Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja então bem-vindo. Acolhemos agora o convidado extra de hoje, José Manuel Garcia, um historiador que vem celebrar os 500 anos desta primeira circunavegação do mundo e talvez desmistificar um pouco a figura de Fernão de Magalhães. Obrigado, José Manuel Garcia, por ter aceitado este convite. Bem-vindo ao "Observador".
Muito obrigado, boa noite.
O José Manuel nasceu em Santarém e temos sorte de o ter aqui porque ele acabou de chegar do Chile há dois dias, onde visitou um local emblemático exatamente de Fernão de Magalhães, onde passou Fernão de Magalhães.
Foi uma viagem magalhânica, literalmente, porque foi ao Estreito de Magalhães, que é um sítio admirável. O António Pigafetta dizia que era o mais belo estreito do mundo e é verdade. Eu confirmo que é mesmo verdade o que ele escreveu há 500 anos, porque não há dúvida que é um sítio admirável, com montanhas cheias de neve junto do mar, enormes, com vales lindíssimos. Não todo o estreito, porque o estreito é bastante grande, tem cerca de 600 km, mas aquilo que eu vi fiquei encantado. E foi o ponto decisivo na viagem de Fernão de Magalhães, porque era a chave para a sua grande viagem e a descoberta do mundo foi possível porque ele descobriu aquele estreito perdido. A passagem para o Atlântico e o Pacífico, exatamente, que era desconhecido, e ele acreditava que tal como havia uma passagem entre o Atlântico e o Oceano Índico, também haveria uma entre o Cabo da Boa Esperança. Ele pensava descobrir um outro Cabo da Boa Esperança, a Esperança, e ir para as Molucas através do Pacífico, que ele imaginava que era grande, mas não tão grande na realidade, porque foi muito difícil, mas descobriu, na realidade, acabou a descobrir a Terra.
Em 2006, o José Manuel Garcia doutorou-se em História pela Universidade do Porto, com uma tese sobre a historiografia portuguesa dos descobrimentos e da expansão nos séculos XV a XVII. É preciso dizer isto pra lhe explicar por que temos conosco o José Manuel Garcia, que merece mais do que ninguém estar aqui a falar desta figura emblemática do Fernão de Magalhães. O José Manuel Garcia pertence à Academia Portuguesa de História, à Academia da Marinha em Lisboa e também à Sociedade de Geografia de Lisboa e atualmente é investigador do Gabinete de Estudos Alice Pones da Câmara Municipal de Lisboa, em Benfica. Participou em imensos congressos, escreveu muitos artigos, trabalhou na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, teve um grande trabalho em tudo que é estes temas sobre D. João II, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães e o Afonso de Albuquerque. É um homem muito focado e muito vocacionado de historiador nestes descobrimentos, que conhece como ninguém. Eu tenho aqui um livro que ele escreveu já há uns anos, em 2007, há 12 anos, editou pela Presença este livro de A Viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses, onde se focava um pouco a ligação do Fernão de Magalhães aos portugueses, ao contrário do que normalmente vemos, que é a sua ligação aos espanhóis, e começávamos, portanto, a ver já essa ligação aos espanhóis. Vamos, no fundo, desmistificar, vamos esclarecer alguns pontos sobre a vida deste grande navegador. Que vamos dizer já, tem algumas homenagens muito conhecidas, como por exemplo, o pinguim-de-magalhães. Viu algum?
Não. No Estreito de Magalhães, não. Parece que era só na Terra do Fogo que eles estavam, de modo que ali não havia nenhum à beira.
Diria que ele foi o primeiro europeu a ver um e por isso foi batizado com o nome dele.
Sim, talvez, porque ele teria visto outros pinguins antes, ainda na costa argentina, e caçaram alguns pinguins, mas no Estreito de Magalhães não tenho essa certeza.
De qualquer modo, ficaram com o nome dele, essa espécie.
Sim, é uma espécie.
Inclusive, o Fernão de Magalhães é muito reconhecido com objetos associados à astronomia, como as nuvens de Magalhães, as nebulosas de Magalhães, crateras lunares. Há crateras na Lua chamadas de Magalhães, crateras em Marte também Magalhães, e há uma sonda especial Magellian da NASA que no fundo homenageia este navegador português. Onde é que ele nasceu? Começa já por ser um problema. Eu lembro-me de já ter há alguns anos escrito um artigo sobre ele em que afiançava uma cratera transmontano. E afinal parece que não é.
