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Eu saí do Amália de um dia pro outro. Por quê? Eu estava grávida para três meses e meio, quatro, e já me tinham começado a alargar os vestidos, porque a barriguinha ia crescendo.
Claro que sim.
E há um dia em que estou em palco e faço uma respiração um bocadinho mais profunda e rebento com o vestido em cena.
A sério?
Foi. E então foi decisivo: "Olha, a partir de amanhã já não venho."
Diz o povo que quem canta seus males espanta. Poucas pessoas vivem este adágio com a profundidade com que o vive a minha convidada de hoje. Vencedora do Festival da Canção quando tinha 16 anos, Anabela, que nasceu para cantar, já cantava, aliás, antes mesmo de falar, foi de menina do festival para menina do La Feria e hoje, além de cantora, atriz de teatro musical e telenovela, é mestre em Psicologia Educacional. A celebrar 40 anos de carreira, orgulha-se do seu novo projeto, Cante pela sua Saúde, de que é mentora e coordenadora. Uma iniciativa pela saúde pública e envelhecimento ativo, que nasceu como investigação para a sua tese de mestrado e que hoje, com a quarta edição a ocorrer, já impactou mais de sete centenas de idosos. Olá, Anabela, e bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.
Olá, é um prazer enorme. Obrigada pelo convite.
Muito obrigado. É engraçado que tu nasceste na margem sul, na Cova da Piedade, mas nasceste em casa.
É verdade.
Ao contrário dos teus irmãos.
Verdade, incrível.
É incrível!
É, eu achei isso-
Os teus irmãos foram para as maternidades e contigo não
E a minha mãe quis que eu nascesse em casa.
Por quê?
Não sei. Por acaso eu não sei bem porquê.
Isso era costume no tempo dos nossos pais, dos nossos avós.
Exatamente. Mas ela combinou com a parteira e tudo. Foi uma coisa combinada.
Combinada e premeditada.
Exatamente. Portanto, não houve trocas. Sou mesmo filha da minha querida mãe e do meu pai.
Muito bem. Tu disseste que começaste aos três anos a cantar. E até aí não falavas nada. Engraçado. Se calhar cantaste antes de falar mesmo.
Sim, se calhar dizia apenas aquelas primeiras palavras, pai e mãe, mas a minha memória é, de facto, de cantar.
Desde sempre.
Sim, e o meu irmão mais velho e a minha cunhada dizem que eu pouco falava. Era muito reservada, muito tímida, mas adorava cantar.
Engraçado. Aqui fazemos uma homenagem, vamos fazer várias homenagens, uma dessas à tua mãe, uma pessoa extraordinária, esta mulher costureira.
É verdade.
Ela tinha as artes no sangue. Tu não tens ninguém na família que fosse muito ligado às artes. Mas a tua mãe, de facto, às vezes ia aos Alunos da Apolo e adorava dançar.
É verdade. Só o meu avô, o pai dela.
Este avô marceneiro, não é?
Era, o meu avô marceneiro.
E artista.
Um grande artista, fazia coisas maravilhosas.
Um boêmio.
Um boêmio. Gostava muito da sua mina.
E depois que trauteava e estava sempre com o fado.
Trauteava muito e dizia poesia e cantava muitos fados. E eu tenho essa memória dele. E ele gostava muito que eu lhe cantasse também. E a minha mãe, de facto, também mais ninguém na família teve esta veia para a música ou para tocar algum instrumento, nada. Foi a minha mãe, também é uma artista, porque é costureira, também sempre foi muito boa naquilo que faz.
Estas artes que vêm da tua família, tem aquela coisa do mais ninguém é dado às artes. É mentira. Tu tens pessoas na tua família que têm já esta sensibilidade.
Sim.
Que é muito engraçado. Aos oito anos, estamos agora a falar do início de carreira, destas festas nos Jardins Zoológicos, que é engraçado, com os palhaços, com tudo. E aos oito anos, se é que estás a celebrar 40 anos de carreira, tu não tens idade pra ter 40 anos de carreira, Anabela, como sabes.
É isso, João Paulo, é verdade.
Mas é extraordinário, já que toda a gente achava que cantava muito bem, menos os teus irmãos.
Ora nem mais, os meus irmãos a certa altura já não achavam piada.
Os irmãos é normal.
É verdade. E porque eu também era o centro das atenções, era a menina, e os meus pais andavam comigo pra todo lado.
E promoviam-te muito, não era? "Hoje você vai lá cantar. Anabela, canta não sei o quê".
Sem dúvida.
"Estou mesmo a ver."
Mesmo. Canta lá um bocadinho pro amigo ou a familiar ouvir.
