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Não é importante fazer uma peça que só tenha 10 espectadores por dia? Se calhar para esses 10 espectadores, ou até para um, é uma coisa que se calhar, como dizem os ingleses, life changing.
Exatamente. Um caça americano despenha-se num vale remoto de um país distante, devastado há anos pela guerra civil. Um agricultor local encontra o piloto ferido nas proximidades. Leva-o para sua casa, no campo, trata-lhe dos ferimentos, chama um conselheiro da aldeia, um comerciante, que convoca o capitão da milícia local. O que fazer com ele? Esta é a premissa da peça "O Piloto Americano", do dramaturgo escocês David Greig, em palco no Variedades até ao dia 1º de março. A tradução e encenação ficaram a cargo do meu convidado de hoje, António Simão, há 30 anos nos Artistas Unidos, companhia da qual é atualmente um dos diretores, e que já fez mais de 80 produções enquanto ator, encenador e produtor de teatro. Olá, António, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador. É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Então diz o agricultor: "Esta é a minha casa. Gostava de saber o que é que está acontecendo na minha casa. É tudo." E diz o capitão: "Aconteceu-te a América."
Exato.
Isto é, de facto, Simão, uma peça extraordinária, que foi escrita, se não me engano, antes do ataque, da invasão do Iraque.
Sim.
Foi em 2005, isto foi um bocadinho antes, em 2003, 2004. Foi encenada pela primeira vez em 2005, mas de facto não pode ser mais atual toda esta temática. Os americanos aterram no nosso quintal, nos traseiros, e há um soldado ali. E o que fazer com ele? O que é que eu está ali?
É a chamada globalização. Depois da Segunda Guerra Mundial, ficou ali a América, a União Soviética, mas os americanos são mesmo os donos do mundo. Ainda hoje, embora a geopolítica esteja a alterar-se a olhos vistos. Temos uns players novos, a Índia, a China. Mas os Estados Unidos, não só a globalização, não só através do conflito militar, que é o que temos aqui, mas também, e é uma coisa muito curiosa, através da globalização dos media. Através do MTV, que a rapariga lá da tal aldeia vê na televisão, portanto, o único contacto que ela tem com o mundo globalizado e que já está, não quer dizer contaminado, nem esporcado, mas está de facto a narrativa nas mãos dos Estados Unidos da América.
Na mais remota aldeia, e por exemplo, nesta peça, eles ficam loucos com as 4 mil músicas que ele tem no MP3 ou no computador dele. Ficam loucos com esta coisa e todos ficam a ouvir, a rapariga até dança ao pé do piloto ferido, com a perna partida. Tudo isto são motivos, ao mesmo tempo, de suspense. O que é que ele vai fazer connosco? O que é que aquela terra remota tem para os Estados Unidos, dizem eles, estar interessado. Ele diz sempre: "Eu vou-me salvar, os meus colegas vêm aí, não há problema nenhum."
Sim.
Mas os Estados Unidos hoje não fariam isto por acidente.
Não, há ali qualquer coisa, o David Greig não especifica, mas há qualquer coisa ali. Os americanos andam por ali. Há uma guerra civil, os americanos apoiam uma das fações, mas é claro que há um interesse.
Tem que haver. Minerais raros ou petróleo.
Sim.
Eles não fariam a coisa só para mostrar a democracia e os valores.
É muito engraçado. Eu lembrei-me agora de uma vez, eu tinha uns 20 anos e fui a Marrocos. Fui lá para baixo, depois de Marraquexe.
Foste de mota?
Não.
Gostas muito de mota e fazes muito.
Fui de comboio. E eu lembro-me de estar numa aldeiazinha perdida antes do Atlas, portanto antes do deserto, Siti Fatma, creio, que é a Nossa Senhora de Fátima. E onde não havia nada, não havia frigorífico, não havia televisão, o frigorífico era umas ranhuras numas rochas que tinham água a correr. E então havia um sítio, uma casa maior, que devia ser de alguém com mais posses na aldeia, que tinha uma antena parabólica. Eu lembro nós termos ido lá, não entrámos, mas fomos à porta e estava uma cortina com uma televisão aos berros, com uma série de pessoas, de homens, só, a verem um filme do Jean-Claude Van Damme.
Meu Deus! Artes marciais.
Portanto, um filme de produção americana.
Até no mais remoto cá está.
No mais remoto, nós vamos encontrar sempre uma narrativa. Quando agora nestes últimos conflitos da Palestina com Israel, houve um vídeo famoso de uma jornalista, uma ativista palestiniana que aos gritos a dizer: "Não, a narrativa é vossa, vocês são os donos da narrativa." E é curioso.
Infelizmente, a bem ou a mal, é verdade, tem toda a razão.
Sim.
É engraçado que os teus pais vêm do Alentejo, dizes tu. De que zona?
Da Mértola, do pé de Mértola.
Ah, que bom!
Da Mina de São Domingos.
Ok, sabe muito bem. Para a ribeira large.