Não. De facto, vulgarizou-se uma teoria de que ele teria nascido em Sabrosa ou em Ponte da Barca, mas eu penso que é absolutamente seguro dizer que ele nasceu na cidade do Porto, porque ele se chamava vizinho do Porto, que era dizer natural, no século XVI era natural do Porto, e os pais dele também eram vizinhos do Porto, o Ruy de Magalhães e a Alda de Mesquita eram do Porto, mas a família, os antepassados eram de Ponte da Barca. Isso está tudo bem documentado. E há vários autores que dizem que era mesmo do Porto.
Há sete terras a reclamarem.
É verdade, é um aspecto muito pitoresco. Aliás, a primeira terra, que até foi um espanhol que disse, que era Lisboa, que ele tinha nascido em 1609, disse que ele nasceu em Lisboa.
Se calhar porque foi pajem da rainha dona Leonor, talvez.
É possível, porque ele realmente tinha relações e na prática ele viveu a sua juventude no Porto, mas depois veio para Lisboa e depois andou pelo Império Português, até que regressou a Lisboa outra vez, antes de ir para Sevilha, onde esteve menos de dois anos.
Exatamente. Casou lá.
E casou em Sevilha.
Mas, José Manuel, eu perguntei isto, não é inocente. Eu perguntei isto, onde é que ele nasceu, porque é muito engraçado, eu li algures que estas questões divergentes sobre a sua naturalidade foram geradas muito depois da sua morte, quando se percebeu que havia uma notável fortuna a reivindicar da coroa de Espanha, por ser devida ao navegador uma parte dos territórios descobertos.
Exato.
De repente apareceram várias terras a dizer que ele era de lá.
Foi um aproveitamento mais no século XIX, porque de facto já tinha havido reivindicação da herança de Magalhães em 1567 e depois em 1796, no tempo de Godoy, em Espanha, voltou novamente um alegado descendente, alegado porque é duvidoso que tivesse alguma coisa a ver com o Magalhães, mas esse alegado homem teria relacionado com Sabrosa. E então houve uma falsificação de documentos em 1796, bem documentada, porque eu, de facto, não invento nada, eu realmente limito-me a tentar promover, divulgar e esclarecer as verdades que já estão bem analisadas desde 1921, sobretudo. Houve vários historiadores em 1938, Queiroz Veloso, Visconde de Lagoa, muitos historiadores, mas depois eles, como são pouco eruditos, acabam por não chegar junto da maioria das pessoas. E depois houve alguns divulgadores no século XIX, chilenos, franceses, que divulgaram essa teoria de Sabrosa, e eu tenho muito respeito, aliás, até direi que fica perto de Vila Real e eu até diria que é pena que não seja de Sabrosa, porque eles gostam muito do Fernão de Magalhães e é uma terra adotiva, quase que poderia dizer, embora, de facto, os autores para mim, o Fernando de Oliveira, o doutor João de Barros, várias referências, as heranças, a família, ele tinha propriedades em Vila Nova de Gaia, portanto, ali todo o ambiente, a herança, deixou bens da herança para Vila Nova de Gaia, que era uma propriedade onde ele tinha. Portanto, eu penso que não faz mal nenhum dizer que ele era mesmo, de facto, do Porto, porque ele dizia que era vizinho e pra mim eu acredito nele.
Já agora, isto é um pouquinho de parêntesis, que estamos a falar dos descobrimentos. Eu sei que o José Manuel tem uma posição um bocado crítica contra esta questão Um bocadinho de política, se calhar, do Museu dos Descobrimentos, que se falou há algum tempo. Hoje em dia não se fala tanto disso, mas acha que não devia haver o Museu dos Descobrimentos, as coisas já estão espalhadas por alguns museus, a Marinha, Arte Nova.
Não, eu penso que museu dos descobrimentos propriamente, é difícil de poder realmente realizar um museu dos descobrimentos. Eu chamaria de um centro de interpretação dos descobrimentos, que isso era o ideal, penso que se deveria até aproveitar e essa ideia até há no ar, era uma questão de concretizar. Porque o Fernão de Magalhães não tem problemas, toda a gente reconhece a importância histórica para todo o mundo e é uma das figuras portuguesas mais importantes da história universal, é o Fernão de Magalhães. Por que não um centro de interpretação do Fernão de Magalhães? E depois em torno do Fernão de Magalhães, explicar como é que se descobriu a Terra, porque eu penso que não faz mal nenhum saber como é que nasceu o conhecimento global da Terra e como é que a mundialização começou, a interconexão entre todos os continentes.