Exatamente, incrível. Gravaste o teu primeiro single com 11 anos e no ano seguinte, pela primeira vez, representaste o país neste festival da UNICEF.
Sim.
Acho que ganhaste o segundo lugar.
E o prémio da melhor interpretação.
Isso é incrível. Onde conheceste a Audrey Hepburn.
Incrível.
Júlio Iglesias. Tu hoje é que faz um flashback: "Meu Deus, eu estive com essas pessoas".
É verdade, e na altura-
Que luxo!
Que luxo, mas eu não tinha a real percepção de quem eram aquelas pessoas. Só o Júlio Iglesias, que de facto era mais conhecido. Agora os filmes, a atriz maravilhosa. Para mim, só anos mais tarde é que eu percebi quem era realmente a Audrey Hepburn.
E nesse mesmo ano, a grande Noite do Fado, também ganhaste. A tua voz, além de ser muito bonita, como aliás os ouvintes estão a perceber, tem muito a ver com o fado, não tem?
Tem.
Sempre teve.
Sempre teve, curiosamente. E eu ainda hoje acho que se calhar é o modo de expressão, é o estilo musical onde eu de facto consigo exprimir mais emoção. Sim. Mas é curioso que eu quando vou à Grande Noite do Fado, eu fui representar os alunos da Apolo, porque ganhei lá também um concurso nos alunos da Apolo. E era assim, eram as coletividades que iam.
Que faziam-se representar.
Exatamente. Mas eu não gostava de fado. E por quê? Eu não gostava porque era mal visto no meu meio de amigos. Tinha 12 anos e achava que isto era um bocado fora de moda. "Ai, que horror, é uma coisa dos velhos".
Já passou por várias fases.
Pronto. E então tinha até vergonha.
Estigma, não é?
Era, de cantar.
Ligado ao fado.
Era mesmo mais por aquilo que os meus amigos pensariam de mim.
Respeito humano, digamos assim.
Tal e qual.
Tantas vezes deixamos de fazer coisas importantes por causa disso.
Sem dúvida.
O que os outros vão dizer. E é engraçado porque ao mesmo tempo que dizes isso Da voz e sentes isso, que a tua voz é muito deste registo do fado, mas ao mesmo tempo tens uma imagem e uma ideia de fado um bocadinho diferente do que as pessoas às vezes pensam, porque acham que é muito triste, muito desamor, muita tristeza, muita saudade. E tu dizes: "Não", tu o vês também como dançante, como corrido, como efervescente.
Claro.
Como alegre, por que não?
Tudo, tem todas essas facetas.
As pessoas associam o fado ao português triste, ao camujo.
É verdade que o fado tem muita essa melancolia, a saudade, o desamor, fala desses sentimentos todos, mas também tem um lado feliz e tem poemas muito divertidos. Estou a me lembrar do "Senhor Vinho", estou a me lembrar de outros temas que são de facto muito alegres.
Exatamente.
E depois é isso, também é dançável. O fado cada vez mais é vestido também com outros instrumentos, de bateria, com muita percussão. Portanto, o fado é triste, mas também é alegre.
Exatamente. Como o samba também diz isso, o samba triste. O Virgem falava nisso.
É verdade.
A tristeza. É verdade, tu em pequenina dizias que querias ser cantora e que também dizias que querias ser psicóloga.
Sim, é verdade.
Já vinha dessa altura. É outra paixão que tu tens também.
Outra paixão, sim. Eu acho que foi quando eu, no meu 10º ano, primeiro que estou me a lembrar que tive psicologia e o primeiro ano que tive psicologia, gostei imenso da disciplina. Por outro lado, em pequenina, o meu irmão mais velho tinha um amigo que era psicólogo e eu gostava muito dele. E houve esse fascínio também pela profissão e a conversa. Mas de facto foi desde essa altura do 10º ano que eu disse: "Eu quero ser psicóloga". E consegui tirar.
Apesar da tua grande paixão ser a música. Nunca dizias: "Eu queria ser profissionalmente cantora".
Sim, mas eu já era. Eu também comecei muito cedo. Era uma coisa que eu já era. Agora, tenho pena. Fiz algumas tentativas de aprendizagem de instrumento, nomeadamente do piano. Andei até na Academia dos Amadores de Música, mas depois não levei até o fim. E a única pena que eu tenho, de facto, é de não ter estudado mais música e ter aprendido a tocar um instrumento como deve ser. Já tive aulas também há uns anos, há dois anos também tive aulas de piano durante um ano e tal, mas depois é de facto muito exigente. Para se tocar bem, tem que se ter ali uma dedicação, trabalhar todos os dias, porque senão desaprende. Não é?
Claro.
E portanto, é a única pena que eu tenho. Gostava de ter feito as duas coisas, psicologia e tirado um instrumento.
