Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Profissão do pai: caçador de tempestades. É assim que o filho de Bruno Gonçalves deve responder quando lhe perguntam a ocupação do pai, um engenheiro do ambiente e fotógrafo algarvio, que em criança temia as tempestades e agora as persegue. A busca de eventos extremos, que estão a aumentar no planeta, levou-o há um mês ao vulcão Cumbre Vieja e por três vezes ao corredor dos tornados nos Estados Unidos. A primeira tempestade gigantesca que ali existiu impressionou-o de tal maneira que a fotografou, filmou e tatuou. Para a família, para os amigos, é o maluquinho das tempestades. Ele ri-se e persegue a sua paixão, que até já lhe tem valido reconhecimento internacional. Olá, Bruno, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite, diretamente de Silves. Bem-vindo ao Observador.

Olá, boa noite. Como está? Tudo bem?

É um prazer estar aqui contigo. Eu começo, Bruno, com esta frase, que talvez está num dos teus filmes, do Barack Obama, que diz: "Política, diferenças de religião e raça, tudo se esfuma quando somos confrontados com o espantoso poder da natureza e nos lembramos que só nos temos a nós próprios". É uma frase importante, sobretudo pra ti, que és um apaixonado desde pequeno pela observação dos céus e das tempestades. Como é que nasceu este gosto? Vamos começar por aquela cena onde estavas escondido debaixo dos lençóis. Conta lá.

Praticamente foi mais ou menos isso. Começou com o tal medo, em pequeno, com uma trovoada mais intensa. Na altura, eu morava em Lagoa, portanto, aqui perto de Silves. Numa noite daquelas de trovoadas fortes, como eram mais frequentes aqui, agora já não são tão frequentes. Na altura, atemo-nos escondido debaixo dos lençóis.

Tinhas o quê? Oito anos, nove anos, por aí?

Sim, por volta disso. Mas ficou ali aquele bichinho, aquela curiosidade: "Mas o que é que se passa ali fora? Por que este caos todo, este barulho todo? O que é que se passa?" E a partir daí, fui começando aos poucos, na trovoada seguinte, já me assomei à janela, já fui ver o que se passava, tentar ver sem ter muitos medos. E a coisa foi evoluindo assim. Fui vendo cada vez durante mais tempo e fui percebendo um bocadinho mais do que se ia ali passando. E a paixão foi crescente.

Acabaste depois por tirar o curso de Engenharia do Ambiente e aí tiveste cadeiras de meteorologia, aprofundaste os conhecimentos e também ficaste fascinado com isso, porque, no fundo, estavas a testemunhar a física em ação no planeta, certo?

Exatamente, porque acaba por ser muito interessante toda aquela parte teórica que se dá nas cadeiras de Meteorologia, que tem a ver com a física da atmosfera. Depois, colocarmos isso no campo, em prática e ver tudo acontecer à frente dos nossos olhos, é completamente deslumbrante.

No site que tu criaste, apesar de o teres criado, se não me engano, só em 2012 ou 2013, já tens fotografias de 2007, 2008. Já fazias os teus chamados "registos algarvios" para estudar. Até que em 2012 houve um tornado EF3 na tua zona. Conta lá isto.

Exatamente. Foi em novembro de 2012, o famoso tornado Lagoa Silves, que começou ali no mar, entrou no Conselho de Lagoa e veio até aqui a Silves. Passou aqui a cerca de 200, 300 metros da minha casa. Para quem gosta disto, também assusta um bocado, obviamente.

Sim, claro.

E foi a partir daí que o interesse ainda aumentou mais, portanto, ainda quis aprofundar mais os conhecimentos.

Diz uma coisa, Bruno. Tu disseste que começou no mar e avançou pela terra adentro. Explica-me lá a diferença. Eu chegava que um tornado ou um furacão, não sei se é a mesma coisa, que começa no mar, seria um tufão. E quando entra por terra, dissipa-se. Não tenho a certeza disso, mas explica lá então as diferenças.