A globalização que vivemos.
Exatamente. Começa com o Fernão de Magalhães. Começa porque é ele que termina o conhecimento da Terra. É o primeiro que dá a volta à Terra.
Ele não viveu até ao fim, mas foi o trabalho dele, a preparação dele.
Exato. Eu direi mesmo, e este livro que eu agora acabei de escrever, e não fui eu também, o Samuel Morrison, o Queiroz Veloso e outros historiadores já tinham dito que, na realidade, foi o Fernão de Magalhães o primeiro homem a dar a volta ao mundo, não foi o Sebastião del Cano, não foi o João Sebastião Elcano. Eu digo sempre, os espanhóis batem muito porque eu tento pôr o Elcano no seu lugar. O Elcano tem a glória, eu digo sempre: "O Elcano não". O Elcano tem a glória, foi o grande mérito de acabar a viagem direta de seguida. Mas, entretanto, o Fernão de Magalhães já tinha acabado a segunda etapa, para mim conta.
Duas pernas, digamos.
Exatamente.
Metade do mundo para Ocidente e metade do mundo para Oriente.
Exatamente, é isso. Por isso é que eu tenho este livro agora, que é o abraço, o primeiro homem a abraçar o mundo, que é uma imagem que eu criei, que eu acho que é simpática, porque ele, de facto, com os portugueses de Lisboa às Molucas entre 1505, 1512, ele deu o abraço por Oriente e depois com os espanhóis entre 1519, 1521, deu o abraço para Ocidente. E quando chegou às Filipinas e às Molucas, que é mais ou menos no mesmo sítio, é tudo ali na mesma zona, ele na prática deu a volta ao mundo em duas etapas. Para mim, conta. E portanto, ele quando acabou e quando morreu nas Filipinas, ele sabia que tinha dado a volta ao mundo. Para esse efeito, é o mais importante e por isso continua a ser o símbolo do descobrimento do mundo.
É preciso também esclarecer duas coisas. Para já, uma coisa que se costuma dizer é: ele consumou a epopeia dos descobrimentos. Sei que tinham começado 100 anos antes.
Sim, exatamente.
Digamos que foi a última grande viagem que fechou esse ciclo.
Absolutamente. Eu acho que isso é simbólico, porque nós, na realidade, com a história do redescobrimento da Madeira, que se está a comemorar os 600 anos.
Em 1419.
Exatamente. É impressionante, não é? Porque, de facto, a Madeira já era conhecida, mas os portugueses povoaram-na, ocuparam-na, começaram a fazer explorações nessa altura, só depois em 1434 é que passaram o Cabo Gilador, mas foi precisamente nessa altura, quando se redescobriu a Madeira, que eles começaram a fazer e depois, com muita persistência, o infante D. Henrique lá foi conseguindo fazer os descobrimentos. Começou a mandar fazer os descobrimentos. E depois a seguir, Fernão de Magalhães, 100 anos depois, começa a grande viagem que termina, porque depois ainda há umas coisitas para descobrir, mas o essencial estava descoberto.
Voltamos aqui à conversa com o José Manuel Garcia, um historiador que vem com sua biografia celebrar os 500 anos da primeira circum-navegação do mundo e desmistificar, talvez, esta figura do Fernão de Magalhães. Pelo menos repor a verdade. Eu ainda quero fazer um pequenino intervalo antes de voltarmos a falar dele, nomeadamente por causa de umas obras que eu tenho aí também. Por exemplo, a magnífica "Torre de Belém" foi uma obra que continuamos sempre a falar dentro da temática dos descobrimentos, também tem a ver. Uma obra que editou pela Verso da História já há cinco anos. Aproveito de estar aqui para lhe dar os parabéns por esta obra extraordinária, que em boa hora saiu Quando celebraram os 500 anos da sua construção, este ícone de Lisboa e que em 83 foi classificada Patrimônio da Humanidade. É para mim, e uma vez confirmei isto com o Joaquim Boyça, a obra-prima da arquitetura militar, talvez do mundo. Não há nada que se compare com a beleza desta torre construída para ter canhões e para defender uma barra, como esta Torre de Belém, que deu muito gozo escrever, com certeza, esta obra.
