Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

As pessoas não estão atentas.

Se eu me afasto.

Mesmo hoje isso acontece. Passas não às vezes por sem-abrigo e vês pessoas inanimadas. Ninguém passa a perguntar o que tem e tens que ir às vezes tu abaná-las pra ver se está tudo bem.

Eu salvei uma pessoa por isso mesmo.

Mais do que uma, o Pedro, por exemplo.

O Pedro e o outro senhor que teve uma paragem cardiorrespiratória, porque passavam por ele e ninguém parava. É horripilante.

Em plena pandemia. Até a respiração boca a boca tiveste que fazer.

Fiz.

Não pensaste mais nada.

Não pensei em mais, só pensei em salvar uma vida.

E vocês é que tiveram que pôr o homem na maca, porque os bombeiros mais quiseram.

Não, também não. Ou seja, isto é assim, os sem-abrigo são os invisíveis da sociedade.

Hoje falamos de atos nobres de cidadania. Comigo, Matilde Carvalho, diretora de marketing da Nobre, marca responsável pela iniciativa Nobre Casa de Cidadania, que anualmente distingue cidadãos e organizações que se destacam por gestos de altruísmo e cidadania, dando o seu contributo pra sociedade através do título de Cidadão Nobre. Em julho passado, ocorreu a cerimônia anual desta nobre iniciativa, onde foram distinguidas 12 histórias de cidadania ativa que refletem diferentes formas de fazer a diferença na vida dos outros. Desde atos de coragem que salvaram vidas, até projetos de inclusão, solidariedade e apoio a pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Foi o caso do jovem Rodrigo Pinto, de nove anos, que salvou a mãe com a sua chamada pro INEM. Ou Jéssica Migueis, agente da PSP, que ajudou uma mulher a dar à luz na via pública, junto à entrada do Hospital Amadora-Sintra. Sónia Sousa El, fundadora do projeto Quando Mais Um é Igual a Menos Um, que já passou por estes microfones, pela sensibilização de crianças e jovens pra proteção dos oceanos. Ou o caso da nossa outra convidada de hoje, Filipa Dias, que depois de uma vida de dor, de luta, de superação, fundou o projeto Bem-Vinda Solidariedade, que há seis anos se dedica à distribuição regular de refeições a pessoas em situação de sem-abrigo e a apoiar pessoas em recuperação de dependências. Vamos conhecer melhor essas duas convidadas, pra quem a autenticidade não se declara, demonstra-se. Olá, Matilde. Olá, Filipa. Muito obrigado por terem aceitado este meu convite. Bem-vindas à Rádio Observador. Vou começar pela Matilde, que é desde há um ano, praticamente, diretora de marketing desta iniciativa e da Nobre, que lidera esta estratégia de marketing da empresa, sempre focada no crescimento sustentável. Tu tens já 20 anos de experiência no marketing.

Mais de 20 anos de experiência na área de marketing.

E passaste inclusive, foste head of global marketing na Gallo. É os azeites.

Azeites Gallo.

Que fazem história em todo o mundo onde eu vou. E cheguei a encontrar latas pequeninas de azeite Gallo no meio da Amazônia, que é uma coisa que nunca pensei encontrar. É extraordinário, é uma marca fabulosa. Eu gosto tanto quando as marcas são nossas e crescem bem e desenvolvem-se e passamos o exemplo lá pra fora. É isso que falamos hoje, de exemplos que interessa passar.

Sim, eu como marketeer, sou uma apaixonada por marcas e trabalhando em marcas icônicas. Também a Nobre é uma marca com quase 70 anos de existência.

Incrível.

E à mesa dos portugueses, e também lá fora a encontramos.

Também exportam.

E aqui na Nobre, com este projeto.

Exatamente. Nobre Casa de Cidadania, NCC.

Temos essa preocupação de cuidar do próximo, além de cuidar da comida no prato.

Como é que uma empresa de alimentação, de repente, decide criar um projeto assim de cidadania? De onde é que vem essa ideia? Tens noção? Aliás, já existe há 13 anos.

Já existe desde 2013.

Incrível.

E conta com 13 parceiros, instituições bem conhecidas da sociedade.

Sim, temos o INEM, a Proteção Civil, os Bombeiros, Faculdade de Teologia da Católica, a Confederação do Voluntariado, os escuteiros.

Exatamente.

Muitos parceiros, ainda bem.

Muitas vertentes.

E mais deviam vir.

E que são também eles que nos permitem garantir aqui. O nosso papel é muito como mentor, promotor de uma iniciativa, e são eles que nos ajudam, no fundo, a identificar os atos nobres e as histórias que todos os dias fazem a diferença com pessoas anônimas. E aqui o nosso propósito é ter um impacto na sociedade, também. E como marca responsável que somos, achamos que faz sentido este projeto e esta missão de cuidar não só com o que colocamos no prato, com a qualidade, com o sabor tão reconhecido dos nossos produtos.

Exatamente.

Mas além disso, ir mais além e poder também inspirar através da promoção destas histórias.

Destes exemplos extraordinários.

Como a Filipa hoje aqui relatará a sua, mas podermos inspirar também atos de cidadania ativa e inspirar gerações futuras pra além dos nossos produtos.

Há uma coisa que marca muito e chama muito a atenção. É que vocês fazem isto há 13 anos. É uma questão de consistência, é muito importante. Como se a Filipa tivesse feito um projeto pra: "No ano que vem vou ajudar os sem-abrigo de Lisboa" e acabou. Não, a consistência é muito importante, porque há pessoas que não vão lá com um ano, ou com dois, ou com três. Portanto, vocês: "Não, todos os anos vamos escolher". Vocês já há mais de uma centena de pessoas que reconheceram e que divulgaram o caso.

Todos os anos reconhecemos. A iniciativa tem vindo a crescer e o nosso objetivo é que ela continue a crescer também. Deixo o apelo também, porque é possível, através do site da Nobre, em nobre.pt.

