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Agora que as eleições estão à porta, a convidada extra deste serão é a Susana Damasceno. Ela é fundadora e presidente da Aid Global, uma ONG que trabalha nas áreas da educação em Moçambique e cidadania ativa em Portugal, com enfoque na chamada dos jovens às urnas e pela luta dos direitos humanos e apoio aos refugiados que nunca, como hoje, um apoio que se revelou tão necessário. Olá, Susana, e muito obrigado, bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vinda ao Observador.

Viva, João Paulo, boa tarde. Obrigada desde já.

É um prazer estar contigo aqui. Vou começar, trocar as voltas. Eu sei que tu és gestora, és professora, és educadora, és formadora, empreendedora e és uma sonhadora, uma grande sonhadora. Fundaste e és presidente desta Aid Global. Já lá vamos. Susana, já estou a ver a tua cara a dizer: "Ai, meu Deus, para onde é que ele vai?". Vamos para as tuas origens, porque tu tiveste uns pais atentos ao mundo, uma vez disseste isso, que passaram para mim e para a minha irmã uma consciência social e uma tia que nos dava livros nos aniversários e no Natal. Isto é tão importante e formador para a maneira de ser como tu és hoje e com todas as coisas que tu fazes e que nós já vamos falar disso. Os pais, a tia e a avó Maria de Jesus, eu tenho que falar aqui da tua querida avó.

Fundamental, com 99 anos.

É incrível, 99 anos, ela ficou órfã. Fala um pouquinho dela e do que ela passou e do que ela tem feito, porque ela é uma das líderes que te inspiram.

Sem dúvida. Minha avó é, de facto, uma mulher que representa milhões de mulheres neste mundo, analfabetas, com uma vida muito dura, mas uma grande educadora. E as mulheres são, de facto, grandes educadoras, são as que educam o mundo. Tivéssemos nós mais oportunidade de as ter na liderança, sem dúvida. A minha avó, Maria de Jesus, é, de facto, uma pessoa que me mostrou o que é a verdadeira educação, que não passa obrigatoriamente pela instrução, mas passa pela disponibilidade para o outro, o tempo para brincar com os netos, o tempo para conversar com os netos. E ela era uma enorme, e continua a ser, uma grande contadora de histórias. Por isso, quando ela se predispunha a contar as histórias da sua infância, tudo aquilo eu fui absorvendo com muita atenção. E quando chego a Moçambique, na minha experiência de voluntariado e por tantos outros países onde fui passando como viajante, eu fui encontrando a minha avó Maria em muitas mulheres deste mundo.

Incrível.

E, de facto, ela foi uma grande influência.

Um exemplo que ficou órfão com 12 anos.

Com 12 anos, começou a trabalhar.

Nunca foi à escola, teve seis filhos, sofreu de violência doméstica.

Tudo isso.

O vou com tudo, mas tratou de todos os netos.

Até há bem pouco tempo. Agora são os netos que tratam também dela. Tem muitos netos, é muito acarinhada e tem 99 anos e vai chegar aos 100 anos, com certeza, porque todos os netos lhe pedem isso, não é?

Claro que sim. Tu tinhas 10 anos e escreveste um poema, uma vez, sobre a paz. Tu também tens a paz nos teus genes, que foste ler depois numa cerimônia, numa festa da empresa do teu pai. E percebeste logo, tinhas já esse gosto, e hoje em dia é uma coisa que te está gravada nos genes, como eu dizia, que é: consegue-se a paz, e estamos a falar em países com grandes conflitos, tu lidas com Moçambique, tu lidas com refugiados, só se consegue a paz através de uma educação de qualidade. Isso é que é muito importante e tu queres educar para desenvolver. Não é só cooperar, é educar para desenvolver. Isso é um valor muito importante e é um pouquinho ao lado do que as pessoas estão habituadas.

Sim, a educação é vista como meio para atingir uma carreira de sucesso, um patrimônio, quando, de facto, se tem a oportunidade de ter trabalhos, empregos ou o que quer que seja, ou fundar empresas, de facto, para a pessoa ter um rendimento que lhe permita depois usufruir das coisas boas que esta vida tem. Mas a educação é muito mais do que isso. A educação é, de facto, a disponibilidade para o outro, o desenvolvimento da empatia, do afeto, do gosto pelo conhecimento, do gosto da partilha pelo conhecimento. E é, acima de tudo, a maneira que nós, os seres humanos, temos para ingerir informação, conhecimento, refletir, pensar, criticar, posicionar e agir. E processar e agir.

