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Nascida numa família de artistas, pensadores e lutadores, Adriana Molder desenha e pinta desde sempre, mas só expõe desde há pouco mais de duas décadas. É conhecida por desenhar sobretudo de joelhos, no chão, com tinta da China sobre papel esquiço, e as suas obras, sobretudo retratos, têm sido comparadas à forma como os realizadores de cinema preparam os seus filmes. Pintora premiada, cai lá fora, presente em importantes coleções de arte nos quatro cantos do mundo, como nos Estados Unidos ou Singapura, gere na Baixa de Lisboa uma galeria diferente de todas as outras, sem fins comerciais. Vamos conhecer melhor esta mulher, mãe e artista talentosa, que nos vem falar da sua nova mostra, Serpentina, que está patente na sala de exposições da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. Olá, Adriana, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vinda ao Observador.

Eu é que agradeço.

É um prazer estar aqui a falar contigo. É muito curioso, porque tu tens a grande sorte de ter vivido toda a vida rodeada de arte. Porque à tua volta e em tua casa, por causa da tua família toda, tinhas livros, cinemas, fotografias, filmes.

É verdade.

Desde que nasceste.

Sou uma privilegiada e vivi mesmo rodeada. Só não tínhamos era televisão, que tínhamos que ir ver a casa de uma vizinha pra podermos ver a telenovela.

Ir de vez em quando. Ah, ver novela, já percebi. Tinham umas Gabrielas, umas gravicanelas. É muito engraçado, porque o teu pai, Jorge Molder, grande artista, grande fotógrafo, autodidata, que chegou a ser diretor do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian e foi condecorado, foi cavaleiro, foi filósofo, psicólogo militar, representou-nos na Bienal de Veneza em 99, se não me engano. No ano a seguir, ganhou o Leão de Ouro, o Richard Serra, que falámos há pouco, que tu gostas tanto, na Bienal de 2000.

Que tive a sorte de conhecer.

Conheceste o próprio Richard Serra? Grande escultor californiano que tem aquelas obras, como está agora na coleção permanente do Guggenheim Bilbao, aquelas estruturas em aço de corte limpo.

Ele é um artista extraordinário. Eu tive a sorte de ir a um jantar. Ele veio fazer uma palestra à Gulbenkian, que eu adorei, mas eu tinha 18 anos e na altura achava que queria ser cantora de jazz. Estava entre artes.

Chegaste a estudar isso, jazz?

Sim. E tive a sorte da minha mãe não poder ir a esse jantar e fui eu. E a meio do jantar, de repente, ninguém estava a falar com o Richard Serra e eu peguei numa cadeira e fui para ao pé dele e estive a noite toda a falar com ele. E não me lembro nada, mas sei que foi fundamental pra minha vida.

Uma personagem fascinante, de certeza, claro. Inspirou-te muito. Já sabias nessa altura que estavas completamente em artes e que querias seguir isso, ou não?

Eu acho que sim, eu sempre desenhei, mas ainda não tinha nada que pudesse chamar um corpo de trabalho. Isso não existe. Não podemos empurrar nada.

Claro.

Mas foi a partir daí, a partir dos 19, 20, que eu comecei a fazer uns pequenos desenhos a tinta da China, já com o papel esquiço, e de repente achei que aquilo podia ser qualquer coisa.

É engraçado porque como tu bem disseste, numa entrevista tua que eu ouvi, é tudo fora do normal. O papel esquiço não é um papel pra ser usado. Em cima tu desenhas com aquilo e com água.

O papel esquiço é o que deve ser usado entre os papéis dos artistas.

Ah, ok.

Mas naquele dia que eu queria desenhar, a minha mãe tinha umas folhas lá em casa que devia usar pra escrever à máquina, pra fazer duplicados. E eu comecei a fazer essas transferências e depois quando fui pro arco, a escala aumentou.

Exatamente. E deste bem com aquele meio, é engraçado.

Sim.

E estás a dizer que aquilo é usado entre as folhas, o bom papel do cavalinho.

É uma técnica absolutamente errada. Nem o papel está preparado pra ter água.

Então fica todo ondulado, não é?

Fica, e eu adoro isso e cria imensos acidentes. E eu gosto disso. Eu sou muito controladora. E esta técnica ajuda-me a não poder controlar tudo.

É muito bom, porque há coisas que fogem do teu controle, porque não sabes como é que aquilo vai recriar aqueles relevos.

Agora já consigo dar um bocado, depois de 20 anos.

Sim, exatamente.

E de uma hérnia, acho que já consigo dar.

Esta hérnia tem a ver com a tua posição, porque tu desenhas tudo de joelhos, no chão. Ao fim de duas décadas, já fizeste operações, não?

Fiz uma operação, sim.

Óbvio. Falaste da tua mãe, maravilhosa, Maria Filomena Molder, filósofa, investigadora, professora catedrática de estética, e que também foi bailarina. Cá está, as artes estão em todas na tua família, em várias áreas. Tu, inclusive, com o canto, falaste nisso há bocadinho, tu chegaste a estudar jazz. Mas canto, voz.

Sim, eu gosto muito de cantar, mas ainda gosto mais de assobiar.

Ai, é? Assobias lindamente.

Sim. Eu e a minha irmã somos um espetáculo a assobiar.

