Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Eu conto sempre uma história muito interessante em relação a esta procura pela juventude eterna, que é um cientista que era médico, Braun-Séquard, um cientista francês, penso eu, que era obcecado com a juventude eterna. E ele queria descobrir de onde é que vinha a juventude ou o que é que podia fazer para se manter jovem. E uma das coisas que ele pensou é que o segredo para a juventude está nos testículos. E começou a arranjar forma de implantar testículos em si.
Quantos de nós já se queixaram de uma dor de cabeça frequente, da sensação de inchaço, um aumento inexplicável de peso, de calores ou de frios, ou simplesmente de irritabilidade, e ouviram alguém dizer: "Isso é culpa das hormonas"? Apesar de serem determinantes para a nossa saúde sexual e reprodutora, para o nosso metabolismo, para a gestão saudável do peso, dos estados emocionais, para a nossa manutenção de energia, sabemos muito pouco sobre o que são e onde se produzem as hormonas e, sobretudo, como é que influenciam o nosso corpo e a nossa saúde. Francisco Sousa Santos, médico endocrinologista, é autor de "A culpa é das hormonas". Um livro que explica de forma clara o impacto das hormonas na saúde, no peso, nas emoções e também no bem-estar. Vamos falar de obesidade, menopausa, libido, diabetes, testosterona, tiroide e tantas coisas que nos impactam todos os dias. Olá, Francisco, e bem-hajas ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado.
É uma estreia tua aqui, não é?
Na Rádio Observador, sim. Quase que é uma estreia absoluta na rádio, na Rádio Observador é uma estreia.
Está bem. Foste ao Alvin antes, é o que isso quer dizer.
O grande Alvin, a lenda Alvin. Essa foi a minha estreia na rádio, acho eu.
Está bem, agora sim. Mas agora sim, atingiste o topo de carreira e estás aqui.
Agora atingi o topo, tal e qual.
Acho muita graça, vou já brincar com isto, o teu nome, que no meio do teu nome, tu podias ter um pseudónimo idóneo para escrever poesia, por exemplo. Porque tu chamas-te Maria da Paz.
Maria da Paz.
Tens este nome no meio do teu nome, Francisco Maria da Paz de Sousa Santos.
Tenho, e eu fugi desse nome como o diabo foge da cruz durante grande parte da minha infância.
Porque brincavam contigo?
As crianças são muito cruéis, não é? Costuma-se dizer.
Boulevarde.
E eu lembro-me perfeitamente-
Não têm filtros
...de uma ou duas pessoas, que agora são meus grandes amigos, que corriam atrás de mim a chamar-me Maria da Paz, e eu a fugir. Entretanto, comecei a pegar num estojo e a tentar ripostar diretamente e usar a força do estojo.
Exatamente.
Mas hoje em dia estou completamente em paz com esse nome, portanto pode usar, por mim está tudo bem.
Mas eu acho graça, um amigo meu tem o nome muito parecido com o teu e também dizia: "O teu pseudónimo de escritor podia ser este nome que tens aqui no meio", que é outra pessoa completamente diferente.
Ou se fosse uma drag queen, por exemplo, podia usar como nome artístico também.
Maria da Paz, é verdade. Muito bem. Além de teres estudado na Queen Elizabeth School, eu conheço muito bem.
Não é tão pomposo como parece. Atenção, é uma escola normal.
E estas Doroteias onde tu nasceste em Lisboa, é ali nas Galvanas, é no Campo Grande ou é ali no Externato do Parque?
O Externato do Parque são os mais novos e depois a partir do quinto ano é ali no Campo Grande, ao lado do Estádio do Sporting.
Muito bem.
E portanto, foi lá que eu andei, no parque não andei.
Este teu fascínio da medicina vem de onde, Francisco? Tens médicos na família? Primeiro a medicina, depois já vamos às glândulas.
O meu avô, do lado paterno, era médico e foi um grande médico. Eu não o conheci, infelizmente.
Sim, morreu antes de tu nasceres.
Mas, na verdade, ele foi um grande médico e ele foi mesmo reconhecido internacionalmente na área da doença do sono, por exemplo.
Ah, que giro!
Foi um investigador muito importante nessa área. Mas como eu não o conheci, não posso culpá-lo de ser propriamente a minha grande inspiração. A minha mãe já está reformada, mas foi médica e eu acho que foi um bocadinho a inspiração. De certa forma, a minha mãe acabou por trabalhar em estomatologia, que tem a ver com dentes.
Dentes. Aliás, é uma especialidade que já não existe, é engraçado. No período disseram que já não faz parte do curso de medicina e as pessoas especializarem-se.
Ah, em quantas aulas?
Por causa da medicina dentária, que houve um surto tão grande de médicos dentários e um curso à parte completamente, que eles deixaram de fazer essa especialização, que só haveria dentro da medicina e deixou de haver só dentro da medicina.
Mas ainda existem alguns serviços de estomatologia, isso eu tenho ideia que sim. Mas a minha mãe acabou por seguir estomatologia um bocadinho por força das circunstâncias, coisas relacionadas com a família, não interessa muito, mas ela acabou por seguir, não tanto por ser a especialidade que ela mais queria. E na verdade, uma das especialidades que ela gostava muito era endocrinologia.
Ah, que giro!
Portanto, eu de certa forma-
Podes cumprir o sonho, digamos assim
...um bocadinho que peguei no sonho da minha mãe. Mas a minha história de ir para medicina é um bocadinho invulgar, porque eu acho que a maior parte dos médicos vai dizer que desde criança quis cuidar dos outros.
Muitos falaram disso, sim.
Que quis ser médico, eu não tenho absolutamente nada a ver com isso. Mesmo no secundário, se alguém me perguntasse por que eu queria ser, eu não dizia que queria ser médico, queria ser investigador, queria descobrir coisas novas, queria investigar, queria fazer ciência. Mas depois aconteceram duas ou três coisas engraçadas, isto vai parecer ridículo, e eu tenho plena noção disto. Mas uma das coisas que aconteceu é que houve uma série que estava a passar na televisão na altura, antes de eu fazer as escolhas, chamava "We Are", que era o serviço de emergência.
Foi o primeiro que houve. Aliás, que um dos grandes atores, o George Clooney, apareceu aí, por exemplo.
O George Clooney, toda a gente olhava para o George Clooney e pensava: "Bem, é isto que eu quero ser", como é óbvio, é exatamente isso.
E esse miúdo que era o estagiário ou o interno daquele tempo é agora o Carter, o The Pitt.
Exatamente, o ator Noah Wyle, que era o Carter.
Da famosa série agora da HBO.
Exatamente, HBO, que eu tenho de confessar que eu sigo e tiro-lhes o chapéu. Acho que mesmo em termos de representar bem o que é medicina e mesmo correção científica, acho que está muito bem. Ele é um ator fantástico. Desde o "We Are" que eu o acompanho e acho que é um ator fantástico. E de alguma forma que o "We Are" influenciou-me, porque eu achava que era uma vida super, por um lado, cansativa, mas por outro lado, superdinâmica, cheia de coisas interessantes, estão sempre a acontecer coisas interessantes.
Já tive colegas teus aqui que falam disso e que também foram muito influenciados por isso. É óbvio, todos falam da televisão e pessoas que foram para medicina porque viram reportagens da SICDa medicina de guerra e cirurgia em coisas de guerra e quiseram ir para isso. É curioso, é força de espírito.
Eu acho que ver aquilo e ver como nas séries os médicos mudavam a vida das pessoas tanto e tinham um impacto tão positivo na vida das pessoas, pôs-me a pensar. Depois, como é óbvio, que eu tinha boas notas e portanto eu poderia pensar em tudo, tinha essa felicidade. E depois a minha mãe chamou-me a atenção e eu acho que foi mesmo a minha mãe que falou comigo e que me disse assim: "Francisco, se tu fores para medicina, tu podes manter tudo em aberto. Ou seja, tu podes ir para medicina e fazer investigação". Eu tenho colegas meus-
É um bocadinho que fazes também
Acabo por fazer, não faço a tempo inteiro.
Tens aí vários membros e coordenas até grupos de trabalho.
Exatamente, mas não faço a tempo inteiro. Eu passo mais tempo a ver pessoas e doentes do que propriamente a fazer investigação, mas tenho colegas meus, tenho, por exemplo, uma colega minha que mudou-se para a Suíça, que só trabalha em investigação.
Já publicaste dezenas de papers e conferências todas e tudo. Claro que sim, posters.
Eu acho que os médicos acabam por ser sempre cientistas e é assim que eu vejo a medicina.
Estudam toda a carreira. O meu pai também era assim, tem dois irmãos assim.
Também é médico?
Médico. Ele foi para medicina, dois irmãos meus foram atrás, eu não, fui para jornalismo.
Eu acho que isso depois traz alguns problemas ou desafios familiares e mesmo de relações com amigos, porque acabamos por ir para um congresso. A minha namorada está-me sempre a dizer: "Estás sempre a preparar uma apresentação, estás sempre a preparar um artigo, uma reunião, qualquer coisa". Mas a verdade é que a minha mãe abriu-me os olhos para: "Olha, se quiseres, se fores para medicina, tu podes ser investigador". Então pronto, lá fui eu para medicina um bocadinho também porque podia, vamos ser honestos, entrei em medicina. Só que depois em medicina o meu chip mudou um bocadinho.
Mas tu tinhas essa ideia da genética, não era? Tu adoravas esta cadeira. Tinhas tido onde? No liceu?
Não, todos nós, eu acho que ainda faz parte do programa no 12º ano, temos umas aulas de genética. E as aulas que temos de genética é muito engraçado, é aquela coisa de uma pessoa tem os olhos azuis, nós temos duas cópias de cada gene, então se tem os olhos azuis tem que ter recebido uma cópia de um gene azul do pai, outra da mãe. Eu achei isso super interessante e fiquei fascinado.
E as ervilhas do Mendel, do padre.
E as experiências mendelianas, muito interessante. E eu achei: "É isto que eu quero fazer, e então vamos lá para medicina". O que aconteceu em medicina foi muito interessante. Os primeiros anos de medicina são muito teóricos, têm a ver muito com bioquímica, fisiologia. E aí foi o primeiro contacto que eu tive com hormonas, endocrinologia é o estudo das hormonas, só aqui um pequeno parêntesis. E portanto, foi o primeiro contacto que eu tive, foi em bioquímica, e eu achei logo muito interessante, porque fazem muito sentido, acima de tudo. Mas depois aconteceu outra coisa, que é assim que começar os anos clínicos, ou seja, os anos em que nós começamos a ver pessoas internadas, doentes na consulta.
Isso é a partir do que ano, do terceiro, do quarto?
É no quarto. Pelo menos antigamente era no quarto. No quarto ano começámos a ver doentes e eu comecei a ver: "Ah, não, mas isto é mesmo interessante". Portanto, aí logo começou um bichinho. E depois, onde a genética morreu na minha cabeça foi quando eu tive genética.
Que afinal foi das cadeiras que tu gostaste menos.
Não gostei. Não gostei pura e simplesmente. E nem sei explicar, honestamente, nem sei explicar o porquê. Eu acho que na altura já tinha a minha mente um bocadinho decidida que queria ser médico clínico. E realmente até fiquei um bocadinho, lembro-me de estar a ter aulas e de me sentir triste, porque sentia que era o meu sonho que estava a morrer.
Exato. Depois estavas a abraçar outro.
Mas estava com outros sonhos, felizmente estava com outros sonhos. E portanto, uma coisa que eu tenho muita felicidade, e se eu não fosse endocrinologista, ia ser outra coisa e outra especialidade, e eu ia gostar muito. Fico mesmo feliz e dá-me mesmo gosto.
Tens mesmo vocação para a tua profissão.
Não sei se é vocação, não sei se a vocação é uma coisa que existe, mas que eu tenho gosto.
E tens jeito, a vocação também é isso. Para lidar com as pessoas.
Eu acho que tenho jeito. Eu não gosto nada de me gabar, e isto vai soar mesmo gabarolas, isto que eu vou dizer, mas eu acho que há coisas que tenho jeito. Eu acho que tenho jeito para explicar coisas com algum grau de complexidade para o público geral. E um bocadinho por aí é que começou esta ideia do livro e das redes sociais, da minha página do Instagram.
Instagram, exatamente. Claro que sim, é tão importante. É que são das chaves e a resistência à chave. É muito importante isso.
E eu acho que isso é muito importante.
Literacia de saúde.
Literacia de saúde acho que é um determinante de saúde, nós falámos há pouco, mas que é muito importante. E eu acho que mesmo em termos de empatia, acho que consigo ser uma pessoa empática, embora fora da medicina sou um bocadinho antissocial, algumas pessoas poderiam descrever assim, mas acho que na consulta até sou uma pessoa bastante empática. E em termos científicos, dou o meu melhor. Agora, há tanta coisa que é mesmo desafio uma pessoa se manter sempre atualizada, mas eu faço por isso.
Caramba, o teu último ano foi passar Erasmus em Poznań, na Polónia. O curso era todo em inglês?
Isso foi, salvo erro, no meu quinto ano do curso geral de medicina. E eu passei lá um ano e era tudo em inglês. Eu acho que as pessoas hoje em dia estão muito ao corrente, por exemplo, dos cursos de medicina na República Checa. Há muitas pessoas a comprar o curso na República Checa. Há cursos internacionais, ou seja, há cursos lecionados em inglês noutros países. A Polónia é um deles.
Estive lá há pouco tempo.
Em Poznań?
Sim, nunca estudaria naquele país com aquela língua, meu Deus.
A língua é um desafio muito grande.
É um desafio enorme.
Eu, como é óbvio, não falava com os pacientes. Claro que não, e eu saí de lá a dizer as mesmas três palavras que sabia quando entrei. Mas lá o curso é lecionado em inglês. Não tinha nenhum português, era só basicamente eu mais dois ou três amigos que íamos de Erasmus, mas tinham muitos norte-americanos, muitos taiwaneses, eram coisas super específicas. Taiwaneses, noruegueses e norte-americanos. E portanto, era assim uma mistura bastante eclética.
Isto é o quinto ano ainda e depois foi a especialidade da endocrinologia, onde em 2019 ficaste especialista, reconhecido pela Ordem dos Médicos, pela European Union of Medical Specialists. Esta endocrinologia é uma especialidade reconhecida já faz agora 70 anos, desde 56.
Em Portugal, exatamente.
Houve algum clique para tu dizeres: "É isto"?Quer hormonas. Não quer pediatria, nem cirurgia, nem cardiovascular.
Onde eu comecei a admirar as hormonas, como eu estava a dizer, foi no primeiro ano, quando tivemos bioquímica, porque achei muito engraçado que é quase tipo efeito dominó. As coisas são complexas e nós temos de perceber e temos de estudar bem para as perceber, mas elas fazem sentido. Ou seja, eu gosto de explicar as hormonas como mensageiros biológicos do nosso corpo.
São mesmo isso, mandam mensagens, são produzidos em certos órgãos.
São mesmo isso. Eu gosto de explicar imaginando que nós queremos o corpo, ou a mente, ou o cérebro, o corpo quer desencadear, por exemplo, o aumento da frequência cardíaca, ou seja, da pulsação cardíaca. Tudo começa no cérebro. No cérebro, o cérebro como que escreve a mensagem, entrega a mensagem ao primeiro mensageiro, que é a primeira hormona. Por exemplo, neste caso, pode ser a TSH, que é uma hormona que depois vai entregar a mensagem à tireoide. A tireoide recebe a mensagem e dá ao segundo mensageiro.
É uma espécie de subestação dos CTT que reencaminha para o órgão já de destino ou ainda vai para outros eixos?
Depende. Consoante o eixo hormonal, pode haver mais mensageiros intermédios ou menos mensageiros intermédios. No caso da tireoide, escreve-se a mensagem no cérebro, digamos assim, entrega-se à TSH, a TSH leva a mensagem até à tireoide, a tireoide passa a mensagem para as hormonas da tireoide e as hormonas da tireoide atuam no coração.
E aceleram o batimento.
Aceleram o batimento cardíaco. Aqui tivemos dois, mas há eixos ou cascatas ou se quiserem dominós, porque isto no fundo é um dominó, é uma pecinha que bate na outra. Temos uma espécie destas cadeias de dominós maiores do que esta da tireoide. Eu acho que isso é fascinante, até porque as hormonas tocam em tudo. Eu falei aqui, simplifiquei muitas coisas a dizer que a hormona da tireoide atua no coração e desencadeia um efeito. Mas na verdade, a hormona da tireoide atua em mais de 10 órgãos diferentes. Uma só hormona atua em vários órgãos e desencadeia diversos efeitos. As hormonas são superpoderosas e acaba por ser uma especialidade. E essa é outra coisa que me atraiu na endocrinologia. Se a pessoa pensar em cardiologia, é coração, basicamente, coração, vasos. Se a pessoa pensar em pneumologia, é pulmões. Basicamente, estamos restritos a isso. Endocrinologia, uma vez que há mais de 50 hormonas e que cada hormona atua em às vezes mais de 10 órgãos, então toca em tudo. Eu acho que isso é superinteressante, que nós não afunilamos.
E de facto ocupa tudo na nossa vida, desde o aleitamento, como tu dizes, até à libido e ao metabolismo, à imensa coisa, ao crescimento.
Há poucas coisas que sejam só influenciadas ou só determinadas pelas hormonas, mas quase tudo tem um dedinho das hormonas. Por exemplo, a ereção no homem. Há muitas coisas importantes, há o estado espírito, há a inervação, ou seja, o sistema nervoso, mas as hormonas também, a testosterona, por exemplo, também é importante. Portanto, na maior parte dos órgãos e sistemas e das funcionalidades do nosso corpo, as hormonas influenciam, embora não sejam a única coisa a influenciar.
E por isso, isto é uma das coisas que te fascinou nas hormonas e que te fez ficar nesta área? Isto, de facto, é muito complexo e abrange quase tudo.
É isso.
Portanto, é uma espécie de medicina interna, mas interna do corpo.
Há muitos países em que inclusivamente a endocrinologia é como se fosse uma subespecialidade ou um ramo da medicina interna. E até faz sentido. E aliás, a nossa especialidade, o nosso primeiro ano de formação é medicina interna.
Pois é, tu disseste isso.
Exatamente, é mesmo medicina interna. Sim, é uma espécie de medicina interna, porque nós acabamos por ter de saber um bocadinho de tudo, porque isto toca em tudo. Uma pessoa com diabetes, já toda a gente ouviu falar, uma pessoa com diabetes tem risco maior de problemas de coração, de AVCs, de problemas de pés, problemas de rins.
Visão.
De visão, de retina. Nós temos de saber um bocadinho disto tudo.
Daí a ligação à medicina interna. De facto, têm que ser os supermédicos, têm que saber um bocadinho de tudo.
Eu acho que todas as especialidades, muito honestamente, para ser bom médico, não pode saber só do seu órgão. Existe uma tendência, eu acho, crescente, se calhar não só na medicina, do afunilamento e da hiperespecialização. Mas eu até acho, e se calhar é uma opinião que poderá ser um bocadinho controversa, que o facto de nós não afunilarmos, pelo menos demasiado cedo, é importante. Eu lembro-me de um livro que eu gostei muito, eu não me lembro quem escreveu, mas chama-se "Range", que o autor advoga um bocadinho isso e dá alguns exemplos. Um exemplo bom é o do Roger Federer, que é uma pessoa que hoje em dia é reconhecido como um dos maiores tenistas de sempre, mas que experimentou tudo. Aliás, penso que era a mãe dele que era tenista, mas ele fez questão de experimentar tudo. Ele passou pelo basquetebol, pelo vôlei, pelo futebol.
Antes dos desportes até se fixar no tênis.
Ele chegou acho que relativamente, ou ele estabilizou relativamente tarde no tênis. E há vários estudos a mostrar que isto não só não é contraproducente, como pode criar pessoas com capacidades únicas e tornar-nos, estranhamente, especiais, mas por termos passado em várias coisas e por não termos afunilado. Há a ideia, eu acho que é um bocadinho errada, de que nós para sermos especiais, para sermos únicos, temos que nos subespecializar rápido e sermos logo o melhor só numa área muito específica. Eu acho que não. Eu acho que para nós sermos especiais e sermos muito valiosos no mercado de trabalho ou mesmo na sociedade, é importante nós termos experiências em várias áreas, porque assim somos verdadeiramente únicos. Se calhar há poucos médicos endocrinologistas que tenham uma página do Instagram e se interessem por investimentos.
Que é um papel muito bom nisso, por causa do Instagram que tu tens, onde desmontas os mitos e dás conselhos às pessoas.
Exatamente.
E os livros que tu fazes, já é o segundo a falar também de hormonas.
Livros, eu não diria plural. Este aqui é o segundo em meu nome, mas o primeiro era mesmo uma coisa muito específica.
Muito técnica, da Lidl.
É muito técnico. Ninguém que esteja a ouvir este programa, que não seja médico, se lembre de comprar o meu primeiro livro, que vai ficar muito seduto ou então vai dormir muito bem, vai adormecer muito rapidamente.
"Range", este livro, porque é que os jornalistas triunfam no mundo especializado, deste o David Epstein. Mas é melhor não dizer muito para as pessoas não se assustarem. Dizemos só que é este livro, que é o "Range", que apetece ler isso. E por acaso, nem sei se está traduzido ou não para português.
Está, mas eu confesso que não me lembro e eu li em inglês, que eu prefiro ler os livros em inglês, sempre que possível.
Quais são os maiores avanços para ti, tenho um ou dois minutos antes do intervalo, destes um ou dois maiores avanços da endocrinologia e os desafios mais urgentes que tu achas que deviam acontecer?
Historicamente, e uma vez que eu acompanho muitas pessoas com diabetes tipo 1, não posso deixar de dizer-
É aquela mais difícil. 10% das pessoas é que têm, aqueles que vivem completamente dependentes das decisões. 300 decisões por dia, o que é que podem comer e medir as calorias.
É isso mesmo. A diabetes, na verdade, não é só uma doença. A diabetes são várias doenças.
É uma condição.
Exatamente. Os tipos de diabetes mais frequentes é a diabetes tipo 1 e a diabetes tipo 2. A diabetes tipo 1, só para simplificar, é a diabetes que consiste na falta de produção de insulina pelo pâncreas das pessoas que têm diabetes tipo 1.
Está numa prisão.
Basicamente, se as pessoas não fizerem insulina de acordo com o que estão a comer várias vezes ao dia, acabam por começar a ter consequências do mau controle da diabetes, que são aqueles problemas que estávamos a falar: do pé, dos olhos, cardiovasculares, por aí fora. Foi há cerca de 100 anos que foi descoberta a insulina. Portanto, até há cerca de 100 anos as pessoas com diabetes tipo 1 tinham uma esperança média de vida à volta de 30, 40 anos. Era inacreditável.
Ali, sim, um dos grandes avanços que fez toda a diferença.
Fez toda a diferença. Nós basicamente duplicamos a esperança média de vida de uma pessoa com diabetes tipo 1. As pessoas literalmente morriam muito novas. Portanto, essa descoberta é absolutamente marcante. Agora, se pudermos avançar, se calhar, até aos últimos 10 anos, houve uma invenção também na área da diabetes tipo 1, se calhar igualmente marcante, não, mas muito marcante também. Nós temos agora o que nós chamamos bombas de insulina. Só para dar aqui um contexto rápido, que eu tenho pouco tempo, mas antigamente o que as pessoas faziam era davam com uma injeção de insulina de cada vez que comiam, por exemplo. As bombas de insulina permitem que a pessoa tenha constantemente um pequeno cateter ligado à sua barriga, em que as pessoas não precisam de se injetar com nada.
É um auto-injetor? Vai metendo na pele.
Quase. Hoje em dia, nós temos bombas de insulina que nós chamamos sistemas integrados de insulina. O que é que faz? Elas comunicam com um sensor que mede os níveis de glicose no sangue da pessoa e automaticamente ajustam a libertação de insulina.
Então é aquela espécie de implante que se vê às vezes no braço.
Isso é parte do sistema. O sistema tem duas partes: o sensor, que é isso que estás a dizer, que mede a glicose.
Mete aqui no braço, no ombro.
Exatamente. E depois tem a bomba, que é o que liberta a insulina. Portanto, eles têm de comunicar os dois. Tem de haver um algoritmo, como é óbvio, para permitir este automatismo, mas isto deu uma grande autonomia e um bocadinho mais de qualidade de vida às pessoas com diabetes tipo 1. Portanto, destaco estes dois.
Muito bem, dois avanços. Francisco Sousa Santos, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com o Francisco Sousa Santos. Ele é médico, endocrinologista e autor deste "A culpa é das hormonas". Uma edição da Contraponto. Como se manifestam nas várias fases do mês, de que forma influenciam as nossas emoções, o impacto na fertilidade e na menopausa, como atuam na gestão do peso. No fundo, uma espécie de manual de instruções que o seu corpo não trouxe. Portanto, estamos a saber mais sobre estas curiosidades, sobre a insulina, sobre as várias hormonas. No fundo, já explicaste, Francisco, são mensageiros do nosso corpo. Ficámos a saber já que há mais de 50. As mais famosas ou as que estão mais na moda, talvez o cortisol, eu costumo dizer isso, o cortisol.
Cortisol, testosterona, estrogênios.
Estrogênio e progesterona são mais as das mulheres.
Sim.
A testosterona também é das mulheres, eu não sabia. Aprendi contigo.
A testosterona é fundamental para as mulheres e o estrogênio é fundamental para os homens.
Pensava que a testosterona era para os homens. Também não sabia. Pensava que a testosterona era aquilo de fazer crescer os pelos e a voz.
Nós fomos criados, fomos ensinados com esta dicotomia, que é estrogênio mulheres, testosterona homens.
Que é uma simplificação então rudimentar, básica.
Enfim, compreendo que se quisermos supersimplificar, podemos dizer isso, mas não é correto, porque estas hormonas são fundamentais em ambos os sexos. Por exemplo, vou começar pelo estrogênio nos homens e já volto à testosterona nas mulheres. O estrogênio nos homens, nós sabemos que é fundamental para a massa óssea, ou seja, toda a gente já ouviu falar de osteoporose. Osteoporose é quando começamos a ficar com os ossos mais fracos, aumenta o risco de fraturas, de partirmos ossos. Nós já sabemos que para prevenir a osteoporose, ou seja, para os ossos serem o mais forte possível no homem, é fundamental ter estrogênio. Um homem que não converta bem testosterona em estrogênio.
Converte-se uma na outra?
É que grande parte do estrogênio no homem é produzido a partir da testosterona. Esta é outra coisa que espanta as pessoas.
Outro mito.
Na verdade, é a testosterona que dá origem ao estrogênio.
Estás a ver como é que é tão fascinante este "A culpa"? É incrível.
O internato de endocrinologia, se quiseres, eu posso pôr uma cunha para entrar.
É extraordinário. E então?
Portanto, por exemplo, para isso é fundamental.
E disseste massa óssea, não massa muscular, é outra coisa diferente.
Não é massa muscular, embora também haja receptores no músculo de estrogênio. Depois outra coisa importante: para o desejo sexual. O estrogênio parece ser fundamental e há estudos em homens que têm uma mutação, que têm dificuldade em produzir estrogênio, que mostra que isto pode afetar o desejo sexual. E portanto, um homem que não tem esta capacidade de converter testosterona em estrogênio, que nós chamamos aromatização, tem mais probabilidade de ter problemas no desejo sexual. Agora passamos para a mulher. A mulher também produz testosterona. A mulher produz testosterona principalmente nos ovários, onde também são produzidos estrogênios, é verdade, e produz também testosterona noutro sítio que se chamam as suprarrenais. São uns órgãos que nós temos em cima do rim. Não tem absolutamente nada a ver com o rim em termos de funcionamento. As pessoas ouvem suprarrenais e pensam logo: "Mas eu bebo água, não sei o quê". Não tem nada a ver com o rim, é só a mesma geografia que tem a ver com o rim e daí o nome suprarrenal.
Está sobre os rins, é o que quer dizer.
Sobre os rins, exatamente.
Mas são órgãos que fazem o quê? É mesmo para produzir hormonas?
A suprarrenal só existe mesmo para produzir hormonas. Produz várias hormonas.
Como o pâncreas que faz insulina.
Exatamente. A suprarrenal produz uma data de hormonas diferentes, mas uma das que produz, no caso da mulher, é a testosterona. A testosterona, que na verdade é parte de uma família de hormonas que nós chamamos os androgênios, é também muito importante para a saúde sexual da mulher, a vários níveis. A nível do desejo sexual também, da libido, mas também mesmo a nível, por exemplo, da lubrificação e a nível genital para, por exemplo, não haver dores nas relações sexuais, parece ser importante a ação da testosterona e dos outros androgênios. Por isso é que nós, em alguns casos, não são todos os casos, mas em alguns casos, no pós-menopausa, que as mulheres têm problemas de libido muito baixa, além de estrogênios, eu vou sublinhar além de, às vezes utilizamos androgênios, ou seja, testosterona. E isso tem um efeito na libido muito bom e que ajuda muitas mulheres. Portanto, esta dicotomia tem de acabar e é uma boa mensagem para passar hoje também.
Muito bem. Qual é aquela curiosidade hormonal que mais surpreende quem a ouve pela primeira vez?Eu já estou muito surpreendido quatro ou cinco vezes desta conversa.
Eu por acaso é-
Eu conto aos pacientes e ficam todos: "Não me diga, senhor doutor."
Esta é uma boa, mas há outra, e agora continuando nas hormonas sexuais, e uma que eu falo no livro, é que nós temos muito a ideia de que o sexo com que nascemos, que é determinado pelos nossos cromossomas. Ou seja, homens são XY, eu acho que esta parte nem preciso aqui te explicar muito, já toda a gente deve ter ouvido, homens são XY, mulheres são XX. E, portanto, os homens nascem com pênis, porque são XY, as mulheres nascem com uma vagina, por aí fora.
Estamos a falar da diferença de desenvolvimento sexual. Porque existe, não é? Essa história intersexual, o Salvador Sobral queixava-se que não era, um exemplo que tu também acompanhaste.
Sim, exatamente. Não o acompanhei clinicamente, mas dei uma vez uma entrevista sobre isso. Nós, na realidade, mais do que os nossos cromossomas, importa que hormonas é que nós estamos expostos quando estamos ainda na barriga das nossas mães. Porque imaginando a seguinte situação: temos alguém que tem cromossoma XY. Portanto, em princípio, era para ser um homem.
Não é tão binário como a gente pensava.
Sim, mas era para ser uma pessoa com genitais masculinos. Temos casos em que, como não há uma produção conveniente de testosterona no meio uterino, ainda na vida embrionária, na verdade, os genitais seguem o outro caminho.
Portanto, pode ser XY e ter uma vagina?
Exatamente. No fundo, onde eu quero chegar é: nós, por defeito, se não tivermos hormona testosterona, seguimos o caminho feminino. Se nós, in utero-- e por isso é que alguns autores, e já ouvi várias pessoas a dizer, que por defeito nós estamos programados para o feminino, em termos genitais, que seja bem claro. Se alguém XY não tiver exposição à testosterona in utero, vai ter desenvolvimento, e eu acompanhei pessoas com estas diferenças no desenvolvimento sexual.
Esta questão que eu tinha ouvido dizer, Francisco, era que numa fase embrionária, todos temos os dois sexos obrigatoriamente e depois à medida que vamos evoluindo e crescendo, é binário, ou homem ou mulher. Mas então, nesse caso, pode ser XY e ter uma vagina.
Há uma fase muito precoce do desenvolvimento embrionário em que é algo indiferenciado e depois a partir daí, lá está, as coisas começam a seguir o caminho do desenvolvimento testicular, pênis, por aí fora, ou do útero, vagina, por aí fora. E aí as hormonas são determinantes.
Os que têm os dois, o chamado hermafrodita. Eu li uma coisa tua a dizer. Não, e tu hoje em dia estás atualizado, não se chama hermafrodita, é pejorativo, é considerado quase um monstro, é uma coisa pejorativa. Mas há pessoas com um órgão reprodutor que tem uma característica de testículo e ovário ao mesmo tempo, por exemplo, ovoteste, por exemplo, que se chama.
Sim, exatamente. E isso depende muito.
Ou umbrella, umbrella é o quê? Os médicos falam do umbrella, um conceito que abrange estas diferentes variações.
O termo umbrella, da diferença do desenvolvimento sexual, é um termo umbrella para várias coisas. Podemos ter uma pessoa que tem uma característica de genital feminina, outra característica masculina. Podemos ter uma pessoa que apesar de ter cromossomas masculinos, tem um desenvolvimento genital feminino. Para todas as situações que não seguem o caminho habitual, digamos assim, nós chamamos uma diferença ou uma alteração do desenvolvimento sexual, que antigamente era muito patologizado, ou seja, era considerado muito uma doença. Hoje em dia nós não consideramos tanto uma doença, daí o nome ter mudado.
É mais uma variação ou uma condição, como vocês chamam.
Exatamente, uma condição, uma variação daquilo que é uma fisiologia, no fundo, que é menos habitual, porque muitas destas pessoas podem levar uma vida completamente normal, em termos de esperança média de vida, em termos de outras doenças.
Sim, tu até explicaste que há quem viva sem detectar. E um artigo teu falava disso.
Há pessoas que descobrem muito tarde, inclusivamente.
Quando é 1% a 2% da população mundial, é uma coisa muito grande.
Exatamente. Eu tenho pessoas que eu acompanhei, por exemplo, com XY, portanto com cromossomas masculinos, mas que sempre tiveram tudo características fisicamente femininas, e portanto só descobriram que cromossomicamente eram XY com 30 e tais. E é uma mulher, para todos os efeitos é uma mulher, os cromossomas são só os cromossomas. Portanto, é importante esta mensagem também, que é estas diferenças do desenvolvimento sexual, nós hoje em dia não consideramos doenças, porque, na verdade, a pessoa pode ter uma vida perfeitamente saudável e normal, desde que tenha um tratamento adequado e um acompanhamento adequado.
Muito bem. É curioso a frase que eu queria dizer, que são as hormonas. Achas que o estresse moderno está mesmo a desregular as nossas hormonas ou isto é um exagero?