Exatamente.

Por isso eu não vejo a educação, senão como uma ferramenta para nos levar à ação. E sem dúvida que educar é também agir. Agir para intervir num mundo em que todos nós somos responsáveis pelas nossas ações e pelas ações que fazemos pelos outros.

E que precisa muito desta interação, desta ação de todos. Exatamente. Muito importante. A tua formação tem a ver com língua e cultura portuguesa e depois pós-graduaste em ensino do português. Estudaste depois cooperação para desenvolvimento. Ainda estiveste na Alemanha, em Berlim, a falar em ciclos de projetos. Tens o doutoramento em standby. Queres te doutorar em quê?

Em estudos sobre a globalização. Podia ser.

Sim, exatamente. Eu ia desenhar aí. Exatamente. Em miúda, em pequenina, tu querias ser professora e foste durante uma década professora à séria.

É verdade.

Até que houve uma experiência de voluntariado em Moçambique, num orfanato com 50 crianças, que te mudou completamente e disseste: "Não, é isto, eu tenho que ir por aqui, tenho que ajudar isto". Tu foste contar histórias, foste dançar com eles, foste cantar com eles e percebeste: isto é que está a formar esta gente e esta geração pode sair diferente se muita gente fizer isto.

Sim.

E os livros, claro.

E os livros, acima de tudo. Esta experiência de voluntariado que culminou com várias viagens que eu fui fazendo enquanto era docente, por isso nas minhas férias fui muitas das vezes para destinos também de países como Moçambique, em desenvolvimento. No ano anterior tinha estado, por exemplo, em São Tomé, tinha estado na Costa Rica, e fui-me apercebendo como a educação muda as pessoas. Agora, nós não podemos ter a ambição de chegar e mudar no imediato um sistema. Isso não acontece. Isso é preciso um investimento não só de quem está a governar, mas também da sociedade civil, dos próprios países. E toda a mudança de comportamentos, todo o investimento na educação exige tempo. Qual é a única forma que nós temos no imediato de tocar e de despertar a vida das pessoas? É através dos livros.

Porque são coisas que ficam, não é?

São coisas que ficam. Nós abrimos, nós descobrimos. Ler é crescer e, de facto, um livro tem o poder da mudança. E por isso é que começámos na Edglobal e optámos, e bem, por criar as bibliotecas escolares, por levar os livros onde eles não existem e por promover a língua portuguesa, porque é de facto a língua de escolarização em Moçambique, que pouca gente fala, que é importante dizer, nas comunidades não se fala a língua portuguesa, ao contrário do que se pensa. Quer dizer, fala-se na beira, fala-se nas grandes cidades, mas depois quando se vai para as comunidades, a língua portuguesa já não é a língua de comunicação, é a língua local.

Portanto, falam o chichangana.

Falam chichangana, falam ronga. Se eu não estou em erro, são 27 línguas que Moçambique tem.

Vocês, aliás, com a Edglobal fizeram um livro.

"Bilingue".

Exatamente. Este primeiro, "Falas Africanas"?

Em parceria com a editora Falas Africanas e, de facto, um grande milagre. De uma escritora da Costa do Marfim que cedeu os direitos. Informámo-la qual era o destino e ficou tão emocionada que se disponibilizou.

É incrível porque tu acabaste por desistir do ensino para criar e construir, para apetrechar uma rede de bibliotecas em Moçambique. Já vão com 27 unidades?

27.

É impressionante. Tu ainda contavas isto, que chegaste uma vez a Moçambique com um contentor com cerca de 30 mil livros. Qual é a sensação quando estas crianças cruzam com estes livros? Qual é o brilho no olhar daquelas crianças que se cruzam, atenção, com livros de histórias, porque alguns recebem livros que são livros de estudo. Aqui são livros de pura ficção, de histórias. É diferente pra eles. Eles sentem que é só prazer ouvir uma história, contar uma história. Deve ser.

É totalmente diferente, até porque nem todas as crianças em Moçambique têm acesso a livros, mesmo os livros escolares. É difícil conseguir distribuí-los. Mas quando uma criança pega num livro de histórias em que tem imagens. Fazemos uma coisa extraordinária com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que se chama Atividades de Animação da Leitura, em que vamos de escola em escola com vários livros. Já tivemos várias animadoras em Moçambique a fazer esse trabalho. Eu própria já o fiz em 15 escolas. E abrimos um livro e mostramos os livros e damos a conhecer os livros, porque há livros com uma mancha gráfica toda preenchida.

