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Bem-vindos. No programa desta semana vamos ao Gerês, é por lá que tem andado o nosso viajante a fotografar no meio da vastidão de granito. E havemos de ir aos Picos da Europa, aqui ao lado, em Espanha, e à Noruega, onde o nosso viajante se apaixonou pelas montanhas, e ainda à Austrália recordar uma viagem de autocarro. É doutorado em Biologia, mas dedica-se à fotografia de natureza e vive na Póvoa de Varzim. Mário Cunha, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Olá, João, muito obrigado pelo convite.

Ora essa.

É um prazer cá estar. E vamos falar de coisas que me agradam, certamente.

Claro que sim. A ti, aos nossos ouvintes e a mim também.

Tudo o que disseste até agora são sítios que são muito queridos por mim. A Austrália foi só uma visita, mas os outros três, pelo menos, são sítios que pra mim significam muito, portanto será sempre uma conversa muito interessante e que eu irei gostar bastante.

Claro que sim. A Austrália uma visita, mas uma visita longa, porque tiveste a oportunidade de fazer uma viagem de um mês de autocarro. Já vamos explorar isso. Vamos começar pelo Gerês, vamos começar aqui pelo que é nosso. O que te fascina neste nosso único parque nacional, Mário?

Vou só fazer aqui uma pequena introdução, porque o Gerês fascina-me muito. Eu cheguei cá a Portugal em 2018, ainda como biólogo, trabalhei um bocadito como biólogo, e posso dizer que foi nessa altura que percebi que não era aquilo que eu queria continuar a fazer, e dediquei-me à fotografia. Eu tinha vindo da Noruega, lá vamos mais tarde, e foi lá que me apaixonei, de facto, pelas montanhas. Quando cheguei a Portugal, que foi pouco depois dessa paixão ter surgido, tive que perceber onde é que eu aqui em Portugal conseguia arranjar um sítio onde eu pudesse abraçar essa paixão, porque tinha que ver onde é que me ia mandar. Quando fui ver ao mapa, tanto pela proximidade relativa, porque não é propriamente aqui ao lado, ainda passo uma hora e meia ou duas horas de carro sempre que tenho que lá ir, mas também, e principalmente, pela relativa virgindade do território, comparativamente a todas as outras serras ou parques que existem em Portugal. Apesar de aquilo não ser virgem, nem estar em nenhum estado pristino, mas é o mais próximo que eu encontro aqui em Portugal, é o Gerês, e muito pelo silêncio que consigo lá encontrar, mesmo em alturas do ano em que aquilo está cheio de gente, há sempre um cantinho ou outro, como dizia, que conheces bem os sítios, onde estás sozinho e podes contemplar a natureza e estar sozinho a apreciar tudo que te rodeia.

Muito bem. E o que é que tu vais procurar no Gerês, Mário?

No Gerês, inicialmente, e ainda agora, é muito fotografar as montanhas e a sua grandiosidade. Porque é um sítio que, eu sei que isto é uma frase clichê, que nos faz sentir pequeno, mas é um clichê que é verdade, porque quando estás lá no meio sozinho, principalmente quando está mau tempo, tu sentes completamente desprotegido e vulnerável. E é uma sensação que eu gosto de ter. Acho que muitos de nós devíamos passar por isso, porque devíamos perceber onde é que nós estamos e aquilo que nós somos. Muitas vezes estamos no conforto da nossa casa e pensamos que mandamos nisto tudo, mas não mandamos. E passar por esse tipo de experiências faz com que a gente desça um cadinho à Terra e perceba que estamos aqui de passagem e que convém que tenhamos respeito pela natureza que nos rodeia.

Claro.

Isso é a primeira coisa. E depois vou lá fotografar, que é uma coisa que eu gosto muito. E eu gosto sempre de fotografar com ambientes, com atmosferas um bocadinho mais dramáticas. É o que normalmente envolve.

Portanto, não vais à procura da primavera, vais é à procura da bruma, do inverno, é isso?

Sim, mas a primavera e o outono são muito dadas a isso. São muito dadas a essa instabilidade climática. O inverno, na verdade, é um bocadinho mais estável.

Pois.

O verão é a pior estação pra mim, lá. Mas sim, eu gosto realmente mais dramático, normalmente envolve investidas em situações mais complicadas. Mas tudo isso me dá imenso gozo. E depois também me dá imenso gozo levar lá pessoas em workshops de fotografia ou expedições fotográficas, que também me dá gozo mostrar certos sítios que normalmente as pessoas não vão sozinhas e portanto é giro.

Mas tu vais sozinho, não é? Tu fazes incursões no território do Gerês sozinho, é isso, Mário?

Muitas vezes vou sozinho. Nem sempre, mas se eu puder escolher, prefiro estar sozinho.

Sozinho. E ficas por lá a dormir, nos montes.

Fico por lá a dormir, sim. É claro que são experiências diferentes. Porque tu ires acompanhado também é fixe, também é uma experiência muito boa, porque não há internet em muitos sítios, passas muito tempo a conversar com alguém.

Sim.