Uma colonização feita pelos ingleses. Foi uma mina que durante 100 anos, desde meados do século XIX até meados do século XX, funcionou e era uma das maiores minas da Europa.
Era mina de quê?
De cobre, sobretudo, mas também tinha ouro. E é claro que houve ali um êxodo no Alentejo, o Alentejo não tinha nada, aquilo era uma ermida, e foram os espanhóis e depois os ingleses que criaram ali aquela mina.
Exploraram aquilo. Tinha aquelas casinhas dos funcionários, muito giras.
Concessionada pelo antigo regime.
Hoje é uma belíssima praia fluvial e tem condições ótimas de acampamento. Além de perto da Europa.
Ficando perto de Espanha e do Algarve, é ótimo. De Espanha, então é ótimo.
É uma zona fantástica, isolada, mas é extraordinária. Exatamente. É engraçado porque também há uma história, isto a propósito da cultura e tu gostares muito de livros e de BD, sobretudo, tens uma grande paixão. Há uma história também muito curiosa, e eu acho que é contigo, com a tua família ou com a terra dos teus pais, a ver com um pastor, que era muito culto, o mais culto.
Eu lembro-me.
E falava com palavras caras.
Era.
Porque lia tudo, devorava tudo.
Devorava tudo o que apanhava à mão. E tinha tempo enquanto estava a guardar as ovelhas ou as cabras, e tinha os livros todos da biblioteca, lia tudo. E exprimia-se realmente de uma forma que as outras pessoas não se exprimiam.
Mais erudita.
Mais erudita. Tudo devido à leitura.
Desde os cinco anos tinhas esta paixão pela BD, tinhas estes tios e estes primos que levavam estes livros. É ótimo. Desde o Mundo de Aventuras ao Tintim.
Sim, tudo.
Ao Patinhas, ao Pato Donald, estou mesmo a ver isso. E por isso, toda esta informação e as coisas que tu lias também, que eras uma pessoa culta De conhecimento estimulava muito a tua imaginação e por isso nas escolas eras dos que escrevia melhor.
Sim. É engraçado, devido à banda desenhada. Inclusive, houve um ano em que o meu melhor amigo emigrou para os Estados Unidos, eu tinha 12 anos, e depois voltou quando eu tinha 14. Passados dois anos, trouxe uma pilha de bandas desenhadas americanas. E eu passei uma parte do verão a ler com um dicionário ao lado, porque era em inglês. Eu dominava alguma coisa, mas não muita. Li aquilo tudo. E quando recomeçou as aulas, tive logo 17 em Inglês no primeiro período.
Porque essa era do borão também, o dicionário. Era um dano colateral.
Sim. Ler é extremamente importante.
E aquela tua história ótima da escola em que falavas de mecânica quântica. E o professor: "Mas como é que ele sabe isso?" E tu: "O Capitão Átomo". É extraordinário. Então o professor: "Capitão Átomo".
É claro que foi desenvolvendo para depois ter livros mais sérios. Mas a imaginação. E não havia tantas imagens como há hoje. Como hoje os jovens têm acesso nos computadores e na internet, a imagética não era tão rica como hoje. Hoje as imagens são milhares.
Têm tudo no bolso. Um computador com tudo que quiserem de visual, com ecrãs bons. De onde é que vem, António, este fascínio pelo teatro? Tinhas alguém na família já na área?
Foi por acaso.
Desde pequenino, ou não?
Não. Eu estava no 11º ano da escola. Eu sempre fui bom aluno, mal se falava mal de mim, mas a escola já não me satisfazia. Sentia que faltava qualquer coisa. E então, numa altura, não havia muitas atividades como se calhar hoje os miúdos têm, e eu queria fazer qualquer coisa. Queria aperfeiçoar-me ou aprofundar qualquer coisa fora da escola. E andava meio perdido. Vou pro boxe, vou pro karaté, que eram coisas que estavam na moda.
Gostavas muito?
Gostava um pouco, não era muito. Mas tenho um amigo que já é cinturão preto, fundador de karaté e bailarino. E então houve um colega da escola que me disse: "O meu pai tem um grupo de teatro na coletividade ali de Linda-a-Velha e estão a precisar de um ator". E eu: "Teatro? Achas que eu vou fazer isso?" Pronto, e não liguei nenhuma. E ele disse: "Então, mas vais?" E eu disse nem que sim, nem que não. No dia a seguir, ele disse uma coisa que acho que mudou aquilo, que era um jovem adolescente com alguns problemas de timidez, fechado no meu mundinho. E ele disse a seguinte frase: "Então ontem não apareceste. Estava tudo à tua espera".
Incrível.
E eu quando ouvi: "Estavam pessoas à minha espera?" Na minha timidez, senti-me compelido a ir.
Iludiu-te demais.
E depois fui e percebi que aquilo era realmente importante. Não era um desejo, mas as ligações eram óbvias. Eu adorava filmes, cinema, comédia, livros, bandas desenhadas.
Adoravas histórias.
Adorava histórias e na escola fazia as composições. E lembro-me, já no segundo ano do ciclo, portanto, que é hoje o sexto, no final, a professora dizia: "E depois temos a composição do António". E obrigava-me a ler alto pra todos. E eu lia e no fim as pessoas batiam palmas.
