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Bem-vindos à Feira Nacional da Agricultura, em Santarém, em especial aqui ao stand do Lidl. Ao longo desta semana vamos debater temas atuais e pertinentes no âmbito desta feira. O meu nome é Ana do Carmo e vou moderar estas conversas. Hoje o tema é cultivar o amanhã, a sustentabilidade como caminho conjunto. Quando falamos de sustentabilidade, pensamos muitas vezes em ambiente, energia ou até mesmo em agricultura. A verdade é que algumas das decisões mais importantes para o futuro começam à mesa e são tomadas todos os dias. Comigo estão Vanessa Romeu, a responsável de relações institucionais do Lidl, e a nutricionista Patrícia da Costa Moura. Sejam bem-vindas às duas.

Bom dia.

Vanessa, começo por si. A Turma Imbatível celebra 15 anos. Antes de mais, apresente-nos este projeto do Lidl.

É verdade, 15 anos. Uau. A Turma Imbatível iniciou-se em 2011 e na prática é um projeto educativo que temos vindo a desenvolver, que procura consolidar aquilo que é o nosso compromisso a longo prazo com a sustentabilidade, promovendo tanto hábitos de vida mais sustentáveis a nível da alimentação, como também escolhas mais sustentáveis. O target desta iniciativa é o primeiro ciclo. Nos últimos 15 anos já impactamos mais de 200 mil alunos em 2800 visitas a escolas. E como é que nós fazemos isto? O projeto vai evoluindo em função das necessidades. O COVID nos parou. Durante o COVID adotámos a estrutura de uma peça de teatro que era divulgada via YouTube para conseguirmos chegar a quem estava em casa, mas ele de facto adapta diferentes contornos. Já foi um jogo gigante de tabuleiro, tem desafios para ser feito nas escolas. Ele procura adaptar-se aos tempos e, acima de tudo, trazer estas mensagens da importância de uma alimentação consciente, uma alimentação preocupada com a saúde, para que eles também consigam levá-las para casa.

Vanessa, estamos aqui a falar muito de alimentação e por isso eu trago para a nossa conversa a Patrícia. Patrícia, o que significa isto de comer de uma forma mais sustentável?

Para mim, o comer de forma mais sustentável é nós conseguirmos conciliar aquilo que são as nossas escolhas alimentares, que façam bem tanto ao nosso corpo como também ao nosso planeta.

É possível conjugar?

É um desafio, e com os nossos estilos de vida é cada vez mais um desafio. Mas eu acho que temos feito um bom caminho nesse sentido de mostrar às pessoas e às famílias que fazer uma alimentação mais sustentável não significa regras muito balizadas ou alimentos proibidos, mas sim tentar comer mais proteína vegetal, alimentos mais sazonais, mais locais, no fundo aproximar a alimentação àquilo que se calhar as gerações antigas tinham.

Dos nossos avós.

Dos nossos avós, exatamente.

Vanessa, o desafio lançado às escolas foi criar um menu imbatível. O que mais vos surpreendeu nas propostas enviadas pelos alunos? Porque eles foram convidados a participar neste projeto com propostas próprias.

É verdade. Seguindo a lógica dos desafios da Turma Imbatível, este ano era o menu imbatível. E por que o menu imbatível? Este ano a nossa temática central foi à volta da dieta de saúde planetária. E o que é a dieta de saúde planetária? Basicamente é o modelo alimentar ancorado na ciência, que diz que há uma alimentação que nos vai permitir conseguir alimentar a população mundial até 2050. Estamos a falar de números astronômicos. Temos que ter a capacidade de chegar às pessoas, mas ao mesmo tempo manter os ecossistemas vivos. Não é sugá-los de toda a sua energia. Portanto, desafiamos os mais jovens a pensarem numa dieta de saúde planetária que privilegia a proteína vegetal, privilegia os cereais integrais. E foi muito engraçado perceber que há, de facto, aqui uma variedade de abordagens, desde o hambúrguer de grão de bico.

Que foi sugerido pelos miúdos?

Foi sugerido pelos miúdos, pudins de chia, mas também massas coloridas com vegetais da horta, trabalhando aqui a sazonalidade, e também alguma preocupação com a circularidade, utilizar os alimentos em diferentes formatos para que eles não se esgotem.

Patrícia, esta criatividade que nós vimos dos miúdos, nomeadamente ao nível dos pudins de chia, pode-se dizer que se calhar é uma influência dos pais?

