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Damos agora as boas-vindas à convidada extra de hoje, Lúcia Vaz Pedro, que nos vai fazer companhia até às 21h. Boa noite, Lúcia.
Boa noite.
E muito obrigado por ter aceitado este nosso convite.
Eu é que agradeço.
Disse bem em ter aceitado?
Sim, pode ver que sim.
Pronto. A professora Lúcia Vaz Pedro.
Ana Lúcia.
A professora Lúcia Vaz Pedro.
Vai escrever 100 vezes.
Vou escrever 100 vezes no quadro.
100 vezes.
É melhor dizer agora, senão depois não vou acabar a chamar-te Ana Sofia.
Ana Sofia é a minha filha.
A professora Lúcia Vaz Pedro é professora de Português e de Francês.
Exatamente.
Se não me engano, numa escola. Ela nasceu em Gaia, Oliveira do Douro, portanto fica em Gaia, e também tem uma FAMUD. Ela estudou no Porto, tem um sotaque, que já vão reparar, do norte, do qual muito se orgulha. É muito importante dizer isso.
É verdade.
E há 28 anos que é professora de Português e de Francês. Além de uma coisa curiosa que ela faz é, nas aulas, para acalmar os alunos. Tiveste uma ideia muito gira para acalmar os alunos mais indisciplinados. Um dia convidaste os pais e os encarregados de educação para estarem presentes nas aulas.
Não é um dia, é sempre.
E de vez em quando até pões poesia que tu própria escreveste e os alunos acalmam um bocado. Baixas a luz, pões um bocado de música e dizes poesia para acalmá-los. Isso resulta?
Não só para acalmar, mas também para que eles despertem emoções. Não se consegue ensinar a alunos que não estejam virados para o mundo, alunos que não tenham sensibilidade literária, alunos que não sintam o mundo, as coisas e as pessoas que os envolvem e a natureza, e não tenham os sentidos, no fundo, despertos, abertos ou apurados. A poesia associada à música proporciona-lhes esse tipo de sensações. É óbvio que muitas vezes vira-se o feiticeiro contra o feiticeiro, porque eles gostam tanto que às vezes dão um cabo da cabeça, só querem: "Um poema, professora, um poema".
Pois, e consegues dar o currículo inteiro que eles pedem?
É complicado. Às vezes são os meus intervalos que ficam dependurados, a bem dizer, porque dou-lhes um poema no intervalo. E quando eu tenho que dar gramática, às vezes é dramático.
A Lúcia Vaz Pedro tem uma coisa: é apaixonada, isso sim, pela vida, além de ser pela vida, é pela língua portuguesa. E ela diz que temos uma das línguas mais ricas, mais faladas e mais bonitas do mundo.
É verdade.
Estás completamente consciente disso. Tu também dás formação para professores e não só. Tiveste um programa no Porto Canal, que é o dossiê do bom português.
Sim, Português Atual.
Português Atual, que aliás, saiu depois um livro também com algumas dessas dicas. E ensinaste português no Futebol Clube do Porto. Como é que isso foi?
Ora bem, isso não foi bem no Futebol Clube do Porto, foram as jornalistas que trabalhavam no Porto Canal e que foram ter formação ao Futebol Clube do Porto. Portanto, às instalações do Futebol Clube do Porto.
Tem um livro que já vamos falar. Tem vários livros. Aliás, escreveu mais de 30 livros.
Com este, já são 40.
Quarenta. Entre livros infantis, alguns livros dedicados à língua e, por exemplo, este que eu tenho aqui na mão, que acabou de sair, manuscrito, uma essencial da presença, chamado "Camões conseguiu escrever muito para quem só tinha um olho". E outras respostas disparatadas em aulas e testes de Português. Claro, já perceberam, é uma professora que ao longo de 28 anos de carreira na docência, ao longo desta vida de professora, tem tentado tomar notas e já me disse há bocado que voltou a estar com o caderninho atrás para tomar nota das melhores. Há algumas até de hoje, é impressionante.
De hoje, não, de ontem.
Da última aula que deu.
No meu oitavo dia, eu tinha prometido que falava deles. Não, não foi o oitavo dia, foi mesmo o oitavo éter. Ontem eu perguntei-lhes qual era o plural de mar e eles responderam que era oceano.