Girso.
Eu nunca associei nada. Mas depois mais tarde é que eu: "Isto, se calhar, já queria dizer qualquer coisa".
Exatamente.
Na família, tinha um bisavô que era músico.
Ok.
É engraçado, o meu pai agora que está num final de vida, já quase com 90 anos, conta-me histórias que nunca me tinha contado e que têm a ver com o fascínio dele pelo cinema, com o fascínio dele por ler. Também lhe acontecia ir ler livros lá na aldeia.
De ler o bisavô ou ler o pai?
Não, do meu pai. Também ia ler livros lá na aldeia pra uma casa e diziam que era sempre ele que tinha que ler, porque era o que lia melhor. Portanto, nada é por acaso.
Exatamente. Vai tudo encaixando.
Tudo vai.
É extraordinário. Tu, depois de mais de 80 peças em que já colaboraste, quer como ator, como produtor ou encenador. Ou mais. É brutal. Já fazes isto desde 93, já há bastantes anos. Como é que tu podes dizer isto, António, que magia é que tem o teatro? O que é que o teatro tem em relação às outras artes, que é único, que as outras não têm? Nem cinemas, nem literatura.
O teatro tem uma coisa muito boa, que é não é gravado. Portanto, não é manipulável. Se reparares agora, a música desapareceu com estas gravações. Noutro dia estive a ouvir uma música completamente feita por inteligência artificial. Estavam lá as vozes de cantores excelentes já mortos. O Kurt Cobain, o dos Queen, o Freddie Mercury. E aquele tal e qual. Portanto, a música de autor é uma coisa que-
Sinfonia. Zabeltoven. Faz igual.
O teatro, não. O teatro mantém-se porque é uma coisa ao vivo, é uma coisa perene, é uma coisa que passa num instante.
Em tempo real.
Deixa uma memória em tempo real e que vai sobrevivendo um pouco ainda, até aparecerem os hologramas.
Quer dizer, o Guerra pôs o início outro dia. Não vai morrer. As pessoas vão ter um dia, mesmo que tenham grandes teatros nos seus hologramas em casa, as pessoas vão querer ir ver aquele ator e pegam no carro e vão viajar pra ir ver aquele ator.
O ator pode falhar e o holograma não falha. O ator pode falhar, pode enganar-se. É humano, está vivo.
É incrível.
E eu acho que o teatro já sobrevive há séculos. Acho que desde os gregos ou antes disso.
Claro.
Portanto, eu acho que-
Em 30 e poucos anos, o teatro mudou muito?
Mudou. Mudou um pouco para pior nalgumas coisas, para melhor noutras. Temos excelentes atores, temos muito bons atores, cada vez mais. Também há mais meios de fomentar o trabalho dos atores, de propagar Mas as condições de trabalho não estão melhores. O trabalho de ator é um trabalho que precisa de tempo para amadurecer, para refletir. É como vinho.
Exatamente. Vai melhorando.
E fazer coisas à pressa, rápidas, com poucas apresentações.
É uma coisa que eu acho que sofre um pouco da temporada curta.
É estar a pôr o ator numa engrenagem da qual ele não faz parte, porque ele representa o esplendor do ser humano. Ora, o esplendor do ser humano. Gosta, mas para a igreja, para fora da igreja.
Fantástico. É verdade.
E o ator entrar numa engrenagem, numa máquina, numa espécie de supermercado, não.
Sabes o que isso me faz lembrar, António? A relação médico-doente e a secção dos hospitais, que hoje em dia quem os gere já não são médicos, são gestores. E então há metas, e o senhor tem que fazer determinadas operações e tem as consultas de 10 minutos cada uma, não pode passar mais.
É a quantificação.
A visão economista de tudo isto.
Tudo tem que ser mensurado, tudo tem que ser contabilizado.
Para render e para ter metas a atingir, objetivos.
E para justificar, o que ainda é pior.
Como se fosse o fim último, render e dar dinheiro.
Sim. E para ter justificação.
A arte devia estar acima disso.
Sim, é uma coisa de política, que é: o que é quantificável? Não é importante fazer uma peça que só tenha 10 espectadores por dia? Se calhar para esses 10 espectadores, ou até para um, é uma coisa que se calhar, como dizem os ingleses, life changing.
Exatamente.
Mas isto, se calhar, não há espaço.
Não se compadecem com os critérios atuais ou em salas, ou então tira-se daí uma semana.
Sim.
É muito engraçado. Esta tua formação passou pelo Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral. Depois ensaiaste a sociologia, tinhas este gosto de perceber as pessoas.
Tinha, fui um pouco para Sociologia. Na altura eu queria ir para Jornalismo, que todos os jovens, no final dos anos 80, era o que estava na moda. Mas não consegui, porque era uma média muito alta e o 12.º não me correu lá muito bem. Andava já desligado. E então pensei: "Bom, tem que ser para as ciências humanas." Não havia Antropologia. Estava ali Antropologia. Então, passei Sociologia.
