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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana já foi a mais de 100 países, 116 para ser mais correto, e a alguns de forma repetida, como a Índia, onde já esteve oito vezes, tal é a paixão por este país de mil cores, sabores e odores. O nosso viajante já pisou as regiões polares, já esteve em todos os continentes, viaja há 60 anos e tem uma enorme paixão pela fotografia. Tem muitas fotografias em muitos álbuns dos lugares por onde tem andado, a ver paisagens, pessoas e modos de vida. José Alvarez, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Muito obrigado.

O último sítio onde esteve foi a Papua Nova Guiné. Não fugiu perseguido por uma tribo de canibais, pois não?

Não, mas constatei que, de facto, o país é muito remoto, muito primitivo, em que as estradas são poucas, a comunicação é muito complicada, as cidades são perigosas.

Perigosas por?

Porque descobriu-se na Papua Nova Guiné petróleo, ouro, metais preciosos, mas aqueles metais raros. Portanto, há muitas companhias em exploração. Digamos que o país, apesar de ser independente, ter o seu presidente, continua a ser tribal. Há mais de mil tribos. Esse tribalismo não ajuda, porque o conceito de país, de nação é escasso. É mais o conceito de tribo que vigora.

Tribo e território, não é?

Claro, a tribo está sempre associada a um chão. Portanto, quando essas companhias exploram, muitas vezes existem problemas com elas. As tribos começam a gladiar-se e a resposta do país face a essa presença, às vezes indesejada dessas companhias, não é suficiente para terminar com esse problema.

Há muitas tensões. Assim, é pacífico viajar na Papua Nova Guiné ou não?

Aconselho de cruzeiro, porque assim pernoita no cruzeiro e depois vai a terra. Se a companhia for boa, organiza-se umas sortidas com muito interesse.

Muito bem. O meu amigo andou por lá de mochila às costas a fazer picadas?

Não. Eu nunca andei de mochila às costas.

Não é esse tipo de viajante. Nada disso. Mas máquina fotográfica ao pescoço sempre, não é?

Sempre.

Também enorme paixão pela fotografia, José.

Sim.

Quando é que surgiu essa paixão?

Surgiu muito cedo. O meu pai, quando eu andava na universidade para terceiro ano, ofereceu-me uma teleobjetiva e uma máquina Nikon. A partir daí fiquei eufórico, comecei a fazer muita fotografia e depois a fotografia pouco a pouco associou-se às viagens. Eu a primeira viagem que fiz, tinha 13, 14 anos, fui até uma viagem de trabalho do meu pai. Fomos a Bilbao, quando Bilbao era uma cidade muito feia, muito preta, porque era o carvão. O meu pai foi lá a propósito para comprar carvão. Agora que eu conheço Bilbao, com o Museu Guggenheim, tudo aquilo que está uma cidade espantosa, faz bem a diferença. Fiz essa viagem e depois o meu pai foi também muito aventuroso, porque nos anos 60, com o carro, partíamos nós quatro, eu, a minha irmã e os meus pais, e fazia viagens muito longas, preparadas de uma forma um bocado curiosa, porque na altura praticamente agências de viagem em Lisboa, a mais famosa era a Marques & Garten, que era uma companhia de origem-

E viajava-se pouco naquela altura, não é?

Viajava-se muito pouco, não havia autoestradas. E para saber o que se tinha que ver, tínhamos que escrever para as embaixadas. As embaixadas mandavam folhetos, não só dos sítios a visitar, como também dos hotéis.

Eu estou a rir, não é de gozo, é do insólito da situação. Porque hoje em dia nós fazemos isso tudo com o aparelho que temos no bolso, o telemóvel.

Claro, mas era assim. E depois o meu pai escrevia para vários hotéis uma carta e nós íamos escolher o hotel dependente da resposta. Se a resposta era bem feita e nos dava alguma confiança, era aquilo que nós marcávamos e pagávamos.

Enfiaram-vos muito os barretes ou não?

Não, havia uma certa triagem.

Portanto, em miúdo começou a viajar por Espanha ou foi além dos Pirinéus?

O meu pai foi à Sicília. Eu lembro-me de termos ido a Castelvetrano, que é mesmo no centro da Sicília e que considera-se o ponto mais quente da Europa. Sempre a conduzir. Às vezes havia problemas porque havia mau tempo, as estradas não estavam boas. Eu lembro-me de uma tempestade terrível em Itália que desabou a estrada marginal. Ficamos ali parados uma data de tempo. Havia assim umas aventuras meias estapafúrdias. Mas o que é certo é que a gente fez várias viagens assim pela Europa e ficou o bichinho cá dentro.

