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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana gosta de inspirar os outros a viajarem com os filhos, porque é muito assim que tem conhecido parte do mundo. E foi em parte por isso que criou o blog "Berço do Mundo". Europa, Ásia, África e Brasil, onde viveu durante um ano, foram até agora os seus destinos e quis o destino que a vida da nossa convidada começasse numa viagem, durante uma fuga apressada dos pais de Angola em 1976. Rútia Portelinha, bem-vinda às Conversas do Fim do Mundo.

Obrigada, João. Obrigada pelo convite.

Rútia, vamos começar pelo início, pelo teu nascimento e pelo teu nome. Há uma razão para te chamares Rútia. Qual é?

É uma razão que tem a ver com esse início atribulado da minha vida. E que a minha mãe foi mais protagonista do que eu, coitada. E o que aconteceu foi que eles moravam em Angola, já tinha havido a independência, e eles mantiveram-se na esperança que a situação melhorasse. Mas certo dia bateram-lhes à porta e disseram: "Isto vai ser bombardeado hoje à meia-noite, estamos a evacuar todos os portugueses para regressarem a Portugal". E a minha mãe estava grávida de mim, meteu meia dúzia de trapos numa mala e foram apanhar o meu pai ao trabalho e seguiram. Seguiram em caminhões militares, numa coluna, estrada afora, picada africana, para atravessarem a fronteira e apanharem o avião de volta. O que acontece é que eu não gostei particularmente daqueles solavancos e a minha mãe entrou em trabalho de parto. Acabei por nascer já do outro lado da fronteira, num hospital evoluído ou de "primeiro mundo", entre aspas, porque fazia parte da África do Sul.

Na Namíbia. Portanto, foste nascer à Namíbia.

Na atual Namíbia, que na altura ainda não era um país independente. E quem ajudou o parto foi um cirurgião militar que nunca tinha feito um parto na vida e que ficou muito sensibilizado com a situação e levou todos os amigos a conhecerem-me no campo de refugiados para onde fomos logo a seguir. E eu fiquei com o nome de uma tradutora local do cônsul britânico, que registaram, meteram no avião.

Que nunca soubeste quem era, não é? Nunca conheceste.

Nunca soube quem era. Naquelas situações de limite, a minha mãe também não tem o contato com muitas das pessoas com quem partilhou aquelas horas. E cheguei a Portugal com uma semana.

E chegaste a Portugal com uma semana. Portanto, és africana, nascida em África, mas com a vida toda em Portugal. África, Rútia, sempre te alimentou o desejo de viajar ou nunca te disse nada?

Disse. Mesmo antes de começar a viajar. Toda esta história que nos contam mexe com o nosso imaginário, como é óbvio. E quando eu criei o blog, dei-lhe precisamente o nome "O Berço do Mundo" para lembrar isso, que a África, que dizem que é o berço da humanidade, estava ali à minha espera. É como um lembrete subconsciente de que as minhas raízes estavam por explorar. E infelizmente, ainda não regressei à Namíbia. Estava uma viagem marcada para o ano de 2020, teve que ser cancelada.

Como quase tudo nas nossas vidas, não é?

Pois é. Aproveitamos para redescobrir Portugal nessa altura, que também foi bom, que também é um país lindo. Mas já estive em vários pontos do continente africano. Aliás, estou em África neste momento.

Exatamente. Vives agora na Costa do Marfim.

Exato, na Costa do Marfim.

Como é viver na Costa do Marfim, Rútia?

Olha, é interessante.

É interessante. Pelo menos estás no país certo, porque ouvi dizer que és uma grande fã de comer chocolate. Tu estás no país que é o maior produtor de cacau, portanto, estás no céu.

Exatamente. Aliás, antes da decisão de nos mudarmos, o meu marido estava em Angola quando recebeu o convite para vir para aqui. Ele levou-me para Portugal uma tablete de 2 kg de chocolate negro. Eu acho que foi toda uma operação de charme.