Acabaste por tirar este curso dos atores do Instituto Francó-Português.
Sim.
Tu és da geração desta Helena Lariano, António Machado, Carla Bolito.
Sim, essa turma que eu tive no IFICT, isso foi antes. A Carla Bolito também estava no Francó-Português, mas foi uma turma muito fantástica.
Talentosa.
Eu lembro-me de uma altura pensar: "É pá, está aqui há uns tempos, está quase toda a gente a trabalhar." É impressionante.
É bom sinal.
Uma geração que caiu ali numa altura. Não é a única, há várias, são assim uns ciclos que eu não entendo bem, mas há as gerações às vezes que passam e que não têm oportunidade e há outras gerações que conseguem. Eu estive numa dessas.
Tiveste a sorte.
Não ia chamar a geração de ouro do futebol português.
É engraçado que tirando esta exceção de há uns anos, tiraste esta pós-graduação em Estudos de Teatro na Faculdade de Letras, tu fizeste o percurso ao contrário, tiveste trabalho, arranjaste trabalho, e depois é que foste estudar. Aprendeste empiricamente, com a prática.
Foi com a prática. Eu não conseguia. Aos meus 20 anos, era impossível eu ficar sentado numa mesa com computador a ler. Não conseguia. Eu tinha que me mexer.
Exato.
Era uma coisa que agora, não. Agora, por acaso, já depois dos 50, é que eu começo a achar graça às coisas mais acadêmicas. Olha que engraçado, não só ao divertimento, não só à banda desenhada, nem à ficção científica, que eu gosto muito, mas achar piada. Olha que engraçado, este diz isto, aquele diz aquilo. Aquele é parvo, não percebe nada. É engraçado agora.
É giro falares isto da ficção científica, porque eu sei que é uma coisa que os Artistas Unidos, tu no meio e dos principais, querem muito trazer agora ficção científica e as distopias. Tentar o Solaris, não conseguir os direitos do Polaco. Mas é uma coisa que vocês queriam apostar um bocado, não é?
Sim, é uma coisa que eu acho bastante interessante.
E é novo, eu acho isso uma boa novidade.
Talvez. O nosso trabalho é teatro a partir da literatura. O nosso ponto de partida não é dança, não é música, embora nós possamos introduzir isso nos espetáculos, o teatro é uma arte abrangente e coletiva. E a ficção científica parece-me bastante interessante, pelo menos para mim é. É uma maneira de falar sobre os assuntos, mas de uma maneira mais alegórica, uma maneira mais diferente.
Só me lembro do Fahrenheit ou do 1984, por exemplo.
Claro, mas está na moda agora.
Pois está, voltou. E tem a ver com o tema da tua peça. Estava agora a lembrar de textos e de falares em textos, que é uma das coisas que o Jorge Silva Melo, um nosso querido amigo e teu, que aqui disse, quando eu perguntei da emergência do teatro, ele disse: "Olha, uma coisa muito boa, João Paulo, dá a conhecer textos maravilhosos." E ele sempre foi pesquisador, sempre pesquisou muito textos para trazer, que nunca foram representados cá. Este "O Piloto Americano" é a primeira vez que é encenado cá em Portugal. E eu próprio reparava nisso. O teatro tem esse condão, traz textos que as pessoas não conhecem e deviam conhecer. E então pronto, os acontecimentos, por exemplo, há uma década, aliás, há 11 anos, do David Greig, já foi até tinha sido encenado por ti, já era destes escoceses.
Era. E já se percebia que era do mesmo autor. Tinha também, como esta, aquela estrutura um bocado ritual, brechtiano, em que o público é convidado a participar na peça, não apenas como observador, mas também como entidade pensante. Então há uma diluição entre os atores, os espectadores. Se calhar o teatro à italiana, um palco à italiana, não é o melhor para este tipo de espetáculo. Se calhar seria melhor uma arena. A pressão imobiliária atual.
Vês, esta peça faz isso. As cenas estão a centímetros de nós, a falarem connosgo, a Eva. Isso é muito curioso. António Simão, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com António Simão, ele é actor, encenador e produtor de teatro que traduziu e encenou "O Piloto Americano", uma peça dos escoceses David Greig, em palco no Variedades, a história de um piloto norte-americano que literalmente cai do céu num vale remoto de um país do Médio Oriente, devastado pela guerra civil. Vamos ver se é Médio Oriente. Já vamos falar disso. Antes queria falar um bocadinho desta tua apetência, porque tu tens muita coisa. Tu trabalhas também, o que é engraçado, Artistas Unidos, já lá estás há uma série de anos, há mais de 30 anos. Qual é a importância de estar numa companhia há tanto tempo? Este legado, o património, as edições que vocês fazem, a descoberta de talentos. Sentes isso tudo, na pele?
Sim. Eu acho que é importantíssimo. Tem coisas más, claro, mas eu acho que tem mais coisas boas. Além do legado e daquilo que é deixado, como referiste.
As edições, por exemplo.