E o José sempre com a sua Nikon.

Eu sempre a fotografar.

E a sua teleobjetiva.

Sim, mas repare, essas fotografias eu não as tenho já comigo.

Ah, então?

Porque a qualidade face às de agora é tão diferente que a gente não consegue olhar para elas, só como uma fotografia de recordação do antigo, porque elas Elas já não são quase que admissíveis no tempo que correm, em que se chegou a uma perfeição muito grande.

É verdade, mas são testemunho da sua cultura imagética de altura.

São álbuns antigos.

Muito bem. Portanto, associando as viagens à fotografia, meu amigo foi explorando o mundo, não é?

Sim. Não o mundo. Eu tinha quatro filhos.

Sim.

E ao princípio não havia dinheiro, portanto, a gente fazia campismo com um atrelado.

Sim.

Depois conseguimos largar o atrelado e eu adaptei uma carrinha Urvan, tinha um teto móvel e desenhei lá uns esquemas pra gente arrumar as coisas e dormiam lá seis pessoas. Fui com isso até ao Cabo Norte, fui com isso até Marrocos. Cheguei a ir às areias do deserto com essa carrinha, que foi uma loucura, ainda hoje fico maluco. Como é que eu pude fazer uma coisa dessas? Porque só tinha tração a duas rodas.

E imagino que seja uma carrinha pesada, não é?

Aquelas, é, ainda circulam aí. Eu tinha receio de ir ao deserto e depois os meus filhos começaram a apertar comigo, os rapazes, até que encontrei numa tenda pra um indivíduo que era camaleiro. Isto é, a profissão dele era levar camelos dali a Tombuctu, de Marrocos a Tombuctu. E eu achei que era uma oportunidade. Estava lá com o sobrinho, o sobrinho é que falava francês. E eu perguntei-lhe se nos queria levar, ou melhor, se a carrinha era possível de ir lá, era o sobrinho que iria conosco, ele disse que sim, com certeza. "Só tem tração às duas." "Não há problema, há ali umas passagens mais difíceis, mas a gente consegue." "Então e quanto é que isto custa?" E ele disse um preço. Eu fiquei a olhar pra aquilo e disse assim: "Bom, isto o melhor é dizer-lhe assim: olhe, eu pago-lhe esse preço, mas se vier toda a família, dobro-lhe." E foi assim que eu fiz.

Ok.

E de fato aquilo correu relativamente bem, só que à saída do deserto fomos interceptados por uma polícia marroquina que nos abordou e verificou que o guia não tinha o crachá de guia. E aquilo começou a correr mal, queriam levar o rapaz preso. E então eu lá intervi com o meu francês e disse: "É pá, este jovem está a fazer aqui pelo vosso país uma coisa magnífica, trouxe-nos aqui, por que vocês agora o vão prender?" Lá convenci a polícia. Essas histórias, mas...

Muito bem. Já foi oito vezes à Índia.

Sim.

O que o atrai neste país continente?

Bom, eu quero dizer que a Índia, por exemplo, a China também é muito grande, mas a Índia não teve um Mao, o Mao Tsé-Tung. Que o Mao Tsé-Tung foi um homem que mandou destruir muito espólio que existia no seu maoismo, com as suas teorias. Na Índia, isso nunca sucedeu.

Ok.

E propriamente a Índia nunca foi alvo de uma guerra grande, portanto, mantém essa parte toda muito forte.

Há um mundo antigo ainda presente na Índia.

Com a presença do estilo mongol, que é fantástico, você tem isso no Uzbequistão e no Paquistão, mas também tem na Índia. E, por outro lado, tem a parte étnica, que é impressionante, a parte religiosa, que é admirável.

Quando diz impressionante é porque é variada, é isso?

Variada. Desde os sadhus, os homens santos, que curiosamente quando decidem ir pra sua fé, fazem uma festa em que rasgam o bilhete de identidade e desaparecem da sociedade para se refugiarem nas grutas e nos rios, e passam a ser pessoas que não estão contabilizadas, digamos. E eu tive a oportunidade de ir ao Kumbh Mela.

Ah, aquele festival.

Que é um festival fantástico. Foi em 2014, se não estou em erro. Aquele festival, eu depois li mais tarde, foram 270 milhões de pessoas em mês e meio que estiveram no festival. Eu acampei num grupo francês, desgraçado da minha mulher.

