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A quatro meses das eleições presidenciais norte-americanas, pode o ataque contra Donald Trump neste último fim de semana dar a vitória de bandeja ao ex-presidente? É uma das perguntas para este "Directo ao Assunto" com Lívia Franco, professora e investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, especialista em política norte-americana.
Lívia Franco, boa tarde, bem-vinda e obrigada pela disponibilidade para estar conosco. E começo precisamente por esta pergunta: este caso, esta tentativa de assassinato de Donald Trump pode embolar o antigo presidente norte-americano até à Casa Branca?
De facto, parece que tudo está a acontecer nesse sentido. É evidente, nós já sabíamos desde o princípio do ano, portanto já há vários meses, que os indicadores de estudos de opinião eram precisamente no sentido que Trump, no mínimo, levava uma vantagem técnica sobre o seu rival, sobre o adversário candidato do Partido Democrata, Joe Biden. Entretanto, como nós sabemos também, no mês passado, o debate presidencial não beneficiou, mais uma vez, Joe Biden. Na medida em que mostrou a sua vulnerabilidade física e a sua dificuldade em articular argumentos mais sofisticados e em lembrar-se, por exemplo, de dados concretos. E depois temos neste fim de semana esta tentativa de assassinato do candidato Donald Trump e é evidente que tudo isso, no contexto de extrema polarização e divisão política em que o país vive, veio dar um momento de aceleração à candidatura de Donald Trump. Tudo indica, aliás, também a começar pela notícia de hoje, de que aquele caso dos documentos classificados foi anulado e, portanto, mais uma notícia favorável para a imagem, para o perfil do próprio Donald Trump. Juntando todos estes elementos, parece que nos encontramos agora numa velocidade de cruzeiro da candidatura de Donald Trump. Agora, a verdade é que faltam alguns meses. As eleições acontecem só no princípio do mês de novembro e, portanto, muita coisa pode acontecer até agora. É evidente que vai ser muito difícil alterar esta dinâmica, que parece uma dinâmica muito favorável à vitória de Donald Trump.
Depois do atentado, começa já hoje a convenção republicana e Donald Trump já sinalizou que vai mudar o discurso, quer passar uma mensagem de união. Tendo em conta a sociedade polarizada de que estava a falar, Lívia Franco, esta mensagem pode resultar ou com Donald Trump nunca sabemos o que é que aí vem?
É verdade que há sempre aqui um elemento de imprevisibilidade e compreendemos muitas vezes, esse até é o aspecto mais atrativo para o eleitorado que lhe é tão fiel. O próprio disse em entrevista ontem que já tinha preparado o discurso, que era o discurso que o vai confirmar como candidato presidencial oficial do Partido Republicano, que afastou esse discurso e que vai substituir esse discurso por um novo discurso, tendo em vista os acontecimentos de sábado. E aquilo que ele diz é que agora vai, sobretudo, trabalhar numa lógica de exigir, pedir, que o elemento que está aqui em causa é a união do país. Mas estamos a ver, não me parece que seja muito credível que aquilo que são os temas tradicionais do candidato Donald Trump, e que já o eram, aliás, nas eleições anteriores, em 2016, que ele vá abandonar completamente esses temas. Temas que nós sabemos que são os temas clássicos e os temas que ecoam muito também com o seu eleitorado, mas acho que ele agora arranjou aqui uma oportunidade para dar resposta àqueles argumentos, que eram os argumentos que apesar de tudo, ainda davam alguma força à campanha de Joe Biden. E o argumento é este: Joe Biden e o seu staff tinham trabalhado muito, têm vindo a trabalhar muito neste aspecto de Donald Trump não ter as melhores credenciais como político democrata. Ora, o fato dele aparecer agora como um sobrevivente político, quer ao próprio atentado, quer aquilo que nas palavras do próprio, que aliás ele tem escrito isso mesmo nas suas redes sociais, é o fato de continuar sucessivamente a sobreviver a várias conspirações políticas para o afastarem. Quer dizer, o fato dele surgir aqui como sobrevivente e de alguma maneira também como o grande defensor da liberdade. A liberdade num sentido mais libertário, mas que também tem um grande eco sobre o seu eleitorado tradicional, eu acho que lhe vai dar muita força, sobretudo para este refazer de um perfil de um democrata que afinal também joga de acordo com as regras mais tradicionais do jogo democrático e que ele próprio é um sobrevivente da violência política. E aliás, nós vimos que essa foi a reação imediata que ele teve logo a seguir à tentativa de assassinato. Portanto, eu acho que isso também funciona, bem trabalhada esta mensagem, também funciona a favor da sua candidatura, sobretudo para convencer aquele eleitorado, que é o eleitorado que tendo já tendencialmente inclinação para votar republicano, preferia uma candidatura mais moderada De alguém com perfil mais moderado, não tão radical. É isso que esta mensagem pode fazer, moderar o seu perfil enquanto candidato. E que aparece como sendo muito mais atrativo para os eleitores que são independentes. Que também preferem um candidato que tenha um perfil mais moderado, menos polarizador. E vamos ver se isso faz a diferença, mas não há dúvida nenhuma que a campanha eleitoral de Trump sabe que num país dividido praticamente a meio, conseguir potenciar o voto dos republicanos mais moderados e dos independentes fará toda a diferença.