Deu-me gozo pelo seu significado histórico, pela beleza e porque de facto é um símbolo de Lisboa, diria mesmo de Portugal, ao fim e ao cabo. É um ex-libris na medida em que é um símbolo do Manuelino e que se situa entre a Idade Média e a Idade Moderna, precisamente com o fim de defesa de Lisboa. Para isso é que foi feita, para fazer cruzamento de fogo com Porto Brandão, com a Torre de São Sebastião.
A Torre Velha de São Sebastião.
Exatamente, que estava do outro lado. E portanto, foi um sistema que já tinha sido idealizado pelo D. João II, mas foi o D. Manuel que concretizou e em 1514, com o pretexto dos 500 anos, foi uma obra que me deu muito gozo, precisamente porque-
Miguel Arruda, se não me engano.
Exatamente. Não foi o Miguel Arruda, foi o Diogo Arruda, que era um familiar. O Miguel, acho que era tio. O Miguel Arruda fez depois o São Sebastião da Barra, que veio ao fim e ao cabo a substituir a Torre de Belém, porque a Torre de Belém praticamente é uma obra de arte, mas foi substituída porque era necessário um sistema mais avançado.
São Sebastião da Barra é o forte.
Exatamente, é mais avançado e é um sistema mais elaborado, mais sofisticado, porque a Torre de Belém era um símbolo do poder do D. Manuel.
A propósito que o tempo tinha avançado.
Exatamente, também. Portanto, verificou-se que não era suficiente e é ao fim e ao cabo mais um símbolo do poder manuelino, para que todas as pessoas que entrassem na barra de Lisboa vissem os símbolos, a arte, a beleza.
É um cartão de visita extraordinário.
Com as torres, com as esferas armilares, com as armas de Portugal.
Mas pouca gente sabe, José Manuel, que naquele plano, esta torre fazia contraponto com outra torre que existe do outro lado. Aliás, está muito arruinada, pouca gente sabe que há uma outra torre, que não é Belém, neste caso é Porto Brandão. Esta Torre de São Sebastião, mas não era tão decorada, não tinha esta cor tão manuelina.
A outra ainda foi do tempo do D. João II, porque o D. João II no lugar tinha mandado fazer essa, digamos, discreta torre de São Sebastião para cruzar o fogo com o Manaú, que estava no sítio da Torre Belém e a Torre Belém vai substituir o Manaú de madeira grande que lá estava.
Com canhões, exatamente com a mesma função?
Era. Digamos que, ao fim e ao cabo, a nau, para qualquer inimigo que viesse, foi substituída por uma nau de pedra, ao fim e ao cabo, porque a originalidade da Torre Belém é que é uma torre medieval, como a de Beja e outras grandes torres medievais portuguesas, e depois tem o primeiro baluarte. O baluarte é que é o original, porque de facto é um sistema de renascença, é como o do Manuel. O Manuel é um homem entre a Idade Média e o Renascimento, que veio a culminar com os descobrimentos, porque os descobrimentos para mim é o acontecimento mais importante da renascença. Porque de facto é o mais importante para mim, são os descobrimentos.
E também só mais este pormenor, num cantinho dos baluartes está o tal famoso rinoceronte.
É precisamente 1515, que chega com o Afonso Albuquerque manda ao D. Manuel o rinoceronte, que chega precisamente em 1515 e que se tornará também um símbolo da fauna exótica.
Primeira escultura de um rinoceronte na Europa?
Exatamente, é contemporâneo da famosa gravura do Dürer, porque foi um sucesso exótico do exótico dos portugueses.
Este rinoceronte indiano oferecido ao rei D. Manuel.
Eu lembro que é um aspeto muito curioso, que foi dito já no século XVII, em 1618, dizia que Lisboa era os olhos do mundo, porque era a partir das notícias que vinham do além-mar, de todo o mundo, que a Europa sabia as novidades, isto durante o tempo do Manuelino, e daí que Lisboa seja um centro do mundo.
Ainda há pouco tempo, na Arte Antiga, houve uma exposição exatamente sobre isso.
Exatamente. E é bom salientar que no século XVI, no tempo do D. Manuel e a D. João III, se uma pessoa queria ir do Brasil à China, tinha de ir nos navios portugueses que iam embarcar em Lisboa, porque se queria ir para a América Espanhola, tinha de ser em Sevilha. Mas se queria ir desde o Brasil à China, tinha de ser de Lisboa, em navios portugueses. Isso é importante.
