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E hoje, no inquérito de verão, tentamos dilacerar um dos mais caros artistas da nossa praça. Hoje é Rui Reininho quem tentamos importunar. Olá, Rui, bem-vindo.
Olá. Chamam-me caro, como diria o camarada Cunhal: "Olhe que não".
Mas sim. Temos liberdade de determinação, até porque estamos aqui para inquirir, Rui.
É isso mesmo.
Está bem.
Rui, e antes de irmos aos dilemas, conta-nos aqui, este ano já deu para pisar as dunas? Como estamos de férias?
Não, nada.
Não estamos?
Não, nadinha.
Mas estão para breve?
Com certeza. Também não, porque entretanto mete-se o Natal.
E boa sorte com a apelma, é verdade.
É a grande desculpa nacional. Agora em agosto: "Não pode ser, porque agosto depois mete-se o Natal e daqui a bocado estamos na Páscoa".
Exato.
Há sempre uma desculpa qualquer.
Eu confesso que dei umas voltinhas no último Natal, por isso agora estou mais a funcionar, imensas coisas por fazer, por aí fora, com algumas surpreendentes, outras um pouquinho em cima.
Tem de haver tudo um pouco, do mais banal ao mais ousado. E vamos começar com os dilemas, Rui. Imagina que encontras um chefe teu ou um editor teu numa praia de nudistas. Já o viste. O que é que fazes? Vais cumprimentá-lo? Tentas fingir que não o viste? Desvias o olhar? Quiçá juntas-te à festa?
É curioso, não em relação aos editores, mas uma vez fui posto nessa questão relativamente a um amigo bastante famoso. Pode ser quem é o Pedro Cabrita Reis. Eu estava a ter com o amigo e ele disse: "Olha, o Pedro está ali a cenar, vem ter connosco, ele está ali completamente nu". E foi uma situação engraçada.
E qual foi a reação, no caso? Abraçaste-o, quase.
Houve fotografia ou não houve fotografia?
Não. Ao pé do Hotel seis. Qual foi a reação? Posso dizer que ele não se mostrou muito excitado com a nossa presença.
Se calhar estava no seu segredo de férias e foi apanhado.
Realmente, ele estava ali na praia. Mas embora eu não seja um naturista convicto, não é nada que me perturbe. Aliás, a nossa classe está habituada a balneários e essas coisas. Somos um bocado como os desportistas.
É verdade. Eu também já fui desportista e a vida de balneário ensina muito sobre a anatomia do corpo humano, é facto.
Exatamente.
Rui, podemos passar aqui ao próximo dilema. Vais para Ibiza com uma amiga e à última hora ela avisa-te que vai levar o namorado de quem não gostas nada. Ficas por cá ou consegues ignorar a abécula e desfrutar na mesma de umas merecidas férias? Qual é a tua decisão aqui?
Eu já tive esse dilema há muitos anos.
Ah, então já aconteceu.
É, exato.
Cada inquérito é uma oportunidade para pisar a realidade.
Exatamente.
Quase tudo aconteceu-me, de facto, no que seria a primeira viagem para Marrocos. Eu realmente conhecia a equipa, precisamente eram uns amigos que estavam a proporcionar-me ali uma viagem em comum de carro para Marrocos. E eu acabei por não ir, porque conheci o criatura e o achei tão sensaborão, tão oposto aos meus critérios de convivência humana, que de facto pensei assim: "Não vou conseguir estar com esta criatura 15 dias", que seja, sempre nos ritmos, porque tivemos um jantar antes, que antecipamos. E aliás, ele teve até o mau gosto de me dizer: "Tu és amigo da Filipa, mas vai correr tudo bem entre nós, desde que tu não te aproximes muito da Filipa, claro."
Entre os três vamos.
Eu pensei assim: "Mas que grande idiota."
Às vezes as férias mais importantes são aquelas que tiramos de certas pessoas também, não é, Rui?
Exatamente. Viajar 24 horas com pessoas costuma ser uma maneira de ficarmos amigos para toda a vida ou então nunca mais queremos ver a pessoa. Acontece também.
Também é uma boa maneira de tirar a prova dos nove.
Isso é, exatamente. Viajar com pessoas é muito interessante. Aquela decisão, vamos por ali, não vamos por ali diariamente, o que é que vamos comer, não vamos comer, vamos dormir, não vamos dormir, isso tudo é fantástico no convívio humano.
E ainda falando de convívio humano, e que isso há muito. Imagina, uma semana toda com a família da tua namorada, primos, sogros, tias, sobrinhas, tudo, mas isto num resort nas Maldivas. Ou então uma semana só com a tua namorada, desta feita numa maravilhosa pensão em Vieira do Leiria.
Se fosse em Viana do Alentejo, não me importava.
Não sei se podemos fazer o jeito, temos que falar aqui com a nossa booking imaginária, uma coisa assim.
Exatamente. Viana do Alentejo, porque olhando para o meu, vai ser um dos meus próximos percursos. Vou ter um espetáculo em Viana do Alentejo. Acontece muito essa circunstância, viajar em grupo com os meus capangas, com quem estou há 42 anos. Às vezes uma pessoa pensa que não é fácil as pessoas aturarem-se uns aos outros. É a minha família mais próxima. Por isso, temos esse Sou confrontado com esse dilema. Mas a companhia é a coisa mais importante, de facto, e não estar com muita gente. Daí eu não fazer, há muitos anos, férias em agosto e por ali fora. Realmente, grandes contingentes faço-os, não semanalmente, mas pelo menos mensalmente, com imensa gente, com os nossos queridos roadies, os técnicos, aquela gente ali à mesa. Já tenho essa dose de muito barulho. Até os meus Natais são mais próximos do presépio que eu conheço, às vezes só com meu filho. Mas não lamento.
Grandes aglomerações não são para ti, a não ser nos concertos, neste caso.
Como?
Grandes aglomerações para ti não, a não ser nos concertos, Rui.
Sim.
Gostas de concertos mais intimistas.
E mesmo assim eu gosto daquele lema: sempre ao lado do povo, mas não no meio dele.
Com uma certa distância. Rui, aproveito para passar ao próximo dilema. Como estás de férias no estrangeiro, pedes a um amigo que te entregue o Euromilhões usando os teus números de sempre. Ganhas €1 milhão, assim meio que por milagre, divides o prêmio com este teu querido amigo.
Curiosamente, e realmente, como diria a grande Margarida Rebelo Pinto: "Não há coincidências". Um grande romance, porque eu hoje fiz uma coisa que já não fazia há cerca de um ano, que foi: entrei num daqueles cafezinhos e vi toda a gente a comprar raspadinhas. Estava com curiosidade.
Também compraste uma raspadinha?
Não, nunca comprei na vida. E depois, por vergonha, quase que umas pessoas que entram nas lojas e acabam por comprar qualquer coisa. Hoje comprei o Euromilhões. Este fim de semana é importantíssimo. Exatamente. Mas relativamente à pergunta, também tinha qualquer coisa de mais prolongada, não?
Sim, era a questão de dividir ou não, se dividias o prêmio com o teu amigo, ganhando €1 milhão.
Foi ele que entregou o belo Euromilhões.
E, no fundo, és só gratidão.
Por graça das poucas vezes que jogo. Normalmente as pessoas que me piscam o olho e dizem assim: "Olhe, se sair, não se esqueça depois de vir comprar o negócio, está bem?" E é um acordo. Claro que distribuiria e eu acho que, nesse caso, uma oferta do que não viesse do meu esforço e do meu trabalho. Acho que iria com certeza investir uma soma impensável em coisas muito estúpidas. Por exemplo, na indústria musical, que é um dos grandes erros. Nunca mais façam isso. Vocês já viram como está a nossa indústria, não é? Vocês vendem poucos CDs. Vocês fazem ideia de quanto é que se ganha com os Spotifys desta vida? Não, pois não.
E por falar em tecnologia, e para fechar estes dilemas, Rui. Imagina, no grupo do WhatsApp da tua editora ou da tua banda, recebes uma fotografia que foi enviada por engano. É uma imagem constrangedora de um road manager qualquer em calções de banho que mais parecem um biquíni, uma coisa assim meio estranha. A imagem é apagada de imediato e tu viste. Finges que não viste, comentas alguma coisa no grupo, fazes um print screen, como se diz hoje em dia?
É o que eu digo, a mim já me aconteceu de tudo. E posso dizer que um dos nossos roadies preferidos, com que estive até nos Bons Sons neste fim de semana. De facto, ao jantar tivemos todos a compartilhar uma foto de um dos nossos técnicos que se atirou à piscina com as notas e depois adormeceu em cima da cama. Portanto, tínhamos um homem nu com as notas de euro a secar ao lado. Ele adormeceu completamente cansado. Ele tomou o seu banho e depois viu que tinha o seu cachezito no bolso, resolveu secá-lo ao lado do corpo. Era uma imagem realmente que nunca mais me saiu da cabeça, nem de nenhum de nós. Agora quando olhamos para eles, vemos sempre aquele jovem.
Mas não sairá.
Exato. Por muito que queiramos.
Aquele jovem tatuado, cheio de notas e a dormitar em plena Lentejo, assim com 40 graus. E as pessoas pensem o que quiserem daquela imagem. Mas claro, compartilhamos com graça e com humor.
Rui Reininho, não temos tempo para mais. Bem tentamos importunar aqui o Rui, mas foi um bocado difícil. Ele já passou por tudo na vida.
Exatamente. Eu já passei por quase tudo.
Os inquiridos foram quase à prova e postos em casa aqui.
Exatamente, como diz o meu grande amigo Paulo Gonzo: "Dói-me quase tudo".
Rui Reininho, muito obrigado, passaste com distinção neste nosso programa. Um grande abraço e boas férias, se ainda houver. Aunque seja no Nepal.
Não se esqueçam de mandar postais.
Não, não te esquecemos. Um grande abraço, Rui.
Obrigada.
Obrigado, até sempre. Obrigado e bom verão.
Obrigada igualmente.