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Hoje é nosso convidado no Direto ao Assunto, Ângelo Correia, social-democrata, antigo ministro da Administração Interna, também especialista em questões internacionais, a quem começo por agradecer por ter aceitado este nosso convite. Bem-vindo. Já vamos falar dos 50 anos do PSD, das dificuldades que o governo atravessa. De resto, foi este o mote para o convite que lhe endereçamos. Mas antes, uma questão sobre o cessar-fogo de 42 dias, anunciado há minutos. Há, pelo menos, a concordância do Hamas com os termos do acordo proposto pelos mediadores Catar e Egito, sendo que Israel ainda não disse se aceita ou não esse mesmo acordo. Ângelo Correia, mais uma vez, bem-vindo. Começava por lhe perguntar se foi para si uma surpresa, depois de tantos acordos falhados.

Foi, e é positivo. Tudo o que seja parar a guerra, tudo o que seja evitar mortes, tudo o que seja construir o futuro em paz e algum equilíbrio institucional entre povos e Estados, são sempre fatores importantes e, como tal, a notícia é muito animadora.

E agora é expectável que Israel aceite?

Eu não sei a posição de Israel em definitivo. Se eu fosse o Estado israelita, aceitava, porque julgo que é raro conseguir-se um acordo entre um grupo como o Hamas e o Estado israelita. E, portanto, um acordo que seja possível, mesmo que ultrapasse aquilo que o Estado israelita quisesse, é sempre bem-vindo, porque é um prenúncio de um equilíbrio futuro e, sobretudo, uma acalmia na hostilidade internacional em relação ao Estado de Israel.

Ficará numa posição mais delicada Israel, se não aceitar este acordo, sabendo-se já de antemão que o Hamas aceita os termos desse entendimento, por exemplo, junto dos Estados Unidos?

Se os Estados Unidos aceitam, se a comunidade internacional aceita, se os países árabes, nomeadamente os que estão envolvidos nesta negociação, o Catar e o Egito, aceitarem, se este acordo não alterar substancialmente a proposta de Israel, eu acho que era muito bom que Israel aceitasse.

Vamos então agora ao tema que nos trouxe primeiramente a esta entrevista. Cavaco Silva escreveu um artigo de opinião que diz que o que caracteriza e o que distingue o PSD é o interclassismo e não a origem mais rural. Concorda com o ex-presidente da República, que de alguma forma faz menção àquilo que o atual presidente da República disse no tal já famoso jantar em que falou durante quatro horas?

Eu, como calcula e como sabe, desde maio, junho de 74, além de ter aderido ao PSD, comecei a trabalhar seriamente na implantação do partido, particularmente em Aveiro, onde fui depois deputado durante 20 anos. Portanto, conheço a gênese do partido, vivia, promovia, sentia. E o professor Cavaco Silva tem razão quando diz que o interclassismo é uma das naturezas, é um dos motes de criação do PSD e da sua vida. Mas não só. Eu acrescentava-lhe outros fatores. Um fator intergeracional, um fator intrarregional e, como tal, para além do estatuto social ou de classe, também há um problema de abranger todo o espaço nacional, todas as idades, e isso é muito positivo. Mas mais importante do que isso, o que distingue, de facto, o PSD não é a caracterização ideológica, não é só a caracterização do interclassismo, do intergerações, do interregionalismo. É, sobretudo, um elemento vital na vida de cada um de nós. É a sensação de que o PSD é formado por pessoas que aceitam, desejam e promovem a luta pela vida no sentido de conseguirem alcançar uma ascensão social permanente. Por outras palavras, o PSD não é um partido de pessoas que aceitam a inércia, que aceitam o desconforto, que aceitam a dificuldade da vida, mas que se autopromovem. Por isso, o PSD é, sobretudo, e antes de tudo mais, um espaço sociológico.

Neste momento, o governo, precisamente o PSD, está numa situação particularmente difícil na Assembleia da República, uma vez que tem uma maioria muito curta. Se acontecer mais vezes o que já ocorreu com a isenção das portagens nas SCUT, acha que Luís Montenegro pode e deve preferir ir de novo a eleições?