As edições, sim. É um trabalho de um coletivo no tempo. É claro que vai sendo renovado. Mas, por exemplo, um ator, imagina que trabalha cinco peças com os Artistas Unidos, pode ir mudando de papel, pode ir experimentando, pode ir evoluindo. Ao passo que se for freelancer, devido às exigências práticas e do mercado, esta palavra horrível, se calhar é sempre chamado para fazer o mesmo papel.
O mesmo género de coisas.
O mesmo género de coisas.
Seja na novela, seja no palco.
Sim. Portanto, para um ator, dentro de uma companhia, uma das vantagens é que pode evoluir na diversificação do seu trabalho.
Tu disseste que trabalhas também com outras companhias.
Sim.
Porque aceitas muitas vezes trabalhos de outras companhias, porque quando os textos te interessam, sobretudo quando são atores que não se encaixam nos Artistas Unidos, o que é engraçado também, mostra que há essa habilidade.
Sim, agora tenho apostado um pouco nisso. Eu já só tenho mais uns 10, 15 anos de atividade plena, talvez. E há ainda muitos autores, muitos textos, aqueles mais clássicos, porque os Artistas Unidos trabalham sobretudo o texto de nova escrita, o que é fabuloso. Mas há textos que eu gostava de fazer, porque são coisas únicas, trabalhos únicos para um ator. Fazer um García Lorca, fazer um Cocteau, sei lá, fazer um Shakespeare, um Chekhov.
Portanto, também tens um bucket list como ator.
Sim. Há peças que eu sei que nunca irei fazer como ator, mas aquelas que eu puder, porque são experiências, são textos tão bons, tão ricos, tão fabulosos, que são experiências que nós nunca iremos esquecer. Como não esquecemos quando lemos um livro bom, como lemos os Maias.
Exatamente, um clássico que nos fica.
Um clássico, não é? Um Moby Dick. Portanto, isso é fantástico.
Tu és encenador já há quase 30 anos também, mais de 20 espetáculos que encenaste. Tu gostas mais desse lado ou o lado de ator?
Não faço essa distinção. É diferente. O lado ator é mais livre, é um trabalho mais físico. O lado de encenador é mais estático, tem que se pensar muito tempo antes. É engraçado, é um trabalho curioso estar ali com os atores. Há uma coisa que eu preservo muito, que é o trabalho do ator. Eu acho que às vezes, nos tempos atuais, nos últimos tempos, tem havido uma espécie de, não sei como é que hei de chamar, mas uma síndrome do patrão.
Ok.
Em que o encenador é identificado. Portanto, quando vemos um cartaz, por exemplo, vemos a peça do autor tal, encenada por. E às vezes nem vem o nome dos atores. O trabalho dos atores não é de todo menos ou não está num patamar inferior ao trabalho do encenador.
Pode ser um excelente encenador. Os atores podem estragar tudo, não é?
Pelo contrário. Como é que eu hei de dizer? Os atores sobreviveriam sem o encenador. O contrário já não.
Pois.
Os atores poderiam trabalhar em conjunto, como um coletivo, sozinhos.
Entre eles.
Há uma grande frase que o Peter Stein, que é um dos maiores encenadores, agora já está na fase final da sua carreira, que ele disse que estava lá para ajudar os atores a aprofundarem e encontrarem aquele caminho.
A solução certa para aquela peça.
Porque há coisas que o encenador que está ali sentado a ver, não consegue chegar lá por mais que tente. É o corpo do ator, e aí vem a parte física, que vai descobrir. É claro que às vezes há condicionantes. Há pouco tempo, é preciso acelerar.
Tu és encenador picuinhas ou dás alguma liberdade? Ou depende do texto?
Depende do texto. Às vezes sou picuinhas quando tenho pouco tempo. Mas, por exemplo, quando os atores chegam ao sítio logo, eu aí, olha, deixo-os fazer. Ainda no outro dia estava a falar disso. Havia uma atriz que eu prezo muito, que é a Andreia Bento, que ela disse: "Simão, olha, alterámos aqui esta marcação que tu tinhas dito" e eu disse: "Olha, não dei por nada. É porque está bem, está ótimo".
É o que faz o melhor de cada autor.
Altera o que tu quiseres.
Se ficou bem, ficou bem.
Eu lanço umas coisas que na maior parte das vezes são parvas, mas nunca irei saber mais do que o ator.
Tu assistes muito ou a todas as representações? Nesta peça, por exemplo, vais tirando notas e no fim dás algum feedback.
Quando sou poucas, assisto às primeiras. Nas primeiras gosto.
Esta concretamente vai até quê? Seis semanas, três semanas.
Vai na segunda semana agora.
Vai na segunda semana, até 1º de março.
Sim, normalmente a estreia não corre bem, porque a estreia é uma pressão e um aglomerado de energias e de sentimentos e de adrenalinas e aquilo não corre muito bem. Depois o segundo dia é que os atores começam: "Onde é que eu estou?" Começam a ver: "Calma, agora onde é que..." Começa um labor. E no terceiro dia normalmente costuma assentar. Eu vejo os seis primeiros, mas vou vendo de vez em quando, porque às vezes pode acontecer, passado uns tempos, o espetáculo cair ali de alguma coisa que não deve cair, onde não deve cair, alguma modorra, algum desleixo. Portanto, convém ter sempre, mas normalmente não.
