio-Niterói. Eu vivia muito em Niterói.
É quase uma viagem até casa.
Exatamente. E essa presença da água, acho que Lisboa também tem isso com o Contágio. Essa relação do rio, ele imprime um outro tempo, outra cor e uma outra atmosfera pra cidade. E o Rio também é uma cidade entre grandes montanhas. Grandes montanhas, o mar e a Baía de Guanabara em dimensões muito grandes. Acho que isso está muito presente na música do Rio de Janeiro e na alma das pessoas, na maneira das pessoas se colocarem, perceberem a vida e conviverem também.
E pra além de brasileiros e portugueses, já percebemos que existe essa ligação íntima também na música, mas na produção deste álbum contaste com músicos de várias nacionalidades. Fala-nos um pouco deles e como é que foi fazer esse trabalho multicultural.
Foi um trabalho não planejado, nasceu do encontro com o produtor Héctor Castillo, que é venezuelano, mas radicado em Nova York desde os 10 anos de idade. Tem uma carreira ali com muitos prêmios, é um profissional incrível. E ele me viu tocando. Gravei e participei de um disco coletivo chamado "Wine Album", produzido pelo Pierre Aderne, idealizado pelo Pierre Aderne, cujo engenheiro de som e produtor também foi o Héctor Castillo. Ali eu o conheci e ele me viu tocar também nos concertos e veio com uma proposta. Ele gostou do trabalho, tudo. E teve esse insight, essa ideia de gravar eu tocando e cantando no estúdio como se fosse concerto. Sem aqueles recursos que se usam normalmente nas gravações, onde você grava cada instrumento separado.
Tudo muito cru.
Por último a voz. Exatamente. Tudo muito cru, muito ao vivo.
Muito orgânico também.
Muito orgânico. Eu acho que o resultado foi muito bom. Trabalhei com músicos daqui, com Luiz Coelho na guitarra portuguesa, com Walter Areia no contrabaixo, com Chris Wells, que é um inglês que ama Portugal e vive aqui em Lisboa também, na percussão, e vários outros músicos também. Mas principalmente o foco desse trabalho é a linguagem voz e guitarra, voz e violão, que a gente chama no Brasil. Que é uma tradição que o Brasil tem muito presente na música popular.
Durante a fase mais crítica da pandemia, o Fred não parou. E pra além da produção do Ultramarino, que já aqui falamos, também faz parte do projeto Rua das Pretas Coliseu, produzido por Pierre Aderne e exibido pela RTP1. Rua das Pretas, pra quem não conhece, é uma espécie de jam session, onde a criatividade é o limite. Fred, gostas deste formato ou preferes aqueles concertos mais direitinhos, entre aspas?
Eu acho que tudo tem o seu lugar, seu momento. Eu acho que desde que haja qualidade e boa música, é sempre bem-vindo. Mas o encontro do Pierre, ele tem feito isso já, se não me engano, há 10 anos. Desde que eu vim para aqui, começa isso na casa e depois começa a fazer em outros espaços também da cidade. Eu acho que a Rua das Pretas do PR já é uma marca de encontros. E desses encontros nascem novos projetos, outros projetos. Eu acho que devemos, por exemplo, esse disco que gravei com a Joana Amendoeira, citado antes, que é o "Na Volta da Maré", também o meu encontro com a Joana Amendoeira se deu ali. Apesar de já conhecê-la como artista, conheci ali pessoalmente, nesses encontros da Rua das Pretas e com um pouco mais de intimidade, ela me convidou, junto com o Tiago Torres da Silva, para compor as canções desse disco dela que acabou de sair.
Ia dizer, já que falaste na Joana Amendoeira, também a Nancy Vieira e o Rolando Semedo fizeram parte do concerto de lançamento deste "Ultramarino". Há planos para mais colaborações e projetos com algum destes artistas?
Sim, acabamos de formar um duo, eu e a Nancy Vieira. Basicamente, ela me convida para participar de um concerto seu, mas é um concerto que acabamos por fazer conjuntamente mesmo, que já era um sonho antigo. O Rolando Semedo, que é um arranjador, um compositor que admiro muito, tenho feito muitas colaborações com ele. Ele gravou também nesse meu disco "Ultramarino". E várias outras, Matilde Cid e outros músicos que eu tenho conhecido e tenho tido a chance de trocar musicalmente aqui em Portugal. Tem sido muito rica essa experiência.
E esse duo com a Nancy Vieira, a nível de estilo musical, quem vos for ver, o que é que pode esperar?
Eu acho que é o encontro mais africano, dos países relacionados com a história de Portugal, da colonização e das migrações. E acho que essa irmandade, quase que uma familiaridade, é muito viva na música de Cabo Verde. Há uma relação forte da música de Cabo Verde com Portugal, obviamente, mas também com a música do Brasil, com a música de Cuba, a música de base africana. Isso fica mais enfático nesse duo com a Nancy.
Ainda estamos neste tempo de incerteza, por assim dizer, mas já há concertos marcados para divulgação deste "Ultramarino"?
Há o concerto no dia 6 em Almada, 6 de junho, que é um domingo, às 19h, no Teatro Osvaldo Azinheira. Primeira vez, por acaso, que me apresento em Almada.
Ok. Já tínhamos falado sobre isso. É quase como voltar a casa, não é?
É, cruzar a ponte, ou cruzar o rio, ou cruzar a baía. Exatamente.
Exatamente.
É isso mesmo.
E quem quiser ouvir este "Ultramarino", como é que pode fazer?
Ele já está disponível nas plataformas, todas essas mais conhecidas. Está muito acessível ali, basta clicar Fred Martins, procurar "Ultramarino".
E o Fred também está nas redes sociais, não é?
Sim, está. Facebook, Instagram, tem um site meu que é o fred-martins.com.
E lá podem acompanhar todo o trabalho e também as datas de concertos que virão aí, não é?
Perfeitamente, exatamente.
Então, hoje estivemos à conversa nas Conversas Sintar com o cantor, instrumentista e compositor Fred Martins. Tem o novo álbum "Ultramarino", já está disponível nas plataformas online. Fred Martins, muito obrigado por se ter juntado a nós nesta sexta-feira.
Muito obrigado.
Até breve.
Muito obrigado, grande abraço. Até breve. Tchau.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.