Exatamente.

Tem uma área dedicada a esta iniciativa, NCC, Nobre Casa de Cidadania.

Portanto, qualquer pessoa pode propor um ato nobre.

Qualquer pessoa pode candidatar alguém que conheça.

No nobre.pt, é fácil.

Exatamente. E, portanto, o nosso propósito aqui é também dar a conhecer mais estes casos que possam

E depois são muito variados: a inclusão social, apoio de pessoas vulneráveis, proteção da comunidade, atos individuais de coragem, solidariedade. A Filipa aqui junta todos. Mas há casos muito variados que eu vi, desde o ambiente aos sem-abrigo. Essa variedade é muito importante e é bom saber que todos os anos arranjam pessoas que candidatam-se e selecionam. Quem é o grupo que seleciona, além de ti?

A NOBRE não seleciona. A NOBRE promove, como eu dizia, esta iniciativa.

Mas são os parceiros?

São os parceiros, os 13 parceiros institucionais que eu referia, justamente porque eles têm o conhecimento na sociedade do que são atos de solidariedade, de inclusão, de sustentabilidade. E portanto, que asseguram também esse caráter mais autêntico do projeto e que lhe dá também a credibilidade.

Quando tu tens ideia que quando eles selecionam isto, o que é que pesa mais? A ideia, o impacto, a paixão de quem apresenta? Tens alguma ideia ou se calhar é tudo isto um bocadinho? É um mix.

Por um lado, a simplicidade gratuita, digamos, o gesto altruísta, gratuito, com que alguém vai além daquilo que é esperado, que não fica com as mãos nos bolsos, não espera um reconhecimento disto. E falo porque sinto que essa é a maneira correta de participar, de ter um papel, como eu dizia, de cuidar do outro.

Ser um membro ativo, a cuidar do outro e a amar o outro.

Faz parte também desse processo de seleção.

Imagino que já passaram por ti muitas candidaturas e muitos casos destes já selecionados. Ainda te surpreendes, às vezes? Consegues surpreender-te todos os anos?

Todas as cerimónias. Todas as histórias surpreendem, todas as histórias emocionam. A cerimónia é um momento muito importante anualmente, em que nós distinguimos, e é um momento também de muita emoção.

É isso que eu ia dizer, deve ser muito íntimo.

As histórias tocam realmente.

Cada um fala daquilo que o moveu.

Sim.

Isso é sempre bom.

Surpreende todos os anos.

Diz-me uma coisa, Matilde, do que é que consta o prémio? É só o reconhecimento, dar visibilidade, inspirar os outros ou há algum dinheiro envolvido ou algum acompanhamento depois?

Não, o nosso propósito aqui mesmo é divulgar, dar visibilidade, acreditando que isso também impacta na sociedade e que faz com que outros também possam aderir até e contribuir mais para que existam mais exemplos destes, organizações ou pessoas individuais a ajudarem o próximo.

Isso é importante, até porque muitos destes gestos, às vezes o maior impacto quotidiano, nem sempre são os mais visíveis, portanto vocês dão essa visibilidade, o que é muito importante. O valor da cidadania é muito importante. A NOBRE aqui está a ajudar a criar uma cultura de reconhecimento em torno de quem faz a diferença todos os dias. Muitas empresas falam disto, da responsabilidade social, Matilde. O que é que distingue esta iniciativa de simplesmente passar um cheque ao fim do ano e ajudar uma instituição?

Eu acho que é o papel ativo. Estas pessoas que nós identificamos, elas na realidade não precisam do reconhecimento. Elas já o fazem gratuitamente.

Sim, mas é mais um canal, é muito importante. E daí passa para as televisões e para as rádios. Isso é muito importante. Vocês dão o impulso.

E portanto, eu acho que isso é muito mais relevante do que meramente passar um cheque. A NOBRE faz os seus donativos também para outras instituições, mas aqui tem um propósito maior também.

E de facto, esta responsabilidade social devia estar no DNA das empresas. Mais empresas deviam estar com isto em mãos e poder fazer isto. Os consumidores também estão atentos, e é uma coisa que eu sinto, cada vez há, ainda bem, iniciativas destas, porque os consumidores escrutinam cada vez mais o comportamento das empresas e esperam este impacto positivo real. Hoje em dia isto nota-se muito. Fala-se de empresas que continuam, estou a pensar em algumas de arroz, que todos os anos dão também comida para sem-abrigo, por exemplo, e que fazem todos os anos mil refeições. Este tipo de coisas, que é muito importante. Propor um ato nobre, já dissemos que pode-se ir ao formulário no site nobre.pt. Tens a lista dos deste ano?

Os homenageados?

Sim, mais ou menos. Eu ajudo-te. Mas, de qualquer modo, ao longo destes anos, houve algum testemunho muito especial? Se eu falar da Filipa, não vale, porque ela está aqui e vai falar já do caso dela. Houve mais algum que tu disseste: "Olha, fiquei muito sensibilizada com o exemplo daquele menino ou daquela senhora ou daquele rapaz". Algum que te tivesse marcado, por gosto pessoal.

Muitos tocam. O ano passado houve um caso de uma pessoa também que salvou no Cabo

No Cabo da Roca, em Cascais, salvou uma turista de se afogar no mar. Esse foi um caso que achei impressionante.

Muito bem. Coragem. Com risco de vida, claro. É que ali é muito perigoso. Ainda há dois anos ou não há muito tempo, houve um casal de polacos. Estavam a tirar uma fotografia e caíram os dois. Os filhos ficaram em terra a ver os pais morrer afogados. Sem poder ninguém fazer nada, porque aquilo é um precipício.

Exato.

E cá está, eu pensei: "Olha, é um sítio onde acontecem estas coisas".

Acho que é um caso que marca.

Claro que sim.

Mas, como digo, muitas histórias marcam. Este ano, a história do Rodrigo.