O que vai obrigar também uma mudança do discurso dos democratas e do candidato Joe Biden, consegue antecipar em que sentido?
Sim, eu acho que os temas que são caros ao Partido Democrata e à candidatura de Joe Biden não vão ser alterados. Agora, a grande questão é de alguma maneira mostrar como Biden, enquanto presidente, soube reagir num perfil, sobretudo presidencial, senatorial, a este acontecimento, que é um acontecimento sempre excepcional na vida democrática e na vida política dos Estados Unidos, que são as tentativas de assassinatos. Nós sabemos que a história política de muitos países e dos Estados Unidos, em particular, são marcadas por esses momentos. Quer em relação a presidentes em funções, estou a pensar especificamente no caso da história mais recente norte-americana ou também mais antiga dos Estados Unidos, e são momentos que são muito marcantes, quer também na história de candidatos. E eu acho que, sobretudo, o que acontece aqui é esta preocupação em que Joe Biden apareça como alguém que respeita o seu adversário, apesar da retórica toda de polarização e que tem vindo a dividir muito o país. E que, aliás, vamos lá ver, esta retórica também é uma retórica que nas últimas semanas, com muita intensidade, a própria campanha Joe Biden tem trabalhado. E ele aparece agora também com um discurso, sobretudo um discurso em nome da nação, em favor da unidade do país. Foi isso que nós ouvimos Joe Biden dizer ontem, é isso que todas as instâncias políticas, o próprio secretário de Estado, por exemplo, para a segurança interna, também tem vindo a dizer, que é preciso apurar responsabilidade, preocupação com a proteção dos candidatos no resto da campanha eleitoral. E eu acho que é por aí que a campanha democrata vai tentar ganhar pontos, mas vai ser mesmo muito difícil. O vigor, digamos assim, o estatuto até de sobrevivente e de quase milagre com que Donald Trump sai deste fim de semana e que, aliás, com grande eco também numa parte do eleitorado que nós sabemos que é evangélico e que é um eleitorado que lhe é muito fiel. É muito difícil de encontrar uma contraparte que seja favorável a Joe Biden para reforçar o eleitorado democrata mais moderado e julgo que não haverá muito mais por onde a campanha do Partido Democrata possa tentar ganhar pontos.
E de resto, vimos como no Brasil também com Jair Bolsonaro, a facada acabou por resultar depois também numa vitória eleitoral, deu esse embalo ao ex-presidente brasileiro. Lívia Franco, e olhando precisamente para este atentado, tendo em conta que até aqui o assunto na campanha norte-americana era a capacidade ou falta dela de Joe Biden para continuar, para ser o candidato, a questão da desistência agora já deixou de se colocar?
