Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

A tecnologia está a mudar muita coisa e também a forma como consumimos, produzimos e distribuímos a energia. Hoje falamos da digitalização dos contadores inteligentes e do que eles permitem conhecer. Falamos também do portal da Open Data, da E-Redes, lançado há quase um ano. O objetivo desta plataforma é promover a transição energética e permitir o desenvolvimento das smart cities. Neste segundo episódio de Conversas da Rede, vamos perceber melhor para que serve esta plataforma, a quem se destina e como podem ser utilizados os dados armazenados. Eu sou o Paulo Ferreira e estão comigo em estúdio o João Martins de Carvalho, administrador da E-Redes, e Luís Tiago Ferreira, responsável na E-Redes pelo Open Data, iluminação pública e precisamente esta área das smart cities. Obrigado a ambos. João, já um repetente, mais uma vez por estar conosco. Luís, bem-vindo. Luís, começaria talvez por você, para perguntar qual é a diferença entre um contador de eletricidade inteligente e um contador tradicional.

Viva, boa tarde e muito obrigado. Os contadores tradicionais tinham que ser medidos manualmente, com uma leitura visual por uma pessoa e também se precisassem de alguma alteração, por exemplo, à potência contratada, isso teria que ser feito por um técnico presencialmente no local. Na base, na sua essência, os contadores inteligentes, uma das coisas que fazem é mudar deste paradigma para um paradigma em que recolhem informação sobre o consumo de 15 em 15 minutos e a transmitem centralmente através de redes de comunicação.

Sem intervenção humana e não é preciso alguém fazer a leitura.

Sem ser preciso alguém ir fazer a leitura. E na base é isto, e permitem também fazer operações à distância, digitalmente, o que não era possível anteriormente.

João Martins Carvalho, o que é que permitem estes contadores inteligentes?

No fundo, o contador inteligente permite uma digitalização da informação da rede. E como o Luís muito bem explicou, isso tem benefícios grandes do ponto de vista da experiência do cliente, no sentido em que deixa de ser preciso ler o contador e passa a ser possível fazer operações sobre o contador à distância, com benefícios enormes de conveniência, de tempo de resposta, de consumo de CO₂. Mas tem também uma segunda dimensão muito relevante para nós, que permite olharmos para a forma como exploramos a nossa rede de outra maneira. Passamos a ter mais informação para planear a rede, mais informação para reagir proativamente a potenciais constrangimentos da rede. Por isso é, de facto, um novo paradigma de olhar para a redistribuição e é um manancial de informação muito rico, como vamos também ver, creio eu, ao longo desta conversa.

Claro. E se olharmos agora para os consumidores e para aquilo que todos nós queremos, que é ter um consumo mais eficiente de energia, estes contadores inteligentes, em que medida, Luís, é que podem contribuir para isso?

Conhecendo melhor o meu consumo, através do acesso à informação que o contador inteligente nos dá sobre o consumo da minha habitação, pegando no exemplo de um consumidor pessoal.

Doméstico.

Doméstico. Eu consigo tomar melhores decisões sobre os meus hábitos, sobre os eletrodomésticos que compro e a sua eficiência energética e, no limite, posso tomar uma decisão mais fundamentada sobre, por exemplo, comprar um painel fotovoltaico para autoconsumo. Portanto, isto é o poder da informação e de eu ter acesso aos dados do meu próprio consumo.

De alguma forma, esse tipo de informação, depois já vamos desenvolver um pouco a partir dessa informação e base de dados. De que forma é que é partilhada a informação do contador inteligente, quer com consumidores, quer com autarquias, eventualmente?

Sim. No caso dos dados privados, pessoais de um consumidor, a E-Redes disponibiliza no seu portal o acesso aos dados do seu contador inteligente. Portanto, através de um portal privativo, o consumidor e o cliente final têm acesso a essa informação. Os próprios municípios têm acesso, através também de um portal dedicado aos nossos municípios, a um conjunto de informações agregadas sobre o município e, em parte, também informação que seja agregada e pública, estamos a começar a disponibilizar também através do portal Open Data.