Foi assim que ele te comprou.

Foi.

Mas conta-me, como é a Costa do Marfim, Rútia?

Olha, é um país grandioso em termos de paisagens naturais. Tem uma cidade, que é onde moramos, Abidjan, que não tem nada a ver com o resto da África, nem o resto do país, portanto, é muito desenvolvida para os padrões africanos. Tem os seus prédios altos, espelhados, tanto que lhe chamam, de uma forma um pouco exagerada, como é óbvio, e dramática, a Manhattan africana.

Uh!

Sim, mas tem hotéis cinco estrelas, tem bons restaurantes, tem internet, mas que não é o país. Não representa os 90 e tal por cento do território. E existem parques naturais magníficos. Um deles, por exemplo O Parque Tai, na zona Oeste, que integra a floresta primária daquela região da Guiné, que já resta muito pouco. O habitat, por exemplo, do hipopótamo-pigmeu, que está em vias de extinção. Depois também tem a parte sul com uma costa extensa, portanto, algumas estâncias litorais populares, com praias lindíssimas, água quentinha.

Uau! É fácil viajar pela Costa do Marfim? Um cidadão europeu tem facilidade em viajar por esse país africano?

Não, não é um destino para toda a gente. Tem algumas dificuldades que partilha com outros destinos africanos, portanto, longas distâncias, uma fraca infraestrutura, por exemplo, em termos de redes de transportes públicos. Algumas alturas do ano, na época das chuvas, particularmente, que as estradas podem estar intransitáveis, simplesmente. As deslocações ou podem ser impossíveis ou pode uma viagem que a gente planeou para duas ou três horas transformar-se no dobro. E também tem uma agravante que é o que existe em termos de infraestruturas hoteleiras, etc. Falam francês, pouca gente fala inglês.

Mas é um país seguro, não é? Sentes isso ou não?

Posso andar tranquilamente na rua, o que não fazia, por exemplo, em Luanda, e isso é um bônus, por isso nos dispusemos a mudar, viver cá. Mas temos que ter alguns cuidados básicos, como em qualquer parte do mundo. Em Roma, ser romano, adaptarmos às tradições locais. Por exemplo, sendo a maioria da população muçulmana, muitos não gostam de ser fotografados, portanto, ter o cuidado de pedir antes ou perguntar se não há problema. Não ostentar riqueza, quer dizer, tal como no Brasil, quando eu lá morei. Não andar com joias, não andar com o telemóvel muito caro na mão.

O ideal é tentar passar despercebido, não é? Se passarmos despercebidos, a coisa vai, é isso?

Sim, se bem que quando o nosso tom de pele é muito diferente, às vezes é mais difícil.

Claro. Muito bem. Olha, Rútia, tu criaste o blog, o Berço do Mundo, onde vais escrevendo as viagens que foste realizando nos últimos anos. Como é que te surgiu o desejo de viajar?

Eu acho que a maior parte das pessoas gosta de viajar, ou só não viaja quem não pode. Conheço algumas pessoas, muito poucas, que não gostam de viajar, não gostam de ir a lado nenhum. Felizmente, a vida tem me proporcionado algumas hipóteses de o fazer, sendo certo que eu não vivo das viagens, portanto, sempre tive os 22 dias de férias como os comuns mortais.

Mortais, sim.

Tenho também a agravante que, estando miúdo em idade escolar.

Estás mais limitada, não é?

Exatamente. Tenho algumas condicionantes em relação às épocas em que podemos viajar. Normalmente as férias escolares também é tudo um pouco mais caro. Depois quando o Pedro andava no primeiro ciclo, era fácil, metia uns diazinhos.

Com essa idade eles podem faltar às aulas, não é?

É, sim, falava com a professora. Fomos fazendo umas esticadinhas, mas a partir de uma certa idade, para já não é tão fácil. E ele próprio mostrava-se algo incomodado de ter que faltar às aulas, então desisti.

