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Sejam bem-vindos. Estamos de regresso e esta semana, nas Conversas do Fim do Mundo, recuperamos uma viagem de oito meses, 13 países, três continentes e quatro rodas. Uma viagem feita por dois amigos de bicicleta de Lisboa até ao Tajiquistão. Quase 13 mil quilómetros e 50 furos. Um dos dois amigos está aqui conosco. Bem-vindo, Alexandre Paris.

Obrigado pelo convite.

Ora essa. Alexandre, esta viagem já tem uns anos. Lembras-te de onde furaste pela primeira vez a tua bicicleta ou já não?

Por acaso não me lembro, mas deve ter sido em Espanha, porque nós saímos de Portugal, foi Portugal-Espanha, e à partida o primeiro furo há de ter sido ali para Espanha.

Uma comitiva de boas-vindas ibérica. Foi logo no segundo dia? Entraram em Espanha logo no segundo dia da viagem?

Não, foi aí no terceiro ou quarto.

Ah, levaram tempo.

Sim, porque a viagem era para se ir fazendo. O Tiago tinha menos experiência do que eu. Acabamos por levar sempre mais coisas do que o que precisamos e, portanto, há sempre um acomodar do peso/capacidade das pernas em levar as coisas.

Portanto, os primeiros dias foi para largar peso?

Foi um bocado.

Roupa a mais, comida a mais, utensílios a mais, foi?

É, há sempre algumas coisas que levamos a mais. Por mais vezes que eu tenha revisto a lista com o Tiago, ele acabou sempre por levar. Depois arranjou um patrocínio da Herbalife, então levava coisas de comida para não sei quantos dias e eu: "Esquece, não vais andar a acartar peso." Então andou ali a gastar muita coisa nos primeiros dias, que era para depois estar mais leve.

Muito bem, fez uma dieta forçada, mais ou menos. Olha, em que contexto é que aparece esta viagem? Já tem uns aninhos, foi em 2009.

2009, 2010.

Bela empreitada. Oito meses, 13 países, três continentes.

Sim, mais ou menos isto foi numa sequência de várias viagens que eu fui fazendo. Este gosto pela viagem de bicicleta, no fundo, parte de um conceito de ir viajando em autonomia, em que vamos com tudo conosco e em que temos de ser minimalistas e levar o mínimo de coisas possíveis. E esse conceito ganha nos escoteiros, a fazer acampamentos e caminhadas. E depois passei isso para a bicicleta e portanto mais ou menos comecei a fazer viagens de bicicleta nas minhas férias de verão, que era quando tinha mais tempo entre estudos universitários.

Aqui em Portugal?

Em Portugal. Primeiro fui até ao Algarve. Geralmente ia sempre de carro com os meus pais e via sempre ingleses e franceses a fazê-lo de bicicleta. E eu pensava: "Isto deve ser giro."

Isto é para mim.

Isto eu gostava de fazer neste conceito. A primeira viagem que eu fiz isso, em que eu consegui chegar ao Algarve, em que eu tinha aquela escala de ir com os meus pais em-

A primeira vez que foste ao Algarve, quantos dias demoraste?

Quatro, cinco dias.

Epa!

Quatro, cinco dias, uma média de 60, 70 km por dia.

Hoje farias mais.

Mais ou menos.

Não, mais, claro que mais. Mais quilómetros por dia.

Eu já fiz num dia. Tudo. Com alforjes.

Ah, com alforjes.

Com alforjes, pneus finos, e foi numa altura que fiz com uma ex-namorada, que nunca tinha feito e fez a primeira vez quatro dias para lá, e depois, na altura, não estava a trabalhar e andava sempre a contar os trocos e pensei: "Não vou pagar este bilhete de autocarro." E então fiz num dia, um bocadinho como desafio físico, e fiz. Foi assim uma aventura.

Prova superada, muito bem. Portanto, já viajavas de bicicleta por aí.

Sim. Estava a dizer, fiz essa primeira até ao Algarve, depois fiz com uns amigos a volta a Portugal, em que fizemos literalmente o perímetro. Depois fiz com um núcleo de ambiente da universidade que ia fazer uma volta ecológica de bicicleta de Lisboa a Coimbra e depois na Alemanha. Depois conhecemos núcleos ambientais da Europa que fazem estes circuitos para promover a bicicleta como meio não poluente e também para fazer acampamentos sustentáveis e pela luta climática.

Portanto, havia ali um processo a nascer e a desenvolver-se, não é?

Sim.

E aparece então esta viagem. Aliás, já tinha aparecido outra, porque já tinhas feito Lisboa-Roménia, não é?

Exato, que foi na sequência dessa tal volta ecológica. Houve um ano, um amigo meu que tinha feito esse tour e que tinha gostado imenso, e no ano seguinte, esse tour, o acampamento chama-se Ecotopia, e depois o site chama-se Bike Tour Ecotopia, que é um bike tour que vai promover e vai terminar no acampamento durante uma semana.

E um Lisboa-Roménia, isso é coisa para quanto tempo?

Foram quatro meses.