Não é um exagero. Há muita coisa da vida moderna que está a afetar a nossa produção, sensibilidade hormonal, começando por uma coisa também muito falada, que são os disruptores endócrinos, que são substâncias, coisas que estão à nossa volta. Por exemplo, eu tenho aqui uma garrafa à minha frente. Esta não é de plástico, é de vidro, mas as garrafas de plástico têm substâncias, como por exemplo os ftalatos, e em vários objetos de plástico, nós sabemos que são disruptores endócrinos. O que isso quer dizer, ser um disruptor endócrino? Quer dizer que altera a produção de várias hormonas. E não é só uma, as hormonas sexuais, por acaso, são bons exemplos disso, mas não é só uma. Há estudos, inclusivamente, há um estudo muito interessante a mostrar, ou alguns estudos a mostrar que, por exemplo, usar o telemóvel no bolso da frente das calças para o homem, que pode afetar a produção de espermatozoides ou mesmo testosterona. Depois, há muitas coisas, hábitos, e aqui é incontornável falarmos dos alimentos ultraprocessados, que nós sabemos que são alimentos hipercalóricos e têm outros problemas além disso, que, principalmente ao fazermos aumentar muito de peso e levar a quadros de obesidade, vão alterar a resistência à insulina, vão alterar a produção de testosterona, vão alterar a produção de muitas outras hormonas.Todo o nosso estilo de vida moderno é pouco saudável para as hormonas, se é que eu posso assim dizer. As hormonas eu diria que são só mais umas a sofrer, porque são pouco saudáveis para as nossas articulações, este estilo de vida é pouco saudável para o nosso coração, para os nossos pulmões. As hormonas são só mais umas a sofrer.
Uma coisa que tu também dizias que era a questão da obesidade. Claro que quando se fala muito de obesidade, fala-se de um problema endocrinológico, normalmente. E tu dizias: "o nosso corpo resiste a perder peso", porque em milênios de afinação da nossa condição física, fomos programados para continuar a ganhar energia, portanto continuar a comer para ganhar energia.
Eu gosto muito de darwinismo.
Desde mil anos atrás.
E eu gosto muito. Uma das coisas que me atraiu à medicina é que quase tudo o que nós somos hoje tem uma explicação na nossa evolução. E eu gosto muito de explicar isto às pessoas para toda a gente perceber que não são loucas nem estão estragadas porque têm dificuldades em perder peso. Porque a realidade, e é isso que eu falo no livro um bocadinho mais extensamente, é que a humanidade evoluiu ao longo de milhares de anos. E o estilo de vida que levamos hoje não era o estilo de vida que levávamos há milhares de anos atrás. Há milhares de anos atrás nós não tínhamos facilidades em comer de três em três horas. Há milhares de anos atrás, nós muitas vezes passávamos semanas sem conseguir ter acesso à comida.
Uma carne, uma coisa assim.
O que é que o tal darwinismo e a evolução levou a que o corpo desenvolvesse formas de suportar muito tempo sem comer. Então o corpo especializou-se em quê? Em ser eficaz a ter reservas de energia. Basicamente para nós, quando depois não tivéssemos acesso à comida, podermos ir buscar às reservas. Portanto, o corpo evoluiu e foi treinado ao longo de milhares de anos para dificultar a perda de peso, porque o corpo não quer gastar as reservas. Um corpo que gasta rapidamente as reservas e com facilidade gasta as reservas, é um corpo que não vai aguentar semanas sem comer. O problema é que o mundo que nós vivemos hoje é totalmente diferente do mundo das cavernas, se é que eu posso dizer isso. Hoje em dia nós não temos escassez, que é uma época, há países.
Uma quiosque em cada esquina.
Nós não só não temos escassez de alimentos em basicamente nenhuma circunstância, como temos o contrário, que é termos cada vez mais alimentos hipercalóricos. Portanto, uma coisa que evolutivamente foi boa para a humanidade até prosperar e enquanto espécie, ser a espécie dominante do nosso planeta, neste momento, na verdade, está a atuar contra nós, porque nós temos um metabolismo de há milhares de anos, mas nós temos um estilo de vida que não tem nada a ver com milhares de anos. Portanto, nós estamos programados e nós estamos equipados para um estilo de vida que nós não levamos.
E gosto muito do teu bom senso que dizes. E depois também estamos atrás daqueles mitos do corpo perfeito, e não sei o quê, e tudo mais, o que também às vezes é uma causa de falta de saúde. As pessoas vão atrás, até mental, que a pessoa devia, se calhar, ver um psicólogo antes.
Não, e aliás, hoje em dia o corpo-
Não vale a pena fazer aquela dieta brutal ou tomar Ozempic ou o que for.
Claro, e nós hoje em dia, uma coisa que eu digo principalmente em relação, por exemplo, no sexo masculino, em relação a pessoas que procuram um corpo muito muscular, e que eu digo muitas vezes, é que o nosso ideal de corpo, neste momento, para muitos homens, na verdade, nem sequer é um corpo saudável. Um corpo muito hipertrófico e muito muscularizado, muitas vezes nem é o corpo mais saudável. Eu acho que nós hoje, muitas vezes, usamos esta imagem ou procuramos esta imagem muscular mais por um símbolo de estatuto, de poder, de vantagem social, se é que eu posso dizer isso.
Impressionar os outros, seduzir meninas.
Exatamente. Mas na realidade, nós estamos a ter corpos hipermusculares que muitas vezes são produzidos artificialmente, com recurso a hormonas anabolizantes que têm riscos, que é outra coisa que eu também falo. E isto, na verdade, o irônico é que nós hoje em dia estamos à procura de um corpo ideal que neste momento já não é saudável. No caso, por exemplo, do masculino. E mesmo no caso das mulheres, temos cada vez mais mulheres, mesmo a irem à minha consulta, porque procuram ajuda para perder peso. E às vezes não têm excesso de peso, não têm excesso de peso em critérios nenhuns. Temos várias formas de avaliar se uma pessoa tem excesso de peso ou de massa gorda ou não. Mas há mulheres que não têm critérios nenhuns, mas procuram um corpo ainda mais magro. E muitas vezes, isso, nós enquanto médicos, eu não posso dizer que sim, porque na verdade eu não estou a contribuir para a saúde da pessoa. Até posso estar a contribuir para problemas de autoimagem e a alimentar problemas de autoimagem. Portanto, aí um psicólogo, por exemplo, é muito importante.
O teu papel é ajudar as pessoas, e como tu dizes, eu fiz um julgamento para ajudar as pessoas. Dá para induzi-las ou naquelas novas medicinas, que não são medicinas, anti-aging, que eu sei que é uma das tuas pedras no sapato, e que faz para manter o nível deste programa, não vais falar muito disso.
Não vou falar muito disso.
Mas é uma outra bizice que as pessoas vão atrás e assim por diante, com a pretensa de ser uma coisa científica, mas que não é, e que às vezes induz as pessoas em erro.
Alguns casos, sim. Eu não gosto de generalizar, porque imagino e tenho a certeza que alguns colegas que praticam estas consultas o farão de forma diferente. Mas há muitas consultas com estes termos de anti-aging, que eu sei perfeitamente que é uma medicina que é praticada, que não é baseada na evidência, e é uma medicina que é praticada, que é quase como disparar tipo metralhadora, de pedir exames indiscriminadamente.
Por elevado preço, como tu dizes, e as pessoas só porque uma consulta custa 500 € ou 1.000 €, acham que é uma coisa muito séria. E isso é um engano, não é?
Eu acho que tanto o nome em inglês como os próprios preços.
O ser o nome em inglês é ativamento à palavra primeiro.
Exatamente. De certa forma que devem impressionar as pessoas e puxá-las mais para isso. Isso e nós termos, enquanto espécie, não diria uma obsessão, mas um interesse muito grandeem fugir ao envelhecimento e temos medo do envelhecimento. Eu conto sempre uma história muito interessante em relação a esta procura pela juventude eterna, que é um cientista que era médico, Brown-Séquard, um cientista francês, penso eu, que era obcecado com a juventude eterna. E ele queria descobrir de onde é que vinha a juventude ou o que é que podia fazer para se manter jovem. E uma das coisas que ele pensou é que o segredo para a juventude está nos testículos. E começou a arranjar forma de implantar testículos em si. Na altura, ainda não tinha sido descoberta a testosterona.
Pois, estamos nos anos 30 do século passado.
Ele simplesmente achava que era o testículo. "Portanto, tenho que arranjar uma forma de meter-me para aqui para dentro o testículo". E começou a fazer várias coisas. Primeiro, começou a pegar em testículos e a tritura-los e a injetar-se. Depois, começou a pegar em testículos de animais e a pô-los dentro da barriga, digamos assim. E penso que já não foi Brown-Séquard, acho que já foi mais à frente, prisioneiros, não sei se estavam no corredor da morte ou se estavam simplesmente em prisões.
Ou já mortos.
E pessoas já mortas.
Fazia o quê? Batido?
Não, por exemplo, ele tirava testículos de prisioneiros. Não sei se era ele, eu acho que era o Brown-Séquard. Mas pegavam em testículos de prisioneiros e implantavam na própria barriga. Eu penso que, inclusivamente, acho que foi o Sigmund Freud.
Era por injeção intramuscular?
Era intra-abdominal. Mas era o testículo inteiro, atenção, eu não estou a falar em injetável. Eu estou a falar de uma transplantação de um testículo.
Se deu resultado, era placebo.
Exatamente. Na altura, achou-se, porque como é óbvio, o efeito placebo é muito grande e houve várias pessoas que diziam que se sentiam bem, outras tantas que morreram porque depois desenvolveram infeções, porque isto é tudo menos seguro, como é evidente. Mas depois, mais tarde, percebeu-se que esta transplantação, na verdade, não funcionava, porque depois este tecido testicular novo não sobrevivia, ou seja, basicamente ele morria. Portanto, as pessoas sentiam-se bem, não era por causa disso, porque aquilo tinha morrido. Mas isto para mostrar ao ponto que as pessoas foram historicamente para procurar a juventude. Eu acho que isto é só mais um passo, digamos assim.
Muito bem. Eu já sabia que isto ia acontecer. Vou ao nosso tempo, eu estava há quatro programas a falar contigo, Francisco Sousa Santos.
Eu posso voltar.
Não, eu vou voltar com certeza, porque isto são muitos tempos que era preciso falar. Por exemplo, aprendi contigo que falas muito de diabetes, que é muito importante, e as diferenças entre um e dois, e se é reversível ou não, que não se trata, mas pode-se controlar. E às vezes é reversível, sim, há pessoas que se injetam e que podem deixar de se injetar quando é o tipo dois. A questão da andropausa, tu para ti dizes não existe. A menopausa sim.
O termo não é feliz. Há alterações da testosterona com o envelhecimento, mas andropausa não é feliz. Quem quiser saber mais, pode comprar o livro.
É o que eu estou a dizer. Eu ia-te perguntar outras coisas sobre os açúcares e as diabetes, a frutose também conta, este género de coisas. Obesidade, falas aqui muito e é muito importante. Hormonas de crescimento.
Dois terços do país tem excesso de peso ou obesidade. As pessoas tenham este número.
Esteroides anabolizantes, que usam muito os desportistas e que são abusados muito abusivamente, obviamente. E coisas que estás falando, também até da creatina falas. Não é uma hormona, mas faz bem sim. As injeções para perda de peso e este problema todo que dá, os riscos e os benefícios. Falas disso, dos efeitos na libido, as terapias hormonais de mudança de sexo também é outro tema importante. Só isso merece outro programa.
E ainda por cima, numa altura em que se está a falar muito disso, há projetos de lei sobre isso.
Por causa disso vais cá voltar, porque para mim também é um tema importante e acho que, como tu dizes, se está cada vez mais na berra a falar disso e está muito na ordem do dia. Francisco Sousa Santos, quero agradecer muito a tua disponibilidade. Já sabem, deste médico endocrinologista, "A culpa é das hormonas", uma edição da Contraponto a não perder. Bem-hajás, Francisco, até breve.
Muito obrigado pelo convite.