Aquele miúdo de nove anos.

É incrível.

Sim, famoso. Rodrigo Pinto.

Sim.

Que ligou para o INEM e conseguiu salvar a mãe.

Salva a mãe, uma criança.

Ele depois foi lá, recebeu, viu as fotografias e falou.

Falou.

Eu depois vi cá as fotografias dele com o técnico do INEM. Foi excecional também. Esse acompanhamento e essa recepção, os dois entenderam-se muito bem.

E esteve com calma e conseguiu explicar ao INEM o que se estava a passar com a mãe. Portanto, também é um exemplo.

Sim, é um exemplo muito marcante.

Que marca.

Estava a pensar nalguns aqui desta associação Tira-me da Rua, também, este do Yuri Bomba e Andreia Gomes, que tem a ver com a promoção do sucesso escolar através dos desportos. É tão importante.

Também.

Esta é a Ana Paula Sousa, da Associação Social Amigos de Tamora Correia, também ajuda famílias em situação de vulnerabilidade, a integração de imigrantes.

Existe também uma que é através do ciclismo.

É, este do José Carlos Marques.

Exatamente.

Exatamente.

E é uma dedicação também diária.

Engraçado, de fundo, através do ciclismo de longa distância, é muito giro.

E mover as pessoas para participar.

É muito original. E esta Ana Paula Paz, da Assistência Luso-Alemã, apoio a famílias também frágeis, em situação de fragilidade socioeconômica. Joana Nóbrega Garcia, esta do Dress a Girl Portugal.

Essa também é uma iniciativa incrível.

Em prol da dignidade, proteção e maestrada de crianças em contextos vulneráveis. O Joaquim Sá, com a dedicação diária ao apoio elementar e social de pessoas em situação de exclusão. O Joaquim Silva Ramos, este foi aqui uma homenagem póstuma, um exemplo aqui, contribuído para a humanização dos cuidados de saúde em Portugal. Uma que já falei aqui, a Sónia Sousa L., esta com o Quando Mais Um Igual a Menos Um, esta que é a sensibilização ambiental.

É uma vertente também diferente, mas também é interessante o impacto ambiental e a sensibilização. E é também uma história em que ela se emocionava muito ao contar como começou, de ir para os oceanos, chegar ao fundo dos oceanos e de repente perceber o lixo e a importância de proteger os oceanos.

Ela fazia nos Açores, todos os anos, estas campanhas, nas Flores, para tirar o lixo, que nunca mais acabe atulhado, o que a gente estraga, o nosso planeta, não há descrição. E depois eu adorei a história da Jéssica Miguéis, aquela agente da PSP que ajudou aquele parto. É extraordinário, depois ela ajudou a tirar o cordão umbilical, o recém-nascido tinha o cordão três voltas à volta do pescoço. Ajudou a fazer aquilo tudo com calma, com a ajuda do pai, da criança. E esses dois agentes também, o Patrick Costa e a Ângela Moura, que pela sua rápida atuação salvaram a vida também de um bebê que estava em asfixia. Extraordinário. E depois, é claro, o caso extraordinário da nossa Filipa. Falámos todos, repara. Da nossa Filipa Dias, fundadora então deste projeto, Bem-Vinda Solidariedade. Bem-vinda, Filipa.

Sete anos. Eu vou só retificar porque é o meu bebê, é o meu projeto.

Tem sete anos?

Tem sete.

Sim, desde 2019. Exatamente. Fundadora então deste projeto, Bem-Vinda Solidariedade, que tem essa distribuição regular de comidas aos seus amiguinhos, como tu chamas.

É verdade.

Pessoas em situação de sem abrigo e pelo apoio a pessoas em recuperação de dependências. De fato, o teu percurso e a tua história motivou esta distinção e este grande impacto que tem na sociedade, o que é muito bom. Muito bem. Então tu nasceste aqui e cresceste aqui no bairro de Alvalade, aqui bem pertinho, não foi?

Exatamente. Nasci e cresci no bairro de Alvalade.

Depois tiraste Psicologia.

Tirei Psicologia na Lusófona.

É muito bom, porque ajuda-te a ver, a trabalhar muito as pessoas e de lidar com as pessoas, não ajuda? É um curso ótimo pra isso.

E o mais engraçado é que eu acabei por não seguir a vertente Psicologia, porque achei que quando tirei o curso, eu andava ali um bocadinho perdida. Tinha 17 anos quando entrei na faculdade. Andamos ali um bocadinho perdidos. Entretanto, engravidei da minha filha com 21 anos, pronto, fui para a noite. Pronto, aquelas situações que têm que se fazer, porque tive que ir trabalhar, a realidade é essa, tive que trabalhar, estudar, fazer tudo ao mesmo tempo. E acabei por não seguir. Segui a parte de outras vertentes, que eu gosto muito de números, por mais incrível que possa parecer. Exatamente. Gosto muito de Matemática.

Não é oito meses que eu passei mal, é sete meses e 10 dias, 10 meses. Não me confundam.

Não, eu sou precisa.

Gosta de Matemática?

Gosto. Eu sou muito precisa nas datas, porque tenho as datas muito presentes na minha cabeça.

Quando gravamos isto, dia 5 de agosto, faz 10 anos que tu estás limpa e sóbria.

É verdade.

Tudo o que é drogas. Parabéns.

Obrigada.

É um percurso extraordinário. Estiveste mais tempo limpa e sóbria do que consumiste, o que é muito bom.

Foram sete anos e 10 meses a conseguir e 10 anos que fiz no dia 5, limpa e sóbria, em sobriedade, em liberdade, como eu costumo dizer.

Em liberdade, é tão importante isso. Em 2008, então, tinhas 31 e houve este envolvimento com o pai da tua filha mais nova.

Mais nova.

No mundo da droga, foste arrastada, viveste um período muito difícil, durante quase oito meses. Isto foi bater no fundo do poço completamente.

Eu bati no fundo do poço.

Porque tu mesmo por amor, vender por dinheiro e por droga, mas era por amor, era uma relação tóxica que estavas agarrada.

Eu estava completamente adicta. Aliás, eu sou uma pessoa adicta.

Sim.

Não só à droga. Eu sou uma pessoa adicta à amizade, ao amor. Eu sou adicta às minhas filhas, por mais incrível que possa parecer, porque eu tive que entregar as minhas filhas.

A uma tia.

A uma tia, que me criou.

Sim, criou, claro.

Também.

É muito importante esta coisa da família. Houve a tia, houve a avó bem-vinda.

Mas são os dois pontos de referência, porque na realidade As pessoas não sabiam que eu consumia. Não havia conhecimento da parte delas. Havia uma estranheza: "Por que ela gasta tanto dinheiro? Onde ela gasta tanto dinheiro? O que ela tem a acontecer desta maneira?" Nunca me perguntaram, eu também nunca disse, porque achei sempre que eu não vou-

Preocupá-las. É a minha vida

É a minha vida, sou eu que escolho. Fiz esta decisão com o pai da minha filha. Mas eu acho que era uma relação tóxica, sim. E eu vejo hoje que nós fomos um ano e meio felizes, sem drogas. Quando aparece a droga, que é precisamente um mês depois da minha filha nascer, eu começo a consumir em outubro de 2008.

Por causa dele?

Por causa dele.

Veio por ele.

Veio por ele.

E ele começou a pedir dinheiro.

E ele comprava para os dois.

Arrastou-te para aquilo.

Porque a droga aproximava-me dele. Isto é horroroso.

Se eu depender disso, se eu ficar dependente de mim, tomo às vezes com ele. Pois eu percebo isso. Quando é uma relação de amor, cego.

Cego. E eu imagino que quem está lá em casa, que algumas pessoas estejam a ouvir isto, que se sintam nesta pele, afastem-se urgentemente, porque leva-se à ruína.

Exatamente. É muito difícil o caminho de volta. Tu trilhaste, mas não é para toda a gente e tens força que outras pessoas se calhar não têm ou têm que ser ajudadas, é verdade.

Há pessoas que inclusivamente dizem: "Mas tu saíste sozinha?" Eu saí sozinha.

Exatamente, a frio.

A frio.

É incrível. Vamos saber mais daqui a um intervalozinho. Matilde Carvalho, Filipa Dias. Vamos fazer um pequeno intervalo, voltamos já. Estamos a conversar com Matilde Carvalho, ela é diretora de marketing da marca Nobre, e Filipa Dias, ela é fundadora e mentora do projeto Bem-Vinda Solidariedade, uma das vencedoras da edição deste ano da iniciativa Nobre Casa de Cidadania, que anualmente distingue cidadãos e organizações que se destacam projetos de altruísmo e cidadania, dando o seu contributo para a sociedade. Filipa, estamos a falar aqui desta relação complicada que tu tiveste com o pai da tua segunda filha. Estavas já grávida de cinco meses quando descobriste que ele afinal era casado e que tinha outra família.

Exatamente, mas eu fui lá.

E continuava caseiro e tu chegaste a estar de joelhos a implorar-lhe, humilhaste-te ao ponto.

Humilhei-me.

De estar de joelhos a dizer: "Volta pra mim, fica comigo".

Exatamente.

E ele nada.

Na altura, dizia que não podia, porque tinha uma mulher, porque tinha uma esposa.

Tinha outra família, exatamente. Tentaste comprar um amor com dinheiro e com o consumo de cocaína, são palavras tuas.

São minhas.

Largaste a estabilidade, tinhas um emprego estável, uma farmacêutica, tinhas um carro acabadinho de comprar.

Acabadinho de comprar.

É extraordinário. Abandonaste quase tudo e quase toda a família. Claro que os amigos fogem todos, pois não, são todos loucos.

Foi tudo embora. Aliás, a minha casa era uma casa aberta porque eu fazia, além de trabalhar, fazia karaoke, cantava. Tudo isso acabou. E eu tinha a minha casa sempre cheia, almoços, jantares, aos fins de semana, e de repente, fica sem amigos. Onde é que estão os amigos? O que mais me espantou nisso tudo foi como é que não houve ninguém a perguntar: "O que se passa contigo?"

O que é que tu tens? Exatamente.

É isto que me torturou.

Tens razão, isso é chocante.

É horrível.

As pessoas não estarem atentas uns aos outros, não é só o teu caso, é as pessoas não estão atentas.

Se eu me afasto-

Mas mesmo hoje isso acontece. Passas não vou às vezes por sem-abrigo e vês pessoas inanimadas. Ninguém passa a perguntar o que tem. Tens que ir às vezes tu abaná-las pra ver se está tudo bem.

Eu salvei uma pessoa por isso mesmo.

Mais do que uma, o Pedro, por exemplo.

O Pedro e o outro senhor que teve uma paragem cardiorrespiratória, porque passavam por ele e ninguém parava. É horripilante.

Em plena pandemia. Até a respiração boca a boca que tiveste que fazer nessa altura, não pensaste mais nada.

Não pensei mais, só pensei em salvar uma vida.

E vocês não tiveram que pôr o homem na maca, porque os mesmos mais quiseram.

Não, também não. Isto é assim, os sem-abrigo são os invisíveis da sociedade.

Exatamente.

E por mais que nós não queiramos. Se me dissessem assim: "Filipa". Eu sou uma ativista neste aspecto, porque também estive do outro lado. Eu sei o que é passar fome, eu sei o que é precisar de uma palavra, eu sei o que é não tentarem me perguntar, nem chegarem ao pé de mim a dizer-me: "O que estás aqui a fazer?"

É essa desatenção que eu me questiono e que eu fico triste.

É surreal pra mim. E eu quando criei o projeto Bem-Vinda, além da comida, eu vou abaná-los.