Sem dúvida. Nós sabemos que a alimentação que há nas casas, nas famílias, vai influenciar muito as crianças. E eu acho que aqui é uma mensagem que é para ambos os lados, ou seja, tanto a alimentação dos pais influencia a alimentação das crianças, como a alimentação das crianças influencia a alimentação dos pais. Por isso é que muitas vezes estes projetos que vão aumentar a literacia sobre alimentação saudável, sobre alimentação sustentável nas escolas é tão importante, porque no fundo utilizamos as crianças também como mensageiros deste objetivo que queremos levar para as casas portuguesas, que é uma alimentação mais sustentável.

E isso é mesmo um fato? As crianças conseguem influenciar os pais a mudar os hábitos alimentares?

Sem dúvida que sim. Primeiro, as crianças têm um ponto muito importante, que é: nós sabemos que os hábitos que são estabelecidos nestas idades, a probabilidade de serem levados para a vida adulta é enorme, tanto estes hábitos sejam bons como menos bons. Portanto, vamos tentar que os hábitos implementados sejam os bons. Mas além disso, as crianças funcionam muito como embaixadoras, então elas levam esta mensagem para as famílias, para os pais, para os avós, no fundo, para toda a comunidade. Se nós conseguirmos levar esta mensagem às crianças, estamos também a fazer com que levem para casa, porque se eu digo queNa escola, as crianças aprendem a fazer uma massa colorida com brócolos, cenoura e feijão, elas chegam em casa e dizem: "Eu quero a massa colorida que eu vi na escola". E os pais têm que fazer o quê? Têm que ir comprar os brócolos, a cenoura pra fazer a tal massa colorida. E por isso é tão importante este tipo de projetos, porque levam não só em contexto aquilo que trabalhamos nas crianças, mas depois há às vezes um impacto que não é tão visível, tão palpável, que é a mensagem que elas levam pra casa.

Vanessa, uma das coisas mais importantes, aliás, são várias coisas interessantes neste projeto, mas a mim despertou-me a atenção as Visitas Imbatíveis. Que levam os alunos a conhecer as empresas e os produtores. Do seu ponto de vista, qual é a importância de mostrar às crianças a origem dos alimentos?

É absolutamente vital. Porque se nós pensarmos que hoje em dia, sete em 10 crianças crescem em ambientes urbanos, provavelmente acham que o frango já aparece no cuvete. Arriscamos a achar que o brócolis cresça numa árvore.

E que o leite vem da prateleira.

E que o leite vem da prateleira. E, portanto, entender toda esta cadeia de valor é absolutamente essencial. Com estas visitas, nós tivemos uma escola vencedora por distrito, e aqui fazer um parêntese, só pra demonstrar também como é que estas dinâmicas funcionam. Os nossos colaboradores podem inscrever as escolas dos seus filhos nestas iniciativas e duas dessas escolas até são de filhos dos nossos colaboradores. Portanto, vale a pena ser colaborador do Lidl. Mas a verdade é que estas 18 escolas acabaram por ir visitar fábricas desde pão, leguminosas, bacalhau. Portanto, entenderem um bocadinho toda a cadeia de valor, entenderem como é que se pode evitar o desperdício. E perceberem o trabalho que é posto nas coisas, se calhar, o deitar fora, o desperdício alimentar vai ter outro peso, vai ter outro significado. Portanto, acreditamos que conseguem também trazer essas preocupações pra dentro de casa, como a Patrícia dizia, que é tão importante, porque é aí que se vive. E só uma história engraçada: nós há uns anos tivemos um projeto, era um spin-off da Turma Imbatível, que era o Desenho Imbatível. As crianças eram desafiadas a desenhar as embalagens. E recordo-me-

De produtos, de alimentos?

Eram de alimentos. Era embalagem de brócolis, de favas, de espinafres, de arroz, de frango. E recordo-me lindamente de uma rapariga ter feito a embalagem dos brócolis e quando questionada por quê, ela: "Porque eu não gosto". E, portanto, foi a maneira dela se superar. E a verdade é que depois, em conversa com os pais, percebemos que ela se tornou fã de brócolis. Um pequeno exemplo pra mostrar como é que essas iniciativas acabam por fazer a diferença.

Patrícia, do seu ponto de vista, também considera importante os miúdos perceberem de onde vêm os alimentos?

Sem dúvida. Nós sabemos que quanto mais proximidade as crianças tiverem com os alimentos, maior será a aceitação dos mesmos. Então quando eu tenho uma criança que me diz: "Não gosto de legumes, não gosto de nenhum legume", nós temos que perceber em que contexto é que estes legumes aparecem no seu dia a dia, porque provavelmente não aparecem. A partir do momento em que eles percebem, vão ver como é todo o processo de plantação, de recolha, ajudam os pais a escolher no supermercado, no mercado, levam pra casa. Ou seja, há toda uma relação, não diria afetiva, mas-

Mas quase.