Vocês nunca deram nenhum recital?

Eu usei no filme da Serpentina o meu assobio.

Pois, porque tem um filme, são os desenhos grandes e um filme.

E eu quando fui pra primeira classe, fiquei logo traumatizada porque cheguei no segundo dia, comecei a assobiar e veio logo uma menina dizer: "Na escola não se assobia". E eu acho que só quando me mudei pra Berlim é que voltei a assobiar. Acho que foi assim uma coisa mesmo.

Com o "einstein" vai até...

Sim, até a escola acabar.

Engraçado. Falaste no arco, já tinhas feito lá um curso de desenho avançado de artes plásticas e projeto individual. Em 2002, já fez também 20 anos. Foi no ano em que começaste a expor, a tua primeira exposição é desse ano.

Sim, no Museu de Arte Urbana.

Antes tinhas estudado cenografia, que é muito engraçado, realização plástica do espetáculo no conservatório, no fundo, a escola.

Sim, tem tudo a ver com a minha...

E daí a tua escala grande, se calhar. E o cinema, porque eu conheço muito o cinema.

Eu acho que eu fui pra cenografia porque vi no À Carta Pina Bausch.

Ok. Desenhar dança.

Sim, fiquei fascinada com aqueles cenários e também com os posters que havia ainda na altura, eu ainda sou desse tempo, no Condes e no São Jorge.

Com os telões, com os filmes. Claro, eu também me lembro também. No Monumental.

Tinha a ver. E então fui pra cenografia A escala tem a ver com isso.

Porque tu pintas coisas em grande escala. Nem que sejam às vezes só, e há muitos na tua obra, rostos ou só a cara, e mesmo assim é uma cara gigante que ultrapassa tudo. É muito curioso, e isso tem muito a ver com o cinema. É engraçado esta ligação com o cinema, porque tu sempre foste muito ligada, desde pequena, tu e a tua irmã íam com o teu pai à Cinemateca.

Sim, meu pai levava-nos muito.

Vias muita coisa?

Víamos muita coisa e depois aos 13 anos ia muito sozinha à Cinemateca. Sempre adorei cinema.

E é engraçado, tu disseste também outra coisa curiosa. Uma vez disseste: "Nem que seja um filme dos Schwarznegger, porque cinema é cinema."

Eu gosto de tudo.

És uma cinéfila omnívora.

Sim, mas em tudo, na música.

Não há aquela coisa do: "Não, isso não é para as elites. Há cinemas que não se veem, são comerciais." Não, tudo bem.

Acho que as coisas boas são todas para as elites, mas a elite não tem a ver com dinheiro nem com status, tem a ver com sensibilidade.

E gosto, claro.

E tu podes encontrar uma coisa fantástica num filme que é medíocre. Claro que não será ao mesmo nível de um filme de autor.

Mas às vezes pode ter ali uns pormenores, ou umas cenas, ou uma atriz, que ultrapassa tudo.

E lá em casa sempre foi. Eu acho que isso é uma cultura da minha casa. Tenho mesmo que admitir que é uma coisa de-

É um privilégio, isso.

Sim, de podermos gostar de vários tipos de música e achar fabuloso os "Saltadores da Arca Perdida" e "O Espelho" do Tarkovsky.

Que engraçado.

Faz parte.

E o teu pai também como fotógrafo, é curioso, porque fiquei com a ideia que apesar de ser fotógrafo, tu não tens muitas fotografias da tua infância, por exemplo.

Eu não tenho.

Ele não vos tirava à família.

Não, ele tirou à minha irmã.

Que é mais velha que tu? Ou não, não sei.

Não posso dizer porque ela é cantora de ópera. Não sabemos.

Ah, tá.

Quando eu nasci, meu pai começou a fazer fotografia. E eu ficava muito zangada com isso quando era pequena, mas agora acho que é bom, porque ele começou a fazer fotografia e já não fazia aquelas fotografias de família.

Típicas.

Eu acho que tenho uma fotografia com seis meses e depois a partir dos quatro, cinco já tenho, mas em pequena.

Ok. Muito pequenina não.

Eles tinham imensa facilidade em dizer que eu era adotada e não sei o quê. Não havia fotografia.

Tem essa arma. Exato. Não há registros até aos quatro, cinco anos. A questão do desenho, Adriana, veio muito contigo. Tens uma mão muito boa, desenhas muito bem. Era desde pequenina ou tiveste muito bons professores de desenho? Como é que é?

Eu tive sempre maus professores. O único bom professor que eu tive é teoria, era o João Queirós, mas era na teoria. E eu desenho desde pequena e são as duas coisas que eu mais gosto de fazer, é desenhar e cozinhar, e apareceram nessa mesma altura. Mas desenhar é uma coisa que apareceu mesmo, como em todas as crianças, muito cedo e depois nunca foi embora. Há uma altura em que os miúdos deixam de desenhar e eu nunca deixei de desenhar.

Continuaste sempre. Já agora, qual é a tua especialidade na cozinha?

Eu adoro fazer tudo.

Mas faz galantine de peru? Quais são as coisas?

Não, isso não. Eu adoro fazer, por exemplo, filetes de pescada.

Ah, que bom!

E de arranjar a pescada e de fazer tudo.

Muito bom. Também viveste em Berlim 13 anos, não foi pouco, 2006 a 2019.