Sim, é isso. É tão importante.

Às vezes filmam-me, porque eu vou ter com eles, eu tapo-os.

Tu és a tia Loura.

Sou, sou a tia.

A Filipa Loura.

A das unhas grandes. Sou a Filipa, sou a tia.

A mãe, muitas vezes és a mãe pra eles.

Algumas vezes sou a mãe.

Esse Pedro, por exemplo, estava na tenda a espumar da boca com uma overdose, e tu disseste: "Pedro, o que tu tomaste?" Nem conseguiu dar a corda, dizer o que era.

Não. E o Pedro, depois-

Chamaste os bombeiros

...chamei os bombeiros e pronto. Mas é que depois, passadas cerca de duas semanas, três semanas, houve um senhor que veio ter comigo e disse: "Filipa?" Eu disse: "Sim". E ele estava a chorar. Eu disse: "O que se passa?" Ele: "O Pedro mandou agradecer, porque o Pedro foi pra um centro de reabilitação".

Olha!

Sim, e estava a ser tratado.

Quantas vezes mais, diz?

Foi muitas.

E que te tocou de tal modo, que vês que alguém vai sair daí.

Tocou-me, porque se eu não tivesse ido à tenda, se eu não tivesse buscado o Pedro, o Pedro tinha morrido dentro da tenda. Porque não é fácil, e vou dizer isto, não é fácil, nós como projeto, ou mesmo as associações, nós percorrermos as tendas todas e vasculharmos tudo. Eu tento ao meu máximo, porque eu não quero levar um peso pra casa de pensar que posso ter deixado alguém morrer e eu não ter dado assistência.

Da tua incúria, exato.

Não posso.

Como é que tu te defendes? Isto é, como é que tu vais para casa e consegues dormir? Depois de veres, às vezes, quando vais para essas sessões, passas por várias zonas da cidade, Santa Apolónia, Gare do Oriente, onde tu começas por aí fora.

Martim Moniz.

Martim Moniz. Passas por essas zonas, já distribuíste mil a 1200 refeições nestes anos. Como é que tu chegas a casa e levas vidas na tua cabeça atrás de ti? Acho que a psicologia pode ser importante nisso. Como é que tu consegues dormir?

Foi aí que eu utilizei a psicologia.

Sim. Também calculo que sim. Quando eu descobri que vinhas da psicologia, pensei: "Mesmo que ela não exerça, não faça clínica, nem nada, isto é muito bom para o que ela vive e para perceber um bocadinho a cabeça e os mecanismos". Ajudou de certeza.

Ajudou-me, mas eu não posso dizer que cada vez que chego a casa, que a minha cabeça está sã. Não.

Pois.

Mas também há uma coisa: eu tenho dores, como toda a gente tem.

Sim.

E eu costumo dizer que eu preciso sentir a dor dos outros para muitas vezes não sentir a minha.

Vais combatendo as tuas falhas emocionais, que são reais.

São reais.

Com a ajuda aos outros.

Com a ajuda aos outros. É uma missão que eu tenho.

Mas isso é uma sublimação, isso é extraordinário, isso é bom.

Mas isso é limar arestas. Eu tenho que limar as minhas próprias arestas. Eu tenho que limar as minhas próprias arestas. Somos humanos.

E uma pessoa adicta, então, tem sempre. É como o alcoolismo, diz que é crónico. "Estou limpo, e já sóbrio há não sei quantos anos". Mas é uma coisa que a pessoa sonha às vezes.

Eu sou uma adicta em recuperação e serei sempre toda a minha vida.

Mas ainda bem que é nisso.

Mas eu tenho a plena noção que é isto.

Claro que sim.

E sempre.

Que é como o cérebro funciona.

Não, mas hoje são só mais 24 horas. Eu não sei o que é amanhã.

Exato. Vais conquistando dia a dia.

É o dia a dia.

É extraordinário.

É os três F.

Hoje é dez anos, isso é o que eu quero celebrar. É tão bom.

Pronto, já foi assim que 10 anos, vamos embora, são 10 anos e mais três dias, e mais dois dias, e mais quatro dias.

Mas de facto era um vício muito caro. Tu chegavas a gastar € 300 num dia?

Por dia.

É extraordinário. E depois a questão das filhas não foi uma coisa que também te feriu profundamente?

Completamente.

Mas foste a melhor mãe dentro da pior coisa que há, porque tiraste uma tia responsável por uma causa que esta sorte não ia ter.

Como costumo dizer, claro que nós levamos com o hate. Que "abandonou as filhas".

Não foste também presente, que hoje achas que sabias que gostavas de ter sido.

Sinto falta.

Mas nunca ficaram desemparadas.

Não. Aliás, como eu disse, eu entreguei à pessoa que me criou. Portanto, eu sabia perfeitamente que iam ficar maravilhosamente. Comigo é que não estavam bem. Eu seria uma muito má mãe se tivesse deixado eles ficarem comigo.

Ainda bem que tens consciência disso, isso é muito importante.

Tenho muita consciência. Agora, se me doeu? Claro que doeu.

Claro que sim.

Como é que as pessoas: "Ah, trocaste as tuas filhas pela droga".

27 anos e quê? 15, 16?

A mais velha vai fazer 27 e a mais nova vai fazer 18.

27? Tu tiraste com 10 anos.

Não, já vou fazer 49.

E a outra?

A mais velha vai fazer 27 e a mais nova vai fazer 18.

É extraordinário. Só uma coisa eu digo sempre: não perdi a dignidade. Foi a única coisa que eu não perdi. Isso é muito importante.

E não era fácil perder a sanção. Mas atenção, eu não critico nada disso, porque como eu costumo dizer, nós quando estamos na adição, não somos isentos de sentimentos, nós não nos interessa qualquer tipo de-

Não tens noção nesse aspeto.