Uau! Nas férias de verão?

Exatamente.

Belas férias.

Portanto, o percurso era dois meses, um.

Não deixaste as cadeiras penduradas. Despachaste tudo para te ires embora.

Mais ou menos. Esse acampamento nesse ano era na Moldávia, Bósnia, Croácia, fazia aquela zona dos países de leste e eu decidi ir com esse amigo meu, fomos de bicicleta até lá sozinhos os dois e depois juntámo-nos na Croácia com o tour, que depois ia percorrendo os países a terminar na Moldávia. Eu acabei por terminar na Roménia. Conheci lá um romeno que trabalhava em Portugal e que ficou surpreendido de ver alguém português no país dele, porque ele dizia: "Eu todos os dias falo com portugueses e convido-os a vir ao meu país e ninguém quer vir."

E agora apareces-me aqui tu de bicicleta.

De repente, aparece alguém de bicicleta para visitar o meu país, ofereceu-se logo para me dar boleia de volta e eu aproveitei a boleia.

Ah, boa!

E vim com ele depois, com ele e com a família, à boleia da Roménia para Lisboa. E às vezes são estas coisas que nos criam aqui ligações e um contacto com as culturas. De outro modo não temos oportunidade.

É verdade. Estamos aqui fechados na nossa vida.

Exato.

A ver o mundo pela televisão. Agora já ninguém vê pela televisão, agora é pelo computador.

Agora é pela internet, pelo YouTube.

Isso. Muito bem. Então já tinhas experiência e aí vais tu até ao Tajiquistão para esta viagem de oito meses, 13 países, três continentes e quatro rodas com o tal teu amigo. Portanto, tu já tinhas experiência como viajante. Em que contexto então é que aparece esta viagem planeada já para ser feita durante muitos meses, oito meses, por 13 países e três continentes?

Como é que isto surgiu? Isto surgiu que quando eu fiz a tal viagem da Roménia, coincidiu com eu ter terminado o curso.

Curso universitário?

Curso universitário.

Licenciaste-te em quê?

Engenharia mecânica.

Mecânica, só podia ser.

Não propriamente, mas ajuda.

Tiveste muitos problemas mecânicos daqui até ao Tajiquistão?

Alguns. Tive um elaborado.

Elabora.

Elaboro. Foi nos Himalaias, na fronteira com o Afeganistão, em que se partiu o desviador traseiro e fiquei sem mudanças. Portanto, aquilo mais ou menos chegávamos a estar um dia a subir, 30 km de nível 10, 15%, e entretanto fico sem mudanças. E fico sem desviador traseiro, que é o que faz tensão na corrente.

É o que mete as mudanças, não é?

É o que mete as mudanças. Não conseguia ter mudanças.

Ficaste onde? Ficaste na mais leve ou na mais pesada?

Eu tive que pôr numa leve, que era para conseguir subir. Quando era a descer não havia problema, depois quando era plano punha uma corda no Tiago e íamos revezando um a puxar pelo outro só para não irmos demasiado devagar. E depois vejo um sujeito numa bicicleta com desviador traseiro, em que não tinha manetes das mudanças e ele não precisa do desviador traseiro. Então dei-lhe $1, o homem ficou todo contente, eu saco da ferramenta. Ele não falava, eu só lhe apontei para $1 e para o desviador. Ele não percebeu o que era, eu começo a desmontar a bicicleta, ele com as mãos na cabeça, eu volto a montar tudo e ele dá duas voltas, aquilo anda maravilha. Ficou todo contente.

Foi-se embora mais leve e com $1 na carteira.

E com $1 na carteira e eu a seguir ponho o desviador na trás, já tinha as três mudanças da frente, mas eu nem me arrisquei a usar aquele desviador, que aquilo era mau demais. Mas pelo menos fiquei com três mudanças, já conseguia ter alguma-

Gerir ali o esforço

...gerir as leves e as pesadas.

Muito bem, que grande aventura incrível.

E então estava a dizer que tinha terminado o curso e fui fazer a viagem da Roménia, que foi toda na Europa. E quando eu comecei a chegar à Roménia, Moldávia, que eu comecei a sentir um certo choque cultural, mas também já estava a chegar ao final da minha viagem, mas fiquei sempre com o bichinho de-

Choque cultural, porque a partir dali-

A partir da Bósnia, Sérvia, as coisas começam a ser diferentes

Entras no chamado mundo eslavo, não é?

É, quem começa a ver aqueles filmes do Kusturica, começa a perceber um bocadinho aquela dinâmica, tipo, são Europa, mas uma Europa diferente. Da Europa alemã e nórdica. E então eu senti que aquilo realmente estava a começar ali um bocadinho a acontecer a aventura. Só para teres uma ideia, roubaram a bicicleta, chamámos a polícia na Roménia. Entretanto, eles recuperaram a bicicleta porque pela descrição, houve alguém que ainda viu o gatuno e pela descrição do dente de ouro e não sei o quê, só pode ser o Tim Chinelo. Foram à casa, ele ainda nem tinha despachado a bicicleta, tinha a bicicleta à porta da entrada. Entretanto, recuperam a bicicleta, eu faço a participação, identifico tudo e a seguir cruzo-me exatamente com o gatuno no meio da rua, ele empilha os braços, tipo: "Isto é a vida aqui, isto tem que ser." E eu: "Eu nem acredito." Ele ainda me convidou para ir beber um copo e eu dispenso. Dispenso com o gatuno, não.