Mas se eu for pra fotografar mesmo, prefiro estar sozinho, porque não há mais nenhuma distração.

Qual foi o máximo de dias que passaste sozinho lá no Gerês, Mário?

O máximo sozinho, duas noites.

Duas noites.

É, duas noites. Sim. Até porque eu posso ir lá com frequência, não justifica sequer ficar mais tempo. Ir sozinho pra mais tempo, eu podia fazê-lo, mas envolve carregar muito mais comida, muito mais coisas. Duas noites pra mim é o suficiente pra eu fazer reset e estar numa de criar imagens tranquilo.

Portanto, tu viajas, fazes essas incursões fotográficas pelo Gerês em autonomia. Estás tu por tua conta e risco, sem ninguém.

Exatamente.

Nunca te cruzaste lá com um urso pardo? Já houve ursos na Gerês?

Já houve ursos, até porque existem lá as cilhas dos ursos, que eram usadas para proteger as colmeias.

Sim.

Mas já não existem ursos, infelizmente.

Há muitos anos, não é?

Existem lobos.

Já tiveste a oportunidade de ver lobos, Mário?

Só vi um na Noruega. No Gerês, já os ouvi, já vi pegadas, já vi os fezes, mas já presci que eles estiveram à minha beira, porque quando está a nevar, tu vês que as pegadas estão frescas a todo momento, então eles andam ali à tua volta, mas nunca os vi. Mas também nunca os procuro ativamente. Não é algo que me interesse fotografar. Eu gosto mais de fotografar algo que não se mexa, basicamente. Eu gosto de estar ali e contemplar com calma as coisas e ver as coisas com calma e perder o meu tempo com a fotografia. Não algo com mais adrenalina, porque o animal pode fugir. Não é muito a minha onda.

Muito bem. Olha, e agora estamos em pleno inverno, o que é que nós podemos ver no Parque Nacional da Peneda-Gerês?

Uma coisa da qual eu agora ando atrás, e devo ir pra lá agora no dia 14, acho eu, ou 15. E em princípio vou à procura do chamado cincelo, que é quando as árvores ficam congeladas.

Uau.

Vai haver aí uma descida de temperatura brutal.

Como é que se chama esse fenômeno?

Cincelo.

Cincelo.

Ou em inglês, hour frost.

Ok.

E portanto, é quando tens temperaturas muito baixas associadas a neblinas, quando há muita umidade no ar. Ela congela à volta dos ramos fininhos das árvores que não têm folhas e aquilo fica magnífico. Eu outro dia tive a sorte de presenciar isso em Pitões das Júnias, mas há outros locais em que eu queria fazer isso. E vou à procura disso, em particular. Claro que se isso não aparecer, farei outras coisas, mas como as temperaturas vão baixar, é por aí que eu vou. No entanto, pra presenciar isto, é preciso estar a uma elevação relativamente alta, por exemplo, 1100, 1200 metros, que é basicamente a linha das árvores.

Sim.

A única situação mais fácil para tu encontrares isto sem teres que te arriscar muito, é se calhar ir às Pitões das Júnias, que já é uma aldeia que está a 1100 metros.

Pois.

E ali perto da aldeia, em alguns sítios, em vales mais fechados, onde o ar mexe pouco e há riachos com muita umidade, tu podes encontrar este fenômeno com alguma facilidade em manhãs com temperaturas abaixo de zero, -4, -5. É possível que consigas encontrar isso.

Uau! Olha, já és conhecido como o senhor Mário, o fotógrafo. Interages já com as populações do Gerês ou não, Mário?

Em muitos sítios, sim. Em Fafião, não é como o fotógrafo, mas é como o Mário. Por exemplo, em Fafião, é o Mário, e é o fotógrafo, e é o gajo que gosta de ir pra serra. E em Fafião é quase família, porque dou com toda gente, conheço toda gente, fico lá sempre a dormir em casa do meu amigo Júlio. Quando não preciso de ir à serra e subir, tenho onde ficar a dormir.

Fafião, que é em Montalegre, não é?

Montalegre, exatamente. É mesmo na fronteira. E se for a Pitões das Júnias, e se for à padaria falar com a dona Gracinda, ela vai-te dizer que eu sou o homem das neves.

Ai, é?

É, porque eu quando chego lá, às vezes chego lá à padaria e venho com a barba cheia de neve congelada, e ela pergunta: "O que você anda a fazer na montanha, até os lobos têm medo de si". Na vila do Gerês acontece menos isso, porque é um sítio um bocadinho maior, e há menos aquela intimidade com as pessoas.

É mais turístico.

É mais turístico, sim. Agora, Fafião e Pitões, eu já tenho uma ligação com as pessoas bastante grande, principalmente em Fafião. E chego lá é como se estivesse em casa. Muita gente que às vezes vai lá comigo aos workshops em Fafião, já me perguntaram se eu moro ali.

Ah. Passas lá a vida.

