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Depois de ver todas as editoras recusarem o seu primeiro manuscrito, concorreu a um concurso literário com "O Espião Português" e arrebatou o primeiro prêmio. Foi assim que Nuno Pomoceno, um controlador aéreo formado em Matemática, se iniciou como um dos mais bem-sucedidos escritores de thrillers psicológicos, de ação e espionagem em Portugal, que já chegou aos tops da FNAC, Bertrand, Wook e até da Amazon. É autor da série de best-seller Afonso Catalão, com a qual foi número um de vendas nacional, de duas séries de ficção em formato podcast e de diversos contos. Vem agora ao Observador falar do quinto volume da sua saga de sucesso, "O Cardeal", e da reedição da sua primeira trilogia, que agora arranca pelas mãos da Cultura Editora. Olá, Nuno, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo de volta, expressamente da Região Oeste, para esta conversa. Bem-vindo ao Observador.

Olá, João. Muito boa noite, obrigado pelo convite e boa noite também às pessoas que estiverem a ouvir em casa ou nos carros.

Tu nasceste nas Caldas de Rainha e moraste muito tempo no Carvalhal, perto de Óbidos. Viveste lá até aos 10 anos. Mas só o teu nascimento, e para recuar um pouquinho, faço aqui uma grande homenagem à tua mãe, com quem vives, que é uma pessoa extraordinária, porque tu estiveste quase para não nascer.

Sim, eu fui um filho não planeado. Eu sou o terceiro de três filhos.

Com duas irmãs muito mais velhas.

Uma delas, sim.

Mas não é isso. Tu nasceste quase a morrer asfixiado e o médico achou que tu não ias sobreviver.

Sim, houve uma complicação no parto. Eu nasci com o cordão umbilical enrolado à volta do meu pescoço e estive alguns minutos a respirar muito mal. E depois acabei por ficar numa incubadora enquanto a minha mãe foi pra casa muito triste.

Porque se calhar achava que nunca mais te ia ver. Porque aquilo era um prognóstico um pouco reservado.

Estamos a falar de 1978.

Exatamente. E tu respiraste mal e deste em matemático, em controlador aéreo e autor de sucesso. É o que deu. Também acho piada nos teus testes de caráter. Tu dizes: "Qual é o traço principal do teu caráter?" "Tento ser honesto". "E qual é o teu pior defeito?" "Tentar ser honesto". É um valor que tu defendes muito e gostas muito, da honestidade.

Sim, eu tento sempre ser o mais transparente possível. Eu acho que é a forma de me relacionar melhor com as pessoas. Obviamente, não quero dizer com isto que esteja de peito aberto perante todas as outras pessoas, sejam leitores, sejam outras pessoas com quem me relacione, mas tento ser honesto e tento levar uma vida íntegra, à semelhança do meu protagonista atual, que também é uma pessoa bastante íntegra.

O Afonso Catalão, já lá vamos. Entretanto, licenciaste em Matemática, chegaste a ser professor, isto na Escola Secundária de Peniche, não muito tempo, um ano e poucos meses. E depois foste chamado pela NAVO, hoje és supervisor de controladores aéreos, trabalhas no aeroporto. Uma profissão muito estressante, pelo menos com muita atenção ao pormenor e muita memória tens que ter. Como é que consegues conciliar um pouquinho estas coisas?

Control Traffic Air é uma profissão de muita concentração, em que basta um pequeno deslize para cometermos um erro, que depois pode ter consequências muito gravosas.

Vidas e milhões, não é?

São centenas de vidas por voo que estão nas nossas mãos. Obviamente que se fizermos um disparate grande, poderemos estar a mexer com a vida de milhares de pessoas. Para mim, a escrita tem acabado por ser um escape. É uma forma de distração, é um mundo só meu, é onde eu estou com a minha cabeça e me permite ter alguma evasão relativamente ao meu trabalho. A forma como eu comecei a escrever também está um pouco relacionada com essa profissão, porque eu trabalho mesmo no Aeroporto Humberto Delgado. Estou associado ao turismo, estou associado às viagens, e o meu primeiro livro acaba por refletir também isso. É uma viagem por diversas cidades através do seu protagonista. E a escrita, para mim, acabou sempre por ter esse significado, ser uma forma de eu poder viver um bocadinho noutro mundo.

Tu tens realmente esta editora que te acompanha agora, a Cultura Editora. Tem que ficar aqui também este abraço público ao João Gonçalves e à Agência das Letras. Estas capas fantásticas dos seus livros, acho que é mérito da Vera Braga. Incrível.

Sim, as capas da série Afonso Catalão são da Vera.

Muito boas. E isso chama imenso numa livraria, eu acho que chama imenso. Não devemos julgar o livro pela capa, mas sei que és um homem de livrarias.

Gosto.

Não há dúvida que salta à vista e a pessoa fica curiosa e pega. É muito importante isso.

Sim, as capas são muito apelativas. Utilizam cores que normalmente conseguem chamar a atenção e têm elementos que são colocados na capa para fazer exatamente essa função, para fazer com que as pessoas peguem no livro.

Claro. E conseguem.

E eu também tenho tido o privilégio, e isso tem sido algo que a Cultura Editora me tem dado, de poder trabalhar em conjunto com a editora e com a designer no sentido de incorporar algumas daquelas que são as minhas ideias para as capas do livro. Nós, autores, temos sempre alguns traços na nossa cabeça sobre como é que o livro deveria ser ou como é que o livro deveria ser apresentado. Nalgumas capas eu tenho interferido mais do que noutras. Por exemplo Na capa de "Pecados Santos", eu disse apenas: "Não coloquem uma cruz na capa", porque a tentação seria grande, havendo um T no título e tendo uma temática religiosa. Eu disse: "Não coloquem uma cruz na capa, porque o livro é sobre o judaísmo e os judeus não acreditam em Cristo". Mas, por exemplo, para "O Cardeal", não era assim que eu via a capa, mas eu dei a sugestão da ponte, dei a sugestão do homem vestido de cardeal. Eu via talvez uma imagem um bocadinho mais distante, uma paisagem com um rio e um cardeal a atravessar uma ponte.