Isso é incrível.

É incrível. E nessa viagem eu senti, ficou ali o bichinho. Eu a próxima tenho que fazer uma viagem fora da Europa.

E apontaste para onde?

Quando eu regressei, comecei a trabalhar, estive a trabalhar, estive sempre à espera ali de uma pessoa para fazer a viagem. Entretanto, não se proporcionou e eu cheguei ali a uma altura: "Não, eu vou fazer a viagem sozinho." Não arranjava ninguém, porque toda a gente dizia: "A coisa é tão interessante", mas depois ninguém queria uma coisa deste estilo.

Inicialmente, tinhas previsto ser uma viagem de vários meses?

Sim.

Grande, portanto, tinhas que arranjar alguém que parasse a sua vida profissional.

Sim, exatamente. Eu ainda pedi uma licença sem vencimento no trabalho onde eu estava. Eles disseram que não podiam garantir quando eu viesse que tinha trabalho, então despedi-me, mas a bem.

A causa é justa.

A causa era justa para mim. Era uma coisa que eu queria fazer antes de contrair empréstimos, ter filhos, não sei o quê. Na altura, tinha uma namorada, que é a minha atual esposa e mãe dos meus filhos, dos nossos filhos.

Tens dois, não é?

Tenho dois, sim, sete e nove anos. Ainda convidei, porque ela também gostava de viajar, mas ela não é assim muito física e para ela esta rutura, perder o trabalho. E ela sempre gostou de viajar, mais de ir para um sítio e estar lá uns meses e criar laços. Eu não, eu sempre gostei mais de ir vendo e partindo e vendo e partindo.

Mas inicialmente a ideia era ir até ao Oriente ou não?

Sim, portanto, a minha ideia foi logo ir para o Norte África, ou seja, no fundo era fazer o Norte África e Ásia, porque já tinha feito a Europa. Entretanto, não conseguia o visto para a Argélia e então pensei: "Ok, então vou entrar pela Tunísia e faço Líbia e zona do Egito." A minha ideia era fazer ali aquela zona. Depois, quando a viagem começou, acabei por ir até Marselha, apanhei o barco para a Tunísia, mas depois não consegui entrar na Líbia e portanto, em termos de África, fiz só a Tunísia e depois voltei para a Europa e depois entrei na Ásia.

Pronto, fizeste um bocadinho do continente africano.

É, fiz um bocadinho do continente africano.

Conta como continente.

É assim, conta como continente, mas eu tive logo ali um choque Um choque. Quando eu entrei, fiz um projecto artístico, entre aspas, que era: cortei o cabelo todo no primeiro dia e a barba, e depois ia crescendo, todos os dias tirava uma fotografia e depois fiz um vídeo em que se via a barba e o cabelo a crescer.

Eu vi.

E quando cheguei

É incrível a transformação, não é?

É verdade.

Agora quando olhas para trás

É engraçado.

Qualquer pessoa.

É, porque no início todos

Vemos um Alexandre limpinho

Muito limpinho e depois muito vivido. Mas que até dava jeito

Um barbudo

Porque ali na fronteira com o Afeganistão há muito aquela e portanto até passava.

Quantos dias foram? Foram 251, não é?

É.

Portanto, durante 251 dias tu não cortaste nem o cabelo nem a barba.

Não, porque na Tunísia, a tal história, tive de cortar a barba.

Conta.

Quando eu apanhei o ferry para a Tunísia, nós comprámos só o bilhete de ida do ferry, porque a nossa ideia, e já tinha feito uns contactos com uma empresa da Líbia

Era seguir viagem.

Que nos ia garantir o visto de entrada na Líbia. E portanto, quando eu entrei, ainda não tinha o visto da Líbia e quando chego à fronteira, eles: "Ok, você só tem bilhete de vinda para a Tunísia, mas não tem bilhete de volta. Portanto, você tem que ter o bilhete de volta". E eu expliquei: "Não, porque eu vou para a Líbia". "Então tem que ter o visto da Líbia".

Ok.

"Mas eu não tenho o visto da Líbia porque eu vou tratar na embaixada da Líbia". "Então não entra no país porque precisa ter ou o bilhete de volta, ou o visto da Líbia". E eu: "Mas eu quando entrar vou tratar do visto". "Não, então você tem que comprar o bilhete de volta". Só que o bilhete de ida e volta era tipo 200 € e o bilhete de ida era 180. E eu não ia pagar 200 € por uma coisa que à partida não ia usar.

Exato.

