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Viva, sejam bem-vindos. A transição energética é um objetivo que envolve toda a sociedade, de produtores a consumidores. O que está em causa é todo o processo de mudança do sistema de energia, de fontes tradicionais e não renováveis, para fontes de energia mais sustentáveis, renováveis e de baixo impacto ambiental. É um caminho que se faz também pela digitalização e modernização do setor, em diferentes segmentos, onde as redes inteligentes são determinantes para assegurar os fluxos de energia, da mobilidade elétrica e do autoconsumo. Neste quarto e último episódio do podcast "Conversas na Rede", vamos perceber como está a transição energética no nosso país e qual o papel das redes e dos consumidores para esta mudança. Eu sou o Paulo Ferreira e estão comigo o João Filipe Nunes e a Sara Veiga de Macedo, da Direção de Gestão de Clientes da E-Redes. Sejam bem-vindos, ambos, a este último episódio do "Conversas na Rede". Sara, deixe-me começar por si. Já todos ouvimos falar, de facto, da transição energética, é um assunto que está na ordem do dia. E de facto, isto é o quê? O que é isto da transição energética e por que é tão importante acelerá-la?

Viva e muito obrigada pelo convite. As sociedades e as economias têm vindo a ser desenvolvidas baseadas na exploração de combustíveis fósseis e é esta a transição que se pretende fazer para a utilização e desenvolvimento destas sociedades, baseadas na exploração de recursos renováveis com pouco impacto ambiental. E quando falamos desta urgência, que está na ordem do dia, é verdade, pensamos habitualmente em três fatores. Um muito ligado aos próprios impactos e às alterações climáticas. Temos sempre vindo a assistir a desastres climáticos com impactos desastrosos para todos.

Que são cada vez mais frequentes também, não é? Claro.

Exatamente. E depois também temos um outro fator, que também vem muito na ordem do dia, cada vez mais, infelizmente, que tem a ver com todos os conflitos geopolíticos que temos assistido. Ainda estamos a viver a guerra na Ucrânia e na Rússia e todos recordamos que houve uma mobilização da União Europeia, no sentido de haver muito mais independência relativamente, por exemplo, ao gás russo.

Às fontes de energia.

As fontes de energia são sempre pontos geopolíticos muito instáveis e, portanto, esta independência é fundamental e é um dos fatores que nos leva também a acelerar, do ponto de vista de sustentabilidade e também destas instabilidades.

Da questão da soberania energética.

Exatamente. E quando transportamos isto para Portugal, um país que está fortemente dependente da energia exterior, quando simultaneamente temos abundância de recursos renováveis e aliados a uma maturidade de tecnologias que vimos a assistir, Portugal deverá aproveitar estas oportunidades para se tornar cada vez mais independente e, por outro lado, também podermos usufruir desta redução de custos.

Já falou de Portugal. João, pegando precisamente nisso, como é que nós, neste momento, como é que o país, Portugal, se posiciona neste processo de transição que a Sara acaba de descrever?

Sim, eu diria que Portugal é um bom exemplo e tem se posicionado na linha da frente nesta transição para algo mais sustentável, mas também, como a Sara disse, até termos menos dependência do exterior. E partilho aqui dois ou três dados concretos. Nós, relativamente a 2005, reduzimos um terço das emissões de CO₂ face a 2005. E quando comparamos com a União Europeia, que reduziu 24%, nós estamos aqui acima da União Europeia. E agora na COP28, foi dada a ambição de chegarmos à neutralidade carbónica em 2045. Por outro lado, e quando falamos em eletricidade, dois terços da energia que nós consumimos já é proveniente de fontes renováveis. Não sei se nós todos temos essa noção.

Provavelmente nós não temos a noção disso. Dois terços é bastante já.

E em 2030 queremos chegar aos 85%. E há também aqui um facto curioso, que nós estivemos nos primeiros seis dias de novembro a consumir nas nossas casas energia 100% renovável durante seis dias. Portanto, eu acho que isto são dois ou três indicadores que mostram que Portugal tem estado na linha da frente e também com todas estas ambições que temos, acho que continuaremos a ser um país de referência nesta alteração e nesta transição.

Sara, esta transição energética em Portugal já está, de facto, a acontecer. O João acaba de dar alguns indicadores disso, mas de qualquer forma, há quem pense que é um objetivo distante ainda, que é um processo que está a ser discutido, mas não, está no terreno já.