Claro.

São livros de prosa, depois há livros aos quadradinhos, que é banda desenhada. Há livros que nos dão os significados das palavras. Quer dizer, primeiro é explicar o que é o livro, porque um livro é um objeto complexo.

E também é dirigido a professores e a educadores.

Sim, temos sempre as crianças e os professores. Há sempre uma capacitação. Aliás, nós anualmente fazemos um encontro com professores. Em março do ano passado reunimos cerca de 80 pessoas, entre os diretores das escolas da rede Bibliotecas Escolares do Distrito do Chibuto, entre os professores responsáveis. É tudo Província de Gaza. E convidamos outros elementos de outras bibliotecas. Eu lembro-me que, acho que foi em 2016, fui com a Ana Teresa, uma voluntária, e ela passava as noites todas a desenhar nas capas. Eram as caixas que nós transportamos os livros, depois são transformados em recursos. E esses recursos eram posters em que ela desenhava a noite toda macacos, elefantes e leões. Era a história do Leão Candinga. Depois levávamos lápis de cera e os miúdos, depois de eu contar a história, iam colorir. E curiosamente nenhum coloria de uma só cor e nenhum coloria o macaco castanho. Era o elefante cinzento. Não, era tudo colorido mesmo.

Com várias cores.

Com várias cores. É muito interessante.

Engraçado, puxa pela imaginação deles, muito.

E eu dizia-lhes: "Então vocês já viram um leão? E vocês já viram macaco?" Eles diziam: "Eu já vi um leão". "Se já tivesses visto um leão, não estarias aqui, sabes disso?" Por isso nós íamos brincando, mas eu tinha, nessa altura, eu e todas as animadoras da leitura, chegamos a ter cerca de 100 alunos à nossa volta, em silêncio absoluto, a ouvir-nos contar histórias.

É muito engraçado. E também tem esta coisa da "Kula na..."

"Kula na Vondjonza".

"Kula na Vondjonza". Isso quer dizer o quê? Crescer a ler?

Crescer a ler. Esse é um projeto muito particular, que nos enche o coração, porque é um projeto em que no Hospital Rural do Distrito do Chibuto, por cada criança que nasce ou que vai à consulta da criança sadia, que já alcança cerca de um ano de idade, nós oferecemos um livro Um livro de iniciação à leitura. E quando as mamãs estão a aguardar por estas consultas, nós estamos a ler histórias, geralmente de autores africanos, em língua portuguesa e em língua local, a língua xangana.

Vocês têm apoio também do Instituto Camões? Têm que ter.

Tivemos o primeiro projeto.

Porque eles são muito de cooperação e sobretudo centrados na língua portuguesa, é a missão.

Já tivemos duas vezes o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian neste projeto das bibliotecas e atualmente temos outro projeto.

De Educadores em Movimento?

Os Educadores em Movimento.

Aquele das escolas debaixo da árvore, dos cajueiros. Conta lá. Isso é fantástico. Deve ser comovente ver isso.

É muito bonito, mas é um grande desafio e dá muito trabalho. É um projeto-piloto que a AID Global desenhou com os seus parceiros, quer parceiros locais, quer o ISCTE, quer o IPA de Leiria. Estamos juntos, o Serviço Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia do Distrito do Chibuto e o Serviço de Saúde da Mulher e da Ação Social também do Distrito do Chibuto, e estamos juntos a criar um projeto-piloto debaixo de um cajueiro, a partir de uma biblio-txova. Um txova é um carrinho de mão, txovar quer dizer empurrar. A AID Global há cerca de oito anos atrás criamos um modelo de biblio-txova para as escolas que não tinham edifício pra transformar em biblioteca. Então o que é que fizemos? Adaptamos esta biblio-txova para um tamanho mais pequeno, para que as crianças possam de facto ir buscar o seu livrinho. Formamos, capacitamos as mulheres das comunidades para serem educadoras, chamamo-las por Educadoras em Movimento, e estão debaixo do cajueiro a fazer atividades de educação para o desenvolvimento da primeira infância.

Uma educação itinerante para a primeira infância em Moçambique, em cinco comunidades rurais do Chibuto. Têm vindo a capacitar então essas mamães para transformá-las em educadoras. Isto é uma ideia fantástica. Faz-me lembrar uma cena que havia umas escolas e fez-se cá isso também como instalação, que eram cabines telefônicas transformadas em bibliotecas. As pessoas também tinham acesso, era uma coisa muito engraçada, porque haviam desocupadas, estavam em qualquer sítio.