Eu se na altura, se soubesse e fosse mais perspicaz, tinha dito que sim, depois não comprava o bilhete e passava a fronteira e estava o assunto arrumado. Só que na altura era um anjinho, ainda era a primeira vez que estava com estes problemas dos vistos e então fiz finca pé, chamei o superior, eles depois a páginas tantas já disseram: "Eu é que sou o superior". E entretanto, ainda para ajudar a história, os meus pais tinham-me ido visitar e estavam na fronteira do lado de fora da Tunísia.

Ai!

Entretanto, o tempo vai passando, a gente a ver toda a gente a entrar, nós ali no vão. E entretanto lá vem o polícia: "Bem, então podem entrar no barco". E nós: "Entrar no barco? Mas nós não vamos entrar no barco, nós vamos entrar na Tunísia". "Não, vocês não vão entrar na Tunísia, vão entrar no barco". E então meteram-nos no barco de volta para Itália. E estamos a falar de um ferry que atravessa o Mediterrâneo inteiro, aquilo demora para umas 15 ou 16 horas.

Exato.

E portanto, de repente, somos deportados sem visto de entrada nem de saída e somos expulsos. Entretanto, eu aviso os meus pais, os meus pais tinham uma semana de férias lá só para nos ver ali na fronteira. Eles nunca tinham saído quase da Europa. Eu entretanto a falar com a minha mulher a explicar o sucedido e entretanto chegamos a Itália, a polícia vê aquilo, que estranho, voltamos a comprar então o bilhete de ida e volta, o meu pai faz a reserva no hotel para bater tudo certinho, voltamos a entrar no barco com os mesmos polícias que nos tinham expulso a dizer que nós íamos presos. E quando entramos, passado três dias na fronteira, lá conseguimos entrar. Isto para dizer que depois fomos à Embaixada de Portugal para perceber a questão dos vistos e ele disse: "Olhe, se vocês tiveram este problema na Tunísia, na Líbia é 50 vezes pior".

Pois.

E aqui na Tunísia

Isto foi em 2009, não foi?

Certo. Ainda estava o Gaddafi.

Exato.

Ainda estava o Ben Ali antes da Primavera, da Revolução da Primavera Árabe, antes de começar aquela revolução toda, que no fundo veio na sequência desta situação toda, porque aquilo ainda era uma ditadura e o sujeito que nos disse é: "Você tem que cortar a barba, porque aqui as pessoas que têm barba ou são anti-regime, são anti-regime e portanto, ao passado uns dias aparecem sem barba ou não aparecem, porque são presas". E então eu tive que cortar a barba, o cabelo não, e durante esse período ficou assim.

Não conta, essa parte não conta. Muito bem. Olha, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Alexandre, guardas em casa algum objeto especial que tenhas trazido das tuas viagens? Bicicleta ou não?

Há um objeto que eu levo sempre nas viagens e que trago sempre e que anda sempre na minha mochila, que é um canivete suíço.

Ah!

E usei para desde estar retido num nevão a cortar uma árvore para ter madeira para me aquecer, a cozinhar, a cortar um cadeado de ferro porque perdi a chave, uso para tudo. Ainda hoje estava no trabalho, fui fazer o trabalho de um técnico que está de férias, pediram-me para fazer uma ligação elétrica, descarnei o fio, fiz a ligação toda com o canivete suíço.

És um verdadeiro MacGyver.

Quase, mas era um dos meus ídolos quando era adolescente. Depois foi uma grande decepção quando descobri que ele nem conseguia arranjar o carro na vida real.

E que as pastilhas elásticas não explodem.

Exato.

Muito bem. É o mesmo canivete há muitos anos ou não?

Desde essa viagem, sim.

Desde essa viagem, é o mesmo?

Desde essa viagem, sim. Eu posso mostrar.

Incrível, já me vais mostrar. Vamos usar esse canivete na segunda parte, porque há uma história na Grécia, não há? Onde tu usas esse canivete.

Ok.

Fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Até já.

Até já.

Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, o programa semanal da Rádio Observador, onde viajamos pelas memórias de viajantes e aventureiros portugueses e não só. Esta semana estamos a recordar uma longa viagem de bicicleta de oito meses por três continentes, 13 países, realizada pelo Alexandre Paris e outro amigo. Alexandre, já tens aqui o canivete. Mostra lá o canivete suíço que falavas na primeira parte. Incrível, legítimo. Estes são dos que duram. Não têm uma ponta de ferrugem. Incrível, parece que estou a fazer aqui publicidade à Victorinox, mas não, são mesmo muito bons. Conta lá, salvou-te a vida este canivete na Grécia, não foi?

Foi.

Conta como.

Como eu tinha dito, o nosso objetivo era fazer o Norte de África. Ao não fazer o Norte de África, damos na Grécia e na Turquia no inverno. E começamos a apanhar temperaturas negativas.

Vocês saíram daqui no dia 20 de setembro, não foi?

Certo.

Eu decorei a data porque é a minha data de nascimento.

Foi também para coincidir com a Semana sem Carros, uma forma de promover a bicicleta como meio não poluente.

Calha normalmente ali a Semana da Mobilidade, não é?