Também foi?

Também foi, que sofre com estas coisas. E depois no dia em que era o dia santo pra fazer o banho na confluência do Yuma, o Yuruma e o Ganges, que é o sítio que é sagrado, nós saímos de noite fechada e de madrugada estávamos num ashram. O ashram é um sítio onde se reza e que é chefiado por um guru, que é normalmente um homem santo.

Um homem santo, sim.

E esse guru convidou o grupo pra ir ao banho, digamos, pra ir naquela corrida até ao banho. Bom, aquilo foi absolutamente impressionante. Eu fiz um filme disso e tenho fotografias, e tive muita sorte de não ir ao banho, porque a certa altura a multidão empurrava-me de tal maneira, que eu disse: "Bom, vou de certeza também pro banho."

E não foi.

Mas no último momento, vi que havia pessoas a sair, fiz um esforço, virei-me ao contrário e voltei. E graças a Deus não fui ao banho.

Muito bem. Mas do ponto de vista humano é impressionante, não é?

É impressionante. Bom, eu depois não consegui ver os Os nagas, que são os gurus de Varanasi que tomarem o banho, que vão com os tridentes à frente e varrem aquele pessoal todo, eles é que querem ser os primeiros. Havia muito fotógrafo, muita televisão, os flanes com os tripés no ar, eu não consegui fazer essa fotografia, fiquei um bocado desconsolado. Afirmei: "Aqui não faço nada." Mas a certa altura, estava num sítio e começaram a juntar-se esses nagas completamente nus, que iam se vestir. O vestir para eles era voltar a pôr a cinza em cima da pele, que eles tinham guardado nuns saquinhos de plástico. E então começaram a besuntar. E houve um indivíduo que pegou num pau e fez a dança do pau, que também havia aqui em Portugal dantes. E tudo aquilo foi assombroso para mim. Foi uma experiência fantástica.

Consegue perceber todo aquele misticismo em torno daquele festival e daquele evento ou não?

Sim, consegue-se. Repare, as pessoas vão normalmente para esses ashrams, que lhes dão comida colectiva e que normalmente são de Shiva, porque é Shiva que é a padroeira dessa festa.

Sim.

Vão para lá e estão sempre também a tocar, que é para a deusa não adormecer. Portanto, aquilo lá dia e noite há sempre música. Tocam trompas para chamar os fiéis. Aquilo é, de facto, absolutamente extraordinário. Só visto.

Só visto. Foi a experiência mais intensa que teve até hoje?

Foi das mais intensas. Eu na Índia tive outra também muito interessante, que foi a Feira de Gado de Pushkar, que é a maior feira de gado do mundo, com camelos, mas também com cavalos e outros animais, mas o forte são os camelos, os mearis, como os marroquinos chamam. Fazem corridas de camelos. E a certa altura eu consegui afastar-me. Eu normalmente nessas coisas ia só com um guia e, portanto, com a ajuda do guia afastar-nos e entrarmos numa zona em que só estavam os rebanhos com os pastores sentados, com aqueles turbantes enormes, a tomarem o chá com leite, que é uma refeição muito importante para eles ao cair do sol.

Ao cair do sol.

Ao cair do sol. E tenho fotografias muito interessantes desses momentos.

Muito bem, fantástico. Vamos continuar a falar das suas viagens, José Alvarez, mas para já abrimos o álbum de viagem. José, guarda em casa ou tem consigo algum objecto que seja especial e que tenha trazido das suas viagens? Trouxe mesmo, porque o traz aqui dentro do saco plástico. O saco de papel.

Este objecto.

Oi, vamos lá ver. O que é que é? O que é que vai sair daí de dentro do saco?

Uma coisa muito simples.

Ah!

Ora bem, isto que tem aqui é-

Posso segurar?

Pode, faz favor.

Então, isto é?

Isso que tem aí, a base é de osso de baleia, o punho é osso de baleia e esse ferro afiadíssimo, era com isso que os inuit do Alasca e também do Canadá rapavam a pele da foca para isolar do resto do corpo e ter aquilo o mais limpo possível.

Portanto, tenho na mão uma espécie de uma espátula, digamos assim, grosseiramente.

É isso mesmo, é uma espátula.

Com um cabo de osso de baleia e uma base onde ele encaixa para ficar em pé, também de osso de baleia. Comprou, deram-lhe?

Não, comprei isso.