Eu passo lá a vida e conheço literalmente toda a gente. Passa uma pessoa com vacas ou qualquer coisa, eu conheço toda a gente. E é isso que eu estava te a dizer outro dia, que eu de fato gosto muito desse tipo de interação. Porque pra mim viajar, ir a um sítio e voltar, é giro. Mas eu gosto de sentir que pertenço. E quando tu começas a sentir que pertences a um sítio, acho que é muito mais, pelo menos pra mim, é algo que me dá muito mais prazer do que simplesmente ficar a conhecer, porque lá estive, por exemplo, na Austrália um mês. Mas este tipo de relações não existem. Isto pra mim é o que faz a diferença. Claro que é uma viagem curta, mas pra mim é uma viagem muito importante. E gosto mesmo daquilo. Quando me perguntam, às vezes quando se fala dos Picos da Europa, aquelas são montanhas mais altas, mais dramáticas, etc. À partida, as pessoas também dizem isto porque na verdade não conhecem o Gerês no seu coração. E claro que são mais dramáticas porque são de calcário e o Gerês é granito, e portanto são dados a diferentes fenômenos geológicos.

Exato.

Mas o Gerês não fica atrás de nada. Atenção, tem recantos mesmo muito bonitos com árvores fantásticas.

Então vá, fala-me deles. Quem está a ouvir, como eu, quer saber. Fafião, já sabemos. Fafião, Conselho de Montalegre, vale a pena ir procurar árvores que gelam com a descida abrupta das temperaturas, é isso?

Isso será em Pitões das Júnias.

Em Pitões das Júnias, ok.

Em Pitões das Júnias. Em Fafião, tens muitas zonas de rio agradáveis. E também tens bosques de sobreiros, que têm centenas de anos, certamente.

Sim.

Que têm braços com, se calhar, com uma dezena de metros, são mesmo coisas grandes. É incrível. Eu estou a falar aqui, estou me a arrepiar. Portanto, aquilo tem bosques muito giros de sobreiro e também na montanha há zonas como o Cocão ou como Porta Ruivas, que são montanhas do Gerês, que se calhar pouca gente que está a ouvir a rádio realmente conhecem, porque fazem lá caminhadas, mas Mas são sítios que têm uma imponência muito grande e se tu tiveres também, por exemplo, nessa secretária de Rafião, num local, num prado que se chama a Sesta da Amarela, tu tens uma vista sobre o Gerês e sobre os maiores maciços, os maciços que eu acho mais bonitos, que é fabulosa. É a mesma coisa que ir a Pitões das Júnias e veres aquela serra à tua frente cheia de picos.

É verdade.

São os pitões. E são sítios fantásticos. E os bosques existem em todo lado. Basta irem ao Google Maps ou Google Earth e procurarem zonas verdes.

Sim, bosques de carvalhos, não é?

Carvalhos e sobreiros.

E sobreiros. Muito bem.

Alguns de bétulas e depois pode-se ter algumas faias ali na Mata de Alfargaria, mas eu prefiro ver os carvalhos.

Muito bem. Olha, falavas da Noruega, foi o país onde tu te apaixonaste pelas montanhas. Por quê, Mário?

Eu acho que isto foi durante o meu doutoramento. Eu estava a fazer meu doutoramento entre Portugal e a Suécia, mas vivia em Oslo porque estava lá a minha esposa a fazer o doutoramento dela, então eu estava sempre em viagem. E o que aconteceu? Durante o doutoramento, tu começas a passar mais tempo sentado do que propriamente a fazer trabalho de campo ou fazer qualquer coisa mais ativa. E foi isso que me fez começar a fartar de estar à frente do computador. Não é algo que me agrade muito estar à frente de um ecrã. E, portanto, comecei a procurar natureza em redor, primeiro ao redor de Oslo, que apesar de ser uma capital, tem florestas fantásticas. E depois comecei a subir um pouquinho mais pra norte e conheci pela primeira vez o Parque Nacional de Ottenheiman, ao qual voltei o ano passado, em setembro. E foi aí que acampei em autonomia pela primeira vez na minha vida.

Ah!

E fiz aquilo uma vez e pensei: "É mesmo isso que eu quero, eu não preciso da cidade". E depois ainda faltava um ano pro doutoramento, e foi aí que eu comecei a fotografar mais. Portanto, em 2016, 2017, foi quando eu comecei a fotografar com mais frequência, muito como um escape de estar à secretária. Só que depois acabamos o que tínhamos lá a fazer, a minha filha também nasceu lá e regressamos. E quando regressamos, essa paixão, que eu acho que nasceu do fato de eu precisar de um escape. Acho que, na verdade, se tornou algo que eu achava que podia ser um modo de vida, que tem sido até agora, e tenho vivido bem. E ainda bem que tomei esta decisão, apesar de ter sido um bocado controverso ao início.

Sim.

Quer dizer, estudei durante 10 anos nível superior.

Pois é. Mas a Biologia ajuda-te enquanto fotógrafo da natureza. Consegues perceber os ciclos naturais, posicionar-te, escolher a melhor altura para fotografar, os melhores ângulos.

Sim, mas lá está, eu sou biólogo marinho.

Ah, ok.

Às vezes as pessoas que estão comigo na montanha: "Biólogo, que árvore é aquela?" "Não faço a mínima ideia."

Pois podias ter dedicado à fotografia subaquática.