E foi a seguir às férias, a ideia como era fazer o Norte de África para não apanhar calor, acabamos por fazer esta decisão. Entretanto, fazemos a Tunísia em novembro, depois fazemos Itália em dezembro, o ano passamos em Itália e quando chegamos à Grécia-

Passaste também o Natal em viagem.

Sim, foi uma experiência também.

Conta.

Houve uma família de Hospitality Club que nos acolheu, porque era muito difícil arranjar alguém que deixasse ficar em casa, mas era uma moça em Nápoles que nos disse que podíamos ficar lá em casa. Depois a avó dela gostou imenso.

O que é um Hospitality Club?

É tipo couchsurfing ou warmshowers. É um website onde as pessoas partilham a sua casa e recebem. Há uma base de dados em que há pessoas que partilham e pessoas que requisitam. E é um sharing.

Passaste o Natal com desconhecidos.

Exato. Com uma família italiana na casa deles, eles fizeram uma pasta, mas ameijo, muito saboroso. Lembro-me, uma casa super papel de parede dourada, candeeiros, foi uma experiência muito engraçada. Ainda fomos à missa do galo. A dona da casa ficou super contente porque convencemos a neta a ir à missa do galo e foi engraçado. Depois a passagem de ano também foi em Bari, já foi do outro lado da costa, onde nós apanhamos depois o ferry para-

Para um dos países Balcãs.

É, para um dos países Balcãs que agora não me estou a lembrar. Albânia.

Albânia, ok.

Depois de Albânia, Macedónia e Grécia.

E apanham o inverno grego, onde neva.

Onde neva. Começa a nevar.

Sabiam que nevava? Tinham uma ideia?

Tínhamos ideia, claro, junto ao litoral é sempre mais difícil. Sempre que apanhamos montanha, começa a haver frio. E então há uma noite que apanhamos uma tempestade de neve. Nós para abrigar, tínhamos umas tendas daquelas de dois segundos da Decathlon, e então apanhamos um armazém, abrigamo-nos no armazém. No dia a seguir, a neve tinha 1 m de altura, a gente nem conseguia chegar à estrada com os alforjes e com a tralha toda. E nós tínhamos comida ali para um dia. Ficamos por aqui, aguentámos aquele dia.

Vamos-nos fazer de mortos. Quietinhos.

Pois, e tal. No dia a seguir está a melhorar. No dia a seguir ainda mais meio metro de neve. Nós: "Pronto, temos de ir até à terra para comprar qualquer coisa de comida". E então acartamos com a bicicleta para chegar à estrada. E então numa dessas noites estava tanto frio que nós já tínhamos acabado tudo o que havia para arder, já não tínhamos nada para queimar e havia lá um ramo seco e eu lá fui com o canivete suíço, que tinha aqui uma lâmina que era um bocadinho mais robusta e com isto consegui cortar uma ramada do tamanho de um pulso para termos lenha para aquecer literalmente a água, porque a gente deixava o cantil fora da tenda, congelava, não conseguíamos beber. E nós tínhamos de ter lenha para ir derretendo a neve para beber e depois dormíamos com o cantil dentro do saco-cama para, com a temperatura corporal, aguentar e termos água para beber.

Que grande aventura. Como é que isso acabou?

Acabou passado três dias, veio o sol, derreteu a neve e nós prosseguimos viagem.

Uau.

E depois também chegamos à conclusão que a partir daí as coisas iam ficando mais baratas e se houvesse neve, tínhamos de ficar numa pensão, já não era tão caro e campismo selvagem não era uma opção.

Muito bem. Fizeram sempre campismo ao longo dos oito meses?

Quase sempre. Selvagem ou em parque de campismo, mas sempre a gastar o mínimo de dinheiro possível.

E foi fácil fazer campismo selvagem por aí?

Eu fui ganhando experiência e a regra que eu digo é sempre procurar um sítio que seja suficientemente escondido para não seres logo apanhado, mas que não seja tão escondido que se alguém te vir, depois não consigas fugir.

E montar a tenda só quando a noite cair, não é?

Exato.

Que é para não verem.

Certo. Nunca procurar sítio de campismo selvagem à noite, porque o que parece que é bom, depois tem cães ou tem pessoas. Quando começa aquela hora de fim de dia, procurar o sítio.

O luz chamado lusco fusco.

Lusco fusco, a hora do lusco fusco, procurar o sítio, ficar à espera e assim que cai a noite, montar a tenda.

Muito bem.

É um dos truques, dos segredos.

Muito bem. Tiveste problemas com as autoridades ou não, ao longo desta viagem de oito meses?

Houve uma das noites na Turquia, principalmente na zona sul, já perto do Irão, que é a zona do Curdistão, em que eles têm lá o PKK que quer a independência daquela zona.

Um problemistão, não é? Aquela zona.

Exatamente. E nós, com esta problemática do frio, lá arranjamos um armazém para montar a tenda e eu estou a cozinhar e o Tiago estava na porta do armazém à espera e descontraídamente diz: "Olha, vem aí a polícia". Tínhamos sido descobertos.

Sim.