Muito bem, nós estamos agora então a falar do Fernão de Magalhães, que é isso que nos traz hoje. E portanto, esta viagem de circum-navegação iniciou-se há exatamente 500 anos, foi em 20 de setembro de 1519, quando cinco naus comandados pelo portuense Fernão de Magalhães, então, zarparam de Sanlúcar de Barrameda, na foz do Guadalquivir, perto de Cádiz, na Andaluzia, e três anos depois ia terminar esta viagem em setembro de 1522, comandada pelo navegador, então nesse caso, Juan Sebastián Elcano, tendo Magalhães morrido pouco antes nas Filipinas, com apenas 41 anos. Uma expedição decisiva que representou a conclusão do processo de descobrimentos, que já falamos disso. E atenção, tudo começou quando Fernão de Magalhães, em outubro de 1517, foi para Espanha agravado, a palavra é esta, não é zangado, nem despedido, nem nada, mas foi agravado, porque D. Manuel não aumentou em mais 100 reis mensais a sua moradia, que é como se chamava o ordenado
É um aspecto algo insólito, mas que tem a ver mais com o significado da honra, porque o Fernão Magalhães em 1516 sabemos que ganhava 1250 reis de salário. Reais ou reis, como se dizia na altura. Está escrito, está registado 1250 reais. E então ele queria 1450 reis, ele queria um aumento de 200 reais e o rei só lhe dava 100 reais. E ele queria mais 100 reais.
Já tinha feito coisas importantes.
Já, porque ele desde 1505 tinha ido com o Dom Francisco d'Almeida fazer a fundação da Índia, tinha participado em todas as batalhas do Francisco d'Almeida, em Diu, com o Afonso Albuquerque na conquista de Goa, na conquista de Malaca. Ele tinha estado em todo lado e tinha ido às Molucas em 1512, que era o sítio mais longínquo. Então ele considerava-se um grande descobridor e considerava-se que tinha direito a receber como honra. Só que o rei não lhe quis dar mais esse aumento dos 100 reais que ele pretendia, porque tinha havido intrigas contra ele, derivado de problemas que tinha havido de uma acusação de corrupção em Azamor, que ele ficou muito ofendido. Ele voltou a Azamor, ficou provado que era inocente. Foi ilibado, mas mesmo assim o rei ficou com má vontade.
Ficou a mancha.
Foi. E depois, além do mais, da mancha, que enfim, não ficou limpa suficientemente da reputação. E também, além de não lhe dar o aumento, ele também não o deixou ir. Isso penso que é o mais importante. O Fernão Magalhães queria ir ter com o seu amigo, Francisco Serrão, às Ternate, às Molucas, porque o Francisco Serrão de Ternate, em 1514, tinha lhe escrito uma carta para ele vir ter com ele, que ali seria rico e ele queria ir ter com o seu amigo às Molucas, por Oriente, mas o Dom Manuel não o deixou ir por Oriente. E então ele escreveu ao seu amigo em 1516, isto está tudo registado. Em 1516, com interpretação, é preciso interpretar. Ele disse ao seu amigo Francisco Serrão: "Eu vou ter contigo a Ternate, se não for a bem com os portugueses por Oriente, vou por Ocidente pra Castela". E assim foi. Ele andou com o Dom Manuel, à ver se lhe aumentava isso ou deixava ir. Não o deixou, nem aumentou.
Foi ter com o Carlos V.
Foi ter com o Carlos V, que abriu-lhe os braços logo porque os espanhóis não conseguiam fazer a viagem.
A viagem não se faria se não fosse o Fernão de Magalhães.
O conhecimento. Absolutamente. Por isso é que ele deu a um português, que ia com o Rui Faleiros, mas isso não vale a pena falar agora. O Fernão Magalhães é que concebeu o projeto e com o currículo que ele tinha e os espanhóis não conseguiam ir.
É verdade que ele tinha a tal carta do Francisco.
Tinha a carta do Francisco e tinha mapas feitos. Ele tinha uma carta escrita pelo amigo, a convidal.
A carta era o mapa.
Não, ele tinha uma carta escrita por ele. E depois tinha mapas, cartas mapas, mapas próprio.
Mais atualizados possível.
Atualizados do Pedro Reinel e do Jorge Reinel, sobretudo Pedro Reinel, que era o principal cartógrafo. Que era um cartógrafo admirável.
Essa carta existe ainda?
Exato. Existe uma versão aperfeiçoada já em 1519, que ele foi apresentar o seu projeto, que foi aprovado pelo Carlos V em 1518, em Valladolid. Está tudo controlado.