A ponte faz sentido na história.

Faz.

Haver ao fundo uma igreja. Não sei se isto é a igreja ou se é a universidade.

Essa imagem que está ao fundo é a capela de King's College, em Cambridge. É uma montagem com a Ponte de Clare, que é onde começa a ação do livro.

Sobre o rio Cam. Eu aprendi com o teu livro que Cambridge é a ponte do Cam. Cam é um rio, eu não fazia ideia. E estive lá e não sabia. E mais os cardeais espalhados pelo chão, porque cardeais são flores, também, pra quem não sabe.

São, são flores de inverno.

Flores de inverno com as cores encarnadas.

Cá são mais conhecidas como estrelas de Natal.

Sim, porque são aquelas encarnadas, com o encarnado muito forte. É muito curioso. Não só ficou este abraço aqui ao João Gonçalves na Cultura Editora, como também ficou ao marketing muito eficiente que tu tens, Nuno. O teu site, as tuas redes sociais, Facebook, Twitter, Instagram, Goodreads, tudo. Tens um muito bem conseguido esquema montado de divulgação com as tuas entrevistas todas. Claro que esta agora vai ser talvez o maior destaque.

Claro.

Não, eu estou a brincar. Mas realmente isso é muito importante também pra um autor preocupar-se um bocadinho com esse marketing. E concretamente neste "O Cardeal", que acaba de sair, além do microsite que já faziam e os trailers que têm do livro, participaste de uma maneira muito curiosa. Vestiste de cardeal, apareceste em todos os trailers a falar do livro. Não sei se houve pessoas que se calhar não gostaram, mas faz parte. Eu acho que essa polêmica também pode ser boa e acho que neste caso resultou muito. Mas participaste nesta promoção com as fotos da Marisa Martins.

Sim, nós tivemos uma abordagem muito conservadora sobre essa questão das fotografias em que eu apareço vestido de cardeal. Eu acho que, independentemente de tudo o resto, se há algum mérito que eu tenho nestes últimos 10 anos, é de ter trazido alguma inovação ao mercado literário português. Acho que desde o início que eu tenho tentado ou tenho procurado destacar-me de forma diferente. Eu recordo, por exemplo, o cartaz que nós fizemos para uma rede de livrarias em que "Pecados Santos" esteve na montra, em que eu tinha uma mão pintada de vermelho a simular sangue. E essa imagem, na altura, foi muito mais impactante e chocante do que propriamente eu vestido de cardeal. Quando eu abordei a Cultura Editora sobre a ideia que eu tinha para eu me vestir de cardeal e personificar, de alguma forma, uma das personagens do livro.

Exatamente. Eu agora informo desde já que "O Cardeal" tem como subtítulo "Assassino, Sacerdote, Amante". Só para as pessoas saberem, pra não serem enganadas.

Sim, porque o título "O Cardeal" aponta para várias personagens do livro.

Exatamente. Até porque há um conclave a decorrer.

Sim, uma delas é um assassino, outro é um cardeal que chega ao Vaticano. E depois a parte do amante, eu não vou dizer.

Não, não vai ter nenhum spoiler, claro.

A quem se refere.

Porque vale muito a pena ler.

Mas voltando um pouco ao tema da fotografia vestido de cardeal. A primeira vez que eu abordei o João Gonçalves sobre isto, ele mostrou-se muito pouco recetivo e ficou muito receoso, porque achava que a minha imagem seria, de alguma forma, penalizada por as pessoas me verem vestido de cardeal. E eu na altura disse: "Ó João, vai pensando no assunto".

"Dorme sobre o assunto e depois falamos".

Depois falamos. Depois, quando surgiu a produção da Marisa, o João aceitou que eu fizesse as fotografias vestido de cardeal, sob a condição de que faríamos uma distribuição controlada das fotografias, em que começaríamos apenas por mostrar uma fotografia em que não se notasse muito bem que era eu e ver como é que as pessoas reagiam, porque o João temia, e eu também, na realidade, que houvesse uma grande reação e que as pessoas se sentissem de alguma forma incomodadas ou chocadas por verem alguém vestido de cardeal.

Sem o ser.

Sem o ser. Mas a realidade é que as pessoas acharam engraçado, reagiram muito bem, e tornou-se numa das imagens do livro.

Sim, sem dúvida. Mas, posto isto, dito isto, também já foste ofendido por causa disso.

Já.

Há sempre, não é?

Mas isso acho que é incontornável neste momento.

E tu trabalhas muito em redes, estás muito presente em redes também. Sabes que há de haver sempre os haters.

A sociedade é tão aberta.

Cabe tudo.

E nós, de uma certa forma, embora eu seja uma pessoa reservada e tento de alguma forma manter a minha privacidade, eu e qualquer escritor acabamos sempre por estar expostos. E tornamo-nos um bocadinho em alvos fáceis e, portanto, qualquer pessoa, e essas pessoas que têm de alguma forma ofendido, digamos assim, podem fazê-lo, têm acesso direto a nós através das redes sociais, por exemplo, dos nossos e-mails que estão disponíveis. Eu tenho o meu e-mail publicado no meu site para um leitor que quiser falar comigo poder enviar uma mensagem.

Se calhar há muitos contributos bons que tens e os meus.

Sim, regra geral.

Mas também há sempre.

As reações negativas, se fizéssemos aqui uma percentagem, não superavam 1 ou 2%.

Estás muito bem.

É a experiência que eu tenho. Felizmente, é a experiência que eu tenho.

Outro dia entrevistava alguém que me dizia: "Se eu não tivesse reações negativas, é porque não estava a fazer bem o meu trabalho". Ainda bem que eu provoco nas pessoas amor e ódio e faz um bocadinho parte.

Eu preferia não provocar ódio nas pessoas. Mas aceito. Aceito, as pessoas têm direito à sua opinião.

O que é curioso é que tu és uma pessoa supertímida, superreservada, desde pequeno. Ia dizer quase um nerd, que em vez de jogar futebol, ia buscar livros à biblioteca e de loló. Não era, mas era quase.

Eu nunca fui grande jogador de futebol.

Mas, no entanto Hoje, entretanto, evoluíste muito. Lidar com isso às vezes pode não ser fácil, porque és uma pessoa que tens o teu trabalho que é bastante reclusivo e a escrita também é uma coisa muito isolada. E agora és um bocadinho obrigado a expor-te a coisas, a comentários, a pessoas e Feira do Livro. Também era um dos objetivos que tu tinhas, chegar à Feira do Livro. Onde também já te insultaram e onde também já te disseram: "Quem é você para estar a escrever isto?" É incrível.

Sim, isso já aconteceu.

Tens que ter muita calma e paz de espírito.

Eu tenho aprendido. E acho que uma coisa que me tem ajudado é o facto de eu só ter publicado o meu primeiro livro há 10 anos. Eu levei algum tempo a escrevê-lo, demorei também algum tempo a conseguir um editor pro livro. E na altura, quando eu passei, quando outras pessoas passam por isto, custa bastante e lidar com a rejeição é muito difícil e nós sentimo-nos de alguma forma frustrados. Mas, na realidade, eu estou grato por isto ter acontecido já com 33 anos, em que eu consegui ter uma visão mais madura sobre todo o processo. E tenho conseguido, acho eu, pelo menos, tenho conseguido evoluir com esta nova vida e tenho aprendido a lidar com as situações devagarinho. Eu acho que a minha carreira tem sido muito progressiva. Eu não tive, até ao momento, um sucesso repentino com um dos livros. Foi tudo muito gradual.

Vais-te adaptando.

Eu vou-me adaptando e vou aprendendo a lidar com as situações que vão surgindo.

E há outra coisa que eu gosto muito, que tem a ver com o teu curso, o crânio, a matemática. Eu conheço pessoas formadas em matemática que estão em grandes lugares, por exemplo, na banca ou em grandes empresas, em lugares chave, porque não é lá para fazer contas, é porque sabem resolver problemas. Têm um problema novo e sabem equacionar as coisas e chegar a uma solução. Isso é muito curioso, dá uma agilidade mental muito importante.

Sim, é uma pergunta que surge frequentemente: como é que um matemático se torna escritor? Eu costumo dizer: este matemático tornou-se escritor de thrillers porque consegue lidar com várias equações. Que é fundamental para escrever um thriller, ser capaz de ter várias equações e vários arcos narrativos a confluírem depois para um ponto em comum. Mas eu acho que o grande benefício que um curso como o de Matemática, não só o de Matemática, mas como um curso de Ciências Exatas nos traz, é essencialmente a estruturação do raciocínio. Nós aprendemos a criar métodos de trabalho e ter um raciocínio organizado e ordenado, que depois é essencial para a produção, por exemplo, de um livro, em que nós temos que ter um início, um meio, um fim e um método de trabalho e uma estratégia ao longo do livro. E foi isso que eu fui retirar ao meu curso.

Lias muito em pequeno, a começar pelos clássicos, aqui uma influência através da tua mãe, mais uma homenagem aqui à tua mãe, que merece. Ias buscar livros também. Em cada dois dias ias buscar três livros à Biblioteca Loulé. Muito importante. O meu primeiro livro, alguns livros que tu falas, Alexandre Dumas, "Os Pilares da Terra", claro, Ken Follett é obrigatório na tua biblioteca, obviamente. Gosto muito de "O Estranho Caso do Cão Morto", que é um livro fabuloso de Mark Haddon, que é escrito por simular quem é um autista. Uma coisa excecional, era da Presente. Vamos lá ver se conseguiram reeditar isso, que eu acho que está esgotado neste momento, vale muito a pena. Falas depois do Nicci French, do Craig Russell. Tu eras bom em Português, redação? Eu sei que tu escreves à bruta, porque há pessoas na faculdade que diziam: "Até nos exames de Matemática, este homem consegue responder uma coisa em quatro páginas de texto." E não era isso que a gente pediu. Mas escrevias bem, eras bom exemplo em Português.

Eu era bom aluno a Português. Aliás, eu acho que a disciplina que eu tive onde era mais fraquinho, se assim podemos dizer, seria Francês. Nunca fui excecional a Francês. De resto, a Educação Física também não era nada de especial. Na altura, eu durante a adolescência era muito mais pesado do que o que sou hoje. Eu pesava mais do que o que peso hoje.

A sério?

A sério, sim. E tinha sempre muita dificuldade em fazer os exercícios que o professor estruturava pra aula. Mas de resto era um excelente aluno e muitas vezes isto provocava alguns embaraços aos professores de Educação Física, porque de repente tinham ali um aluno que tinha cinco a tudo, exceto Educação Física.

Mas que adoravas escrever.

Sim, eu sempre fui um aluno que escreveu imenso nos testes, independentemente da disciplina.

Coisas de Matemática também.

Incluindo a Matemática. E sempre tive imensa facilidade em fazer aquilo que alguns alunos ou que muitos alunos achavam difícil, que eram as composições em Língua Portuguesa. Eu adorava essa parte do teste.

As redações.

As redações. Eu adorava essa parte do teste e isso por mim ficava lá o tempo inteiro. E quando todos os meus colegas odiavam.

Fazias sagas. De repente fazias uma saga em cinco partes da resposta. Muito bem. Tu hoje em dia lês muito na tua perceção?

Se se lê muito em Portugal? Não, eu acho que se lê bastante pouco.

E os miúdos? Como é que nós fazíamos, Nuno, para conseguir, não digo tirar, mas algo para eles alternarem um bocadinho entre os Fortnites e as Netflix e os videojogos e poderem de vez em quando agarrar um livro, ler um livro? Se fosses ministro de Educação, o que é que tu...?

Eu acho que o exemplo tem que partir dos pais. Um aluno nunca ou em circunstâncias muito raras, irá sentir alguma apetência por ler se não vir os pais a ler em casa. Se não sentir que isso é um hábito da família. Há exceções, há miúdos que sentem curiosidade pelo livro, é um sentimento que lhes nasce naturalmente, mas na maior parte dos casos têm que ser os pais a incutir nos filhos esse exemplo.

E fazer chegar livros.

Sim, exatamente. Eu penso que esse será o primeiro passo. Agora, como é que isto se consegue? Como é que os próprios pais conseguem? Eu acho que as nossas famílias precisam de mais tempo e precisam de passar mais tempo juntas e precisam de passar mais tempo de qualidade sem a televisão ligada, por exemplo Que a família possa entreter-se de maneira saudável, sem ter um ecrã à frente. E eu acho que atualmente esse é um dos grandes problemas da sociedade contemporânea. Falámos há bocadinho que eu tenho outro emprego. Eu lembro-me, não assim há tantos anos, talvez há seis, sete anos, quando eu estava nesse emprego e estávamos nos intervalos, eu via os meus colegas com livro na mão, tal como eu continuo a fazer hoje, cada vez que tenho intervalo e pego um livro e tento ler um pouco. Eu atualmente não vejo ninguém no meu trabalho com um livro na mão, eu vejo as pessoas com o telemóvel na mão. E o telemóvel, as Netflix desta vida. Ou nos transportes. O telemóvel, as Netflix desta vida e tudo mais, são concorrentes desse tempo que no passado era de leitura. A minha mãe às vezes conta-me histórias que ia para a cama à noite, por exemplo, às oito e pouco da noite, e ia ler. Hoje em dia há pessoas que gostam de ler na cama, mas isso não é um hábito. As pessoas, a seguir ao jantar, vão ver um pouco de televisão, na maior parte dos casos. E é preciso regressar a esse tempo, acho eu.

Exatamente, muito importante. Agora vamos concretamente falar do teu estilo, destes thrillers. Primeiro, que foi de ação, aquela primeira trilogia do freelancer, e depois agora esta do Afonso Catalão, mais de espionagem, de thriller psicológico. É engraçado, tu disseste uma vez que há uma concorrência estrangeira muito grande. Quer dizer, as pessoas olham e desconfiam muito que sejas um escritor de thrillers. E como tu dizes, é quase que seria preciso ser inglês ou nórdico. Parece que tens que provar com mais força que tens qualidade, porque as pessoas estão mais a acreditar nos estrangeiros. E custa ainda aos portugueses aceitar. Embora o José Rodrigues dos Santos tenha mudado um bocadinho o panorama. Mudaram um bocado, sem dúvida.

Eu acho que as coisas estão a mudar, mas isso é um sentimento que eu considero que tem sido comum a toda a cultura portuguesa. Se nós pensarmos aqui, há 15 anos, a ficção televisiva portuguesa não tinha o mesmo sucesso que tem hoje em dia. As pessoas preferiam ver uma novela brasileira a uma novela portuguesa. Atualmente é completamente o oposto. As novelas portuguesas lideram audiências, por exemplo, ou música portuguesa esgota as salas de concerto, coisas que não aconteciam.

Quem pensava lá há 20 anos.

Há 20 anos. Eu tenho esperança que também na literatura este passo venha a ser dado, e eu penso que já estivemos mais longe. Nós hoje em dia temos, em quase todos os gêneros, escritores que conseguem, eu não diria rivalizar, mas pelo menos debater-se com os autores estrangeiros se forem publicados na mesma altura e em mesmas condições. Mas nós temos tido esta relação de algum distanciamento e de alguma subvalorização da nossa própria cultura. Eu acho que nós, portugueses, temos sempre tendência a considerar que aquilo que vem de fora é melhor do que aquilo que temos cá dentro. E eu acho que isso é um erro. Nós temos excelentes autores. Não estou a falar de mim, eu estou a falar no geral.

É verdade.

Nós temos excelentes autores, escritores com carreiras longuíssimas, que já mostraram mais do que uma vez que têm muito talento, que têm muita qualidade, e as pessoas devem lhes dar uma oportunidade. Há escritores que passam uma vida inteira sem qualquer tipo de reconhecimento e continuam a publicar livro após livro, a darem pequenas obras-primas aos leitores. E eu gostaria de aproveitar a oportunidade para as pessoas poderem conhecer melhor esses autores.

É importante isso, porque faz-me pensar essa coisa da pessoa ter que provar que é português e porque é português também é bom e pode estar em par com esses escritores de outros países e não uma mania de as pessoas deitarem-se abaixo e acharem que como é português, certeza que se é estrangeiro é melhor. Não necessariamente. Há coisas muito boas a acontecer e estou aqui na mão com uns bons exemplos disso, da tua autoria, Nuno Nepomuceno. Nós já voltamos agora à conversa, Nuno. Até já. Estamos a conversar com Nuno Nepomuceno, autor de thrillers psicológicos, que este ano lançou o quinto da sua saga de sucesso e que inicia a reedição da sua primeira trilogia. Estamos de volta, Nuno, agora para falar, e como tu que já foste professor também, e hoje é o Dia Mundial do Professor, dia 5 de outubro, para falar deste gênero, concretamente, estou a pensar em alguns nomes: Luiz Miguel Rocha, meu grande amigo, que eu conhecia tão bem, José Rodrigues dos Santos, o Dan Brown, o Daniel Silva, que é um grande aluno teu, gostavas muito um dia de seguir a carreira dele um bocadinho. E se pudesses jantavas com ele, também foi uma coisa que gostava de ver se disseste, gostava de jantar com ele para lhe fazer uma série de perguntas. Muito bem. Todos eles têm os seus heróis, os seus detetives. Estamos aqui a trazer à colação o Tomás Noronha e o Robert Langdon, do Dan Brown. Também tens os teus e já levas dois de caminho. Na primeira trilogia, na trilogia Freelancer, este André Marques Smith, e na segunda, o Afonso Catalão, professor universitário, outro gênero de herói, mas já lá vamos. E a pergunta para já é esta: tu vais conseguir acompanhar o ritmo que tu queres e que planeias de um livro grande por ano? O José Rui Santos é especial porque consegue oito, mas tu consegues pelo menos um por ano. Para já estás a conseguir.

Atualmente estou a publicar dois por ano.

Ok.

Um original e uma reedição.

É verdade, porque as tuas reedições, esta trilogia freelancer, que começaste por ela, estes três volumes, estão agora a Cultura Editora está a reeditá-la, mas reescrita. Há partes que estás a acrescentar e a escrever de raiz.

Nós começámos a trabalhar as reedições o ano passado, foi em 2019, quando a Cultura Editora começou a ter a perceção de haver um maior interesse sobre o meu trabalho. Eram questionados sobre quando é que-

As coisas anteriores deles.

Sobre os livros que estavam no meu catálogo.

Aliás, isso surpreendeu-te. Porque é que eles querem saber os livros que eu escrevi antes? Não era suposto.

E então começámos exatamente pelo único livro que estava fora do catálogo da Cultura Editora, que é o primeiro livro onde surge Afonso Catalão, que é a "Cela Adormecida". Esse livro foi publicado na altura ainda com a editora com a qual eu trabalhava em 2016, e eu depois em 2017 transitei para a Cultura Editora e o livro ficou nessa outra editora. Então em 2019 publicámos a "Cela Adormecida". Eu, durante a série Afonso Catalão, nomeadamente durante a última ensaia, fiz uma transição de modo gramático. Eu escrevia no presente indicativo e passei a escrever no pretérito perfeito por causa da quantidade de analepses que a última ensaia contém. E depois quando nós decidimos que íamos começar a reeditar os meus títulos mais antigos, eu achei que esses títulos teriam que ser reescritos de acordo com esta nova forma que eu tenho de escrever. E, portanto, começámos por fazer esse trabalho exatamente com a "Cela Adormecida".

Da narração com o tempo.

Exatamente. Essa edição de 2019 da "Cela Adormecida", aliás, acabou por ser publicada até com alguns extras, como um final alternativo, um conto, e tudo mais. Agora para o "Espião Português", replicámos um pouco essa ideia, se bem que o "Espião Português", enquanto na "Cela Adormecida" eu desbastei um bocadinho o livro, porque o livro era demasiado longo, no "Espião Português" fiz o trabalho inverso. Aumentei um bocadinho o livro, beneficiando do facto de que eu tenho a trilogia completa e já escrita e, portanto, sei o que é que acontece para a frente na história e pude ir buscar bocados dessa história e tornar o livro mais coeso ao introduzir agora.

Tu nessa primeira trilogia freelancer escreveste três. Quando escreveste o primeiro, não sabias que irias ter três ou já sabias?

Sim, o plano eram três.

E o plano já estava na tua cabeça as três histórias, mais ou menos o sumo de cada uma?

Sim. Para a série Afonso Catalão, não. A série Afonso Catalão não surgiu como série. A série Afonso Catalão surgiu como um livro isolado, a "Cela Adormecida". E durante a "Cela Adormecida" há uma passagem dentro do livro em que o Afonso, o protagonista, que já é um homem com quase 50 anos e que passou por diversos países, está a ser questionado sobre o seu passado e alguém lhe diz, esse alguém é um investigador do SIS, lhe pergunta o que é que aconteceu em Londres. E o Afonso responde: "Não aconteceu nada em Londres". Mas dá-lhe assim uma resposta muito seca. E na realidade aconteceu muita coisa em Londres. E é assim que nasce a série Afonso Catalão, porque depois no livro que vem a seguir, eu explorei o que aconteceu em Londres e assim continuei a série.

Muito bem. Os teus livros, a tua escrita é, como aliás alguns destes autores que eu acabei de mencionar, é muito cinematográfica. É um sonho que tu terias ou não, ver isto numa minissérie?

Eu acho que dava uma excelente série.

Ou num filme?

Eu acho que a série literária Afonso Catalão dava uma excelente série numa plataforma.

Já agora, sei que gostas muito do Nicci French, este casal inglês, casal britânico, que escrevem thrillers psicológicos também. Não sei se sabes, mas vem aí também a minissérie do primeiro livro deles, de 97, chamado "The Memory Game". Está agora a ser filmado.

"O Jogo da Memória"?

Sim.

Eu li "O Jogo da Memória".

Pronto, vem uma minissérie com eles, não sei se sabias. Estou-te a dar a novidade em primeira mão.

É uma excelente novidade.

Ainda bem que vieste ao Observador. Agora já sabes. Muito bem, um dia vamos de certeza. E tu escreverias o guião de um dos teus livros ou seria melhor outra pessoa?

Não, preferia ser eu.

Ser tu?

Não tinha que ser apenas eu a escrever, mas aceito perfeitamente trabalhar com outras pessoas, mas gostaria de estar envolvido no projeto. Eu acho, mais do que uma tentativa de manipular alguma coisa ou de meter a mão em alguma coisa, seria mais uma forma de aumentar a qualidade do projeto, porque eu estou muito envolvido com os livros. E eu conheço melhor o Afonso e o enredo do que qualquer outra pessoa.

Claro, melhor do que ninguém. É engraçado, porque tu escreveste o teu primeiro livro, começaste a escrever em 2008, vais fazer 18 anos já. Carreira de escrita, não é?

Quer dizer, nós contamos normalmente a partir da data de publicação do primeiro livro.

Está bem, mas tu levaste cinco ou seis anos a escrevê-lo e mais dois à espera. Portanto, em 2003 começaste a escrever uma obra que depois 15 editoras vieram recusar ao longo de dois anos, mas escreveste à socapa. O isto é que é o curioso. A tua família não sonhou, os teus colegas de trabalho não sonharam, e de repente o livro com pseudônimo levas para um concurso, ganhas o primeiro prêmio e nem sequer nessa altura disseste a muita gente, se calhar só às tuas irmãs e aos teus pais.

Disse apenas aos meus pais e às minhas irmãs.

E depois é que as pessoas de repente confrontam-se: "Os colegas do trabalho tal e ao lado de mim, é de repente um escritor que ganha um grande prêmio literário". É muito curioso.

Sim, eu telefonei aos meus colegas três dias antes do livro sair, quando os convidei para o lançamento. Ninguém sabia.

Ninguém supunha o que é muito engraçado. Mas começaste a escrever porque sentiste essa curiosidade de orientar uma história, de manipular e de criar essas emoções, certo? Foi por causa disso.

Sim, eu tenho uma imaginação, digamos que poderosa. E eu sempre gostei imenso de ler. A minha entrada na escrita deriva do meu gosto pela leitura.

Claro.

E durante a adolescência comecei a sentir, à medida que fui aumentando e variando um pouco os gêneros narrativos que lia Comecei a sentir muita curiosidade sobre o processo de bastidores. Eu gosto muito da parte dos bastidores do livro. Não acho, por exemplo, a revisão de um livro nada chata. Gosto imenso de andar ali a trocar e-mails com a revisora e andar a pensar na capa.

Todo este processo.

É um processo que me dá gosto.

E estás muito envolvido, o que é curioso.

Sim, e comecei a sentir curiosidade sobre como é que seria poder estar envolvido neste processo, poder tomar decisões sobre o rumo de uma história.

Despertar sensações. Manipular.

Despertar sensações, conseguir que alguém sentisse alguma coisa sobre o meu livro. E foi assim que decidi que iria escrever. Não o fiz logo. Eu acho que sempre tive um pouco a noção, talvez porque tinha interesse, fui sempre conhecendo um pouco, embora de forma externa, o que era o mercado editorial e sempre tive a noção que era um mercado difícil, que muito dificilmente iria ter capacidade de fazer uma carreira, de comprar a minha casa, de comprar o meu carro, manter a minha família, etc. Então enveredei por outra profissão e quando cheguei a alguma maturidade e a alguma estabilidade, resolvi então experimentar.

Com grande sucesso e ainda bem. Qual é o pseudónimo que tu tinhas quando apresentaste a concurso? Que já não é usado, mas na altura tiveste que inventar um nome.

Eu não me lembro do primeiro.

Tens que te lembrar do nome. Aliás, eles pediram-te para ficar com ele e para publicares com ele. Tu disseste: "Não, tem que ser Nuno Pomoceno".

Já me lembro. E até posso explicar porque é que eu recusei. Era Tiago Hoffman.

Ok.

Tiago porque é um nome que eu gosto, não há nenhuma razão em particular. É um nome que eu gosto.

Estou cheio de graça porque eu nunca li e achava piada saber, porque eles pediram-te: "Assina a partir de agora como Tiago Hoffman". E tu disseste: "Não, o meu nome é Nuno Pomoceno".

E Hoffman é o nome de um amigo meu, e eu na altura achava piada ao nome.

Que é meio estrangeiro, portanto é bom para internacionalizar.

E o grupo Sonae, que na altura era o promotor do concurso que eu venci, achou que era muito mais comercial do que Nuno Pomoceno e insistiu bastante.

Para tu manteres esse nome e publicares com esse nome.

Para o livro ser publicado segundo o pseudónimo que tinha vencido o concurso.

E aí fizeste "fica pé".

Fiz "fica pé".

"Não, que era o meu nome, o nome do meu pai, o nome da minha família".

Exatamente.

Pois fizeste muitíssimo bem. Muito bem, as tuas rotinas, como é que é? Tu escolhes dias em que não tenhas mais nada que fazer ou quase?

Eu não consigo escrever sem ter tempo à minha frente. E há escritores assim, mas eu não sou aquele tipo de escritor que tem meia hora e escreve meia página. Não, eu preciso de ter três, quatro horas à minha frente. Por exemplo, hoje à tarde eu estive a escrever. Escrevi um capítulo, ia começar o segundo, mas entretanto apercebi-me que já não tinha tempo de o concluir.

E por isso vieste. Muito obrigado. Estás a jogar para a casa.

E então o que fiz, na altura, foi apenas anotar algumas ideias que tinha para o capítulo e quando tiver possibilidade, se calhar ainda hoje, quando chegar a casa, irei pegar nessas ideias e vou ver o que eu digo, porque eu preciso de algum tempo à minha frente.

E tu não arrancas um capítulo e estás a escrever. Não, tu vais sempre ver o que escreveste atrás e refazes se for preciso, às vezes do zero.

Faz parte do meu método recuperar sempre o trabalho anterior, porque pode ser sempre melhorado. Eu, por exemplo, nesse bocado que tive hoje, em que estava um pouco a fazer tempo para vir para a entrevista e que não tinha tempo para escrever um capítulo, estive a fazer revisão e peguei em três capítulos ou quatro para trás do ponto onde eu estava no livro e encontrei melhorias a fazer. E se pegar outra vez, vou encontrar mais melhorias.

Tu consegues encontrar falhas em todos os teus livros?

Consigo, sim. Eu acho que qualquer pessoa consegue. Há sempre coisas que podem ser melhores. Nós não somos perfeitos.

Claro, ok. Emociona-te a escrever, que também é giro.

Sim.

Houve ali uma parte final no último livro da trilogia freelancer, onde tu soltaste umas lágrimas, embora tenhas vergonha de o dizer.

Sim, e já tem havido outros momentos mais emotivos no decurso dos livros dedicados ao Afonso. Eu consigo facilmente colocar-me na posição dessas personagens. E enquanto escrevemos uma série, parecendo que não, esta personagem, que é uma personagem, que é fictícia, que não existe.

É como se fosse teu filho, dormes com ela, vives com ela.

Mas passa muito tempo connosco.

Claro.

E eu quando estou a escrever sobre o Afonso, eu consigo ver o Afonso. Eu consigo ver o Afonso em casa, a movimentar-se. Eu consigo ver tudo isto na minha cabeça. E eu sei que é uma personagem e que ele não existe, mas ao mesmo tempo também existe, porque passa muito tempo comigo.

Claro. Estas rotinas. Engraçado, tu tinhas uma máquina de escrever antigamente, ou pelo menos aprendeste no curso.

Aprendi. Ainda aprendi a escrever.

Essas práticas administrativas.

Sim, ainda aprendi a escrever numa máquina.

Tu tens algum ritual quando escreves? Algum ritualzinho mais inconfessável?

Há algumas coisas. Não são tiques, mas são algumas coisas que me deixam mais confortável. Normalmente tiro o relógio do pulso. Não gosto de sentir o relógio.

A pressão do tempo.

Não, e também a sensação do relógio sobre o teclado, não gosto. Tenho que ter água ao meu lado, normalmente tenho que estar num ambiente minimamente controlado, sem grande ruído à minha volta. Pode haver música, mas tem que ser música baixa e tem que ser música com a qual eu esteja bastante familiarizado. Não pode ser, por exemplo, um álbum novo de um cantor.

Por exemplo, aquele dos "Pecados Santos" teve muito a ver com esta "Rain in Your Black Eyes", uma música que tu falas, que influenciou muito.

Sim, um álbum de música clássica de um compositor italiano, o Ezio Bosso. Serviu na altura de banda sonora para escrever o livro, porque essa música que estás a referir, eu acho que é uma música que define muito bem o compasso do livro. Tem períodos mais altos, períodos mais baixos e é uma música que acaba por ser muito soturna. E eu acho que o livro, que se passa muito dele durante a noite, acabou por ir beber um bocadinho esta composição.

Muito bem. Estamos a oito minutos de acabar. Falando agora dos teus livros, e também tens ficheiros. Engraçado, falávamos. "O Espião Português", que temos aqui editado já em 2012, que levaste uns anos a escrever. Já falámos suficientemente dele, que está a ser agora reescrito. Envolve então estes cientistas e um projeto de investigação genética. Tem uma grande história com este André Marques Smith, este funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que é também um agente secreto implacável, este espião que é o teu herói nesta trilogia. Falas sempre em localizações e este passa assim Estocolmo, Roma, Viena, Londres e Lisboa. Outros vão a Budapeste e a Berlim, Hong Kong, Macau, Praga, Belize Tu visitas estes sítios? Não visitas todos, se calhar.

Não visitei todos. Para a trilogia não visitei todos.

São muitos.

Porque são muitos. No total, se eu não estou enganado, a trilogia "Freelancer", no fim dos três livros, passa por 18 localizações diferentes.

Impressionante. Macau, Pragas.

Várias.

Dubai, Courchevel.

Em alguns passei, outros nem por isso. Baseei-me na pesquisa que consegui fazer. No caso da série Afonso Catalão, eu tenho reduzido bastante mais essa variedade e os livros passam-se sempre em uma ou duas cidades só. Não há muito mais locais por onde cada um dos livros passa e aí, sim, eu tenho ido primeiro aos locais e esse trabalho tem sido fundamental. Se eu não tivesse ido a Cambridge em 2019, eu não teria escrito "O Cardeal". A minha passagem por Cambridge, que na altura foi quando eu estava em Londres a fazer a sessão fotográfica para promover "A Morte do Papa", tirei uns dias e fui a Cambridge. Se eu não tivesse ido lá naquela altura, eu não teria escrito "O Cardeal".

Até porque lá informaste daqueles crimes recentes que tinham acontecido e que te inspiram neste livro.

E acabei por trazer para cá muita coisa que a cidade me sugeriu, o ambiente da cidade, as lendas que existem na cidade.

Como os alpinistas urbanos.

Exatamente. E isso foi tudo descoberto lá. E, portanto, as visitas acabam por ter um papel muito importante.

Muito importante. Também é curioso que nesta primeira trilogia, este André Marques Smith é um bocadinho criado à tua imagem, mas o Afonso Catalão também estou a ver a tua imagem. Embora aqui o André tenha o cabelo e os olhos do meu pai, como tu dizes. Está bem, mas és tu, o Afonso Catalão, o Cardeal, vais ser sempre tu, não tens hipótese. Depois destes três da trilogia "Freelancer", começaste então com esta série Catalão. Este Afonso nasceu-te de um desejo, tu querias um herói um bocadinho mais negro que o outro, não tão rígido, moral.

Sem regras tão definidas.

Sim, com estas regras definidas muito morais. Não procuravas criar uma personagem má, mas alguém que tivesse um passado complexo e acho que conseguiste, está perfeito. Este professor existe, tu quase estás a conversar com ele, a gente vê. "A Cela Adormecida" faz aqui um cheirar ao Islão, que é muito importante. Explica as diferenças também entre religião e terrorismo. É muito engraçado que os teus livros têm sempre esta coisa dos valores que tu queres passar e a vida da mentira. E tu consegues, nestes livros, divertes-nos, entreténs-nos, mas tens sempre um fundo que nós vamos aprendendo, porque fazes questão de passar alguns valores que tu queres comunicar.

Eu acho importante transmitir alguma mensagem. E eu acho que o grande mérito do Afonso é o exemplo que o Afonso dá. É uma personagem que tem muitos erros no seu passado, há muitas coisas das quais ele se arrepende. E vamos agora no sexto livro explorar isso novamente.

A sair em 22, quando queria.

21. 22.

No primeiro semestre do ano que vem?

22. Já estou perdido nos anos.

Pode ser o livro do ano, não pode ser? Não acompanhamos, os leitores não acompanham.

Eu acho que é essa imagem e é essa mensagem que o Afonso transmite, a integridade que existe neste homem e a honestidade. Ele reconhece os erros que tem e ele vive com esses erros, vive mal. Em "A Cela Adormecida" nós conhecemos um herói atormentado por aquilo que fez, por aquilo que aconteceu enquanto ele viveu na Turquia. E ele só no "O Cardeal", portanto, supondo que mais ou menos cada livro corresponda a um ano.

Só quatro anos depois.

Só quatro anos depois é que há algum sentido em que o Afonso mostra, de facto, alguma capacidade de superação sobre esses acontecimentos. E mesmo assim, agora eu estou a escrever o sexto livro. Estes fantasmas do passado do Afonso voltam a surgir, embora de outra forma, mas ele continua a ter assuntos e casos no seu passado, nomeadamente na sua relação com os pais, que lhe causam um grande sofrimento.