O que eu não estava à espera é que a polícia fosse uma brigada com um chaimite e que viessem todos armados com lanternas e rodeassem o pavilhão. Eles entram por ali adentro todos armados. Eu estava a cozinhar, tinha o frontal, a luz na testa, e quando eu olho para ele e aponto a luz, eles começam a gritar, porque podíamos também estar armados.

Exato.

Eles começaram a gritar, eu pus as mãos no ar e, entretanto, chegámos à conclusão que o mais velho devia ter para aí 20 e poucos anos, porque se fossem efetivamente uns terroristas, eles mandavam os mais novitos, que era para se houvesse algum problema, eram os mais novos que ficavam lá, não eram os mais velhos. E depois, felizmente, lá havia um teenager que falava inglês e lá conseguiu traduzir para o mais velho que nós só estávamos de turismo a fazer uma viagem, mostrámos passaportes e percebemos que não era nenhum risco.

Deixaram-vos dormir lá?

Eles não queriam que nós dormíssemos lá, mas eu expliquei: "O sítio mais perto são 30 km daqui, agora à noite já temos tudo montado, vamos apanhar um frio imenso e nós prometemos que de manhã, às 7:00, já levantamos e já não estamos cá." E assim foi. E eles deixaram-nos ficar lá a noite.

Mais uma história para recordar. Fantástico. Então vamos lá. Grécia, Turquia, depois da Turquia, foram para onde?

Irão.

Irão. País surpresa, não foi?

Foi um país surpresa.

Surpresa positiva, no vosso caso.

Exato. Nós quando estávamos em Istambul, que no fundo era o último país europeu onde não era preciso visto, era preciso tratar dos vistos depois da Ásia Central. Na altura, o meu objetivo era ir até ao Nepal, até ao campo base no Nepal, como eu gosto muito de montanha.

Faz escalada, não é?

E faço escalada, nos meus tempos livres, alpinismo e montanhismo pouco, mais escalada desportiva e bloco. E entretanto, o nosso objetivo era ir para o Afeganistão, Paquistão, não era Afeganistão, era Paquistão, e entrar no Nepal.

No Nepal.

Entretanto, descobrimos que a legislação tinha mudado e então eles só davam visto para o Paquistão se Portugal, como tinha embaixada do Paquistão, se eu submetesse o visto em Portugal.

Ok.

E como eu já estava lá na Turquia, a única hipótese era eu mandar o meu passaporte, o meu pai tratar e depois mandar o passaporte de volta, mas era arriscado ficar sem passaporte lá. E acabamos por abdicar disso, na altura tinha saído a legislação. Depois, entretanto, afinal havia uma exceção na fronteira com a China, lá nos Himalaias, em que eles faziam o visto lá, mas isso como tinha acabado de sair, essa hipótese não era. E eu depois comecei a pesquisar na net, descobri que havia muita gente a fazer a antiga Rota da Seda, e que fazia este percurso a passar no Irão e no Turcomenistão, e eu comecei a ponderar essa hipótese. Entretanto, num hostel em Istambul, onde eu estava a tratar dos vistos, descobri um chinês que tinha vindo à boleia e que tinha atravessado o Irão e que quando soube que estava lá um iraniano no quarto, ele foi lhe oferecer o jantar e pagar coisas porque disse que conhecia. E ele disse: "Mas eu não te ofereci nada". E eu: "Tu não, mas o mês que eu lá estive, toda a gente me oferecia coisas, é o mínimo que eu posso fazer em forma de agradecimento". Eu achei aquelas histórias um bocado exageradas, mas decidi ver de perto como é que era. E realmente depois comprovou-se que consegui o visto para o Irão, e no Irão realmente éramos recebidos. Nós chegávamos a entrar numa terra, ofereciam-nos o almoço e depois até sair da terra, se ainda era hora de almoço, estavam-nos sempre a parar para querer oferecer o almoço e nós: "Nós não podemos parar, temos de continuar a viagem", mas queriam sempre oferecer um chá, almoço, dormida.

É incrível. Eu nunca estive no Irão, para mim é muito intrigante essa excessiva hospitalidade.

Eu acho que tem a ver com a religião.

Ajudar o outro é quase uma imposição moral.

É quase uma imposição moral. E depois aquela guerra que criaram os governos com esta questão do nuclear e da América e levar aquilo para o fundamentalismo delas próprias terem de usar lenço e tapadas, porque neste momento, se calhar, 50% ou mais do povo iraniano não quer aquelas regras e queria estar aberto ao mundo.

Aliás, vimos nos últimos anos as revoltas.

Exato. Tem havido cada vez mais revoltas. Estiveram quase a abrir, e entretanto, depois veio o Trump e voltou tudo atrás. E nós estivemos em muitas famílias e aconteceu-nos um bocadinho de tudo, desde estar na casa das pessoas em que a mulher estava sentada conosco, a comer conosco, deixava-se ser fotografada, até casas onde ficamos, onde nunca cheguei a ver a dona da casa que estava a cozinhar para mim. Sentia sempre os vultos a passar na cozinha para o quarto e estávamos só os homens ali a conviver e as mulheres estavam noutra divisão.