Podia. Na verdade, foi aí que eu comecei a fotografar as primeiras coisas há muito tempo atrás, em 2010.

Ok.

Quando comprei minha primeira máquina, foi um trabalho que fiz com um professor meu, ainda estava eu no ICBAS, na Universidade do Porto, e comprei uma máquina compacta à prova d'água e comecei a fotografar toda a bicharada que havia na zona de Entremarés. E foi aí que eu percebi que a fotografia era uma coisa engraçada. Eu comecei a fotografar pra fazer basicamente registro documental das espécies que havia naquela zona. Mas depois também parei muito tempo de fotografar, porque comecei a licenciatura, mestrados e não sei o quê, e só peguei nisso outra vez passado muitos anos.

Ok.

Mas, na verdade, comecei por aí.

Muito bem. Então fala-me deste parque natural de Jotunheimen, é isso, na Noruega?

Sim.

Que parque é este? Montanhas que é de granito também?

Aquilo é granito, sim. E se não estou errado, é onde tens a montanha mais alta da Noruega. Não é assim tão alta, são 2600 metros, mas é um sítio muito giro e que eu acho que é, pelo menos a nível fotográfico, muito pouco explorado, assim como era o Gerês há uns tempos atrás. Muito por causa do acesso, porque tudo que tu fazes ali tem que ser a pé. Podes fotografar umas coisas da estrada, mas não é a mesma coisa. E é giro porque é uma coisa que eu gosto muito, tu também já referiste, como já falamos aqui, gosto de estar sozinho. Ou num sítio que tenha pouca gente. E achei muita piada, porque este ano voltei lá em setembro. Estive lá 15 dias com a minha esposa e com a minha filha, uma semana com a minha filha e com a minha esposa, e depois outra semana com um grupo que veio lá uma expedição comigo. E nós, enquanto estivemos na expedição a fotografar, os seis ou cinco, já não me lembro, encontramos só mais uma pessoa que esteve a fotografar. Portanto, só encontramos mais um cara a fotografar. Quando pensas em Noruega e pensas lá em Lofoten ou algo do gênero, tu imaginas tripés por todo lado.

Sim.

Que é o que acontece. E eu prefiro estar ali num sítio que é menos conhecido. Porque lá está, pra chegares aos sítios mais emblemáticos, se calhar tens que fazer um esforço um bocadinho maior, já é o suficiente para filtrar um monte de gente e estás na mesma num sítio fabuloso. Além de montanhas, tem rápidos, que são giríssimos.

Uau! E isso tudo é acessível, consegue-se chegar lá bem?

Sim, algumas dessas coisas sim, até porque quando faço uma expedição, não posso pôr as pessoas que vão fotografar a fazer 30 km de montanha.

Pois.

Há de tudo, tu tens coisas acessíveis e tens coisas se quiseres fazer uma aventura um bocadinho mais Um pouquinho mais ousada, também posso fazer. Mas também tem muita coisa que está por perto. Há lá uma cascata, se não estou em erro, que não tem uma barragem. É um rio que corre livremente e tem uma queda livre, sem qualquer interrupção, é só uma queda de 300 metros.

Uau!

E é uma queda d'água fantástica, que a gente também lá foi. São sítios muito bonitos. E vais lá e estás sozinho, e eu dou valor a isso.

Pois.

Eu dou muito valor a isso, porque eu gosto de estar nesses sítios, mas não gosto de ter gente à minha volta, porque eu procuro esses sítios pra fugir das pessoas. Não me entendam mal, porque eu gosto de pessoas, mas quando vou pra esses sítios-

Gostas mais da natureza do que das pessoas. Claro, muito bem

Natureza nu. Queria mais ou menos isso.

Muito bem. Olha, Mário, estamos a chegar aqui ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Olha, guardas em casa algum objeto que tenhas trazido das tuas incursões fotográficas pelo Gerês ou por outro lugar qualquer? Mário.

No Gerês tento não trazer nada embora. Só quando a minha filha me pede qualquer coisa, às vezes trago-lhe um bocado de quartzo, que ela gosta muito de ter quartzo em casa. E às vezes trago um pouquinho de quartzo, aquela pedrinha assim muito branquinha, muito limpa. A única coisa que eu alguma vez trouxe numa viagem, que ainda há pouco estava a falar com a minha esposa sobre isso, e que achei piada a fazermos aquilo quando estivemos na Austrália.

Sim.

Fizemos um diário. Todos os dias escrevíamos o que se tinha passado. Tínhamos uma máquina com fotografias instantâneas, que também íamos colando lá. Portanto, foi um processo giro e se calhar é das viagens que faço e algo material, que se calhar é isso que eu acho mais piada e que tenho aqui guardado, porque de resto, acho que guardo tudo na minha cabeça. Não sou muito de trazer coisas ou comprar coisas ou algo do gênero. Não é algo que eu faça, mesmo.

Mário, vamos falar de outros locais por onde tens andado. Picos de Europa, aqui ao lado, dizias há pouquinho que são serras com calcário. Não fazia a mínima ideia, confesso. São muito diferentes das serras que nós temos em Portugal, os Picos de Europa?