Então estamos há 32 anos, meu Deus, tinhas 16. O Festival da Canção em 93. É muito engraçado, porque ganhaste com esta cidade, "Até Ser Dia", que é aliás o primeiro single do teu terceiro álbum. Foste depois representar-nos à Irlanda, ficaste em décimo lugar. É muito engraçado, eu gosto muito desta ideia de que tu sentias, para ti aquilo já era normal. Tu, com 16 anos, metade da tua vida já tinhas ido a cantar aqui e acolá, portanto estavas muito à vontade. Mesmo em palco, tu entras no palco e estás à vontade. A tua mãe estava muito mais nervosa que tu.
Sim, certamente. Mas é que é mesmo isso. É incrível, mas eu acho que tem de facto a ver, por um lado, desde muito pequenina, desde os meus oito anos, que eu não tinha medo nenhum de cantar, de enfrentar o público. Eu gostava de comunicar com o público, sentia-me perfeitamente à vontade em palco, não tinha nervos. E depois também pela questão de já ter muitos espetáculos feitos e, por outro lado, já tinha representado Portugal. Eu aos 16 anos já tinha representado Portugal, não só na Holanda, mas também na Tunísia.
Na Polónia, na Turquia.
Exatamente. Já tinha representado internacionalmente Portugal.
Para ti era normal. E a tua mãe nervosíssima.
Sim.
"Calma aí, está tudo bem, eu estou calma".
"Está tudo bem, calma, toma lá um calmantezinho".
Eu acho extraordinário. Tu ali cima do palco, o mundo inteiro a olhar. Eu sou daquele tempo também, eu sou mais velho que tu, claro, muito mais, mas sou também daquele tempo em que o festival era de facto um espetáculo. Era o festival e a Miss Portugal. Eram aqueles programas anuais, mas só tínhamos a RTP. Até vinham vizinhos e tios nossos ver a nossa casa, porque era assim uma ocasião pra família toda, nós somos seis irmãos, todos sentados a ver aquele espetáculo, que não perdíamos desde o princípio e era aqueles espetáculos obrigatórios de todos os anos.
Eu também, desde miúda.
E havia um grande fascínio pelo Festival da Canção.
Completamente, e eu igualmente. Eu assisti ao Festival da Canção sempre com muita ansiedade e alegria e vontade. Por isso é que eu tive sempre o sonho, desde miúda, de muito criança, de ir ao Festival da Canção. E de facto consegui aos 16 anos, que era a idade mínima.
Ah, não sabia.
Era. Portanto, eu já estava na Discotec desde os 12 anos.
Editora, sim.
E estive ali até fazer 16 anos para concorrer na gravadora e enviamos canções para o Festival da Canção, mas que não ficaram selecionadas. E só depois é que a Helena Cardinali, na altura a dona da editora, soube dos compositores que tinham sido selecionados, que ainda não tinham intérprete, e um deles era de facto o Pedro Abrantes, Marco Elías, Paulo Carvalho.
Paulo Carvalho, exatamente.
E então marcou uma reunião Onde eu estive presente também para eles ouvirem a minha voz e para perceberem se-
Se dava ou não, se encaixava.
Exatamente.
E que bem que foi. Muito bem.
Foi sim, senhor.
Depois, interessante que foste cantar por esse mundo inteiro, para as comunidades portuguesas. Estiveste em Toronto e em Espanha, em vários sítios. Fizeste no ano 2000 estes dois anos e meio de digressão mundial com o Carlos Núñez.
Verdade.
O cantor músico galego, tão bom. Até que passaste a ser a menina do Fafe, que entrou para o Fafe. Tu já tinhas feito um ou dois espetáculos com ele antes de entrares à séria nos musicais, não é? No Jasmim, o primeiro.
Exatamente. O Jasmim, o sonho do cinema, foi o primeiro que eu fiz.
Em que eras protagonista.
Exatamente.
Embora já tivesses entrado noutras coisas dele.
Exatamente.
Portanto, ele já te tinha descoberto.
Já. No festival. Ele conheceu-me no Festival da Canção, viu a que eu tinha vencido e depois convidou-me para aqueles programas que ele fazia, a Grande Noite, o Cabaré, e depois convidou-me para fazer o Jasmim, o Sonho do Cinema. Entretanto, se calhar em 99, eu convidaram para fazer o Amália, na Madeira. A estreia do Amália foi na Madeira. E então fui eu e a Alexandra que fomos as protagonistas.
E foi logo em 99. Mas tinha a ver com este 2017, Amália Musical, ou não?