Estranhíssimo.

É muito estranho. Por exemplo, a antena parabólica dá prisão no Irão.

Ter uma antena parabólica.

Ter uma antena parabólica. E nós víamos nas vivendas a antena parabólica sempre escondida por um telheiro, apontada para os satélites, pintada de castanho, que era a cor da terra, que era para as fotografias de satélite não conseguirem ver as antenas. E é surreal. É um choque, porque nós, pelo menos eu, não sou da geração do 25 de Abril e ouvimos falar da ditadura, e de repente, quando estamos em países-

Sim, crescemos em liberdade total.

E quando estamos em países em que está a ditadura e nós começamos a perceber: "Então era isto que a minha mãe falava, então era isto que o meu pai falava, então era isto que as pessoas falam e que temos de lutar contra, é isto que podemos voltar se formos às vezes atrás de certos populismos".

Não vamos. Quer dizer, não sei.

Esperemos que não.

O povo é soberano, como se costuma dizer. E as escolhas, cada um faz a que quer. Irão e depois Turcomenistão.

Turcomenistão.

Em 2009 e hoje, suponho, ainda continua a ser um país muito fechado e pouco conhecido.

Exato.

Como é que é viajar no Turcomenistão e, já agora, atalhando já aqui caminho, no Tajiquistão?

O Tajiquistão e o Uzbequistão têm bastante turismo.

Também chegaste a ir ao Uzbequistão? Sim, claro que sim, tens que passar O Turcomenistão, um bocadinho do Uzbequistão e depois o Tajiquistão.

Exatamente.

Os três -ãs.

É isso.

São países muito parecidos, não são?

São. Só não fui ao Cazaquistão, que era um bocadinho mais para cima, salvo erro.

Isso sim.

E são países todos, ex-colónias soviéticas, em que têm autonomia, mas que chegamos agora à conclusão que o Putin ainda manda naquilo tudo. Tem lá uns fantoches. E depois vai distribuindo as posses: "Tu tens gás, então podes ter isso. Tu tens não sei o quê, podes ter aquilo". Depois há meia dúzia que estão naqueles governos, depois o resto vão dando os mínimos para não haver contestação social, mas são sítios pobres. Por exemplo, no Turcomenistão existe uma estrada que fazes ao lado do tubo de gás e realmente eles vivem tanto do gás, que só para teres uma ideia, nós fomos acolhidos lá nuns bombeiros, ficámos lá nos bombeiros e quando disseram para irmos cozinhar, o bico de gás estava ligado. E eu: "Mas isto está ligado noite e dia." "É para não gastarmos fósforos." E nós: "A sério?" E era mesmo. Eles não desligavam o gás só para não estar com o trabalho a acender e estar a gastar fósforos e não sei o quê. E no Irão eles faziam a exportação ali junto à fronteira, porque nem compensava estar a transportar gás só de uma ponta do país para a outra e depois importavam e exportavam onde compensasse.

Otimização de recursos.

É outra realidade. E consegui um visto de cinco dias de trânsito, que era o único atribuído se eu não fosse com um guia turístico. E depois foi uma aventura passar aquilo em cinco dias. O troço mais curto eram 500 km.

Aquilo, o Turcomenistão.

O Turcomenistão. De bicicleta, dava 100 por dia, não me podia enganar. Na altura ainda não havia Google Maps no telemóvel. Já havia GPS, mas eram caros e foi mesmo literalmente com mapa e bússola, a despachar os cinco dias para não pagar multa, não correr o risco de expirar.

Portanto, viste pouco do Turcomenistão. Viste as paisagens.

Ainda vi uma cidade que era Merv ou Mary, que foi uma cidade que no seu tempo foi a civilização mais desenvolvida na época, uma coisa antes de Cristo, em que realmente tinha uma série de castelos e nós acampámos literalmente dentro deste património da UNESCO, porque aquilo não tinha controle nenhum.

Tem um grande mausoléu também.

No meio. Passámos lá no meio.

Sultan Sanjar.

Passámos lá no meio. Víamos os, não é rebanho, mas os dromedários a passarem ali e nós a acampar ali no meio, foi engraçado.

Engraçado, aquilo transporta-nos para outro tempo.

É.

Esta zona do planeta. Turcomenistão, Cazaquistão, Tajiquistão e Uzbequistão.

Sim, quando eu tinha pensado fazer aquela parte do mapa e realmente quando começo a olhar para os -ãos, e começo a pensar: "Eu nunca ouvi falar disto, nunca ninguém fala disto." Nós temos sempre a ideia que isto são casas de palha no meio do nada, depois acaba por não ser. Existe civilização em todo lado. É verdade que se calhar nas zonas rurais está mais atrasada, não existem estradas alcatroadas a fazer a cobertura do país inteiro, mas não estão tão atrasados como nós às vezes pensamos.

Muito bem. Chegaste ao Tajiquistão, chegaste mesmo à fronteira com a China ou não? Mesmo à fronteira.

Fiquei a 100 km da fronteira com a China.