Ora bem, os Picos de Europa são diferentes.

São mais bicudos pra começar, não é? Portanto, são aquilo que se designam por montanhas novas, é?

Sim, isso aí não vou dar uma resposta porque posso estar errado.

Ok.

Mas o que acontece é que o granito é uma pedra mais dura do que o calcário, portanto a erosão do calcário é diferente da do granito. E agora por motivos que eu desconheço tecnicamente como é que funciona, as montanhas ficam um pouquinho mais aguçadas.

Exato. Que as montanhas de granito que são mais barrigudas, não é?

Exatamente. Mas tu aí nas granito consegues perceber, porque acho que Pitões é uma serra mais nova no Gerês do que, por exemplo, a Serra Amarela. E a Serra Amarela, como é mais velha, é mais redondinha do que Pitões, sim. Mas nos Picos não faço ideia se é mais recente ou se é mais antigo, não faço ideia. Os Picos da Europa são diferentes por esse aspecto. Portanto, a nível de montanha, tem outros desafios. O calcário, se calhar pra caminhar, etc., se tu caíres podes te aleijar com mais facilidade porque corta mais, etc. Mas eu também fui, eu desta vez fui aos Picos da Europa, já fui lá duas vezes, em que passei lá algum tempo, uma semana de cada vez, acho eu. Da segunda vez até foi mais que uma semana. Mas eu fui lá por quê? Fui lá porque queria ir aos bosques de faias dos Picos da Europa.

Uau.

Porque são bosques muito densos e muito bonitos. E eu quando fiz a primeira viagem, fui com a Diana, com a minha esposa, íamos fazer uma viagem, não sei se eram 10 dias, acho eu. E o plano era fazer vários vídeos dos Picos da Europa, até porque eu estava a preparar lá. Eu sempre que vou fazer estas viagens ultimamente é pra preparar expedições pra depois levá-la lá a gente. Portanto, eu ia fazer um circuito, só que depois uns dias antes da gente sair, as previsões do tempo eram horríveis. Eram deslizamentos de terras, chuvas torrenciais e tudo por aí abaixo. E equacionamos assim: "Será que vamos?" "Vamos". E fomos. Portanto, chegamos ao primeiro sítio, que era um abrigo de montanha, não foi um hotel, foi mesmo um abrigo de montanha.

Sim.

Em que tu partilhas aquilo com toda a gente. Tomas banho cá fora e por aí fora. É muito giro, mas tem essa diferença. Só que o que eu gostei daquilo é que o abrigo estava no meio dos bosques de faias, estava aos 1500 metros, perto do limite da linha d'água, mais ou menos.

Portanto, ali faz aquele postal perfeito, não é? Que aparece nas revistas de outdoor. A cabana no meio da floresta dourada.

É mais ou menos isso, só que o problema aqui é que eu não fotografo qualquer coisa que apareça na paisagem. Ana ou Mário não fotografam. Portanto, não há cabanas nas minhas fotografias.

Ai, não?

É como eu te digo, quando vou pra esses sítios, eu gosto de ver as árvores e nada mais.

Sim.

Portanto, a cabana fica no sítio dela e eu vou pra longe e estou no meu sossego. E também é um sítio que é fabuloso, aquilo ainda é Castilha e Leão. Mas é fabuloso.

Pois é ali na fronteira, entre Castilha e Leão e as Astúrias.

Tínhamos o plano de fazer ali um circuito, mas como o tempo estava mau, decidimos ficar lá cinco dias no refúgio, no abrigo de montanha, e foi a melhor decisão da minha vida.

Então?

Porque fotografei aquilo ali à volta, porque aquilo tem muito pra fotografar.

Ah, quando dizes ficar no abrigo, é ficar por ali.

Ficar por ali, sim.

Não é ficar dentro do abrigo.

Não.

Que isso é de loucos.

Até porque davam chuva torrencial e choveu uma noite.

Ok.

Foi fabuloso. E andei a fotografar aquilo ali à volta e mais uma vez Foi o tempo suficiente para criar uma relação com as pessoas que tomam conta do refúgio. Portanto, agora já falo com eles de uma forma mais amigável, já pergunto como é que aquilo está, se dá para lá ir, como é que está, como é que vai ficar, essas coisas todas. Mais uma vez, criam-se essas relações um pouquinho mais próximas com as pessoas, que quando voltei lá este ano já foi diferente. Já me conheciam, já és tratado de outra maneira. É diferente. Já há uma relação mais íntima entre as pessoas e eu dou muito valor a isso.

Conhecem-te. Na verdade, conhecem-te.

Quando chegas, já és uma pessoa que eles conhecem.

Já sabem quem tu és e ao que vens.

Exatamente.

Conta-me sobre os Picos de Europa. Quem estiver a pensar ir conhecer esta zona de Espanha, como dizias há pouco, entre Castilho e Leão e as Astúrias, deve começar por onde, Mário?