São coisas diferentes. Se estivermos a falar de tufão, é no oceano Índico aquilo que é o furacão para o Oceano Atlântico. São sistemas convectivos ou sistemas de trovoadas com um diâmetro enorme, na ordem das centenas de quilómetros.

Sim, que se vê do espaço. Tem aquela imagem.

Exatamente. Abrange uma área muito grande e quando se formam os chamados furacões, até se vê o chamado olho do furacão, aquela parte central do furacão. E os furacões, isso sim, formam-se sobre a água, necessitam de água quente à superfície, a partir dos 26 graus é quando eles se formam. E a partir do momento em que eles passam ali no Golfo do México, naquela zona estrófica.

Sim, é onde há mais. Exatamente.

Quando ganham maior intensidade. E esses, sim, quando entram em terra, o combustível deles, que é a umidade no ar.

Dissipa-se.

Provém ali do oceano, que o está a alimentar. Quando entram em terra, esse combustível é cortado e os furacões então começam a dissipar-se, a perder intensidade, passam a tempestade tropical e acabam por se dissipar. O tornado é um fenômeno completamente diferente, que é gerado numa nuvem trovoada e mais intensa, chamada supercélula, que abrange poucos quilómetros. Pode ter uma área de influência de cinco, 10 quilómetros, não muito mais que isso.

A questão do rodar tem a ver com movimentos de convecção, com a rotação da Terra, tem a ver com o quê? Se é uma coisa que começa a dar a volta, a gente que vê os teus timelapses, começa a ver aquelas nuvens começarem a rodar.

Tem a ver com os fenômenos de convecção, ou seja, das correntes ascendentes. E tem a ver também com as diferenças de velocidade e/ou intensidade do vento à medida que subimos na atmosfera. Ou seja, podemos ter ventos à superfície de sudeste, por exemplo, e à medida que vamos subindo, esse vento vai rodando, por exemplo, para oeste. E as correntes ascendentes, complementadas com essa mudança de direção e/ou velocidade do vento, que é o chamado wind shear, em inglês, pode provocar Que as correntes ascendentes ganhem rotação. É então aí que uma normal trovoada ou uma nuvem chamada cumulonimbus.

São as mais perigosas, são aquelas que os aviões evitam e que contornam.

Exatamente.

Lembro-me de ver isso.

Nós aqui em Portugal, normalmente as correntes ascendentes não têm rotação, nos Estados Unidos, onde temos maiores condições do chamado wind shear, quando elas ganham a tal rotação na corrente ascendente é quando passam supercélula, ganham uma intensidade muito maior e podem prolongar-se durante várias horas. E essas, então, é que podem originar os tornados. E abrangem só aquele raizinho, o funil do tornado.

Exatamente. É monstruosa de energia, é uma coisa assustadora ver ao pé, como tu vais ver. Isto é mais do que uma coisa de malucos, Bruno. O que se aprende? Para que serve? Toma alguma consciência? Ajuda às previsões de prevenção? Para que serve caçar tempestades?

Aquilo que eu faço, basicamente, acaba por não ter um grande interesse científico, porque eu tiro fotografias e faço vídeos. No entanto, temos um grande número de caçadores de tempestades ou de observadores meteorológicos, nomeadamente nos Estados Unidos, e aí, sim, tem um papel extremamente importante. Nos Estados Unidos, as pessoas sabem disso, se calhar aqui na Europa, não tanto. Tem um papel muito importante, por quê? Porque os meteorologistas fazem as previsões e preveem que podem haver condições propícias à formação de trovoadas mais severas ou à formação de supercélulas em dado local. Depois, as imagens de satélite e as imagens de radar, dão-nos a imagem do que está a passar em tempo real. No entanto, principalmente as imagens de radar, têm algumas limitações técnicas e não conseguem mostrar aquilo que se passa nas primeiras centenas de metros acima do solo.

