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Há uma questão que a maior parte das pessoas não sabe. A cortiça é um, senão o maior recurso natural europeu.
Ah, sim?
E Portugal detém a maior floresta de sobro do mundo, para além da maior produção industrial. Ou seja, detemos know-how, não só a floresta, como detemos know-how deste setor de uma forma extraordinária.
Numa altura em que as alterações climáticas e a pressão sobre os recursos naturais exigem respostas concretas, qual pode ser, na prática, o papel do design na construção de um futuro mais sustentável? Como desenhamos um futuro melhor? A celebrar 25 anos de carreira, a designer Ana Mestre, investigadora, professora de Design nas Belas Artes, fundadora do estúdio SUS Design e responsável pela Cork Design, uma empresa portuguesa de mobiliário e acessórios de cortiça ecoeficientes e sustentáveis, que tem aliás, objetos no MoMA, em Nova York, fala da sua carreira focada no design e na sustentabilidade e comenta a exposição que tem no Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, até o fim de julho, Designing Sustainable Futures. Uma reflexão sobre como o design pode deixar de ser apenas uma resposta estética ou funcional e assumir-se como uma verdadeira ferramenta ativa na transição ambiental, da escolha de materiais à forma como pensamos produção, consumo e inovação. Bem-vinda, Ana, é um grande prazer falar contigo.
Muito obrigada.
E quero que saibas que é curioso isto, quando falamos em design e sustentabilidade, para mim, é um tema muito bom e importante trazer aqui. É a primeira vez este tema, já em 1500 entrevistas, porque de facto, quando falamos em sustentabilidade e transições climáticas, pensamos em outros setores, a energia, a agricultura, os resíduos, a água, a gastronomia, o papel, os transportes, o têxtil. Design, as pessoas pensam: "Não, design é aquilo que desenha o comum dos mortais, é o desenho dos talheres e dos pratos e Vista Alegre".
São as coisas bonitas.
As coisas bonitas. Está bem, as coisas funcionais, o Philippe Starck, aquelas coisas engraçadas. E não pensamos: "O que é que isto tem a ver com sustentabilidade? Por que é que é importante, de facto?" E depois começamos a perceber a tua vida, a tua investigação, e é os materiais, e é a cortiça, e a maneira de fazer as coisas, aproveitar as coisas da natureza, aproveitar os resíduos das limpezas das florestas para fazer cadeiras lindas como vi no Pavilhão de Portugal. Este género de coisas. E de facto é um mundo de coisas, mas eu quero chegar como é que tu apareceste nisto da sustentabilidade. Para já, tu, apesar de teres nascido aqui em Lisboa, tens uma família no Alentejo. Que Alentejo, de onde?
Alentejo, zona de Beja.
Ok, Baixo Alentejo, que bom. Mas tu viveste em Estremoz toda a vida, foi lá que nasceste. E desde pequenina tens esta apetência e esta preocupação com o ambiente. Desde o secundário, tu eras uma coisa, e desde mais nova, escrevias cartas ao presidente da Câmara.
Exatamente.
É uma história muito gira. Diz lá, conta lá.
Estávamos na década de 80 e na realidade eram já preocupações que eu tinha. E na altura escrevi uma carta ao presidente da Câmara.
Era na altura o Judas?
Exatamente.
Ou o Capucho? Ah, o Judas.
Sim.
E então?
A solicitar ecopontos. Ainda não existiam ecopontos.
Em São Pedro do Estoril? Não foi isso.
No concelho de Cascais ainda não existiam ecopontos. Eles foram implementados posteriormente, mas o facto é que recebi uma resposta a dizer: "Um dia iremos ter ecopontos".
Isso vai ser possível. Boa.
Mas sim, pronto. Realmente é uma preocupação que tenho desde a infância e seguiu o meu percurso, quer profissional, quer pessoal. É uma temática que me define.
Sim. E é engraçado que qual fosse a área que eu escolhesse depois para a minha vida futura, teria de passar e teria que estar ligado ao ambiente. É uma coisa que tu sempre defendeste, é uma cruzada que tu tens.
Exatamente, sim. Eu sempre me interessei por áreas criativas. Naquela altura em que decidimos o que é que íamos fazer em termos de estudos universitários, estive indecisa entre áreas do ambiente, como engenharia do ambiente, arquitetura, design.
Ok.
E à altura, o design realmente era uma área ainda muito por descobrir, mas que me fascinou e desde logo achei que poderia unir as duas áreas, a área ambiental e o design. E isso foi-se concretizando ao longo das minhas escolhas.
Muito bem. É engraçado porque são frases tuas: "O mundo material necessita de uma simbiose, de uma interligação mais efetiva com o mundo natural. Esta separação tem sido a grande base dos nossos problemas". Isto é tudo verdade. Eu tenho aqui convidados que dizem: "Nós, miúdos em Mafra, nas escolas, que nunca viram o mar e que não sabem como é que é um frango vivo e acham que o frango não tem cabeça e que o bacalhau é uma coisa plana e triangular, seca. Nunca viram no aquário de Lisboa, depois ficam fascinados quando veem, ou veem no oceanário, um bacalhau a nadar e pensam: "Olha, é um peixe igual aos outros".
