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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa em que destacamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Hoje conto com a análise do investigador de História Militar, Pedro Nascimento. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Pedro Nascimento, vamos começar por falar sobre as eleições em Israel. Começaram ontem e a verdade é que ainda não estão contados todos os votos. Estes últimos votos podem valer até 12 lugares no Parlamento. Para já, está a ser uma corrida muito renhida, mas estes últimos lugares do Parlamento só devem ser conhecidos amanhã. Para já, Pedro Nascimento, que primeiro balanço podemos fazer deste ato eleitoral em Israel, o primeiro desde os ataques de 07/10, que despoletaram a ação militar de Israel na Palestina?

Olá, José Rafael. Eu cumprimento todos os ouvintes e agradeço uma vez mais à Rádio Observador o convite. Eu acho que há uma certeza que nós já podemos ter, é que estes resultados provisórios apontam para um Parlamento fragmentado, sem uma maioria clara para nenhum dos grandes blocos. E isto é importante porque no sistema político israelita, ganhar eleições e conseguir formar governo são duas coisas muito diferentes. Eu diria que Netanyahu continua a ser uma figura central na política israelita. Parece que é o homem que tem várias vidas, mas a questão aqui não é apenas saber quantos deputados é que consegue eleger o seu partido, que será o mais votado, é saber que coligação poderá ser construída e, sobretudo, que liberdade de ação terá o próximo governo para enfrentar os desafios que Israel tem pela frente. Eu creio que nós aqui devemos distinguir duas dimensões. Uma, e eu creio que é importante por tudo o que se fala, é a continuidade de Netanyahu enquanto primeiro-ministro, e outra é a continuidade da política de segurança israelita. São coisas muito diferentes. E independentemente daquilo que os resultados venham a dizer, eu acho que já há aqui uma coisa que nós podemos tomar por assente. É que todos aqueles que diziam e que viam manifestações em Israel e que achavam que o próprio povo israelita, que era contra isto que se estava a passar e que era contra este governo, quer dizer, estes resultados não vêm mostrar isso, pelo menos a larga maioria das pessoas israelitas. Se calhar é muito difícil para muitos ocidentais conseguirem perceber exatamente qual é o pensamento daquele povo. Mas independentemente de quem venha a governar, Israel vai continuar a considerar o programa militar iraniano um perigo para a sua existência. E essas preocupações não nasceram com Netanyahu e não vão desaparecer necessariamente se ele vier a sair. Aliás, isto é uma constante da história de Israel, desde 1948, a política de defesa israelita foi profundamente marcada por uma combinação de vulnerabilidade territorial, por uma superioridade tecnológica e por uma necessidade de manter uma iniciativa militar que, independentemente dos intervenientes e dos atores, não vai mudar. Mas a forma de gerir estas ameaças e a relação com os seus aliados e a disposição para assumir os riscos militares que tem assumido, dependem necessariamente das escolhas políticas. E é aqui que entra a possibilidade de Netanyahu poder ser pressionado para se aproximar de um bloco talvez mais centrista.

Pedro Nascimento, uma das palavras que têm sido mais utilizadas em todo este processo eleitoral em Israel tem sido a palavra mudança. Estamos ou não perante mudanças em Israel?

Eu tenho muita dificuldade em concordar com mudanças que sejam substanciais. Aliás, na esteira daquilo que eu vinha dizendo, a doutrina israelita, a gênese israelita, quem estuda um pouco desse país, e nós temos vários especialistas que falam sobre a matéria, vem contradizer totalmente uma fração de pessoas que tenham a opinião de que aquilo vai variar muito dos políticos. Repare, nós sabemos de onde é que vem o principal adversário de Netanyahu, Eisenkot. Vem precisamente do universo militar israelita. Ele foi chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. Em Israel, a divisão entre a direita e o centro não corresponde automaticamente, como nós tantas vezes fazemos aqui essa avaliação, a uma divisão entre quem privilegia a segurança e a quem acaba por desvalorizar. O que pode mudar é uma forma de combinar a força militar com os objetivos políticos. Esta é, para mim, uma questão essencial, porque Israel demonstrou, ao longo desta guerra, capacidades militares muito significativas, mas a superioridade militar, por mais impressionante que seja, não elimina por si só os problemas estratégicos. Podem ser destruídas instalações, podem ser atingidos centros de comando, podem ser eliminados dirigentes. O que nós não podemos presumir é que isso produza automaticamente uma ordem regional estável. Aliás, tivemos o exemplo destes últimos anos que isso não aconteceu e a história está cheia de exemplos de operações militares extraordinariamente eficazes que não produziram os resultados políticos inicialmente esperados. Basta recordar o Iraque em 2003. Portanto, eu não estou a dizer que Israel esteja perante uma situação igual, estou a dizer que existe um princípio histórico comum, que é destruir a capacidade militar de um adversário e resolver o problema político que esse adversário representa são tarefas diferentes. Como eu disse, o que pode mudar é a forma de combinar a força militar com estes objetivos políticos.

Gostaria também de lhe perguntar, Pedro Nascimento, o que nos diz, para já, a postura dos líderes dos partidos que estão na batalha pela liderança. Falo de Eisenkot e também de Benjamin Netanyahu.

Acho que apesar de Eisenkot se ter precipitado, neste momento vai ser um jogo de negociações que vai ditar o futuro. Nós já temos algum conhecimento desta faceta de estratega de Netanyahu. O que ele irá fazer no futuro, se eu tivesse que apostar, diria que ele já tem alguma coisa há muito tempo em mente. Não é por alguma coisa fortuita que Netanyahu tem estas vidas todas e consegue sobreviver a escândalos, a eleições, a dificuldades políticas, porque é um homem extremamente calculista. Mas também aqui, talvez um pouco enviesado por ter mais conhecimento de Benjamin Netanyahu do que de Eisenkot, mas acho que há aqui um marco que pode ser um indicador para o futuro. Não estou a dizer que vai ser decisivo, mas é um indicador. Eisenkot acabou por se precipitar a festejar, entre aspas, os resultados eleitorais. Netanyahu foi mais contido e foi mais calculista e isso revela uma personalidade diferente, tem uma experiência política diferente. Veremos, porque naturalmente temos que esperar pelos resultados.

E para já ainda esperamos pelos resultados. Há ainda votos a serem contados que podem valer 12 lugares no Parlamento israelita. Vamos avançar. Falar também sobre a situação na Ucrânia, até porque o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky defendeu que devem ser dadas garantias de segurança à Rússia como parte de um futuro acordo para terminar a guerra. Pedro Nascimento, é possível que esta exigência ou este pedido de Volodymyr Zelensky seja aceito pelo lado russo?

Estamos aqui numa questão teórica de garantias mútuas. Devemos distinguir cuidadosamente duas coisas.

É que eu lembro, a Ucrânia já chegou a ter garantias russas que acabaram por, na situação atual, não valer de muito.

José Rafael, e devemos apontar precisamente neste momento que essas garantias não eram apenas russas. Temos países europeus e temos os Estados Unidos que também se ofereceram para mediar e para fazer com que as hostilidades terminassem e sabemos aquilo que deu. Podemos ter também como exemplo os Memorandos de Budapeste e tudo mais, e no final do dia a Ucrânia saiu sempre prejudicada. Mas como eu estava a dizer, nós devemos distinguir aqui cuidadosamente duas coisas. Uma é reconhecer que num acordo de cessação de hostilidades, ambas as partes podem e devem assumir compromissos de segurança. Outra muito diferente, e nós não podemos aqui, neste caso, deixar de realçar que não pode estar em cima da mesa, mas infelizmente estará, mas não deveria estar o direito de a Rússia determinar a soberania, as fronteiras ou as alianças da Ucrânia. Isto não é a mesma coisa que as partes possam assumir compromissos de segurança. Na história militar, os acordos de armistício acabam por influenciar frequentemente obrigações que são recíprocas. Podem estabelecer as linhas de separação, podem trazer limitações à movimentação de forças, de zonas desmilitarizadas, de mecanismos de observação. Aliás, tudo aquilo que está ligado com cessar-fogo do ponto de vista doutrinal e teórico, que já tivemos aqui também a oportunidade de explanar. A Coreia, a guerra do início da década de 50, é novamente um exemplo muito importante, porque esse armistício estabeleceu uma linha de demarcação militar e uma zona desmilitarizada. Ou seja, as obrigações de respeitar o armistício aplicavam-se às forças dos dois lados. Mas isso não significava que todas as responsabilidades políticas e mesmo históricas pelo conflito fossem consideradas equivalentes. E é essa a distinção que devemos manter no caso ucraniano, porque a Rússia pode receber garantias de que determinadas disposições militares serão respeitadas, de que não haverá ataques durante um cessar-fogo ou de que existirão formas e mecanismos para resolver incidentes, mas isso não deve ser confundido com a aceitação de um direito russo de veto sobre a soberania da Ucrânia. Aliás, há aqui uma questão histórica muito importante, porque a Rússia tem apresentado repetidamente o alargamento da NATO e a arquitetura de segurança europeia como elementos centrais e que justificam as suas preocupações estratégicas. Essas preocupações podem ser discutidas diplomaticamente, mas discutir preocupações de segurança é muito diferente de reconhecer legitimidade à invasão de território de um país vizinho. Portanto, a segurança de um Estado não pode ser, na minha opinião, e acho que na generalidade das pessoas, construída através da eliminação da segurança do outro. E é por isso que o problema das garantias mútuas exige tanto rigor e como o José Rafael acabou por começar por dizer, já temos exemplos do passado que não funcionaram.

Pedro Nascimento, temos ainda dois minutos e meio para abordar a reunião trilateral que o Kremlin pretende marcar entre China, Rússia e também Estados Unidos. Ainda não há data para o encontro. A minha pergunta é que sentido faz esta reunião sem contar com a Ucrânia, sendo que o que vai estar em cima da mesa é precisamente o fim da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Temos dois minutos e meio até o final deste gabinete de guerra.

José Rafael, isto é a consolidação de uma posição que infelizmente foi semeada pelos Estados Unidos, porque nós sabemos perfeitamente que a Rússia, não obstante entendermos que não tinha o direito de fazer o que fez e que está a caminhar um caminho que é a todos os níveis censurável. Esta administração de Trump conseguiu criar as condições para a Rússia. Repare, eu já tive a oportunidade de dizer isto, mas volto a referir. A Ucrânia vai para o quinto inverno de uma luta brutal contra a Rússia. Para termos ideia, a Segunda Guerra Mundial, desde a invasão da Alemanha à Polónia em 1939 até ao final da guerra, teve seis invernos e um deles, o primeiro, estávamos no rolo de guerra e pouca atividade houve. Portanto, na verdade, também foram cinco invernos. A Rússia não conseguiu cumprir os seus objetivos. Só que neste momento, e eu vou dizer isto medindo o significado das palavras, os Estados Unidos, esta administração Trump, traiu a Ucrânia, traiu a Europa e conseguiu fazer com que a Ucrânia ficasse neste momento no ponto em que talvez está mais acossada desde o início da guerra, porque sem esta ajuda e com esta traição dos Estados Unidos, a Ucrânia vê-se no momento em que três grandes potências estão a discutir ou poderão discutir o seu futuro. Isto é a todos os níveis censurável, mas como eu disse, a principal razão é esta, porque sabemos quais são as intenções da Rússia, mas durante quatro anos e meio não conseguiu atingir os seus objetivos. Sabemos que a China é um espectador atento e como sempre se diz, e há muito tempo, enquanto os outros estiverem a fazer asneiras, eles ficam quietos a observar. E finalmente, temos os Estados Unidos, que deviam pugnar pela defesa dos princípios e dos valores do Ocidente, e estão a conseguir fazer com que a Rússia fique numa posição cada vez mais confortável e a Ucrânia, naturalmente, fica numa situação precária.

E é com esta ideia que chegamos ao final do nosso tempo. O Gabinete de Guerra vai ficar por aqui. Hoje com a análise de Pedro Nascimento, é investigador de História Militar. Muito obrigado, Pedro Nascimento. Resta-me apenas agradecer-lhe e anunciar que o Gabinete de Guerra está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.