Isso é um projeto recente da Fundação Altice. Transformou.

Muito importante esta ideia da literacia e educação para o desenvolvimento e cidadania global, criada com o intuito de todas as crianças terem uma educação de qualidade através do acesso ao livro. Isso é muito importante. Susana, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já.

Até já.

Estamos a conversar com Susana Damasceno, gestora, formadora, empreendedora, fundadora e presidente da AID Global. Estamos a falar, Susana, bem-vinda de volta, tu que fizeste esse esforço de vir da Rota dos Vinhos, a terra maravilhosa onde tu moras. E tu própria que gostas de-

Paraíso, o paraíso em Portugal.

O paraíso em Portugal. Tu gostas de sujar as mãos na terra e gostas de fazer jardinagem sempre, tu com a tua gata e abraçada ao teu filho, que eu sei que também tens aqui um carinho especial que te equilibra na vida.

Carinho é pouco. É a minha maior paixão. E é um grande leitor.

Curiosamente. Que idade é que ele tem?

Tem 10 anos. E muito atento ao mundo. Ainda não escreveu um poema sobre a paz, mas não entende a guerra, por isso sai mesmo à sua mãe.

Muito bem. Tu que foste Prêmio Fémina em 2018, te destacaste por atos de humanitarismo em prol da dignidade e dos direitos do ser humano, e que tu tens neste teu trabalho da AID Global, é isso que nós vamos falar agora, que eu acho que é importante falar disso agora, este AID Global, portanto, Aid de Ação e Integração para o Desenvolvimento Global. É uma ONGD. Qual é a diferença para uma ONG normal?

ONG é Organização Não Governamental. O D acresce o de Desenvolvimento, por isso a AID Global é uma organização para o desenvolvimento. Depois tens as ONGA, que é uma Organização Não Governamental para o Ambiente e há algumas que se especializam nisso. Nós, porque fazemos cooperação para o desenvolvimento, para além de educação para o desenvolvimento e para a cidadania global, temos o estatuto reconhecido como ONGD pelo Instituto Camões, Instituto da Cooperação e da Língua.

Muito bem. Tu estás sediada aqui no Parque das Nações, não estou me enganando, é o vosso escritórios.

Dentro do Centro Juventude de Lisboa, do Instituto Português do Desporto e Juventude.

Em 2009, fundaram, já falamos disso, na província de Gaza, no distrito Chibuto, em Moçambique, tiveram uma delegação. E em 2017 começou no Porto Santo também, que é curioso. Vocês têm uma série de projetos em Porto Santo, desde o Porto Santo Sem Lixo Marinho, da Escola para o Mundo, Educar para Cooperar. É muito engraçado. Por que Porto Santo, de repente, tem ali uma comunidade que vos segue, que vos apoia, que vos ajuda e conseguiram mobilizar aquela gente?

Também. É uma história curiosa, porque a vida acontece, muitas das vezes não somos nós que escolhemos, é a vida que nos escolhe. E temos a nossa gestora do gabinete de projetos, a Sofia Lopes Por decisão familiar, quiseram mudar de vida e mudaram para Porto Santo, onde já tinham alguma estrutura. Foi uma grande oportunidade para nós concretizarmos um sonho já antigo de chegarmos às ilhas e por isso já nos fixámos na Região Autónoma da Madeira. Por isso, nós não estamos só a desenvolver os projetos na ilha de Porto Santo, estamos a desenvolvê-lo na Região Autónoma da Madeira. Já demos capacitação aos professores, já fizemos trabalho com algumas escolas. Fizemos também formação a técnicos na área das migrações, mas agora a nossa ambição é chegar aos Açores e agora temos a nossa gestora do gabinete administrativo e financeiro.

Que quer mudar de ilha.

Que quer mudar de ilha para os Açores. Por acaso é açoriana. Não, porque eu não a deixo ir embora. Ela pode ir, mas volta.

Portanto, há muitos desafios complexos que se põem a uma ONGD, neste caso, por exemplo, já falaste, ela já foi registada, foi reconhecida pelo Instituto Camões e também pelo Ministério de Negócios Estrangeiros de Moçambique. É importante dizer isso.

Sem dúvida. Isso é que podemos atuar em Moçambique já há 11 anos que lá estamos.

Pelo RENAJ, Registro Nacional de Associativismo Jovem.

Isso é outra coisa. Por isso, nós como trabalhamos muito para os jovens, somos reconhecidos como associação juvenil equiparada.

