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Hoje é Dia Mundial do Sorriso e, por isso mesmo, convidamos alguém que tem como missão fazer sorrir, eu diria, o público mais difícil, mas também o mais sincero: são as crianças e, neste caso, crianças que estão hospitalizadas. Estamos à conversa hoje com o diretor artístico da Operação Nariz Vermelho, Fernando Eschrich, e também o enfermeiro António Nabais, o enfermeiro chefe de pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. Bem-vindos e obrigada pela disponibilidade. Boa tarde.

Olá, boa tarde.

Olá, boa tarde. Sejam bem-vindos.

Fernando, começamos por si. A Covid-19 obrigou vocês a sair dos hospitais, mas na verdade vocês nunca baixaram os braços. Como é que foram chegando estes meninos e meninas que precisam de vocês pra continuar a sorrir?

Foi um grande aprendizado pra todos nós, todos os doutores palhaços. Na verdade, respondemos muito rápido a isso quando veio essa informação que não poderíamos estar mais dentro dos hospitais. Reunimos o grupo todo e todos foram pra suas casas com seus telemóveis, com o seu talento, com a sua vontade de encontrar as crianças. E criamos a TV ONV no nosso canal do YouTube, com pequenos episódios de três minutos, onde os palhaços mostravam a sua realidade no isolamento, o seu universo dentro da casa, a falar diretamente com a criança e mostrando o seu repertório, a sua vida na pandemia, sem negar essa realidade, mas também a querer construir uma relação mais próxima, apesar dela ser digital. E hoje já comemoramos mais de quase 300 episódios no ar e com muitos recados das crianças, das equipes dos hospitais. É um projeto que a gente celebra com muita felicidade.

Fernando, e pra quem nos está a ouvir, para perceber exatamente aquilo que é possível ver nesses vídeos, nessas receitas de alegria, através desta forma diferente, que conteúdos é que vocês foram partilhando? Por exemplo, tinham alguém que ia ensinando também a lavar as mãos.

Isso. No começo, a gente estava muito preocupado com essas questões de segurança. E os palhaços então davam dicas de como lavar a mão do jeito deles, no universo deles, que é extracotidiano, o que eles faziam em casa. Geralmente as crianças tinham muita curiosidade de saber como é que esses palhaços viviam, onde eles moravam, o que eles comiam. Então a gente começou, depois de não negar a pandemia, que a gente estava mesmo dentro de casa, a gente começou a mostrar os pequenos universos das casas deles. Então foi se revelando ali como eles dormiam, a cama do palhaço, a comida que ele comia, como eles conversavam com os outros doutores através do Zoom. Essa questão digital ficou muito gritante na vida das pessoas.

Todos nós ficamos especialistas em Zoom, sim.

Isso. E os palhaços também acabaram a usar essa ferramenta, que foi bem importante pra gente nesse momento.

Também houve muitas reuniões de palhaços, portanto, através do Zoom.

Muitas reuniões de palhaços. E olha, organizadíssimas. Eu digo que a gente só tira aprendizado de tudo isso.

E vocês são cerca de 30, não é? Trinta doutores palhaços.

Somos 25 palhaços e palhaças em 17 hospitais aqui em Portugal, e todos com muita vontade de construir essa relação mais próxima com as crianças. É um grande aprendizado.

Já vamos falar da necessidade de manter essa relação, mesmo à distância. Eu gostava de falar também um bocadinho sobre isso, mas vamos chamar aqui à conversa o enfermeiro António Nabais, o enfermeiro chefe de pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. António, falando concretamente da falta que estas pessoas fazem a estas crianças, o que os miúdos vos foram dizendo, foram perguntando por eles, obviamente, também, imagino.

Sim, as crianças sentiram que estava a acontecer algo diferente do que era habitual, porque o hospital o que fez foi fechar as portas. Os hospitais, que sempre foi o templo dos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde, fechamos as portas e dissemos: "Não entra cá mais ninguém". E isto aconteceu também pra família. A família também ficou muito limitada nas visitas. Claro que as crianças sentiram isso, e claro que as crianças foram perguntando o que estava a acontecer e nós fomos clarificando. E em relação aos doutores palhaços, o trabalho que eles fizeram foi um trabalho fantástico e rapidamente foi possível divulgar junto das crianças. E hoje em dia as crianças têm acesso a computadores e telemóveis e começaram a visualizar. Portanto, todo aquele tempo e aquele momento que era importante que a criança tem de relação com os palhaços, 85% destas crianças esquecem-se durante alguns momentos que estão internadas num hospital e ficam muito mais disponíveis pra podermos depois prestar cuidados e elas aderirem ao regime terapêutico. Foi possível, desta forma, substituindo exatamente por estes programas que foram feitos, por estes esquetes que foram feitos.