Pronto, e conversas da imensas que nós vamos aqui ver com muita calma. Uma das coisas que ela consegue fazer é pôr as pessoas a rir e a falar do português. Isso é muito importante, com humor, muita coisa se pode aprender. E, por exemplo, chegou a dar aulas em Macau, na China, e aconteceu uma coisa extraordinária.
É verdade. Consegui pôr os chineses a rirem e a chorarem, ou melhor, a exprimirem emoções.
Num curso de Português.
Num curso de Português, com a língua portuguesa, sentir. Acho que sentir através da palavra é das coisas mais fantásticas que há, porque a nossa língua é cheia de sensações, tem muitos sons, tem muitas palavras que transmitem emoção, para além da emoção que está intrínseca ao próprio sentido da palavra. É uma língua extremamente rica em sinônimos, em léxico, e nós conseguimos viajar através da língua, através das palavras. E eu acho que o povo chinês é um povo muito apático.
Mais frio, se calhar, mais distante.
Sim, mais distante, com uma grande avidez de aprender, um grande respeito pelos professores, que no início nem sequer me olhavam nos olhos e que acabaram o curso a abraçar-me.
Pronto, isso mostra uma grande evolução e um importante trabalho.
Uma grande evolução ao longo de três semanas, apenas.
Também és colaboradora da "Ciberdúvidas", é um site que eu uso bastante, o "Ciberdúvidas" da língua portuguesa. Já em janeiro, faz 22 anos que existe E que tem vários colaboradores que de segunda a sexta respondem às dúvidas que as pessoas põem, desde ortografia, fonética, etimologia, sintaxe, semântica e pragmática. Entre as 12 áreas que abrangem, tem uma que é muito importante, que tem muito a ver contigo e com este livro, que é o glossário de erros mais frequentes. Tirou-se de lá coisas muito interessantes e tem outros sobre o acordo ortográfico, mas já lá vamos. O glossário de erros mais frequentes até está por letras, o que dá imenso jeito. Logo no A, por exemplo, diz que a gente deve dizer ADN, à portuguesa e ácido desoxirribonucleico, e não DNA, que isso é à inglesa. Ártico e Antártico, como se deve dizer. Açoriano com I sempre, e não com E.
Por causa dos Açores, que as pessoas confundem.
Exatamente, como Açores é escrito com E. À parte, que não tem acento nenhum, nem nunca teve ou não se usa. A diferença entre afim e a fim. Esse tipo de coisas.
É uma locução.
É muito importante estes erros mais frequentes que podemos ir sempre buscar ao site da "Ciberdúvidas", onde a Lúcia Vaz Pedro é colaboradora. Eu estou aqui e de vez em quando não resisto a ler umas coisas do livro dela. Por exemplo, quando ela perguntou num teste: "Diga cinco características do Romantismo", referindo-se claro ao período da literatura e das artes, que era o Romantismo. E claro que a resposta foi: "Primeiro, ser carinhoso, segundo, oferecer flores, terceiro, oferecer bombons." Esse tipo de coisas que os alunos respondem. Ou, por exemplo, num teste: "Escreva a seguinte frase e diga o que pensa: a fada Oriana é um livro interessante." E o aluno escreveu a seguinte frase.
"A seguinte frase e não penso nada."
Pronto, escreva a seguinte frase, ele escreveu a seguinte frase. E depois diga o que pensa. Não penso nada.
Não penso nada.
E está a resposta feita e esperam passar em Português. Pronto, muito bem.
Não, mas os alunos que são muito sinceros.
Não, mas é como o outro: "Eu não sei nada, professora." Nem uma nega.
Nada, nem me nega, não sei nada. Ou então: "Ó professora, corrija a resposta da Maria, eu estou de acordo com ela."
Exato. Outra aqui extraordinária, diz.
Ou então: "Está incompleto, professora."
Como processo de ajuda. A professora Lúcia Vaz Pedro por cima, depois comenta no teste com bonequinhos e tudo, e há alunos que até com ela.
Não, e eles não perdoam. "Ó professora, não pôs bonequinho no meu teste."
Uma vez na escola, nas aulas: "Hoje vamos escrever um texto, o tema é livre." O texto do aluno: "Livre. Ser livre é não estar preso. Eu gosto de ser livre. Livre é bom. Podemos voar, sair quando queremos, passear e brincar. Ser livre é maravilhoso." Pronto, são alguns exemplos, e os exemplos são incontáveis neste livro.