Não há noção, a nossa cabeça está completamente adicta e, portanto, é para ali que nós viramos, é para ali que nós queremos. Não nos importamos. Eu tive casos, e desculpe dizer isto, mas é verdade, quem me vendia dizer-me: "Para, olha para ti, para". E eu dizer: "Vende que eu me irei embora rápido, vá, anda".

Porque te viu já uma zumbi humana.

Uma degradação.

No fundo do poço.

No fundo do poço. Só encontrei o trampolim, graças a Deus.

Houve ali um momento de abre olhos, esta bad trip. A trip para o Algarve foi uma bad trip.

Foi uma bad, bad trip.

Porque aí começaste com alucinações. Isso que é o quê? O quase overdose?

Não, é o consumo excessivo de droga, ou a droga pode não ser pura, como todos nós sabemos.

Qualquer coisa. Isto a gente fala de cocaína.

Leva imensos medicamentos para juntar. E aquilo fez na minha cabeça, eu tive alucinações mesmo. Eu estava a andar e sentia que o carro tinha os pneus vazios e que estava a andar num sítio. Horrível, foi horrível. Eu vi tubarões, golfinhos.

Então aí percebeste: "Não, isto tem que parar agora aqui".

Eu fui para baixo com essas alucinações e quando venho para cima para Lisboa, eu disse: "Não, eu vou comprar para ter a certeza que realmente está a acontecer alguma coisa de errado". E fui comprar novamente. E começou-me a dar novamente as alucinações. E por estranho que pareça, eu ia com o saco, punha-o dentro do lixo, mas em pé. Depois ia lá buscar, depois punha em pé. Eu disse: "Não, acabou".

Como os alcoólatras faziam com as garrafas.

Ora, exatamente.

Escondiam mas no sítio exato para não perder o líquido.

Para não perder. Naquela altura, nós dizíamos que é ouro.

Exato. Então isolaste-te seis meses. Fechaste-te para o mundo.

Fechei-me em casa.

A frio.

A frio.

Curaste dessa ressaca, dessa turca.

Psicológica.

Exatamente. Porque é uma ressaca psicológica.

Eu não estava trancada.

Não é só física.

Não, eu não estava trancada. Eu é que me tranquei.

Podias sair quando quisesses.

Eu podia sair quando eu quisesse. Eu podia sair ao meu bel-prazer.

Muita força de vontade.

Muita força.

Quando tu conversas hoje com pessoas que apanhas na rua, imagino que os sem-abrigo, e também muitos são dependentes. Portanto, tens as duas valências, tu ajudas os dois casos.

Sim.

E alguns devem ser o mesmo. A mesma pessoa tem as duas.

Sim, as duas valências.

É o sem-abrigo que é toxicodependente.

Exatamente.

Como é que tu lhes dizes o que têm que fazer? Como é que tu os ajudas? Tu tens uma força.

Sou fria.

Como é que tu dizes tu hoje?

Mas olha, como é que é? Isto não é vida para ninguém.

Tem energias lá dentro, pões cá fora.

Exatamente, tens que puxar das entranhas e tirar cá para fora a tua força.

Tem que ser fortes, Filipa.

Mas cabe a cada pessoa. Por mais que eu diga, aquilo entra a 500, sai a 1000. Mas se algum bocadinho do que eu disser restar lá dentro, para mim é uma vitória. E às vezes resulta.

Isso que eu ia dizer, às vezes acontece.

Às vezes acontece.

E outros que precisam de ajuda, pessoas precisam de ajuda por fora. Filipa, nem todos se conseguem sozinhos.

Não, mas isso é o que eu costumo dizer.

Como é que tu podes aconselhar alguém a conseguir ajudas do exterior?

Eu tenho tido muitas mensagens, parece que foi uma pergunta mesmo na muche, porque eu tenho recebido inúmeras mensagens de pessoas que têm alguém adicto. Recorram imediatamente ao posto médico, ao médico de família, que o médico de família encaminha para o CAT. O CAT é o Centro de Apoio aos Toxicodependentes. Lá terão o apoio de um psiquiatra e terão os medicamentos adequados à sua adição.

Metadonnas.

E por aí adiante, alguma medicação. Até porque para a cocaína, na altura, não havia qualquer tipo de medicamento. Agora há uma coisa. Um antidepressivo, que se pode dizer. Está em estudo uma vacina, e eu espero que essa vacina vá para a frente, como foi do Covid, para a cocaína, para o crack, principalmente, para a cocaína fumada. É horrível mesmo.

E quando tu viajas estas terras, São Francisco e Los Angeles, tu vês por causa do Fentanol ou Fentanil?

Exatamente, é essa droga.

Ficam as pessoas com ar de zombie a andar, a olhar para o chão, a andar.

Exatamente.

Parecem bichos.

Eu estudo isso, eu vejo muitos vídeos desses, porque como eu disse, eu sou uma adicta.

Sim.

E todos os dias eu tenho que ver uma história dessas. Pode parecer surreal o que eu vou dizer. Todos os dias eu tenho que ver uma história em que eu possa pensar: "Se eu não tivesse tido força, eu estava assim".

Dá-te mais força.

Dá, mas aí eu preciso-

Ainda bem que eu estou fora disso.

Eu preciso ver aquilo. Eu sou daquelas pessoas que a ferida está aqui, eu abro, eu cutuco lá dentro pra ela me doer bem, pra eu sentir. Eu sei muito bem aquilo que eu quero.

Curioso. Fizeste então uma promessa à avó bem-vinda. E aqui é que entra o nome deste projeto, Projeto Bem-vinda. É por causa da tua querida avó a quem prometeste, a ela e a Deus, porque tu pediste ajuda a todos os deuses.

Todos os deuses.

E a todos os santos.

Tudo.

Se eu conseguir manter longe deste mundo pra sempre, eu vou dedicar a minha vida a ajudar pessoas em situação de sem abrigo.

Exatamente. Mas como eu disse, sempre muito mais do que o alimento, a palavra.

