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O número de casos que vocês recebem, eu estou aqui a lembrar que nos anos 80, anos 90, por exemplo, homicídios, é mais de um por dia, a média era 400 por ano, ainda era bastante nessa altura. Hoje em dia, em 2024, houve 89, 2025 houve 108 homicídios em Portugal. Como dizia o Carlos Aveiro, numa conversa contigo, dizia: "89 é um fim de semana animado no Rio Tejo".

Claro.

"Limpamos locais de morte" é certamente o outdoor mais macabro das estradas portuguesas e o que mais tem intrigado todos aqueles que por ele passam. O principal responsável por estes cartazes está comigo, Pedro Badoni, fundador, CEO e porta-voz da Death Clean, a empresa portuguesa de limpezas técnicas especializadas, pioneira em Portugal e única, certificada e acreditada internacionalmente na Europa. O Pedro é engenheiro do ambiente, foi bombeiro sapador 16 anos e trabalhou na área da proteção civil, até criar esta empresa e especializar-se na intervenção e gestão de incidentes em cenários contaminados por agentes químicos e biológicos em contextos de terrorismo e de guerra. Desde então, tem prosseguido lá fora a sua formação na área NRBQE, nuclear, radiológica, biológica, química e explosiva. Vamos falar com alguém cujo negócio de vida lida de perto com o sangue e a morte, a equipa que limpa o que mais ninguém quer e deve limpar. Fica o aviso, arranca aqui uma conversa no mínimo imprópria para a hora de jantar. Olá, Pedro, e bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João, obrigado, com muito gosto.

É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu és setubalense, da cidade do Sado, onde estudaste toda a vida, até vires cá para Lisboa estudar ciências do ambiente, engenharia do ambiente. E é engraçado, porque tu desde pequeno querias ser bombeiro. Quando as pessoas diziam aos miúdos: "O que é que queres ser?" E tu: "Bombeiro" era assim um sonho, até que entraste aos 26 anos no teu trabalho de sonho, que era ser bombeiro, bombeiro sapador, lidar com estas coisas.

É verdade, é o trabalho de sonho. Consegui entrar. Não é fácil entrar para os sapadores. É muito exigente a parte de entrada, a recruta também, mas consegui realizar o meu sonho.

E foste 18 anos. E depois é curioso, porque foi aí, enquanto sapador bombeiro, que fizeste esta formação em TAT, SBV, isto é suporte básico de vida, imagine.

Sim.

DAE.

E outras situações.

Sim. Foi nesta situação e neste trabalho que viste os teus primeiros cadáveres. Portanto, foram mortes, acidentes, mortes em casa.

Isso mesmo. Nós, na altura, a companhia de bombeiros sapadores de Setúbal, fazia o levantamento de cadáveres. Após ocorrer uma morte, o corpo era necessário ser removido para a geração de medicina legal e era a companhia em Setúbal que fazia essa remoção. Passado uns anos, deixou de o fazer e foi entregue a outras entidades. Aí foi a primeira vez que lidei com situações de morte, algumas até traumáticas, porque nem todas são situações de morte natural em casa.

Sim.

E despertou um pouco. Mas mesmo assim, nessa altura, quando despertou, não foi o suficiente para partir para este projeto que nasceu em 2008.

Entretanto, tenho um amigo meu sapador também, que diz que cada vez mais, Pedro, se defronta com isto, a solidão, as mortes em casa. A casa cheira mal, os vizinhos dizem e há de fato um velhote que morreu sozinho, estava há uma semana e tal morto, já em estado avançado de decomposição, tu sabes disso melhor que ninguém. Mas por que aconteciam muitas mortes em casa? Porque não têm família que os acolha e que os queira?

E continua a acontecer.

Cada vez mais. Há muitos casos.

Nós no verão temos mais situações de trabalho para nós, não quer dizer que hajam mais mortes. Há mais decomposições, porque o calor aparece, aumenta e um corpo, estando dois, três dias, entra em decomposição e dá o alerta aos vizinhos a nível do odor. No inverno, demora mais tempo.

Aprendi contigo que o odor a morte é um odor específico, como o sangue, cheira a ferro. E aprendi contigo que o pior odor de todos, mais do que um corpo em decomposição, é aquelas arcas frigoríficas com carne e peixe.

Carne e peixe, é verdade.

Quando aquilo deixa de funcionar e se misturam os cheiros e apodrece.

É verdade, bem pior.

É pior do que um corpo em decomposição. Eu lembro-me de fazer um trekking na serra de Castro Laboreiro e ver uma vaca meio comida por lobos, com o buraco aberto, já cheia de vermes e coisas e que dava um cheiro que à distância se sentia.

Mas no exterior, o cheiro também é um pouco mais intenso, apesar de nós não termos esse tipo de coisas no exterior, mas o cheiro é mais intenso. E o cheiro de animal também no exterior torna-se um pouco mais intenso. É um cheiro diferente. Ambos, seja um cadáver humano ou de um animal, são odores muito desagradáveis. Mas no exterior e no animal é bem mais intenso do que dentro de uma casa, um corpo.

Já vamos falar disto. Em 2008, fizeste vista a este filme, "Cleaner". Nasceu a tua empresa também neste ano. A tua empresa é a maior de idade este ano. Faz 18 anos.

Faz 18 anos, é verdade.

A partir de agora és maior.

Do meu ponto de vista.

Exato. Tu juntaste a tua veia de empreendedorismo e fundaste a Death Clean. Já vamos falar disso, que tem a ver com risco biológico, intervenções em locais contaminados, risco para a saúde pública, estudos internacionais também na área do bioterrorismo. Tu foste mestrando na área do nuclear, radiológica, biológica e química, não é? Na Tor Vergata, em Roma.

Sim, em Roma. Estou a completar isso.

E vais agora, este mês de maio.

Para a semana.

Knoxville, em Tennessee.

Para Body Farm.

Body Farms é aquelas coisas onde se acumulam os cadáveres.