E viu a ser utilizado um objecto destes ao vivo?

Não. Aliás, por baixo tem o artista que o fez. Isso foi comprado no museu, em Iqaluit, que é a cidade mais ao norte do Canadá, que é a capital da província maior do Canadá e que também é uma cidade absolutamente estranhíssima, porque está isolada do mundo durante dois a três meses e as canalizações ali não são subterrâneas, por causa do permafrost. São exteriores e são envolvidas por outro tubo de água quente, porque senão ficava tudo partido. Congelava e partia.

E partia.

E também era curioso, cada casa tinha um depósito de gasóleo que tinha duas luzes, porque ninguém pode sobreviver se não for aquecido. Não pode parar um segundo. Portanto, há um carro camerário que vai passando pelas ruas e que vai assinalando as que estão com luz vermelha para serem imediatamente abastecidas.

De gasóleo?

De gasóleo.

Uau!

Para que nunca haja problemas interiores na casa.

Muito bem. O amigo já esteve em todo lado e tem mil histórias e experiências para partilhar. Vamos ouvir algumas delas na segunda parte das conversas do Fim do Mundo. Esta semana com o viajante José Alvarez. Ele já esteve em 116 países. Pequena pausa, regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com o viajante José Alvarez. Ele já esteve em 116 países. José, qual é o seu objectivo? Ir a todos os países do mundo? Tem essa ambição?

Nunca tive essa ambição. E até não me interessava nada ir a todos os países do mundo.

Não? Há países que rejeita já assim eliminadamente?

Completamente.

Diga-me lá um. Diga um.

Há países na África que se a gente for lá é só pra ver a corrupção logo na fronteira.

Caramba.

Em que o polícia começa logo a pedir dinheiro. Eu passei por isso nas Honduras.

Não é África. Honduras é América do Centro.

Do centro. Mas fui lá ver uma joia preciosa maia, que é o Templo de Copán. E logo na entrada o guia avisou: "É melhor porem uma notazinha a ver-se fora do passaporte, que é tudo mais fácil." E as pessoas que nos atenderam não estavam fardadas, estavam à civil. Não se percebia quem é que era da fronteira e não era.

Disse que foi pra ver uma joia. Foi de propósito às Honduras para ver uma joia? Que luxo!

Fui, e julgo que nem sequer dormi lá. Fui lá e depois estava junto à fronteira. Não sei, já não me recordo. Mas se fiquei lá, foi só uma noite.

Muito bem. Conseguiu ver a joia?

Consegui e é muito interessante.

Valeu a viagem e a notinha?

Vale. Esses valem. Sim, vale. Eu preparo sempre todas as viagens.

Prepara sempre?

Muito em pormenor, porque se tira muito mais partido e vê-se coisas muito mais interessantes.

É vício profissional de engenheiro ou não? Planear tudo bem planearinho.

Gosto muito de planear.

Boa. Então quer dizer que passa muitas horas a ler sobre os países?

Antes da viagem eu já começo a ficar dentro do que é o país e depois a partir daí é que planeio o itinerário. É sempre assim.

Qual foi a viagem mais desafiante de planear, do ponto de vista do planeamento, José?

Mais desafiante do planeamento? Olhe, esta última foi muito complicada.

A da Papua Nova Guiné.

Fiz 16 voos, porque além disso fui às Fiji e fui à Austrália.

Ok.

E fui à Tasmânia. E já não sou propriamente um jovem, portanto 16 voos é de ficar com a língua de fora.

Caramba!

Mas cá estava. As Fiji, eu gostava muito de ir às Fiji porque eu sou um grande amante de rugby. Joguei rugby e gosto muito de rugby. E gosto muito dos fijianos porque são muito alegres no campo, são tipos bem dispostos, muito giros de se ver a jogar.

E essa alegria de viver nota-se lá também?

Encontrei-a lá, exactamente em oposição aos aborígenes da Austrália. E ainda outra coisa: a maioria dos machos, falo assim porque é os homens, têm mais de 100 quilos. É vulgar ver lá indivíduos com mais de 100 quilos, 120, 140.

Nas ilhas Fiji?

Nas ilhas Fiji. Eles são um milhão, estão neste momento, julgo que em décimo no ranking mundial. No fundo, é uma espécie de uma Nova Zelândia, mas com menos gente, porque Nova Zelândia tem quatro milhões. Estes têm um milhão. Mas de facto têm uma estrutura morfológica que é excepcional para jogar rugby, porque têm uma força e uma velocidade enorme.