Que é esse portal que vamos falar já daqui a pouco. João Martins de Carvalho, a E-Redes tem o objetivo de chegar ao final de 2024, portanto, estamos a pouco mais de um ano desta data, com a totalidade 100% do parque com contadores inteligentes em Portugal. Como é que estamos em termos de cumprimento deste objetivo? Vão chegar lá.

Vamos seguramente chegar lá. Estamos, neste momento, com um ritmo muito elevado de instalação, aliás, o mais elevado sempre. O nosso objetivo de instalação para este ano é 1,2 milhões de contadores, o que significa que estamos a instalar 25 mil contadores por semana. Só dá uma média de cerca de 600 por hora. Por isso, enquanto estivermos aqui a falar hoje, há mais de 150 clientes que vão ter contadores instalados em Portugal, durante estes 15 minutos. É, de facto, uma campanha extraordinária, mas que está a correr muito bem e que nos dá garantias de que o objetivo vai ser cumprido.

Esta base de contadores inteligentes é absolutamente essencial, seguramente, para a criação ou, no fundo, para fornecer dados do portal Open Data. O que levou à criação, antes de mais, o que é este portal, talvez?

Exato. No fundo, este portal é a nossa forma de utilizar a informação que vamos recolhendo Ao longo desta digitalização que temos vindo a fazer da rede e para a informação que possa ser de utilização pública, colocá-la num repositório único, fácil de utilização, apelativo, para que depois a sociedade em geral possa criar valor e utilizar essa informação com proveito para as suas atividades, seja o cliente individual, seja as comunidades de energia, as autarquias, a própria academia. É o nosso repositório de informação que pode ser utilizada por todos. E como bem disse o Paulo, só foi possível agora, porque com a informação dos smart meters e com este caminho de digitalização, o manancial de informação à nossa disposição aumentou muito e também ficou clara a nossa perceção de que há uma vontade e uma propensão muito grande para utilizar essa informação.

No fundo, se entendo bem, este portal Open Data é alimentado pelas leituras completas destes contadores inteligentes todos? E não só.

Em parte. Ou seja, as leituras, obviamente agregadas, para não haver temas de confidencialidade da informação.

Claro, a questão da confidencialidade dos dados.

E essa é uma das fontes de informação, mas compilado com outras, porque a digitalização da rede tem acontecido ao nível dos contadores, mas tem acontecido também ao nível de outras camadas da nossa infraestrutura.

Claro, aquilo que não está diretamente em contacto, se calhar, com o utilizador final, mas que faz parte da rede. Luís Tiago Ferreira, e que tipo de dados é que podemos encontrar neste portal?

Não são apenas dados oriundos dos contadores inteligentes. Isso é uma parte da nossa atividade. No fundo, a atividade da E-Redes, que está presente no território continental todo, acaba por espelhar um pouco aquilo que é a atividade do país. Quando aparece uma nova habitação, uma nova fábrica, um novo produtor de energia renovável, todas essas atividades acabam com uma ligação à rede. Já lá está, há aqui outro dado, que são as nossas ligações à rede, todas as nossas atividades no terreno, que acabam por espelhar outras atividades da economia. Nós temos no portal dados sobre o consumo. Os nossos dados estão divididos em cinco temas: consumos e energia, que vêm muito os nossos dados de consumo da rede. Operações, que vêm das nossas operações, ligações à rede, qualidade do serviço prestado. E depois temos categorias ligadas à transição energética, mobilidade elétrica, renováveis, que no fundo espelham um pouco estas realidades da transição energética. Temos, por exemplo, um dataset, que é o nosso dataset que está publicado mais em tempo real, que tem de 15 em 15 minutos as interrupções de energia que estão presentes no território. Porque numa situação de crise, é uma boa fonte de informação, que antigamente tinha que ser consultada de outras formas. Já há algum tempo que tínhamos uma página no site da E-Redes onde divulgávamos isto, mas tipicamente as pessoas ligavam para o call center. Neste momento, há aqui mais um canal que permite, numa situação de crise, consultar onde é que há interrupções.

