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Paulo Raimundo está por estes dias em Cuba, onde participa nas cerimónias que assinalam o centenário do nascimento de Fidel Castro, a 13 de agosto de 1926. Poucos terão dado por isso, assim como poucos terão reparado que hoje nas bancas dos jornais, entre muitas imagens do eclipse, só um assinala esta data, o jornal do PCP, o Avante. Mas no Contracorrente queremos lembrá-la para tentar responder uma pergunta: por que tantos anos passados e com tanta miséria em Cuba, Fidel Castro continua a ser o ditador que enfeitiça boa parte da esquerda? José Manuel, bom dia. Tens alguma resposta para isto?

É difícil ter, porque apesar de tudo, nós vamos conhecendo o que se passou em Cuba e o estado em que Cuba está, e continuar a achar que é tudo culpa de uma ficção, a ficção do bloqueio. Uma coisa é um embargo dos Estados Unidos, que nós podemos contestar, outra coisa é a ideia de que a ilha está bloqueada por barcos, por aviões, é falsa. Portanto, mantém relações comerciais e relações normais com quase todos os países do mundo. Agora, aquilo que se passou em Cuba é um bom exemplo do resultado de uma política socialista. Ao princípio, a revolução não era para ser assim, ou não se pensava que pudesse ser assim. Tinha comunistas, como é óbvio, Raul Castro, o irmão do Fidel Castro, o Che Guevara, ambos já eram na altura da revolução marxistas. Castro ainda andava por ali sem saber bem para que lado é que havia de cair, acabou por cair para esse lado, mas sobretudo, desde o início que ele se revelou um autocrata e a partir daí, a ilha passou a funcionar às suas ordens e em função da sua vontade. Ao fim destes anos todos, aquilo que era um país que em termos de indicadores, não é apenas de riqueza, é de indicadores, por exemplo, mortalidade infantil, escolaridade e muitos outros indicadores, era o país da América Latina que estava melhor. Em muitos desses indicadores estava melhor do que Portugal, melhor do que Espanha na época e agora está imensamente para trás, perdeu em quase tudo. E isso acontece por erros catastróficos que foram sendo cometidos e pela forma sempre habilidosa como isso se passou. No entanto, eu creio que Fidel Castro, enfim, também com o apoio da figura de Che Guevara, enfeitiçou muita gente com a ideia primeiro que era uma espécie de Davi contra Golias, pequena ilha das Caraíbas contra o gigante americano. Depois, com a sua iconografia, aqueles fardamentos verde-oliva, as eternas barbas longas, curiosamente, também os charutos, que é uma iconografia um pouco contraditória, mas era uma imagem de marca. E tudo isto, estampado em T-shirts, estampado em cartazes, cobrindo paredes um pouco por todo o mundo, criou a ideia de que havia ali uma utopia na Terra. E o que foi sempre sucedendo é que isso nunca se materializou, pelo contrário, se materializou exatamente o oposto, mas acontece com Cuba aquilo que aconteceu também durante décadas com a União Soviética e aquilo que aconteceu, porventura, não durante tanto tempo, com a China maoísta, que é a ideia de que o futuro justifica o presente e que o paraíso na Terra prometido pelos líderes comunistas justificam os horrores do presente, justificam a repressão, justificam a ditadura. E isso também ajudou. E depois, por fim, é preciso também reconhecê-lo, Castro tinha um dom, um carisma e uma habilidade política muito particulares e muito raras. Ele era um grande orador, era uma pessoa que enfeitiçava literalmente quem falava com ele, quem se aproximava.

E com longos discursos.

Sim, com longos discursos, às vezes já eram muito maçadores, mas ele começou a discursar muito cedo. Começou a discursar ainda antes dos 20 anos. Mal chegou à universidade, subia para as escadarias e punha-se a falar durante não cinco, seis, sete horas, mas durante muito tempo. Mas esta capacidade de falar sem escalar durante horas é própria dele, mas não é só isso, isso é apenas um aspecto. As pessoas que o contactaram dizem que ele tinha um lado magnético e sem dúvida que isso também influenciou. É uma imagem que ainda hoje perdura, por incrível que pareça. Em Portugal, são basicamente o Partido Comunista. Paulo Raimundo, como tu disseste, está em Cuba. Discursou num colóquio internacional. Já estive a ler o discurso dele. É um discurso que diz as coisas que se poderiam prever, não tem nenhuma novidade. Mesmo outras fações da esquerda que durante muito tempo apoiaram Fidel e eram muito fidelistas, e até às vezes, como contraste com a maior ortodoxia do comunismo soviético, gente que está hoje no Bloco ou gente que está hoje na esquerda do Partido Socialista, já se distanciou, já não tem a mesma adulação. Mas vale a pena falar dessas figuras porque A forma como se apresentam e, sobretudo, aquela ideia perigosíssima de que os fins justificam os meios. Máximo de Figuel era tudo pela revolução. Tudo o que for feito em nome da revolução se justifica. Ele adotou esse princípio muito cedo, logo no princípio da década de 1960. Ele toma o poder em 59 e logo nesse ano, no princípio, ainda podia dizer-se que não é exatamente ele a ordenar os fuzilamentos, mas rapidamente se percebeu que também era e que todos aqueles que de uma forma ou outra desejavam outras vias, ou eram presos, e eram companheiros de guerrilha, companheiros de combate, como o Alberto Marcos, ou desapareciam misteriosamente em acidentes de aviação, como é o caso de Camilo Cienfuegos, que era talvez a segunda figura ou terceira, a par com Che Guevara, mais icônica da revolução. O próprio Che Guevara acaba por se ir embora, portanto, nunca se percebeu exatamente o grau de acrimônia e de conflito com Fidel Castro, porque ele tinha que ser o único a mandar. Ele ocupava-se de tudo. Houve uma altura, logo a seguir à revolução, que ele preside a 16 institutos públicos. Eu não estou a exagerar, 16 institutos públicos, além de ser primeiro-ministro. E depois queria saber tudo, queria saber como é que se cultivava. Ele ocupou-se, por exemplo, de uma daquelas coisas que também são utopias, que também aconteceram, por exemplo, na União Soviética, que é como é que se melhora a qualidade das vacas, como é que se conseguem vacas que produzam mais leite e coisas deste gênero. Ele também se ocupava disso. Mergulhava em todos estes assuntos e impunha, naturalmente, as suas vontades, que muitas vezes não eram científicas. Mas vale a pena tentar perceber isso, porque ele e Cuba continuam a ter influência na América Latina, isso bem que outros países tenham vindo, de alguma forma. A Venezuela, sabemos o que se passou este ano e o estado em que está. Mas também aquilo que durante algum tempo chegou a criar a ilusão que poderia repetir a mitologia de Cuba hoje, toda gente concorda que é um pesadelo, falo da Nicarágua e do casal que ocupou o poder da Nicarágua, que são umas espécies de Ceaușescus da América Latina ou da América Central, neste caso concreto. Mas tudo isto tem imensa influência de Cuba, até porque Cuba conseguiu algo que para a dimensão do país é quase inesperado, que foi uma enorme influência noutras regiões muito longe, por exemplo, em África, e nós sabemos bem disso pelo papel que Cuba desempenhou em Angola, em mais que uma ocasião. Não foi apenas durante o período inicial da guerra civil, na altura em que era determinante saber se o MPLA se impunha ou não às outras forças, aos outros movimentos, à FNLA e à UNITA, estamos a falar de 75, 76, mas também mais adiante, na altura do golpe de Nilton Alves, em que tudo indica que foram os cubanos que determinaram quem ficava no poder, até mais do que, porventura, os russos. Vamos tentar falar um pouco disso tudo e um pouco também perceber realmente quem foi esta figura e que habilidades é que Cuba ainda hoje utiliza para conseguir, mais de 35 anos passados sobre o fim da União Soviética, que foi quem lhe deu oxigênio durante muitos anos, continuar a sobreviver.

Faria 100 anos hoje, Fidel Castro. Até já.

Exatamente. Há uma coisa curiosa.

Então.

Hoje é quinta-feira. Há uma coisa curiosa. Há uma pequena discussão sobre se ele faria hoje 100 anos ou 99, porque há uma dúvida sobre se o pai não alterou a certidão de nascimento para ele poder entrar mais cedo num colégio em Cuba. Há sempre mitologias em cima destas coisas e uma das dúvidas é se ele teria nascido em 26 ou em 27.

Ora bem.

Mas o dia está certo.

O dia está certo. Até já, João.

Até já.

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