Também és formador, já deste em vários locais, o CCB, o Chopitô, o Teatro Aires, o Viriato. Em Cabo Verde também foi giro este festival Vinda Act.
Em Cabo Verde é extraordinário, porque há muito talento lá Muito talento. Pessoas que cantam maravilhosamente, pessoas que dançam extraordinariamente.
Tem a parte muito física também, não é?
Sim. Sem saberem.
Isto é muitas danças e cantos.
Sem saberem. É uma coisa impressionante.
Está-lhes no sangue.
Eu lembro-me de ter visto um espetáculo de uma bailarina fantástica. E eu no final fui falar com ela e pensei: "Trabalha em várias companhias, deve trabalhar no estrangeiro." "Não, eu ando ali na Dança Jazz, ali ao pé de casa, uma vez por semana." Meu Deus.
Meu Deus, incrível. Também o cinema, é engraçado tu dizeres. Eu tirei o único curso que havia cá de autor de cinema e não vi. Mas entraste nalguns?
Foi mesmo, eu escolhi mesmo. Cinema, deixa-me cá ir no Instituto Francês. Foi engraçado, tive a oportunidade de ter aulas com o Paulo Rocha, realizador, com António Macedo, Mónica Ruttler, Joaquim Leitão.
O Luciano, Tiago Guedes. Imensos nomes.
Sim, foi muito engraçado conseguir ver a perspectiva do trabalho desse ponto do cinema, que é uma coisa que me interessa bastante.
E de Hitchcock és um fã, por exemplo?
Sim, é um gênio. Ele consegue com duas ou três coisas contar uma história de uma maneira incrível.
E adoravas montar, adoravas editar.
Adorava montar.
Mas para isso terias que fazer um curso qualquer.
É que aquilo não deve ser muito complicado, mas deve ser um programa.
Para sair. Exato. Por que adoravas? Para sair o fruto da tua visão.
Porque eu gosto da parte da montagem. Aliás, como encenador, também é isso que me dá mais prazer no final. Claro que nunca tenho muito tempo, estar a montar o trabalho dos atores com o som, com as luzes e organizar a parte plástica ou musical, visual de como é que aquilo sai, o ritmo. Isso tem a ver com a montagem. Tem a ver com música, é musical. É o ver agora uma pausa, como é que soa.
Faz sentido.
Isso é interessante. É claro que uma vez assisti a umas montagens e aquilo é um trabalho.
De cinema?
Sim, de som. Aquilo é uma coisa chatíssima. Porque repetem, aquilo vai para trás umas 50 vezes.
Os 50 takes de um som.
Mas pronto, eu ia beber um café, depois voltava.
Mas por isso que és extraordinário, porque se fosse aquilo era hoje extraordinário. Ias à Gina e voltavas, não era?
Pois, ia beber um café, voltava e depois via: "Olha, agora está melhor."
Eu falei aqui na Gina. Há duas histórias muito giras tuas em 98. É que era esta digressão que eu estava a fazer, A Queda do Egoísta e Johan Fater, do Brecht, com a Silva Mello. Em 98, primeiro tinhas este elenco extraordinário, que era o Carriço, o Cedeira, o Esparteiro.
Sim, da televisão, na altura.
Foram a uma discoteca uma vez, onde é que era?
Em Braga.
Foram a uma discoteca e havia o pobre do Miguel Borges, que ninguém conhecia, barrado à porta. E você: "Não, se ele não entra, não vai ninguém."
Pois, foi o Esparteiro que disse: "Não entra, não entra ninguém." Saímos todos e depois voltámos a entrar.
Convidaram outra vez: "Não, desculpem". Entraram todos e com álcool champanhe.
Claro. Muito engraçado, porque nessa altura o Luiz Esparteiro, ainda no outro dia encontrei, no aniversário do Marcelo Urgeia. E ele tinha essas coisas. Lembro-me que quando fizemos esse Fater, que era no Variedades.
Exatamente, vocês foram dos últimos a sair e os primeiros a entrar.
E era uma produção do Teatro Nacional. E o Teatro Nacional, na altura, tinha vários atores. Tinha desde o Luiz Esparteiro, o Ricardo Carriço, passando pelo António Simão, o Tiago Rodrigues, por exemplo.
Exatamente, incrível.
E atores com papéis mais pequenos, papéis maiores, mas eram todos atores. E no Nacional queriam fazer tetos salariais, mas eram para uns sete ou oito. Estes ganham um tanto.
Um pouco menos.
E chamaram-nos individualmente. Mas apercebemo-nos disto, começámos a comentar e o Luiz Esparteiro foi lá e disse: "Não, ou ganhamos todos a mesma coisa, ou então isto..."
Sentido de justiça.
Muito engraçado. E que foi o mesmo que na discoteca: "Saímos todos, se não entra o Miguel, não entra ninguém."