Isso mesmo, em decomposição para estudar. Fui aceito no ano passado. Onde o FBI faz o seu treino também.

Exato.

Acredito que se calhar sou ou único ou um dos primeiros portugueses a poder frequentar a escola. Vou saber quando lá estiver.

Exato, mas é fantástico.

Mas é algo fora do comum, realmente.

E tu, de facto, mesmo esta empresa que tu fazes parte desta ABRA, não é? Desta associação. Fazes parte do quadro de diretores desta American BioRecovery Association, és o único representante europeu.

Sim.

Além do único português.

Nós tivemos, sim, o único português.

No board desta empresa.

Verdade, porque somos a única empresa certificada, eu sou o único técnico certificado, certificando também os meus colaboradores. Algo que eu sempre tive interesse em não só aprender, mas aprender como deve de ser, de forma especializada.

Com quem sabe, a séria.

E com quem sabe. E tive a sorte de ter uma grande ajuda americana quando há alguns anos comecei a frequentar.

Isso nota-se e louvo-te imenso, Pedro, porque és um super lutador por aquilo que tu gostas. Eu vou fazer isto porque quero fazer isto bem. Não há cá nada melhor, vou fazer eu e vou inventar eu, vou fazer um plano e vou levar isto a bom porto, como tem acontecido, ainda bem. Mas depois que eu vou ver as tuas certificações e nunca mais acaba as coisas, as matérias perigosas, o técnico de cheiro.

Ou seja, tudo o que é relacionado com esta área, eu adoro.

Por grandes institutos e grandes americanos. Vais levar para fora se for preciso, mas eu quero ser a pessoa certa. E de fato tens conseguido. Perseguido essa carreira e essa tua especialidade, que é extraordinário. Fazes então por uma body farm, meu Deus. Também fala-se da radiação nuclear, mas as pessoas não sabem que todos os dias estamos expostos à radiação nuclear. Sempre que abrimos o micro-ondas ou estamos ao pé de um frigorífico ou comemos uma banana.

Ou quando andamos de avião.

Exatamente. Também há o radón dos materiais de construção.

Isso mesmo.

O raio-X e os TAC são óbvios, mas há outras coisas, objetos domésticos, a argila das caixas de areia dos gatos tem bentonita. O papel das revistas que são brilhantes também emite radiação. As pessoas não sabem, só que é mínimo e não faz mal, mas nós estamos sempre sujeito a isto. Uma outra interessante: tu foste casar a Las Vegas.

Verdade também.

Foste casar-te em Las Vegas.

É incrível.

What happens in Vegas-

Não ficou lá

...não ficou lá. Trouxeste.

Trouxe. E continuamos, tudo de bom.

É extraordinário. Sim, é muito engraçado. Isto há 14 aninhos.

Ou seja, foi uma viagem.

Tu vais lá todos os anos também, não é?

Vou lá todos os anos. Já fui duas vezes a Vegas, por acaso, na altura do casamento e depois em questões de formação, treino, a conferência, por vezes que são em diferentes estados. Calhou e foi uma aventura muito engraçada.

Do mesmo tipo como a gente vê nos filmes?

Eu fui até fardado de bombeiro, inclusive, portanto um pouco se calhar como se vê nos filmes.

Boa. Tu tens uma miúda e um miúdo, elas já maiores, já têm 18 anos. Nasceu no mesmo ano de 2008, foi um ano fantástico pra ti.

Foi no ano anterior, portanto agora faz 19, estamos aqui muito próximos.

E o teu rapaz de 11 anos do futebol, que tu acompanhas no futebol, quando eles põem a profissão do pai, o que é que eles põem?

É engraçado. O meu mais novo começou por dizer que o pai limpa ketchup. Incrível, não é? Mas agora no quinto ano já existe. E é engraçado que quando partilha a informação com professores, há curiosidade: "É aquela empresa?" E o miúdo diz: "Sim, é". Eles ficam, não digo fascinados, mas incrível estar aqui o filho do criador da empresa que tanto se falava na rua.

Este outdoor, limpamos os lugares de morte, suicídios, homicídios, decomposições. O primeiro cartaz que eu vi teu foi aqui na ASIM, que eu moro ali em Oeiras, e começaste a pôr na IC19, foi logo o primeiro. É de facto um outdoor macabro, mas muito curioso, uma incrível campanha de marketing. Aprendi graças a isso alguns conceitos que eu não sabia de marketing, como uma indústria que não tem benchmark, não tens pares para te poder comparar, como não há ninguém.

Sim.

E isto do ocean blue, chama-se oceano azul em marketing. Marketing e gestão que visa criar novos espaços de mercado que não são explorados ainda.

Nunca pensei alcançar com o outdoor esse nível.

Incrível, de notoriedade.

A primeira, portanto-

O design da argila, atenção, o nome é fantástico também. Escolheste tu?

Sim.

Death Clean é extraordinário. Funciona muito bem. Até lá fora gostam disso e dizem.

Lá fora é muito curioso. Tanto que há muita gente que diz: "Se eu soubesse, tinha posto um nome igual".

Incrível. Exato, os teus concorrentes.

É verdade.

Mas de facto num mês o teu site multiplicou por 10 as visualizações graças a este outdoor. Isto funciona, de facto.

Ou seja, é dar a conhecer para quando-

Infelizmente, quando houver um caso em que é preciso.

Isso mesmo. Quando é necessário.

Mas ao princípio vi também muito descrédito, as pessoas ligavam: "Isto é um filme, é uma série? Isto é um escape room, é um jogo?"

Não digo que telefonei mas a esse ponto. Houve alguns comentários que encontrei em redes sociais, etc. Houve até chamadas que fizeram a criticar a mensagem do outdoor.

Porque achavam o quê? Muito gráfico? Isto é uma coisa triste, lidam com morte.

Demasiado direto, mas nós informamos que é um serviço que existe. E quando há uma necessidade de alguém, é importante alguém ter a solução.

Exatamente. Se és um amigo de alguém que morreu: "Olha, experimentem esta empresa".

Isso mesmo, porque na altura, quando acontece um evento traumático, as pessoas não estão com cabeça de fazer uma pesquisa correta.

A quente não conseguem.

Na internet. Ou perguntam a alguém, e esse alguém é que tem cabeça mais fria, está mais capaz de poder ajudar e auxiliar.

E é muito engraçado, outra coisa que tu foste inteligente, o deathclean.com. As pessoas vão ao site e veem os filmes, os que são possíveis ver. O TikTok já te obrigou a remover alguns vídeos mais gráficos. Porque a vossa profissão de limpar os lugares de crime ou de eventos traumáticos, o corpo já não está lá quando vocês chegam, não têm uma remoção de corpo. Isso são as autoridades que se encarregam de fazer. Pode ser uma funerária, pode ser um bombeiro.

Sim, normalmente é isso, é funerária ou os bombeiros locais que têm serviços de coros.

Para limpar os vestígios.

Ou seja, repor a normalidade do espaço.

Tornar a ter paredes brancas e não com a massa que se fá-lo a meio aspin.

Para que a pessoa que não viu ou que não convém ver, às vezes acontece, um familiar é que se depara com os vítimas.

Tu tiveste um caso desses.

A mãe que sabe que o filho foi ali morto com o halter enquanto estava a dormir.

Sim. Nenhuma mãe vai querer ver o quarto do filho como aquilo ficou, com certeza.

E já tivemos situações que os próprios pais dormem no quarto do filho, por exemplo, o filho comete suicídio na sala e eles ficam na casa durante a noite, nós chegamos, saem e voltam. É muito complicado. Nós lidamos com essa parte também. Apesar de não termos uma relação familiar, há uma empatia.

Por vezes, se calhar, eu partilha com o homem porque ele nem, morreu-lhe a mulher, morreu-lhe o filho, morreu-lhe a enteada.

É complicado, sim.

Eu fiquei um bocado a fazer partilha com o homem, porque não tinha outra hipótese. Vocês têm psicólogos na vossa equipa. Vocês são pouquinhos, não são? 10, 12 pessoas?

Sim, há volta de 10.

Há uns part-time, outros permanentes.

Isso mesmo. Nós tentamos na fase do verão ter mais pessoas para trabalhar, porque é quando aparece mais casos. Tivemos no ano passado, por acaso, um estudo muito interessante do mestrado de uma aluna, que fez sobre a nossa empresa também um estudo único, pioneiro, sobre a parte psicológica de quem trabalha nesta área. E digamos, não tivemos nada a assinalar, nem a parte do atendimento, nem a parte dos técnicos que fosse necessário acompanhar a parte psicológica.

Deve ser muito duro, com certeza, em certos casos.

É. Existe uma grande preparação e quando chegamos ao local já existe aquela parte, é trabalho, não é a parte familiar que lá está.

Veste o equipamento, como é que é? EPI? Com o EPI, veste o fato profissional.

Isso mesmo.

O efeito destas séries, o "CSI", o "Dexter", os pingos de sangue, eu estou me lembro do Dexter, sempre. O efeito, isto não é bem o que vocês fazem.

Não.

Eles vão analisar antes o local do crime.

Isso mesmo.

Vocês entram a seguir.

Isso mesmo.

Mas o efeito, tem mais pessoas a quererem ser recrutadas por causa disto?

Tem, sim.

Como foram para as áreas forenses, porque isso despareceu o curso.

Não só tiraram o curso, como depois entendemos que há muita colocação. Há muita gente com essa licenciatura nessa área forense, mas que não tem tido a colocação. Então olham para nós talvez como a solução de poderem aplicar os seus conhecimentos, mas a verdade, e pra quem nos está a ouvir, a nossa realidade é muito diferente, é oposta. Nós vamos apagar o que lá está. Não temos relação com nenhum agente da autoridade, com a parte da polícia judiciária no local. Nós entramos após a investigação, entramos pra repor a normalidade, entramos pra fazer aquilo que a família não deverá fazer e deverá ser feito por profissionais, seja quem tenha uma licenciatura em ciência forense.

Para recrutar não é preciso ser licenciado.

Não.

Tem que ter sangue frio, tem que ter horário flexível, vocês têm um centro de atendimento 24 horas.

Correto.

Tem a redação no Porto, redação em Lisboa, e vossa sede que é em Setúbal, na tua terra, a terra natal. Mas, de facto, tem que ter estas qualidades, sangue frio, tem que ter alguma coragem pra ir a estes sítios e alguma flexibilidade também mental pra aguentar com isto.

Mental e física, porque estar com o fato até na alta do calor é muito desgastante.

Suas logo, muitas horas, cinco minutos, e às vezes vocês trabalham seis, sete, oito horas.

Isso mesmo. A hidratação, o descanso não é a mesma coisa, porque estamos num cenário contaminado, não podemos tirar a máscara junto a local contaminado e começar a hidratar, temos que sair. Portanto, há muitas técnicas, há muitos passos que têm que ser cumpridos, respeitar muitas normas para não colocar em risco a vida, portanto, a parte da saúde do técnico, que nem a parte psicológica também, portanto, não poderemos lidar com isso como uma limpeza normal.

Nasceu em 2008, então tu viste este filme, Cleaner. Este filme é de 2007, com o Samuel L. Jackson, Ed Harris e Eva Mendes. E é muito giro, porque ele é um polícia aposentado, reformado, que se dedica a limpezas de locais de crime, tu viste isto, olha, nisto tão engraçado aqui. E é engraçado porque toda essa história é gira, porque a história do filme é muito gira, porque creio que houve um crime, imagina alguém que dizem que é morte natural, e entra uma pessoa pra fazer a limpeza do crime.

Aquilo oculta, portanto, é prova.

E vem-se a descobrir que afinal a empresa, ele que fez a limpeza, é que foi o perpetrador, digamos, o criminoso. É incrível, a ideia é ótima. E de facto, o filme é muito bom, tu disseste: "Olha, isto é uma ideia gira, não há cá mercado. Será que há mercado pra isto?" Percebeste que havia mercado pra isto em Portugal? Nós somos 10 milhões, 11 milhões.

É sim, eu na altura iniciei um projeto.

Sim.

E quando contava a muita gente, o pessoal ria-se.

Claro. Tu és louco, isso é na América e tal.

Verdade.

No Brasil.

Exatamente essas palavras. Eu, na altura, como estava nos Bombeiros Sapadores, ou seja, não dependia deste negócio, como disse, é um projeto, iniciou e comecei a ver o que é que o mercado respondia. Nós, o primeiro ano, os primeiros anos tínhamos três, quatro trabalhos por ano, era algo muito insignificante. Algumas reportagens também na altura deram algum conhecimento da empresa, alguma notoriedade, mas também era algo muito pontual.

Desinfecções de quarto de hotel, onde tinham estado as pessoas infetadas com H1N1.

Que na altura foi 2008, 2009, que apareceu essa.

A gripe das aves, exatamente. Foram chamados pra algumas infecções.

Sim, mas era coisa muito pontual.

Aqui e ali, sim. E vocês, é engraçado, porque tu começaste isto com um colega teu, o José Adriano.

Isso mesmo.

Pronto, que entretanto, em 2014, abandonou este projeto. Tu desfizeste dele, Pedro, sem deixar vestígios.

É um grande amigo, é um grande amigo. E se ele ouvir aqui a nossa conversa, ele sabe que eu tenho a maior saudade.

Já tinham os dois algum treino em situações de pressão similar.

E continuamos a ser grandes amigos ainda, cada um com a área que seguiu o seu caminho.

Exatamente.

Isso mesmo.

Já recebeste pedidos estranhos que tu percebeste que podiam ser criminosos pra ajudar a executar crimes ou que tiveste alguma suspeita, sem dizer nomes?

Não. Já tivemos foi situações de, parecia que alguém iria cometer um suicídio.

Ok. E que está preparadas para isso mesmo. Vai haver um cenário.

Se era a brincar ou não, desconfiamos. E algumas chamadas brincadeiras, às vezes acontece.

Muito bem. E depois, em 2014, o Ebola, as pessoas telefonaram-te aflitas nessa altura?

É sim, houve, mas como nunca.

Ou com o Covid.

E como não chegou cá Portugal, mas e com o Covid, sim. É muito importante. Nós tivemos o centro de atendimento quase por triagem, praticamente. Não conseguimos dar resposta a grande porcentagem dos pedidos.

Neste momento, tens este do hantavírus, este cruzeiro, indivíduo do cruzeiro, que foi impedido de atracar em Cabo Verde, depois nas Canárias, se não estou enganado.

Sim.

Neste tipo de casos, vocês podiam ser chamados?

Sim.

Porque morreram lá três pessoas, pelo menos.

Sim, poderíamos. Agora, normalmente, esse tipo, o fandom do hantavírus é mais de animal pra pessoa, este pode passar pessoa pra pessoa.

Uma zoonose, sim.

Sim, pode haver alguma contaminação na altura, mas é mais com a presença do indivíduo que seja o portador e o transmissor do vírus. Não quer dizer que, obviamente, o espaço necessita depois de uma correta desinfecção e uma limpeza. Mas como costumo dizer, casos como este, tirando a situação do navio, do cruzeiro, existe em muitos sítios, até na parte habitacional, e que se dá pouca importância.

A única creditada na Europa, faz questão disso, foste pioneiro aqui em Portugal, e se não estou enganado, a terceira na Europa, há três.

Sim.

Mas é a única creditada, certificada, à séria, que faz questão. Havia duas em Espanha.

Havia uma na Bélgica, na altura, e que iniciei em 2008, que foi a primeira a ser certificada pela ABRA na Europa, que depois desistiu já há muitos anos.

Ok, já não continua.

Não.

Você que levou-te a ser também.

Já há muitos anos e depois eu continuo a ser a única certificada.

Riscos biológicos, mas também químico, radiológico e nuclear, estás preparado pra isso. Vocês não ficam com todos os casos? Quanto que vos sugerem?

Não.

Há uns que dizem: "Não podemos ou não queremos, ou não estamos interessados".

Sim. O que entendemos é que é falta de sensibilidade e de literacia. É entender que se não for feito por nós, se for a família ou uma empresa não habilitada.

Empresas tradicionais.

Que não têm o conhecimento suficiente. E não têm.

Até é um bocado ilegal fazerem isso, não é?

É mesmo ilegal, não poderão fazer, porque é risco biológico, terão de ter devida formação, EPI, e quem limpa o pó à segunda-feira não vai poder à terça-feira limpar restos mortais de um ser humano.

Exatamente. E vai para o lixo.

Vai para o lixo comum, o destino do resíduo também.

E ficar mal limpo, como tu dizes, origina um trauma que pode ser maior que se se verificar um vestígio qualquer que apareceu ali.

E eu quase vou dizer que é maior, porque nós estamos a contar que vamos entrar num espaço onde não vamos ver nada e de repente encontrar um pouco de sangue, ou osso, ou até tudo o mais que se pode calcular no caso de um suicídio.

Muito bem, Pedro Badoni, temos de fazer aqui um brevíssimo intervalo. Já voltamos à conversa, até já. Estamos a conversar com o Pedro Badoni, ele é fundador, CEO e porta-voz da Death Clean, empresa portuguesa de limpezas técnicas especializadas, pioneira em Portugal e única certificada internacionalmente na Europa. Estamos a falar aqui de empresas que fazem isto e que não deviam. Há quem queira fazer isto, mas sem especialização, o que é mau. Portanto, há sempre esta necessidade da formação. Tu todos os anos vais aos Estados Unidos atualizar-te e continuas com isto todos os anos, como já falámos disso. Há uma formação anual e há também materiais que vocês importam de lá. Quer de máquinas, quer de próprios materiais, têm que vir de barco, não há companhias aéreas que queiram trazer coisas perigosas, inflamáveis.

Sim, se for a nível de produtos, temos duas soluções: ou encontramos alguém na Europa que consiga fazer essa distribuição, porque, por exemplo, em Inglaterra também há umas empresas.

Não há cá mercado disso?

80% dos produtos terão de ser importados. Por quê? Porque é um mercado que já explora há muitos anos e que nós aqui não conseguimos ter algo que seja igual. E testar um produto numa intervenção não funciona assim, neste tipo de trabalho.

Produtos, materiais e máquinas.

A nível de máquinas, 100% são importadas. Em Portugal não conseguimos encontrar. Por vezes conseguimos algum fornecedor na Europa que lá está, que importa dos Estados Unidos e distribui, e nós vamos adquirir, mas é sempre muito complicado e com custos muito elevados. Seja o produto, seja máquina. EPI, equipamento de proteção individual, aquilo se consegue sempre em Portugal.

Fatos completos, com as máscaras, máscaras anti-odor.

Sim, temos vários tipos de equipamentos de proteção individual.

Esse FFP2V, este tanto de coisas que vocês usam.

Sim, tem a ver com a parte de proteção a nível filtrante, P2, P3, partículas.

Isto resulta como, por exemplo, o surströmming, aquele arenque apodrecido na lata, que na Suécia é considerado o pior cheiro do mundo.

Nós temos uma mota para abrir. Ainda não abrimos, mas temos.

Só pode ser no ar livre, nunca abram isso dentro de casa, acho que isso é perigosíssimo. Remover cheiros implica também purificador de ar para uma casa ficar, depois de um cadáver que lá esteve em decomposição. É preciso dois ou três dias para desodorizar.

O que nós fazemos é recriar aquilo que a natureza ia demorar meses, ou anos, por vezes, fazemos em poucos dias.

Tem que ser.

Com técnicas, produtos e com máquinas próprias para conseguir recriar e remover, digamos, eliminar e não disfarçar o mau odor.

Exatamente. O sangue é sempre um risco biológico, por portador de vírus, infetocontagioso, qualquer coisa. É incrível, há quem diga: "Nós limpamos isso com lixívia". Mas é um mito, não limpa.

A lixívia não limpa, nem nenhum desengordurante. Já estamos a falhar.

Isso é o que a gente vê também muito nos filmes, a traseira do carro com lixívia. Mas depois o luminol, os ultravioletas descobrem a mesma sangue.

Claro.

Depois da lixívia passar, que é um ácido.

Sim, porque a lixívia não está a limpar. No fundo, é um produto tóxico, um produto corrosivo, um produto que até é muito perigoso para a nossa saúde, se usado ora bem, de acordo com os gases que emite. Aliás, se nós usássemos o lixívia, conseguimos adquirir em Portugal facilmente, se quiséssemos. A lixívia não é o truque para limpeza de sangue. Para nada disso. Existem produtos próprios mesmo para o sangue.

Há outras coisas. Por exemplo, eu vi uns filmes vossos, os tacos do soalho. O sangue cai no taco, vocês têm que levantar o taco e a madeira e às vezes ir até ao cimento do chão. Isto daqueles fluidos.

Ou seja, basta imaginar água a infiltrar no chão. Portanto, vai infiltrar. O mesmo acontece com o sangue, mas a diferença é que o sangue vai entrar em decomposição, se já não está. Vai entrar em decomposição, vai emanar odores, fungos, bactérias, essencialmente. Portanto, vai acabar por apodrecer. E o que nós estamos a ver é que muitas empresas chegam, passam a esfregona, onde depois a seguir vai haver claramente contaminação, vai haver maus odores.

Depois vai acabar por levantar, empolar.

O desconhecimento nesta área existe muito, então esses erros serão cometidos.

Há outras coisas que vocês também têm a ver com, por exemplo, os dejetos de pombos, sobretudo de ratos. Estou a falar dos hoarders, por exemplo, os acumuladores intensivos. É uma coisa que vocês cada vez mais têm, não é?

Temos muitos casos, muitos mesmo. Insalubridade e acumulação.

Uma descompensação qualquer. Às vezes vocês dizem celebridades. A gente não pode falar, porque se a gente falasse, meu Deus, mas até há pessoas que começam a acumular, acumulação, descompensação qualquer, mental.

Normalmente, as pessoas moram sozinhas, perderam alguém ou está associado a um síndrome.

Sim, uma falta.

Isso mesmo. E nós temos mais casos de insalubridade do que acumulação. Tivemos uma casa de banho com fezes humanas, que não é limpa durante anos.

Aquele homem que tinha as fraldas.

Sim, uma pilha de fraldas atrás da porta e guardava porque iria apresentar em tribunal.

Com fezes e com urina, porque queria que fosse prova que o engenheiro de cima estava a mandar radiações.

Isso mesmo. Sim, verdade.

Então vivia com aquilo.

É verdade.

Enquanto isso ele tinha um problema de esgoto.

Era uma situação muito caótica e que não é a única, não foi a primeira e certeza que não foi a última.

São chamados muitas vezes por causa disso, não é? Acontece cada vez mais.

Sim, cada vez mais.

Aquela em Sesimbra, há uns anos, duas adultas e uma criança de quatro anos que viviam no meio do lixo, três pisos com lixo, dejetos humanos, animais. Aquela moradia que tinha uma criança com dois ou três anos e tinha sete gatos. Vocês apanharam esse caso? Sete gatos em decomposição com a mãe e a avó.

Isso foi na Quinta do Conde, em Sesimbra. Foi um caso muito mau. E conseguimos intervir porque a CPCJ-

Foi retirar a criança.

Retirar a criança e a partir daí acabou por sair a mãe e a avó e tivemos a oportunidade de fazer a intervenção, porque por vezes não é possível, a pessoa terá que autorizar. Mesmo que seja o instituto público, tem que ir para tribunal e demora muito tempo. Se há uma criança, é mais célere.

Sim, claro. Os lençóis que são sempre incinerados, nos processos de decomposição, têm que ser eliminados.

Sim, portanto, tudo que é material, o que nós chamamos resíduos de risco biológico, são colocados em contentores.

Os colchões têm que ser rasgados e todos desmontados. Mola a mola.

Sim.

Não dá para aproveitar um colchão, lavar muito bem.

Não dá.

Não dá!

E nós temos provas de um colchão cortado e por baixo, toda a infiltração que houve.

Não sei quantos litros.

É assim, ainda é uma quantidade, ainda é algum peso. Nós temos que separar o teste, o contaminado do não contaminado, a parte da mola do tecido. Há muitos seguidores que nos perguntam: "Mas por que razão vocês estão a cortar se isso pode ir tudo para queimar?" Não se queima. As coisas queimam-se dentro de um contentor, não se queima no quintal, na parte de trás da casa.

É como os hospitais. Têm estes biohazard.

Exatamente igual. O destino é o mesmo, autoclave, incineração.

Os hospitais têm aquelas chaminés grandes, porque têm que dispor, eliminar aquelas coisas que vêm das agulhas e que vêm não sei o quê.

Hoje em dia já existe mais um cuidado nessa incineração.

Autoclave são espécies de micro-ondas gigantes.

Isso mesmo. Correto. É conforme o tipo de resíduo. Normalmente, o que é cortante vai para incineração. O nosso material é mais para autoclave, só se for alguma peça anatómica ou algo identificável que deverá de ir para incineração. Mas o destino é esse, é resíduo hospitalar, resíduo perigoso.

Isto é um outsourcing que vocês fazem. Tem uma empresa na Chamusca, o que é?

Não é nossa.

Fazem por fora, não é?

Sim, ou seja, entregamos o resíduo a um operador.

Como tu dizes, o resíduo é um grande negócio.

Nós somos considerados o produtor e o transportador. Existe depois quem faz a eliminação, que entregamos a um grande operador, que faz o tratamento final.

Que dá o destino devido aos resíduos contaminados com os quais vocês lidam. As outras empresas não põem os resíduos nos sítios certos.

Nós temos uma guia do ambiente associado a esse mesmo trajeto de resíduos, em que uma empresa comum nunca terá essa guia para apresentar.

Então não há fiscalização.

Há uma grande ausência de fiscalização.

Há uma lacuna grande nesta área.

Apesar de nós participarmos muito, mesmo com a ACT, com a Agência Portuguesa do Ambiente, tentamos ao máximo mostrar que há uma necessidade, há uma lacuna, por vezes as respostas não surgem. Mesmo quem tem vontade de mudar algo, não consegue mudar na base, tem que ir ao topo.

Exatamente.

E isso demora muito tempo.

É sempre um trabalho muito complicado. Estou a pensar aqui em mais casos que vocês tiveram. Em Pedrógão Grande, por exemplo, vai fazer 10 anos para o ano que vem. Foram chamados por duas situações. Estes grandes incêndios que fizeram 66 mortos, 250 feridos. Tiveram este problema com uma viatura da Proteção Civil que recolheu vítimas no local. E esta outra viatura que serviu de arca provisória, arca funerária, mas teve uma avaria e portanto apodreceu um bocado lá dentro.

Ou seja, a própria viatura da Proteção Civil, que é um pesado, não estava a funcionar a parte de frio. Então nós tivemos que tratar de tudo aquilo que lá ficou depois de remover os cadáveres.

As fluidos, os cheiros e tudo.

E depois foi necessário encontrar também, a parte do Instituto Nacional de Medicina Legal e Proteção Civil, uma morgue improvisada para colocar os corpos.

Que já tinham começado a cheirar.

Fazer o processo de autópsias, etc.

Isto tudo estava encontrado nas traseiras da morte, naqueles sítios?

Isso mesmo.

Caramba. Estou a pensar também em outro caso, que também vai fazer 10 anos, nesta freguesia de Tamel de São Veríssimo.

Recordo-me bem.

O António Briote, o monstro de Barcelos, que assassinou quatro pessoas à facada.

Verdade.

Incluindo aquela grávida, uma grávida de sete meses.

E foi um caso onde eu estive com muitos técnicos.

Tu tiveste um cenário inacreditável.

Verdade. E depois ainda associado uma situação de que a senhora estava grávida de sete meses. Nós lidávamos diretamente com o marido. Muito pesado.

Inconsolável.

Sim, muito pesado.

Como disseste, uma coisa tão impressionante como o olhar do marido, o único sobrevivente daquela tragédia.

É verdade.

De facto, é preciso ter-

E que ele não estava em casa, estava a senhora sozinha, e tinha uma filha menor de sete, oito anos, que hoje já deve ser maior de idade, possivelmente, dado os anos que já passaram.

Sim.

E são casos muito marcantes que nós sentimos que a família ficou despedaçada.

As empresas convencionais fazem no mais barato, mas também não há esse perigo do monopólio. Pedro, tu és o único Não há esse perigo de poder pôr o preço que quiser. Vocês têm fama de ser caros, mas é o nosso material, o nosso estado 24 horas, a equipa faz, de facto, um trabalho cinco estrelas, chamam-nos para as coisas mais incríveis, já vamos falar das avionetas, mais incríveis. De facto, há outros que fazem mais barato e as pessoas torcem um bocado o nariz às vezes, mas por serem um monopólio também não é um bocado perigoso? Não devias ter uma concorrência? Tu esperas que não.

É assim, nós temos concorrência. A concorrência é que não é certificada.

Ninguém é creditado.

E não é especializada.

Então é legal, neste sentido, quando fazem esses trabalhos.

Isso mesmo. O que nós dizemos ao nosso cliente é: não é ter o monopólio quando o mercado está aberto para todos, os outros é que não querem ser certificados, nem acreditados.

Exatamente. Não há nenhuma lei que diga só o Pedro é que pode fazer isto.

Ora bem, ou seja, eu quando iniciei, podia também fazer malfeito, podia não ter certificação.

Mas está lá há 18 anos e ninguém mais pegou nisto.

Porque não é algo que seja fácil pegar e tem muitos custos para fazer como deve ser. Produtos, equipamentos e certificações. Não basta estudar, basta todos os anos mostrar que nós estamos atualizados e renovar essas certificações, que a lei portuguesa obriga a ser certificado, não diz como e onde, mas que não há grande interesse também em se procurar ter o melhor conhecimento e fornecer ao cliente o melhor serviço. E aí, até entendo, não concordo, mas entendo empresas externas que é mais barato, não tem que me preocupar com nada. Mais barato, até vou aumentar a probabilidade de ser aceito.

Exatamente. Faz impunemente.

O cliente é que não tem conhecimento, a família não tem conhecimento do que é a diferença. Não conseguimos ter um portfólio, não conseguimos mostrar o que é o malfeito e o que é bem feito. Porque um trabalho malfeito, o cliente não consegue avaliar que é malfeito, mas nós conseguimos, porque nós que não estamos lá, não somos a entidade certificadora.

Depois não sabem que pode aparecer um vírus, pode aparecer uma coisa.

E quando aparece depois, a pessoa não sabe como resolver.

A grande vantagem cá também, e vocês até aceitam pagamentos faseados, essas coisas todas, fazem orçamento, vão avaliar o local antes. Mas cá até a grande vantagem é que nos Estados Unidos os seguros pagam essas coisas, cá não.

Não, cá não pagam. E mesmo quando os seguros pagam em Portugal, que é o caso de águas de esgoto, quando aparece uma inundação dentro de casa, caves, restauração, uma loja, as pessoas não lutam muito contra o seguro, ou seja, não tentam ir contra o seguro. Temos poucos casos de clientes que o fizeram e tiveram retorno.

Não há jurisprudência de terem conseguido ganhar a uma grande empresa dessas.

Nem tentam. O seguro diz que pode ir uma empresa doméstica e as pessoas aceitam, com muita falta de conhecimento nesta área.

Porque é uma empresa, de certeza que tem uma bateria de advogados especialistas.

Isso mesmo.

Com a prática e o tempo, vocês técnicos dessensibilizam-se? 18 anos depois, ainda ficam marcados, ainda custa muito, às vezes? Ou já estás tão habituado que já não...

Cada caso é um caso. E nós sentimos sempre aquela realização pessoal de que o cliente entra, olha, fica espantado com a parede branca. Nós até primeiro perguntamos a nós próprios: "O que é que o cliente esperava?"

Deve ser o maior orgulho que vocês têm.

É a gratificação de sentir que a pessoa sente mesmo.

"Ajudou-me a família."

Isso mesmo. Isso é a parte mais gratificante.

De facto, o sítio onde o pai se matou ou o filho fez a tragédia.

Mais casos, sim, de homicídios e suicídios, a parte mais traumática. A decomposição ou é um inquilino ou é um familiar mais afastado.

Aí é o senhorio cava, o senhorio nos casos.

Por vezes a própria família também.

Como tu dizes, ou é o Estado, em certos casos, coisas públicas.

Isso mesmo.

Ou então é o proprietário da casa.

Correto.

As vossas equipas também podem rodar e ter casos diferentes conforme os dias.

Tentamos.

Vocês já tiveram empregados que ao fim de uma semana disseram: "Não aguento mais."

Já. É muito difícil suportar, é muito difícil manter, porque é um trabalho muito desgastante e que acredito que ninguém acorda e diga-

Não tem glamour, como tu dizes.

Não tem glamour.

É um aviso.

E ninguém acorda a pensar que eu nasci para isto.

Certeza.

Exatamente, certeza.

Nunca nenhum trabalhador teu saiu por estar demasiado afetado?

Que eu tenha conhecimento, não.

E há mais casos impressionantes. Estou a lembrar este de 2012, no Infantado, em Loures.

Sim.

Um namorado e uma mulher matou-a no carro, subiu à casa dela, entrou no quarto do filho, estava a dormir, tentou matá-lo com arma de fogo, não conseguiu, matou-o com um haltere e havia sangue esguichado por todo aquele lado, nos pôsteres e nos cadernos.

Recordo-me desse caso.

E há casos que estavas aqui, e há casos que te marcam assim?

É porque nós entendemos a envolvência e pensamos: o jovem estava a dormir, não tem culpa nenhuma, aliás, não havia razão para querer matar a ex-companheira.

E depois ir vingar-se no filho também.

Pois, não tinha razão. E nós sentimos toda essa envolvência e lidamos com isso no sentido de analisar e pensar assim: a vida perdeu-se, nós estamos cá para tratar, mas sem razão nenhuma. São situações que para nós não conseguimos evitar a espetacularização.

Este em Sesimbra, o pai que mata a mulher e a enteada e depois se suicida.

Isso foi o ano passado também, recordo.

E fica um bebê no chão.

Sim.

Ficou um bebezito.

Sim.

Vocês quando chegam já não há corpo. Vocês também são quase psicólogos. Tens alguém na equipa, psicólogo mesmo, ou não? Quando precisas, chamam alguém?

Não temos. Temos contatos mesmo de clínicas, uma das clínicas que trabalhamos e que indicamos à família, se for necessário, para o processo após a morte.

Às vezes com luto.

Ajuda muito.

As pessoas que vos contactam acabam por desabafar com vocês, especialmente quando se trata de casos de mortes violentas ou suicídios de jovens, por exemplo, acontece?

Desabafam muito, ou seja, tentam dar um enquadramento da história, tentam também sentir algum apoio e que nós também tentamos não dar uma opinião, porque não estamos aí para dar opiniões, nem julgamentos, mas sim tentar acalmar a pessoa e fazer aquilo que está ao nosso alcance, dentro do nosso conhecimento e lidar com muitas situações dessas. Mas claramente que sentimos que a pessoa necessita sempre de algum apoio psicológico, um psicólogo ou a própria família também apoiar, que são momentos muito traumáticos.

Vocês têm sempre que informar a polícia quando entram num local destes. É obrigatório?

Por lei, não é obrigatório, mas nós fazemos sempre. Devia de ser, claro que sim.

Eles chegam a descobrir coisas, projetais, que passou à Judiciária, passou aos CSI portugueses.

Sim.

Isso vocês descobrem e depois têm que os informar.

Isso mesmo. O que nós fazemos é fotografamos sempre antes, comunicamos se encontrarmos algo que, por vezes, eles até Não digo desvalorizar, mas não era necessário para prova, porque na altura encontraram aquilo que era necessário, mas que depois chegou a ir ao local recolher. Existe aqui alguma proximidade até com a parte da Polícia Judiciária, que eu chego até dar formações da parte de risco biológico aos mesmos, que é uma carência também da parte das forças de segurança.

Essa informação. Devias dar à Polícia Judiciária.

Sim.

Claro. O número de casos que vocês recebem, eu estou aqui a lembrar que nos anos 80, anos 90, por exemplo, homicídios, é mais de um por dia, a média era 400 por ano, ainda era bastante nessa altura. Hoje em dia, em 2024, houve 89, 2025 houve 108 homicídios em Portugal. Como dizia o Carlos Ademar, numa conversa contigo: "89 é um fim de semana animado no Rio."

Claro.

Extraordinário. Muita sorte temos nós. Suicídios, tu dizes, havia muitos com armas de fogo, com caçadeiras, não era? Ou são caçadores ou têm armas em casa, isso acontecia muito, mas que hoje também tem havido menos.

Sim, porque o que nós sentimos é que as pessoas acabam por falecer e as armas não ficam para os filhos ou para os netos. São entregues à autoridade, porque a licença de uso e porte de arma, caçador, hoje em dia já não é tão usual como era antigamente. E então sentimos que há menos pessoas com armas de caça, o que baixou os suicídios cometidos com essa arma.

E já tiveram também enforcamentos, por exemplo?

Já, mas que em termos de decomposição é muito raro acontecer, um ou outro caso, mas que em termos de decomposição.

Tu dizes, quando é com uma arma de fogo, o que fica é, como tu dizes, da lata.

Imagina uma lata de tinta rebentar.

Vermelha.

Numa divisão.

Se a porta está aberta, até o corredor vocês têm que ir limpar.

Sim. E por vezes a projeção atinge a parte de ossos, portanto atinge zonas muito adjacentes, derivado à velocidade da projeção desse fragmento ósseo.

Esta limpeza de dejetos de pombos e ratos, que são muito perigosos para a saúde pública, tem acontecido mais vezes?

Temos muitos pedidos. É talvez aqueles que mais pedem e mais recusam, porque as pessoas depois: "Eu sou capaz de fazer isso." Ser capaz é uma coisa, porque não tem trauma, obviamente, mas o risco que estão sujeitos. Nós alertamos que pode ser uma varanda, pode ser um espaço armazém e vai ir por ratos, mas as partículas em suspensão durante essa limpeza, a ausência de conhecimento do EPI correto a usar, obviamente vai causar-

O fato também varia. O fato que vocês usam também varia conforme os casos?

Sim, mas existe a parte respiratória. A parte respiratória é aquela que é mais importante e que nós temos com mais diferença de utilização conforme o tipo de cenário. Com odor, sem odor, o risco.

Já te deparaste com trabalhos impossíveis?

Não, mas já tivemos pedidos que numa primeira análise seria: "Seremos capazes? Isso é um pedido fora da caixa".

Fora da caixa.

Tivemos uma situação de um elevador.

O técnico do BPI que estava a repará-lo e caiu.

E o mais fora da caixa foi já duas ou três aeronaves que iam baixo.

Ok, isto que foi no Porto e em Ponte de Sor.

Sim.

Em 2016 e outra 2018. Mas aí ficam com os corpos do piloto lá dentro e do copiloto?

Eles removeram os corpos, mas ainda ficaram alguns vestígios, porque aquilo é como se fosse um monte de metal.

Uma amálgama de ferros e de fibra.

A nossa função seria ter que separar tudo, limpar, o que cortávamos e etiquetávamos, que era para conseguir a investigação, saber se éramos nós a cortar para conseguir limpar, se era do acidente ocorrido. Foi algo realmente um grande desafio e conseguimos superar.

Esta revista, Biohazard Mat, ainda existe?

Existe, sim.

Uma revista que tu és diretor.

Sim.

A única revista nacional especializada em risco biológico e químico, e tem como lema "O risco biológico e químico de A a Z". Teria sucesso uma série querida, Limpei o Local do Crime?

Se calhar, tinha.

Estou a ver-te ator principal.

Se calhar, tinha.

Pedro Badoni, tu não tens um trabalho nada fácil, mas o trabalho que tu tens é necessário. Não é fácil, mas é necessário e fico contente porque tiveste essa disponibilidade em vir aqui, diretamente, que és tu a falar conosco e fazes muito bem. Informas-te e tens essa preocupação profissional de fazer uma coisa muito bem feita e na tua área, que não há mais ninguém. E na Europa é muito raro encontrar. E por isso quero te dar os parabéns.

Obrigado.

Grande trabalho. A começar pela campanha dos autores que falámos.

De marketing.

É extraordinário como aquilo funciona e ficamos a saber que existe este contato, existe este site, deathclean.com. Tudo que a gente puder ajudar e divulgar, conta conosco. Muito obrigado e muitos parabéns, Pedro.

Eu é que agradeço. Muito obrigado.

Muito obrigado.