Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
É com muito prazer que damos as boas-vindas à convidada extra de hoje, Piedade Lima de Monteiro. Ela é presidente da APSA, Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger. Fundou a Casa Grande, um projeto onde se capacitam jovens com Asperger para serem autônomos. Criou também um programa de empregabilidade para os capacitar na inserção no mercado de trabalho, a par da inclusão social, e criou ateliês temáticos onde cada jovem pode explorar as suas competências. Tudo isto nesta Casa Grande. Vou conversar com Piedade, que é desde há três anos conselheira nacional de saúde. Boa noite, Piedade, e muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Bem-vinda ao Observador.
Obrigada, João. Boa noite a todos e eu é que agradeço o convite e o interesse nesta matéria, que me deixa sempre uma grande responsabilidade em cima, que é passar bem a mensagem.
Claro. Tenho certeza que é muito capaz disso, que já o tem feito. Eu já vi algumas coisas suas e há realmente muito à vontade neste assunto, está muito por dentro disto. Para já, é preciso dizer que a primeira coisa que eu tenho que arrancar é quando é que descobriu que o seu filho tinha, portanto, começou a interessar-se por esta síndrome de Asperger quando um dos seus filhos, concretamente o Nuno, o seu segundo filho, tinha esta síndrome. Como é que se apercebeu? Isto é um bocadinho para ajudar também as pessoas em casa, porque muita gente se calhar não sabe que isto existe sequer.
Sim. Bom, resumidamente, a história do Nuno é de 27 anos, portanto eu vou vos dizer exatamente o início de tudo. A bem da verdade, logo que meu filho nasceu e que eu lhe mudei a primeira fralda, percebi que havia qualquer coisa diferente com aquele rapaz. Só que eu nunca fui tida em conta. Nem o meu pediatra me ligou muito, nem a família, como é normal e evidente, dava muita atenção a estas minhas preocupações. Mas eu sempre senti que o meu filho era diferente da minha filha Maria e era diferente de todos os outros. Somos uma família grande, portanto, há muita miudagem e mudávamos as fraldas a muita criança.
Exato. Há uma coisa que os pais sentem. Mas como é que reparou? Pequenos sinais, o quê?
Pequenos sinais. Primeiro, apático. Segundo, eu falava, ele olhava para o lado. Terceiro, era um tronco que eu tinha ao colo. Era um miúdo que, principalmente na mudança da fralda, esticava-se todo quando normalmente os bebês são muito molinhos. Por outro lado, quando o alimentava, ele enrolava-se a mim, portanto era completamente sincronizante este meu filho, mas assustava-se com frequência. Não queria nem engatinhar, nem andar, nem por aí. Era muito come e dorme até uma determinada altura. Depois mudou radicalmente e começou a ter noites péssimas, muita falta de atenção, não brincava como os outros, não tinha a persistência numa brincadeira com os outros. Era, de facto, muito isolado enquanto bebê.
Ok.
E portanto, isto levou-me a grandes ansiedades durante estes primeiros tempos. A bem dizer, o meu filho só foi diagnosticado com algo aos dois anos e meio.
Exato. É até difícil, até porque ele nem sequer fala ainda.
Não, exato. Portanto, foi diagnosticado com síndrome de Asperger.
É engraçado a Piedade falar nisso, porque é uma coisa que eu vou falar um bocadinho mais à frente, se calhar na segunda parte, a questão de, por exemplo, do bullying das escolas, a atenção. É uma das coisas, uma questão de falar nisso, questão das escolas. Não é só os colegas, mas muitos professores se queixam, porque os alunos com Asperger, apesar de às vezes poderem ser muito inteligentes e ter o QI altíssimo, no entanto, têm esta coisa de atenção. E os professores queixam-se que não tomam atenção, estão a olhar para o outro lado, mas isso não quer dizer que não estejam a captar. É muito engraçado, porque é toda uma perturbação de desenvolvimento que às vezes pode não ser compreensível. E eu acho que era melhor então, nesses minutinhos que a gente tem na primeira parte, Piedade, se calhar explicar o que isto é. Portanto, eu sei que depois de um longo percurso que a Piedade deu as ferramentas para o Nuno ser feliz, dedicou-se então a trabalhar e a pensar também nas outras mães que têm essas situações em mão e também, sobretudo, nos miúdos e nas miúdas que têm isto, muito mais miúdos que miúdas, também já estudamos isso. Perceber exatamente o que isto é. Portanto, a síndrome de Asperger é uma perturbação neurocomportamental de base genética, mas dentro do espectro do autismo, é talvez a mais leve.
Leve, sim. Exato.
Com mais relação.
Exato.
É muito engraçado porque não há um marcador biológico, portanto é complicado porque não há uma análise que a gente possa dizer "ele tem ou ele não tem".
Nada.
Este lado do relacionamento, da comunicação verbal, algumas coisas, da empatia, alguma descoordenação motora, tem todas estas peculiaridades. Em Portugal há cerca de 40 mil pessoas sinalizadas e muitas encaixam no perfil, mas não sabem sequer que o têm. É incrível, é um diagnóstico muito complicado.
Bastante.
Ainda mais complicado, porque também é estranho. Há muita gente que acha que é uma maneira de ser, é um feitio. Não tem nada a ver, certo?
Sim, isso acontece exatamente com as pessoas que têm o síndrome de Asperger leve, digamos assim. O nível um é um autismo altamente funcionante e o síndrome de Asperger é uma coisa muito leve, muito comportamental e com pequenos toques de, muitas vezes, manias, como nós costumamos chamar, ou de rotinas esquisitas, ou de gostos estranhos, ou até de interesses estranhos que no futuro não levam a nada. Mas de facto, quanto mais leve é a patologia, digamos assim, mais difícil é conviver, diagnosticar e depois conviver com ela, quer seja o próprio, quer seja os outros com a pessoa que tem esta patologia. A síndrome de Asperger é de facto uma perturbação do espectro autismo, é nível um, é a forma mais leve de autismo. O diagnóstico é feito através de um conjunto de critérios comportamentais. Não esquecer nunca que esta é uma disfunção Na interação social, na comunicação e no comportamento. É aqui que a coisa descamba, porque a nível cognitivo, a maioria é muito mais inteligente do que cada um de nós, do que qualquer um de nós.
Exatamente. É engraçado porque mesmo da DSM, daquela lista de todas as doenças, o termo Asperger foi retirado e introduziram como fazendo parte da síndrome do espectro do autismo como um autismo de alto rendimento.
Exatamente. Nível um.
Ao alto. Isto depende do apoio ou da dependência que é preciso.
Exatamente.
Muitos Aspergers, e cá está a Casa Grande, já lá vamos, muitos Aspergers são perfeitamente capazes de ter, e eu sei que é isso que a preocupa, mais até do que ter emprego, é que eles sejam felizes, tenham uma autoestima suficiente, que sejam autônomos e que sejam pessoas com futuro. Para isso há um trabalho todo a percorrer e é isso que também tem feito com a associação e depois com a casa que tem criado. Já lá vamos. Este diagnóstico nunca é tão fácil e há quem diga que não é fiável antes dos cinco anos.
Sim.
Mas quanto mais precoce for, mais bem-sucedida é esta intervenção, certo?
Claro. Ou seja, há aqui uma série de sinais de alerta que depois também posso mencionar e que de fato o nosso papel enquanto pais e depois agentes de saúde, nomeadamente pediatras, é no primeiro sinal ficar alerta para o desenvolvimento desta criança e ir lhe dando os estímulos e acompanhando o seu desenvolvimento o mais possível. Para quem? Para quando ele fizer a sua introdução na vida acadêmica, isso acontece efetivamente por volta dos cinco anos, aí é que os nossos filhos têm que mostrar o que valem, a nível acadêmico, a nível da regra, da sociabilização, etc. Aí, sim, podemos apurar: temos aqui um problema real e temos que fazer outro tipo de programa para acompanhar este jovem ou isto foi só efetivamente um nozinho no desenvolvimento e a coisa deu-se. Mas é preciso ter muita atenção e os pediatras têm que estar muito atentos a estes problemas do desenvolvimento e às vezes não estão, com todo o respeito.
Por exemplo, na sua Casa Grande tem alguns belíssimos exemplos, podemos falar mais pra frente, por exemplo, Victória. A Victória também, que é seguida pela psicóloga, pela Vera Brandão, por exemplo, já entrou há quase um ano, vai fazer agora um ano na Casa Grande.
Sim.
A mãe também pesquisou, informou-se, levou ao PINI, um centro de diagnóstico e acompanhamento de perturbações do desenvolvimento infantil, como há também o Cadin, por exemplo.
Exato.
Trabalho com ele de vez em quando, o Nuno Lobo Antunes. E seis meses depois ela estava a fazer testes e tudo, que nunca são testes cognitivos, mas são vários testes que se fazem, acaba por perceber que ela tinha o síndrome de Asperger e ao ouvir falar da sua Casa Grande, então juntou-se lá e já vamos falar. Antes, estamos para acabar esta primeira parte, deixe-me dizer que há vários casos famosos e há muitos gênios, se calhar também do passado, que se encaixam no perfil e não se tem a certeza.
Sim.
Por exemplo, esta miúda que deu muito que falar, esta Greta Thunberg.
Sim.
"Eu tenho Asperger, isso significa que às vezes sou um pouco diferente da norma. E às vezes ser diferente é um superpoder", como ela diz.
Sim, mas também é um superperigo, mas podemos falar nisso um bocadinho mais à frente.
E pensas, portanto, que outras pessoas encaixam neste perfil de outros gênios do passado?
Exatamente.
Há muitas pessoas génios, há muita gente que por não ser, pode por causa disso entrar em conflito e daí a grande importância da sua associação. Piedade, não desligue, nós já voltamos. Já volta conosco. Até já.
Até já.
Estamos na conversa com Piedade Líbano Monteiro, fundadora da Casa Grande, que capacita jovens com o síndrome de Asperger e os lança no mercado de trabalho. Piedade, estamos aqui a falar agora da APSA, Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger, mas também uma IPSS, sem fins lucrativos, que nasceu há 17 anos por um grupo de 21 pais e que é comandada e fundada por si. Portanto, qual é a função desta APSA, que depois a Casa Grande está incluída nela ou não? Fale um pouquinho do nascimento da APSA e depois da Casa, o que é que faz.
Ora bem, a APSA, de fato nasceu pela vontade de 21 pais e um médico. Esse médico é o Nuno Lobo Antunes. E de fato, esta associação é uma associação de pais, é uma associação que não tem a vertente clínica. Nós não somos um centro de desenvolvimento. O que nós temos é a capacidade de perceber, primeiro, de aceitar os pais e de ser um porto de abrigo para as famílias, para toda a gente conosco perceber que está a ser percebido. Que quando fala, está a ser devidamente entendido e que não é um OVNI no meio desta nossa vida. Portanto, esta associação nasceu exatamente com esta missão de promover o apoio e integração social das pessoas com a síndrome de Asperger, fazendo um acompanhamento ao longo da sua vida. Não é um acompanhamento médico, mas é um acompanhamento sempre de encaminhamento, de agarrar as pontas do processo e saber qual é o passo seguinte a dar. E encaminhar não só as pessoas com a síndrome de Asperger, mas principalmente as famílias que se sentem completamente perdidas quando nos cai nos braços um filho diferente. A verdade é esta. E é preciso cuidar de cada etapa da vida destas pessoas, jovens adultos, crianças, enfim. E depois, de fato, capacitá-los para uma vida autônoma e digna. Esta coisa de "vamos fazer aqui um projeto piloto, vamos desenvolver aqui um projeto engraçado, vamos ver se isto dá", não dá com nada. Nós temos é que capacitar as pessoas Com deficiência, neste caso, com a síndrome de Asperger, esta perturbação, mas com todas as outras, capacitá-las naquilo que elas conseguem, levar as capacidades delas ao limite, dando-lhes ferramentas para quando nós não estivermos cá. Este é o lema, porque senão não vale a pena trabalharmos na diferença e na deficiência. Há deficiências em que as pessoas vão ser dependentes sempre. Isso é um caso, mas aqueles casos em que elas têm capacidade, não há como não lhes dar os meios. E é isso que a APSA tenta fazer.
É impressionante, porque, por exemplo, a Asperger, eu já li bastante sobre isso. Eu tenho casos na família e, por exemplo, há casos famosos de doentes com síndrome de Asperger que são engenheiros, que casam, têm filhos. Mas depois têm aquelas peculiaridades. Por exemplo, estes casos que eu lembrava do engenheiro, sabia de cor as matrículas todas dos carros da rua dele, e não era pequena. Portanto, há sim umas peculiaridades que às vezes eles têm. Ou, por exemplo, o outro que era também muito bom numa certa coisa no banco, não era capaz de fazer uma corrida sequer. Tinha essa coisa de que não era capaz de correr. É muito engraçado. No entanto, a Casa Grande, que vai falar, é muito interessante, porque uma coisa é a pessoa ajudá-los a perceber o que eles têm e a poder dar-lhes algum conforto, as zonas de conforto deles. Outra coisa é esse fosso que às tantas a Piedade percebeu. Um fosso brutal, eu estou a citar palavras suas, entre a vida académica, que eles até podem ser ótimos alunos e ter muitos cursos superiores, mas há um fosso grande entre a vida académica e a casa dos pais, claro, e depois a vida ativa e o mercado de trabalho. É para isso que entra a Casa Grande e a sua vida.
Sem dúvida. Primeiro, deixe-me dizer uma coisa que tem que ser dita. Eu sou um instrumento, eu não faço nada sozinha. Portanto, eu quero aqui deixar bem claro que a APSA nasceu destes 21 pais. É evidente que há sempre uma carola no meio disto tudo, alguém com muito mau feitio e alguma determinação. Isso foram os meus filhos e principalmente o meu filho Nuno, que me ensinou a acreditar nele e a aceitá-lo tal como ele é. E é aqui que começa tudo. Tudo o resto foi feito com uma equipa de gente imensa, que ainda hoje mantém os nossos programas de pé, construiu conosco a Casa Grande, nada se faz sozinho. Pode haver, de facto, alguém que dá a cara. Este projeto, quando as coisas correm bem, é fantástico. Quando alguma coisa corre mal, tem uma cara, e essa cara é a minha. Mas de resto, tudo o resto é feito com o esforço de muitos, de uma equipe de funcionários, de colaboradores, de pais, de famílias e dos jovens que querem lá estar.
Neste momento vai acompanhar 21?
Não. Neste momento, nós temos um protocolo com a Segurança Social e temos capacidade na Casa Grande para ter, das 09h30 às 17h30, 20 jovens. No entanto, como nós temos um programa altamente diversificado, nós apoiamos 50 e tal jovens e as respectivas famílias e as empresas que trabalham com esses jovens e quem nós capacitamos para os receber. Portanto, fora do âmbito do tempo inteiro da Casa Grande, como nós não concentramos todos estes jovens ao mesmo tempo na Casa Grande, nós podemos apoiar em serviços extra. E, por exemplo, o meu filho não vai todos os dias à Casa Grande. O meu filho tem a vida dele fora da Casa Grande, depois tem atividades que vai desenvolver à Casa Grande. A Casa Grande é feita à medida, mais ou menos. A Casa Grande é o início de um projeto, nunca um fim. E até há famílias que pensam: "Ai, que bom, agora encontrei aqui um projeto onde o meu filho vai ficar". E nós dizemos: "Esqueça, porque é agora que você vai começar a trabalhar com o seu filho, porque tem que trabalhar conosco". E a família é a base de tudo.
A propósito de dar a cara, uma das coisas importantes que faz é o Projeto Gaivota.
Sim, isso é muito giro. Amanhã vou ter, acho que são 90 professores em Zoom, através da EPIS, e vou fazê-lo em dois períodos, das 05h00 às 05h45 e depois das 18h00 às 18h45, exatamente o Projeto Gaivota, que é falar da síndrome de Asperger, das características, das estratégias, de como fazer, para os professores, principalmente para os professores, na voz dos pais, porque os professores não têm informação de base sobre os problemas do desenvolvimento, muito menos sobre a perturbação de síndrome de Asperger e é uma falha brutal que vai levar a que não os consigam preparar para a sua vida futura, mas a culpa não é do próprio professor. O Ministério da Educação, isto já foi dito muitas vezes, variadíssimas vezes, os nossos futuros professores têm que ter no seu currículo matéria suficiente sobre as perturbações do desenvolvimento das crianças. Só assim.
Mas a Piedade é conselheira de saúde, como é que não conseguiu já meter essa obrigatoriedade? É tão importante e fundamental os professores conhecerem a patologia. Está a tentar, a abordar?
Eu sei, mas eu primeiro sou conselheira nacional da saúde, não é da saúde pública, sou conselheira nacional da saúde, que são duas entidades diferentes. É bom que se perceba, são duas entidades diferentes, uma nascida em 2008 e outra em 2017, bastante diferentes, mas ainda assim, o forro não é a educação. E mesmo tenho a dizer-lhe que a nível de saúde, já conseguimos que saísse uma norma Que nos desse a possibilidade de todos os pediatras assinalarem o seu diagnóstico, os jovens e as crianças que estão a diagnosticar com a síndrome de Asperger, para que nós possamos ter números fidedignos pra poder trabalhar e pra saber onde é que eles estão. Porque eu posso estar aqui a fazer uma gaivota e em Braga ser muito mais necessária a gaivota do que aqui numa escola em Lisboa.
Com certeza. Estas crianças, o que defende é que não devem ter uma educação especial.
Não, não devem.
É sempre melhor estar numa escola inclusiva, certo?
O mais possível. Só que nós temos que ter ovos pra fazer omeletes. E esses ovos são: formação de professores, formação de professores e formação de professores, boas equipes de ensino especial, boas equipes multidisciplinares nas escolas que não existem, e depois as famílias terem, de facto, a oportunidade de serem bem conduzidas, de haver uma intervenção precoce ligada à escola e que a tutela da saúde e da educação deviam andar de braços dados, e não é chutar os meninos a partir dos seis pra o Ministério da Educação e abaixo dos seis pra o Ministério da Saúde, porque isto não é nada. Os nossos filhos são um todo e começam a viver logo antes de terem nascido cá pra fora. E só acabam no fim da vida. Portanto, um ciclo que é iniciado, não pode ser cortado. E os nossos filhos andam assim: até aos seis é pra aqui, antes dos seis é pra ali. E ainda por cima, pessoas com perturbações desta categoria, digamos assim, não podem estar na incerteza e a escola não pode ser um sítio onde eles vão, com toda a certeza, colher sofrimento, em vez de colherem a oportunidade diferente pra diferença de cada um de nós, que se chama respeito. Mas, de facto, não consigo ainda fazer mudar. A gente não desiste. E já vai havendo muita coisa e muita maneira de capacitar os professores e de os alertar e de os ajudar. E confesso que a APSA tem tido um trabalho imenso e é das coisas que eu mais gosto de fazer. É andar pelo país a falar nas escolas, porque eu sinto a necessidade que os professores têm, compreendo-os muito bem, e sei exatamente que conselhos é que nós podemos dar. Ao mesmo tempo, nós aconselhamos sempre a família e a escola a entenderem-se, a terem uma comunicação saudável, aberta. É aqui que começa tudo.
E a família também, claro, os pais muitas vezes estão exaustos e frustrados.
Sim, exatamente, e não sabem o que fazer.
Eles privam-se da vida social em família, porque os filhos deles, aos olhos dos outros, não sabem estar ou não sabem comportar. Se estes pais têm essas crianças, às vezes não sabem, mas uma vez diagnosticadas, se estão à espera, como eu li também uma coisa sua, que eles vão dar um beijinho a toda a gente quando chegam a uma sala, se calhar isso não vai correr bem.
Exatamente.
As pessoas têm que estar a contar com isso e ter dados pra poder julgar e pra poder, sobretudo, ajudar. Outra sua questão, e a propósito da Casa Grande e destes programas de capacitação, é a questão da empregabilidade e a questão também das empresas receptivas. Fala um bocadinho disso, que é muito importante.