É verdade. Ouvindo estes factos, podemos tirar aqui logo duas conclusões de ouvir. Um, que estamos a vivê-la. Dois, que realmente queremos acelerá-la e há planos concretos para o fazer. Nós, como E-Redes, somos o principal operador de rede de distribuição em Portugal e é exatamente nesta rede que nós operamos, que se ligam todas estas infraestruturas de produção de energia renovável. Portanto, nós estamos numa posição em que conseguimos ver precisamente estes números, estes pedidos de ligação, que se ligam à nossa rede, a crescer. E quando digo a crescer, é num ritmo muito acelerado. Só dois ou três exemplos. Se nós pensarmos em centrais fotovoltaicas, em 2021 cerca de 13 centrais fotovoltaicas foram ligadas. Passado dois anos, neste momento, estes múltiplos anuais multiplicam-se cinco vezes mais. Portanto, nós neste momento estamos a ligar quase 60 parques anualmente, por ano.

Portanto, são produtores, pequenos ou grandes produtores, que vão injetar energia na vossa rede, que depois vocês levam à casa dos consumidores de forma simplificada.

Exatamente. Nós quando pensamos em transição energética, pensamos em alguns modelos destes produtores, que podem ser produtores de geração. Nós somos a geração distribuída, que são estas centrais, e também vemos, por exemplo, para facilitar, nos cimos dos telhados, também vemos os painéis solares. Portanto, aí falamos já de um autoconsumo, são produtores que produzem uma parte da energia que consomem, ou às vezes até em excesso. Muitas vezes até, exatamente, para partilha. E, por exemplo, também aí vemos crescimentos na ordem da duplicação destes pedidos de ligação, em que vamos terminar já com cerca de 200 mil ligados. Portanto, aí Somos nós que asseguramos a ligação destes dispositivos.

Dos postos de carregamento.

Exatamente. Os operadores ligam-se a esta rede para ser possível haver esses postos de carregamento elétrico. E por isso aqui também vemos os números crescerem anualmente, a duplicarem anualmente. Aqui também percebemos que a aceleração já está, a transição estamos a vivê-la e queremos ainda acelerá-la, claro.

Claro, até chegarmos a esses objetivos que o João falou há pouco.

Exatamente.

João, acabámos de falar de mobilidade elétrica. O consumidor é fundamental também nisto, não tem que ter uma atitude passiva. Onde é que entra o consumidor aqui na transição energética?

Claramente, Paulo. Se nós pensarmos, há muito poucos anos, nós neste setor elétrico éramos passivos, ou seja, consumíamos energia que uma central lá muito longe produzia, ainda por cima essas centrais não eram renováveis e nós tínhamos esta atitude muito passiva. Hoje temos uma atitude não só pró-ativa, ou podemos ter essa atitude pró-ativa, mas eu diria mais, temos um poder. Eu acho que todos nós hoje, qualquer cidadão, tem hoje um poder até de moldar o setor elétrico e de poder alavancar esta velocidade. E por quê? Sara deu aqui dois ou três exemplos. Hoje, qualquer um de nós pode pôr um painel no telhado, produzir energia 100% renovável para o autoconsumo, mas pode participar num autoconsumo coletivo, que dando um exemplo simples, alguém que instala uns painéis num prédio e com isso partilha a energia não só com as pessoas daquele prédio, mas pode partilhar energia verde com o vizinho da frente. Isto muda completamente, que mesmo quem não tenha essa possibilidade de colocar os painéis, pode fazer parte desse ecossistema. E a mobilidade elétrica, que a Sara falou, é outro driver. Ou seja, já há hoje segmentos onde a mobilidade elétrica já é competitiva, há outros que ainda não e chegará a breve trecho. Um em cada cinco carros vendidos em Portugal são puramente elétricos e 40% já são híbridos. Portanto, isto mostra o poder que cada um de nós hoje tem para moldar o setor e fazermos parte desta transição, porque esta transição tem que ser feita por todos.

Claro. Sara, aqui no meio está a E-Redes, falámos já da produção e da transição da produção, se quisermos, o papel dos consumidores também. Ok, quem liga uma coisa e outra também é a E-Redes. Qual é o papel da empresa nesta dinâmica?

A E-Redes, como o principal operador de redistribuição em Portugal, nós temos um papel decisivo nesta transição, porque somos nós que temos que facilitar toda esta interação destes novos recursos que injetam a sua energia na nossa rede. Temos um papel principal de segurança de abastecimento. Todos queremos as luzes ligadas.