Sim, não leva só comida. É a palavra.

Leva o afeto. É como eu digo, e quando nós vamos de três em três semanas, eles acabam por, entre aspas, nos cobrar e me dizer: "Ó tia, a tia não veio". E eu fico: "Meu Deus do céu". A tia não conseguiu vir, porque nós vivemos de doações. Nas minhas redes sociais, é capel sempre as doações.

Claro, é muito importante.

Não tenho outra forma.

Exato.

Não tenho apoio do Estado.

As pessoas que queiram ajudar, por exemplo, vão às tuas redes sociais. Adoro teu Instagram e os TikToks tu tens ótimos. Mas, por exemplo, lá tem a maneira de ajudar e tem o que for, IBANs e quizento de coisas.

Sim, tem. Exatamente. Quem quiser ajudar.

Além da comida, levam palavra, claro. E além da palavra, também levam barbeiros e levam kits de higiene.

Exatamente.

Eu vi uns stories teus que era: "Vamos reparar esse cabelo". Lá vem o barbeiro.

Eu sou assim, eu mesmo na rua, eu sou isto. Eu sou esta pessoa.

És genuína, é o que tu és.

Eu sou mesmo.

Não te perdeste, estás certa.

Não, não perdi nada. Aliás, eu fui uma pessoa, porque tenho que dizer isto, eu fui uma pessoa antes da dependência, sempre esta alegre.

Claro!

Tive na dependência, mas a dependência tornou-me uma pessoa ainda muito melhor, a todos os níveis. Mas esta boa disposição, isto sou eu, isto é a Filipa.

Claro, é óbvio. Sabes nos karaokês.

Exatamente.

Não, mas é, mas ajuda. E esta coisa de parecendo que não, do barbeiro, eu achei muito giro, achei muito importante. É uma questão de autoestima e isso faz muito pelas pessoas. Pessoas com ar degradado, com ar sujo. E eu depois penso, a pessoa fica logo com outro ar, já dá outro élan, dá outra vontade.

E te perguntam: "Mas então esta semana não veio os barbeiros?" "Olha, não conseguimos, mas pra próxima eu trago, eu prometo que trago".

É tão importante isso.

E a autoestima é muito importante, eles têm um grande carinho.

Muito bem, fizeste então esta promessa e tu dizes sempre: "Eu quero ser um pilar, não quero ser uma vítima, eu não venho aqui falar..." E como se vê, pelo teu tom e pela coisa que tu dizes, não és a vítima. És uma pessoa que fala do seu exemplo. Tu depois demoraste estes dois anos a recuperar-se e cumpriste esta promessa, então. Fazes sempre este apelo: não experimentem a cocaína. E quem diz cocaína, diz outras-

Diz outras drogas, não.

Não experimentem, não vale a pena.

Nem banalizem o consumo.

Sabem onde dizer não, quando é preciso dizer não.

Sim, exatamente. E é como eu digo, quem estiver nessa situação e se não conseguir ter força, peça ajuda, mas peça ajuda urgente. Não é quando estiver já na reta final.

Exatamente. És só uma vez. Não toquem.

Não toquem.

Três mil seiscentos e quarenta e cinco dias limpa e sóbria, 5 de agosto. É hoje que estamos a gravar e é este dia extraordinário que tu celebras 10 anos, que é uma grande alegria. Vais combatendo essas falhas emocionais, como dissemos, com esta ajuda ao próximo. Como é que tu começaste, um dos primeiros passos, no fundo, é uma das vossas valências, esta distribuição alimentar. Os amiguinhos sem abrigo, como este nome terno que tu lhe dás, que tu dás a eles, há cerca de 13 mil, que foi pra mim contigo, em Lisboa. É brutal, é muito. Ainda agora, semana passada, vi uma coisa do Carlos Moedas, que abriu um novo centro de pernoite em Lisboa. Fala: "Ah, são 90 novas vagas pra dar resposta a este plano municipal pra pessoas em situação de sem abrigo". É melhor que nada, mas é sempre preciso mais.

Ano passado abriu com 28. Não, desculpa, há dois anos abriu com 28.

Agora abriu uma com 90 vagas.

Abriu 90. E eu gostava de acompanhar essa situação, gostava de saber quais são os critérios que são utilizados.

Este plano municipal pra pessoas em situação de sem abrigo. Mesmo este plano que existe com este nome, é uma questão de saber. Foi uma notícia que eu vi por acaso logo antes de vir pra aqui. Sei que tu começaste com 60 sopinhas que fazias em casa. Ainda trazes à memória?

Na bagageira do carro. Exatamente.

Na bagageira do teu carrinho.

E começo a ver cada vez mais pessoas e cada vez mais pessoas. Eu disse: "Não, eu vou ter que arranjar..."

Redes sociais, lançaste às redes. Aqui é muito importante, porque aí chamaram pessoas.

Chamou pessoas e chamou mais pessoas e claro, eu filmo.

As tuas redes são ótimas. Faz-me dar riso. Tu celebras, tu mostras. As pessoas contigo é muito bom.

Eu acho que não é por eu ter sido uma toxicodependente. Eu não gosto da palavra ex-toxicodependente, mas as coisas têm que se chamar pelo nome. Às vezes eu não gosto, mas pronto. Eu sou uma adicta em recuperação. Não é por ser uma adicta em recuperação que eu não possa levar o meu passado sobre esta alegria, no sentido que eu sou uma superação.

Claro que sim, tu és um exemplo.

E se eu puder passar isto pras outras pessoas, melhor ainda.

Hoje em dia estão em 1000 a 1200 refeições já, de três em três semanas.

Exatamente, fora todo o resto que levamos.

Claro, tudo voluntários.

Tudo voluntários. Um grande beijinho pros meus voluntários.

Tem uma logística local, portanto tens esta parceria com a ACRD de Carinci, por exemplo.

Exatamente.