Olhe, eu diria que nunca se pode fazer isto. Em termos de didática, não se deve mandar escrever um texto livre. Tem que ser segundo uma tipologia textual. Por acaso, este exercício não foi meu. Eu vou tirando também exercícios de alguns testes e exercícios de outros professores que me dão para eu ver.
Sim, já te conhecem também na escola.
Sim!
Também te conhecem e trazem de graças. Professor de História, de Física.
O mais engraçado é quando eu dou formação de professores e chegamos à parte da expressão oral e eu os corrijo, e depois eles chegam à sala dos professores e não falam comigo. Cumprimentam-me por gestos.
Por causa disso, dos professores todos aproveitarem-se da Lúcia e darem-lhe também questões. Estou a falar de História, de Matemática, de Ciências, de Física. E então, por exemplo, este aqui que ela depois pôs no livro, num teste de Matemática: "Observe as figuras geométricas e dê-lhes os nomes." E claro, era um triângulo, um quadrado e um retângulo. E então a resposta do aluno é: "Paulo, Pedro e Patrícia."
É porque a idiotice é transversal.
Sim, incrível. Tu, nos Maias, quando dás, por exemplo, os Maias, dás os livros obrigatórios do programa, comenta a estrutura de "Os Maias", tendo em conta o título e o subtítulo. Resposta: "Os Maias, um povo de origem incerta, estabeleceram-se no sul do México."
Olha, eu fiquei tão chateada, tão aborrecida, porque eu não gosto da palavra chateada. Fiquei aborrecida. Eu pensei assim: "O que este miúdo esteve a fazer nas aulas?" Eu esforcei-me tanto a dar os Maias, li passagens. Ele não esteve nas aulas. Eu estou a ver a carita dele, que era um miúdo superquerido, supergentil. E era mesmo delicado comigo, mas ele enganou-me. Ele não ouvia nada o que eu dizia, porque ele nem sequer sabia o título do livro. Sério, ou eu sou muito chata.
Ou teve uma branca e foi para a história.
Não sei, eu acho que ele devia estar a fazer outra coisa qualquer, com a cabeça no ar ou a pensar noutra coisa qualquer, não sei.
Nos Maias também tem aquelas-
Tem o Devaldo, o Afonso.
O Devaldo, o Afonso lhe provou, que era um colégio católico. Portanto, isto tem a ver com uma frase dos Maias, do livro do Eça de Queiroz, que depois o aluno disse: "Dê um sinônimo de Devaldo", e ele pôs Travesseiro.
Eu penso que a mais-valia deste livro é que concilia esta vertente lúdica.
Sim.
E é isso que puxa os alunos para a leitura do livro.
Mas ensinas e corriges, que é muito importante.
Exato. E depois tem a vertente vamos aprender.
Claro.
Onde existe uma sistematização da matéria, há uma resposta tipo, um cenário de resposta. E depois há uma sistematização que permite ao aluno ver como é que se deveria responder. Não vamos começar a rir outra vez.
Sim, porque pergunta dos alunos: "Nome, dê o feminino." Aldrabão. Resposta deles: Aldraboa.
Aldraboa.
Cão. Canela.
Estou me a lembrar. A propósito disso, neste início de aulas, estive a fazer revisão também do feminino e do plural. E houve, a propósito do zangão, diz-me um aluno: "O feminino de zangão é zangona."
Sim, anão, anoa, também é. Sim. Tu apanhas uns extraordinários. Eu vou depois encontrar aqui e não resisto a deixar de passar alguns exemplos destes que tu tens. Por exemplo, daqueles que eu gosto muito, que é os superlativos.
Mas há um do Cavaleiro da Dinamarca que eu vou ter que contar. Ainda tenho tempo.
Claro que sim.
A propósito do "Cavaleiro da Dinamarca", que é uma obra da Sophia de Mello Breyner, de leitura obrigatória no sétimo ano, aconselhada para dar, em que a professora pergunta por que motivo o cavaleiro vai passar o Natal em Belém e o aluno diz que ele vai passar o Natal em Belém porque quer passar o Natal com Jesus Cristo, os reis magos, as ovelhas e os burros. E eu depois comento: "Mas que é? Morreu? Coitado, está no presépio".
E esta coisa também desse mesmo livro refere qual o tempo verbal predominante no parágrafo destacado. E a resposta: o tempo deve ser frio, porque é noite de Natal.
É noite de Natal.
É extraordinário. São neste momento exatamente 20h30. Lúcia, vamos fazer aqui um intervalo muito rápido. E voltamos aqui à conversa com Lúcia Vaz Pedro, aqui com o seu livro "Camões conseguiu escrever muito para quem só tinha um olho". Lúcia, eu encontrei esta página que eu estava à procura entre os vários erros que tu aqui falas, que os teus alunos fazem, os teus alunos e não só, se calhar alguns também que foste apanhando. Por exemplo, quando tu pedes o superlativo absoluto sintético relativo aos adjetivos, e há outras que eu adoro. Por exemplo, adjetivo pobre e respostas erradas dos alunos. Qual é o superlativo, o máximo de pobre? Desgraçado.
Desgraçado.
Em vez de paupérrimo. Ou, por exemplo, áspero. O superlativo: que pica.
Que pica?
Em vez de aspérrimo. Nem toda a gente sabe isto, atenção. Sábio, a resposta deles: sabiosíssimo, em vez de sapientíssimo. Ou então o grau normal. Dás um, por exemplo, paupérrimo, e eles têm que dizer que é pobre. Há quem tenha paupérrimo, põe pau.
Pau.
É extraordinário.
Só tira.
Crudelíssimo, põe cordel. É extraordinário. Antiquíssimo é o superlativo de velho. Eu acho isto extraordinário e este livro fez-me rir muitíssimo, tenho que te agradecer por isso.
Mas eu acho piada porque eles dizem: "Eu não faço isso". "Ó professora, eu não faço isso", mas fazem.
Mas fazem.
Mas fazem.
E depois a prova disso, a prova escrita.
Porque depois, em relação, por exemplo, a esta semana, esta semana, não, foi a semana passada, porque nesta semana estou a dar as funções sintáticas. Eles dizerem-me: "Ó professora, estamos a dar o feminino? Estamos na quarta classe. E o plural?" E depois fazem aquelas barbaridades de nos chamarem zanguana ou peixaria, nos nomes coletivos.
Isso é o coletivo de peixe, peixaria.
Ou então chamarem de oceano ao plural de mar.
Exatamente. Outros professores, como por exemplo o de História, vem ter contigo com estas graças, ao plano. Antigamente, na França, os criminosos eram executados com...? E eles: gelatina.
Não, é dizer que a guilhotina, que é uma faca de cortar sem fazer sangue.
Sim, é extraordinário, realmente.
Não, mas é assim. Eu, por acaso, na semana passada vim a Lisboa e fui de avião e ao meu lado ia uma rapariguita, uma miúda, que era youtuber, e ia sentada ao lado de um rapaz e eu ia ouvi-la muito atentamente, e a minha filha também, que ela veio comigo. A certo ponto, nós começamos a perceber que a linguagem dela era tipo.
Tipo, estão sempre a dizer isso.
E então a minha filha começou a dar-se ao trabalho de contar. E então não tinha dedos nas mãos pra contar o tipo.
Já para contar as vezes que dizia o tipo.
E então eu tenho aqui uma resposta a propósito do poema do Fernando Pessoa, do heterônimo, da autopsicografia, em que se pergunta: "Identifica na primeira quadra as duas dores nela referidas, explicitando a relação entre elas". E a resposta do aluno é assim: "Existem duas dores, tipo a dor que ele sente e a outra tipo a dor do poeta. Estas dores são tipo dores do poeta, tipo dores de quem escreve. O poeta sente a dor que deveras sente, tipo a dor verdadeira e a outra tipo dor falsa". Nem em escrever evitam o tipo.
Pois, porque em linguagem coloquial é muito vulgar ouvir estas gerações mais novas a falar assim.
Eu não deixo utilizar o tipo. Não deixo.
Na aula de Ciências: indica seis animais que vivem no Ártico.
Duas focas.
Duas focas e quatro urso polares.
Já sabe somar.
Ou menos isso. Outra é o triângulo com medidas nos catetos e depois a hipotenusa tem um X. Acha o X e o aluno põe uma seta a apontar para o X. Isto é delicioso, este livro é delicioso. Não percam este livro da professora Lúcia Vaz Pedro.