Muito bem. Quais são estes grandes desafios que tu tens? Para começar, és uma organização não lucrativa, portanto, só isso, captação de fundos deve ser uma coisa desde que te move mais, quer dizer, ocupa-te mais tempo.

Eu gostaria que me ocupasse muito mais tempo.

Mas gostas dessa parte?

Eu gosto de tudo.

É de boa boca, portanto.

Eu sou de boa boca e não é só isso, porque trabalhar na Edglobal é, de facto, um desafio permanente. E por isso, quem gosta de aprender e quem gosta de trabalhar, é o sítio certo para se estar.

Já estás aqui a angariar gente.

Muito. Mas os grandes desafios para organizações com a natureza não lucrativa, como a Edglobal, é de facto sustentabilidade. Grande parte da nossa angariação de fundos vem da nossa grande veia criativa no alcance de respostas a desafios que são mundiais, e que nós temos que encontrar criativamente, em conjunto, projetos que respondam, e soluções, através de projetos que submetemos a candidaturas a linhas de financiamento e quando avaliam positivamente a nossa criatividade, digamos assim, são aprovados. Temos neste momento nove projetos ativos.

Incrível. Vamos falar de um ou outro deles. Para já, tu também dizes que nesta linha de trabalho e para captar estes fundos é preciso muita resiliência. Sim, OK, nós somos guerreiros do bem, como tu dizes, mas também é preciso muito sentido de humor. E eu estou a ver a tua personalidade, às vezes tem mesmo que ser divertida, senão não se aguentava isto. Exatamente.

Sim, se eu não mandasse uma gargalhada de vez em quando.

Às vezes gozar de nós próprios, que é importante. Muito bem. Domingo, há várias coisas que eu queria falar contigo, mas para já, em cada projeto, vou tocar em três ou quatro, mas para já este do Bora Lá, Sai do Sofá, estamos a falar dos Jovens na Política. Houve a segunda edição dos Jovens na Política, Participar para a Cidadania Global, um projeto que dura dois anos, começou em setembro do ano passado, vai até agosto de 2022 e tem muito a ver, vêm aí eleições domingo. Susana, a política não é apelativa para os jovens, e portanto, não estou a dizer as crianças, embora isso também já é uma coisa que se pode começar a pegar, mas os que já votam, as campanhas não são dirigidas para eles, eles não querem saber destes grandes dirigentes dos partidos que não lhes dizem nada diretamente. Quando é que eles pensam que deviam fazer uma coisa? Vocês fazem workshops, coisa assim, que isso é importante, mas perceberem comparar o que é que cada um diz na área do ambiente, na área da habitação, na área das escolas, é importante. Ou da cultura, que ninguém fala. Estas são coisas, era importante para os jovens poderem decidir e poderem querer levantar-se do sofá.

Sim, aliás, este projeto, como bem disseste, Jovens na Política, Participar para a Cidadania Global, tem uma campanha sempre que há eleições. Neste momento, com as que vamos ter, as autárquicas. É o Bora Lá, Sai do Sofá, e é quando nós convidamos os jovens a sair do sofá. Mas eles não têm obrigatoriamente que sair do sofá para se interessarem pela política ou para agirem. São jovens ligados às redes sociais, são jovens com uma literacia digital que nos ultrapassa e, por isso, eles conseguem. Eu estou a pensar na greve climática. Tivemos sexta-feira passada um grande evento em que reunimos jovens, todos eles empreendedores e com projetos na área da intervenção cívica e política e, de facto, não partidária, política, mas não partidária. E o testemunho da Raquel Moreira era: "Nós juntámos cinco jovens num café, pegámos nas redes sociais e conseguimos fazer a greve climática, por isso conseguimos mobilizar. Aquilo ultrapassou-nos", dizia ela. E é isto.

Isso era os Diálogos no Sofá, o Bora Lá. O Bora Lá, como eu vou dizer às 17h, exatamente. Muito importante.

Diálogos no Sofá. Jovens, bora lá, vamos dialogar. Quer dizer, o sofá é o sítio onde nós nos sentimos confortáveis, é uma alegoria de um sítio onde nós nos sentimos confortáveis para agir.

Debater, decidir, ter ideias e fazer coisas.

E de facto, há um afastamento dos jovens em relação à política, mas temos que refletir sobre essas razões. Será a linguagem, será os espaços de diálogo digitais ou presenciais? É a forma como são ou não envolvidos no processo da conceção destes projetos, iniciativas.

Como são consultados ou não.

