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Deputado eleito pelas listas do PSD, Telmo Faria é o atual presidente da Comissão de Assuntos Europeus da Assembleia da República. Telmo Faria, boa tarde. Bem-vindo à antena do "Observador".
Olá, boa tarde.
Obrigado pela sua disponibilidade. Vamos começar pelo desfecho das eleições em França, contrariando as sondagens e as expectativas criadas a partir dessas sondagens. A União Nacional de Marine Le Pen não conseguiu ser o partido com mais deputados eleitos. Que leitura faz dos resultados desta segunda volta das legislativas francesas?
A primeira leitura que faço é que estamos diante de um cenário que nos traz mais perguntas do que respostas. Ou seja, há uma preocupação sobre o desfecho dessas eleições que ora numa primeira reflexão. É claro que há aqui um volte face tremendo que o sistema francês nos ofereceu nestas legislativas, uma primeira volta com uma vitória bem clara do partido de Marine Le Pen e depois uma segunda volta onde esse mesmo partido acaba em terceiro lugar. Ou seja, nenhum dos três principais partidos acaba por ficar na mesma posição, porque até o partido centrista ou digamos, as forças de centro ligadas ao presidente Macron acaba por também recuperar na segunda volta, quando se percebia um desastre muito claro, muito anunciado do seu partido, que ainda há dois anos tinha ganho as eleições legislativas com mais de 40%, salvo erro 41%, com trezentos e trinta e tal deputados e descendo agora para 161 lugares na Assembleia Nacional francesa. Toda esta eleição em França, se por um lado nos oferece uma certa riqueza política, porque é um sistema a duas voltas, por outro lado, essa eleição acabou por se tornar numa eleição de muito difícil percepção sobre a governabilidade da democracia francesa. E é isso que mais importa. As eleições têm uma razão de ser, visam um objetivo central na democracia e na política contemporânea e visam dar a voz ao povo para que o povo construa as soluções que permitam que o seu país avance, que a sua democracia se consolide. Temos aqui três partidos com diferenças muito ligeiras entre eles, com poucas percentagens a separá-los, com a esquerda a ganhar a eleição, mas Macron em segundo, Le Pen em terceiro. Eu creio que o sistema poderá ou uma das soluções poderá passar por eventuais coligações para se tentar encontrar uma solução de governo que vise essa estabilidade, mas sinceramente não lhe sei dizer se haverá uma coligação da esquerda com a atual força de Macron.
Do encéfalo.
Ou se poderia haver uma coligação entre Macron e Le Pen, do centro-direita ou do centro com a esquerda. Todas essas fórmulas são matematicamente possíveis, porque o segundo com o primeiro fariam 349 lugares, que é uma maioria absoluta, mas também é certo que o segundo com o terceiro fariam 303 lugares no universo de 577 lugares que compõem a Assembleia Nacional francesa. Diria que há aqui uma grande incerteza e paira sobre a França, essa grande democracia, uma das fundadoras de toda esta construção da União Europeia, em que Portugal também está cometido desde 1986 com muito empenho e com muito entusiasmo. Eu diria que hoje estamos diante de um cenário de grande ingovernabilidade e de muita incerteza, que é o que sai dessas eleições.
Apesar de não ter conseguido eleger mais deputados, a União Nacional de Marine Le Pen volta a ser a formação política mais votada, mais votos, mas menos deputados. Reforça, de resto, a votação face às legislativas de 2022. Olha com preocupação para este crescimento da extrema-direita, que não é caso isolado. Há outros exemplos por essa Europa fora. Representa, em sua opinião, uma ameaça, particularmente para os partidos de centro-direita?
Olhe, não é por acaso. Eu acho que sim, que há muita preocupação e há também um aumento das tensões que advêm sobretudo na relação com os partidos moderados. Nós sabemos que há temas que são duros, as questões da imigração, as questões da segurança, que são muito capturados por estes partidos mais de extrema-direita ou de uma direita radical, ou há quem lhe chame agora de uma nova direita Para se diferenciar da direita conservadora, que foi sempre uma direita moderada. Não é por acaso que a seguir à eleição francesa, o líder anunciado em caso de vitória nas legislativas francesas, Jordan Bardella, é escolhido para ser o líder da já terceira nova família política europeia no Parlamento Europeu. Isso tem um significado, a meu ver, que é o de quererem dar à França uma liderança sobre aquilo que está em crescimento e apesar de ter ficado em terceiro e, como disse, e muito bem, terem tido uma grande porcentagem de votos, há um crescimento em dois anos de muitos lugares na Assembleia Nacional, cerca de 53 lugares. E houve uma espécie de sonho da própria Marine Le Pen poder ganhar a eleição legislativa, o que lhe dá também uma certa força para uma eventual candidatura presidencial na próxima eleição presidencial em França. Tudo isto coloca a França como a líder política na Europa do que se está a passar nesta nova direita ou extrema-direita e também traz um aumento das tensões sobre os temas que falei ou sobre até algumas das iniciativas. Veja-se como a própria presidência húngara da União Europeia estabeleceu já algumas tensões dentro da União Europeia com esta visita a Moscou.
Vamos falar precisamente disso. Antes, ainda gostava de lhe perguntar se em função destes resultados, teme uma mudança da política francesa em relação à União Europeia, do papel que a França tem desempenhado na construção da União Europeia, ou não há esse risco?
Eu quero acreditar que possa não existir esse risco, mas uma coisa parece ser já certa: uma diferença no papel futuro do presidente francês. Parece-me que a preocupação que ele se vê face a estes resultados em acompanhar a política interna francesa, no fundo, as low politics na França, são hoje muito maiores do que eram no passado, retirando-lhe talvez um espaço na sua condução europeia e no seu apoio a iniciativas. Macron é uma das pessoas que mais tem trabalhado o tema da luta contra o isolacionismo da Ucrânia, o apoio à Ucrânia, a participação do multilateralismo, a vontade de a União Europeia estar mais agrupada e estar mais unida nessas áreas. Temo que possa perder, face a esta situação hoje vivida em França, que decorreu destas eleições, algum espaço na afirmação externa da França e da própria liderança de Macron dentro da União Europeia. Mas quero acreditar que, no geral, a construção vai prosseguir. Os temas, muitos deles muito difíceis, como o tema do alargamento, o tema da segurança europeia, o tema das migrações. Temos à nossa frente dossiês que são muito complexos e muito difíceis. Há hoje uma estabilidade por parte das famílias mais moderadas, da esquerda à direita moderada, mas temos esta direita a introduzir determinadas tensões dentro destes temas, dentro do Parlamento Europeu e dentro das instituições europeias e a sentir que em França houve o sonho. Quer dizer, já provaram entre a primeira e a segunda volta, a ideia de que podem chegar ao poder e fica um bocadinho esta sem papaiar até quando é que os moderados vão resistir a estes movimentos mais radicais, mais populistas, se quisermos, um pouco mais duros na construção das suas soluções e na apresentação das suas propostas. Mas cá estamos para enfrentar os desígnios europeus. Foi muito interessante que as eleições europeias provocaram diferentes resultados em diferentes democracias. Os governos nem todos eles foram abalados. Houve governos que foram muito fustigados, como foi o da França ou da Bélgica. Houve governos que tiveram também, como no caso da Alemanha ou da Grécia, que se veem forçados a reformas, a remodelações governamentais, a darem sinais ao eleitorado, fruto do péssimo resultado eleitoral ou da descida eleitoral que os governos tiveram, os partidos que apoiam o governo tiveram nas eleições europeias. E depois tivemos também países como a Itália ou até Portugal, em que parece que as eleições europeias trouxeram uma certa estabilidade e uma certa acalmia à própria governação. Eu quero acreditar que a Europa, tendo matizes e tendo muitas situações diferentes umas das outras, vai conseguir criar condições políticas para prosseguir os temas que falei há pouco, os grandes temas Estão hoje na agenda europeia. Não falei das questões da economia, da coesão.
Da imigração, não é?
Da imigração falei, mas há, de fato, muitas coisas onde a Europa está a perder terreno e é fundamental que se construam soluções para evitar justamente essa perda, como na questão dos mercados de capitais, a nível bancário, os temas da economia e também da coesão social e da necessidade de, projetando-se mais crescimento econômico, conseguir ter políticas de distribuição de riqueza e de conseguir políticas sociais que permitam consolidar. E serão essas soluções que permitem, de alguma maneira, essa fase da qual depende o sucesso dos partidos moderados hoje na Europa, de famílias como o PPE ou como dos socialistas moderados, que compõem a segunda maior família política europeia hoje na nossa Europa.
Telmo Faria, temos três minutos para provar o que valemos com duas perguntas pelo meio. Apelava à sua capacidade de síntese. Há pouco falava em Viktor Orbán. Como é que interpreta o périplo feito pelo primeiro-ministro húngaro por Kiev, Moscovo e hoje Pequim, que mereceu alguns reparos por parte de diversos líderes europeus?
Eu compreendo esses reparos, porque não é comum uma certa originalidade a iniciar-se a presidência rotativa europeia dando sinais muito claros logo no início dessa presidência. Começou na passada segunda-feira, há uma semana, com sinais de política externa de aproximação e de diálogo muito próximo com países como a Rússia, que são países agressores, que invadiram um país europeu, a Ucrânia, e que não cumprem as regras do direito internacional e com o qual se tem construído dentro da União Europeia também muito a necessidade de se desenhar soluções mais europeias. É certo que nós, na Hungria, temos que ver estas iniciativas do presidente Orbán dentro da própria A Hungria é um país que tem uma dependência, por exemplo, do gás a 100%. Eles são fornecidos pela Rússia e há aí uma dependência energética. Eu próprio estive com o embaixador da Hungria a falar sobre as soluções alternativas que a Hungria teria no futuro. Eles vão avançar para o nuclear, mas isso vai demorar muito tempo e portanto também se compreende que não possa haver aqui uma radicalização das relações. Mas é fundamental que a Hungria possa aproveitar o seu papel e a sua presidência europeia para aproximar e para tentar construir soluções de paz. Se por um lado o Orbán diz que é o que está a fazer ou que de alguma maneira isso faz parte da sua agenda, ainda não percebemos em concreto como é que isso vai acontecer. Se bem que, simbolicamente, a sua primeira visita foi à Ucrânia, mas sabemos da relação tensa que existe, que tem existido e que existiu no passado recente. Portanto, é fundamental ver com mais clareza o resultado desta-
Deste périplo de Viktor Orbán. Telmo Faria, temos 15 segundos. António Costa foi eleito presidente do Conselho Europeu. Sentiu-se de alguma forma desconfortável por ver Luís Montenegro defender de forma tão acérrima o nome do ex-primeiro-ministro?
Não, acho fundamental. É preciso compreender que o cargo europeu cabe à família socialista. Dentro dos socialistas, se for um europeu, melhor. E, portanto, essa também era a minha posição e eu apoio totalmente o Luís Montenegro. Acho que para Portugal dignifica muito a sua posição internacional, mostra como nós temos uma diplomática muito boa. Isso aumenta o nosso elã e também a forma como somos percepcionados enquanto nação europeia. Portanto, acho que o país acaba por tirar muitas vantagens dessa situação.
Telmo Faria, muito obrigado por ter vindo ao "Direto ao Assunto", pela sua disponibilidade. Telmo Faria é deputado eleito pelas listas do PSD e presidente da Comissão de Assuntos Europeus.