Ok.

Pode estar um tornado já formado, mas a imagem de radar não consegue mostrar isso.

Ok.

Tem aqui questões técnicas que levava também algum tempo a explicar.

Aí então é o vosso papel. E é importante, claro.

Exatamente. Os observadores meteorológicos ou caçadores de tempestades têm este papel muito importante, porque estão no terreno e transmitem aquilo que se chama a verdade no terreno aos meteorologistas. Assim que veem um tornado a formar-se, transmitem isso imediatamente ao Centro de Meteorologia lá dos Estados Unidos, e é a partir dessa informação que eles emitem depois os avisos de tornado, por exemplo.

É por isso que há tão famosos caçadores de tempestades que estão ligados ao Weather National Center, aí sim, nos Estados Unidos, ao nosso IPMA, no fundo, que vocês também visitam quando fazem essas viagens, certo?

Exatamente. Eles próprios têm formações, têm certificações de observadores meteorológicos. É tudo muito evoluído ali nos Estados Unidos.

Muito bem, estava agora a pensar. Há uma história nesta tua atividade, Bruno. O que há assim de tão fascinante? É a magia desta observação? É a adrenalina? É o medo do desconhecido? É tudo isto um bocadinho? O que te move em primeiro lugar?

Já me fizeram essa pergunta várias vezes e fico sempre quase sem palavras para conseguir responder. É um misto de sensações, é o estar ali frente a frente à natureza, à força da natureza, ao sentirmos completamente pequeninos relativamente ao que a natureza é capaz de proporcionar e de fazer.

Tal como disse o Obama, não é? É essa a ideia.

Exatamente. São fenômenos que têm uma energia associada, que acarretam também alguma adrenalina à mistura, mas que a mim, e se calhar ao contrário do que se possa pensar, proporcionam também momentos de paz e tranquilidade. Temos aqui um contrassenso.

Exato. Incrível.

Mas eu quando estou a fotografar, em pleno campo aberto, e observar aquelas formações a formar-se perante os olhos, transmite-me muita paz, muita serenidade e dá-me uma completa paz. Associa-se à paixão que tenho por tudo isto.

Ao mesmo tempo, vendo esta parte bela, que também é uma coisa fascinante do belo, como um grande incêndio. Também tem esta parte estética, não é? Mas ao mesmo tempo, ao veres vacas a voar e automóveis a voar e telhados, também há um grande potencial de destruição. Como é que entra nesta equação?

É a parte ambígua desta equação, porque tudo o que é belo, nomeadamente tudo que é relacionado com esses fenômenos da natureza, tem sempre uma parte mais negra, digamos assim, que poderá estar associada, que é a destruição que pode causar. Estes tornados ou estas supercélulas, ainda que não formem um tornado, podem ter granizo de grandes dimensões associado, que causa destruição em vastas áreas. Podem ter rajadas de vento também muito fortes, ainda que não seja do próprio tornado. O vulcão, por exemplo, onde estive agora há um mês, aquelas imagens, e foi a primeira vez que vi um vulcão em erupção, são imagens verdadeiramente impressionantes, mas ao mesmo tempo, e no vídeo timelapse tenho imagens dessas, tenho imagens da própria lava a escoar pela encosta abaixo e a passar por cima das casas e a destruir as casas.

Exatamente.

É algo que nos deixa a pensar que, de facto, a natureza, se quiser, apaga-nos aqui da face da Terra em minutos.

Somos muito pequeninos.

Exatamente.

É engraçado, porque tudo isto tem uma história também. No teu site, tens um site muito bem feito, e fica já aqui esta publicidade, este site Extrema Atmosfera, tudo junto, onde falas essa história, desde o Aristóteles, o primeiro livro de meteorologia, certo?

Exato.

Há quase 2.400 anos, Aristóteles neste livro "Meteorologica", e depois o naturalista Curto, no século IX, e depois em Portugal, parece que há 270 anos, houve um médico na Madeira, não é? Que foram os primeiros registos

Exatamente.