Faltou-te um Danoninho.

Faltou-me um bocadinho. Na altura, tínhamos previsto regressar do Quirguistão.

Sim.

Só que depois começou uma guerra civil, uma contestação no Quirguistão e então o governo não estava a recomendar ir à capital. E nós como tínhamos mesmo de ir à capital, que era onde tínhamos o voo de regresso, acabámos por conseguir cancelar o voo e ficar no Tajiquistão. Ainda fizemos uma parte do percurso, porque essa parte do percurso chama-se Pamir Highway e é uma estrada que protegia a antiga União Soviética. É uma estrada que fazia o Tajiquistão e que em alta montanha. Tinha uma passagem a 5000 m de altitude e estava completamente isolada e com tanques à beira da estrada ainda minado e acabámos por fazer essa estrada.

Muito bem. Uma viagem tão longa, oito meses, por tantos sítios. O que muda em nós depois disto, Alexandre? O que mudou em ti?

Eu acho que aprendi a dar valor ao que tenho. Eu acho que nós achamos sempre que somos a cauda da Europa e que não temos isto e não temos aquilo. E de repente, quando vimos povos que têm muito menos, nós queixamo-nos, estamos a comparar para cima, mas se compararmos para baixo, estamos noutro estrato.

Pois, muito bem. Estamos a chegar ao fim, vamos fazer checkout. Alexandre, vou pedir-te para completar as habituais frases: na minha mala vai sempre, o que é que vai?

Uma máquina fotográfica. Ultimamente, ainda por cima com os filhos, telemóvel.

Telemóvel. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Foi esta de bicicleta até ao Tajiquistão.

Boa. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?

Foi o do Turcomenistão. Comecei a tratar do visto na Turquia e terminei no Irão.

Quanto tempo?

Um mês para me darem o visto. E havia pessoas que ficavam retidas no Irão semanas à espera do visto.

Caramba.

E nós, como tínhamos iniciado na Turquia, aquilo passou ali um trâmite e conseguimos levantá-lo logo.

Boa. A recordação de viagem mais cara?

Eu não tenho, porque eu nunca gasto dinheiro em recordações, em viagens. É verdade. Uso sempre as fotografias e as memórias como recordação.

Boa. A refeição mais estranha?

Cão e escorpião.

Escorpião?

Escorpião foi na Tailândia e o cão foi na China, numa viagem de trabalho.

Ok. E gostava de viajar com?

A minha mulher e os meus filhos numa viagem que não fosse só uma semana ou duas.

Boa. De bicicleta?

De bicicleta, de barco, à boleia, caravana.

Vale tudo.

Vale tudo.

Tenho aqui duas perguntas. Depois de terminada a viagem, quando é que cortaste o cabelo e a barba? Foi já em Portugal?

Foi já em Portugal e foi só quando tive de ir a uma entrevista de emprego. Até lá fui aguentando, e quando já não deu mais: "bem, agora vou cortar".

E a bicicleta ainda a tens?

Tenho. Ainda andei em Lisboa com ela.

Resistente. Ainda com o desviador dos Himalaias?

Não, essa está guardada em casa de recordação. Entretanto, a transmissão estava toda destruída. Comprei uma bicicleta no OLX, troquei a transmissão, voltei a vender a bicicleta, troquei tudo a custo zero e fiquei com a transmissão nova.

Muito bem, fantástico. Alexandre, estamos a chegar ao fim. Que música escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?

Esta música remete-me para esta viagem. Foi na altura que eu estava a trabalhar e que fui ver um filme, que era o "Into the Wild", que era a história de um americano que cortava com a família, com o capitalismo, com a sociedade, com tudo. Nessa altura, eu decidi: "eu ando a adiar esta viagem que eu quero fazer."

Inspiro-te.

E o momento em que eu vou fazer a viagem, como não sei, quando não sei, mas foi o primeiro passo para fazer a viagem. E a música chama-se "Society", do Eddie Vedder, em que ele fez a banda sonora deste filme. É muito boa. Recomendo a todos, quem não conhece, ouvir a banda sonora. E a música é bonita e fala sobre esta futura-

E Eddie Vedder esteve cá agora há pouco tempo, não foi? Com os Pearl Jam no NOS Alive. Muito bem, fantástico. Alexandre Paris, muito obrigado.

Igualmente.

E boa sorte para a tua vida e boas viagens com a tua família.

Igualmente. Tenho que programar.

Fazes coisas com os teus filhos?

Faço.

Boa. Inspiradoras?

Tento fazer coisas de autonomia, ciclovia, ecopistas de bicicleta, ir até ao Algarve também de bicicleta, no atrelado. Agora quando começarem a pedalar, já irem a pedalar. Já fiz uma descida do Zêzere de barco em autonomia, coisas assim para eles irem dando valor, porque eu acho que quando temos menos, damos valor.

É verdade.

Damos mais valor às coisas.

Alexandre, foi um gosto.

Igualmente.

"Society" de Eddie Vedder a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso de oito em oito dias, já sabem. Sejam bons e boas viagens.