E, portanto, nós dizíamos no início que as crianças são, se calhar, o público mais difícil, mas também o mais sincero. E Fernando, portanto, pra vocês, pra Operação Nariz Vermelho, é necessário continuar a ter essa relação. Ou seja, a abordagem inicial às vezes pode ser bastante fechada e, portanto, é um trabalho que tem muita continuidade.

Isso. Como eu disse, nós temos esse aprendizado. O palhaço já usa os obstáculos como recursos pra construir alguma relação. Então eu acho que isso foi um grande obstáculo. A gente criou isso, que a gente celebra muito esse canal e esses episódios, mas a alegria que a gente vivencia no hospital através do encontro, é o que a gente busca e é a nossa missão, estar perto da criança dentro do hospital. Então nós estamos agora a construir e a conversar com todos os hospitais as diversas possibilidades que temos agora pra nos aproximar do espaço físico dos hospitais, dos serviços, de tentar encontrar as crianças com máxima segurança. Mas eu acho que a gente deu um passo agora, que foi essa ferramenta digital que a gente descobriu e que eu acho difícil a gente largar e abandonar também, porque a gente tem o alargamento da missão. A gente não fica só nos hospitais, mas sim a gente entra dentro da casa das crianças, a gente pode ir pra outros espaços.

Fernando, e a verdade é que se pra um adulto já é difícil estar sozinho no momento complicado, em que há riscos para a saúde, para as crianças, pode ser ainda mais difícil estar sozinho e sentir-se isolado.

Sim, agora tem um projeto interessante que vamos fazer um piloto, que são as teleconsultas. Hoje em dia as crianças ficam mesmo com o telemóvel nos quartos a ver vídeos no YouTube e nós vamos tentar agora fazer alguns encontros reais através de WhatsApp, onde os palhaços encontram a criança realmente dentro dos seus quartos, através dos telemóveis. E esse é o próximo projeto que a gente vai dar andamento agora.

E enfermeiro António Nabais, qual é a real importância do sorriso, também na recuperação destes meninos e meninas?

O sorriso é central numa criança. Nós, profissionais de saúde, médicos e enfermeiros, somos do mundo da ciência, somos do mundo científico, e o nosso foco, embora tenhamos muita formação de como estabelecer uma relação com a criança, a criança olha pra nós sempre como médicos e enfermeiros. E neste papel, dificilmente somos aceitos logo de uma forma direta ao mundo da infância. O palhaço é do mundo da infância, o palhaço é do mundo das crianças. As crianças acolhem-nos, acima de 90% das crianças e dos próprios familiares também. E inclusive é aqui também aparece os profissionais de saúde, porque os próprios profissionais de saúde também suportam momentos de maior tensão, quer na relação com a criança, quer em termos da equipe multidisciplinar. Os palhaços são mais que uma visita dentro do hospital.

Portanto, os doutores palhaços não criam também esses sorrisos apenas nas crianças, mas também nos adultos, nos profissionais de saúde, que estão ao serviço nas várias unidades.

Exatamente. Quer nos pais, quer também nós, profissionais de saúde. Eu penso que neste momento, os palhaços ficaram fora, os doutores palhaços ficaram fora, porque são visitas, mas eles, na realidade, não são visitas. Eles fazem parte da equipe. E nós sentimos isso. Nós sentimos ao fim de algumas semanas e ao fim de dois meses, já ninguém suportava tanto mundo científico, tanto conhecimento, tanta insegurança, tanto mundo real, e precisávamos de alguém que nos ajudasse a sair um cadinho desta tensão, e os doutores palhaços desempenham esse papel ao longo destes anos muito bem.

E como é que é imaginar um doutor palhaço com uma máscara de proteção?

Os doutores palhaços, realmente, não sei se as pessoas têm bem noção do profissionalismo. Quando eu digo que eles são profissionais de saúde, é que eles entram dentro de um espaço onde são necessárias um monte de técnicas e de conhecimentos de assepsia, e eles sabem respeitá-los. Eles não entram em contato com uma criança, nem entram no espaço. Eles entram dentro de blocos operatórios. Eles têm realmente um conhecimento que eu estou expectante pra perceber como é que a máscara vai emergir, mas ela vai emergir, naturalmente, e com certeza, com a criatividade e imaginação que eles têm, isto vai entrar no mundo do imaginário, porque hoje a máscara faz parte da nossa realidade. A máscara é uma indumentária como é um casaco, uma camisa, e também estou convencido que ela nunca mais vai deixar de ser. Se nós achávamos estranho, por vez, alguns orientais que nos apareciam aí, turistas de máscara. A máscara, neste momento, faz parte da nossa realidade e vai continuar a fazer. Eu acho que eles vão integrá-la bem. Estamos expectantes pra ver como é que a máscara vai surgir no meio desta apresentação.

Fernando, já lhe vou perguntar como é que ela vai aparecer, de fato, e qual é essa preparação para o futuro. Estamos à conversa com o diretor artístico da Operação Nariz Vermelho, Fernando S. Krish, e também com o enfermeiro António Nabais, o enfermeiro chefe de pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia, uma conversa que vamos retomar já a seguir.

Rodrigo, my man. Olha, conta uma-- senhor Batista, desliga lá a máquina, por favor. Obrigado. Como é que é estar aí nessa cadeira de barbeiro vintage, linda, a fazer um corte modernasso enquanto dá uma olhadela à tua app pra ver as contas de todos os teus bancos?

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Hoje é Dia Mundial do Sorriso e na tarde, em direto, estamos à conversa com o diretor artístico da Operação Nariz Vermelho, Fernando S. Krish, e também o enfermeiro António Nabais, enfermeiro-chefe de pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. O António, que nos dizia há pouco que estava muito curioso pra saber como é que os doutores palhaços agora vão começar a usar a máscara, como é que se vão adaptar. Fernando, quer explicar como é que vai ser?

Quero. É engraçado, porque, na verdade, nós já usamos, como artistas, uma máscara para nos apresentar de palhaço no hospital. Que é a máscara do palhaço, que é a menor máscara teatral do mundo. E que revela um olhar, que é um dos sentidos mais importantes quando a gente entra no hospital. É pedir a permissão através do olhar para encontrar essa criança dentro do quarto. E realmente nos hospitais a gente visita algumas áreas que a gente já usa a máscara hospitalar e por cima colocamos a nossa máscara, que é o nariz do palhaço. Hoje, lógico, a gente tem que tomar muito mais cuidado de segurança, mas o principal está resguardado, que é o olhar do palhaço revelado através agora de duas máscaras.

Certo. O António falava também desta questão da entrada em blocos operatórios, por exemplo, de toda a adaptação. Como vocês fazem esta formação para entrar neste meio hospitalar? Como é que tudo isto funciona? Eu imagino, vocês têm que treinar também aqui uma linguagem muito específica.

Olha, realmente os palhaços vêm de várias formações diferentes, mas quando ele decide, faz a escolha de ser um doutor palhaço para trabalhar com as crianças no hospital, ele tem que passar por uma formação, que na Operação Nariz Vermelho é continuada. Regularmente nós nos encontramos para treinar repertório, a gente treina música, a gente treina improviso, a gente faz muitos exercícios de palhaço, que são exercícios bem sensíveis, que trabalham a percepção, porque realmente você tem que se adaptar completamente no hospital, abaixando o volume, escolhendo melhor o seu repertório e tendo uma sutileza da linguagem, que eu falo que é para vivenciar esse encontro de qualidade que a gente acredita que aí a gente vivencia a alegria. Essa permissão da criança, que está em um lugar onde muitas vezes ela está com muito medo, ela não sabe o que vai acontecer, ela está ansiosa, é um lugar muito cheio de regras. Onde ela tem que dizer sim a tudo e chega o palhaço na frente dela, ela fala não, e ela fala: "Opa, o palhaço me obedece". E daí ela vira o centro de tudo. É ela que vai comandar a brincadeira e entrar em contato com o lado saudável dela. É isso que interessa para nós.

É uma forma também de escapar um bocadinho àquele ambiente, mas Fernando, nem sempre corre bem, não é? Como é que vocês vão lidando com esse tipo de situações também, que imagino, são muito duras.

Volto a falar de uma fala do enfermeiro Nabais, que ele fala que nós somos também profissionais do hospital e que o que salva o artista que está ali dentro é realmente ele ter a consciência do que ele foi fazer ali e de que nós também somos profissionais e como os enfermeiros, os médicos, os psicólogos, os terapeutas, todos eles passam por isso também, esses momentos tristes. Lógico que a gente se sensibiliza com isso, mas a gente sempre procura o lado saudável, onde é que tem alguma coisa saudável ali pra gente se apegar e usar todo o nosso treino, todo o nosso repertório em prol da gente vivenciar algo mais alegre, de trazer um bem-estar e ressignificar esse momento da hospitalização da criança.

Mas admito que, por vezes, é difícil encontrar essa pequena luz, esse pequeno brilho, numa criança que está hospitalizada e numa situação mais complicada.