Este Thomas é no Funchal. Os primeiros registos têm 270 anos em Portugal. Muitos fenómenos já têm uma explicação na ciência, mas ainda há muitos segredos pra desvendar, como por exemplo?

A questão dos tornados.

Onde aparecem, por que aparecem e pra onde é que vão?

Por que muitas supercélulas, aliás, ao contrário, por que muito poucas supercélulas é que formam um tornado? Porque a meteorologia já consegue explicar muito bem como é que se forma a supercélula, como é que se forma uma trovoada, uma célula convectiva. Isso já está tudo mais ou menos muito bem explicado. Agora, aquele pequeno clique que passa de termos uma supercélula muito intensa formada e de passar dali pra formação do tornado e o funil passar para o chão.

Ah, porque uma supercélula pode não gerar um tornado?

Eu diria que 95% das supercélulas não formam tornados.

Ok. E aqueles complexos gigantes, vejo nos filmes, umas coisas negras enormes que estão a rodar, já, vê-se aquilo em movimento, ia crescer e ia ficar cada vez mais negro.

Exato, podem não formar tornado.

Com relâmpagos embaixo e lá em cima, impressionante.

É esse o segredo.

Ah, não sabia. Achava que gerava sempre. Ok.

Não.

Há um clique pra passar à chamada trovoada severa ou aviso de tornado, são coisas diferentes.

Nos Estados Unidos, num dia podemos ter dezenas de supercélulas.

Ok, ativas.

Ativas, em poucas horas. Se todas formassem tornados, mal era para os Estados Unidos.

Sim, todo aquele Midwest era corrido do mapa, então.

Há este pequeno segredo da atmosfera, que ainda não está revelado aos meteorologistas, que é o que forma exatamente, qual é o clique que faz formar-se ali o tornado.

Se calhar ainda vais ser tu, com os teus filmes e os teus estudos. Boa sorte lá, Bruno. Filmar e fotografar. Portanto, em 2009 compraste uma máquina fotográfica, tua primeira máquina, e passaste então a registrar estes fenômenos. Das coisas que tu preferes são os relâmpagos, ficamos a saber. O equipamento que usas, além da vulgar Nikon que tu tens, a tua câmera fotográfica, o tripé é obrigatório. E este DSLR é o quê?

DSLR é uma máquina digital.

Mas também é uma máquina fotográfica, é isso?

É uma máquina fotográfica, sim, normal. É o nome técnico da máquina fotográfica, que se pode mudar de objetivas. Portanto, é uma máquina fotográfica normal.

Muito bem. A tua missão é um pouquinho partilhar, não vais só pelo teu gozo próprio, gostas de partilhar, proporcionar a outras pessoas o que sentes.

Sim, claro.

É incrível.

Pra além de ver tudo aquilo em frente aos meus olhos, gosto também de registrar e poder mostrar às pessoas que não podem ou que têm medo.

Fica aqui esta dica, o seu Facebook, Twitter, YouTube, Bruno Gonçalves, ou então o brunogoncalves_storms, é o teu Instagram, onde aí as pessoas podem ver e ficarem maravilhados com esses seus filmes que vais fazendo. Também neste momento, já agora aproveitar, este sábado teria uma exposição tua, "Atmos, o lado mais intenso, mas belo da atmosfera", uma exposição que está ocorrendo na Galeria 118 em Alpiarça, vai ficar lá até dia 30 de dezembro. Se está aqui na zona centro, aproveite e não perca esta exposição com imagens feitas pelo Bruno Gonçalves. Este site, criado em 2012, tem o poder da atmosfera captado em imagens. Faz também esta técnica curiosa do time lapse, que no fundo tiras milhares de fotografias e depois faz uma decalagem de uns segundos entre cada uma, programas a máquina pra fazer isso, não? Ela vai tirando tchak, tchak, tchak. E depois junta tudo e acelera o tempo real.