Grandalhões, não é?

Isso constatei.

Não se ponham à frente de um fijiano.

Não, mas são simpáticos. O aborígine.

Sim, aborígine australiano.

Australiano não consegue integrar-se na Austrália ainda hoje. Repare que eles chegaram lá há 100 anos, eram cerca de um milhão, hoje são 60 mil, portanto já pode ver o que foi. Bem sei que aqui também houve muita doença, muita morte por doença, etc. Mas até nos recomendaram para não discutir os preços porque eles não gostam.

Não gostam por quê?

Não gostam. Tem o seu fundo, não gostam. Eles agora beneficiaram de entregas de terras, ou melhor, os australianos acabaram por reconhecer que a terra era deles e, portanto, há zonas que não se pode ir, porque estão lá eles. No caso daquela montanha que é o Ayre Rocks, o Uluru, o helicóptero, por exemplo, já não consegue sobrevoar o rochedo, fica a uma certa distância, porque eles consideram o rochedo sagrado e portanto ninguém tem o direito de ir lá. E os australianos respeitam isso. E depois também o facies do aborígine. Eu já tinha visto este género de pessoas na Indonésia. Eles tomam muito o betel, que é uma semente de uma palmeira. A semente é vermelha e ficam com os dentes enegrecidos dessa semente. Aliás, isso é um problema hoje em dia, porque mais tarde esse vício de mascar é um vício que lhes tira a fome, portanto eles gostam disso, também dizem que é afrodisíaco. Enfim, há várias razões porque eles mastigam, mascam aquilo.

Aquela semente, sim.

E ficam com os lábios vermelhos, faz lembrar imagens do Drácula. Sobretudo na Indonésia, então isso ainda é mais notório. Nas Flores, as mulheres todas têm fotografias com elas todas com os lábios vermelhos. E ali também, ainda por cima, têm um facies muito particular. Não são pessoas que gostam de conversar.

O que lhes dá assim um ar, em português, carrancudo.

Carrancudo, são.

Muito bem. Falou das caras, nota-se que repara nisso Aliás, tem um gosto enorme pela fotografia. Tem muitos álbuns, tenho-los aqui ao seu lado. Onde é que gostou mais de fotografar pessoas, José? Dos 116 países por onde já andou.

É na Índia.

Na Índia.

É onde é mais fácil. Na América do Sul, como sabe, são cristãos e não gostam. O Peru não gosta, é difícil aí fotografar. E o sítio mais complicado de fotografar foi na Etiópia. Eu não posso às vezes pedir licença, porque se pedir licença, eles ficam em pose e eu não quero isso para nada. Eu quero apanhá-los num movimento normal. Portanto, tento fazer isso. Também havia uma zona na Etiópia muito agressiva, que é a zona do Ogaden, foi a zona onde houve a guerra entre a Etiópia e a Somália. Há uma cidade que chama-se Harar, que é uma cidade muito interessante, muito conhecida dos franceses, porque têm lá um poeta que foi para lá, eu acho que é o Édouard Rimbault, que tem lá uma casa espetacular. Eles são mesmo agressivos. As pessoas disseram: "Não fotografem." Por que essa agressividade? É que também há uma percentagem da população que está drogada. As pessoas não sabem, mas há uma droga, que é o khat, que é produzido em Awaday, que é uma povoação a 100 km de Harar, e essa droga causa também um estado de euforismo e uma pouco de loucura, ficam no chão. Quando chegámos, entrou logo um indivíduo a berrar dentro do autocarro, que ia preveniu.

É o cartão de visita.

Depois, ao fim do dia, premiaram-nos com uma aparição de hienas, no meio da cidade, uma série de hienas e vários miúdos a darem de comer às hienas, traziam carne e convidavam-nos também para participar naquilo.

Ok, mas hienas contra elas põem-lhes-

Não. Hienas. Aquilo está cheio de hienas, aquela zona há hienas à noite.

Sim, mas traziam as hienas como se fossem animais domésticos.

A gente sentou-se lá todos juntos e começámos a ver as hienas. Era noite, começámos a ver os olhinhos das hienas e apareceram quatro ou cinco hienas. Depois deu-se esse show das hienas a comerem carne.

É assustador.

E depois passámos pelo mercado da droga, que cheirava. Ele pediu para nós não abrirmos bem as janelas, mas deixar só um bocadinho aberto e era um odor verdadeiramente notável.

Este khat, não é?