E também faz este apoio a dependências, além do alimento físico, disponibilizas palavras de força, orientação, este apoio direto que falamos disso já.

Tem a Susi que tá em Peniche também no restaurante, ela que também nos ajuda, que faz as refeições dela.

Bens de primeira necessidade também. Também, entre vezes, recolhem e distribuição de agasalhos, de roupas, mantas, este tipo de coisas também.

Conseguimos uma carrinha também graças às redes sociais, fazendo apelo. Uma carrinha velhinha, mas é a nossa carrinha, é a Fizuca.

A Tizuca?

Fizuca.

Fizuca.

Pronto. É uns nomes à flipa. É a Fizuca e é uma carrinha que nos leva e transporta tudo aquilo que nós precisamos.

Trabalhar com essas pessoas em situações mais vulneráveis também muda muito quem ajuda. O que esse projeto ajudou em ti?

Ajudou-me a conhecer muito melhor.

A ti própria?

Sim. Aliás, havia coisas que eu não conhecia em mim

Ok. Só se revelar um bocadinho com esta ajuda.

Com a ajuda, com a aproximação.

Com este abrir-se aos outros.

Como eu costumo dizer, eu tinha uma missão na Terra, eu não sabia qual era. Andei um bocadinho talvez perdida sobre a minha missão na Terra. E eu descubro hoje que a minha missão era realmente ajudar o próximo. E já ajudei inúmeras famílias.

É nobre.

Em plena pandemia estava a ajudar famílias, mas sempre a ajudar os sem-abrigo, mas depois foquei-me mais para os sem-abrigo. É o meu foco, apesar de haver famílias que vão buscar o seu alimento. Principalmente na Gare do Oriente.

À vossa carrinha.

Há pessoas que têm casa e quarto e não têm para comer.

Sim, incrível. E essa pobreza é também envergonhada muitas vezes, as pessoas não falam disso.

Quem mais precisa é quem menos fala.

Exatamente. Fala-se muitas vezes em solidariedade, mas às vezes parece que ela só aparece quando há uma grande tragédia. A ideia que tu tens, Filipa, que somos um país solidário, temos um grande caminho para fazer.

Temos um grande caminho para fazer. E eu vou dar aqui um pequeno aparte, uma referência, que só no Natal é que se lembram que os sem-abrigo existem. Só no Natal é que nós vemos as redes sociais cheias de pessoas a ajudar os sem-abrigo. Eu tenho que dizer isto, eu não podia esconder. Isto é a minha observação que eu tenho a fazer. Eles estão lá o ano inteiro.

Sim.

Eles estão o ano inteiro. E todo o ano, atenção, se o Bem Vindo não for, a eles não lhes falta comida, que há sempre carrinhas que vão, não é por aí.

Há aquelas da Paz e Amor, que há algumas comidas.

A Vida e Paz, há várias que vão a casa e tudo mais. Eles vão ter com eles e vão ajudar à comida. Agora, o que eu sinto é quando chega a aproximação do Natal, eis que bum!

Há um bum de atenção e de foco.

Temos um bum de influencers a levar comida para as ruas.

Devia ser todo o ano.

Devia ser todo o ano.

E não só para o holofote.

É o que eu digo, porque nós não temos que viver de aplausos, nós temos que viver daquilo que fazemos sem holofote.

Do trabalho consistente, é como tu trazes aqui, Manuela. Exato.

Todos os dias.

Consistente. A coisa dura anos e é importante continuar.

Ir mais além, porque sim, porque faz sentido.

E essa iniciativa da NOBRE realmente é importante, porque perguntou-se por causa do cheque e eu vou falar. O cheque nós gastaríamos numa ação e acabava-se ali.

Ao passo que, por exemplo, estas iniciativas chamam a atenção, outras pessoas mais à frente vão saber que existes.

É construir uma comunidade maior que possa ajudar e contribuir.

E conhecemos outras pessoas que também foram nomeadas, trocamos ideias, trocamos telefones, portanto, contactos. Isso é importante.

Há uma coisa dia 16 de agosto, na Gare do Oriente, às 18h, vai acontecer. É o quê?

É sim senhora, mais uma ação dos amiguinhos.

Pronto, eu vi isto, vi um poster vosso. Tu ias fazer um apelo agora na parte final. É o quê? Diz lá.

Ia, ia fazer. Como eu disse, a minha missão aqui na Terra é ajudar. E existe um caso de um menino com quatro anos e meio que sofre de paralisia cerebral, é o Santiago, o Santi. E o Santi e a mãe, neste caso a mãe, que é cuidadora a tempo inteiro, está a precisar de ajuda para levar o Santi ao México para um tratamento que está inovador.

Revolucionário.

Eu vou dar aqui, quem puder seguir, siga, e quem puder ajudar. Nas redes sociais estão todos os dados.

Na tua rede também está?

Não, na minha rede não está. Está só na rede da mãe.

E tens a referência com que eu possa ficar?

Tenho. Não precisa ser perfeito para ser amor.

Basta isto?

Basta isto. Tudo junto: não precisa ser perfeito para ser amor.

Ponto TV.

Um grande beijinho para a Ana. Ana, juntos acho que vamos todos conseguir e ajudar o Santiago a ir ao México.

É mesmo, Manuela. Obrigado por teres trazido a Filipa também. Obrigado pela vossa iniciativa. E é mesmo uma iniciativa de cidadania e de um ato nobre. Vem aqui, fala da experiência dela e lança o apelo: "Ajuda-me, outros também precisam". É muito bonito isso. Filipa, a maior força do mundo e que mais gente possa ouvir e possa ajudar.

Muito obrigada.

Tu mereces tudo e sobretudo as filhas maravilhosas que tu tens.

Obrigada.

Que nunca abandonaste e tiveram sempre no teu coração até hoje, que é muito importante. Benhards, obrigado por terem vindo as duas.

Obrigada.

Obrigada.