Quer dizer, todos estes jovens que estiveram conosco, eles criaram, de facto, eventos para outros jovens. Eles estão interessados na política, agora, não na forma como se faz política.

Pois, não no habitual, que nós estamos habituados, as campanhas.

Sim. E daí o grande índice de abstenção.

É que nós temos uma elevadíssima taxa de abstenção registada em Portugal. E realmente, eu conheço, como tu conheces, quando nascem jovens que começam a votar e os primeiros anos que votam, têm muita vontade e estão muito mobilizados para isso. Mas há uma grande faixa que ainda não está e que sente desinteresse de todo este bate e arranha destas campanhas que às vezes vêm, só a desembalar uns dos outros. Isto não é atrativo para eles.

Não é atrativo, até porque esta questão da política local e da política global, muitas das vezes os jovens estão muito mais atentos ao mundo do que propriamente à sua comunidade Porque estes são jovens globais, eles querem abraçar o mundo, o mundo entra-lhes pelo seu dispositivo móvel.

É a maleta global. Aqui falamos das malas globais.

Maletas globais, é isso mesmo.

Aprender a ser cidadão do mundo é outra bandeira vossa.

É outra bandeira. E por isso, o que nós queremos que eles façam, os jovens? Primeiro, é preciso, nesta forma de se fazer política atualmente, nós trabalhamos muito para a literacia política. Isto é, os jovens, quando votam, e aqui estamos a falar do ato cívico, democrático, de votar, devem saber no que é que estão a votar. Ou melhor, em que é que estão a votar. E por isso têm que ler os programas eleitorais. E o nosso grande convite no âmbito desta campanha é: vê-se no âmbito destes programas eleitorais, estão lá direitos humanos, alterações climáticas, desenvolvimento sustentável, se de facto há a questão das migrações, dos refugiados, porque isto é a agenda política. Nós vivemos num mundo interdependente.

Walk the global walk.

Walk the global walk.

É a agenda para 2030, isto mexe com toda a gente.

Mas mexe no dia a dia.

Tu que conheces alguns desses jovens super empenhados e fizeste estas coisas em Santarém, tem esses grupos.

E alguns deles trabalham comigo.

Ainda por cima.

Raparigas, jovens.

Outro dia recebi um e-mail que dizia, por exemplo, a propósito destas autárquicas, e eu sou de Lisboa, imagina, e era: o que diz o Medina, o que diz o Moedas, o que diz o Coimbra, em vários temas. Era uma tabela com os vários candidatos, o Ferreira, todos. E depois ao lado era cultura, habitação, as escolas, o ambiente e as alterações climáticas. E vão tirando os programas de cada um. É uma coisa muito fácil de gestão, para não ter que ler 50 mil páginas de 50 programas, que depois só interessam três linhas. Isso foi uma ferramenta muito fácil que mandaram, que eu achei: "Engraçado, por que isso não está feito para dar à juventude, por exemplo, que seria uma coisa muito imediata de consulta e dizer: o que eles falam destes vários temas?" Era uma tabela, percebes? Era uma coisa gira para eles fazerem, que eu acho que atraía imenso, em vez de dizer: "Olha, agora tens que ler o programa do Bloco e o programa do PSD". Nunca mais acabam.

Nós fizemos um estudo quando foi da primeira edição do projeto Jovens na Política, em que estivemos, de facto, a estudar os programas eleitorais e fizemos um estudo sobre isso. Isto está disponível no site da AED Global. É muito importante a literacia política, que devia começar, de facto, nas escolas, nas associações de estudantes, em que as escolas deviam ser também uns espaços mais democráticos, que nem sempre são. É o que eu digo, a escola é o balão de ensaio das sociedades. Era lá que se devia testar tudo.

E eles passam horas e horas por dia na escola. Portanto, é muito importante para a formação em todas as áreas, não é só matemática e física.

Não, é fundamental para a construção do ser cidadão, porque nós estamos uns com os outros.

Onde se debatem outros programas e há os bullings e imensos assuntos, e há a educação física e há imensas coisas que mexem com todo o teu ser completo e, portanto, a relação com o outro, a relação com o que é diferente.

Devia-se aprender diplomacia na escola, diplomacia que é tão necessário nos dias que correm.

E já agora que falámos também das alterações climáticas, vocês têm dois projetos aqui muito curiosos. Por exemplo, esta da Viva Descarbonização do Parque Adão Barata, portanto, Parque Adão Barata, o PAB, PAB Living Lab. E tem também aquele do NEAR, que já tem a ver com as migrações e com os que chegam. Estes dois projetinhos, nós temos oito minutos para falar um bocadinho. Gostava muito de falar desses dois em concreto. Portanto, este primeiro, PAB Living Lab, passa-se em Loures, neste parque, e que envolve a comunidade toda e só acaba em 2024, e é para sensibilizar a população para?

