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Conhece bem a comissária indicada pelo governo para Bruxelas. Paulo Núncio, atual líder parlamentar do CDS, vice-presidente do partido, foi secretário de Estado de Maria Luísa Albuquerque, é o convidado deste "Direto ao Assunto". Muito bem-vindo.

Muito boa tarde. Muito obrigado pelo convite.

Hoje, numa primeira reação, teceu rasgados elogios à escolha do governo da AD, a que o CDS também dá suporte. O tempo da troika em que Maria Luísa Albuquerque foi ministra das Finanças vai ser um trunfo ou, pelo contrário, um contra em Bruxelas?

Na minha perspectiva, um trunfo. Repare, Maria Luísa Albuquerque participou num governo do PSD e do CDS que tinha como principal missão recuperar o país da bancarrota, e fê-lo com sucesso. Não obstante o memorando e as medidas difíceis terem sido acordadas entre o PS e a troika, o governo do PSD e do CDS conseguiu cumprir o programa, conseguiu libertar o país da influência da troika e em 2014 o país teve uma saída limpa e hoje, felizmente, retomámos e recuperámos a nossa autonomia e a nossa independência enquanto país. E por isso, Maria Luísa Albuquerque participou nesse governo, teve uma participação primeiro como secretária de Estado do Tesouro, depois como ministra das Finanças, e por isso é uma pessoa que eu prezo muito e que considero muito competente.

Sendo que dependendo da pasta que lhe for atribuída, não pode ter de justificar algumas escolhas passadas? E esse governo esteve muito conotado com a austeridade e com o querer ir além da troika.

Peço-lhe desculpa o à parte que vou fazer, mas isso é um pouco a lengalenga da esquerda. A austeridade foi acordada entre o PS e a troika. O governo limitou-se a representar o país e nessa altura a tomar as medidas difíceis que tinham sido acordadas pelo PS. Se quiser, o governo do PSD e do CDS venceu a austeridade que o PS acordou com a troika e conseguiu pôr outra vez o país a crescer. Aliás, deixe-me dizer-lhe, essa é a posição e a opinião dos portugueses, porque eu sei que a esquerda não gosta de recordar isso, mas o PSD e o CDS ganharam as eleições de 2015 e por isso as pessoas perceberam que de facto as medidas foram necessárias e que o país estava muito melhor em 2015 do que em 2011, quando o engenheiro José Sócrates e o PS deixaram o país na bancarrota.

Olhando agora para o percurso de Maria Luísa Albuquerque, conhece bem as instituições europeias, passou muito tempo no Ecofin e no Eurogrupo. Fala-se de não ter um percurso internacional, nomeadamente acadêmico. Acha que isso é relevante?

Penso que tem um percurso acadêmico, foi docente universitária, conhece muito bem as instituições europeias, conhece muito bem as instituições mundiais, mas em particular as instituições europeias, conhece muito bem a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu, o FMI, e por isso é uma pessoa muito respeitada na Europa, na União Europeia, e por isso penso que tem todas as condições de fazer um ótimo papel.

E que pasta é que encaixaria no perfil da ministra? A mais óbvia seria a das Finanças, tendo em conta que foi a ministra das Finanças, mas há outras?

Deixe-me antes disso recordar que Portugal está a contribuir para a paridade. E é bom também recordar isso. Ou seja, ao indicar uma comissária mulher, contribuir para que o futuro colégio de comissários seja um colégio de comissários equilibrado entre homens e mulheres. Depois, a pasta será uma negociação à parte. Sabemos todos que Maria Luísa Albuquerque tem um perfil técnico muito forte nas áreas das finanças públicas, na área da economia. São áreas que ela domina muito bem, e que tem uma enorme experiência, quer a nível nacional, quer a nível internacional, nos contactos que teve no Ecofin, no Eurogrupo e com o Banco Central Europeu. Por isso, qualquer pasta nessa área será uma pasta certamente bem desenvolvida por Maria Luísa Albuquerque, mas estou convencido que haverá outras pastas que poderão também servir para a nova comissária portuguesa.

Mas quer nomear alguma?

Não, em particular. Repare, isso é uma negociação que vai agora iniciar-se entre a presidenta da Comissão e cada um dos governos nacionais, e eu não quero de maneira nenhuma estar a limitar ou de alguma forma constranger as decisões que vierem a ser adotadas entre o Governo português e a presidenta da Comissão.

Tudo apontava para que a escolha, ou pelo menos o anúncio.

Peço desculpa?

Eu é que peço desculpa, mas deixou de se ouvir, pensei que tinha terminado. Conclua, por favor.

Sim. Basicamente para dizer que o nome é um nome forte, é um nome conhecido na União Europeia e por isso Portugal estará bem posicionado para ter uma boa pasta na nova Comissão Europeia.

O PAN quer ouvir Maria Luísa Albuquerque no Parlamento. Diz que o processo não foi transparente. Faz sentido ouvir Maria Luísa Albuquerque no Parlamento antes de ser ouvida no Parlamento Europeu?

Essa proposta do PAN é um verdadeiro disparate. Desculpe a expressão, mas é um verdadeiro disparate. Como sabemos, a Comissão Europeia responde perante o Parlamento Europeu. Aliás, os comissários vão ter que ser ouvidos no Parlamento Europeu antes de serem definitivamente nomeados e por isso não faz nenhum sentido Que Maria Luís Albuquerque seja ouvida no Parlamento Português é confundir os planos, é não perceber que uma coisa é o plano nacional, outra coisa é o plano europeu. E por isso eu diria que essa proposta do PAN, aliás, como muitas outras, é um verdadeiro disparate.

Mas de resto o PAN não é o único partido a queixar-se de alguma falta de transparência. O próprio Partido Socialista fez saber publicamente que só uns minutos antes é que o nome foi revelado a Pedro Nuno Santos. Ora não teria sido de bom tom por parte do governo também ouvir o Partido Socialista ou pelo menos informar o Partido Socialista com mais antecedência? Isto porque são os dois principais partidos do país e é uma comissária que vai ficar algum tempo em funções.

Eu falo com ela em nome do governo e não sei qual foi o procedimento que o governo adoptou relativamente aos outros partidos. O que eu quero dizer é que neste caso estamos a falar de um lugar que é um lugar nacional, não representa Portugal, mas é indicado por Portugal e eu entendo que nós devemos tentar despartidarizar esta decisão. Ou seja, a decisão é uma decisão de uma pessoa, que é indicada, evidentemente, ao governo português e a responsabilidade da indicação é do governo português, mas entendo que faz pouco sentido esta discussão sobre se a pessoa A, B ou C teria melhores condições ou se a pessoa que foi indicada é deste ou daquele partido. É uma pessoa que responde pelo seu currículo, que é respeitada, que é conhecida internacionalmente e por isso, eu repito, é uma pessoa que representará certamente bem Portugal na Comissão Europeia, não obstante o comissário português, como sabe, ser independente e não responder perante o governo nacional.

Tudo apontava para que o anúncio desta escolha fosse feito na Universidade de Verão do PSD. Houve várias críticas sobre a escolha do lugar. Entretanto, Luís Montenegro acabou por fazer a revelação hoje em São Bento. Foi um recuo importante, dando dignidade à questão da escolha da comissária?

Eu não vou comentar contrafactuais. O que eu lhe posso dizer é que considero que o anúncio que foi feito na residência oficial do primeiro-ministro, através de uma conferência de imprensa marcada pelo primeiro-ministro, me parece ser o local indicado para escolher e para anunciar a comissária europeia indicada por Portugal.

Mas o facto de ter sido notícia que o anúncio ia ser feito na Universidade de Verão do PSD, já há vários dias houve essa notícia, não foi desmentida. Não coloca aqui o governo numa fronteira entre poder estar eventualmente a cometer um erro e depois ter recuado? Não pode ser essa a percepção pública?

Eu sou do CDS, não sou do PSD, por isso não sei o que é que o PSD anunciou, mas devo dizer que estou satisfeito que o anúncio tenha sido feito na residência oficial do primeiro-ministro.

Esta escolha acaba por ser também uma maneira de o governo se libertar da herança do passismo e mostrar que consegue cooptar nomes dessa era?

Eu acho que essa questão e essa dialética faz pouco sentido. Eu acho que não há ninguém no PSD, não há ninguém no CDS, não há ninguém que tenha votado no PSD e no CDS em 2015, que recuse a herança do passismo. Vou-lhe dizer, foi um governo sério, competente, eu diria mesmo patriótico, que recuperou Portugal de uma bancarrota, que governou provavelmente na situação mais difícil que Portugal teve que enfrentar na era da democracia. E foi um governo que cumpriu, que apresentou resultados, que retirou Portugal da bancarrota, que conseguiu uma saída limpa, que pôs novamente o país a crescer, que recuperou a autonomia e independência dos nossos decisores, que libertou Portugal do jugo da troika. E por isso, essa dialética, que eu percebo, e que muitas vezes é alimentada pelos partidos de esquerda, não faz nenhum sentido. O PSD e o CDS, depois de terem aplicado um programa difícil entre 2011 e 2015, ganharam as eleições. Os portugueses, no final do período, não obstante todas as medidas difíceis que foram adoptadas, resolveram dar confiança ao governo PSD e CDS. E deixe-me dizer-lhe, que pena foi que o governo PSD e CDS não tivesse continuado a governar, porque seguramente que Portugal estaria muito melhor agora do que está.

O CDS dá suporte ao governo da AD, há pouco disse apenas que a questão da Universidade de Verão do PSD, que isso é uma questão do partido e, portanto, que gosta de ter visto Luís Montenegro a fazer o anúncio em São Bento, mas tendo em conta que o CDS de facto faz parte da coligação do governo, pergunto-lhe se o seu partido foi ouvido para esta escolha ou não.

Foi, eu já respondi hoje na conferência de imprensa que fiz nos Passos Perdidos no Parlamento que sim, evidentemente que o CDS foi ouvido.

Como conhece bem Maria Luísa Albuquerque, trabalhou directamente com a ex-ministra das Finanças, como é que é o ritmo de trabalho de Maria Luísa Albuquerque? Se nos puder aqui explicar, é das primeiras a chegar, como é que é?

Sim, de facto, eu trabalhei quatro anos e meio com Maria Luísa Albuquerque, primeiro como Secretário de Estado do Tesouro, depois como Ministra das Finanças. É uma pessoa, como lhe disse, muito competente, muito profissional, com enorme sentido de Estado. É uma pessoa muito trabalhadora, é uma pessoa que faz muito bem a triagem das questões prioritárias das questões secundárias. É uma pessoa que gere muito bem o seu dia a dia, que começa a trabalhar muito cedo, que no tempo do Ministério das Finanças raramente tinha tempo para almoçar, comia muitas vezes no seu gabinete e continuava a trabalhar até altas horas da noite. É uma pessoa muito focada nos resultados, nos objetivos que são definidos, e tudo faz para os atingir. E depois é uma pessoa que tem um enorme espírito de equipa, que gosta de trabalhar com o seu gabinete, gosta de trabalhar com os outros membros do governo, neste caso do Ministério das Finanças, e também com os outros membros do governo dos outros ministérios. E por isso tenho a certeza absoluta que se adaptará facilmente ao ambiente de Bruxelas e de Estrasburgo e que será um activo muito importante no novo colégio de comissários.

É a escolha do governo português para próxima comissária europeia. Falta agora saber com que pasta é que fica Maria Luísa Albuquerque. Muito obrigada, Paulo Núncio, por ter vindo ao "Directo ao Assunto".

Muito obrigado, eu.