Este khat. Depois fomos para Dirdara ou Dardi, já não me lembro, que é uma cidade onde dormi, mas aí apercebi-me que o guia, que era somali, estava um bocado enervado. E eu tinha boa relação com ele. Quando eu lá cheguei, havia também um guia francês e eu dei a esse somali informações sobre a presença portuguesa na Etiópia, que ajudámos o imperador da Etiópia, o irmão do Vasco da Gama foi lá morto e torturado para ajudar a rainha da Etiópia. Portanto, ele ficou com uma relação muito simpática comigo. E eu vi-o muito enervado e entretanto comecei a ver várias paragens pela polícia na estrada e associei as duas coisas e chamei-o. Já não me lembro o nome dele, o que é que se passa. Ele disse: "Estou aborrecido, sabe? É que há aqui uns sinais que não são muito bons." "Mas o que é que se passa?" "Não se passa nada, mas temos de ter muito cuidado." Foi muito evasivo. Cheguei ao hotel, fui para o quarto. No hotel não vistoriaram praticamente nada a camionete e pensei cá para comigo: "O melhor é pôr aqui um guarda-fato à porta, não vai entrar aí uma Al-Qaeda por aqui." Mas no dia seguinte, quando eu fui para o primeiro almoço, estavam os franceses todos excitados, porque estavam com o jornal e tinham morto 28 pessoas num ataque a uma esquadra a 28 quilómetros de onde nós estávamos.

Portanto, ali ao lado.

Portanto, ele devia saber qualquer coisa e estava preocupado.

Pois, podia haver um ataque contra vocês.

Esses são locais mesmo perigosos.

Muito bem. Portanto, já andou por imensos sítios. Cento e dezasseis países é muita fruta, como se costuma dizer. Qual foi o país mais bonito que viu até hoje? Não vai dizer que é a Índia.

Não.

Quer dizer, pode dizer.

Digamos que concorrem vários países para eu poder responder. Um deles é a Islândia. Em termos paisagísticos, é um país a não perder. Aliás, agora podem aproveitar que têm as auroras boreais ainda, nesta altura. O norte da Noruega, as Lofoten, por exemplo, é das zonas mais bonitas do mundo para mim. E também as Ilhas Faroé, que pouca gente liga e que é uma paisagem absolutamente deslumbrante, vida barata e um sítio que é muito interessante de se visitar. As Ilhas Faroé. O povo não é muito brilhante.

São frios, não é?

São frios. Aquela luta sempre por se separarem da Dinamarca pesa-lhes um pouco na consciência, porque a certa altura estavam quase e depois não conseguiram. E aquilo é um clima tão Tão mau que, por exemplo, eles organizam campeonatos de costura entre as mulheres. Anda tudo a fazer costura, quem faz melhor. Está a ver a ideia? Aquilo é mesmo mau.

Mas isso também é giro, não é?

Um bocado.

Assistiu a algum concurso de tricô?

Contaram.

Contaram. Muito bem, fantástico. Muitos países, muitas viagens. José Alvarez, o que é que procura nas viagens?

Vamos lá ver. A viagem faz parte do meu habitat. Ou seja, eu tenho necessidade. Por exemplo, eu e Itália, normalmente não consigo estar dois, três anos sem ir a Itália. E a Itália, também lhe digo, se quisesse viver no estrangeiro, era a Itália que escolhia. A Toscana ou uma zona dessas.

Percebo perfeitamente.

Adoro a Itália, adoro os italianos, adoro ópera. Quando perdi um ano na faculdade, pedi ao meu pai, estudei durante dois anos italiano. E o pouco que sei, quando chego à Itália, faço um festaço, porque eles ficam completamente deslumbrados de eu não lhes falar em inglês e falar a língua deles. Nunca tive problemas em Itália.

Ok.

E Itália tem paisagens deslumbrantes. E tem agora a nova cúpula da Itália, que se chama Matera, que é uma cidade no sul de Itália que foi recuperada, é absolutamente imperdível. Portanto, Itália é um dos países. Não sei se estou a fugir à sua pergunta.

Não, está a responder bem.

A pergunta era sobre países mais bonitos, não é?

Sim.

Depois também tenho o oeste do Canadá, a British Columbia, completamente deslumbrante, por exemplo.

Com florestas de árvores absolutamente magníficas, não é?