Onde estava a corte.
Estava a corte e então foi recebido e eles, sim senhora. Com o bispo de Burgos, que era o homem que estava por trás do Carlos V. O Carlos V era um jovem de 18 anos. Ainda por cima, tudo isso, essas negociações complexas, num tempo em que o Carlos V estava a casar a irmã dele, a D. Leonor, com o Dom Manuel pela terceira vez. O Dom Manuel estava a casar. E então os embaixadores criticavam: "Então você está a casar a sua irmã com o rei e depois a seguir vai fazer..."
Está a aceitar, está a dar emprego.
Está a aceitar a um traidor.
Exatamente, a uma pessoa não grata.
Exatamente. De modo que por isso é que o Fernão Magalhães, de facto, acaba por se tornar um herói, mas passa por um processo de traição e depois acaba por se tornar num mito, porque ele, de facto, não é bem mito, mas é mais um símbolo da globalização e da coragem, da tenacidade, do conhecimento, do saber. Ele tem todos os elogios que é possível fazer, mas também tem essa faceta de um homem heroico e corajoso, mas que fica com uma mancha em Portugal, que só depois é que será ultrapassada, e o Camões traduz isso muito bem. Ele diz que é português pelo valor do seu trabalho e do seu conhecimento, mas que não é bem português pelo que ele fez ao rei. Mas a verdade é que o rei também não facilitou, não esperava que ele fizesse aquilo que ele fez. É preciso dizer que falou há bocado das Molucas e as Molucas, que é um arquipélago no Pacífico, perto das Filipinas, era um dos sítios mais ricos da Terra
Porque era onde tinha o cravinho.
Exatamente.
O cravinho era a especiaria, o top das especiarias.
É o top porque valia-
Mais do que a pimenta
...três vezes a pimenta, era o valor de três vezes a pimenta e segundo alguns cálculos que foram feitos, desde que se comprava o cravinho nas Molucas, na Indonésia, no extremo oriente da Indonésia, valia quando chegava e era vendido na Europa, 300 vezes mais. Quer dizer, portanto, era um lucro fabuloso que valia mais que as porcelanas e que era um negócio.
Era como se fosse o petróleo da altura.
Era. Na prática, as especiarias, o petróleo na altura não interessava nada, o que interessava era as especiarias, porque a nobreza e a burguesia, as pessoas gostavam do exotismo da comida, que ficava muito mais valorizada, de modo que era um produto valiosíssimo e os portugueses aproveitaram-se disso com muito trabalho e sacrifício. E depois os espanhóis também queriam ter acesso a essas especiarias.
E não se usavam só pra temperar comida.
Também para a farmácia.
Fins medicinais.
Fins medicinais e portanto tinha outras funções, embora a principal era da comida, conservação, embora sobretudo era pra dar gosto. Isso é que fazia a diferença. Do exótico.
Os mais ricos podiam mudar o sabor das coisas.
Exatamente. Havia uma corrida às especiarias e os portugueses tinham o monopólio, os espanhóis também queriam, mas os portugueses tinham o monopólio e queriam conservar. Daí que o dom Manuel tentasse impedir a viagem e depois houve uma grande reivindicação, até que de facto as Molucas acabaram mesmo por ficar em Portugal e estavam na parte portuguesa. O Fernão de Magalhães queria provar ao Carlos quinto que elas estavam na parte espanhola, que eram do Carlos quinto, mas falhou por pouco. O Fernão de Magalhães, que tinha grandes cálculos, muito mais aperfeiçoados do que os espanhóis, mas falhou por poucas centenas de quilômetros, porque estava na parte portuguesa, no antimeridiano de Tordesilhas, porque tudo isto era uma questão de demarcação do antimeridiano, do outro lado do mundo, porque havia uma linha de Tordesilhas que passava por Belém do Pará, no Brasil, na zona do Amazonas, e depois o outro lado não sabia muito bem onde é que ia parar. Os portugueses diziam que as Molucas estavam na parte portuguesa e os espanhóis, na sequência do Fernão de Magalhães, diziam: "Não, isto está na parte portuguesa." Daí que o Fernão Magalhães tenha tido o apoio do Carlos quinto, que não permitia que o Fernão Magalhães, nem os espanhóis, viessem pela parte portuguesa. Portanto, ele nunca quis fazer a volta completa, seguida. Desobedeceria às ordens do rei e portanto ele deveria regressar pelo Pacífico.
Do seu empregador.