Sim. A Casa Grande nasceu pra isto. Nasceu porque nós reconhecemos o fosso entre o fim da escolaridade e o início da vida ativa, e realmente há um buraco aqui. E começamos a ver que os nossos filhos cresciam e podiam ter uma escolaridade fantástica e até tirar um curso superior, só que não conseguiam dar o passo pra sua vida ativa e pra empregabilidade. E começavam a ficar em casa, a deprimir, sem fazer nada, porque os nossos filhos não são super ultrativos e muito mexidos nesta coisa de "espera aí, não consigo emprego, mas vou tirar outro curso, não consigo fazer". Não são, de facto, não têm esta espvitez. Se assim se pode dizer. E o que acontece é que começamos também aqui um grupo de pais a desenhar este projeto futuro, que acabou por ser a Casa Grande, com a grande generosidade da Câmara Municipal de Lisboa, que à conta de a APSA fazer as obras, a verdade é esta, mas cedeu-nos um espaço e é um espaço imenso. Esta casa nasceu para ser o princípio de um projeto de vida, e nasceu pras pessoas e pros jovens a partir dos 18 anos, porque são esses que entram neste fosso que eu acabei de falar. E porque também são esses que ficam em casa a deprimir durante anos. Os primeiros jovens que entraram na Casa Grande estavam há dois, três anos sem fazer nada, medicados. Portanto, sem um fio de predisposição, sem um fio de autodeterminação.
Se calhar é o caso do Pedro Noronha, por exemplo, será?
Exatamente.
O Pedro Noronha tem 32 anos, é um dos veteranos da Casa Grande, entrou logo.
É.
Até foi trabalhar na REN, agora está nos quadros do Santander. Portanto, percebendo o trabalho dele e percebendo quem é a pessoa e tudo, os colegas já o aceitam muito bem, a empresa também, ele adora ir. Mas tem que ser com os cuidados, ele não pode ter multitarefa, essas coisas.
João, mas o que nós fazemos no projeto Empregabilidade, por isso é que falar da empregabilidade na deficiência, há muita gente que fala um bocadinho de ânimo leve, mas isto é um namoro. E é um namoro com pessoas muito especializadas e com um querer muito grande parte a parte. O que eu quero dizer com isto? Primeiro, eu tenho que confessar que não é difícil bater à porta de uma empresa, dizer-lhe que ela tem uma responsabilidade social e que nós, APSA, podemos ajudá-lo a cumprir essa responsabilidade e, ao fim e ao cabo, a cumprir a Lei 4/2019, não esquecer. Mas nós nem queremos acentuar muito isso O que nós queremos é que as empresas percebam que podem fazer a diferença na vida de alguém. E que esse alguém, um dia mais longe, pode ser um filho, um tio, um primo, um neto.
Pode bater à porta, claro.
Pode bater à porta. Esta casa nasceu exatamente para capacitar os jovens e fazer um despiste profissional dos jovens que ali entram. Claro que há um trabalho pessoal individual imenso a fazer com cada um deles, cada um é um, isto não é uma molhada, nem sequer é um manual que nós possamos abrir e agora vamos lá estudar isto. Cada um é um naquela casa e tem o seu plano de desenvolvimento individual. Depois vêm as empresas. Nós temos que encarar as empresas com imenso respeito, tal como encaramos a escola. Eu não posso pedir ao meu vizinho do lado que vá à escola apresentar o meu filho. Sou eu mãe, que tenho que ir à escola dizer verdadeiramente como é que é o meu filho. Os bons, os maus, os mais difíceis, os menos difíceis e que eu estou ali para o que der e vier, porque a escola também sou eu. Na empresa é igual, é a APSA que tem que ir à empresa e dizer: "Eu tenho aqui o João, que é fantástico nisso, naquilo e naquilo outro. Tem esta peculiaridade, que é esta, aquela e a outra. Onde é que nós podemos, se vocês tiverem a necessidade", não é esmolinha, não é "ai, agora vou cumprir a cota durante seis meses, está a ver, João?" Não é isso.
Exatamente.
É onde eu tenho a necessidade de ter alguém nestas funções. O João enquadra-se nestas funções. Tudo bem, então vamos lá capacitar a empresa para receber o João, porque o João não é um João qualquer. E quando este trabalho é feito, quando há uma entidade que quer fazer este trabalho, quando há um jovem que quer fazer este trabalho e quando há uma família que acolhe e uma equipe que sabe tecnicamente como é que se faz, a coisa dá-se. E, João, pode não ter sucesso, mas às vezes ainda bem que não tem. Isto parece estúpido estar a dizer isto, mas todo o caminho que é feito, se a empresa for sempre acompanhada e o jovem também, por uma equipe mediadora, que é a nossa, mesmo que haja insucesso pelo caminho, a vida é feita de insucesso. O que eu quero é que ele tenha ferramentas, quer a empresa para lidar com, quer o João para lidar com. E é assim que a coisa se vai fazendo. Claro que é uma equipe especializada em síndrome de Asperger, não há dúvida, e depois com um grau imenso de disponibilidade e de responsabilidade. E aqui as empresas têm que ser bem acolhidas, tal como nós acolhemos a família e não podem ser largadas ao desbarato. Não podem. Por isso mesmo, nós assinamos em fevereiro de 2019, assinamos a nossa carta de compromisso das empresas receptivas, que é uma marca registrada da APSA, na presença até da Secretária de Estado para a Inclusão, e que as empresas todas se comprometeram a fazer este trabalho conosco. E este ano, em fevereiro, não houvesse o nosso amigo Covid, teríamos feito a primeira avaliação pura e dura, uma manhã de trabalho, para fazer avaliação. Nós temos que ser avaliados, o trabalho tem que ser avaliado e ninguém tem que ter medo. Os nossos jovens são avaliados, nós somos avaliados. E, portanto, é aqui que nós tentamos realmente abrir o mundo. Capacitar.
Os jovens em que pega, Piedade, é a partir dos 16 ou dos 18?
Se nós tivermos que acompanhar um jovem com menos de 18 anos, é evidente que ele não fica de fora. Não tem um treino de competência social e funcional dentro da Casa Grande. Terá outro programa. Agora, para o trabalho feito, para o caminho para a empregabilidade, para o caminho para a inclusão, para a vida ativa, é de facto a partir dos 18. João, é a partir dos 18 que eles já acabaram a sua vida acadêmica. Mesmo que a queiram continuar, eles têm que ter este colo da parte de uma associação que os ajude a dar o passo, que os ajude a preparar o caminho.
É incrível, porque a Casa Grande também os ajuda, por exemplo, coisas tão simples como serem autônomos, ir comprar pão ou ir ao multicabo. São coisas muito simples para nós, mas para um aspi, de uma maneira decorosa de dizer, são às vezes difíceis e faz tudo parte deste trabalho que é muito importante ter e que tem sido feito. Piedade, uma última palavra? Diga lá.
João, estamos a terminar?
Sim, temos uns segundos.
Não, o que eu lhe dizia é quando diz que eles vão comprar pão, etc. São eles que são protagonistas na casa de muita coisa, nomeadamente comprarem o lanche para eles e há equipes para isso, etc., que eles fazem semanalmente. As primeiras vezes os meninos iam com tudo, com lista, com tudo. E as técnicas perguntavam: "Então e não falta nada?" "Não, já tenho a lista, já tenho o saco." Muito bem. Chegavam ao Pingo Doce, voltavam para trás porque tinham se esquecido do dinheiro. Mas foram. Mas foram e voltaram e nunca mais se esqueceram.
Isto é importante, e ficar aqui este recado. É claro que qualquer coisa a pessoa pode sempre informar-se na APSA.
Sim, nós estamos completamente disponíveis. Vamos onde for preciso ir. E deixe-me dizer-lhe que, mesmo com o Covid, a APSA não parou. Enquanto eu estive à espera do programa, estive a escrever exatamente uma carta que vou mandar, mais uma vez, aos nossos pais e às nossas famílias. E o Covid ensinou-nos imenso. E ensinou-nos que os nossos filhos são realmente uns heróis porque se adaptam a tudo, bem como as famílias.
Para que os pais nunca desistam, e acreditem sempre naquela criança ou naquele jovem.
Exatamente.
Que é um desafio, como todos os filhos são desafios, mas são um bocadinho maior. Piedade, infelizmente, é mesmo assim a rádio, nós não temos tempo para mais, temos mesmo que fechar. Mas quero agradecer, e agradecer especialmente pela sua disponibilidade, entrar conosco no Observador, bem-haja, e desejo o maior sucesso, quer na APSA, quer na Casa Grande, na empregabilidade, no futuro de tantos jovens, que graças a si, encontraram um sentido de vida e futuro, tantas famílias que por causa disso também ajuda. Muito boa noite, Piedade.
Boa noite, obrigada a todos. E a visita certa à Casa Grande, quando quiserem, porta aberta.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.