Ninguém gosta de ficar às escuras.

Este é o nosso principal papel. E depois temos que assegurar e facilitar toda esta ligação destes novos recursos e por isso temos que dotar esta rede, quando eu digo apenas parece simples, mas já isto é de grande responsabilidade, de todas as infraestruturas tradicionais, quando nós falamos das linhas mazanheiras, das subterrâneas, das subestações, dos postos de transformação, todo este investimento tradicional, bem como dotar a rede de inteligência, de sensorização, de automação, para que se consiga operar esta rede com todos estes fluxos. Nós posicionamos como um facilitador. Como? Isto é muito interessante, tem sido feito com os próprios clientes, com estas entidades, estes produtores, e nós estamos a fazer este percurso quase em cocriação com eles, do ponto de vista da digitalização da rede, de investimentos de redes, tudo isto está a ser feito com os clientes.

Claro.

Portanto, é um papel decisivo termos redes modernas para acolher toda esta transição.

Esse tema da modernidade e da tecnologia é fundamental, João, neste processo. Qual é a importância, neste momento, da tecnologia no desenvolvimento das redes inteligentes?

Sem tecnologia, nós não conseguimos fazer as coisas tão depressa e não conseguimos fazer as coisas de outra forma. Portanto, esta tecnologia é fundamental para fazermos mais com menos e mais rápido, porque nós sabemos que neste tema da transição estamos todos numa luta contra o tempo e temos que aplicar esta tecnologia para fazer as coisas de forma diferente. A ERREDES tem feito um caminho de digitalização muito daquilo que é a sua rede. Por um lado, estamos a instalar os contadores inteligentes nas casas de todos nós. Já temos cerca de 5,5 milhões de contadores inteligentes e vamos ter 100% no final do próximo ano. E isso passa-nos a dar mais visão e controle da rede, que quando aplicado também noutros layers da própria rede, passa-nos a dar novas variáveis para fazermos duas coisas: controlar melhor e planear melhor.

Sara, neste papel de facilitação, se quisermos, consegue nos dar exemplos daquilo que está a acontecer?

Um dos pontos-chave é a simplificação. Se queremos ser facilitadores, o processo tem que ser simples. E quando eu digo simples, não podemos esquecer que temos que assegurar a segurança do abastecimento.

Dentro de parâmetros, obviamente, de segurança e de continuidade de serviço.

Exatamente. Nós queremos que o processo seja simples, queremos que seja conhecido e por isso temos feito a aposta na digitalização. Alguns processos têm trâmites que não se confinam à ERREDES, por exemplo, no caso da Direção-Geral de Energia, há uma tramitação, por exemplo, a nível do autoconsumo, de uma entidade para outra, e tudo isto está webizado. Todos os processos de mobilidade elétrica também são feitos de forma digital. Um segundo ponto, para além da digitalização, tem sido a simetria de informação entre o que nós sabemos, o estado do processo. Nós queremos que também o produtor, quem se quer ligar a esta rede, também tenha exatamente isso. Essa simetria de informação é fundamental. E nós fazemos isto, por exemplo, com um autoconsumidor, assim que o processo entra na ERREDES, recebe de imediato um link em que consegue ver e acompanhar o estado do processo. O mesmo com a disponibilização de dashboards, para ir percebendo qual é o estado do seu processo. E diria que também internamente estamos a tratar todos os processos e estamos muito modernos. Nesta modernização, estamos com um approach muito mais moderno na gestão de todos os processos, através de metodologias agile e a criação de pontos de contacto únicos.

E estas redes modernas, João, são absolutamente críticas e essenciais para esse tal futuro sustentável, se quisermos, para um impacto positivo.

Sim, só com estas redes modernas é que conseguimos gerir esta nova complexidade. Não temos dúvidas nenhumas. Falávamos ao início que nós éramos passivos, consumíamos energia que alguém produzia, a energia vinha, entre aspas, calmamente pela rede de distribuição a chegar às nossas casas. Hoje consumimos e produzimos, hoje partilhamos com o vizinho da frente, hoje entramos em mecanismos de flexibilidade, hoje até os próprios consumos, nós às vezes brincamos, consumos têm rodas, ou seja, os carros que estão a carregar aqui, amanhã estão a carregar noutro sítio. Só com esta visibilidade e controle completo da rede é que nós somos capazes de controlar toda esta complexidade. Uma nota que eu acho que ainda não aqui falámos muito foi sobre o tema da eficiência energética. A eficiência energética é um driver enorme para isto da transição energética e, por exemplo, com base nas informações que nós damos, com base nos contadores inteligentes, qualquer um de nós, no balcão digital de ERREDES, pode consultar o seu perfil de consumo e adequar o seu perfil de consumo, o que é bom para a sustentabilidade ambiental, mas também diria que é bom para a carteira e para o bolso de todos nós no final do dia, que é também muito importante.