Quando me convidou para depor junto do Rádio Observador algumas ideias minhas, falou-me da origem do PSD e da vida do PSD. Vejo que rapidamente esqueceu 50 anos de vida do PSD pra se concentrar no presente. Mas eu vou responder a essa pergunta pra depois voltarmos ao tema. O PSD está num problema, num dilema, que é o dilema de quem quer, mas não pode E não pode por quê? É um dado que não depende do PSD, dependeu da vontade popular. Quando o Partido Social-Democrata na AD expressou ou reteve um conjunto de eleitores que não chegam a 30%. É evidente que não tem a maioria capaz, necessária, para numa vida normal democrática, fazer conseguir aprovar o seu programa. Mais, não tem, sobretudo, a capacidade real de imprimir aquilo que o programa do PSD, o programa eleitoral que foi aprovado, e que é positivo, é bom, diria mesmo, é bom, mas que contém um elemento nuclear que demonstra que o reformismo do PSD só pode ser revelado e praticado desde que existam condições para que se processem, se aprovem e se desenvolvam um conjunto de medidas estruturais. Ora, a maior parte das medidas estruturais que o PSD aponta, já se percebeu no próprio dia da campanha eleitoral, de início, começou-se a perceber que tinha uma hostilidade enorme de alguns partidos, sobretudo a partir do Partido Socialista. Portanto, o PSD sabia, desde o início, que aquilo que é o elemento nuclear da sua ação política é o primum movens da sua ação política estaria comprometido. E portanto o PSD sabe isso e, como tal, a única possibilidade que teria, sozinho, era de encontrar formas de gestão do quotidiano. Ora, o PSD não quer, nem deve, propor-se apenas a gerir o presente, o quotidiano. Deve pensar estrategicamente. Para poder pensá-lo, tem que executar essas medidas. Como as não pode fazer, e como o PSD, em segundo lugar, decidiu antes das eleições não fazer qualquer aliança parlamentar ou sequer aliança de governo, ao PSD só está aberta uma via, que é a via da negociação permanente. Uma negociação permanente é possível, mas é muito difícil, porque teoricamente ela pode ser celebrada à direita e à esquerda do PSD, mas na prática está sempre a oscilar com algumas medidas pensadas à esquerda, mais à esquerda, outras mais à direita, dá um certo ar de dessintonia e um certo ar de desfoque que torna difícil a apreensão de uma visão global do próprio partido. Por isso o PSD está muito amarrado a circunstâncias que não só não determinaram maioria absoluta para o PSD, como pior que isso, determinaram que a maioria de esquerda é superior à maioria onde está o PSD. E isso é nefasto, é extremamente difícil de ultrapassar.

Vai fazer parte da história do PSD esta passagem pelo governo, portanto, é inevitável fazer-lhe mais uma pergunta sobre isso. Porque neste momento temos o governo da AD a ter de lidar com um Partido Socialista que pode querer impor outras propostas e fazer passá-las no Parlamento. Essas propostas podem ter um impacto orçamental, que depois pode tornar difícil o cumprimento das propostas da AD. E pergunto-lhe se a Aliança Democrática prometeu demais a várias classes profissionais e se o fato de não conseguir cumprir todas as medidas depois vai prejudicá-las numa segunda volta nas urnas.

Tem razão. Esta postura que o PSD exibe agora no governo é determinante para o seu futuro. É um exemplo essencial a reter e que pode determinar o regresso do PSD à vida política ativa com força e determinação ou pode significar uma situação difícil de superar. E nesse sentido, o que se verificou, e era expectável, era que em algumas circunstâncias, e esqueci não só a maioria de esquerda, mesmo não sendo majoritária em termos absolutos, é majoritária face ao espaço onde está o PSD. E bastaria esse facto e a abstenção do Chega para algumas dessas medidas passarem, como pior ainda, vai-se verificar para o PSD se existir uma coligação de interesses distintos politicamente na substância, mas que se podem firmar em alguns problemas concretos, como o caso das SCUT entre o Chega e o próprio Partido Socialista. A essa luz, o caminho do PSD estreitou-se ainda mais. Estreita-se cada vez mais. E não é tanto o problema dos efeitos orçamentais, porque muitas vezes se coloca a questão de medidas aprovadas no Parlamento não terem significado real orçamental, porque é preciso que o próprio orçamento, para o tempo em que essas medidas vão ser aplicadas, contenha essa medida. Por outras palavras, o PSD e o Chega podem aprovar muitas medidas. A própria maioria de esquerda pode aprovar algumas maiorias contra o interesse do PSD, a vontade e o sentido político que ele manifesta. Contudo, para se tornarem exequíveis, têm que estar expressas orçamentalmente num determinado momento. E não é já, é quando estiver. Mas quando estiver, quem é que faz esse orçamento? O PSD não integra isso. Logo, essas medidas podem ser bandeiras políticas aprovadas no Parlamento, mas têm consequências orçamentais. O que isso cria? Uma situação extremamente estranha e ambígua para o eleitorado. Começa-se por sentir primeiro: não há um ponto de referência político em Portugal neste momento que não seja o governo. Não, há mais, há o Parlamento, mas o efeito político também do Parlamento pode ser limitado. Por isso mesmo, se for uma medida que não tenha consequências orçamentais, a medida passa e torna-se uma medida para praticar, inevitavelmente. Se tiver consequências orçamentais, tem que ser integrada num orçamento. E quem o faz, neste momento, é o próprio PSD. Como é que o PSD vai colocar no orçamento aspectos que discorda e discordou na Assembleia da República, mas que ele próprio votou a favor? Há aqui uma ambiguidade terrível e contradição terrível que faz com que o sistema político seja uma expressão de desencanto, de contradição, de estranheza, de inconsistência. Tudo isto diminui a capacidade da democracia. Isto é perigosíssimo.

Momento difícil para esta história, com cinco décadas do PSD. Já agora, deixe-me perguntar, estamos mesmo a terminar, quase sem tempo, vai marcar presença no jantar logo à noite, organizado pela Comissão Política Nacional do PSD?

Ninguém me convidou. E como tal, a festa...

Diz isso com lamento?

Oiça, não sei o que quer dizer, mas ninguém me disse que havia um jantar, soube agora por si.

Ângelo Correia, obrigado pela sua presença no Rádio Observador. Haveremos de voltar a falar seguramente. Até sempre. Um abraço, Ângelo Correia, um dos barões, assim também descrito, do Partido Social Democrata, que hoje faz 50 anos.