Exatamente. Isso do time lapse consiste em tirar fotos consecutivas, nesta parte da atmosfera e das nuvens, normalmente com um a dois segundos de intervalo para conseguir uma maior fluidez. E depois, esses milhares de fotos vão traduzir-se em vídeo de que forma? No normal vídeo, nós costumamos chamar os frames por segundo.

Exatamente.

Um vídeo normal tem 25 frames por segundo ou, por exemplo, 30 frames por segundo, que é o que eu costumo utilizar também no time lapse. Portanto, cada 25 fotografias que eu tiro, ou cada 30, posso resumir num segundo de vídeo.

Exato. Portanto, tu juntas num vídeo de 25 ou 30 frames por segundo. E por exemplo, tens estes filmes que são, faz de conta, no caminho dos tornados, ou tens estes do Cumbre Vieja, que fizeste agora no vulcão. Podem ter 4 mil ou 6 mil, ou cinco minutos, que são 18 mil fotos no Atmos, por exemplo. Cinco minutos de filme, que são 18 mil fotografias com essa técnica.

Tem que ser todas editadas, todas tratadas.

Pois, dá muito trabalho, é impressionante.

É um trabalho muito moroso. O Atmos, posso dizer que demorou cerca de um mês e meio a dois meses a ser produzido.

Edição de imagem. Exatamente, a qualidade custa tempo. Tu fotografas sempre neste formato negativo digital, neste RAW, que garante os melhores resultados na pós-produção. Muito bem, tu não perdes essa questão técnica, que é muito importante, e daí também já teres sido várias vezes premiado.

Tentar garantir a melhor qualidade possível, de forma a transmitir aquilo que eu estou a ver da forma mais fidedigna possível.

Já foste aos Estados Unidos uma vez, desde 2015, que foste então a este Tornado Alley, este corredor dos tornados no Midwest. Três semanas, em 2015, a vivenciar estas tempestades. Resultaram estes três episódios "No Caminho dos Tornados", um documentário pioneiro que foi cá. Tem ideia de editar um livro, isto está a ir pra frente ou não?

Está nos planos.

Estavas. O que é que vos falta? Uma editora interessada? Ou se calhar tem que ser edição de autor. Às vezes, quando são essas coisas muito fotografia, nem sempre é fácil encontrar uma editora.

É um caminho que está a ser feito, está a ser trilhado, e está nos planos de eventualmente poder editar um livro de fotografia das tempestades.

Sim, porque realmente vendo no vosso site, está muito bem construído, tem fotografias impressionantes e isso era um belíssimo coffee table book, obviamente. Esta Troposfera, a Associação Portuguesa de Meteorologia Amadora, tu estás na direção disto, são os que te acompanham, que organizam estes passeios ou estas idas ao Midwest, por exemplo?

A Troposfera neste momento já não existe. A Troposfera foi uma associação criada na altura por mim e por mais outros amigos que gostávamos, cá em Portugal, destas questões do tempo severo e das tempestades.

Aqui fazemos então homenagem ao Saúl Monteiro, ao Miguel Pereira, ao Artur Neves, ao Henrique Santos, pessoas que já partilharam contigo umas belas caçadas.

Também. O Alfredo Calado também esteve envolvido, o André Silva, outras pessoas estiveram envolvidas na questão da associação. Um dos objetivos da associação foi também conseguirmos organizar essa viagem, na altura, a primeira em 2015, e irmos aos Estados Unidos experimentar aquela experiência do tornado Alley.

Incrível.

E que levou-nos também lá depois em 2018, novamente, ainda enquanto Troposfera.

Exatamente.

E com estes elementos. E conseguimos fazer dois documentários. Aliás, em 2018 foi um documentário depois mais comprido.

Estiveram lá um mês, em 2018 estiveram lá um mês inteiro, não é?