É, a nossa civilização evoluiu com essa separação, digamos assim.
E está a sofrer com isso.
E está a sofrer com isso. A cultura material, que na realidade é a base da disciplina de design e das áreas ligadas à área industrial.
Pois é, não se pode dizer design industrial e tudo, é engraçado. Logo isso, equipamento industrial. Pronto, sério. A pessoa pensa logo que isto não tem nada a ver com o ambiente.
Tem tudo a ver com o ambiente, porque desde logo inclui materiais, inclui processos, inclui matéria, inclui energia. Muitas vezes há muitos temas que estão escondidos por trás dos objetos.
Sim.
A energia é um deles, porque para tudo é preciso energia, para produzir um objeto é preciso energia. E na realidade, são áreas que estão absolutamente unidas. O design em si, e remeto-me agora um pouco para o século XX, que foi o século por excelência da evolução da disciplina do design, evoluiu muito associada à questão industrial e à sociedade de consumo.
Sim.
E logo aí, nós temos esta união queQue é óbvia entre sustentabilidade e design.
Exatamente.
Porque quanto mais produzimos, quanto mais consumimos, obviamente mais recursos utilizamos.
Mais energia gastamos.
Mais ecoeficiência necessitamos para gerir esses recursos, quer sejam eles materiais, quer sejam eles energéticos.
Por isso é que é importante na tua área ser como tu, que és designer, és criativa e tens ótimos designers. Conheci agora um turco a trabalhar contigo que isto é excecional.
O Razin.
Mas é extraordinário, porque ao mesmo tempo investigas. Tu és investigadora e estás sempre a rever a tua exposição, até lá há muito. As peles da laranja e as coisas que se podem fazer com o peles de instinto.
Os biomateriais.
Biomateriais e os bioplásticos. É muito engraçado isto.
É, porque desde logo, o design é uma disciplina que necessita de inovação. E quando a associamos às questões da sustentabilidade, obviamente precisamos de uma inovação para a sustentabilidade, logo necessitamos de investigação.
Sim.
Daí, no meu percurso profissional, nunca separei as duas áreas. E, na realidade, elas alimentam-se uma à outra.
Mesmo com o mestrado, com o doutoramento, com os pós-docs que foste fazendo, é sempre essa relação. Sustentabilidade, como é que pode adaptar isto e fazer aquilo e o futuro.
Exatamente. O meu percurso foi sempre muito ligado à prática, porque o design é prática, mas depois às questões de investigação e a tudo que sejam áreas, nomeadamente os materiais. O meu doutoramento foi em torno da cortiça, estávamos a falar no início.
E o mestrado, energias renováveis, também era da tua área, não sei como é?
Exatamente.
Que é muito curioso.
E o mestrado foi dedicado à área de energia, portanto desde logo as duas áreas que eu falava que são fundamentais à questão da sustentabilidade.
Nunca te desligaste disso.
Os materiais e a energia.
Muito importante.
Portanto, esse meu percurso acadêmico foi sempre uma ferramenta no sentido de alimentar a prática e vice-versa.
Exatamente.
Eu gosto de estarmos a falar disto, porque não penso que possa ser de outra forma. Para nós conseguirmos evoluir e conseguirmos ter um caminho em torno da inovação para a sustentabilidade, necessitamos necessariamente de investigação, de inovação, necessitamos de conhecimento aplicado.
Exatamente. As técnicas, como fazer isto, ferindo o menos possível o ambiente, gastando o menos possível os recursos.
Exatamente.
Reaproveitando, reciclando, fazendo coisas para vários ciclos de vida. Aprendi isto, o design em cascata, eu achei isto uns conceitos lindos quando estive a investigar as tuas entrevistas. Isto é lindo, design em cascata, poder imaginar uma coisa já de maneira que quando for reutilizado e refeito noutra vida, este objeto, possa continuar a servir a sua função sem ter que gastar mais em apagar efeitos passados. Isto é muito giro e é pensar a médio prazo, longo prazo.
É, é ter uma visão, primeiro de tudo, e depois aplicar estratégias. E nós chamamos em design para sustentabilidade, ferramentas, que efetivamente possamos incluir no desenvolvimento projetual, no desenvolvimento de um projeto de design, de forma a sermos criteriosos nesse desenvolvimento e a termos a certeza de que aquilo que estamos a desenvolver vai ter os mínimos impactos possíveis. Portanto, na realidade, é necessário conhecimento.
Exato.
E um conhecimento transdisciplinar. Ou seja, são precisas várias áreas, e isso é eventualmente a dificuldade e também o fascínio, digamos assim, do design e de um design com estes objetivos da sustentabilidade. Temos que estar sempre a par, temos que estar sempre a estudar novos materiais, novos desenvolvimentos. E a exposição trata disso. Estávamos a falar da exposição. A exposição é uma boa síntese.
Esta conversa é um pouquinho para potenciar a visita das pessoas, aquilo que vale muito a pena. Eu fui ver e gostei imenso. No teu meio de design, tu andas pelo Brasil e Estados Unidos e Emiratos e por todo lado onde tu andas com exposições e a lançar materiais e feiras, já lá vamos, quando chegou ao Brasil a tua exposição, por exemplo, o furor que foi. Ou em Milão, onde se lançaram. Este meio onde tu estás com as descobertas, por exemplo, da investigação, concretamente agora em novos materiais. Vocês comunicam uns com os outros e partilham conhecimentos ou é um meio muito fechado e muito rival uns dos outros? Os designers nórdicos não querem nada com os mediterrânicos e por aí fora.