Sara, já falámos aqui várias vezes dos consumidores produtores também para autoconsumo. Quem não tem essa possibilidade, por exemplo, de produzir a tal energia no telhado, fica sem poder, esse consumidor, de alguma maneira, ou pode exercê-la de outra maneira?

Hoje existem diversas formas em que é possível, de forma ativa e coordenada, um cliente conseguir participar de forma ativa, mesmo que ele próprio não tenha o investimento do painel. Por exemplo, no caso das comunidades, pode ser membro de uma comunidade e consegue usufruir dos excedentes se fizer parte dessa comunidade. Hoje já temos cerca de 10 coletivos em Portugal e iremos iniciar o ano com cerca de 10 comunidades.

São a nível de bairro, talvez?

Sim, de bairro, de rua, de prédio, de edifício. Neste momento, pode-se ou fazer este investimento coletivo e depois usufruir de forma coletiva, ou até não o ter, mas fazer parte desta comunidade, e portanto consegue usufruir destes excedentes sem ter os próprios painéis.

A capacidade de produzir.

Exatamente. Por outro lado, e ligando muito com o que o João vinha a dizer, que é fundamental nesta transição, que é a eficiência, é disponibilizar, adequando os seus perfis de consumo, diminuindo o seu consumo em determinados momentos, e isso até foi alvo do primeiro programa que fizeram sobre o Projeto FIRME, em que pode-se participar nestes mercados de flexibilidade, em que o consumidor, nós, somos flexíveis para baixar os nossos consumos e permitir ou oferecer essa disponibilidade ao sistema.

Nós não gastamos para o sistema.

Isto é quase uma forma moderna de investir nesta rede, porque em vez de termos que estar a fazer investimentos na rede, conseguimos ir adequando os nossos consumos para que outros consigam usufruir em momentos, por exemplo, a indústria, que precisa naquele momento e tem acesso a essa disponibilidade. Estes mercados são as formas também de nós participarmos ativamente nesta transição.

Claro, e está tudo em mudança, nós sabemos. João, estamos a chegar ao fim do último episódio, do quarto episódio deste podcast. Já falámos aqui de muitos conceitos, talvez fosse a altura de deixarmos algumas ideias firmes, algum sumário executivo, de alguma maneira, sobre onde é que estamos desta transição energética.

Certo, Paulo. Eu acho que nós estamos a viver um momento único na nossa geração. Acho que fique bem claro, toda esta transição, eu acho que se calhar as pessoas, todos nós ainda não nos apercebemos da quantidade de coisas que temos que transformar nos próximos anos e gostava que esta geração, no futuro, fosse reconhecida como a geração que conseguiu resolver um dos maiores problemas que já tivemos até hoje. E que isto fique bem claro. Eu acho que no caso concreto de Portugal, como disse ao início, estamos bem, temos condições naturais, temos recursos endógenos para aproveitar, temos ambição e eu acredito que Portugal continuará a entrar na linha da frente. Acho também que ficou bem claro que as redes são essenciais para esta transformação, ou seja, são as redes que conectam todos estes pontos e que sem as redes a transição não existe. E a ERREDES está totalmente comprometida como sendo um verdadeiro facilitador desta transição, seja pelo investimento que tem feito na rede, nas chamadas redes inteligentes, seja até nesta nova forma colaborativa de trabalhar com todos. Porque eu terminava dizendo que esta transição energética é para todos e tem que ser feita para todos. Só assim conseguimos um mundo mais sustentável, só assim também conseguiremos ter maior sustentabilidade até económica no nosso país, porque passamos a ter fontes endógenas para nós podermos fazer esta transformação.

Muito bem, João Filipe Nunes, Sara Veiga de Macedo, obrigado a ambos pela presença neste último episódio. Este podcast Conversas na Rede chega aqui ao fim. Ao longo de quatro episódios, percebemos como está o processo de transição energética em Portugal, o papel da tecnologia e como podem também os consumidores estar envolvidos neste objetivo coletivo. Espero que tenha sido útil para todos. Até uma próxima oportunidade.