Primeiro, consciencializar que todos nós, no nosso dia a dia, contribuímos para a poluição, para as alterações climáticas. Desde, por exemplo, coisa que eu desconhecia, há árvores que contribuem mais para a emissão de CO2 do que outras. Por isso, quando fizemos agora o estudo do parque com todos os parceiros, na reunião de parceiros inicial de projeto.

Quando plantaram isto, por que não pensaram?

Vamos evoluindo. O saber, a ciência, tudo isto, nós estamos sempre em permanente evolução. E por isso vamos sensibilizar o comércio local para reduzir tudo aquilo que possa contribuir para a emissão.

Reduzir a intensidade carbónica das atividades.

A intensidade carbónica. E para além disso, vamos também sensibilizar os alunos das escolas, vamos levá-los ao parque. Toda a intervenção em termos de infraestruturas vai tornar aquele parque um parque modelo. E esperamos que outros possam seguir este modelo ou este exemplo.

É um germe que depois vai começar.

E por isso é um projeto que está no seu arranque, é uma descoberta, é uma área que tem a ver com o desenvolvimento sustentável e que está muito na agenda política e que está também, desde sempre, na consciência de todo o trabalho que a AED Global faz. Depois temos o NEAR.

NEAR de, atenção, vou dizer, Newly Arrived in a Common Home. Portanto, de newly arrived.

São os recém-chegados a Portugal, às comunidades. É um projeto que está a decorrer, vamos ver se eu não me engano.

Desde 1 de março de 21, deste ano.

Na Roménia, em Portugal.

E no Chipre, Itália.

Grécia, e em Itália, se eu não estou, ou Chipre.

Itália e Chipre estavam, de certeza, que isso eu vi no vosso site, estava lá.

É que já são muitos.

Pois. Sensibilizar para a importância da inclusão e proporcionar a partilha intercultural de conhecimentos. É muito engraçado porque vocês aqui Os imigrantes chegam com uma série de obstáculos, em termos de cuidados de saúde, habitação, de educação. Então vocês visam informá-los, formar pessoas para como informar imigrantes recém-chegados, os menores, ter atenção aos menores, à língua.

Eu desafio as pessoas.

Podem aprender tanto com eles.

Também, muito mesmo. E nós, na história da Aid Global, temos tido tantas pessoas, tantos jovens de outras partes do mundo com quem temos crescido tanto e isso é indiscutível e muita gratidão para todos eles. Mas eu convido as pessoas a refletirem um bocadinho só sobre isto. Descalcem os seus sapatos, entrem nos sapatos de um chinês. É uma mãe que acaba de dar à luz. Não entende o que o médico está a dizer. Nenhum médico entende o que a mãe quer dizer.

A parturiente.

Como é que pode haver tranquilidade? Como é que pode haver comunicação? Como é que pode haver compreensão? Por isso nós estamos com este projeto. Um estudante que acaba de chegar, as dificuldades que ele tem. Se para nós é difícil.

Ou do mercado do ensino também.

Sim, porque tudo é novidade. Vamos para o primeiro ano da universidade.

Um afegão, não fala inglês, como é que ele pode arranjar aqui trabalho?

E hoje são eles, amanhã podemos ser nós.

Um refugiado, o que seja.

Sim, o que seja. É de facto importante pensarmos nisto.

Vamos agora nesta parte final, Susana, quem é que pode fazer parte da Aid Global?

Qualquer pessoa pode se inscrever para ser membro da Aid Global. Temos uma cota anual de 25 € que permite participar nas assembleias gerais da organização, onde são, de facto, tomadas decisões relativamente ao plano de atividades e também é o local onde fazemos a prestação de contas. Nós temos contas auditadas todos os anos.

Mas portanto, estagiários, colaboradores, prestadores de serviços, voluntários, vocês aceitam?

Aceitamos dentro daquilo que é o casamento entre as necessidades e as competências, porque nós temos uma equipe executiva técnica.

Que se pode consultar no vosso site em qualquer altura.

Sim, nós recebemos diariamente candidaturas espontâneas, candidaturas de estágios. Neste momento temos duas estagiárias curriculares. Já recebemos estágios curriculares de toda a parte do mundo, desde os Estados Unidos, Alemanha, a Macau. Por isso somos muito globais.

Porque vocês terão alguns planos financiados, até por coisas de bolsas e fundações. Isso é muito importante. Só assim é que poderiam andar, porque podem ter viagens, medicamentos, obviamente.

E depois, quem tiver um património, está agora muito em vaga ou na moda, é os grandes milionários já não deixam as fortunas aos seus filhos, deixam os filhos aconchegados e depois investem o seu património em organizações com credibilidade. E eu posso afirmar que a Aid Global é uma organização com total credibilidade.

Estou a pensar na nova ESB, por exemplo. A nova ESB não há um cêntimo do Estado ali, apesar de ser uma universidade pública, é tudo com doações.

Em Portugal precisamos de alimentar esta cultura. Antes deixava-se à Igreja, não é? E agora há tantas organizações da sociedade civil com provas dadas, que era importante termos este apoio, este voto de confiança.

Ficar isto, como podemos ajudar, é importante. Tu diz uma coisa interessante.

E fazer donativos também.

Comecem por cooperar dentro de casa. É nelas que primeiramente podemos fazer a diferença, dizes tu e eu, uma frase que eu adoro. Mas para contribuir é preciso conhecer. Portanto, visitem o site da Aid Global, que é muito importante, em aidglobal.org. Qualquer pessoa pode dar até com donativos, patrocínios, bens, voluntariado. As empresas podem escolher um projeto, apoiar com voluntariado empresarial, doação de material, de serviços, apoio técnico, o que seja.

Dinheiro.

Isso é muito importante, claro, também precisam. As escolas também se podem envolver, isso é importante.

As escolas-

E que é essencial

...sem dúvida, e nós estamos sempre a envolvê-las. As escolas são as nossas maiores amigas e os professores.

Ainda bem. É muito importante porque só a educação é que pode travar esta avalanche de violência que contaminou toda a gente. Tu falas disto a propósito da pandemia, porque esta pandemia mudou muita coisa e a forma como trabalhamos, como lidamos uns com os outros. Houve um grande aumento neste discurso do medo, da manipulação, do ódio, da agressão, e é uma coisa que me faz muita impressão, mas que pode ser contrariado.

Tem que ser. Aliás, o António Guterres afirmava esta terça-feira que o mundo nunca enfrentou tantas ameaças como a destruição da paz, a desconfiança, gostei muito disto, a desconfiança, as alterações climáticas, e convidou os países a cooperarem mais e sermos mais abertos. Começamos a nossa conversa com livros, e eu queria, ao mesmo tempo que estamos perante este sentimento de catástrofe permanente, iminente, etc. Eu queria deixar aos nossos ouvintes, posso tratá-los por nós, não posso?

Pode ir.

Porque já vão ser amigos todos da Aid Global, por isso venham daí. Deixar-vos uma leitura positiva e de alguma esperança de um livro que estou a ler e que estou a gostar muito, do Rutger Bregman, que é um jovem de 32 anos holandês que escreveu: "Humanidade, uma História de Esperança". Aconselho veementemente a leitura, porque contrasta, de facto, com esta ideia de catástrofe, de medo, e acima de tudo, ele explica que a construção do medo sempre foi uma arma que os políticos usaram em todos os grandes momentos em que o medo permitiu que depois houvessem guerras como a Segunda Guerra Mundial e tantas outras. Por isso, é uma boa leitura para quem nos ouve, que eu recomendo.

É uma belíssima ideia para terminar.

E que é uma leitura de esperança.

Muito bem. Beyond COVID-19, The New Era of Teaching Digital Learning for Social Inclusion. Foi outro programa que vocês tiveram há dois anos. Aliás, têm.

Começou.

Começou agora em abril e vai até março de 2023. Isto é só mais um dos programas. Fica aqui este último convite. Vão ao site da Aid Global, vale muito a pena: www.aidglobal.org e redes sociais que vocês têm, como ficar a par. É fácil, Facebook, Instagram, YouTube, LinkedIn. Vale a pena. Com tudo o que tu fizeste e fazes, Susana, nós infelizmente da rádio é assim, o tempo voa, como sabes. Bem-hajas pela tua disponibilidade, em vez de Arruda dos Vinhos, quando falares, é de propósito, gostei muito. Só boa sorte, muitos colaboradores e projetos para a Aid Global. E a ti, que tu és mais novo e que nos estás a ouvir, este domingo, já sabes, sai do sofá e vai votar. É muito importante. Susana, bem-hajas e até breve.

Obrigada. Kanimambu. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto