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No Directo ao Assunto das manhãs 360, junta-se agora a nós a subdirectora do Observador, Sara Antunes de Oliveira. Olá Sara, bom dia.

Bom dia!

Hoje a nossa convidada, a Delegada de Saúde da Região do Alentejo, Filomena Araújo. Bom dia e muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia, muito obrigada a todos.

A região do Alentejo conseguiu praticamente resistir ao período mais crítico da pandemia, mas nos últimos dois meses o cenário mudou e o número de casos aumentou, aliás, duplicou face aos primeiros três meses críticos: março, abril e maio. Filomena Araújo, o que é que correu mal?

Não há correr mal. É a situação decorrente da mobilidade das pessoas. O Alentejo, de facto, é 5% da população do país, numa extensão que é um terço do país. Nos primeiros meses, a situação foi além de controlada, tivemos muito poucos casos. De 16 de março, que foi o primeiro caso, a 20 de maio, nós praticamente não tivemos casos. Mas no país a situação foi mais ou menos estável e depois com a mobilidade das pessoas nestes últimos meses, naturalmente que a disseminação vai-se fazendo. Portanto, não é o correr mal, é o termos que estar muito atentos a todos os casos, uma grande articulação entre todas as autoridades de todo o país. Nós vamos recebendo indicações de todas as pessoas, contactos de risco que são relacionados para a região, como nós também informamos para os outros lados, isto não há fronteiras.

Mas diz que não é uma questão de correr mal, e ainda assim, se olhar para um dos vários casos-

Não é uma questão de correr mal, é que de facto os casos acontecem e nós vamos tentando conseguir conter muitos dos surtos e nestes últimos tempos temos estado a verificar que a maior parte dos casos são em surtos.

Então vamos olhar para um desses surtos, o surto de Reguengos de Monsaraz, um lar onde morreram 18 pessoas. Partindo dessa sua visão de que não se trata propriamente de ter corrido mal e tendo falado na articulação que está a ser feita entre as várias entidades, aparentemente uma das coisas que falhou, segundo o relatório da Ordem dos Médicos, no caso deste surto, foi precisamente a articulação entre as entidades que não existiu ou que foi tardia. O que é que explica que tenha acontecido aquilo que aconteceu em Reguengos de Monsaraz?

O que eu estava a dizer era em termos de surtos e de articulação institucional, era dentro da própria instituição do Ministério da Saúde e das autoridades de saúde, na referenciação de contactos de risco, de forma a podermos conter nos locais onde há os contactos, a disseminação.

Esse é o primeiro passo para lidar com o surto. Mas depois há vários passos que aparentemente não foram dados no caso de Reguengos de Monsaraz. Por que não foram dados?

Não sei do que me está a falar. Relativamente a Monsaraz, logo que tivemos indicação do primeiro caso, todos os passos foram dados, foram identificados todos os contactos de risco, quer no estabelecimento, quer na comunidade, e esse caso seguiu todos os procedimentos como todos os outros que temos tido ao longo desde março até agora.

Mas falava na altura em que detectaram esse primeiro caso e cerca de três dias depois, disse-

Com quem é que eu estou a falar?

Miguel Cordeiro, da Rádio Observador. Perguntava-lhe se logo depois de ser detectado o primeiro caso, praticamente três dias depois, disse que o surto de Reguengos não era nada que não se estivesse à espera e que estavam prontos para intervir. Nessa altura, ainda não havia qualquer vítima mortal. Podemos dizer que subvalorizou o problema?

Eu não subvalorizei nada, como nunca subvalorizo nada. Quando tivemos o primeiro caso, imediatamente fizemos toda a avaliação decorrente dos contactos de risco do primeiro caso que foi identificado. Ao fim de três dias, tínhamos todos os casos identificados.

Isso nós já percebemos, doutora, mas depois de identificar os casos, é preciso depois agir em relação às pessoas que estão doentes. E o fato de ter havido a identificação dos contactos, que no caso do lar de Reguengos, sendo lar, não era propriamente uma tarefa muito difícil, e de ser feita a triagem e o rastreio de todas as pessoas. Há um relatório, que seguramente conhece, que diz que as pessoas foram praticamente deixadas ao abandono, em salas sem condições, com doentes infetados misturados com doentes não infetados, com lixo no chão, com urina seca no chão. O que lhe perguntava em relação àquilo que não foi feito depois dessa primeira triagem e da identificação dos contactos, era exatamente isso, porque depois disso morreram 18 pessoas no lar.

O que eu lhe estou a dizer é que não tenho conhecimento desse relatório, não me chegou. A única coisa que sei é pelos órgãos de comunicação social e, portanto, não me vou pronunciar sobre aquilo que não recebi para me pronunciar. Ponto um. Segundo, no que diz respeito a todos os procedimentos relacionados com as normas do ponto de vista de saúde pública, que tínhamos a fazer, fizemos. Estou a falar numa perspectiva de saúde pública e pediram-me, para esta entrevista, para fazer um balanço da evolução da pandemia no Alentejo. E é isto que eu tenho a dizer enquanto médica de saúde pública, enquanto acompanhante de todo este processo ao longo destes meses todos. Relativamente a Monsaraz, tivemos um surto com disseminação na comunidade, efetivamente a lamentar 18 óbitos, numa população residente num estabelecimento residencial para pessoas idosas e que lamentamos imenso.

Filomena Araújo, se diz que todos os procedimentos foram seguidos, significa que essas-

Relativamente ao relatório da Ordem dos Médicos, não tenho conhecimento dele e não me vou pronunciar sobre ele.

Mas se diz que todos os procedimentos foram seguidos, significa que essas 18 pessoas que morreram, essas mortes eram inevitáveis?

Não me sei pronunciar. Não me vou pronunciar sobre esta questão, até porque eu desconheço o relatório da Ordem dos Médicos. Não me foi presente, não fui interrogada. Portanto, a única coisa que eu digo é que há normas, há procedimentos e todos os procedimentos foram seguidos.

Mas Filomena Araújo, mesmo desconhecendo este relatório da Ordem dos Médicos ou qualquer outro relatório, a Autoridade Regional de Saúde do Alentejo tinha ou não tinha conhecimento das condições neste lar?

O senhor está a partir de um pressuposto de um relatório que reafirma a anterior-

Não estou a partir do pressuposto de um lar. Estou a perguntar se antes deste surto tinham conhecimento das condições neste lar e das condições que depois foram praticadas, já detectado o surto.

Não me vou pronunciar relativamente ao surto de Monsaraz, não foi esse o pedido da entrevista. E reafirmo que todas as medidas necessárias para salvaguardar o bem-estar e a sobrevivência das pessoas, seguimos as normas estabelecidas.

Pode assegurar que isso aconteceu? Que tudo o que devia ter sido feito foi feito em relação a Monsaraz?

Ficamos sempre a dúvida se podemos fazer mais, como se pergunta se todas as mortes podem ser evitadas. Mas neste momento, não me vou pronunciar em relação a esse caso concreto, que está em investigação.

Filomena Araújo, vamos então olhar para outras regiões do Alentejo. Em Mora está ativo um surto com cerca de 50 casos. Há dezenas de pessoas que estão a aguardar resultado. Já se conseguiu perceber a origem deste surto?

Andamos à investigação epidemiológica. Temos, neste momento, 300 pessoas em vigilância ativa. Estamos, neste momento, a intervir no sentido de conseguir conter o surto.

E exatamente o que é que estão a fazer para isso, além da questão de confinamento da população? A população tem-se confinado de forma, digamos, profilática.

À população pedimos para evitar aquilo que são fatores de risco para a disseminação do vírus. Portanto, evitar agrupamentos e festividades, manter o distanciamento físico, ter as medidas de higiene, evitar os grandes agrupamentos, as festas. Todos os surtos que nós temos neste momento, e temos 15 na região, têm a ver com a sua origem em ou festas de aniversário ou outro tipo de festas, grandes relações sociais em que há grandes ajuntamentos e que portanto facilitam a disseminação. Portanto, isso pedimos às pessoas para evitar, manter o distanciamento físico, evitar eventos sociais favorecedores da disseminação. Isto foi o que foi pedido. Foram também propostos, e alguns por autoiniciativa, suspender algumas atividades. À população pede-se os seus cuidados, como em todo o país e em todo o mundo se está a pedir. Relativamente à intervenção da saúde pública, é a identificação de todos os contactos de risco.

Em relação a esse trabalho, peço-lhe desculpa.

Estamos a tomar medidas proativas, profiláticas, relativamente a grupos mais vulneráveis. Temos neste momento identificados todos os estabelecimentos residenciais para pessoas idosas. Estamos a fazer o rastreio de todos os profissionais No sentido de identificar alguma pessoa que esteja infectada e tomar medidas imediatas relativamente a esses estabelecimentos.

Em relação a esse trabalho da saúde pública, a senhora confirma a informação que foi divulgada no início deste surto de que ele poderia ter começado com um casal de Mora, que foi ao estrangeiro e que depois, quando teve os sintomas e o teste positivo, já no Algarve, durante umas férias, não informou ninguém sobre o seu estado, pessoas com quem pudesse eventualmente ter estado ainda em Mora. Isto aconteceu assim? É esta a origem do surto?

Não temos ainda o caso índice.

Falava da situação de rastreio no Alentejo e do acompanhamento que têm feito, tanto dos profissionais como da população. A região do Alentejo tem condições a nível técnico e de recursos humanos para garantir acompanhamento e rastreio da população, tal como foi feito noutras zonas do país?

Até agora, em termos de testes, temos capacidade instalada suficiente para fazer, quer a nível do Serviço Nacional de Saúde, quer a nível também de recurso, quer à Universidade de Évora, quer aos privados. Mas neste momento, em termos de capacidade instalada, não deixamos de fazer nenhum rastreio, nem nenhum teste por falta de capacidade e, neste momento, temos capacidade instalada para fazer testes. Estão criadas condições para o tratamento através dos serviços hospitalares. De facto, se a situação aumentar, precisamos de mais, e estamos a trabalhar nisso, recursos em termos, nomeadamente, de saúde pública, porque a sobrecarga para a saúde pública, como pode compreender. Se nós neste momento já vemos 500 pessoas em vigilância ativa só para o surto de Mora e Montemor, sem falar dos outros 13, que são menores.

Filomena Araújo, esses dois são os mais preocupantes? Além desses dois, quais é que preocupam mais as autoridades neste momento, sobretudo no Alentejo?

Não, estes são preocupantes porque ainda são recentes e ainda não estão em fase de resolução. Os outros ainda não estão resolvidos, estão em fase de resolução, já com indicadores de contenção e só não estão resolvidos porque só consideramos um surto resolvido ao fim de dois ciclos, portanto, 28 dias desde o seu início.

Pode-se pôr a questão de estabelecer uma cerca sanitária ou em Mora ou, neste caso, em Montemor?

Neste momento, ainda não temos indicações para tal.

E acha que deveria haver?

Não tenho, com a avaliação diária que estamos a fazer, indicação de que seja, neste momento, necessário. Se os indicadores forem nesse sentido, analisaremos a situação.

Que tem a ver com o quê? Com o aumento do número de casos, com uma maior disseminação da doença? Exatamente que fatores são esses que podem determinar essa cerca?

Uma cerca sanitária não é uma decisão que se toma de ânimo leve e só se dará se virmos que a situação está descontrolada. Neste momento, não temos indicações nesse sentido.

Filomena Araújo, nos últimos dias tem sido criticado por vários partidos da oposição. As três partidárias na região do Alentejo, com muitas ligações do Partido Socialista em vários cargos. Essas três partidárias na região dificultam o trabalho dos técnicos e das autoridades de saúde?

Relativamente a isso, não tenho nada a dizer. Nós fazemos o nosso trabalho de uma forma apartidária, apolítica e sem contar, visando a população e solicitando os meios, procurando os meios e fazendo as articulações, sem ter em conta as questões relacionadas com qualquer partido ou com qualquer outra situação.

Mas neste momento, que garantias é que as autoridades sanitárias podem dar que aquilo que se passou em Monsaraz, nomeadamente no Lar de Seredade, não se volta a repetir noutra qualquer região do Alentejo?

Para já não somos autoridades sanitárias, somos autoridades de saúde, peço desculpa. Por outro lado, o risco existe em todo lado. A disseminação do vírus tem a ver com múltiplos fatores que todos os dias somos surpreendidos com novas nuances. Portanto, ninguém lhe pode dizer que em lado nenhum do país e do mundo, que está tudo garantido. O que posso dizer é que compete a todos, quer à população, a cada um per si, fazer o seu trabalho, a todas as instituições fazerem o seu papel, seja no caso Deste tipo de estabelecimentos que está a referir, as próprias direções, os próprios profissionais terem especial atenção aos cuidados que têm que ter e cumprir as normas, salvaguardando o uso dos EPIs, os equipamentos de proteção individual, de transmissão também para os outros. Mas isso, seja aqui, seja quando abrirem as escolas, seja nos transportes públicos, seja quando vamos à mercearia ou ao supermercado, todos têm que ter essa coisa. Portanto, todas as instituições, não só da saúde, mas também segurança social, autarquias, proteção civil, bombeiros, todos os outros, temos obrigação de evitar a disseminação usando os equipamentos para evitar a contaminação aos outros e para nos protegermos, para continuarmos cá também a trabalhar a salvaguardar a proteção da saúde humana.

A contratação de médicos aposentados, que foi permitida até para neste momento de pandemia, conseguirem ajudar o trabalho das autoridades de saúde. Concorda com essa medida? No caso de Reguengos correu mal, tendo em conta que o médico delegado de saúde tinha mais de 70 anos, tem mais de 70 anos e portanto pertencia a um grupo de risco.

Primeiro, o caso de Reguengos não correu mal por causa do delegado de saúde ter 70 anos. As autoridades de saúde não funcionam individualmente. É designada uma pessoa autoridade de saúde, tem competências, tendo o apoio, por lei, e de facto, de equipas multidisciplinares. O delegado de saúde pode, inclusive, por lei, delegar. Foi o caso. Portanto, repito, não correu mal por causa da questão do correr mal que continua a existir. Não correu bem, porque há a lamentar vítimas. A disseminação do surto na comunidade é sempre uma situação preocupante, grave, e que fazemos todos os esforços para conter. Não foi por as pessoas terem 70 anos e deixarem de ter as competências ou não. As pessoas têm competências. O caso do colega em causa que está a referir é uma pessoa competente, dedicada, que fez todos os esforços e delegou, como a lei lhe faculta, a técnicos de acordo com as suas competências, quer num dos delegados de saúde, quer numa enfermeira coordenadora do grupo local do programa de controle de infecção e resistência aos antimicrobianos. Portanto, que tenha as competências adequadas para avaliar aquilo que na altura se necessitava. Não era a autoridade de saúde que tinha que fazer essa avaliação. Portanto, reafirmo que é um erro e uma difamação estar a dizer que uma pessoa com 70 anos deixou de fazer um trabalho e que foi por isso que correu mal. Não. Ele fez o que tinha a fazer, pondo a sua equipa a trabalhar, requisitando serviços, delegando nas pessoas com as competências para as funções que eram necessárias fazer, como a lei lhe propõe. Relativamente à questão de ter ou não ter de contratar médicos aposentados. Os recursos são escassíssimos. Na região Alentejo, neste momento, temos-

Filomena Araújo, vou ter que lhe pedir para concluir, por favor.

Deixe-me só dizer. Na região Alentejo, neste momento, temos 10 médicos de saúde pública colocados para um terço do país, para 500 mil habitantes. Portanto, se não fosse o recurso àqueles que estão disponíveis neste momento, apesar de já estarem aposentados, para trabalhar e que toda a vida deram o seu contributo para salvaguardar as vidas das pessoas, não teríamos. Portanto, é uma responsabilidade de todos, é uma responsabilidade integrar os mais jovens. Com certeza que muitos são necessários, mas não é por termos pessoas com maior idade, que as coisas estão a correr mal.

Temos que terminar. A delegada de Saúde da região do Alentejo, Filomena Araújo, no Direto Assunto das Manhãs 360. Muito obrigada por ter se juntado a nós ao telefone da Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.