Fantástico. Também vi lá os ursos. Eu fiz lá uma viagem muito especial, porque eu conheci ao longo desses anos de viagem um casal americano com quem fizemos amizade. E depois, de vez em quando, eles convidavam-nos para ir ter com eles. E fomos então a uma viagem na British Columbia, num navio que era um antigo rebocador adaptado a turismo, eram só quatro pessoas. Caro, aquilo era caro. E também só descobrimos aquilo porque tínhamos amigos americanos, senão a gente não conseguia nunca descobrir aquilo. E fomos ver os ursos. Eu julgava que só havia ursos pretos, os ursos brancos e os castanhos. E lá há uns ursos, nessa zona da British Columbia, que chamam-se Esprit, ursos Esprit, que são ursos brancos, mas que foi resultante de uma mutação do castanho para o branco, portanto, é um branco amarelado.

Ok.

E explicaram-me que aquilo foi uma forma de aqueles ursos poderem pescar com mais êxito os salmões. Salmões?

Boa pergunta. Salmão.

Salmão. O salmão. Porque o branco não se reflete tanto na água, portanto, o salmão não se apercebe tão bem que está ali um vulto.

A natureza adapta-se. E viu ao vivo, então?

Vi. Isso vi. Fantástico.

É salmões.

É salmões. Bem me parece.

Mas viu ao vivo, então?

Vi.

É um animal muito grande, possante?

Não, o urso branco é uma coisa. Eu quando vi um urso branco-

Viu?

Não, eu vi noutra viagem.

Ok. Lá não, mas já viu ao vivo.

Já vi. Já estive parado num zodiac porque o urso estava lá e connosco iam vários guias armados de carabinas e disseram logo: "Não, não desembarcamos enquanto o urso estiver lá nas suas deambulações." E ver um urso branco é uma coisa, eu acho que nunca tive essa noção como há de nenhum outro animal. Talvez com o rinoceronte branco, que também estive mesmo ao pé dele, a gente olha para ele e diz: "Cuidado, isto parece uma coisa do tempo dos dinossauros."

Não é para brincadeiras. Não é o cão que corre atrás do carteiro, isto é outra história.

Exatamente.

Isto é outro campeonato.

Mas estes ursos brancos são impressionantes.

Fantástico, espetacular. José, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer checkout? Vamos embora. Então vou pedir-lhe para completar as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre: o que é que vai sempre?

Uma máquina fotográfica.

Uma máquina fotográfica.

Agora não é, agora é um telemóvel. Faço tudo com o telemóvel.

Ai é?

É, os Pro.

E o telemóvel substitui a...?

Os últimos telemóveis já dão uma lente de 120 milímetros, portanto, estou à vontade. Têm uma qualidade já satisfatória e é muito prático.

Ok, muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Isso foi na China. Na China porque fomos à China depois de um inverno terrível, de gelo e de chuva, e, portanto, nunca sabíamos se conseguíamos chegar ao sítio porque a estrada estava toda enlameada, o carro só derrapava e aquilo foi uma viagem para esquecer. Foi mesmo complicado.

Foi a mais perigosa?

Não, mais perigosa não, mais difícil.

E a mais perigosa, qual foi?

Foi talvez esta da Etiópia. E também foi uma vez que fomos a Caxemira, num período muito mau de Caxemira, que a minha mulher tinha já desistido, que: "Não vou, desculpa, vais tu, eu não vou." E, por acaso, tínhamos um senhor que nos vendeu umas coisas à minha mulher numa loja, que nos oferecia chá E eu entrei com cara de casa e ele notou. "O senhor hoje vem muito triste." "Imagine que a minha mulher, por seguir a viagem, não quer ir a Caxemira." "Não vai a Caxemira? Eu tenho lá um irmão, por que razão não vai? É o sítio mais bonito que há na Índia." O senhor sabe porque é que não vai, todos os jornais que a gente apanha com mortes.

Claro, é uma zona de conflito entre a Índia e o Paquistão.

Exatamente. "Eu vou tratar disso. Tenho um irmão lá em Caxemira e vou falar para ele." Falou lá numa língua que a gente não sabia. E rapidamente ele disse: "Não, a senhora pode ir a Caxemira porque tem tanta sorte que vem o Ramadão e o cessar-fogo vai ser anulado. Portanto, a senhora vai, já sabe é que a certa altura regressa ao hotel, mas pode andar de dia cá fora." Pronto, mas as aventuras não terminaram, porque depois a gente foi, no avião só havia tropa, quando cheguei lá não vi o guia. Éramos os dois únicos ocidentais naquele dia, só no dia seguinte é que se juntavam 32 sul-coreanos. Nós fomos os dois únicos ocidentais naquele dia em Caxemira.