E em tempo real.

Em tempo real. Sim.

A ideia é irem adicionando novos dados a este portal, novos datasets.

Permanentemente. Logo desde que lançamos o portal, um dos primeiros datasets que adicionamos de novo foi o perfil de consumo, portanto, o quarto horário, neste caso hora a hora, que se pode consultar por código postal. Eu posso ir a um código postal, a um determinado bairro, e perceber qual é que é o perfil de consumo daquele bairro.

Ao longo do dia, por exemplo, por horas ou por dias de semana.

Exatamente. Ver como é que evoluiu com a variação de temperatura nos últimos meses, coisas desse gênero. O que pode permitir tanto às entidades públicas que gerem o território compreender melhor como é que a sua cidade ou o seu território está a evoluir, como, por exemplo, a universidade estudar fenômenos que ajudam a explicar aquelas variações ou, por exemplo, estudar como é que isto se correlaciona com a eficiência energética do edificado.

Claro, há uma base de dados que permite depois trabalhar.

Exatamente. Há uma miríade de utilizações.

Claro. O João há pouco disse que isto são dados que estão abertos à comunidade. O Luís acaba de falar também do exemplo da academia. Quem é que pode ter acesso a estes dados?

O portal é totalmente livre e aberto. Uma das preocupações do portal foi ser um repositório onde nós partilhamos abertamente com toda a sociedade e qualquer agente interessado, estes dados que nós agregamos na atividade da E-Redes. Os utilizadores, depois, eventualmente, podem registrar-se no portal se quiserem ter alertas sobre novos dados ou alterações e atualizações de dados, mas é totalmente aberto e gratuito e tem um conjunto de ferramentas de partilha, que é uma das sofisticações que nós quisemos colocar. Não é apenas chegar, consultar ou poder ver num mapa. Depois tem uma série de mecanismos mais de partilha de máquina, através da APIs ou de descarregar num Excel, num arquivo CSV.

Para utilizações mais profissionais ou mais empenhadas dessa base de dados. No caso da mobilidade elétrica, como é que estes dados podem ajudar de alguma forma a acelerar esta transição energética, que é crucial no cumprimento de metas energéticas? E também, como é que Portugal está posicionado nesta área da mobilidade elétrica, Luís?

Portugal, os dados mais recentes deste ano apontam para termos uma cota de mercado de veículos elétricos que está acima dos 25%, o que nos coloca muito bem em comparação com outros países europeus. E aquilo que nós vemos, do ponto de vista da rede, é que estes veículos elétricos depois têm uma correspondente evolução da rede de carregamentos. Portanto, temos vindo a assistir a uma aceleração das ligações à rede para novos pontos de carregamento de veículos elétricos. Em comparação, por exemplo, este semestre que acabou agora de 2023, com o mesmo semestre do ano passado, nós tivemos quase o dobro das ligações à rede para pontos de carregamento do que no ano passado. Portanto, isto é claramente uma tendência que está a acelerar. E nós temo-nos vindo a preparar. Como é que podem ajudar os dados que nós estamos a colocar de mobilidade elétrica em open data? Ajuda de várias formas. Uma é, conhecendo os dados do território desta tendência, podemos ajudar a realçar as melhores práticas e como é que ela está a evoluir nas várias regiões e ajudar as regiões que possam estar um pouco mais atrás, a aprender mais facilmente e mais rapidamente com as outras. Por outro lado, ao darmos esta informação à sociedade, estamos a permitir aos vários agentes, aos operadores de postos de carregamento, aos investidores, às próprias autarquias, que possam planear com mais eficiência os investimentos que estão a fazer. Portanto, não só os estamos a ajudar a acelerar e da melhor forma, a ser mais eficientes, como também estamos a ajudar a ser mais eficiente a relação com a E-Redes, porque se eles à partida já planeiam melhor os investimentos que vão fazer, conhecendo melhor os dados da rede, às vezes isso ajuda na nossa relação e quando eles chegam a nós, já fazem pedidos ou vêm fazer ligações à rede que já estão mais bem adequadas àquilo que é, por exemplo, a capacidade da rede para os ligar mais depressa.