Sim, teve locução do Eduardo Rego, a famosa voz da BBC, muito saudosa. E fomos esses dois primeiros anos e em 2019-

Aí já foste sozinho, integraste outra excursão, certo?

Por questões de vida pessoal, os meus amigos aqui de Portugal não puderam ir esse ano. E aí integrei uma tour do Michael Olbinski, um famoso fotógrafo e timelapser dos Estados Unidos, também já com o objetivo de ir aprender um pouco mais com ele, não só na parte das previsões, mas também na parte da fotografia e do próprio timelapse. Foi uma experiência extremamente enriquecedora.

Também foi pra tu tomares contacto, aprenderes e te formares. Ajudou nisso.

Nas duas primeiras vezes, nós fomos lá por nossa conta, enquanto grupo de portugueses. Fazíamos nós as previsões e viajamos ali por todo o interior dos Estados Unidos por nossa conta. Esta teve um objetivo um bocadinho diferente, que foi mais de aprendizagem e de enriquecimento de tudo isto.

Foi nesta ida em 2019, tu tens uma outra situação mais perigosa. Já no tornado Alley, perseguiste a tua primeira tempestade, ao pé de Oklahoma, e foi uma coisa que nunca mais esqueceste.

É verdade.

Mas esta em 2019 com o Michael Olbinski, então assististe esta supercélula imperial Nebraska. Esta foi a tal que até te levou à tatuagem. Tu tatuaste esta tempestade no teu corpo.

É verdade.

É impressionante, porque foi uma coisa realmente que a ti, e não só, todos que estavam contigo já experimentados nisto, mas que tal a escala e o tamanho que ficaram também todos...

Foi, de facto, uma supercélula com uma estrutura muito fotogénica, com uma estrutura espetacular, e os próprios caçadores mais experientes disseram que era uma das melhores estruturas que tinham visto durante toda a sua vida.

E tu testemunhaste isso, claro, incrível. E com um guia por excelência, o Olbinski deve ser um dos mais conhecidos.

Logo no primeiro dia de caçada da tour. Foram várias horas atrás de supercélulas e que culminou com a supercélula.

Primeira milha para os pardais, diriam os teus rivais, os teus colegas.

Eu até diria antes, porque eu, nessa experiência, no dia antes do início da tour, eu aterrei em Denver às 15h30. Fui pôr as malas no hotel, fui comer uma pizza com o resto dos colegas que estavam lá, que iam integrar a tour no dia a seguir. Ainda sem o Michael Olbinski, fomos caçar uma tempestade ali a sul de Denver e às 17h30 tínhamos um tornado pequeno à nossa frente.

Realmente.

Foi uma experiência espetacular.

Mas também pelo preço que pagaram, de certeza que era o mínimo.

Claro.

A tua mulher, o teu filho, os teus pais ainda não aceitam que tu sejas o maluquinho das tempestades. É difícil convencê-los ou agora com estes filmes, os timelapses, com os prémios que tens recebido, uma série deles, só este Atmos já te deu quatro ou cinco prémios em festivais, em sítios desses, e as entrevistas da National Geographic. Agora eles já aceitam mais e já acham piada, ou ainda têm esse medo?

Aqui em casa, a minha mulher e o meu filho, sempre me apoiaram e sempre acreditaram nisto e sempre me apoiaram 100%. Da parte dos pais, sempre foi mais o receio de ir para estas coisas perigosas, e agora vais para aí, és um maluco, não sei o quê. Mas essa questão agora, começam a ver o trabalho que é produzido e os resultados que tenho retirado daí e já vão tendo, diria, algum orgulho, se calhar, também naquilo que vou produzindo.

O teu filho agora tem 14 anos, mas se fosse daqui a uns anitos, disser: "Rapaz, eu quero ser vulcanólogo", também, se calhar, não ias achar muita graça, ou ias?

Apoiava 100%.

Boa. O que é que são tornados F5? É o máximo dos máximos? São aqueles cujos ventos podem ter 400 e 500 km/h?

F5, não diria 400, mas é a partir dos 300, agora não tenho aqui valor exato, mas a partir dos 350, 360 km/h.

E o EF é a mesma coisa ou não? F5 ou EF5?

É a mesma coisa. O EF vem do inglês Enhanced Fujita Scale, que é a escala Fujita melhorada. Foi um melhoramento que foi feito à primeira escala.

Que havia dos tornados. Muito bem. Pode-se filmar no interior de um tornado? Na questão do olho, que nós falámos agora, é verdade que está tudo calmo? Já houve assim umas histórias, não é, daquele tornado um, o Tivo One, que tinha uma câmera IMAX e um senhor chamado Sean Casey, que estava lá dentro e filmou o interior. Isso existe, isso acontece? É tudo calmo, é verdade, em vez de tudo andar à volta?

Não é tudo calmo.

Então?

Isso acho que é um-

É um mito urbano.

É um mito criado pelos filmes de Hollywood.

Exatamente.

Porque, de facto, o Sean Casey e outros que vão para dentro, ou tentam entrar, ou estar o mais próximo possível dos tornados, têm que ir naquelas viaturas completamente blindadas e protegidas, e mesmo assim O limite são os tornados DF3, por exemplo, mais que isso, os próprios carros vão à vida.

Como havia um chamado Dominator 2.

O Dominator do Reed Timmer.

Ficou famoso, exatamente.

Eles já conseguiram imagens espetaculares no interior do tornado, mas não são imagens em que está tudo tranquilo e limpinho.

Está numa grande agitação.

É uma confusão de ventos e de rajadas extremamente fortes, com muitos detritos no ar e muita chuva também ali associada.

Isso é que é muito perigoso também. Podem estar, como eu te disse, as imagens com vacas e com gado, com tratores a voar. É uma coisa impressionante. Nunca chegaste a ver coisas...? Diz lá.

A voar, não. Só detritos, poeiras.

Antes disso.

Coisas maiores. Ainda não tive a oportunidade de ver um tornado propriamente daqueles mais fortes. Espero conseguir um dia ver um desses.

Tudo o que tu almejas e nós a fugir. É assistir uma coisa dessas. Incrível.

Espero ver um tornado desses mais fortes, mas em pleno campo aberto, em cima de um campo agrícola ou que não é que seja semeado, mas que não destrua nada, esteja só ali sozinho, a passar em campo aberto, sem destruir nada.

Há um mês, pagaste em ti próprio e foste tirar 19 mil fotografias no Cumbre Vieja e estiveste lá no fim de outubro, em Santa Cruz de La Palma. Saiu já um vídeo, mas há de sair também um vídeo mais completo que está quase a sair, certo?

O quase depende muito da agenda, mas há de sair talvez até o final do ano, em princípio. Mas o objetivo principal até foi o vídeo timelapse.

Está extraordinário. Exatamente. E chama-se Cumbre Vieja mesmo, eu recomendo. Foi o melhor vídeo timelapse no Barcelona Planet Festival. Já agora, parabéns por este prémio, mais este prémio.

Recentemente, também foi finalista no ONiros, em Nova Iorque, outro festival também, que entretanto já recebi essa notícia, que é finalista e veremos o que é que surge mais entretanto.

Muito bem. Também tens este projeto e tens fotografias no calendário de 2020 da Severe Weather Europe. Há um clube que é de extreme weather. Tu pertences a esse clube ou não?

Também. Sim.

Extreme Weather Club. Existe mesmo um clube, de onde devem fazer parte o Michael Belinsky, o Tim Samaras. O Tim Samaras é um bocadinho assustador, porque ele morreu muito novo, com 50 e poucos anos. E foi uma coisa qualquer que correu mal. Ele era daquele programa do Discovery Channel, este "Storm Chasers".

Ele era um dos cientistas.

Era engenheiro e caçador de tempestades norte-americano. Tinha uma grande pesquisa.

Ele era daqueles que colocavam ou tentavam colocar os sensores o mais próximo, ou até dentro dos tornados, para poder possibilitar ter leituras que revelassem o tal segredo da formação dos tornados.

Mas um dia correu mal, foi isso? O que correu mal, conta-me.

O tornado famoso pelas piores razões, o tornado de El Reno, que foi o tornado com o maior diâmetro já mais registado. Ele estava com diâmetro de 300, 400 metros, que já é grande, ainda assim, e em poucos minutos passou para um diâmetro de 4 km. Dá para ter a noção do que se passou ali. Eles foram apanhados completamente de surpresa pelo aumento da dimensão do diâmetro desse tornado e porque o próprio tornado também mudou de direção várias vezes. Eles, infelizmente, foram apanhados de jeito.

Isto é complicado, porque tu sempre que vês, também gostas, até fazes questão de ver isso com segurança e ter escapatórias. Mas é um bocado impossível de prever o percurso certo de um tornado, certo?

É. Se bem, para já eu, e disse bem, privilegio a segurança. E enquanto fotógrafo, e agora esta parte do timelapse, normalmente pretendo estar sempre um pouco mais afastado das supercélulas, para conseguir observar a supercélula no seu todo, ver aquelas estruturas e toda a imagem, porque em termos fotográficos, é muito mais bonito, digamos assim. Acabo por não estar mesmo lá pertinho do tornado ou mesmo lá debaixo da supercélula, porque as imagens que se conseguem é muita chuva e granizo, não se vê nada. Mas de facto, o tornado, quando está formado, nós conseguimos ir percebendo mais ou menos o seu percurso e qual é o sentido de deslocação, havendo sempre um grau de incerteza e eles podem sempre mudar de direção.

Tens fotografias e reportagens também, na National Geographic Portugal, do mês de setembro de 2019 e dezembro de 2019. Tens este projeto de guia de viagens, viagens às tempestades americanas, estas Storm Chasing Tours, parece que há uma prevista, era para ser em maio de 2020, fechou tudo. E agora está aqui prevista para maio de 2022, 10 dias no Tornado Alley. Vamos lá ver se acontece.

Neste momento já temos alguns inscritos. Tenho o primeiro grupo praticamente preenchido, ainda tem uma vaga, e o segundo grupo está em aberto.

Agora, muito rapidamente, consegue-se viver disto? De caçar tempestades? Consegues?

Só viver disto, não.

Tens de ter um emprego à parte.

Exatamente.

E ainda te falta conseguir o tal tornado com o cone totalmente condensado, que é um sonho que tu tens, que ainda não conseguiste captar, mas ainda sonhas com isso, certo?

Vai acontecer. Não sei quando.

Até porque os eventos meteorológicos extremos estão a intensificar e tornar-se mais frequentes, graças às alterações climáticas, portanto, o teu emprego vai ter uma grande procura em breve.

Sim, vai acontecer, mas não quer dizer que o vá haver nos Estados Unidos, eu até posso ver um tornado desses aqui mesmo em Portugal. As alterações climáticas, o aquecimento do mar.

Exatamente, tudo isto são causas.

Podemos começar a ter cada vez eventos mais severos e mais frequentes aqui junto de nós.

Nós, infelizmente, não temos tempo para mais. Bruno Gonçalves, muito obrigado pela tua disponibilidade, em falares ao Observador, diretamente de Silves. Muito boa sorte, muita segurança nas tuas caçadas.

Obrigado eu pelo convite.

Fica aqui a dica, assim que nos ouve, para conhecer melhor os trabalhos do Bruno, já agora ir aos seus sites, ao seu Facebook, ao seu Instagram, ao seu Twitter, ou então visitar a exposição Atmos, o lado mais intenso, mas belo da atmosfera, que está patente até ao fim do mês na Galeria N118, em Alpiarça. Bem-hajas, Nuno, e até breve.

Obrigado.

Obrigado, boa noite.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.