É isso que eu digo, mas nós temos repertório também para tudo. Eu acho que o palhaço que escolhe-

Tem várias ferramentas.

É, e ele não vai procurando o riso, a gargalhada ao primeiro encontro. Isso que eu digo, que o mais importante pra gente é essa permissão e esse encontro. E muitas vezes, apenas é um momento de beleza, uma respiração, um silêncio, um olhar pra gente conseguir conquistar e desenvolver uma relação com essa criança. Que muitas vezes parte, sim, de um momento triste. E essa tristeza, eu acho que a gente vivencia quando a gente sai do hospital e abraça o colega e fala: "Foi um dia duro hoje. Amanhã vai ser melhor".

António Nabais, também se identifica com esta visão que aqui o Fernando também partilhava conosco. Como é que foram estes meses, eu imagino, num cenário bastante mais complicado do que é habitual já.

Sim, o cenário, acima de tudo, foi de grande incerteza e de grande sentimento de insegurança, ao princípio, por não conhecermos o impacto que este vírus iria ter, em particular, nas crianças. E dentro do nosso hospital, houve um grande investimento e um grande trabalho em equipe, em que toda a dinâmica do hospital foi alterada, os circuitos foram alterados, os serviços foram alterados. Foi realmente tudo alterado e houve um envolvimento. Todas as pessoas estavam presentes e houve um trabalho de equipe que permitiu com que tudo corresse realmente da melhor forma. Neste momento, estamos a adaptar-nos a esta nova realidade, porque aquele período de maior insegurança inicial permitiu alterar todos os circuitos. Depois, começamos, a partir daí, a criar um momento em que há um novo normal, há uma nova forma de estar. E é neste contexto e nesta forma de estar, que agora os doutores palhaços irão surgir de novo e irão aparecer com mais conhecimento a nível da assepsia que têm que ter, do acesso aos espaços. Porque, como estava a dizer há pouco, os doutores palhaços quando chegam, antes de entrarem numa enfermaria e antes de se dirigirem junto às crianças, eles reúnem sempre Os enfermeiros e sabem sempre o que se passa com a criança, o que se passa com a família. Há sempre um contexto que é muito respeitado e até onde a família também está disponível, porque também é ouvida previamente. Há crianças, são pontuais, mas há crianças que muitas vezes têm medo de palhaço e que não querem receber os palhaços. São situações muito pontuais e essas crianças são sempre protegidas. E muitas vezes a dessensibilização, também para esse receio, vai surgindo depois no contato com as outras crianças, porque as outras acabam por imitar os palhaços, por falar sobre os palhaços, por trazer os palhaços para a conversa com os profissionais de saúde e a partir daqui, assunto e tema e possibilidade de alterar esta representação que temos.

Fernando, para quando esse regresso, há aqui alguma perspectiva?

Temos, sim. Estamos conspirando a favor de que seja agora já em outubro, começarmos com as paradas, que são números coletivos musicais que pensamos em fazer na parte externa dos hospitais. Temos as teleconsultas em alguns dos hospitais onde nos permitem que tenhamos um Wi-Fi, uma internet que funcione. E também o trabalho à medida, que são apenas hospitais que liberam um serviço para essa dupla de palhaço entrar com a máxima segurança. Estamos a construir isso agora. Eu acho que em novembro estaremos já com alguma história para contar.

Que boa notícia! Vocês que estão sempre a precisar também de apoio para quem nos está a ouvir neste momento, quer ajudar a Operação Nariz Vermelho, como é que eu posso fazer, Fernando? Aproveite.

Olha, a primeira coisa é entrar no nosso site, no site da Operação Nariz Vermelho. E também nós temos a campanha do IRS, que eu acho que é um modo das pessoas apoiarem o programa.

É sempre possível doar esses 0,5% do IRS.

Isso. E eu acho que também agora, falando da TV ONV, assistindo, subscrevendo no nosso canal, dando joinha, compartilhando no Instagram, no YouTube, comentando pra gente também ter resposta do que a gente está fazendo, se está chegando às casas, às crianças, e compartilhar o máximo possível esse trabalho digital que estamos a construir agora.

Para chegar a mais meninos e meninas. O Fernando Esrich é o diretor artístico da Operação Nariz Vermelho. Conosco esteve também o enfermeiro António Nabais, é o enfermeiro-chefe de pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. O site narizvermelho.pt. Fernando, António, muito obrigada. Até à próxima e continuação de bom trabalho.

Obrigado. Boa noite.

Obrigado aos dois, um abraço.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre compartilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!