Depende muito do que tu gostas. Se tu gostas de montanha e de fazer uma coisa mais fácil, tens ali aquela coisa que toda a gente faz, que é a Ruta del Cares, que pelos vistos é bonito. Eu nunca lá fui, só comecei um pouquinho, mas vi muita gente vir para trás.

Que é aquele caminho que fica numa escarpa, não é?

Sim, aquilo é um vale, basicamente, tu andas pelo meio do vale. Aquilo é lindíssimo, mas tem muita gente, é uma coisa que me afasta logo. Isso aí vês montanhas cá de baixo. Se quiserem montanhas mais em cima e se tiverem algum à vontade com a montanha, eu acho que é um sítio que por acaso eu era para ir nessa viagem e não fui por causa do mau tempo, e aí não dava mesmo para ir, que é um refúgio de montanha, que é o Collado Hermoso, que já está a 2 mil e tal metros e que tens uma vista brutal sobre grande parte do Maciço Ocidental, que foi onde eu estive agora. Quem gostar de bosques pode ir ao Maciço Ocidental, que é um maciço que é partilhado com Castilha e Leão, e ali a zona de Sahambra, que é logo ali à entrada, que é mesmo na ponta sudoeste dos Picos da Europa, é uma mancha verde, que aquilo são só faias, nem que seja só para andar pelas estradas de carro, aquilo no final de outubro, início de novembro, se calhar pelas estradas mais na primeira semana de novembro ou segunda, aquilo nas estradas é lindíssimo.

Tudo dourado, não é?

Tudo dourado.

Muito bem. Como é que dizias que era o nome desse abrigo? Collado Hermoso.

Collado Hermoso.

Collado Hermoso, muito bem.

Esse é o de montanha.

Ok, Collado Hermoso. E depois, quem gosta de andar a pé deve fazer a Ruta?

Ruta del Cares, que é um sítio fácil, com acesso fácil, e que tem apoio logístico, restaurantes, etc. E depois, se quiserem bosques, irem para a zona de Soto de Sajambre, que é ali no sudoeste, como eu disse, em Soto de Sajambre, tem uma aldeiazinha e depois tem lá muitos trilhos que passam pelos bosques.

Muito bem.

É fabuloso.

Muito bem, só boas sugestões para escapadinhas de fim de semana no Gerês e nos Picos de Europa, este programa.

Eu agora vou lá em fevereiro, dia 9, mais uma vez ao mesmo local, apesar do abrigo estar fechado. É um sítio um bocado agreste para ir em fevereiro. Toda a gente com quem a gente fala que vamos lá em fevereiro nos dizem para não ir, porque não vamos lá fazer nada. Mas eu quero mesmo ver aquelas mesmas aves, mais uma vez voltar ao mesmo local, ver as mesmas aves, fotografar as mesmas aves, porque mesmo quando estás a fotografar, é bom teres uma relação de proximidade com o que tu fotografas, com o sujeito que fotografas, com o que conheces bem. Como falaste há pouco, quando é que cai a folha, quando começa a nascer a folha, todas essas coisas fazem diferença. E vamos lá no inverno, ao mesmo sítio, em autonomia, ver o que é que conseguimos fazer.

Muito bem.

Vai ser uma aventura do caraças.

Vai ser uma aventura. Claro que sim. Boa aventura, Mário. Olha, quero que me fales também de outra aventura que viveste, que foi viajar na Austrália de autocarro durante um mês. Fizeste essa viagem com a tua mulher, Daniela, não é?

Não, Diana.

Diana, peço desculpa. Em que contexto é que aparece essa viagem de autocarro, Mário?

Isso foi muito engraçado. Nós estávamos a viver em Oslo.

Sim, na Noruega.

Na Noruega. E portanto, durante o doutoramento dela, ela teve uma parte do trabalho de campo que foi feita na Austrália, em Brisbane.

E era sobre o quê o trabalho de campo?

Ela trabalhou com aves e basicamente estudava o esperma das aves. Era basicamente a seleção sexual e como é que aquilo funcionava. Era um pouquinho também o que eu trabalhava com os peixes, na verdade. Ela tinha que ir para lá quatro meses, e foi julgo que em outubro, novembro e dezembro, ou setembro, foi de setembro a dezembro, acho eu. E depois o plano era eu ir ter com ela em janeiro e ficarmos lá um mês a viajar. E então, o Mário, com 30 anos na altura, ou 29, já não me lembro, decidi ir tirar a carta, porque eu não tinha carta na altura. E então, muito ingênuo, fui tirar a carta para alugar um carro.

Ok. Foste tirar a carta em Portugal ou na Noruega?

Não, tirei em Portugal. Enquanto ela esteve lá, eu vim para cá.

Muito bem, então foste tirar a carta para fazer essa tal viagem lá na Austrália.

Mas mal sabia eu que tinha que ter a carta há X tempo para poder alugar um carro. E portanto, foi uma desculpa para eu tirar a carta, porque se não se calhar ainda hoje não tinha carta. Não faço ideia. Mas pronto, o certo é que depois tivemos que comprar um bilhete de autocarro

Sim. Então deixa-me perceber, conseguiste tirar a carta, passaste no código, essas coisas todas?

Tudo.

Ok.