Claro. No fundo, torna todos os agentes mais racionais ou com a possibilidade de serem mais racionais. O Luís estava a falar da questão da mobilidade elétrica e dos pontos de carregamento. Isso pode ser transposto também para outro tipo de consumo? Isto é, até que ponto é que estes dados todos ajudam agentes públicos, de alguma maneira, a definir melhor medidas públicas de eficiência energética por aí fora?

Sim, um dos grandes objetivos da E-Redes ao disponibilizar estes dados é ajudar a acelerar a transição energética. Um dos nossos fundamentos para criar o portal Open Data foi a noção de que divulgar e partilhar esta informação tinha um grande valor para ajudar na transição energética. E ajudar, porque não somos nós que a vamos fazer. É ajudar todos os outros agentes que gravitam à volta da E-Redes.

Claro, lá fora da E-Redes, na comunidade, de forma genérica.

Um outro exemplo disto é o facto de nós disponibilizarmos, por exemplo, os dados das unidades para autoconsumo, aqueles painéis fotovoltaicos que alimentam parte das nossas casas ou das empresas, permite que os agentes que vendem este tipo de soluções vejam onde é que esta tendência está mais avançada, compreendam quais é que são as regiões do território onde até se pode criar mais valor, porque o perfil de consumo seja mais adequado às horas de produção solar e, portanto, possam pegar nesses dados e mais facilmente ir ter com um cliente, uma fábrica ou uma autarquia e conseguir demonstrar que, por exemplo, instalar uma comunidade de energia renovável ali até traz mais valor do que noutros locais do território.

Claro. No fundo, a informação e a base de dados que isto permite torna toda a gente mais eficiente e mais racional. Sem dúvida. Quase a chegar ao fim deste nosso episódio. João Martins Carvalho, este portal Open Data foi lançado em novembro de 2022, já o dissemos, já conseguem fazer um balanço até este momento?

Sim, está a completar quase um ano e de facto o balanço é positivo. Registamos mais de 20 mil visitas na plataforma, dos quais 2300 utilizadores registados. E mais do que o número em si, é importante a diversidade e a profundidade dos utilizadores. E temos visto um interesse crescente por parte dos municípios, de comercializadores, vários agentes da transição energética, mas não só. Os próprios media têm usado a plataforma como base de informação para construir as suas reportagens e fazer as suas análises do setor. São tudo evidências de que havia apetite para estes dados e que eles faziam falta. Talvez destacasse um caso que acho que é interessante e pode ter relevância para a nossa audiência, que é a comunidade científica, entendida como não só a academia, mas os próprios alunos, com quem temos vindo a estreitar a relação e temos assinado protocolos com algumas instituições acadêmicas e lançamos muito recentemente uma bolsa em que vamos procurar premiar dissertações de teses de mestrado que construam os seus trabalhos em cima desta informação. As candidaturas vão decorrer durante o próximo ano e aproveito esta oportunidade para fazer também um apelo à participação, que é de certa forma, como disse aqui o Luís, e bem, nós com esta plataforma procuramos dar um contributo para acelerar a transição energética e acho que esta é mais uma evidência de como essa transição se pode fazer, envolvendo todos os stakeholders e todas as pessoas que queiram dar um contributo relevante para isso.

Muito bem, fica esse alerta também. Muito obrigado, João Martins Carvalho e Luís Tiago Ferreira. Foi um gosto tê-los aqui neste segundo episódio, que chega agora ao fim. O segundo episódio de Conversas na Rede, que ficará disponível em podcast no site do Observador e nas plataformas habituais de streaming. No próximo episódio, cá estaremos para falar de outro tema. Até lá, fique com boa energia.