Quase, com os alimentos, faz com que haja uma maior aceitação depois no prato. Se a primeira vez, e quase única, o alimento aparece no prato, a probabilidade de recusa é muito grande. Então é quase como se nós tivéssemos que contar uma história antes do alimento aparecer no prato. E por isso esse tipo de atividades são tão importantes pras nossas crianças, porque elas vão entusiasmadas e a probabilidade de experimentarem um brócolis é muito maior.

Empatia pelos alimentos, não é?

Sem dúvida. Eu lembro-me de uma história que os meus pais contavam. Eu não gostava de cenouras, mas se me dissessem que era a cenoura da tia, eu comia. Por quê? Porque eventualmente eu tinha uma ligação emocional com a cenoura que comia na casa da tia. Então às vezes nós precisamos de associar estes componentes emocionais à comida pra que a criança tenha maior aceitação depois no prato.

Isso parece-me um bocadinho inédito, uma nutricionista.

Mas já passou.

Já passou, agora já come cenouras, seja de tia ou não seja de tia.

Agora já gosto de todas.

Patrícia, já que estamos a falar aqui da alimentação sustentável, há algum mito que gostasse de desfazer sobre esta questão?

Eu acho que o maior mito da alimentação sustentável é que é uma alimentação muito dispendiosa. E nós sabemos que às vezes isso pode, no fundo, afetar grande parte das famílias. E na verdade, a alimentação sustentável é até o contrário. Ela pode até ser econômica pras famílias portuguesas, porque estamos a falar de diminuir o desperdício alimentar e sabemos que o desperdício alimentar tem um impacto muito grande naquilo que são as carteiras dos portugueses, em fazer escolhas, por exemplo, proteínas vegetais, que sabemos que são proteínas mais acessíveis, alimentos que são locais e que, portanto, também naturalmente são mais acessíveis. Então, no fundo, desfazer um bocadinho esta ideia de que uma alimentação sustentável é uma alimentação mais dispendiosa, porque, no fundo, não é.

Patrícia, só para esclarecermos muito bem, falamos acerca de quê quando falamos de proteínas vegetais?

As proteínas vegetais são, sobretudo, o grupo das leguminosas. E aqui estamos a falar do grão, do feijão, das favas, das lentilhas, das ervilhas e podemos fazer, por exemplo, um hambúrguer de grão, um hambúrguer de feijão, que nós também fizemos algumas receitas nesse sentido. Fizemos umas receitas de feijão também na dieta da saúde plantária, que estavam muito boas. E incluir estas refeições como substituto, não necessariamente sempre, mas, por exemplo, um desafio que eu acho muito engraçado dar às famílias é: vamos tentar uma refeição por semana que seja uma refeição com proteína vegetal.

Parece bastante exequível, uma vez por semana.

É bastante exequível. E porque não experimentar uns hambúrgueres de feijão ou uns hambúrgueres de grão, que são as tais proteínas vegetais, que são muito nutritivas e que nos dão o ferro, dão-nos a proteína e dão-nos os nutrientes todos que precisamos.

Também temos os frutos secos.

Exatamente.

Que também são muito importantes. Ou seja, é olharmos para a panóplia de alimentos com outros olhos, com outra lente.

E podemos ter, de facto, uma alimentação variada e igualmente rica, não é?

Sem dúvida.

Sim. E saudável.

Sublinhar isso.

A parte sustentável, que nos vai garantir que conseguimos ter alimentos, é saudável. Portanto, o desafio aqui, esta dieta da saúde plantária tem o objetivo ambicioso de prevenir as doenças cardiovasculares, as diabetes e vai ajudar a longevidade das pessoas também.

Vanessa, o Lidl tem metas bastante concretas para 2030. Quer partilhar conosco algumas dessas metas, desses objetivos?

Metas são importantes. E são importantes porque nos dão ambição, porque nos ajudam a traçar um objetivo e um caminho. E isso é muito importante se nós queremos efetivamente evoluir. Se disermos: "Vamos fazer assim".

É só um sonho.

É só um sonho, acaba por ser pouco tangível. Portanto, no que diz respeito à dieta de saúde plantária, o nosso objetivo até 2030 é que possamos oferecer 20% de proteínas de origem vegetal. Portanto, na nossa oferta, no nosso supermercado, tenhamos uma oferta de 20%, no mínimo, de proteína vegetal. E com isso, isso obriga-nos a trabalhar duas dimensões. Não só aquilo que nós disponibilizamos, mas também a procura por parte do consumidor. Portanto, temos que trabalhar e campanhas como a Turma Imbatível acabam por ter um papel importante para que haja este encontro de interesses.