Grandes aventureiros.

E Caxemira é deslumbrante, já só para terminar.

Muito bem.

Vale a viagem e vale toda essa aventura.

Okej, vale o perigo. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?

Mais difícil não, mais chato foi agora com o Vietname, porque se enganaram no meu número. Não puseram a morada de nascimento igual à do passaporte e não me deixaram seguir voo.

Caramba!

Tive que fazer um visto urgente. O visto cá custou-me 30 € e o visto custou-me 320 € essa história.

Caramba, porque as moradas não casavam.

Não casavam. A culpa deles.

A culpa deles. A recordação de viagem mais cara, qual foi, José?

Foi esta última, foi a viagem mais cara.

A da Papua Nova Guiné. É muito caro viajar para o outro lado do mundo, não é?

E o cruzeiro era caro. Era um cruzeiro de uma boa companhia, era caro. Os cruzeiros são caros, é uma pena. E quando envelhecemos, a única salvação é recorrermos aos cruzeiros.

A refeição mais estranha, qual foi?

Isso tive muitas. Na Índia, comer com as mãos em cima de folhas foi vulgar, que eu normalmente queria comer com os motoristas.

Por quê?

A comida não é má. E aquilo até é higiénico, trazem umas folhas muito limpas, colocam a comida lá dentro e depois os azeites, os temperos vêm à parte e depois toca de comer com as mãos. Eu tive um bocado de dificuldade, a minha mulher também, mas depois o guia ajudava e mostrava como era.

Há toda uma técnica.

Já conseguíamos.

Muito bem. E é bom?

Eu gosto da comida indiana. Eu sou de boa boca.

Boa. E comer com as mãos é estranho no início, não é?

É, mas digamos que é mais sensível. A pessoa não está com o objeto de permeio.

É verdade.

Toca logo a comida.

Gostava de viajar com?

Como sempre fiz, com família. Nunca viajei sozinho.

Ok.

Fiz sempre ou com os meus pais e irmã, depois com os meus filhos e agora com a minha mulher e também viajei muito com os amigos para a neve, que foi outra descoberta fantástica.

Gosta de viajar na neve?

Maravilha. Foi das coisas mais importantes da minha vida. Aprendi aos 44 anos.

Boa.

Mas adorei. A neve, fantástico.

E é praticante dessa modalidade nada portuguesa chamada esqui?

Não, não sou praticante. Nesses tempos, as férias passaram a ser partidas em duas e havia uma parte que era para a neve.

Boa, muito bem. E também conhece uma boa parte do mundo à conta-

Da neve, sim. Nunca fazia na mesma estação.

Boa, muito bem. José, havia muito mais para contar, muito mais sítios para partilhar com os nossos ouvintes deste fantástico mundo, que também é trágico. Há muitos lugares trágicos.

A Índia tem o seu tragédia.

É verdade. Enfim, fica para uma outra oportunidade.

Foi um gosto conhecê-lo.

Música, o que é que trouxe? É em português, não é?

É, os pássaros.

Pássaros do Sul, não é?

É, da Mafalda.

Da Mafalda Veiga. Muito bem.

Ouvíamos muito isso quando ia com os meus filhos.

Então, vai ouvir certamente mais vezes. José, foi um gosto. Muito obrigado. Continua a viajar, continua a fazer fotografias. Agora vamos abrir aí os álbuns que trouxe.

Sim, muito obrigado.

Oxa lá consiga partilhar com muita gente, porque tem ali boas fotografias. Uma vez mais, muito obrigado.

Eu é que agradeço.

Mafalda Veiga a fechar as conversas do fim do mundo desta semana. Já sabem, estamos de regresso dois a oito dias. Boas viagens e sejam bons. Até lá. Um anjo da alvorada oscila a minha mágoa. O céu a desgarrada irrompe azul na água. E a passarada acorda-me sonhar que um campo diz. E entrega-se no sul do frio que a noite fez. É tempo da partida e a cor no horizonte. A densa despedida e o borbotar da fonte. As asas abrem chagas na poeira, o sol acalma. No agitar inquieto que me refresca a alma. Pássaros do sul, bando de asas soltas. Trazem melodias pra cantar as moças. Em noites de romaria. Pássaros do sul, bando de asas soltas. Trazem melodias pra cantar as moças. Em noites de romaria. Em noites de romaria.