Rival não diria. Eventualmente, temos diferentes culturas. Eu, em particular, já estivemos a falar um pouco disso, tenho um percurso muito internacional, porque desde muito cedo fui estudar para fora.
Em Delft, por exemplo.
Fui para a Holanda, sim, fazer o doutoramento. Aliás, fui fazer já parte do mestrado, parte da dissertação do mestrado e depois desenvolvi para o doutoramento. Depois segui para o Reino Unido, também estive um ano nos Estados Unidos, entre outros em Nova York, entre outros destinos.
Também foi boa essa abertura de horizontes que tu tiveste, viste o que se faz lá fora.
E muito mais. Ou seja, eu, sinceramente, coloco-me aqui numa situação. As diferenças são diferenças individuais. Obviamente, tenho a minha cultura e obviamente a cultura portuguesa marcou-me.
Então tu com o corte design, portanto, tu que é cortiça, caramba, nós somos os melhores produtores do mundo. É uma coisa que, como tu dizes, é uma sorte onde a gente nasceu.
Sem dúvida.
E ter este floresta montado, que é coisa linda.
Falando da cortiça, há uma questão que a maior parte das pessoas não sabe. A cortiça é um, senão o maior recurso natural europeu. E Portugal detém a maior floresta de sobro do mundo, para além da maior produção industrial. Ou seja, detemos know-how, não só a floresta, como detemos know-how deste setor de uma forma extraordinária. E a cortiça é um material que traduz muito aquiloO que nós podemos entender por sustentabilidade? É um material que tem um caráter ambiental, por apoiar um ecossistema, neste caso, o ecossistema mediterrâneo. Tem uma componente social muito importante, porque efetivamente não deixa de ser um recurso econômico. E falo agora muito em particular da extração da cortiça.
É sempre à mão.
À mão, exatamente.
Homens que se especializaram naquilo, que é muito sustentável, porque a árvore não morre, de nove em nove anos vai se tirar outra vez e eles sabem fazer sem ferir a árvore. É extraordinário.
Nem mais.
É uma arte, é uma técnica que se aprende.
E por comunidades locais. Ou seja, ajuda efetivamente a criar uma sustentabilidade local.
Muito importante. Aliás, é ecoeficiente e tudo aquilo que se sabe.
Traduz aqueles que são conhecidos como os três pilares da sustentabilidade: ambiente, economia e sociedade.
Poucos materiais que podem dizer isso.
E poucos materiais no mundo podem dizer que têm esta questão de sustentabilidade tão forte.
Há três anos esteve cá o João Rui Ferreira, exatamente da APCORSA, Associação Portuguesa de Cortiça, a falar que nós éramos líderes mundiais na produção e que falou que é um material cheio de futuro, da questão do mobiliário também. Falou da NASA e da SpaceX, que são clientes da nossa cortiça. E de facto, com a maior área de montado, estes são os 740 mil hectares, o maior produtor, 200 mil toneladas por ano, 800 empresas de transformação de cortiça, 12 mil trabalhadores estão ligados a isto. E uma coisa que tu foste explicando isso também, ao longo de entrevistas tuas que eu vi, usada desde os romanos, que usavam já a cortiça nas solas das suas sandálias, até em coisas náuticas, boias, tudo, sempre se usou. Temos uma sorte tremenda por ter este recurso aqui, é extraordinário.
Fascinante.
E vocês têm, mesmo com o Cork Design, uma série de objetos.
Cork Design, já agora, com Q de novo.
Exatamente. Isto vem do cortiça em inglês, mas é escrito à portuguesa.
Escrito à portuguesa e é uma marca da Susdesign, o ateliê é Susdesign. E que, modéstia à parte, foi o primeiro ateliê dedicado ao design para sustentabilidade em Portugal.
E este também ainda é a única marca internacional de mobiliário em cortiça, ainda deve ser.
Especialmente dedicada à cortiça, sim. Portanto, existem outras marcas que efetivamente utilizam a cortiça, mas dedicada com multimateriais de cortiça.
Multimateriais?
Multimateriais.
Está bem. Como quem diz, há coisas que tu vês, os candelabros das garrafas, é como um tipo de cortiça, mas a lagarta, aqueles bancos que é modular, aquele assento modular, já é expandida com calor.
Exatamente. Portanto, a particularidade da cork é que integra a cortiça de uma forma muito diversificada.
Também meio transformada ou natural?
Exatamente. Natural, transformada. Brincamos muito, brincar entre aspas, obviamente, com as qualidades físicas que conseguimos obter através da transformação de compósitos de cortiça, por exemplo, usando diferentes texturas, diferentes cores.
Quando se aquece, fica mais escura, não é?
Quando se aquece.
Se é que estes bancos, a lagarta, é mais escura.
No caso da cortiça expandida, sim. E tem outra particularidade a cortiça expandida, que não usa nenhum aditivo.