Exatamente. O Elkan é que desesperado, decidiu não cumprir a ordem do seu rei Carlos quinto e veio e conseguiu escapar aos portugueses. Ainda ficaram 13 presos em Cabo Verde quando ele parou pra seguir a viagem. Foi um feito fantástico. Ele veio desde Timor até Cabo Verde só com arroz e água. A fugir e com arroz e água durante muitos meses, com pessoas a morrer constantemente e daí que só tenham escapado 18 a chegar a Sevilha, 18 e mais 12 que depois acabaram por regressar. E depois ainda houve uns que ficaram presos em Ternate, mais cinco, que acabaram por vir. Portanto, no total 35 sobreviventes da viagem, porque os portugueses prenderam 17, numa outra nau que tentou ir para o Panamá, mas não conseguiu, os portugueses prenderam-nos e conseguiram sobreviver cinco, que regressaram a Lisboa e depois foram encaminhados pra Espanha. Foi uma aventura absolutamente fantástica. Foi a maior viagem e mais difícil e incrível viagem das navegações dos descobrimentos e penso que da história da humanidade, foi a viagem mais difícil que se fez até hoje.
Estamos aqui com o José Manuel Garcia, que acaba de lançar este manuscrito, este "Fernão de Magalhães, herói, traidor ou mito? A história do primeiro homem a abraçar o mundo." E abraçar o mundo exatamente é um dos mitos que agora aproveito estar aqui, José Manuel, pra nos esclarecer. Não foi ele que descobriu que a Terra era redonda. Já se sabia há milênios que a Terra era redonda.
Sem dúvida, desde a antiguidade, há mais de 2000 anos que os gregos tinham provado a evidência de que a Terra era redonda. O que Fernão Magalhães vai fazer é experimentalmente, pela experiência, o Duarte Pacheco Pereira dizia que a experiência era a madre de todas as coisas, tudo se conseguia com a experiência. E ele foi experimentar e descobriu, de facto, não só experimentalmente, na prática, a verdadeira dimensão da Terra, porque o problema também era que a Terra era redonda, já toda a gente sabia.
Achavam que era mais pequena.
Exatamente. Daí o erro do Colombo, por exemplo, que achava que a Terra quase que era metade daquilo que é. E o Fernão de Magalhães veio a provar, porque o que eu acho mais fantástico na viagem do Fernão de Magalhães é que só à conta dele descobriu quase metade da Terra, porque desde Montevidéu, o Rio da Prata, até Cebu, 20.000 km. E a superfície da Terra tem volta 40.000. Portanto, é uma coisa que é impressionante e provou que havia mais água do que terra, isso é que não se sabia, porque havia teorias, há mais água, mais terra. Ele: "Não, realmente há mais água do que terra" porque aquele Pacífico, ele demorou quase quatro meses a fazer a viagem, por sorte, daí ser Pacífico.
Exatamente.
Por sorte, ele conseguiu provar a realidade da Terra. Por isso é que eu acho que ele é uma figura emblemática da história da humanidade.
E disse agora mesmo, foi precisamente ele que nomeou o primeiro europeu a navegar e a nomear o oceano Pacífico.
Exatamente, porque ele felizmente teve a navegação tranquila.
E porque veio do estreito Magalhães, onde até aí os mares eram um pouquinho mais complicados e acho que no estreito também era meio difícil atravessar.
O estreito Magalhães tem sobretudo ventos muito difíceis de ultrapassar quando se vai pro Pacífico e tem correntes fortes quando se vem do Atlântico. Depois, a navegação do estreito, segundo me explicaram os almirantes chilenos que foram comigo nessa viagem, que a navegação em si não é muito difícil no meio, mas nas pontas é mais difícil. Mas ele conseguiu com grande tenacidade vencer esse obstáculo e depois tinha sido muito difícil chegar desde o Rio da Prata até ao estreito de Magalhães Sido viagens muito difíceis. Depois a seguir o Pacífico foi tranquilo. O problema do Pacífico foi a falta de alimentos e as doenças. Felizmente que ele no Estreito de Magalhães tinha recolhido muito aipo, que tem vitaminas, e assim conseguiram que durante grande parte da viagem. Às vezes diz que morreram muitas pessoas na travessia dos Andes. Não, só morreram nove pessoas. Até chegar à ilha de Guam, só morreram nove pessoas, porque tinham comido muito aipo, que tinha vitamina C, e puseram-no em vinagre.
Conseguiram conservá-lo.