Desististe de viajar, mesmo?

Não. Nunca.

Então, não percebi.

Desisti de querer esticar as férias com alguns períodos em que ele pudesse faltar às aulas.

Já vamos falar desse aspecto das viagens com as crianças, porque tu tens orientado o teu blog nesse sentido, de promover as viagens com as crianças. Gostava de me deter aqui no momento da tua vida em que tu vais para a China para aprender ou para aprofundar os teus conhecimentos de língua chinesa. Conta-me essa parte da tua vida, que é também um episódio de viagem, não é?

Basicamente, o curso de verão de chinês foi uma desculpa para poder ir à China.

Ah.

Como é óbvio. Aliasso o útil ao agradável. Mas claro, quem está a aprender chinês tem sempre aquele bichinho adicional de curiosidade. E para além disso, eu também faço revisão de texto e faço muita revisão de teses de mestrado e doutoramento de alunos chineses. Portanto, havia sempre ali aquelas partes culturais que me despertavam muito a atenção.

Tu és falante de chinês.

Não sou fluente. Para ser fluente, nível nativo, é preciso muitos anos, muito empenho, muita dedicação e persistência. Mas tenho um nível mínimo para me desenrascar na China e para dar aulas a crianças e aos níveis básicos a adultos em Portugal.

Portanto, quando foste à China, já sabias minimamente ler e falar chinês.

Pouco. Estava a estudar há um ano apenas, portanto sabia ler alguma coisa. Falar é mais complicado, é uma língua a que estamos pouco expostos no nosso dia a dia, as oportunidades para falar não são muitas. E também a própria oralidade não é fácil, por causa dos tons.

E aí foste tu para a China para aprender e para aprofundar os teus conhecimentos de língua chinesa. Como é que é o ensino lá, mesmo sendo um curso de verão, há diferenças em relação, por exemplo, ao ensino em Portugal, na mesma modalidade? Eles são tão disciplinados e tão dogmáticos como aparentam ser?

São. Levam os estudos a sério. E as aulas de chinês exigem algum empenho, algum comprometimento, porque senão é fácil perder a carruagem. Claro que os ocidentais têm toda uma outra filosofia. E é engraçado, eu também dei aulas de português a alunos chineses universitários, na Universidade do Minho. Quando eles chegam a Portugal e veem como é o ambiente educativo em Portugal, ficam um pouco atrapalhados no início, porque estão habituados a uma sala de aula muito mais rígida, em que o professor é a autoridade e não deve ser questionado, raramente é interrompido.

É o mestre.

Sim. Então todo o nosso contexto de interromper o professor, questionar o professor, é confuso para eles no início.

Claro. Aconteceu-te isso quando foste para a China para aprofundar os teus conhecimentos de língua chinesa, interrompias o professor e ele levava a mal isso?

Não, já são professores especializados em ensino para estrangeiros. Normalmente são pessoas com alguma coisa viajadas, com uma outra mentalidade.

Já estão preparados para isso.

Sim, e eu acho que também lentamente, que as coisas vão mudando, as mentalidades demoram gerações às vezes a mudar, mas vão mudando. E foi interessante ver isso durante alguns anos que dei as aulas aos alunos chineses, que como alguns já vinham com uma mente mais aberta, menos formatada, entre aspas. Mas claro, isso são uma minoria, os que têm capacidade ou financeira para viajar pela Europa ou para estar muito tempo no estrangeiro. Mas é o caminho. Portugal também não vai assim há tanto tempo que uma viagem ao estrangeiro era um luxo.

Era um luxo, exatamente. E hoje em dia é quase uma coisa banal. Enfim, não para toda a gente, mas para muita gente e cada vez mais. Olha, o que te levou a estudar língua chinesa e a ir à China?

Olha, a curiosidade surgiu, eu sou da área das línguas, fiz vários trabalhos na área das línguas e depois comecei muito com a revisão de texto, porque também me permite trabalhar em qualquer ponto do mundo. Como eu fui para o Brasil, larguei tudo para ir para o Brasil. É uma atividade, embora irregular, que dá para fazer em qualquer ponto do planeta.

E o chinês é uma língua do futuro, não é? Porque eles são muitos e há muita necessidade. É, sente-se isso? Portanto, não te falta trabalho, é isso?

São muitos. Sim, o passa a palavra funciona muito bem e às vezes recebo e-mails: "Eu tive um amigo que corrigiste-lhe a tese de mestrado e doutoramento no ano não sei o quê, e ele deu-me o teu contacto". Isso acontece muito. Mas lá está. Apareciam-me muitas teses de alunos chineses que aprendem três anos de português na China, depois vêm para Portugal fazer um mestrado ou um doutoramento e são obrigados a escrever em português a sua dissertação final. E é complicado, tal como para quem aprende chinês, se tivesse que ir fazer, na China, um trabalho acadêmico deste nível. E precisam sempre de ajuda. Depois havia sempre ali aquelas partes que eu não conseguia perceber se estava bem ou se não. Quer dizer, corrigia o português do ponto de vista gramatical, ortográfico, etc. Mas depois eles punham o original, porque usam, como é óbvio, muitas fontes chinesas e punham o original em rodapé e eu não conseguia ajudar no sentido de: "Esta tradução não está bem feita, deveria antes ser assim." Aquilo começou a mexer comigo e decidi estudar chinês. Estudei chinês em Portugal.

Muito bem. Estamos à conversa com a Rútea Portelinha, estamos a chegar ao final da primeira parte, abrimos o álbum de viagem. Rútea, guardas algum objeto das tuas viagens com especial carinho?

Eu não compro muitas lembranças. Tento ser contida e ter algum cuidado com não consumir algo que realmente não me seja útil, não seja necessário.

Ainda assim.

Tenho um objeto que veio do Brasil, nem foi comprado por mim, foi oferecido por uma grande amiga que eu lá tenho, a Teresa Que me ofereceu uma namoradeira.

O que é isso?

Uma namoradeira é uma peça em barro, normalmente de uma negra, que está à janela a receber os galanteios masculinos e que é muito característica do interior de Minas Gerais.

É uma espécie de carochinha?

É uma pessoa, mas está à janela. Sim. E faz-me recordar esse período em que estivemos no Brasil e faz-me recordar, em particular, o estado de Minas Gerais, que eu sou completamente apaixonada por ele e é por causa da Teresa. Apaixonada pela comida, apaixonada pelas pessoas, pelos locais e pela literatura. A Teresa tomou como missão educar-me na literatura brasileira.

Essa tua amiga, não é? Então vamos guardar o estado de Minas Gerais para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo com Rútia Portelinha, batizada por um cirurgião sul-africano na Namíbia. Foi aqui que tudo começou, foi neste país africano que começou a viajar, a Rútia, numa história que já nos contou na primeira parte. Rútia, acabamos a primeira parte a falar de Minas Gerais, no Brasil. Tu dizias que és muito apaixonada por este estado. Por quê? O que ele tem de tão especial que nós não podemos perder?

As pessoas, eu acho. Todo o Brasil é bonito e é muito diverso, quer dizer, as paisagens do sul não têm nada a ver com o norte. E eu não conheci todo o Brasil. Estivemos lá um ano a morar e a gente pensa sempre que tem tempo para explorar e acabamos por regressar mais cedo do que estava previsto e eu não viajei o que poderia ter viajado no Brasil. Mas Minas Gerais, já lá tinha estado anteriormente, quando era uma jovem universitária. Foi quando conheci a Teresa.

A tua amiga. A tua grande amiga brasileira.

E quando regressei para morar, fui visitá-la com alguma regularidade. Conheci um pouco da Serra do Cipó, que tem umas cachoeiras lindas.

Cascatas em português, não é?

Sim, eles chamam as cachoeiras, é um destino simpático para quem gosta de ecoturismo, trilhos, etc. Tem as pequenas vilas imperiais, Ouro Preto, Tiradentes, Mariana, que têm ainda aqueles vestígios da época em que o Dom Pedro lá esteve.

Do período colonial, não é?

Sim, a época colonial e que faz-nos lembrar Portugal, remete-nos para Portugal, por exemplo, as igrejas de Ouro Preto. E depois a comida. A comida mineira é maravilhosa.

O que se come em Minas Gerais?

Come-se o feijão tropeiro, os doces com o queijo local, muita fruta, come-se comida com substância, digamos assim.

Muito bem. Olha, tu tens viajado muito nos últimos anos com um companheiro especial, o teu filho, não é? O Pedro, que já falaste dele na primeira parte. O que sentes que as viagens têm feito pelo teu filho, que tem agora 11 anos, 12?

Já tem 13.

Já tem 13. Isso passa rápido.

É verdade. Olha, viajar com o Pedro surgiu natural, aliás, grande parte do tempo estava eu sozinha com ele, com o marido a trabalhar no estrangeiro, portanto, eu queria viajar, eu levava o miúdo atrás. E, claro, com algumas adaptações e com alguns cuidados. Comecei pela Europa, porque é o mais fácil, o mais seguro, até porque há muita gente que viaja com crianças, mas viajam em casal. E sendo eu sozinha com uma criança, tenho a responsabilidade, entre aspas, sinto-a um pouco acrescida.

Ele começou a viajar contigo com que idade, Rútia?

Com meses, talvez. Depois começamos de carro, mais de carro. Com avião a partir dos dois anos e qualquer coisa. E a partir daí nunca mais parou, a ponto de se passarmos algum tempo sem viajar, ele queixar-se. Sim. Isso estou plenamente consciente.

Já tem ressaca de viajante.

Já tem. E quando começamos a viajar, ele tinha muita curiosidade, olhava para o mapa e dizia: "Mas aqui é o quê? Que país é este? Que língua é que se fala? E o que eles comem?" Quando íamos a algum lado, ele tinha que ter sempre um mapa para ele e a partir de certo momento, ele já é quase o guia. Ele desenrasca-se muito bem nos transportes públicos, as linhas de metrô, passado um dia ou dois, domina as linhas de metrô de uma cidade europeia com muita facilidade. E não raras vezes é ele que me diz: "Não é deste lado, é no sentido contrário", e normalmente tem razão.

Eles aprendem rápido, não é?

Sim, e eu acho que também é uma forma de educar.

Exatamente.

Dar-lhes mundo é tão importante como lhes dar hábitos de higiene básicos Mostrar que o mundo é muito diverso, que há pessoas que pensam, que vivem, que comem de maneira diferente. Mostrar que há crianças que têm um décimo do que ele tem e são felizes também. E para que cresça a não olhar a diferença com estranheza, mas com abertura, com acolhimento, com tolerância.

Sentes que ele tenha apreendido isso?

Sinto, e a prova foi este ano, que nos mudamos agora para a Costa do Marfim. Ele está num colégio internacional que tem crianças de 80 nacionalidades e ele não teve problema nenhum de adaptação.

Isso é fantástico.

Fala do Muhammad como fala do Simon, como fala da Yasmin. De vez em quando menciona alguma especificidade, como é normal.

Porque são todos diferentes, não é?

Porque são hábitos diferentes. Por exemplo, comentou comigo o facto de algumas meninas não quererem fazer natação na aula de ginástica, porque são muçulmanas. Portanto, pequenas coisas em que ele já recebe, comenta, porque ocorreu, mas não comenta com preconceito. E isso é bom.

Ótimo. Qual é o conselho, Rútia, que podes dar a pais que estejam nesta altura a ouvir-nos e a pensar: "Também quero viajar com os meus filhos por esse mundo fora". É difícil, é fácil, é um ato banal, normal?