Pois, até a cola, o aglutinante natural, quando vocês aquecem, aprendi contigo.
É a resina da cortiça.
A própria resina interna que liga tudo.
Exatamente.
Aquilo é uma estrutura celular.
Exatamente.
Depois vocês metem aquilo em moldes e aquecem, aquilo vai expandir e vai derreter aquele aglutinante, volta depois a ligar tudo outra vez, mas já está com aquela forma que vocês querem, conforme estava nos moldes.
Exatamente.
É uma ideia giríssima, depois com aquelas concavidades que dá pra encaixar de todas as maneiras possíveis.
É, convido as pessoas a verem as imagens.
Não, vão à exposição. VEnham ao Pavilhão de Portugal.
Exatamente. Falar um pouco da exposição. A exposição tem por nome Designing Sustainable Futures, já estávamos aqui a referir logo no início. É uma produção da Universidade de Lisboa, que aliás, eu neste momento estou ligada à universidade, sou professora da Faculdade de Belas Artes e daí a ligação. E que, na realidade, traduz este meu percurso transdisciplinar, que também nós estávamos a falar. Portanto, eu venho realmente da prática de estúdio de design, investigo e também sou professora. E essa renovação é muito importante e interessante no que respeita à sensibilização das gerações mais novas e trabalhar com gerações mais novas.
E que é engraçado, porque de fato o target desta exposição é para todos, desde famílias, estudantes e curiosos, todas as idades.
Exatamente. E particularmente para os mais jovens. Obviamente que a exposição, vou aqui apresentá-la um pouco. A exposição está dividida em três núcleos. Visitáveis são dois, eu já falo do terceiro. O primeiro núcleo tem por nome Sentidos da Floresta e é dedicado à floresta portuguesa, é um tributo à floresta portuguesa. Inclui dois projetos que foram desenvolvidos pelo estúdio Susdesign no âmbito da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia e que na altura, na última, portanto, em 2021, na altura foi durante o período da pandemia e efetivamente os espaços estavam fechados, nomeadamente a sede da presidência no Centro Cultural de Belém, que é lá sempre. As pessoas não podiam visitar. Eu fiquei sempre um pouco.
Que pena, as pessoas não terem.
É tão triste, sim.
Que é uma mesa gigante, a Simbiosis, esta mesa modular, uma coisa linda de morrer, ainda por cima. E também as cadeiras Forest Share também nessa linha.
E a Forest Share.
É fabuloso isso.
Aqui em parceria com a Universidade de Lisboa, conseguimos realmente desenvolver este projeto expositivo, que obviamente utiliza a arquitetura do próprio Pavilhão de Portugal, que permite a implementação da mesa Simbiosis, que estávamos aqui a falar, que eu já vou explicar um pouco. Que é uma mesa modular, que originalmente foi desenvolvida com 48 módulos. Na exposição estão 14, portanto, está muito mais pequena, mesmo sendo grande.
Portanto, dá quase para 50 pessoas na sua maior possibilidade de extensão.
Exatamente.
Como se fosse aquelas mesas de juntar tábuas. Esta é uma coisa circular, é redonda, é uma forma especial.
A exposição mostra as multiplicidades das configurações.
Porque foi usada no Porto, foi usada aqui, foi usada em vários outros summits que usaram essa mesa. E é possível usar de várias formas, é famoso.
É um projeto de design de equipamento diplomático, porque foi feito para este contexto da diplomacia portuguesa, tendo em conta o conceito de economia circular. Ou seja, todo o equipamento é desenvolvido a partir de resíduos da floresta nacional.
É incrível.
Nomeadamente, resíduos orgânicos da limpeza das florestas, aquilo que tem que se fazer para prevenir os fogos.
E depois as folhas de eucalipto.
As folhas de eucalipto, troncos que estão no chão.
Dá uma nova vida à vida de morrer.
Depois utilizamos também resíduos da falca. A falca é aquela parte da cortiça que não tem uma utilização tão premium.
Ok.
Que é a parte exterior, aquela parte mais rude.
Sim.
E também resíduos da indústria madeiro-logística de paletes de pinho nacional, que é outro grande recurso nacional.
Sim.
Também é importante referir.
E está lá um canto para as pessoas verem. Vem daqui, vem daqui, vem daqui.
Tem uma instalação de materiais para as pessoas perceberem exatamente como é que aqueles compósitos orgânicos, porque aqueles são compósitos orgânicos, como é que eles são transformados em materiais que depois podemos utilizar no design.
Muito bem, Ana Mestre, temos que pedir aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.Estamos a conversar com Ana Mestre, designer, investigadora, professora nas Belas Artes e fundadora do estúdio SUS Design e também da Cork Design, uma empresa portuguesa de mobiliário e acessórios de cortiça ecoeficientes e sustentáveis. Vamos falar da exposição que está até o fim de julho, até dia 31 de julho, no Pavilhão de Portugal, ali no Parque das Nações, no Centro de Exposições do Pavilhão de Portugal, chamado Designing Sustainable Futures. Estamos a falar destas mesas, por exemplo, que estão lá, e das cadeiras, já agora, que eu gostei imenso, que se podem visitar e mais, digo aqui aos ouvintes, se podem experimentar, o que também é muito importante. Experimentem. As cadeiras são mesmo para as pessoas se sentarem, os pufes são para se sentar, para as pessoas verem como é que essas coisas funcionam. E é muito curioso poder experimentar isso. É uma exposição, portanto, que interage connosco. É muito importante. Além destas mesas modulares simbioses, tens esta Forest Share, e isto é no primeiro núcleo dos sentidos da floresta, não é?