Pois, exato, porque não basta estabelecer a meta, tem que se fazer com que essa meta depois seja consequente.

Exato.

Se os clientes não têm como.

Não consomem.

Pois claro!

Portanto, precisamos de os ajudar também nesta jornada. Outra meta até 2030 é que 10% dos cereais sejam integrais. Nas nossas receitas, que haja integração de cereais integrais, que são muito mais saudáveis. E, finalmente, em 2019 estabelecemos uma meta que até 2025 iríamos reduzir o sal em 20%, o sal e o açúcar, e isso conseguimos. Isto, mais uma vez, é um trabalho que se tem que fazer rotinamente com os nossos consumidores, porque se nós reduzimos o sal, por exemplo, de um dia para o outro, vão-nos rejeitar o produto e vão substituir com algo que lhes faz igualmente mal. Nós com estas metas estamos juntos nesta jornada com os nossos clientes.

Isso é muito interessante. Quero abrir aqui a conversa às duas, portanto responde quem quiser. Vão responder as duas, seguramente. Nestes 15 anos, que já lá vão 15 anos, o que é que mudou na forma como as crianças olham para a alimentação e para a sustentabilidade? Temos crianças mais disponíveis, mais despertas para esta temática?

Eu acho que sim.

Eu acho que sim. Eu acho que cada vez as crianças tratam estes temas quase que por tu. E portanto, elas estão muito mais conscientes daquilo que é uma alimentação saudável, daquilo que é uma alimentação para o ambiente e acho que é uma ótima oportunidade usarmos esta curiosidade como motor para trabalharmos todos estes pontos e estes objetivos que temos. Que é como estava a dizer, não basta estar disponível, tem que haver o trabalho do consumidor, porque senão é em vão.

Sim, acaba por ser pouco eficiente. Não vamos conseguir operar essa mudança que é tão necessária.

Claro.

Portanto, acho que os estudos apontam, de facto, para uma maior preocupação dos jovens. Há que ter havido aqui um crescendo, ao ponto também de haver já um conceito, que é a ecoansiedade, que também leva a coisa para um extremo, que não queremos que isso provoque ansiedade. Queremos que as pessoas sintam que efetivamente, com as suas escolhas, conseguem fazer a diferença. E não é necessariamente obrigatório pagar mais, como dizia a Patrícia, para ter acesso e para ter estas preocupações.

É um equilíbrio.

E temos que desmistificar que para ser sustentável tem que ter uma disponibilidade financeira diferente. Não, muito pelo contrário, muitas vezes as coisas menos processadas acabam por ter um custo muito inferior.

Eu gostava de vos convidar a deixar uma mensagem, seja aos adultos, seja às crianças que nos estão a ouvir e que estão a aprender aos dias de hoje sobre sustentabilidade, nomeadamente alimentação sustentável. Que mensagem é que vocês deixariam?

A primeira mensagem seria, se calhar, para todos, que seria não tentem ser perfeitos, no sentido que quando nós buscamos a perfeição, primeiro não existe e depois afasta-nos daquilo que é o objetivo, porque se eu penso que para fazer pequenas mudanças é preciso uma dedicação de muito tempo ou ter que ir comprar produtos que eu quase que nem sei o nome. Isto afasta as pessoas e a verdade é que temos que passar a mensagem de que é mais simples do que parece. Por exemplo, estabelecer a meta de cá em casa tentarmos fazer uma refeição vegetariana. Para as crianças, eu diria para se manterem sempre muito curiosas e muito inquisitivas sobre todos estes temas e para os adultos, para ouvirem mais as crianças, porque eu acho que assim conseguimos ir buscar os dois. Normalmente é o contrário.

De um lado, eu diria que é importante termos consciência de que, de facto, se nós continuamos a comer como estamos a comer hoje, a 2050 vamos precisar de dois planetas para conseguir alimentar. Isso é um abre-olhos. Mas também termos consciência de que a sustentabilidade é uma jornada. Não termina amanhã, nem em 2050. É um caminho que todos temos que percorrer. Portanto, aos nossos super-heróis em casa, continuem com esse entusiasmo, com esse ânimo, não desistam. E eu acho que concordo aqui muito com a Patrícia e aos adultos: oiçam as vossas crianças. Nestas matérias.

Tem metas.

Já é alguma coisa importante.

É verdade.

Muito obrigada às duas. Obrigada às nossas convidadas de hoje, Vanessa Romeu e Patrícia da Costa Moura, por estas partilhas, por estas mensagens e a todos os que nos acompanharam aqui na Feira Nacional da Agricultura, a decorrer em Santarém e também a quem nos ouve na Rádio Observador, em qualquer parte do país.