Só depois de teres escrito é que visitaste Istambul, foi no caso do primeiro, de "A Cela Adormecida". Tens aí também uma grande homenagem a Lisboa. Tinhas andado a passear por aquelas terras todas. No primeiro, tens uma grande homenagem a Lisboa, nesta "Cela Adormecida", que fala então do Islão e abordas também os refugiados, o racismo, uma série de problemas importantes. No segundo, tem a ver com o judaísmo. É muito engraçado que vais buscar aquele quadro, aquele sacrifício de Abraão, é muito curioso. Aí também optaste por uma descrição mais gráfica de cenas de violência e também de cenas de sexo. Há aqui duas violações muito bem descritas, mas que não são gratuitas, fazem parte e são importantes para a narrativa. Explicaste isso muito bem. "A Última Ceia" é o terceiro, é o teu livro preferido, a ideia que nasceu espontaneamente. É uns que tu gostas mais, mete o Leonardo Da Vinci, o mercado de arte, uma coisa também muito curiosa. E também ficamos a perceber ao ler esse livro, porque é que este Leonardo, este tigre da Sibéria, é o teu animal preferido e no qual não te importavas de reencarnar. Isso é uma coisa curiosa, mas deixa as pessoas, para saberem mais, lerem "A Última Ceia", que saiu há dois anos. O ano passado já saiu "A Morte do Papa", é o quarto do Afonso Catalão, foi lançado na data do aniversário do Papa Francisco. Não tem nada a ver, eu sei que é 17 de dezembro, mas foi uma coincidência. Ganhaste outra vez prémios e foste o primeiro de vendas. E fala um bocadinho desta coisa mal resolvida e mal explicada ainda, claro, da morte do Albino Luciani, do Papa João Paulo I. Tem um bocadinho a ver.

Sim, o livro é inspirado nessa história. Eu quando decidi escrever um novo livro para o Afonso, fui à procura, por sugestão de leitores.

Na Igreja Católica, algum mistério.

Se algum mistério que houvesse por explicar ou por resolver dentro da Igreja Católica, encontrei aquele que é o mais óbvio de todos, que é a morte de João Paulo I.

33 dias depois de ser eleito.

E sobretudo as circunstâncias em que foi encontrado morto, que nunca foram muito bem explicadas. Eu acabei por fazer uma transposição dessa história para a série Afonso Catalão e para a sociedade contemporânea. Portanto, isto não acontece no ano em que João Paulo I morreu.

Já foi no ano em que tu nasceste.

1978, exatamente, mas acontece atualmente. Há dois anos, porque o livro decorre entre agosto e setembro, portanto estaria agora a fazer dois anos que decorre a morte do Papa. Eu, basicamente, o que fiz foi pesquisar sobre o acontecimento histórico que inspirou o livro. Tentei perceber quais eram as teorias mais plausíveis que existiam em torno de sua morte, a explicação oficial, as chamadas teorias da conspiração. Existem até alguns livros escritos sobre isso.

Exatamente.

E aproveitei isso para criar um enredo, sendo que até à data foi o meu livro mais fácil de escrever, porque como tinha uma história muito bem definida pela qual teria que passar, eu basicamente fui criando pontos de ligação.

Exatamente. Muito bem, estamos já a fechar e a falar no futuro, depois do "Espião" que já falámos suficientemente e que saiu agora, e que tem toda esta campanha fantástica que vocês realizaram à volta do livro. Muito bom. O futuro temos a ver, portanto, o número seis do Catalão talvez em janeiro de 22, eu tenho aqui, não sei.

Ainda está um bocadinho indefinido, mas estamos a trabalhar com essa data em mente.

E estás a preparar o desenlace da série Catalão. Não quer dizer que é o último, quer dizer a continuação, certo? Porque eu acho que isto não deve acabar agora. Não mates o homem já, Nuno.

O único acordo que eu fiz com a Cultura Editora foi que eu não matava o Afonso Catalão. E já agora aproveito a audiência da Rádio Observador para esclarecer. Este será o sexto e último volume da série Afonso Catalão. Depois, no próximo ano, terei ainda as reedições do resto da trilogia "Filances", que as pessoas têm perguntado bastante quando é que os livros saem. Portanto, sairão depois da série Afonso Catalão. E depois irá seguir-se pelo menos um ano de interregno. Eu decidi que vou fazer uma paragem.

Ano sabático.

Exatamente. Portanto, em princípio, em 2023 não terei qualquer livro novo ou reeditado.

Não aguentas.

Vou aguentar. E depois regressarei em 2024.

Mas só uma coisa, em 15 segundos para fechar. Tu tinhas três objetivos: chegar à Feira do Livro, ter um livro com mais de uma edição, também já tens, e ser publicado em inglês. Esse ainda não, mas a tua agência de certeza está.

Já está publicado em húngaro.

Então esse também já está. E finalmente, em 2023, que não era suposto escreveres, eu acho que vais aparecer com o romance histórico centrado, digo-te já em quem, em D. João I.

Não.

Século XV, que é o que tu gostas. D. João I, que é um personagem que tu adoras. E eu acho que é por aquela altura.

Quem sabe se será um romance histórico ou não.

Mas já tens notas sobre este romance histórico, que é um dos teus sonhos?

Não, tenho ideias.

Está bem.

Mas não estou com isso a dizer que vai ser um romance histórico.

Está bem, para as pessoas não estarem com falsas esperanças. Muito bem, Nuno. Nós não temos tempo para mais, mas quero te agradecer muito. Obrigado pela tua disponibilidade, em vires neste dia feriado, desde a região Oeste, aqui desde o Turcifal, para falar aqui ao Observador. Oxalá continues inspirado, dando-nos mais policiais destes e possamos em breve então ler os teus romances novos, incluindo o que vai sair em 23, é inevitável. Bem-hajas, Nuno, e até breve. Muito obrigado.

Muito obrigado, João Paulo. Obrigado a ti.

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