Sim, foi a segunda versão do Amália. Portanto, eu fiz as duas. Não fiz a primeira versão cá em Lisboa. Por quê? Porque aí viemos da Madeira e fui convidada pelo músico Carlos Nunes para gravar o disco "Mai Alongo" e fazer a digressão. Um disco que foi também nomeado para um Grammy Latino, por acaso. E depois-
A partir daí, o My Fair Lady em 2002.
Exatamente.
Canção de Lisboa, Música no Coração, e alternavas com a Lúcia Moniz. No total, uns 500 espetáculos, é brutal.
Sim, é brutal.
Mesmo o Superstar foram quase 400. Foi impressionante. Esse foi maravilhoso, vi duas vezes.
Foi.
O Jesus Cristo Superstar foi extraordinário.
Eu também adorei.
Diz que os próprios, não sei se o Andrew Lloyd Webb, um deles que esteve cá e que assistiu, e disse mesmo que foi das melhores versões que vimos no mundo inteiro.
E o My Fair Lady também.
De facto era maravilhoso. Essa não sabia.
Várias, a Música no Coração também.
A Faria quando pega nessas coisas é inultrapassável.
Sem dúvida. Não há quem. É verdade.
O West Side Story também, que tu também alternaste com a Lúcia Moniz, Severa, o Amália Musical. Aí estamos em 2017. Aí tu tinhas casado com o Vítor.
Eu casei-me em 2015 e em 2017, quando estava a fazer o Amália, engravidei.
Engravidaste.
Felizmente.
Sim, o teu Vicente.
Foi maldia. E eu há um dia, tenho uma história curiosa, que eu saí do Amália de um dia para o outro. Por quê? Eu estava grávida de três meses e meio, quatro, e já me tinham começado a alargar os vestidos, porque a barriguinha ia crescendo. E há um dia em que estou em palco e faço uma respiração um bocadinho mais profunda e rebento com o vestido em cena.
Sério?
Foi. E então foi decisivo: "Olha, a partir de amanhã já não venho. Já está bom".
Exatamente. O que eu fiz não foi mal. E depois foste logo substituída, mas vocês já alternavam.
Já tinha, já tinham mais duas colegas a fazer.
Isso já foi há oito anos. O teu Vicente tem hoje oito anos?
Tem quase oito, tem sete ainda.
Faz em outubro. Mas a idade com que tu começaste, já pensaste nisso? Tu começaste profissionalmente, digamos assim, já a cantar com a idade do teu filho. Hoje eras para ele dizeres: "É muito pequenino, não te metas já nisto".
Pois é, agora ainda não surgiu essa questão.
Já ser músico, ele já gosta muito de música.
Mas ele gosta, ele adora música e tem de facto um ouvido fantástico, é muito afinado e um sentido rítmico incrível. E é engraçado, eu acho que é uma graça, por acaso, quando a gente ouve às vezes cantores e ele gosta muito de ver a Eurovisão, e é muito fã do FF.
Está com a embora contigo também.
Exatamente. E eu acho maravilhosa a sinceridade dele.
Tem uma voz linda de morrer, o FF.
O FF é um ator e cantor extraordinário.
Mãos cheias.
Mãos cheias. E é um menino de ouro. E eu acho muito giro. Estávamos a ver há dias a revista À Moda do Porto, que deu na SIC, e o FF aparece a cantar e ele diz-me assim: "Ô mãe, tu cantas muito bem, mas o FF canta melhor que tu".
Disse-te?
Disse-me. E eu: "É, filho, achas?" "Pois é, filho". Eu acho que é de uma-
Ao mesmo tempo é de uma honestidade, de uma generosidade também.
Uma sinceridade. Achei maravilhoso. Ele podia achar que eu ficava triste. Mas não, "o FF canta melhor que tu, mãe".
Incrível. E tu também, agora que estamos a falar do Vicente, do teu marido também, só porque tu gostas muito de viagens, obviamente, tu passeaste já pela Austrália, portanto és sítios lindos de morrer. Mas esta tua viagem pela lua de mel marcou-te muito, não foi? Moçambique e África do Sul.
Muito.
Tiveste um fascínio.
Adorei.
Tu viste e experienciaste o povo de Moçambique, os safáris noturnos.
Isso aí é que foi difícil. O safári eu ia cheia de vontade, mas depois tive muito medo.
Por quê?
Porque de dia é extraordinário. Nós estamos a ver os animais, claro que estamos dentro de um carro. Fomos no próprio carro, no Kruger Park. Mas depois à noite vamos naquelas carrinhas enormes de caixa aberta. É muito alto, de facto, ficamos numa altura muito alta.
Mas não há vidros.
Não há vidros.
Podem saltar.
Exato. Mas fiquei muito assustada. Número enorme de hienas.
Ah, sim.
Horrível, de noite. E a gente pensa assim: e se o carro avaria?
Pois ficamos aqui.
Como é que a gente sai? E não sei o quê. Pronto, não surtiu efeito. Isso eu não gostei. Mas de resto, adorei a África do Sul, Cape Town, Joanesburgo. Vi um festival de jazz extraordinário.
Ah, que giro!
E gostei muito de Moçambique.
Stellenbosch.
Stellenbosch, os vinhos. Aconselho vivamente a conhecerem, quem gosta de vinhos e de viajar, como é óbvio.
África do Sul é famoso por isso.
É um destino maravilhoso. E obviamente, o povo moçambicano é extraordinário.
E agora, tu surpreseste-te com toda esta confusão que tem acontecido.
Sim.
Como aconteceu antes no Cabo Delgado. As coisas aposto que são coisas que te fazem diferente.
Custa muito, acho que a todos.
Com razão.
Esta coisa de não se respeitar a democracia, da falta de liberdades.
Este mundo é uma coisa que dávamos como adquirido e hoje em dia sabemos que temos que lutar todos os dias. E agora mais, com estes presidentes, estas guerras.
Completamente.
Impressionante. Tu tiraste no ISPA, psicologia, se não me engano, neste ramo educacional e institucional. Por que a psicologia? Era uma coisa que te fascinava, o comportamento das pessoas?
Era.
E veio também daquele amigo do teu irmão mais velho.
Do meu irmão.
Tiraste depois o mestrado em psicologia da linguagem.
Exatamente.
E logopedia.
Logopedia.
Logopedia, o quê?
Tem a ver com a terapia da fala, com as disfunções da fala.
Ah, OK.
E tinha muito a ver com a voz. Eu também sempre gostei muito de estudar a voz. E isto até foi a doutora Clara Capucho, que é otorrino, que me indicou, que me falou deste mestrado. Acho que já nem existe, mas foi um mestrado que me chamou a atenção por ter estas duas paixões: psicologia e as questões da voz. Estudar mais a voz, a terapia da fala, que também era um dos cursos que eu também não me importava de tirar. Acho que é muito interessante.
E que é engraçado também, porque tu já falavas há uns anos numa entrevista que eu li, da musicoterapia, era uma coisa que tu também gostavas.
Também é um curso que eu gostava de ter tirado. Mas lá está, o facto de não tocar um instrumento.
Estás a fazer um bocadinho isso, indiretamente, com este projeto novo.
Sim, é um bocadinho também. Mas lá está, por não ter a base de ter um instrumento, porque para se tirar musicoterapia tem que se tocar o instrumento. Para além da voz, que é de facto um dos instrumentos mais importantes e usado em musicoterapia, é preciso tocar um instrumento.
Um piano, uma guitarra.
Exatamente.
A musicoterapia era uma coisa que te fascinava também?
Muito.
Engraçado. E então começaste com este Cante pela sua Saúde. Muito bem. De facto, estes números são assustadores. A ONU estima que já este ano que passou, os europeus com mais de 65 anos iriam ultrapassar os jovens menores de 15. A população com mais de 60 anos, até 2050 vai duplicar e deve triplicar até 2100. Portanto, é um envelhecimento, de facto. Há umas implicações muito grandes no envelhecimento populacional. É um dos grandes desafios à escala global nas próximas décadas, a gente já percebe isto. Há vários tipos também de envelhecimento, como tu sabes. E esta ideia deste projeto, deste Cante pela sua Saúde, nasceu de facto desta tese de mestrado. Estes grupos de canto para seniores vêm desta tese, da tua tese?
Vai.
Começou aí?
Começou aí, depois de eu terminar a tese.
Esta tese era sobre os efeitos dos grupos de canto no bem-estar subjetivo dos seniores.
Dos seniores, exatamente. E foi um estudo experimental, mas com uma amostra pequena só de três idosos. Fui a um centro de dia, fizemos toda a pesquisa. E depois deu resultados tão positivos, que eu fiquei com a sensação e a certeza de que a música, cantar em grupo.
Cantar em grupo.
Cantar em grupo.
Faz toda a diferença.
Teve benefícios e foi só em cinco semanas, porque a minha tese só testou o programa de cinco semanas.
Um mês e pouco?
E vimos ali, as pessoas até mudaram a sua atitude. As emoções negativas desceram, as positivas aumentaram. Houve pessoas que falavam pouco, evoluíram, começaram a falar mais.
É incrível!
É incrível.
A melhoria da autoestima, da postura, da respiração, da socialização. E depois este programa hoje em dia é acompanhado por investigação acadêmica também.
Exatamente.
Mas eles vão às análises do colesterol que muda.
É isso, é isso mesmo.
As coisas mais físicas.
É isso.
Muda imenso. O outro tinha afasia e passou a falar.
Exatamente.
As pessoas descobrem-se e descobrem o contato com os outros. Pessoas que não saíam de casa há meses.
É verdade.
É extraordinário o efeito que isto faz.
É extraordinário.
Por que os concelhos não têm estas coisas, Anabela?
Eu acho que é assim.
Já estás a fazer em Gaia.
Eu estou a fazer em Gaia este projeto. Eu tenho que dizer que este projeto, Cante pela sua Saúde, surge do orçamento participativo global e com a professora Iolanda Galinha, a professora Luísa Lima, do ISCTE e da UAL, a professora Iolanda Galinha, foram a parte da direção científica deste programa de canto. Cante pela sua Saúde nasce em 2018, 2019. Depois Eu, enquanto mentora, que fui eu que tive a ideia e fiz a parte de toda-
Bom, tu foste e este foi o financiamento, e depois chamaram-te.
E depois chamaram.
Puseram-te nas tuas redes.
Exatamente.
Toda a gente votou e chamaram-te lá. Então explica lá o que é isto.
Precisamente.
Mas isso é muito bom.
E testámos o programa de canto, que teve efeitos muito positivos ao nível da saúde, como há pouco disseste, ao nível da inflamação do corpo, que diminuiu. Ao nível da autoestima, da parte cognitiva, sobretudo da memória verbal. As pessoas melhoraram imenso a sua memória verbal.
É giro, porque têm depois de decorar músicas. É muito giro isso. E socialização.
E o fator social é fundamental e determinante, que é o fato de estarmos todos juntos, de comunicarmos, de estarmos sincronizados a cantar a uma só voz.
Espírito e corpo.
Exatamente. Há ali um fenómeno que é mesmo impactante. As pessoas sentem-se mais felizes.
A própria DGARTES e as Santas Casas que te ajudam, de Almada, de Lisboa, a Fundação Belmiro de Azevedo, dizem mesmo isso: "Isto tirou pessoas de casa que não saíam há meses e que obrigou a..." E depois tem a parte também física, tem exercícios de respiração, tem a descontração, os alongamentos, aquelas coisas que eles fazem pra voz. Ensinar a respirar pra cantar, alguns idosos falavam disso. "Tive que aprender e vou no autocarro sozinho a treinar".
É isso. Já vou a fazer aqueles exercícios. Mas olha, há pouco perguntavas-me porque isso não está em mais municípios.
Loures, Almada.
Pronto. Almada já tem.
Isso é o que tu querias.
E Lisboa.
É o que tu querias, é o teu conceito.
Este projeto, a coordenação é só minha e de mais uma pessoa, que é a Maria da Luz Galamba. Somos só duas. Por enquanto, ainda vamos conseguindo gerir. Estamos em Gaia há três anos.
Vocês são 180 pessoas de cada vez.
Precisamente.
Não é pouco.
Estamos em Gaia há três anos com o financiamento da Fundação Belmiro de Azevedo e da Câmara Municipal de Gaia, mas é um projeto que sem financiadores não é possível.
Faz sentido.
Por quê? Porque as pessoas que estão e os parceiros todos, como a Academia de Música, Vilar do Paraíso.
Academia Sénior Vilar de Andorinho.
Sim.
A Liga dos Amigos do Setor Hospitalar de Gaia, residências seniores de Aveiro.
E a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto. Toda a gente tem um orçamento, há um orçamento pra tudo isto, toda a gente é paga.
Esta gente toda. Transportes, essas coisas.
Estamos a falar de professores profissionais, que dão aulas de canto, que são pianistas profissionais.
Percussão, de dança.
Tudo. Então é um projeto que tem um orçamento, que precisa de dinheiro pra se implementar. Sem isso não é possível. E por isso estamos muito felizes por conseguirmos dar continuidade em Gaia, já é o terceiro ano, e estamos muito contentes porque conseguimos ir a Bragança. Vamos estender este projeto a Bragança, se Deus quiser, este ano vamos começar lá.
Em 25, boa.
Exatamente.
As câmaras também percebem. As câmaras também têm ação social, têm este tanto de coisas.
Têm.
Percebem que isto tem ganhos a nível de saúde pública.
Exatamente.
Pôr os idosos a contactarem uns com os outros e a fazerem coisas úteis, e depois dar um concerto final.
Eu acho que sim, isto tem um impacto tão importante na vida dos seniores. São seniores que vêm de instituições sociais, lares, centros de dia, academias sénior, universidades sénior, que podem participar. E portanto, têm ali uma oportunidade, eles pra além das aulas de canto, duas vezes por semana, que têm ao longo de seis meses, têm workshops de teatro musical, workshops com um artista convidado. Já tivemos o FF, o Toy. Que vão generosamente falar das suas carreiras.
O Sérgio Martins também é extraordinário.
Sérgio Martins, incrível. Mas de fato, sem também pessoas à frente destas instituições e destes parceiros, sem pessoas assim generosas e que acreditam neste tipo de projetos, não era possível fazer. Não era mesmo.
O canto ser em grupo também tem muita importância, não tem? Isto não é aulas individuais de canto, é em grupo. É muito importante essa interação quando todos cantam uns pros outros. Se calhar criticam, se calhar gostam, se calhar dizem: "Ah, deixa não sei quantos". Toda esta interação é muito importante pra eles.
Não é só o cantar em grupo. Eles aprendem coisas novas, recordam músicas da vida deles, do tempo deles, mas é também o tempo em que eles conversam sobre as suas vidas, partilham memórias, partilham histórias, fazem novas amizades. E penso eu, sentem-se úteis. Este projeto acaba por lhes devolver um certo propósito de vida, com objetivos, porque eles têm-
Quando eles têm 60, 70, 80, 90, acham que já não há esse propósito.
Já não.
Muitas vezes demitem-se dessa.
Precisamente.
Já dei o que tinha a dar.
Não, e ali não. Tem que se comprometer com algo maior, com algo que é para o bem comum. Têm que estar todos com o mesmo propósito.
Adela, quando tu apanhas um idoso totalmente desafinado, e sem ouvido nenhum, como é que tu faz? Já te aconteceu? Eu estou a pensar nisso, será? Dentro da gente tem boa voz, dentro da gente é afinadinho.
Não, claro que não. Eu não dou as aulas. Quem dá as aulas são os professores. Eu vou lá de vez em quando.
Às vezes vais ter que cantar com eles.
Vou lá e dinamizo algumas coisas
Tens muito a coordenar tu.
Claro, e para além de tudo da minha vida também profissional.
Exatamente. Continua.
Mas os professores são muito exigentes e isso é de referir, porque não é: "Ah, desafinou, deixa passar". Isso eu acho extraordinário também, tratar as pessoas de uma forma-
Não os infantiliza.
Não infantilizar.
Porque marcam faltas. Vocês têm folha de presença.
Claro.
Isso é à séria, compromisso é compromisso.
Precisamente.
É tão bonito isso. Dá-lhes valor, dá-lhes importância.
Tal e qual. E as professoras são sempre muito exigentes no sentido: "Vocês são capazes de ser melhores, bora lá ensaiar para isto ficar mais bonito, mais afinado". E portanto, há sempre esse esforço e essa vontade de fazer melhor.
Tu vais reparando depois na evolução deles?
Vou, completamente. É genial, é muito bom ver o início do projeto, o início das aulas de canto, e depois o meio e depois o fim. Vamos ter, pela primeira vez, porque nos anos anteriores não conseguimos ter uma sala para ter os idosos todos juntos.
Em 2019 ou 2020, por exemplo, teve que cancelar o concerto final por causa da pandemia, fechou tudo.
Esse não fizemos, exatamente. E em Gaia, os dois anos que fizemos, tivemos que fazer no Conservatório de Música do Porto, mas duas sessões. Portanto, juntámos metade dos idosos num espetáculo e depois fizemos uma sessão a seguir. O espetáculo final, nós pensamos no espetáculo final muito para que os familiares e amigos dos nossos séniores possam assistir a esta apresentação dos séniores. Mas também acho que é muito importante que a comunidade em geral possa também ter conhecimento deste tipo de projetos, da importância que estes projetos têm na vida dos mais velhos.
Se calhar um dia estão lá eles.
Exatamente.
E veem como é que eles estão felizes.
E também para mudar mentalidades, porque infelizmente ainda temos muito esta visão de que o ser velho significa-
É um fim de linha.
É um fim de linha, sim. E nós queremos que as novas gerações mudem também essa perspectiva.
O chip.
Sim.
Muito bem. E também é giro, Anabela, porque nesse concerto final, para eles é muito importante, vai haver maquilhagem, e os cabeleireiros, e todos com aquelas pregadeiras que eles fizeram e que simboliza a ação deles com aquele coração.
Exatamente.
E vão todos vestidos de igual?
Vão todos vestidos de igual, têm as maquilhadoras.
Um espetáculo à séria.
É. Eles é que são os protagonistas deste espetáculo.
Acho que também se divertem imenso.
E divertem-se muito e ficam muito empolgados e ansiosos. E é giro ver o nervosismo deles, de muitos deles. "Ai, professora, será que eu vou fazer bem? Espero que faça bem, que não desafine". É muito interessante ver isso.