Exatamente, muito curioso estes senhores.
Estas histórias são engraçadas.
E de facto, em 98, os Artistas Unidos foram a última companhia a atuar no Variedades, antes da sala fechar, que fechou três décadas. E foram uma das primeiras a voltar agora em 2024, o que é muito engraçado. Tu gostas, além de motas, que vieste de mota para aqui, bricolage, reparas muitas coisas e chamam-te para reparar coisas?
Não.
Não chegas a esse ponto, os amigos telefonam: "Vem cá por uns pregos."
Eu gosto de alguma coisa, porque eu tenho uma casinha no Alentejo.
Entreténs-te a cabeça.
E entreteimo-me e gosto de como é que se faz, deixa cá ver o que é preciso. Claro que demora uma eternidade.
Mas tens jeitinho de mãos?
Não sei. Eu acho que tenho, mas eu acho que se calhar se perguntar à minha esposa Isabel, ela vai torcer o nariz. Mas gosto quando consigo. É um grande prazer quando conseguimos reparar alguma coisa.
E ter uma coisa que digas: "Tu, meus parceiros, viu?"
Exato, é um prazer imenso. Nunca me tinha passado pela cabeça.
Estamos a falar do O Piloto Americano, que vai estar até 1º de março ali no Variedades, do David Greig, este dramaturgo, encenador, nascido em Edimburgo e que passou pela Nigéria e que é prolífico à brava, escreve umas cinco peças novas por ano. Nunca mais acaba, escreveu esta que saiu em 2005. Foi encenada pela primeira vez no Royal Shakespeare Company em 2005 e é a primeira vez que é encenada aqui em Portugal. A tradução e encenação é de uma convidado, António Simão. Como é que escolheste este texto concretamente? Até porque é um texto que nunca tinha sido encenado cá.
Eu tinha o livro. Era um livro que veio naquelas idas em meados dos anos 2000, quando os Artistas Unidos íamos ao Festival de Edimburgo. Tínhamos mesmo uma comissão de leitura e atores, Francisco Frazão, o Miguel Borges, lá está, de vez em quando. E houve uns dois, três anos em que, como estávamos a trabalhar justamente nova escrita, nova dramaturgia europeia, fomos ao Festival de Edimburgo, fomos a Londres ver o que se estava a fazer. Também fomos à Itália. Estávamos mais ou menos a par.
Vão ver ou compram uma série de livrinhos com os textos?
Vamos ver e comprávamos livros, trazíamos e já tínhamos conhecidos. "Olha, gostei muito da estreia que houve ontem." E era uma maneira de nos apercebermos do que é que estava a ser.
As tendências.
As tendências e de tentarmos trazer para cá também uma escola de escrita, que é uma coisa que cá nunca, só se for de escrita criativa, eu acho que há. Mas escrita para teatro não é muito comum.
Porque faz muita falta ou não faz? Por que há, António?
Faz muita falta. Eu não sei.
O que é que poderia pegar nisso?
Portugal tem uma grande tradição de romance. Mas de teatro
De dramaturgia, não.
Do centro.
Mas, por exemplo, há prémios anuais para textos escritos por mulheres de dramaturgia.
Há prémios. Sim, há alguns prémios.
Então por que é que há uma escola para ou cursos para?
Há coisas pontuais. Já tenho reparado, o Teatro Nacional fez, na altura do Tiago, nós também fizemos concursos. Só que isso é uma coisa que tem que ter um investimento para ser uma coisa de longa ou de média longa duração.
Institucionalizado.
E que se calhar é ligado a alguma faculdade, provavelmente à Faculdade de Letras.
Exatamente, onde passaste.
E criar aqui uma escrita que depois tenha também que ter correspondência na produção. Acho que acontece o evento também, que foi um modelo tirado da Inglaterra, que é o Francisco Frazão, que faz no Teatro do Bairro Alto, que é os Panos, que é um momento de teatro que é feito nas escolas durante o período letivo e é onde vão profissionais e que conseguem, com os alunos, de vez em quando, criar a escrita, mas também as encenações e depois fazer um festival onde aquilo aparece. É um princípio, mas de facto não há nada estruturante.
Fico aqui esta alerta, que era importante alguém pegar nisso, que de facto era importante. E é muito importante esta ligação às escolas. Tu disse sempre cultura e educação estão ligadas. Era muito importante. Eu lembro-me de estar no meu colégio e ir o Rui Mendes, quando nós éramos mínimos, fazer encenações e coisas connosco. E eu lembro disso, fiquei fascinado com aquilo. De facto, essa ligação com a educação é muito importante. Mas eu acho que quando a cultura cai em Portugal, investimento, orçamentos, é sempre muito
É uma coisa, mas sei lá, seria bastante interessante. Agora, nós estamos numa época em que muitos dos espetáculos são criados de raiz pelo próprio criador, encenador, autor, intérprete, que escreve e que apresenta. Mas não é aquela literatura mais clássica, ou seja, são às vezes montagens, colagens. Seria interessante haver os mesmos escritores, como as pessoas: "Olha, este Natal, qual será o novo livro do José Rodrigues dos Santos?"