Sim.

Fizeste uma viagem para aprender, no fundo, ias à procura de aprender. Que não contavas ficar tanto tempo, certo?

Não, e também não contava nada ir viver para Berlim, foi tudo um bocado por acaso.

Foi para uma residência que tu ganhaste?

Foi mais. Eu comecei a trabalhar com uma galeria em Berlim e depois concorri a uma residência, que não ganhei, concorri durante quatro anos, e depois quando ganhei eu já estava lá. E foi fantástico porque veio na altura certa, foi a Kunsthaus Teltow. E veio mesmo na altura certa e depois, de repente, através dessa residência, o diretor do Hamburger Bahnhof viu o meu trabalho e ganhei um prémio. Portanto, a minha entrada em Berlim foi assim uma coisa espetacular.

Deve ter sido uma sensação extraordinária estar a receber um prémio com um discurso do diretor.

Sim, foi muito bom. E depois também vendi dessa série que fiz no Kunsthaus Teltow. Tive um ano a fazer essa série que chamei de "Der Traumdeuter", que é o intérprete dos sonhos ou o contador de sonhos. Vendi para uma coleção extraordinária, que é o Kubfa Sis Cabinet. E eu podia ter ido logo embora. O que eu fui fazer lá foi isso.

Tu chegaste a imaginar um argumento para uma série, digamos assim, ou para um filme. Não foi? Com este homem do hospital, que tinha um sonho.

Sim, isso foi essa série que eu fiz.

Meu Deus! Isso não foi para frente?

Não, isso foi a série que eu fiz. A série de desenhos, eu chamo série de desenhos.

Eu imaginei logo uma série da Netflix.

Não, isso não.

Com esta personagem, este Leo Stern naquele hospital com visões e delírios. Isso é uma coisa extraordinária.

Foi fantástico.

O Teltow era um antigo hospital, não é? De fim do século 18.

Era, e tinha imensos fantasmas. Tinha mesmo.

Engraçado.

Era aquilo de dávamos todos um bocadinho.

Isso é muito inspirador para um artista.

É, mas também era um bocado assustador.

Assustador. E estavas lá sozinha. Mas é incrível, porque realmente Berlim é uma cidade fascinante a nível das artes ou não, vibrante. Nada a ver connosco? Ou outro estilo?

Na altura era também diferente, porque os artistas andam sempre à procura de sítios que tenham ateliês baratos e casas baratas, é isso que os artistas precisam. E que tenham condições. E Berlim tem todas essas condições e tem museus incríveis e tem imensas galerias.

Aquela ilha dos museus.

Foi uma altura incrível quando eu vivi lá, foi uma sorte. E depois, a partir de uma certa altura, já estava farta.

E vieste para cá.

Sim.

Mas é engraçado, porque ao mesmo tempo, a vitória, foi uma grande vitória na tua vida.

Mesmo.

Ao mesmo tempo, tu estavas numa cidade que, agora estou a pensar no clima. Às 16h está noite, ou às 22h30.

Isso eu gosto.

Mas depois tu gostas de trabalhar com luz elétrica em vez de luz solar?

Eu prefiro trabalhar com luz elétrica, sim. Berlim, o pior não é isso. O pior de Berlim é quando chega a maio e nunca mais vem A primavera, não o verão. A primavera vem e é muito forte e uma pessoa percebe os românticos, mas é difícil. Berlim não tem sol, às vezes estamos 20 dias sem sol. Eu nunca me consegui adaptar a esse lado. Mas à cultura, aos museus e ao fato dos transportes públicos funcionarem, adaptei-me perfeitamente. Gostei muito.

E tu estavas lá há quase um ano, quando recebeste este prêmio da Herbert Sap Price for Junge Kunst, portanto, para jovem artista. Eras recém-chegada à cidade. Isso lançou-te.

Não, foi muito bom.

Até porque esse prêmio não eras tu que propões, propuseram-te.

Sim.

Não é como o Selo, o Prêmio Selo Vieira da Silva. Concorreste?

Não concorri. Esses prêmios são os melhores. Concorrer é uma chatice, é bom é quando nos convidam.

Pronto, claro. Aí ganhar, você não estar à espera de receber essa nomeada. É extraordinário.

Além de me convidarem, ainda ganhei. Quer dizer, é ótimo.

Muito bem, Adriana Molder. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Até já.

Um gajo estar ali preso tanto tempo e depois ouvir falar português cada parte fora. Não se consegue descrever. Ninguém consegue descrever o que sente.

Este é o Sargento na Cela 7, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador.

E assim: "Dá-me uma granada, pá, dá-me uma arma qualquer, qualquer coisa". O meu instinto, isso não me esqueço nunca mais, era continuamente: "Agora vamos para a medo, quando a crise acaba estes gajos todos que estão aí."

Episódio seis: O Resgate.

E eu nunca mais me posso esquecer do abraço que ele me deu. Não me esqueço.

António Lobato foi o português que mais tempo esteve em cativeiro na Guerra de África. Sete anos e meio. Pode ouvir o Sargento na Cela 7 no site do Observador ou nas plataformas de podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Estamos a conversar com a pintora Adriana Molder, que nos fala da sua vida, da sua carreira e desta sua nova amostra, Serpentina, que está patente na sala de exposições da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. Adriana, eu estou a conversar contigo e a achar coisas muito curiosas sobre a tua carreira, que não sabia e que é giro. Falaste, por exemplo, deste livro sobre a dança de Pina Bausch, que tu desenhaste e que tinhas imenso trabalho a identificar os quadros dos bailarinos todos. E lembras, por exemplo, da segração da primavera, da primavera, que um barato que ela fez extraordinário. Ou lembras, por exemplo, do rosto dela a chorar no Café Müller.

Sim.

Isso passou-se lá em Berlim?

Não, foi cá no Acarte.

No Acarte, sim, no Boabenken. E realmente marcou-te para toda a vida também.

Lógico que sim, mesmo.

Deve ser uma sensação muito curiosa e espetacular. Se tu pensasses em mestres, em artistas que te influenciaram muito e que tu gostas muito e que, por exemplo, quando vais lá fora, não perdes uma exposição deles, lembras-te assim alguém que salta à memória, de repente? Referências.

Tenho tantas, desde o Munch até à Marlene Dumas. Às vezes também gosto das coisas do Peter Doig, mas nem sempre. Já falámos do Richard Serra.

Exatamente.

E agora estou com uma tendência para coisas muito mais antigas. Aliás, nesta exposição na Serpentina, foi a impossibilidade de viajar que me levou-

Durante a pandemia, claro.

E não só, depois da pandemia, ora tinha dinheiro e não havia tempo, ora não havia dinheiro e havia tempo.

E agora tens a Vitória, não é?

Sim, e tenho uma filha pequena.

Vai fazer seis anos, é pequenina ainda.

Fui à procura na coleção da Albertina, que é a maior coleção de desenho e gravura do mundo, e encontrei dois gravadores do século XIV.

Viste online? Pode ter online.

Sim. E fiquei apaixonada pelo trabalho deles e foi a partir daí que eu criei esta série de desenhos.

Esta Serpentina.

Depois fui ter a coisas mais próximas, que estão no Museu de Arte Antiga, e depois comecei a recortar os desenhos, e depois, de repente, estava a fazer um filme na Escola das Artes com os desenhos, um filme em stop motion.

Cá está, e é isso que consta esta exposição agora, essa Serpentina. Portanto, o que é que as pessoas podem esperar lá? Primeiro, por que na Escola das Artes?

Foi um convite.

Aqui no Porto e por que lá?

Sim, o Nuno Crespo fez-me um convite.

O Nuno Crespo é o diretor.

Sim, em 2021. E depois a exposição até era suposto ser adiada e eu comecei a trabalhar e de repente as coisas alongaram, saí de umas coisas, depois de repente, em Vila do Conde, comprei um livro do Hoffman, que tinha um conto que se chama O Vaso Dourado, e aí encontrei a personagem da Serpentina, que é uma serpente. No texto diz que é a musa de Anselm, é uma personagem que é um Anselm, que é um estudante e que fica apaixonado por uma serpente e perde toda a capacidade de se transformar num burguês e, coitadinho, transforma-se num poeta. E eu achei maravilhoso essa ligação que há entre o mundo de Atlantis e da Serpentina e a vida que nós temos, os artistas, que é o dia todo no ateliê, presenciar imensos milagres que ninguém vê.

Criar, exato.

E que depois estamos na nossa mansarda à noite.

Está até 23 de junho, nesta sala de exposições da Escola das Artes. É engraçado porque o Nuno Crespo, que falaste nele, era o curador desta exposição, investigador, crítico de arte. Ele é doutorado em Filosofia e é investigador. É também o diretor desta Escola das Artes da Universidade Católica, que é também um art center. Tu não te cansas de dizer isso, que é muito importante o trabalho que eles fazem, é vibrante.

Sim, é incrível.

Promoção da arte.

Enquanto artista, eu não estou habituada a trabalhar num sítio que não tenha resistência. E não houve nenhum tipo de resistência. Mesmo que as coisas não fossem possíveis ser feitas como eu queria imediatamente, a ideia é o artista está lá e está lá para experimentar e toda a gente está a teu favor. Isso é uma experiência única.

Para que tu te realizes, consigas fazer o que tu queres apresentar.

Sim, é uma experiência única.

E ali tiveste todos os meios, carta branca.

Sim, e os meios são incríveis. É uma universidade, tem meios de edição e de estúdios de som que

Muito bem. Portanto, esta serpente Musa de Anselme, o nome da serpentina vem daí.

Vem também da serpente, que é o único animal que é uma linha, portanto tem a ver com o desenho.

Sim. E no fundo constam de nove desenhos de grande escala, com estas formas irregulares e orgânicas. Continuas com o uso da tinta da China sobre o papel esquisso. E este filme, o tal filme que fizeste é uma fantasia, no fundo, em stop motion.

É uma fantasia que eu ainda não percebi muito bem o que é, mas eu entro no filme, mas eu não sou atriz, eu sou a artista que fez os desenhos. Ainda estou a perceber um bocadinho o que é este filme, porque é um filme um bocado estranho.

E qual é a ligação ao cinema mudo? Que também li qualquer coisa em que falavas de um amor particular ao cinema mudo.

Sim, o filme não é falado, é um filme mudo.

Mas não tem uma banda sonora?

Tem som, tem alguma música, alguns assobios.

Cá está.

Sim, tem algumas frases que são sussurradas. Ou seja, os desenhos são uma espécie de cenários, mas dos desenhos caem pedaços. Há um desenho que voa, há um desenho que cai um pedaço desse desenho, depois há um desenho que foge de um sítio que nós não percebemos muito bem onde é que vem ter.

Tudo isso em stop motion, de fotografia a fotografia. E as coisas vão andando.

Algumas coisas foram em live action, que é uma coisa que eu aprendi, que eu não sabia o que queria dizer, ou seja, foram filmadas. Mas o stop motion é incrível, porque nós filmámos duas semanas e depois eu tinha cinco minutos de filme.

Exato.

Ou estou a fazer uma ação uma hora, meia hora e aquilo num segundo vem.

Os filmes, e então com aqueles bonecos de plasticina, demoram meses a fazer, depois sai uma curta.

E eu saía do estúdio enquanto estava a editar e via tudo em stop motion.

Na tua cabeça já as coisas... A tua filha é pequenina, não é?

Tem seis anos.

Vê-te a desenhar, a Vitória?

Sim.

Foi uma luta para teres a Vitória, porque tu tiveste. Foi o que era parto natural e ela foi um bocadinho prematura.

E ela foi prematura. Se eu tivesse cá não tinha conseguido, mas consegui.

Tu tens pânico ao epidural, que é engraçado.

Tenho. Eu não gosto de não sentir. Quer dizer, no dentista.

Querias ter a dor do... Está bem.

No dentista e na operação da hérnia.

A dor é pior?

Não, eu não quero sentir nada.

Exato.

Mas a dor do parto eu queria sim, e acho que me ajudou.

Que era importante para a tua condição feminina?

Era importante e foi mesmo importante eu saber lidar com ela através da respiração e ter o meu marido a ajudar-me, foi mesmo importante.

Estava ali, foi importante.

E é uma preparação para aquilo que vem a seguir, que é muito duro.

O crescimento dela.

Sim, o dar de mamar, aquela parte do princípio do bebê é uma loucura. Eu acho que a dor do parto em mim. Isto sou eu.

Sim, claro. Esta que está aqui é em questão.

Exatamente.

Falar da tua vida.

Mas foi importante isso. E também tinha o exemplo da minha mãe e da minha irmã. Isso eu acho que ajuda.

Que foi também a mesma coisa que tiveram.

Sim.

Que engraçado. E a tua filha não desenha nada, vê-te a trabalhar?

Ela desenha imenso. É a única pessoa que eu deixo ver a trabalhar é a Vitória.

É? Porque não gostas de ter mais ninguém a ver.

Não, eu não suporto ter ninguém ao pé de mim quando estou a trabalhar.

Isolas-te muito para criar?

Sim, eu sou um bicho do mato, sempre.

E pões música ou não? Tens alguma playlist?

Claro. É o que dizem, que nós fazemos aquilo que fazíamos em pequenos. É o que eu faço, eu tenho música, eu não vivo sem música e desenho a ouvir música. Sempre isolada.

E tens uma playlist própria ou já há algum género ou és muito eclética?

Não, é tudo também muito misturado. Nesta série foi muito importante ter descoberto na Antena 2 um compositor, eu acho que ele é do Trecento, que é do Matteo da Perugia, e ao mesmo tempo estar a ouvir permanentemente uma música do Conan Osíris.

Pois foi.

Foi mesmo importante para este desenho.

Para a criação da serpentina. Incrível. Esta exposição vai ficar no Porto ou depois vai haver alguma digressão, alguma forma de turnê?

Eu vou torcer para que haja uma digressão.

E que possa vir, por exemplo, aqui a Lisboa.

Sim, e talvez a outros sítios, vamos ver, eu adorava.

Tu ouviste algum feedback de visitantes? Tens, costumas questionar as pessoas ou dizem, te ou comentam nas tuas redes?

Sim.

Tens tido um bom feedback?

Tenho tido um ótimo feedback.

Focada?

Não, não é focada. Focada é as lentes. Eu estou muito convencida desta exposição. E às vezes uma pessoa não está. Eu acho que isso tem a ver com uma maturidade. Se ninguém gostar, paciência. Porque eu gosto mesmo daquilo que fiz e acredito mesmo naquilo que fiz. E é muito boa esta sensação, porque nem sempre é assim.

Pois é. Muito engraçado, ainda bem. A sensação é ótima. Tu consegues hoje em dia viver da tua arte, Diana?

Sim, às vezes sim, às vezes não.

Às vezes não consegues viver.

Os artistas é assim. Às vezes é champanhe, às vezes é latas de atum.

Não é mais triste por isso. É temporário.

É.

Muito bem. Agora eu queria falar um bocadinho desta tua galeria, que é falar um bocadinho do teu avô. É extraordinário este Augusto Moldar, o pai do pai Jorge, que nasceu na Estónia?

Na Hungria.

Na Hungria. Porque este nome, o teu nome é húngaro, não é? E era Molnar.

Molnar, o meu nome é holandês. Ou seja, há uns tempos o meu pai deu uma entrevista e o meu pai é tão inteligentíssimo, uma coisa maravilhosa.

O pai Jorge.

O meu pai nasceu no Império Austro-Húngaro. E é verdade, o meu avô nasceu no Império Austro-Húngaro.

Exatamente.

E eu que tenho o fascínio. Por essa altura, durante 40 anos, nunca tinha percebido que tinha um avô que tinha nascido no Império Austro-Húngaro.

Ainda não tinham sido as grandes guerras, ainda estava a Europa dividida.

Ele era um judeu, que não era praticante, graças a Deus.

Mas a tua família não tem nada a ver com religiões e com coisas de nada, nem vocês, de nada.

Não. Eu cresci numa casa onde a cultura judaica estava mesmo presente. A cultura da Europa Central estava ali, mais do que outra coisa qualquer, mas não somos religiosos. E esse avô veio a fugir da Hungria, porque já na altura ele não queria estar na Hungria.

Em 39?

Não, veio muito antes. Ele veio da Primeira Guerra Mundial.

Ah, ok.

Sim, e depois viveu também em Berlim, em Bruxelas e mudou o nome.

Amsterdã.

Sim, Amsterdã, mudou o nome para Mulder.

Mulder acho que queria dizer moleiro, não era? Ou não sei onde.

É, Miller, mas não era o nome dele. A mãe dele chamava-se Teresa Stern. Eu contratei uma vez uma detective na Hungria e ela descobriu que era Meyersberger o nome do pai dele. Portanto, o nome Molnar ou Mulder era indiferente. Mas é holandês, Mulder.

Mas a ideia dele não era ficar cá.

Eu acho que ele queria ir para a América ou para África, e depois ficou cá.

E foi cá. Abriu então esta Casa de Mulder Filatelia e era numismática, na altura, também?

Sim, também, em 1943.

Que ainda existe agora.

Ainda existe, onde eu faço esta-

Vai fazer 80 anos. Este ano faz 80 anos.

Ai, que loucura.

É impressionante, não é? Mas o mais engraçado é que está continua ativa.

Ainda bem que me diz isso, porque eu nem me tinha apercebido. Estou sempre a dizer que abriu em 1943.

80 anos este ano, Adriana. Tão importante e é tão bonito, porque é uma das lojas históricas de Lisboa e é ali na baixa, rua Primeiro de Dezembro, portanto ali junto ao Rossio.

Sim.

E que continua ativa, aberta, e as pessoas vão lá ver coleções de selos.

Sim.

Mas tu aproveitaste então umas salas do fundo, ou já a tinhas aproveitado para ateliê, desde quando?

Tinha feito ateliê quando estava farta do inverno em Berlim. Às vezes vinha para Lisboa e ficava ali a trabalhar. E as pessoas adoravam ir lá visitar-me. Até tinham um bocado de inveja, porque eu queria mostrar o trabalho, as pessoas queriam era ver a loja, uma loja tão extraordinária.

E é extraordinária, é incrível.

E depois mudei-me para Lisboa, foi-me atribuído um ateliê nos Crucels e eu achei que era indecente se não fizesse uma coisa para os outros artistas. E foi um desejo que veio depois da pandemia.

Bonita essa ideia. Eu estive isto aqui quase de mão beijada e pronto, atribuíram-me esse lugar, com o Jorge Branco, com imensos escultores e artistas importantes que estão ali nos Crucels também, que foram nomeados, e o Benard Guedes e uma série deles. E é engraçado tu depois direz: "Posso dar alguma coisa aos meus pares." E então abriste então esta galeria à banda.

Sim, que não é uma, chama-se galeria, porque aquilo já se chama galeria. Há pessoas que acham que eu agora sou galerista, mas não.

Porque é diferente, não é uma galeria comercial.

Não, é aquilo que os americanos chamam artist space. Eu sou artista e convido outros artistas a fazerem exposições. E consegui primeiro um apoio da DG Artes e agora um apoio da Câmara e da Gulbenkian para ter um fee para os artistas. Não é muito, mas para ter algum dinheiro para os artistas criarem uma peça especial para cada exposição.

Mas é engraçado, tu abriste isso, eu sei, ainda antes de conseguires o apoio da DGA.

Sim, eu decidi avançar.

Vou avançar à mesma, se eu vou estar à espera pode ser um ano. Não, vou já aproveitar este espaço.

Não, tinha que ser.

Avançaste.

Sim, avancei. avancei, depois tive. Foi ótimo. Sou eu que escrevo os textos, sou eu que faço tudo.

E faz visitas guiadas também, já ouvi dizer, é uma das sortes.

Sim, já fiz algumas. E vamos fazer agora também na exposição do Rui Sanches, a 17, outra. E é fantástico, porque nós estamos sempre a pensar em nós, os artistas, é sempre um "me, myself and I", e aquilo obriga-me a pensar o que outra pessoa quer, o que ela precisa e qual é o mundo dessa pessoa.

Engraçado, e tu escolheste logo uns 10 primeiros artistas. Estou a lembrar-me do Francisco Tropa, por exemplo, do Rui Chaves, da Ana Catarina Fragoso, Gustavo Sumpta foi logo o primeiro.

Sim.

Com esta série do luto, esta escultura toda envolta em fitas de VHS, que era de outro tempo.

Sim.

E esta chilena, Sandra Vásquez de la Horra.

A Sandra Vásquez de la Horra, que é uma artista extraordinária que eu conheço de Berlim e que foi muito generosa, porque ela veio da Bienal de Veneza, onde tinha uma instalação enorme na exposição da Cecilia Alemani, para fazer a exposição aqui na galeria da Casa Mulder, quer dizer, foi incrível.

Incrível. E este também, a Carla Rebelo, o Bruno Pacheco. Muito engraçado, mas esta tua galeria não se confunde com uma galeria comercial, isto é, as pessoas só visitam e veem e conhecem a obra. Não podem comprar as peças.

Se quiserem comprar, têm que falar com os artistas.

Falam com os artistas e depois combinam.

Eu só mostro.

Muito bem. E isto continua com esta programação, já agora, quem é que vais ter lá, alguma próxima companhia?

Agora tenho a Joana Conceição e vou ter o Rui Sanches a seguir. Já tive a Carla Castiago e a Mariana Viegas. E desta vez escolhi fazer oito e não 10, para ter mais tempo. Acho que é muito ingrato os artistas terem um mês de exposição.

Um espaço muito curto.

É, tem um bocadinho mais.

Assim consegues prolongar um bocadinho mais para as pessoas terem mais tempo aí ver. O projeto, uma vez que disseste isso, só existe enquanto a loja existir. A loja está aberta. Há muita gente que vai aos selos e depois dá um pulo a ver as obras de arte?

Sim, alguns vão.

E vice-versa. Se calhar pessoas que vão ver o Rui Chaves e depois olham os selos e "que coisa".

Sim, eles são uns vendedores incríveis. Basta dois dedos de conversa, já está a comprar uma coleção inteira. Eles são ótimos.

Esta loja que foi montada então pelo teu avô, Augusto Mulder. Tu também tinhas uma ligação qualquer com a tua avó, também vias ela a desenhar? A tua avó não desenhava também?

Não.

Mas esta avó dele.

Não.

Porque vi uma capa de um livro da tua mãe, tem um desenho.

Mas isso é um desenho. A minha avó Dindim fazia uma coisa um bocado compulsiva. Não era um desenho, era uma coisa fechada. Isso é uma coisa da minha mãe, não tem nada a ver comigo.

Ah, ok. Muito bem. Esta tua técnica, esta sensação fotográfica que tu vais inspirar-te. Eu acho que tudo te inspira um bocadinho. A literatura e o cinema para ti são muito importantes.

Sim.

Mas também sonhos, memórias, pessoas que tu vês na rua. Tu andas com um bloquinho, tu fazes os esquissos?

Não, eu não sou uma desenhadora compulsiva.

Ok. Não faz diários gráficos, nem nada?

Não, não faço. E desenho sempre diretamente, nunca faço esboços nem nada. E portanto, quando apareceu esse filme, quando um artista pensa em animação, pensa logo no William Kentridge, que é um artista que eu gosto muito, mas ele é um desenhador compulsivo, eu não. Eu tive que inventar uma maneira de fazer uma coisa para a qual eu não tinha capacidade. O que eu podia fazer com os meus desenhos? Se eu não ia estar a desenhar. Porque eu não sou esse tipo de desenhadora. Eu desenho escondida no meu ateliê, tenho que estar absolutamente sozinha. Portanto, inventei uma outra maneira de mostrar o meu trabalho e de interagir com o meu trabalho neste filme.

Todos os dias desenhas?

Não.

Há dias que não. E isso faz-te bem? Ou não tens a compulsão de acordar de manhã e desenhar?

Não, eu preciso de descansar muito.

E ora com uma filha pequena.

Quando estou a fazer um projeto, eu tenho toda a energia do mundo. E depois quando esse projeto acaba, eu não tenho energia nenhuma. Eu vivo da energia das outras pessoas.

Vais acumulando até ter que espremer outra vez.

E é como aquilo que estavas a falar da literatura. Eu leio, vejo, esqueço-me de tudo. E depois as coisas saem no momento que têm que sair.

Parece que ficou a digerir e a ruminar, digamos assim.

E irrita-me. Às vezes as pessoas: "Este livro estavas a ler". E eu andava tão entusiasmada, sabia falar sobre aquilo e passada uma semana já não me lembro de nada. E depois, quando estava a fazer, por exemplo, este filme, as coisas iam saindo e ligando-se de uma maneira incrível. As coisas estão aqui.

Exatamente. Estão a cozinhar dentro. E é engraçado porque é muito o retrato, o significado do rosto como símbolo no imaginário contemporâneo, muito inspiradas, se calhar, em figuras icónicas do cinema, também estas caras, este rosto. O olhar, uma cara, uma face resume uma história para ti?

Sim, resume.

A nossa riqueza está na cara.

A nossa riqueza está toda na cara. Quer dizer, depois temos as mãos.

As mãos também são importantes.

É mesmo importante, porque é com as mãos que nós somos inteligentes, senão não éramos inteligentes.

Mas tu nunca pintas mãos.

Como?

Mas tu nunca pintas mãos.

Às vezes pinto.

É?

Sim, mas não é muito típico.

Tu é mais a face.

Mas está tudo aqui. Todas as nossas expressões.

Sentimentos.

A visão.

O que é mais humano.

O olfato.

Os sentidos todos.

Os sentidos quase todos.

Muito bem.

E é aquilo que é mais profundo.

E por que as atmosferas sombrias? Em muitos quadros teus há esta atmosfera. Tive até mesmo uma das posições que era fantasmagorias, uma coisa assim deste género.

Sim, fantasmagoriane. Isso foi uma série a partir dos contos que inspiraram a Mary Shelley a escrever o "Frankenstein", os contos alemães. Eu gosto. Eu, por exemplo, acho que este filme da Serpentina é uma espécie de um filme de terror. A minha filha também achou a meio do filme, quis ir embora e nunca mais viu.

Foi demais para ela. E é também engraçado porque fizeste uma coisa há 10 anos, há 11 anos, fizeste uma exposição com a Paula Rego, uma coisa muito bonita ali na Casa das Histórias, que te deu grande gozo, com certeza. Deve ter sido extraordinário fazer. Desafiaste-a e ela aceitou.

Sim, eu desafiei. Ela tinha um dia mandado chamar quando veio apresentar uma "Vanitas" à Gulbenkian. E eu, tão estúpida, fui lá e só lhe levei um catálogo. Devia ter levado um desenho. Mas levei-lhe um catálogo. E ela mandou-me passar à frente de toda a gente e tive que ver o catálogo e foi tão querida. E depois a Paula Rego tem uma coisa maravilhosa, eu gosto de dizer que ela morreu, portanto, ela tem uma coisa maravilhosa, é que ela sempre fez aquilo que queria. Portanto, se ela fez uma exposição comigo, é porque ela queria fazer.

Exatamente. Ninguém a obrigou, ninguém a forçou.

Isso dá-me uma alegria e foi a primeira vez que ela fez obras novas para a Casa das Histórias.

Exatamente.

E foi uma experiência incrível.

A Dama de Pé de Cabra, Paula Rego e Adriana Molder, esta exposição que aconteceu em 2012, exatamente aqui na Casa das Histórias. As duas também são artistas figurativas, vocês têm muita coisa em comum, eu acho.

Sim, temos muito em comum e não temos nada em comum. Isso é muito bom. Eu acho que a Paula Rego era uma artista. Há muitos artistas muito bons que só se rodeiam de artistas medíocres. E ela não.

Procurava também a excelência do seu círculo de amizades, dos seus pares.

Sim. E não procurou um sucedâneo do trabalho dela, porque era fácil encontrar isso. O meu trabalho não é isso.

É outra coisa à parte, outra independência, mas que casou muito bem, porque a exposição era fantástica.

Eu gostei.

E há uma coisa também que eu encontrei tua que fizeste para uma capela no Alentejo, ao pé de Elvas?

Sim, num hotel incrível que se chama Travasso 11.

Isto foi o quê? Foi também uns quadros. Agora estou me a lembrar por causa da Paula Rego também ter feito para o Paço de Arcos.

Um colecionador que eu tenho, que se chama Álvaro Roquette, que é uma pessoa que eu adoro, e desafiou-me a fazer.

É um colecionador que já te segue há bastante tempo.

Sim, uns desenhos para uma capela.

Que são umas santas ou são o quê?

Sim, são uma espécie de... Por isso também me lembrei dos filmes do Dario Argento, porque ela achei a "Mater Dolorosa". Mas isso ainda não foi mostrado. Isso foi um projeto que foi travado pela pandemia e nós queremos fazer um livro e uma apresentação e ainda estamos desde...

Em primeira mão ficamos a saber que estamos à espera dessa.

Sim, isso é uma das coisas que vamos fazer.

Mas que ainda contas este ano, se calhar, já não pegar, talvez para o ano.

Talvez no inverno. Eu acho que é uma coisa boa para se mostrar no inverno.

Perto de Elvas, não é?

É Elvas mesmo.

É Elvas mesmo.

É um sítio lindo.

Fiquei muito curioso com isso. Tu conservas obras tuas, vendes obras, vendes quadros. Quando isso acontece, há algumas que tu guardas para sempre, porque gostas muito ou se pudesses vendias tudo?

Tenho para aí duas ou três coisas que guardo.

Guardas mesmo?

Sim.

Custa-te separar? Agora tens uma filha, não deve custar nada.

Não, nunca custou. Depois aquilo tem vida própria.

E depois vai para a Alemanha, para a França, para a Grécia, para Singapura.

Sim, muitas coisas para Portugal, claro. E é sempre uma alegria descobrires uma coisa que alguém tem, que goste.

Claro. A carinha.

Sim, isso é uma alegria.

Tens a tua inspiração e a tua criação a alegrar a casa de alguém ou o espírito de alguém.

Sim.

A cara de alguém.

Sim, isso é uma alegria.

Muito bem. Nós não temos tempo para mais. Quero agradecer muito, Adriana Molder, muito obrigado pela tua disponibilidade em vir aqui ao estúdio.

Eu que agradeço este convite.

Foi muito bom este momento. Muito obrigado. A si que nos ouve, fica então este convite. Até 23 de junho, deixe-se surpreender com a escala e com o movimento desta nova exposição da Adriana Molder, Serpentina, que está então patente na sala de exposições da Escola das Artes da Universidade Católica, ali na Rua Diogo Botelho, número 1327, no Porto. A entrada é livre, pode sempre vir visitá-la de segunda a sexta, das 14h às 19h. Muito obrigado, Adriana. Bem-hajas. Até breve.

Obrigada.