É o primeiro núcleo. Sim, a Forest Share é um tributo à floresta nacional e há uma que tem uma particularidade, que para além de explorarmos a componente formal, tem a componente sensorial do olfato, tem o perfume.
Ah, ok.
Óleo eucaliptal.
Boa.
Porque efetivamente quando usámos as folhas de eucalipto, elas ainda estavam verdes e conseguimos preservar esse aroma. Isso é outra questão que eu acho que é muito importante. Quando nós pensamos em design, pensamos sempre na questão visual.
Só visual?
Mas vai muito para além disso.
Há mais sentidos que estão aqui em questão.
Exatamente. O olfato, o tato, etc. Este é o núcleo um, que é, como eu referi, dedicado à floresta. O núcleo dois é um núcleo mais experimental e foi montado e desenhado em formato quase de laboratório. Chama-se Design Future Dialogues.
No fundo, o que acontece quando o design se junta à biologia, à engenharia, à arquitetura, não é? É um bocado isso.
Nada mais. É isso mesmo. Este núcleo foi montado com projetos de professores, investigadores e alunos da Universidade de Lisboa.
São várias mesas, estou a visualizá-las. Várias mesas que têm essas experiências.
São cinco ilhas. Cada ilha tem um tema específico, portanto, são cinco temas que estão na exposição. Economia circular, inovação social e comunidades locais, cidades saudáveis, regenerativas e sustentáveis, desmaterialização digital e bioeconomia. São cinco eixos daquilo que nós podemos assumir como uma resposta ao design do futuro. E o que temos ali são experiências, mas muitas delas já concretizadas, com protótipos.
Exato. Eu estava habituado a ver pele de laranja, só me lembro da celulite. Não sei porquê, associei à publicidade da celulite. Mas ali parece mesmo uma pele, que é extraída das laranjas.
Sim. Uma das ilhas é dedicada ao biodesign.
Ou do café. O café também dá.
Exatamente. Aos biomateriais. Aliás, muitos dos projetos que ali estão são parcerias com o Biolab Lisboa, da Câmara Municipal de Lisboa, e tudo novos materiais a partir, por exemplo, de resíduos de borras de café, de algas, inclusive algas que não são assim tão desejáveis.
Dar um uso a uma coisa que se calhar é lixo ou vai para um aterro.
Exatamente.
Ali tem uma utilidade prática.
Outros resíduos orgânicos, estávamos a falar da laranja. Outros desenvolvimentos tais como micélio, que são desenvolvimentos bacterianos. Ou seja, há um conjunto de soluções de novos materiais. Os fungos, exatamente, com os quais podemos desenvolver objetos. E isto é o ponto de partida.
E depois são biodegradáveis. É toda essa vantagem.
São biodegradáveis. Essa é uma das componentes da exposição. Temos o outro ligado à economia circular, que tem mais a ver com como é que nós podemos valorizar resíduos que estão em circulação. Estão lá vários exemplos, como os telões que são utilizados na publicidade, novas vidas que podemos dar. O papel, como é que podemos reciclar o papel, mas que possa ser desenvolvido um compósito para criar objetos também. Estão lá vários exemplos.
Várias ideias.
Outra ilha, mais ligada às cidades regenerativas, mostra novos desafios de como é que devemos olhar para as cidades, também do ponto de vista de as tornarmos mais saudáveis, tendo em conta que as cidades são cada vez mais, a população-
Está a aumentar.
Está a aumentar.
Exatamente. Está lá a haver uma grande pressão.
E a parte também toda imobiliária, os edifícios. Como é que nós podemos criar um equilíbrio entre estes novos desenvolvimentos regenerativos e aquilo que é o desenvolvimento humano?
Só para deixar aqui uma dica, para dizer isto antes de irmos embora. Que há visitas guiadas, para já tome nota na sua agenda, 10 de maio, por exemplo, 14 de junho e 12 de julho. São três dias onde a Ana Mestre, ela própria, irá conduzir estas visitas guiadas à exposição. Vale muito a pena. Houve uma em 12 de abril.
Houve, correu lindamente. Aliás, estava cheia.
Ainda bem.
E foi interessante.
Desde maio, a próxima, tome nota.
Acabou por ser duas horas. Estava planeada para ser 45 minutos, mas realmente o público estava tão interessado que acabou por durar duas horas.
Ainda bem. É bom sinal.
É muito bom sinal. Se calhar, também importa dizer que aos domingos de manhã a entrada é gratuita.
Sim.
Não é que o bilhete seja muito caro, mas aos domingos de manhã a entrada é gratuita.
É €6, eu sei, porque paguei.
Exatamente.
Claro, faz parte.
E 50% do valor para estudantes.
Exatamente.
E várias outras pessoas. Falta-me também falar do Núcleo 3, que é um núcleo que não é visitável. E o que é o Núcleo 3? O Núcleo 3 é o espaço de exposições do primeiro andar, onde vão ser desenvolvidas, a partir do final de abril e mais concretamente a partir do início de maio, vários tipos de atividades onde o público vai ser envolvido. Desde talks, workshops, outras instalações de residências artísticas, por exemplo, a acontecer ao vivo. Ou seja, é no fundo, a exposição a acontecer no momento.
Sim.
E a perspetivar aquilo que irá ser.
Que há de ser o futuro.
Exatamente.
Só uma coisa, Ana, para saber isso, os horários das exposições, o que é que vai ser, quando é que isso é, em maio. Se calhar já estamos em maio, nessa altura, a acontecer. As pessoas podem ir a um site que podem ver?
Podem. Desde já, o site da Universidade de Lisboa. E se procurarem a exposição Designing Sustainable Futures nos motores de busca, vão encontrar.
No teu corkdesign.com também tem alguma coisa?
No site susdesign.pt também vai estar atualizado. No site também da iniciativa designfutures.pt. Corkdesign.com também vamos atualizar, mas eu diria para as pessoas procurarem também o site da Universidade de Lisboa, que é o produtor desta iniciativa.
Claro que aqui a gente pode experimentar sentar-se no puff Fup e tal, e no Forest Chair, este tipo de coisas, mas já vamos falar disso. Eu também queria continuar a falar da tua carreira, que é uma coisa que vale muito a pena. Tu em Índia, essas coisas por onde tu passaste, que é muito importante. Estamos a falar da tua preocupação com o ambiente, que vem desde sempre, desde que te lembras. Vou ler outra frase tua: "Nós criamos a divisão entre o que é natural e artificial. Construímos o mundo assim, mas de forma errada. E agora, espero, o mundo tem de começar a convergir novamente". Tu, aliás, levas isto muito a letra, tu eras vegetariana, hoje já não és.
Sou pescatariana.
Como é que é? Pescatariana?
Exatamente.
Pescatariana quer dizer que és vegetariana.
Sou vegetariana com-
Ovolacto, quer dizer, comes ovos e leite.
Exatamente.
Os vegetarianos não comem ovos e leite?
Os vegetarianos 100% não.
A carne é que não.
Os ovolacto vegetarianos é que adicionam.
Além disso, pontualmente acrescentas peixe.
Exatamente.
Tu não podes ver o "Seaspiracy", por exemplo, este tipo de documentários.
É assim, na realidade, eu tornei-me vegetariana na altura.
Tinhas 16 anos, não devia haver ainda. Havia três restaurantes em Lisboa que eram vegetarianos quando tu ficaste.
Nem mais. Não quero estar a fazer publicidade, mas os Vegetantes, que é um mítico restaurante vegetariano, e mais dois.
No Rui Luís, na Rua de Leitria, havia um.
Os outros dois já não existem.
Que bom!
Era uma realidade completamente diferente. E na realidade, com essa tenra idade, 16 anos, eu basicamente tornei-me vegetariana depois de uma visita a uma exposição que mostrava a produção animal, a produção industrial. E foi interessante porque eu saí da exposição e naquele momento disse: "Eu vou deixar de comer carne". E deixei. E até hoje é assim. Portanto, realmente, aderi depois ao pescatarianismo e, sobretudo, se for de forma regulada, digamos assim, mas carne vermelha, etc., nunca mais.
E não sentes falta, não tens saudades? Gostavas de bom bife de vez em quando, antigamente?
Eu gostava, antes dos 16 anos, porque lembro-me de gostar, mas depois tive vários problemas de anemias e aquelas coisas que são típicas de quem se converte ao vegetarianismo e o faz um pouco do dia para o outro, porque foi o que eu fiz. Tive essas questões. Não sinto falta e vou dizer que já nem me lembro, porque já foi há muito tempo.
Mas se tu vais a um sítio, a casa de amigos, jantar, não sei o quê, e tens um bocado de carne, recusas preliminarmente, como se fosse um arroz?
Nunca mais toquei. Desde os 16 anos, nunca mais toquei. Foi mesmo uma decisão, uma rutura.
Sim, aquela coisa de dizer que há proteínas que não substituem, nenhuma soja do mundo substituirá. Tu tomas algum suplemento, alguma coisa por causa disso, ou não? Porque há nutricionistas que dizem: "Não, mas faz falta, algumas proteínas faz falta".
Não.
Que não se encontram no mundo vegetal.
Sempre controlei muito a questão do ferro, por exemplo, que para mim foi a questão mais crítica. Mas eu penso que como foi numa idade em que era tão jovem.
O corpo se habituou.
Exatamente, houve uma adaptação.
Muito bem.
Mas isso marca realmente uma viragem, que acho que é um pouco isso que estamos aqui a falar.
Sim. Tinhas 23 anos, foste para a Índia desenvolver o primeiro projeto de ecodesign em contexto industrial nesta marca, Whirlpool, na Índia. Um projeto de investigação indo-europeu, que teve por base a investigação dos hábitos das populações rurais na Índia. Estiveste o quê? Um ano, uns meses?
Estive um ano. Estive um ano na Índia.
Isto em várias cidades, Mumbai, Nova Deli.
Exatamente.
Pune.
Tinha acabado de tirar a licenciatura e candidatei-me a um lugar no, à altura, Instituto Nacional de Investigação Industrial, o INETI, agora é o LNEC. E fui uma dos dois designers escolhidos para trabalhar em projetos de ecodesign a nível europeu. O nosso primeiro projeto foi realmente na Índia e foi em representação de Portugal.
Foi fascinante o teu trabalho lá?
Foi fascinante.
E viver lá.
Foi um alerta, um abrir de olhos para uma realidade completamente diferente. O projeto, não obstante ser para a Whirlpool, e o objetivo era desenvolver um frigorífico ecoeficiente para as comunidades locais que não tinham frigorífico. Essa era uma realidade na altura e eu assumo que hoje em dia ainda será. Ou seja, o meu projeto teve também uma questão etnográfica. Eu tive que fazer pesquisas junto das comunidades locais e perceber a forma como essas comunidades faziam a sua preservação de alimentos. Óbvio que me deparei com situações muito extremas e que até hoje me lembro. Quando regressei à Europa e a Portugal, eu vim com um olhar completamente diferente.E com uma compreensão do mundo completamente diferente.
Que te ajudou muito.
Ajudou-me sempre. E ajudou-me a ter esta consciência social e uma consciência muito associada à necessidade da sustentabilidade, não só ambiental, mas a este triângulo que eu falava do início, de conseguirmos manter um equilíbrio ambiental, social e económico, para que efetivamente as populações à volta do mundo possam viver com dignidade. Mas foi realmente uma experiência muito importante para mim e marcou a trajetória para o resto da vida. E a partir daí, comecei também essa tal vida internacional que falávamos no início.
Sim, pois não paraste. Entre o Brasil, a Espanha, os Estados Unidos, a Venezuela.
Exatamente.
Japão, também estiveste. Investigação e exploração, por exemplo, uma viagem à Amazônia, fizeste. Isto deve ser uma coisa fantástica. Passando por Belém do Pará e Manaus.
Nem mais. Numa iniciativa que a SustDesign desenvolveu, aliás, imediatamente antes da pandemia, com o apoio da Direção-Geral das Artes, que tinha por nome Biodesign, e que tinha a ver exatamente com essa exploração de materiais de base biológica, neste caso, ligados à floresta amazônica, onde estive a trabalhar com comunidades locais, com o látex, portanto, com a borracha natural, e com outros materiais também de fibras. E foi realmente uma expedição, porque começou por ser uma expedição fascinante, porque tive contato com outra realidade social completamente diferente e poder também beneficiar de conhecer a nossa maior floresta.
Exatamente, um ecossistema único no mundo e essencial para a Terra.
Um ecossistema único, a floresta tropical.
O pulmão do mundo, não é, a Amazônia?
O fascínio que isso é, de estar dentro da floresta.
Sim, aquelas árvores gigantescas e as formigas cortadoras e os índios.
Ficamos muito pequeninos dentro da floresta amazônica. Portanto, foi também uma viagem, um projeto fascinante. E na realidade, a minha vida profissional tem sido um somar de experiências de diferentes realidades distintas e de procurar estas soluções para a sustentabilidade. Em Portugal, óbvio que um contributo muito grande com a questão da cortiça e o meu doutoramento foi sobre esse tema.
Há duas coisas que tu tens de maravilhosas. Primeiro é, estas tuas ideias de sustentabilidade e design, muito importante, a parte toda é importante para o planeta e para o ambiente e para tudo. Primeiro, és coerente, porque aplicas na tua vida e eu gosto muito disso. Só fala bem de ti nesse aspecto. És coerente nas coisas que defendes. Não tens depois uma vida à parte, completamente discreta, onde vais de jato como a Greta. Bom, não interessa. É extraordinário isso. E depois, junto dessa parte toda da preocupação ambiental, eu vi as tuas obras, e há algumas obras tuas ali no pavilhão, com uma beleza incrível, com uma estética. E é muito bonito de ver que há nós materiais em fazer coisas bonitas, que também é importante, também enche o olho.
Para mim é muito importante.
São coisas bonitas. Já vieram na revista do Observador, por exemplo, os teus poufs e as cadeiras já apareceram na revista de lifestyle do Observador, como está no MoMA, em Nova York, pelo amor de Deus, o Frapé maravilhoso, wine cooler. Lindo de morrer. É uma projeção mundial que tens ali. Foram eles que vieram cá e que te convidaram.
Sim, na altura foi. Tinha acabado, aliás, de lançar a Core Design e veio a equipe do MoMA ao meu estúdio.
Que lançaste em Milão, é preciso dizer.
Ao meu estúdio, em Lisboa. Na altura era ali ao pé da Rua de São Paulo, no Cais do Sodré.
É extraordinário. E disseram: "Nós queremos ser representantes disto em Nova York". E mal sabias tu, tu nem suspeitavas o impacto que isso ia ter, e de fato teve.
Não.
E disseste: "Ah, OK, levem, pode ser, eu combinando isso".
Depois o Financial Times também fez um-
Sim, e a Monocle. Já tens vindo a New York Times, tem artigos sobre ti. Eu vi. É incrívelIsso é muito importante. E já agora fica aqui esta dica, que se forem à exposição, têm de ir à exposição ali no Pavilhão de Portugal. Está lá este puff Fup, é a primeira peça que a Ana Mestre fez em cortiça. Estávamos em 2005.
2005, sim.
Já fez 20 anos no ano passado.
Fez 20 anos no ano passado.
São 2500 bolas de cortiça num cordão, uma espécie de terço gigante, como diziam na Renascença, que ligaram os terços. Parece, de facto, umas contas todas, 2500 contas em cortiça e que é um puff, uma coisa meio escultórica, meio lúdica.
Mais sensorial.
É, a pessoa senta-se e aquilo massaja o corpo. É toda uma temperatura quente, porque aquilo é cortiça. É extraordinário. Não sei se a primeira vez que expuseste foi na cisterna da faculdade.
Belas Artes, curiosamente. Eu não estudei na Faculdade das Artes, mas a primeira exposição que fiz-
Onde mostraram o puff Fup.
Sim. Foi uma exposição de um projeto, foi o primeiro projeto de surface design que tinha por nome "Significado Geométrico do Design".
No convento São Francisco, era ali no Chiado?
Exatamente. Era e ainda é.
Depois mostraste em Londres em 2005, mostraste depois em Londres.
A partir daí não parei mais, na realidade. Essa foi a primeira exposição e o primeiro projeto. E a partir daí, estou a falar de centenas de exposições.
Temos um minuto também para falar, que achei muito curioso, é que tu ido ao Brasil em 2013, se não me engano. Pela primeira vez foste ao Brasil.
Sim, na iniciativa Portugal-Brasil, Brasil-Portugal. Fui uma das designers que integrava a iniciativa.
E é incrível porque no Brasil não há cortiça e portanto foi uma novidade para eles tremenda.
Foi. E foi superinteressante, porque a partir daí comecei outra iniciativa, que tem por nome Surface.
Tu não paras.
Não paro.
É fantástico.
A ligar os países de língua oficial portuguesa.
Que também têm materiais muito bons e é giro haver esta ligação.
Exatamente. E começámos a trabalhar Portugal-Brasil, na altura, e com o objetivo depois também passar para outros países de língua oficial portuguesa. E até hoje essa rede existe e trabalhamos em conjunto.
Fantástico. Espetoso.
E eu continuo com uma relação muito próxima ao Brasil.
Estes designers trabalham contigo. O Tony Grilo foi um que esteve cá, também já esteve aqui onde tu estás.
Já esteve.
Foi uma exposição minha. E ele é o daquela cadeira-
A Vinco, que é da Cork. Colaboro com outros designers.
Exatamente.
E a Cork é particular.
Qual é o Pedro?
O Pedro Silva Dias, que é meu colega, aliás, nas Belas Artes.
É fantástico. Não sabia.
E também tem uma peça na Cork Design. Portanto, a Cork Design, na realidade, também é um projeto que tenta mostrar design nacional e outros designers.
E eu não sabia que aproveitam também muitas sobras da cortiça, da parte das rolhas. É verdade, eu tive já conversa antiga sobre isso. A boa cortiça que se faz rolhas, há os cortes.
Exatamente.
E aqueles restos que não se aproveitam, metade, 50% é usado.
Exatamente. Aliás, a exposição, o Núcleo 2, tem uma retrospetiva do meu trabalho em cortiça e começa, que é a parte à volta das tais ilhas. Começa com uma peça que é uma chaise longue em rolhas de cortiça.
Exatamente.
E que na realidade é uma metáfora a esta questão do repropósito. Portanto, nós olhamos para uma rolha. À partida deitamos fora porque nem sequer continua a não existir a coleta de rolhas. As pessoas normalmente deitam fora. E aquela chaise longue mostra que está tudo na nossa cabeça.
É incrível.
Ou seja, é a forma como nós podemos olhar para um material, e neste caso um resíduo, e aquilo que nós podemos efetivamente fazer com isso.
Tens de ter um olhar treinado e a tua vida profissional e a investigação levou-te a isso também.
Convido as pessoas a observar essas peças com cuidado.
Isso é extraordinário.
Que estão ali. Mostram também muito o meu percurso no que respeita aos materiais de cortiça, à ligação da cortiça, por exemplo, com a borracha natural, estávamos a falar da Amazon. Está lá um puff, que é o puff String.
Está todo agarrado à volta com aquelas camadas.
Exatamente. Que é a junção destas duas matérias-primas da floresta mediterrânea.
As ideias nunca mais acabam. Vale a pena ir até o fim de julho, já sabe. Passe então aqui no Pavilhão de Portugal, no Centro de Exposições do Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações. Ana Mestre, o nosso tempo já acabou, mas quero que continues a tua ação, a tua estética, a contratar boas pessoas interessantes que tu tenhas a trabalhar contigo e que vale muito a pena. Esta cruzada pela sustentabilidade, pelos novos materiais, pelo design, porque de facto é uma ferramenta que pode ser sustentável e deve para ajudar este ambiente.
Agradeço imenso. Gostei imenso da conversa e obviamente convido as pessoas a ir à exposição. E não só. A também implementarem na sua vida práticas mais sustentáveis e a procurarem design mais sustentável.
Muito obrigado.
Obrigada também. Obrigada.