Não, eu acho, acima de tudo, antes de ser delicioso e de fazer rir, eu já vou numa de: o que eu hei de fazer para que os alunos aprendam? O que eu hei de fazer mais? Porque eu acho que todos os meus colegas-
Não desistir.
Não desistir.
Estás há 28 anos a dar aula, caramba!
Sim, só falta fazer o pino, à sério, porque é poesia, é levar os pais para as aulas, eu pinto a manta, eu levo os alunos pra lá pra fora. Agora só falta mesmo fazer um livro pra os fazer rir. Uma coisa tem que resultar.
Pergunta num teste: que acontecimentos marcaram o fim da Guerra Fria?
O começo do verão.
O começo do verão.
Não, mas há uma também que tem a ver com quantos anos é que durou a guerra de seis anos e ele indica dois anos.
14 a 18.
14 a 18. Nem sequer-
A guerra dos 100 anos. Muito bem, mas as pessoas pensam que essas perguntas têm a rasteira. Tu também corriges a fala deles. Por exemplo, eles dizem molhos de cogumelos e dizem molhos de flores.
Sim.
E tu dizes: "Ah, deve dizer molhos".
Sim.
Isto é uma coisa correntíssima de estar enganada as pessoas dizerem, amigos meus dizem frequentemente molhos de cogumelos, e não é. No sentido em que quando é molho, eu estou falando molho.
Sim, o molho e os molhos. Esse acento diferencial desapareceu em 1945.
Só uma coisa dentro do acordo ortográfico, Lúcia, eu tenho que dizer já, que é a questão do: primeiro, por que o acordo ortográfico?
Por quê?
Isto é, a Commonwealth são 53 países com 2,5 bilhões de pessoas e nunca tiveram um decreto pra mudar a língua. As línguas não se mudam por decreto, nunca tiveram isso, nunca precisaram. E têm línguas diferentes.
Nós já tivemos um decreto em 1911, já tivemos em 1945.
Sim, em 90, mas eles não precisam disso e falam todos o mesmo inglês, todos se entendem.
Mas não vamos comparar a língua inglesa com a nossa língua.
Porque é mais complicada a nossa.
A nossa língua é uma língua muito mais rica e com muito mais nuances.
Isso é verdade.
E houve decretos noutros países. Eu agora não me recordo de datas, nem nada dessas coisas, mas houve decretos. O próprio espanhol, para que os mexicanos continuassem a escrever, também se adaptaram, também houve coisas que limaram, porque senão perdiam imensos falantes.
Mas, por exemplo, Lúcia, aquilo do "para" e o "pára", eu ainda não me, eu às vezes escrevo com acento.
Sim. Vamos lá saber.
Porque eu acho que pode induzir em erro, porque às vezes podia ser quase as duas coisas. E, portanto, "para" e "pára", acho, por exemplo, nos casos mais óbvios, que pena ter perdido ali um acento.
Eu não sou radicalista. E eu considero que há algumas excepcionalidades no acordo ortográfico. Por exemplo, em relação à primeira pessoa do plural dos verbos terminados em R, do pretérito perfeito, da primeira pessoa do plural, podemos ou não escrever o acento. Por exemplo, eu digo: "Nós ontem amamos e hoje amamos". E esse acento diferencial é opcional. Se é opcional, por que é que em "para" e "pára" não será? É óbvio que isto há aqui uma razão que está por detrás deste desaparecimento. Tem a ver exatamente com as palavras homógrafas graves que perderam este acento.
Mas já no acordo de 90, ou não sei se foi no acordo.
Sim, este é o acordo de 90. Porque este "pára" advém de um acento que era o do "pera", e é por isso que o pera, a fruta, tinha este acento, porque havia o pera, o pera arcaísmo.
Que era o pera antigo.
Que era o pera antigo, e acabaram por tirar. As peras nunca tiveram o acento.
Pois não. Só havia aquela palavra.
Só havia aquela.
E quando havia a outra, então, pra distinguir.
Quando havia a outra, havia aquele acento diferencial. Como retiraram os acentos, já tinham retirado.
Tiraram também pra o pera.
Pronto. Eu estou só a explicar as razões. Agora, se há algumas exceções, provavelmente essa seria uma a manter, porque essa preposição é uma preposição muito usual.
Sim.
E seria essa a minha justificação em relação a manter esse acento diferencial. Somente por isso, porque como é uma preposição que se usa no dia a dia, e nós estamos sempre a utilizar. E o verbo parar, também. Eu utilizo imenso. "Pára, pára, pára" pra os alunos se acalmarem. Estou sempre a dizer: "Pára, está quieto, pára".
Tu disseste há bocado que não sou radicalista. Devo ser radicalista ou radical, por exemplo?
Radicalista, radical, acho que sim, provavelmente. Eu não sou nenhuma enciclopédia, porque quando tenho dúvidas, vou consultar.
Mas estás há 30 anos. Sim, claro, ainda bem, todos devíamos fazer isso.
Nem sei tudo. No dia que eu souber tudo, podem enterrar.
A nível de, por causa de radicalismo, exatamente, como é que está a questão destes neologismos? Eu sei que tu às vezes te insurges um bocadinho contra estes neologismos quando nós temos palavras, mas, por exemplo, password, usas palavra passe?
Não, não são neologismos, são estrangeirismos.
Estrangeirismos, então, nesse caso, sim.
Sim, estrangeirismos, não.
Uma app, o blog, que sai o E.
Não, estrangeirismos, não. Neologismos, sim. Neologismos são palavras que surgem para retratar novas realidades. E password é palavra passe. É uma neologismo.
Mas tu uses sempre palavra passe, nesse caso?
Eu digo palavra passe, eu não digo password.
Ou, por exemplo, press release, nunca dizes, dizes sempre nota de imprensa?
Digo nota de imprensa.
Sempre?
Eu procuro dizer.
Bold, dizes negrito, em vez de bold? Deves dizer, claro.
Digo negrito. Isso digo. Há algumas palavras que às vezes as pessoas ficam a olhar pra mim: "Isso é o quê?"
Exato, podem não saber.
Sei lá, não me estou a recordar, mas eu lembro-me de haver algumas palavras.
Mas em português mesmo?
Sim, digo em português e as pessoas não conhecem muito bem.
Muito bem.
Mas eu tento sempre puxar. Olhe, há uma coisa que me-
Mas tu não dizes quebra-luz, em vez de abajur?
Digo abajur, digo candeeiro.
Mas não é a mesma coisa. Abajur é o que cobre.
Exato. Digo abajur, ok.
Apanhámos.
Pronto, ok. Isso é um galicismo.
Apanhámos a professora.
É um galicismo. Galicismo pra mim calha melhor do que os anglicismos.
E o outro pormenor é dizer pormenor, em vez de detalhe. Há quem diga que detalhe é muito galicismo, portanto deve-se dizer pormenor. Mas também existe em português.
Pormenor com O, não é permenor.
Não, pormenor, isso que eu estou a dizer. Entre pormenor e detalhe, as pessoas devem dizer pormenor, porque é mais português.
E é tão bonita a dicção da palavra pormenor.
Está bem.
Bem dito.
Há cinco anos editaste um livro pela Chiado chamado "Português Atual, o Guia Essencial", onde juntavas essas crônicas.
Sim, foi patrocinado pelo Jornal de Notícias.
Exatamente, onde escreves crônicas. Escreves ou já não?
Agora já não tenho escrito. Eu não tenho tempo. Eu neste momento nem sei para que lado me hei de virar. É aulas, é formação de professores.
Mas isto não paras, porque a tua ação é muito boa nesse campo. "Manual de Consulta Rápida", portanto, foi este "Português Atual" que fizeste, este guia essencial que editaste por conta própria há cinco anos na Chiado.
Eu não paguei o livro.
Chiado normalmente é edição de autor.
Não, mas não foi. Eu não pago para publicar.
Dois anos depois disso saiu o "Manual do Bom Português Atual", cá está. Sem falar, por exemplo, do "Passeio pelo Porto" com a Gaivota Carlota. Tu escreves muito livros de crianças.
Gosto muito de escrever para crianças. Acho que é a minha parte florida, porque mantenho a criança que há em mim e espero que continue.
Claro que sim.
Porque é isso que me permite ainda ensinar as crianças e ser um bocadinho como elas.
Já neste livro do português que temos na mão, o Camões conseguiu escrever muito para quem só tinha um olho.
Tem aí os bonecos.
E que tem os bonecos. Alguns dos teus, sim, famosos.
São horríveis, que eu desenho mal.
Segues um bocadinho esta coisa do Gil Vicente, este jeito dele que o mestre utilizava o cômico como forma de ensinar os outros.
Sim, e o Ricardo Araújo Pereira.
É outro que também... Eu tenho um grande descontigo de teres que resolver uma coisa com ele um dia destes.
Temos. Mas ele não leva a mal. É assim: "Riendo castiga el temor".
Ah, é em latim?
"A rir se criticam os costumes". Só que há o direito aos erros também.
Sempre, tenho que esclarecer, exatamente. Eu lembro-me que para aprender a escrever bom português, estive num colégio de padres, onde o padre que me dava português, nós não tínhamos latim como disciplina, mas disse ele mesmo: "Vou usar os 12 maiores erros da língua portuguesa e vou dizer as raízes da etimologia das palavras" e o latim ajudou imenso a nós nunca mais cometer aqueles erros.
Eu tive cinco anos de latim. E os meus primeiros três anos de latim, que foi décimo.
Ajuda imenso a escrever bem.
Completamente. Eu tive três anos com a professora Maria Antônia, ela, coitadinha, era já velhinha na altura. Não sei se ela já terá falecido.
Já deve estar entre nós, sim.
Ela usava batom e bigode e durante a aula passava a vida a mexer no bigode e a espalhar o batom para o lado de fora. E nós não nos podíamos rir, que aquilo era um respeito.
"Faz o resumo da Batalha de Aljubarrota, tendo em conta o episódio". Isto é aos alunos da professora Lúcia Vaz Pedro. "Faz um resumo da Batalha de Aljubarrota, tendo em conta o episódio narrado nos Lusíadas". Resposta do aluno: "Pum, pousas. Ui, ai. Os portugueses deram cabo dos espanhóis". É extraordinário estas respostas, eu acho que em casa ris muito sozinha a rever testes.
É assim, eu primeiro fico chateada, mas depois rio-me.
"Descalça vai para a fonte Leonor".
Eu acho isso. Eu até sei quem são as alunas.
Não digas nomes, por favor, Lúcia.
Não digo, não posso.
Que isto fica para sempre na internet.
Mas é assim, porque isto tem um top mais. Ainda tenho alada de me perguntar: "Ó professora, estou no top?" A sério.
"Descalça vai para a fonte Leonor vai formosa e não segura" do Camões. Aprendi o que é um vilancete graças ao teu livro. Tenho que dizer isto.
A sério?
Sim, não sabia o que era um vilancete.
Está aí a sistemática bem feita.
Muito bem explicado. A professora Lúcia Vaz Pedro corrige, rimo-nos muito todos, depois ela corrige e explica as coisas como deve ser. Rimos, mas aprendemos. Então neste "Descalça vai para a fonte Leonor pela verdura vai formosa e não segura", os alunos: "O que isso quer dizer?" E os alunos: "Este verso quer dizer que ela é bonita e ninguém lhe liga nenhuma".
Ninguém liga.
E outra diz: "Se ela não se sentia segura, por que ela foi?" Outra diz: "Ela ia toda bonita e sozinha, ia sem segurança, porque na época não havia seguranças".
Não conseguem contextualizar.
Mas isso ao mesmo tempo não te preocupa?
Sim, porque eles têm o mundinho deles.
Mas que é muito limitado para quem não lê e para quem resiste tanto a ler estes livros que são obrigatórios.
O problema é esse, é que eles não gostam de ler. Mas o que é assustador é quando sou eu a ler, eles acham piadão.
Então onde é que está o truque, Lúcia?
Como tenho muitas aulas, eu chego às vezes ao final do dia estourada, porque eu leio.
Dá muito de ti.
"Ó professora, leia!" E eu às vezes vou cedendo.
Mas é importante ficar isso nas pessoas. Um dia, quando eu for um caco, vou entrevistar um escritor famoso que me vai dizer: "Eu tive aulas com a professora Lúcia Vaz Pedro, que me lia na aula e suscitou-me o gosto pela leitura". Tu passas livros a alunos, ou sugeres muito?
Sim, já tive alunos que agora são adultos e que alguns até são bem-sucedidos na vida e que me dizem exatamente isso.
"Eu comecei a ler por causa de si, professora".
"Foi a professora que me incitou o gosto pela leitura". Isso é muito gratificante.
E é muito importante isso.
Porque eu já não sou assim tão nova. Já tenho alunos adultos, médicos, alunos que são professores.
Cumpre dizer que a professora já tem aqui 32 anos muitíssimo bem conservados.
32 anos? Ia dar aulas há 28.
Começou cedo. Lúcia, é muito importante isto. Imagina que eras ministra da Educação. Que incentivos tu farias para se ler mais? É porque eles depois chegam à faculdade, chegam até mais tarde. Eu tive aulas numa faculdade de engenharia, onde os professores às vezes liam: "Eu não vou ler os vossos erros", diziam mesmo, depois dos testes. Estávamos na faculdade. "Não vou sequer ler os vossos erros dos testes, ou as coisas que responderam mal às perguntas que eu fiz. Vou ler os vossos erros de português a responder as becuradas", pasme-se a expressão, "que vocês usaram nos vossos exames e estão numa universidade, estão em faculdades". Como é que é possível?
É verdade, eu já dei aulas no ensino superior. Houve um ano que eu tive a dar aulas a uma turma de primeiro ano e pensei assim: "Vai ser agora que eu vou começar".
Estão mais evoluídos, já leem mais.
Os alunos estavam virados para trás a dar espingardas. E eu assim: "Meu Deus, como é que é isto?"
Estavam a relatar Aljubarrota, provavelmente.
Não.
Mas o que é que tu farias como ministra da Educação ou se estiveste à frente do Plano Nacional de Leitura?
Eu não começaria pela literatura medieval. Eu deixaria cada professor escolher os livros de leitura obrigatória, porque há tantos escritores atuais com livros tão interessantes que podiam suscitar maior interesse, com maior atualidade.
Como dizia a Alice Vieira: "Ponham-nos a ler até bulas de remédios, desde que leiam qualquer coisa é bom e depois passam para coisas melhores."
Coisas que lhes suscitassem interesse, porque os miúdos têm interesses diversificados. E provavelmente por aí eles vão lá. Eu vou dar um exemplo: eu tenho um livro que ainda não está publicado.
Está no prelo.
Está no prelo, que tem a ver com as funções sintáticas, em que as funções sintáticas são personagens. Elas desempenham um papel e explica-se o papel de cada uma dentro do enredo. E eles: "Professora, dê as funções sintáticas pelo livro." Eu não posso estar sempre a dar. Aí eles já gostam de ler.
Mas no fundo é uma espécie de mnemónica também, é uma coisa que eles vão fixar.
Sim, mas eles divertem-se. Por quê? Porque o livro tem um certo humor. O complemento oblíquo, eu posso dizer aqui uma coisa, foi inspirado no Bruno de Carvalho, porque era a obsessão pelo poder. E o complemento oblíquo é inspirado no Bruno de Carvalho, que queria ser ele o presidente da assembleia das funções sintáticas. E por acaso inspirei-me nele. Mas foi só uma inspiração, porque eu não conhecia o senhor. Era aquilo que eu via na televisão. Os alunos têm interesses. Eles não se interessam minimamente por conhecer trovadores. E eu compreendo que seja importante para alunos que queiram seguir a literatura, os alunos que sigam as humanidades. Os alunos das ciências, provavelmente gostam de ler outro tipo de coisas.
Mas que também há, e há muita escolha.
Sim, eu compreendo que seja importante eles perceberem a diacronia, como é que funcionou o início da língua, por aí fora.
Exatamente.
Mas se vamos por aí, nunca mais.
Mas se não está a resultar?
Não está, temos que mudar de estratégia. Foi por isso que este livro surge como uma tábua de salvação. Pode ser que por aqui eles se agarrem, estudem e vejam isto como uma maneira de ler de forma divertida, porque a rir se pode aprender muita coisa.
É verdade, e fica sem dúvida este recado muito bem dado pela nossa professora e de eleição hoje, a Lúcia Vaz Pedro, que nos trouxe estes exemplos muito interessantes e falámos um bocado de tudo e mais alguma coisa. Foi muito importante, mas nós infelizmente, Lúcia, já não vamos ter tempo para mais. Mais uma vez quero agradecer. Eu tenho que dizer que a professora Lúcia Vaz Pedro veio de propósito do Porto para estar conosco e para falar aos microfones do "Observador" e contar a importância, o seu amor pela língua e a importância de todos estes pequenos problemas, estes pequenos erros, pequenos e não tão pequenos como isso, que os alunos fazem e portanto como os corrigir e como os evitar. Muito importante. Mais uma vez obrigado por teres aceitado este nosso convite.