Conseguiram conservá-lo. Depois é que entretanto foram começando a morrer e depois foram chacinados, houve um massacre em Cebu com 25.
Há descrições de como o escorbuto atacava.
Exatamente. O António Pigafetta faz descrições horríveis, mas isso já se sabia.
Era um italiano que ia na viagem e que fez o relato diário.
É o cronista, é uma figura fabulosa esse António Pigafetta, que era um admirador. Quando o Fernão de Magalhães foi morto em batalha em Mactán, ele dizia que morreu o sol, morreu o nosso guia.
Era um fã.
Era um fã, dizia que era o homem que sabia mais navegar, que resistia à sede, à fome, a tudo, era um homem ideal para ele.
Foi também o grande responsável, o Fernão de Magalhães, por levar a fé católica às Filipinas, que ainda hoje é a primeira nação cristã do Oriente. É uma figura polêmica e arrojada com tudo o que ele fez, porque é uma coisa que também o José Manuel diz sempre: isto foi uma empresa espanhola ou portuguesa? Foi espanhola, como costuma dizer.
Foi espanhola.
Mas com o conhecimento.
Exatamente.
Só se fez por causa de.
Exatamente. Portanto, a iniciativa e o empreendimento científico e a execução é tudo português, porque ele, de facto, era português até ter ido menos de dois anos para Sevilha, para Espanha, e esteve menos de dois anos lá. E portanto, ao fim e ao cabo, toda a formação que ele tinha era portuguesa. Agora, o empreendimento dele era contra Portugal, era para se vingar de Dom Manuel. O Dom Manuel não queria que ele se fizesse, às vezes diz-se que o Dom Manuel não o autorizou a fazer a viagem. Não, o Dom Manuel não o deixou ir por Oriente como ele queria, isso é que é difícil de explicar, mas ele queria ir por Oriente. Não pôde ir por Oriente, vai para Ocidente. O João de Barros, que tinha a documentação toda de Fernão de Magalhães, tinha as cartas, tinha os documentos, os portugueses apanharam muitos documentos aos espanhóis que prenderam nas Molucas, os portugueses sabiam mais sobre a viagem do que os espanhóis. Portanto, controlavam toda a informação. E daí que se verifique que o que o Fernão de Magalhães queria era ir por Ocidente e o Dom Manuel não estava autorizado a fazer viagens para o ocidente do Brasil, como o Fernão de Magalhães queria fazer.
Por causa do Tratado de Tordesilhas.
Exatamente.
A partir daquela linha era território espanhol.
Exatamente.
O próprio falou de João de Barros, o próprio Damião de Góis diz que ele se desnaturalizou, mas não se sabe se ele nunca adquiriu a cidadania espanhola.
Sim, há dúvidas, porque ele de facto recebeu a Ordem de Santiago, que era dada a fidalgos espanhóis, e alguns dizem que ele se teria desnaturalizado e que passou a ser espanhol. É possível. Antes de ter negociado com o Carlos V a autorização para ir fazer a sua viagem, ele ainda se dizia vizinho do Porto. Portanto, ele quando foi falar com o imperador, na altura era rei, depois é que foi imperador Carlos V, ele ainda era português, porque dizia que era vizinho do Porto, portanto era português. Mas depois é possível que, de facto, aborrecido com o rei, tenha mesmo decidido ser espanhol, mas não há nenhum documento que o prove assim peremptoriamente.
Nós estamos mesmo a terminar. José Manuel, diga-me só uma coisa: herói, traidor ou mito? No seu ponto de vista e feita toda esta investigação que tem feito ao longo destes anos, no seu coração, qual é a imagem que tem do Fernão de Magalhães? As três coisas?
É um homem de carne e osso que passou a ser um herói depois de passar por um traidor e acabou por se tornar um mito. Portanto, é um homem de carne e osso como todos nós, que tem as grandezas e as misérias da condição humana, que pela sua ambição adquiriu um caráter mítico, que é legítimo, porque foi uma figura única e emblemática do início da mundialização e da prova da coragem de um ser humano.
Muito importante, fica aqui esta deixa, já sabe, pelo manuscrito "Fernão de Magalhães: herói, traidor ou mito? A história do primeiro homem a abraçar o mundo". E pronto, nós não temos tempo para mais, em rádio é mesmo assim, o José Manuel Garcia já sabia. Obrigado por nos ter feito viajar no tempo e também na vida deste herói nacional, nos 500 anos do seu feito glorioso.