Exatamente.
A ver, olha, qual será a nova peça escrita por X, que vamos ver. Mais comercial ou menos comercial, não interessa.
Exatamente. Desde que vão ao teatro.
Claro.
É engraçado que esta peça, ao mesmo tempo, aconteceu à América, este homem piloto que cai do céu, salvou-se deste caça que despenhou. E a peça está feita de uma maneira muito curiosa, mas eu acho que isto tem a ver com a encenação original, que é: apesar do David Greig ter trabalhado na Palestina e ter feito cursos no Líbano, escrita também. No entanto, ele disse: "Eu não quero que isto seja uma coisa muito local e que se a gente situe logo no Médio Oriente." Aliás, eu falei nisso, mas depois arrependi-me. Não, isto pode ser no meio da província. E eu olhei para aquela peça, comecei a ver a estrutura da peça e pensei: isto podia ser no meio do Alentejo, cair de paraquedas soldado. De facto, podia ser. Se não fosse pelas roupas, há ali uma coisa meio cigana, meio islâmica. Tudo isso é muito engraçado, mas a ideia é essa, isto pode ser em qualquer lugar, até as roupas não podem ser muito específicas, porque isto de facto pode acontecer. A América aterra, de repente, nas nossas traseiras.
A ideia é através de uma série de elementos que ele nos dá, sem serem elementos particulares ao ponto de nós identificarmos um país, uma etnia, o que seja, mas elementos que aprofundam o que ele quer transmitir, e que é profundamente humano. Pôr o espetador e os atores e quem estiver a trabalhar a peça, por uma série de conflitos morais que podem acontecer numa situação semelhante. Ou seja, não quer mostrar o sofrimento da Palestina ou dos iranianos, porque não se arroga a isso, porque para isso há realizadores iranianos, há pessoas que conseguem falar mais sobre o sofrimento.
E documentários.
Sim. Ele faz um jogo, como é inglês, como é europeu, um jogo de pensamento que se quer coletivo, porque é um teatro e tem espetadores, sobre aquele determinado assunto, juntando alguns elementos.
E é muito atual. É completamente atual. É extraordinário como foram buscar isso. E fala muito claro sobre as relações entre o mundo árabe e o Ocidente, todo este desconhecimento, todo este cruzamento de civilizações.
Tem lá uma cena muito engraçada, essa agora do atual, que é: os pais andam à procura de um marido para a filha.
Exato.
E a filha não gosta nada daquilo, porque provavelmente, se calhar, vão encontrar alguém que ela não quer.
Exato.
E nós pensamos: "Isto já não é atual. Será que não é atual?"
Eu também fiquei a pensar nisso. Faz indiretamente uma referência muitas vezes. Além que há culturas em que obrigam. E até idade mais nova.
Sim, exato.
E aqui outra coisa que eu achei muito curioso é esta encenação que mantém os atores em palco do princípio ao fim.
Sim.
Estão lá todos. Vem na sombra.
Às vezes vão, sim.
Depois aparecem. E eu achei aquilo muito original, muito bem feito.
Teria a ver com a própria estrutura das peças dele, umas mais que outras. Os acontecimentos, teria mais. Esta tem, portanto, a tal diluição do ator que é espectador e da pessoa que é ator, e de estar, no fundo, a contar uma história. Que volta ali aos rituais do fim do dia, o homem primitivo, depois das caçadas e do dia, reuniriam-se todos à volta da fogueira e recontariam o que se tinha passado. É um pouco isso.
Esta adaptação, para ti-
Xamânico.
Xamânico. Esta adaptação, para ti, foi prazerosa, António? Gostaste muito de fazer isto?
Sim, eu gostei.
Não mudaste muito o texto original, pois não?
Não. A tradução é engraçado fazer. É engraçado porque a tradução sozinho em casa, nós temos: "Esta frase fica melhor, esta fica melhor". Depois no palco, com os atores e ouvindo outras vozes, às vezes encontram-se coisas que nunca nos tinha passado pela cabeça. Fica muito melhor ele dizer esta frase do que como estava.
Eles também te sugerem isso?
Sim, eles próprios.
Às vezes sais e diz: "António, isso a gente..."
Somos todos mais ou menos da mesma idade. Portanto, eles: "Tu traduziste. Custa-me ali aquela..." Às vezes eu dizia: "Não, mas custa-te por quê?" "Não, está bem assim." Mas às vezes, não, às vezes havia mesmo falhas, mesmo minhas. "Eu não reparei nisso. Obrigado."
Boa. Muito bem, e "O Piloto Americano" então, do David Greig, uma tradução e encenação de António Simão, está até o 1º de março no Teatro Maria Graça, no Parque Mayer, em Lisboa, quartas e quintas às 20:00, sextas e sábados às 21:00 e domingos às 16:00. Portanto, já sabe, não perder esta peça. António Simão, quero agradecer muito a tua disponibilidade. Bem-hajas. Até à próxima.
Obrigado.