Os ensaios devem ser uma maravilha. Acho que alguns se levantam e até dançam um bocadinho. Acontece, não?
Há lugar para tudo, há espaço para tudo. E para além de cantarem todos as coisas, há uns que dizem poesia, há uns que tocam bandolim, acordeão, há um que toca violino, e eles também vão tocar no espetáculo. Este tipo de projetos é muito importante. Ele tem uma estrutura. O projeto tem uma estrutura, mas depois o repertório é construído com base nos gostos deles. Nós tentamos que eles sejam participantes ativos do projeto e que tenham uma voz ativa e participativa.
Engraçado falares disso do repertório, porque de facto há aqui uma homenagem ao canto tradicional, uma ode à cultura portuguesa, claro, mas é muito mais do que isso. Vocês no ano passado, por exemplo, havia o Dunas do GNR.
Sim.
As canções tradicionais e populares, o "Sair a Lisboa", o "Desfolhada" e depois o "Adeus". Mas há o Rui Veloso, há o medley de rock português, há os Xutos, Zé Carlos Alfonso. Há uma grande variedade de temas.
É, nós procuramos isso.
Não é só os "Teus Olhos Castanhos".
Não. Isso também é uma das coisas. Nós fazemos sempre um levantamento das músicas que eles gostam para podermos também construir o repertório.
Dar-lhes alguma coisa nova e mais atual também.
Exatamente.
Que é bom eles também não perderem essa ligação, não é?
Sem dúvida.
Porque se calhar os netos depois brincam imenso: "Então vou cantar os Xutos, que eu gosto tanto".
É verdade.
"Na alegrezinha vou, então".
Foi muito engraçado.
E depois é giro porque ao longo deste tempo eu vi algumas entrevistas e até aos participantes, a Teresa Ferreira, uma senhora que dizia: "Eu não me lembro da minha idade, mas eu aqui é que me sinto bem. Aqui é que me sinto bem e com a minha voz afinando, eu vou cantando como posso". Eu adorei. E outra, há dois anos, uma senhora que há dois anos tinha disfagia e a voz muito atrofiada e depois soltou-se entretanto, tem vindo a melhorar muito.
É verdade.
Isto é extraordinário. Um senhor que sofreu de um período muito longo de isolamento na pandemia e quando integrou o projeto não falava, mas também que escreveu depois: "Canto pela minha saúde", é engraçado.
Isso foi emocionante. Eu fiquei muito sensibilizada, porque são estes casos que de facto nos-
Que provam que isto vale a pena, que é gratificante.
Nós temos, de facto, uma faculdade a fazer o estudo de impacto.
Exatamente.
Pronto. Sempre, este projeto tem sempre esta componente.
É incrível. Vão avaliando antes, durante, depois?
Vão avaliando, exatamente. E para nós também, no fim também percebemos: olha, isto correu bem, isto correu menos bem, o que é que podemos melhorar?
Obviamente, limar aqui.
É verdade. Mas estes casos que nós vamos sabendo são muito importantes. E depois foi engraçado que esse senhor, que era de uma instituição que eu não me recordo agora o nome, eles fizeram um coração em gesso e colocaram em forma de agradecimento, puseram mesmo a frase do senhor: "Eu canto pela minha saúde". Porque foi a primeira frase que ele disse.
Que engraçado, que giro. E de facto, ao mesmo tempo, também muitas vezes quando há estas galas ou estas festas, também devem ter os nervos à flor da pele. Alguns se calhar querem desistir e falam contigo: "Não sei se quero ir".
Não, isso não.
Não?
Não.
Todos querem estar lá presentes e tomar parte.
Todos querem estar, sim.
As surpresas para as famílias que vão assistir também. Há um belíssimo feedback depois do público.
Sim.
Gostaram sempre imenso.
Sempre. O final é sempre uma grande festa. É uma festa, mas também temos aquela coisa do já acabou. E é logo a pergunta: mas vai continuar? Vai continuar para o ano? E isto é espetacular. E é isso, de facto, que nos deixa radiantes.
Radiantes e a querer fazer mais e melhor.
É verdade.
Anabela, o nosso tempo voou, já sabia que ia acontecer isto. Quero agradecer muito, muito a tua presença aqui.
Eu é que agradeço.
Foi um grande prazer.
Gostei muitíssimo.
E Anabela, não posso deixar outra coisa senão boa sorte neste projeto e que se possa expandir para mais sítios, porque todos os nossos séniores também merecem. E isto é uma coisa que está a fazer muito bem, está muito bem estruturada, foi muito bem pensada desde o princípio. Que corra tudo. Tudo de bom para ti.
Muito obrigada.
Muito obrigado.