Só que depois chegou a hora da verdade e reparei que precisava ter a carta há um ano para poder alugar um carro, portanto fui tudo por água abaixo.

Ok.

Então compramos um bilhete de autocarro em que tu podes usar o autocarro, só podes fazer num sentido. Começámos em Cairns, no norte, acabámos em Sydney e portanto só tens que ir à app, dizer que vais sair dia X do sítio Y até ao outro e tens o teu lugar reservado. E aquilo acho que era 80 dólares ou coisa do gênero.

Portanto é uma espécie de um bilhete Interrail, mas válido para autocarro na Austrália, não é?

Exatamente.

Pois.

E houve essa história que eu te falei de termos feito um diário, foi muito giro.

Sim.

E também houve alguns choques.

Conta.

Que era do gênero, quando chegamos a Cairns, comer aquela porcaria, aquilo já é tropical. E em janeiro aquilo era 40 graus e chuva.

Isso é que norte da Austrália?

É nordeste.

Nordeste.

Portanto aquilo é muito quente e úmido. Tu ias tomar banho, saías, secavas, estavas igual. Não fazia diferença. E o primeiro hostel que a gente alugou para ficar a dormir, eu lembro que estávamos a dormir mesmo em frente à piscina que estava no centro do hostel e tínhamos só a porta aberta com uma rede para os mosquitos. Eu lembro-me de adormecer e passado uma hora ou duas estar-me a pingar água na testa do teto, de estar ressoado, do calor e da umidade.

Caramba.

E era do gênero limpar o teto com a toalha, voltar-te a deitar e passado uma hora outra vez a pingar. Portanto, era impossível dormir. E depois mudámo-nos para outro, que era muito manhoso, porque se chamava Asylum.

O asilo.

O nome já dizia tudo. A gente arriscou, mas até foi engraçado, porque a gente até foi dormir cedo nesse dia, porque tínhamos o dia a seguir que tínhamos que mudar. Era um sítio muito particular, digamos.

Mas fala-me da Austrália, Mário.

Austrália. Aí nessa cidade, o que eu achei engraçado é que tu estás a passear à beira da praia e tens um sinal a dizer: "Não andes junto à água porque há correntes de água salgada". Nem sequer podes andar junto à água. E uma coisa gira, para desencorajar ninguém de lá ir, mas eu acho que a Austrália, pelo menos na minha opinião, é supervalorizada. Aquilo é giro, mas nós temos igual aqui ou melhor na Europa.

Ai é? Estabelece aí um termo de comparação entre o que viste lá e o que se pode ver aqui na Europa. Lá na Austrália.

Na Austrália tu tens as praias, que o pessoal vai lá para ver as praias.

Sim.

Pronto.

São muito diversas, porque há praias no Oceano Índico.

Eu só estive daquele lado. Mas isso é a mesma coisa, porque quando comparas a Austrália, não podes comparar com Portugal, tens que comparar com a Europa, porque é o mesmo tamanho. Portanto, também tens praias do norte da Europa, praias do sul da Europa.

Verdade.

Se meteres a Austrália, não podes comparar com países, tens que comparar com o continente.

Ok. Portanto, tu tiveste a oportunidade de ver a Austrália que fica no lado do Oceano Índico.

Oceano Pacífico, virado a este.

Ok. Sim, desculpa, exatamente.

E fui a muitas ilhas por ali fora. Praias de areia branca lindíssimas, só que tem um problema muito grande para mim, que a temperatura da água é a temperatura do ar. Portanto, tu estás ali e aquilo para mim era desconfortável, na verdade. Eu não conseguia refrescar, nem conseguia estar ao sol.

Portanto, tu rejeitas aquilo que toda a gente procura, águas quentes.

Quando tens o ar a 40 graus e a água a 35, não me digas que estás confortável, cara.

É pá.

É muito calor. Portanto, quando cheguei a Sydney era muito mais fixe.

Sim.

Tinhas água normal, já estás cá embaixo. Mas lá para cima aquilo é infernal. Principalmente nessa altura do ano, que também era a altura mais quente, acho eu. Ainda por cima, quando fomos a uma dessas praias numa ilha, que fomos de barco, a ideia das pessoas era irmos para a água com um fato de mergulho, porque havia as alforrecas.

Sim. Alforrecas.

Alforrecas.

E medusas, sim.

Medusas, e que tu tinhas que vestir aquele fato para não seres picado. Está 40 graus, tens que vestir um fato preto. Não, obrigado. Mas aquilo é giro, atenção, eu estou aqui a dizer isto, mas aquilo é giro.

Recomendas.

Recomendo.

E é fácil viajar de autocarro pela Austrália?

É superfácil.

Quem é que viaja de autocarro pela Austrália?

Muita gente.

É?

Sempre cheios, pessoal de todas as idades.

A sério?

Sim, e a gente até encontrou lá uma pessoa que depois morava em Gotemburgo e acabámos por nos encontrar com ele mais vezes depois de regressarmos. Aquilo era giro porque tu estavas a fazer a viagem de autocarro, passavas de uma cidade para a outra e aconteceu várias vezes tu reencontrares pessoas em diferentes pontos. Quando chegavas à estação de autocarro para entrar no autocarro, encontravas um gajo que era vias para uma semana. Isso era engraçado, porque tínhamos histórias para partilhar. E como as viagens eram longas, tinhas tempo para partilhar as histórias no autocarro.

Pois, que aquilo é um país gigante. Aquilo é um continente, não é?

Aquilo é enorme.

Pois.

E depois viagens de noite, 12 horas, que era suposto um gajo dormir, mas depois com tanta coisa para contar uns aos outros, quase nem se dormia. E foi uma experiência gira, e aconselho a irem lá, mas eu se tivesse que gastar o dinheiro que gastei na Austrália, na Europa, eu acho que a diversidade que tens na Europa ia ser sempre superior à que tens na Austrália. São coisas diferentes.

É um país continente muito monotemático, é isso?

Atenção, porque eu não visitei o continente todo. Eu estive numa costa.

Ok.

Estou extremamente enviesado. No entanto, se eu fizer uma costa com aquela dimensão, que foram 2 mil km, se tu começares aqui onde eu estou agora, no Porto, e fizeres 2 km de costa para cima, acho que tu vais te surpreender muito mais do que se fizeres 2 mil km de costa na Austrália.

Pois.

Do Porto até o norte de França ou algo do gênero. Para mim é mais interessante. Mas se tu gostares de praias de areia branca, em que só tens água à frente, é fixe.

Muito bem. Olha, Mário, isto passa a voar. Como sabes, estamos aqui na reta final do programa, vamos fazer check-out.

Vamos lá.

Peço-te para completares as habituais frases: "Na minha mala vai sempre..." O que é que não falha?

Hoje em dia vai sempre a máquina fotográfica.

É. Não és daqueles que recorre ao telemóvel, por melhor que seja?

Não.

A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual é que foi, Mário?

Com mais peripécias? Acho que foi a da Austrália, porque foi a maior. O número de peripécias que foram acontecendo, foi essa, porque houve coisas boas e más, mas foi a Austrália.

Qual foi a pior coisa que te aconteceu nessa viagem da Austrália?

É muito má, porque foi ao chegar. Uma pessoa morreu no avião em que eu estava a chegar a Sydney.

Caramba!

Teve que entrar a polícia, médicos, foi grande filme. E quase que perdi a ligação. Por acaso não perdi. Mas por causa disso também perdi os meus óculos. Os óculos de ver e de ler. Perdi um casaco. Nessa confusão toda, perdi tudo. Infelizmente, a senhora perdeu a vida, que é muito pior.

Pois.

Esse foi o pior episódio dessa viagem, sem dúvida.

Pensaste: "Bom, isto vai correr tudo mal". Foi?

"Setting the tone". Já está.

O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter até hoje, qual é que foi, Mário?

Nunca tive esse problema, porque nunca viajei para países em que isso fosse complicado. Por isso, para essa pergunta não tenho uma resposta.

Muito bem. A recordação de viagem mais cara?

Mais cara? Também não tenho, porque como eu disse, não compro nada.

Não compras nada. És um viajante poupadinho. A refeição mais estranha, qual é que foi?

Essa tenho, acho eu.

Então vá.

Foi crocodilo.

Crocodilo, na Austrália?

Na Austrália, claro.

É bom?

Estranho no sentido de pedir crocodilo, porque depois comes aquilo e é carne normalíssima.

É?

Sabe meio a galinha.

É carne branca.

É mais branca. E também comi canguru e wallaby, mas a mais estranha foi mesmo crocodilo, porque é um animal que eu nunca pensaria em comer. Um réptil.

Gigante.

Gigante.

Olha, Mário, gostava de viajar com?

Eu, para viajar com, seria sempre a mesma escolha, seria a minha esposa, a Diana.

Muito bem. Escolha conservadora.

Conservadora. É a melhor escolha.

É a melhor escolha, conservadora e legítima. Mário, chegamos ao fim. Que música é que escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?

Para fechar a conversa, vamos ouvir Pink Floyd, "Shine On You Crazy Diamond".

Uau, boa escolha. Pink Floyd, então, a fechar a conversa do "Fim do Mundo". Mário, foi um gosto, obrigado.

Igualmente, João.

Boas fotografias e manda notícias quando sair o teu livro sobre o Gerês.

Com certeza.

Vamos ficar à espera dele. Pink Floyd a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. A música chama-se "Shine On You Crazy Diamond". Estamos de regresso na próxima semana. Pode ouvir-nos em podcast. Sejam bons e boas viagens. Now there's a look in your eyes like black holes in the sky. Shine on you crazy diamond. You were caught in the crossfire of childhood and stardom, blown on the steel breeze. Come on you target for faraway laughter. Come on you stranger, you legend, you martyr, and shine. You reached for the secret too soon. You cried for the moon. Shine on you crazy diamond. Threatened by shadows at night, and exposed in the light. Shine on you crazy diamond. Well, you wore out your welcome with random precision, rode on the steel breeze. Come on you raver, you seer of visions. Come on you painter, you piper, you prisoner, and shine