Com o tempo torna-se banal. É descomplicar. Claro, quando eles são bebês, a logística é outra e a quantidade de tralha que temos que carregar é outra. Depois, com o tempo, vai descomplicando e vai se tornando cada vez mais fácil. Mas depois as recompensas, ainda que a logística inicialmente possa ser um bocadinho mais chata, e a forma de viajar também se altera, qualquer coisa. Quer dizer, é preciso haver o tempo para eles brincarem. Conheci os parques infantis dessa Europa toda.

Foi?

Meti conversa com mães e avós que falassem ou não falassem inglês. E o Pedro também meteu conversa ou comunicou através de gestos e brincou com crianças de várias nacionalidades. É preciso ter atenção ao tempo das sestas, não os maçar demais, esse tipo de coisas. Com o tempo, acabam por ser eles a puxar por nós. E depois são as memórias que se criam. Fazer indoor skydiving em Espanha ou conhecer Bratislava de segway, ou descer os carrinhos do monte na Madeira, ou comer waffles na Bélgica, ou ver girafas num parque, numa reserva natural em Angola, ou pisar a Calçada dos Gigantes na Irlanda do Norte, ou meter conversa com os pastores em Piteões das Júnias, que também aconteceu. Acampar ao longo da Costa da Morte, só eu e ele, ou apreciar juntos a última ceia em Milão, ou assistir a um concerto do Mozart no Salão Dourado, o Musikverein em Viena. Quer dizer, são coisas que mesmo que ele já não se lembre de certos detalhes, fazem parte dele.

Fica lá sempre qualquer coisa, não é?

E muitas delas ele já comenta. Claro, as mais recentes com mais clareza. Por exemplo, já não se lembra de muita coisa do Brasil.

Mas tu sentes que as viagens, de alguma forma, o mudaram?

Sim, acho que viajar torna as pessoas mais abertas, mais tolerantes, mais interessantes. Até como alunos, do ponto de vista acadêmico, tenho tido esse feedback dos professores do Pedro, porque o conhecimento deixa de ser estanco e ele vai buscar as coisas que viu ali, as coisas que viu acolá.

Faz ligações. Cria pontes entre conteúdos que vamos adquirindo ao longo da vida, venham eles dos livros ou venham eles da experiência. E a viagem dá-nos muita experiência. Vamos avançar, Rútia. Para além de viajante, és também uma ávida leitora. Literatura de viagens diz-te qualquer coisa?

Os livros sempre me acompanharam, desde que eu me lembro como gente. Aliás, as primeiras grandes viagens fiz durante as longas férias de verão, em minha casa, na adolescência, com os clássicos portugueses, que era o que havia em casa. O Eça de Queirós, o Júlio Dinis, o Almeida Garrett, que era o que havia em casa. E eu li e reli aqueles livros todos os verões, que era o que havia, e depois comecei a alargar à medida que fui crescendo com os Saramagos. E então, na universidade, tornei-me uma leitora voraz. Dois, três livros por semana, às vezes, em vez de estudar para as frequências, estava a ler.

Perde-se de um lado, mas ganha-se de outro, não é?

Sim, sem dúvida.

Claro.

Os grandes, acho que matei muito, matei entre aspas, o Olimpo da literatura nessa fase do James Joyce, ao Orwell, ao Hemingway.

Leste o "Ulisses"?

Li o "Ulisses".

Corajosa.

"O Admirável Mundo Novo" do Aldous Huxley. O Camus, o Kerouac, a Marguerite Yourcenar, que gostei muito. Foi uma fase que só lia autores de leste. Os Kafkas, os Nabokovs, os Dostoiévskis, o Sándor Márai, que gosto muito. O Tolstói! Consegui ler as 1000 e tal páginas do "Guerra e Paz".

Conseguiste?

Essa foi um bocadinho difícil.

Foi um verão inteiro dedicado a essas mil páginas?

Já não me lembro. O "Diz Aí" já foi mais tarde. Eu não me lembro quanto tempo demorou, mas foi um osso duro de roer.

Pois. Mas dizem que quem gosta de ler tem que ler obrigatoriamente esse livro, porque é considerado, se não o melhor, um dos melhores livros do século XX.

Olha, e eu não sou-

Não subscreves?

Não sou prescrevista em nada neste mundo, em nada nesta vida. Eu não digo: "Isto tens que ler, para isso tens que visitar". Cada um está por si, a minha verdade não é a verdade do meu vizinho. É uma grande obra? É. Retrata a sociedade russa de uma maneira magistral? Retrata. É um livro difícil? É. Não acredito que toda a gente o consiga ler.

Pois.

Agora, em adulta, não leio muito. Habito literatura de viagem em si, li algum ou outro livro do Gonçalo Cadilhe. Participei no livro de crônicas de viagem da Associação de Bloguers Portugueses. O que eu tento fazer é, quando tenho alguma viagem, ler alguma coisa ou que a história se passe no sítio que eu vou visitar, ou que tenha alguma coisa relacionada com a cultura. Antes de descer o Nilo, li o livro da Agatha Christie, ou li muito o Pepetela e alguma coisa do Água Luva nas minhas idas a Angola.

Portanto, corrigindo se estou enganado, procuras livros que te insiram no espírito da viagem e não tanto sobre o destino, é isso?

Sim, um pouco. E ajuda também a entender as pessoas locais, eu acho.

O mindset, o quadro mental de cada país e das populações.

O Guimarães Rosa, que é um dos autores que a minha amiga Teresa me apresentou e que diz muito sobre Minas Gerais, por exemplo.

Olha, muito bem. Guimarães Rosa, desconhecia completamente.

Tem um experimentalismo linguístico de invenção de palavras que misturam a realidade local, que faz lembrar um pouco o Mia Couto, mas aplicado à realidade brasileira.

Muito bem. Olha, estamos quase a chegar ao final do nosso programa. Rúta, vamos fazer check-out?

Já.

Vamos embora.

Bora!

Vamos embora. Vou pedir-te para completares algumas frases: na minha mala vai sempre...

Vai um coração aberto. Vai humildade para receber o outro, sem preconceitos. Ou aliás, pré-conceitos todos temos, faz parte da natureza humana, mas estando consciente disto, tento desconstruí-los de alguma forma. E a máquina fotográfica.

Tu tiras muitas fotografias?

Tiro. Se bem que a minha arte, entre aspas, é a escrita, tenho tentado melhorar a minha fotografia e acho que é uma arte muito bonita.

E a lente virada para a realidade ou é a lente virada para ti? As selfies não te dizem.

Sempre para o destino.

Sempre para o destino.

Eu apareço muito pouco. Às vezes forço-me a deixar-me fotografar, porque um dia o meu filho também vai gostar de ver como era a mãe ou qualquer coisa. Mas não, eu não sou a protagonista em nenhum aspecto da minha vida. E quando viajo, o protagonista é o destino.

É esse que importa guardar na memória. Na memória e já não se usa papel, na fotografia. Olha, o carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje, qual foi, Rúta?

Foi o primeiro a Angola, de longe. O meu marido estava lá a trabalhar há pouco tempo, não tinha direito a passar o Natal em Portugal. A alternativa era nós irmos. E tratar do visto foi um filme de terror. Cada vez que ia ao consulado do Porto, tinha informações diferentes, pediam-me papéis diferentes. E viajando com menor, também se entende que a burocracia seja um pouco mais, mas foi realmente difícil.

"A viagem com mais peripécias que fiz até hoje?"

Se calhar essa, que tudo correu mal.

Ah, em Angola.

O papel que o meu marido tinha que assinar em Angola para eu viajar com o miúdo, perdeu-se nos meandros burocráticos angolanos. Meti os papéis no último dia, os vistos saíram um dia antes do voo, os bilhetes tinham erros no nosso nome. Apanhei uma gripe descomunal, eu nunca estou doente. Viajei com uma gripe descomunal e depois, na altura, havia um surto de Ebola em África. Portanto, os aeroportos estavam em alerta, estavam a medir temperatura e não sei o quê. E ainda me passou, quando aterrei e vi aquele aparato todo, passou-me um filme tipo "Missão Impossível" em slow motion na cabeça, que me iam barrar a entrada. Nunca aconteceu nada, mas foi o que me passou. De resto, não tenho tido grandes saltos. Talvez tenha um bom carma. Alguns contratempos, uma otite do meu filho em Itália.

O normal. Agora não há grandes peripécias. Muito bem. A refeição mais estranha que comi, qual foi? Rápido, Rúta.

Na China. Não fui a nenhum daqueles mercados estranhos Não intencionalmente, mas na cantina da universidade comi imensas coisas que não faço ideia do que sejam ou sequer se seriam de origem animal ou vegetal.

Nem perguntaste.

E ainda por cima porque era o sul, a província de Cantão, no sul. Há um ditado interessante que diz: "Aqui come-se tudo o que tem pernas, exceto mesas. E tudo o que voa, exceto aviões".

Assustador. A recordação de viagem mais cara, qual foi?

Foi ter que pagar duas vezes os voos para ir ao Carnaval de Veneza. Eu marquei os voos para um mês antes do que devia, porque o carnaval era no início de março e os exatos mesmos dias, calhavam nos mesmos dias da semana em fevereiro, eu não dei conta. Quando dei conta já era tarde para cancelar, alterar era extremamente caro. Acabei por comprar uns segundos bilhetes e até hoje o meu marido não sabe disso.

Vai saber. Olha, gostavas de viajar com?

Eu gostava de viajar mais sozinha. Tive essa experiência na China, gostava, por exemplo, de fazer o Caminho de Santiago sozinha. Acho que sou uma ótima companhia. E gostava de viajar também mais com a minha mãe. Já a levei à Angola, já a levei aos Açores, mas ela não gosta de andar de avião, só que torna as experiências muito maravilhosas. Ela é uma pessoa especial. Qualquer desconhecido lhe conta a vida toda. Não estou a falar só das pessoas mais velhas. Ela uma vez foi de autocarro à Holanda fazer uma visita familiar e à chegada havia um miúdo de 20 e poucos anos a chorar no ombro dela. Tinha lhe desnudado a alma completamente durante a viagem. E eu acho que é por ela ser boa ouvinte. A arte de escutar é cada vez mais rara.

É verdade. Muito bem. Olha, por falar em escutar, que música, Rútia, trouxeste para fechar esta conversa do fim do mundo?

Trouxe Dobet Gnahoré, não sei se pronunciei bem. É uma cantora da Costa do Marfim, tenho a descoberto há pouco tempo. É uma artista de causas. Ela canta as riquezas da África, a força das mulheres africanas, é embaixadora dos direitos humanos aqui na Costa do Marfim. E canta em francês, mas também canta em alguns idiomas africanos, nomeadamente esta música é cantada em malinkê, é uma língua do Mali. E a mensagem é uma mensagem bonita de esperança, que diz para vermos a luz no mundo em vez de nos concentrarmos na escuridão.

Muito bem, e a música chama-se "Issa", não é?

"Issa".

Exatamente. Rútia Portelinha, muito obrigado por teres vindo às conversas do fim do mundo da Rádio Observador.

Eu é que agradeço, João.

Muito bem, "Issa", da costa marfinense Dobet Gnahoré, a fechar a conversa do fim do mundo desta semana, sempre a esta hora aqui na Rádio Observador e disponível lá em podcast, tanto esta como as anteriores edições. Boas viagens e até para a semana.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto