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Hoje é nosso convidado o antigo presidente do PSD, Luís Filipe Menezes, a quem agradeço desde já a disponibilidade para participar neste "Direto ao Assunto". Bem-vindo, mais uma vez. E vou começar pelo tema que motivou o nosso convite, a escolha dos candidatos da Aliança Democrática às eleições europeias do próximo dia 9 de junho. Há hoje uma reunião do Conselho Nacional. Rui Moreira, o atual presidente da Câmara Municipal do Porto, é apontado como possível cabeça de lista, possibilidade que tem suscitado críticas. Um grupo que compete de 20 autarcas e dirigentes do PSD assina uma carta em que considera que a escolha, a acontecer, representa uma traição aos portuenses, aos militantes, simpatizantes e autarcas eleitos pelo Partido Social-Democrata. O senhor também já se insurgiu contra esta escolha. Por quê?
Muito boa tarde, muito obrigado pelo vosso convite. Deixa-me em breves segundos deixar uma palavra de homenagem a um colega vosso que faleceu de uma forma, e não acho que tenha rápida, o Pedro Cruz, um grande profissional e um grande amigo e deixo daqui um grande abraço à família e a todos os jornalistas portugueses que se identificavam também com a maneira de estar na vida do Pedro. Em relação à questão que me coloca, eu mesmo fiz algumas considerações, aliás, algumas delas ainda não eram no contexto da possível investidura do doutor Rui Moreira como cabeça de lista, e elas sobre o trajeto político público do doutor Rui Moreira ao longo dos anos. Mas eu até prefiro começar por uma parte mais política, pura e dura, objetiva. As eleições europeias, normalmente, são eleições com grandes índices de abstenção. São também eleições difíceis para os grandes partidos, para o PSD, para o PS, porque aparecem sempre partidos novos, aparecem sempre, desculpe utilizar o termo, mas é para ser mais percetivo em relação ao que costuma ser essa realidade, muito tiririca à portuguesa e que depois são eleitos e depois desaparecem, nunca mais consubstanciam um projeto sustentável quatro, cinco anos depois. E, portanto, são sempre eleições muito difíceis. E no contexto atual, atendendo às sondagens, atendendo às circunstâncias do PSD estar numa situação de combate difícil, de grande cerco no Parlamento, eu penso que o PSD deveria ter uma estratégia em que tentasse ter um candidato, uma lista, mas particularmente um cabeça de lista, com quem os militantes fechassem os olhos e votassem. Ou seja, alguém muito laranja, que representasse que se ia votar quase: "Eu não posso deixar de votar no meu partido", quase com as setas na testa. Ora, uma pessoa como Leonor Beleza, por exemplo, uma pessoa como Pedro Santana Lopes, apesar de não ser militante do partido, hoje tem um significado para o partido como muito poucos. Já não falo de outros mais marginalizados atualmente e mais afastados, em meu entender sem sentido, que seriam úteis junto do partido numa altura de dificuldades e do governo.
O doutor Luís Filipe Menezes estava disponível para encabeçar, por exemplo, uma lista da Aliança Democrática às próximas eleições europeias?
Não, não estava disponível. Agora, estava disponível para dar o meu contributo com este tipo de ideias. Ou seja, o doutor Rui Moreira nunca fará o pleno dos militantes, simpatizantes, votantes do núcleo duro eleitoral do PSD. Ora, sabendo que nas eleições europeias os grandes partidos entram em perda, penso que o candidato tinha que ser realmente alguém que fosse o rosto do PSD, de um PSD de décadas de combate. Ora, o doutor Rui Moreira tem um trajeto quase como a antiga estrada Aveiro-Viseu. O doutor Rui Moreira já foi do CDS, o doutor Rui Moreira já se disponibilizou para ser candidato do PS. O doutor Rui Moreira já foi ao colo à Câmara do Porto, no regaço do doutor Rui Rio, mas meses, dois anos depois, já dizia que o doutor Rui Rio devia ter sido expulso do partido. O doutor Rui Moreira disse aos senhores, à Rádio Observador e ao Observador, que deu o título: "Farei um terceiro mandato, mas afastar-me-ei da política, nunca mais quero um cargo político".
Luís Filipe Menezes, deixe...
O doutor Rui Moreira quis ser presidente do Futebol Clube do Porto, da Federação Portuguesa de Futebol, secretário-geral da ONU. Portanto, não é propriamente o tipo de perfil de coerência que o PSD precisaria nesta altura.
Luís Filipe Menezes, perdão me interrompê-lo, mas é para lhe dar aquilo que seguramente será acolhido por si como uma boa notícia, apurou o Observador, e é uma notícia que pode ler em observador.pt: Rui Moreira não vai ser o cabeça de lista da Aliança Democrática a estas eleições europeias.
Grande decisão. Se é uma decisão do partido, só posso aplaudir.
Mas Rui Moreira não era um nome capaz de agregar o eleitorado à direita?
Não, exatamente pelas razões que lhe disse. Ou seja, o eleitorado à direita, o que está a dizer para lhe agregar o eleitorado à direita? Está-se a referir, por exemplo, a Iniciativa Liberal, PSD e CHEGA, não é?
Exatamente. Toda a direita, no fundo.
Não estou a ver o CHEGA a votar no doutor Rui Moreira, nem de perto nem de longe. Em relação à Iniciativa Liberal, pelo que sei, o movimento pró-Porto, de que o doutor Rui Moreira faz parte, está profundamente dividido. E quanto ao PSD, posso dizer que havia uma porcentagem enorme de simpatizantes do PSD que nunca votaria Rui Moreira.
Já que apontou o nome de Leonor Beleza e Pedro Santana Lopes como possíveis-
Por exemplo. Dei exemplos.
Há outros?
Há muitos ex-ministros do PSD.
Neste atual contexto, vislumbra algum nome que seja mais provável como cabeça de lista?
Não vislumbro, estou completamente fora dos segredos dos deuses, mas eu aconselhava alguém que fosse tiquettado muito como, inequivocamente, um dirigente com história do PSD.
Falemos então agora um pouco sobre a sua militância. Sei que o senhor, antigo presidente do PSD, se tem sentido de alguma forma marginalizado pela atual direção do partido?
Não posso dizer que é dessa maneira. Repare, eu participei na campanha eleitoral com poucos. Houve dirigentes ou ex-presidentes que participaram numa iniciativa, eu participei em duas ou três. Aliás, eu até me orgulho de alguns bons resultados em locais onde participei. Num deles, o PSD ganhou pela primeira vez em 50 anos as eleições. Não quer dizer que foi à minha custa, mas fico ligado a esse evento histórico. Agora, acho que a direção do PSD não perdia nada em fazer aquilo que, por exemplo, eu fiz quando fui líder do partido e outros líderes fizeram, de reunir o conselho de presidentes, de ex-dirigentes de relevo e os consultar sobre determinado tipo de opções importantes que o partido vai fazer. Por exemplo, escolher um candidato à liderança da lista para o Parlamento Europeu. Lembro-me de Cavaco Silva, que era poderosíssimo presidente. Lembro-me de ele consultar, na época, um conjunto de presidentes distritais poderosos e figuras do partido para escolher o candidato ao Parlamento Europeu em 1994. Portanto, eu julgo que o PSD, nas circunstâncias em que está, com dificuldades, num Parlamento muito dividido, só tem a ganhar em fazer o rassemblement dos seus melhores. Desde Cavaco Silva, que tem aparecido, Manuela Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho, eu próprio, Luís Marques Mendes. Eu penso que todos esses ex-líderes seriam, em conjunto, aqui aplaudem uma mais-valia numa altura em que vão ser precisas forças extraordinárias para superar esta conjuntura de dificuldade até aritmética.
Tem razão Pedro Passos Coelho quando diz que a direção de Luís Montenegro se tem procurado distanciar da herança do último governo do PSD, liderado precisamente por Passos Coelho? Acha que é mais um ex-líder marginalizado?
Não sei. O doutor Pedro Passos Coelho é que poderá responder a isso e dizer por que fez essa declaração. Agora, o que eu posso dizer é que o doutor Pedro Passos Coelho, ao contrário de algumas campanhas das últimas semanas, que procuraram minimizar o seu papel no futuro, em função de ele ter participado numa determinada situação da apresentação de um livro, ou ter feito umas declarações sobre o passado, por exemplo, do Paulo Portas. Não, eu considero que o Pedro Passos Coelho é a maior referência de todo o espectro político à direita do Partido Socialista. E é um ativo absolutamente precioso para o futuro político do PSD.
Mas um ativo com intervenção no futuro direta dentro do PSD?
Não sei se dentro do PSD, mas, por exemplo, se me perguntar, isso é uma visão ainda de muito longo prazo, mas se me perguntasse neste momento quem seria o melhor candidato presidencial para ganhar as eleições à primeira volta à esquerda, eu diria Pedro Passos Coelho.
Falemos então ainda sobre um tema que vem deste fim de semana, o anúncio feito por Nuno Melo durante o congresso do CDS, de que vai ser criada uma comissão para organizar as comemorações oficiais do 25 de Novembro no próximo ano. Foi oportuno este anúncio, tendo em conta quer o timing, quer o local onde foi feito o congresso do CDS?
O 25 de Novembro, aliás, penso que também houve declarações importantes sobre o 25 de Novembro feitas por uma figura incontornável da democracia portuguesa, que foi o general Ramalho Eanes. Salvo erro, o general Ramalho Eanes, numa entrevista dada a uma televisão há poucos dias, referiu que, porventura, o 25 de Novembro seria mais importante que o 25 de Abril. Eu, que enquanto jovem estive nesses combates, estive no combate do 25 de Abril, do 11 de Março e o 25 de Novembro, não tenho qualquer dúvida de dizer que, de facto, sendo rigoroso do ponto de vista histórico, o 25 de Novembro é o grande 25 de Abril. Porque até ao 25 de Novembro, no que nós vivemos, foi permanentemente sob a tentação totalitária, sob a possibilidade de termos passado de um regime totalitário de direita para um regime de extrema-esquerda, comandado pelo Partido Comunista, com a mão da União Soviética. Sabemos que Mário Soares chegou a ser aconselhado até a sair do país por um período de poder estar em risco de vida. E aliás, penso que nesta altura em que muitas vezes se recorda Sá Carneiro, eu como militante do PSD, eu acho que se deve muito à coragem extraordinária de Mário Soares naquele período, até porque o nosso líder e fundador, que foi um homem extraordinário, mas não participou na primeira campanha eleitoral, naquela que mostrou ao país que essa extrema-esquerda era minoritária. E talvez o 25 de Novembro também deva refletir figuras como o doutor Mário Soares, como um dos heróis Da consolidação da democracia em Portugal. E acho que sim, o 25 de Novembro deve ser honrado, mas não é para ser algo ligado à direita ou porque pessoas como Melo Antunes ou Vasco Lourenço, ou como outros que intervieram no 25 de Novembro, não eram, nem são homens de direita.
E relativamente ao momento escolhido e o local onde foi feito este anúncio da criação de uma comissão organizadora dos 50 anos do 25 de Novembro, o Congresso do CDS foi o local ideal para fazer este anúncio?
Eu preferiria fazê-lo no contexto da Aliança Democrática. E talvez no Parlamento. Mas todos sabemos que o CDS está a ser um partido ladino, está a ser um partido que aproveitou bem a boleia e já ocupou pelo menos quatro ou cinco lugares do automóvel, portanto, táxi, tiro o chapéu.
E acha que foi um presente de Luís Montenegro a Nuno Melo?
O quê?
Este anúncio das comemorações oficiais da comissão para a comemoração oficial do 25 de Novembro.
Tenho a certeza que não. Não acredito que seja alguma coisa combinada, porque o PSD já foi tão generoso e já deu tanto ao CDS nestes meses que não está obrigado a continuar a dar esmolas políticas ao CDS.
Como é que vai celebrar os 50 anos do 25 de Abril esta semana?
Os 50 anos, na minha casa, com a minha família, com meu pai, com a minha mulher, com meus filhos. Se tiver um dia bom de sol, moro perto da praia, vou até à praia. Penso que dias como esse são para celebrar com a família e não como alguns cartazes que eu vejo aí, com uma senhora do Bloco de Esquerda a dizer que são para celebrar na rua. Se tiver sol é uma soleira desgraçada, a apanhar sol ali nas pedras da Avenida da Liberdade ou dos Aliados. Não, é para celebrar em festa e não em sacrifício.
O que é que representa para si?
Sacrifício quase religioso.
O que é que representa para si este momento da história recente de Portugal?
Representa uma mudança extremamente positiva. Toda a minha geração ambicionava. Eu nessa altura, com 17, 18, 19 anos, já viajava e toda a gente apontava para nós. Frequentava pós-graduações de juventude pela Europa e toda a gente nos apontava o dedo, quase como se tivéssemos uma espécie de lepra por sermos dos poucos na Europa que não vivíamos no contexto de uma democracia pluralista, com toda a gente a ter direito a voto, com direitos, liberdades e garantias asseguradas. E, portanto, manifestamente, quem for contra isso e quem ainda achar que isso foi mau para Portugal, quem não se lembrar do que era Portugal sem um médico numa aldeia, numa vila. Eu que fiz sete anos de peregrinação pelo país a servir o Estado como clínico geral, sei muito bem o que era esse país onde não havia educação, onde não havia saúde, onde não havia segurança social. Portanto, com todos os defeitos, com todos os problemas, com todas as insuficiências e com todos os erros, colocar em causa essa mudança de há 50 anos é algo de irresponsável.
Luís Litanes, muito obrigado por ter participado neste direto ao assunto da Rádio Observador. Julgo que retribuímos com esta notícia em primeira mão de que Rui Moreira não vai ser o cabeça de lista para a Aliança Democrática às eleições europeias do próximo dia 9 de junho. Até breve.
Muito obrigado.