Pois não sei. Aquilo que sabemos é: o próprio candidato Joe Biden não está disposto a desistir. Aliás, ele fez um grande esforço na semana passada, no contexto da Cimeira da NATO, mostrar que ainda tinha aptidões, capacidades e genica para continuar a ser o presidente dos Estados Unidos e o comandante supremo das Forças Armadas norte-americanas. Isso não é uma coisa indiferente. Do ponto de vista pessoal, não me parece que haja aqui nenhuma alteração. Também me parece que as grandes figuras senatoriais do Partido Democrata tentaram que essa desistência acontecesse e verificaram que era difícil convencer o candidato e mais, todas as implicações que isso tinha do ponto de vista dos patrocínios e do que seria o pouco tempo que resta para convencer outra figura a emergir como candidato e, sobretudo, trabalhar uma candidatura nos poucos meses que faltam para um perfil de alguém que é necessariamente sempre diferente. E eu acho que isso não se vai pôr assim a curto prazo. Outra coisa é se as condições físicas e psíquicas do candidato Joe Biden se continuarem a degradar nos próximos meses e se a certa altura, essa questão não terá de novo de se colocar mais por consequência daquilo que é a degradação de uma situação, que é uma situação real e que agora já é impossível de disfarçar. E sobretudo, que a qualquer momento se vai ter que colocar, quer seja até à data das eleições, quer seja depois de um eventual, que parece cada vez menos provável, novo mandato de Joe Biden. Eu acho que a questão que se vai agora colocar mais é o tentar aproveitar o facto dos media e da opinião pública estar tão focada na questão das capacidades de Joe Biden e estar agora mais com a atenção desviada por este outro assunto, que também é um assunto de preocupação nacional, que é obviamente a tentativa de um assassinato num contexto de uma campanha eleitoral, o que põe toda a gente em perigo, não só os candidatos, mas toda a gente em perigo no resto da campanha eleitoral, e nomeadamente as pessoas que vão obviamente participar nessa campanha e que querem ir aos comícios e exercer também a sua liberdade política e de apoiar os candidatos, porque nós vimos que o resultado da tentativa do assassinato foi que o candidato, felizmente não lhe aconteceu nada, mas houve alguém que morreu. Um manifestante que estava presente. E houve dois que estão seriamente feridos. Tudo isso levanta aqui uma série de preocupações que agora aparecem a tirar o primeiro lugar a essa questão que nas últimas semanas tinha vindo a marcar mais a atualidade, que era a questão da saúde E das vulnerabilidades de Joe Biden.
Durão Barroso disse hoje que o atentado contra Trump representa uma ironia muito trágica, esta é a expressão usada por antigo presidente da Comissão Europeia, e defende que é preciso refletir sobre a liberalização das armas nos Estados Unidos. Uma ironia muito trágica porque Donald Trump defende a liberalização do uso de armas e foi precisamente atingido por uma munição usada por um jovem com 20 anos. Esta ironia pesa de alguma forma junto os eleitores? Antecipa que possa ser tema de campanha nos três meses que restam até às eleições?
Eu acho que não. Aliás, outra tentativa, por exemplo, de assassinato que nós tivemos foi com outro presidente republicano, o presidente Reagan, no início dos anos 80, que era também um grande defensor da liberdade de porte de arma. E eu acho que não por esta razão. Aliás, nós temos visto vários episódios, alguns com resultados de mortes em massa, por exemplo, em contexto escolar, etc., que seriam razão, de facto, para ter já um grande impacto sobre aquilo que é uma dimensão da cultura política norte-americana, que a nós europeus nos faz muita impressão, mas que tem raízes históricas muito concretas e muito palpáveis na cultura norte-americana. E, portanto, eu acho que tendo em vista todo este historial, já vimos, não é de agora, estes atentados a presidentes, não é de agora, estas situações que periodicamente vão aparecendo, vão acontecendo nos vários estados norte-americanos de uso de armas para mortes de forma completamente liberada. E, portanto, eu não julgo que isso vá alterar muito, porque verdadeiramente isto é uma questão de um direito e de uma garantia, que em uma interpretação que é muito cara aos eleitores republicanos, é constitucional. Quer dizer, não se trata apenas da cultura política, isso já de si é muito forte e muito enraizado historicamente, como de facto é interpretado como tendo uma liberdade que tem uma garantia constitucional e, portanto, eu não vejo que esse tema seja abordado. É claro que ele é sempre abordado em termos de debate e discussão. Outra coisa é haver força e haver um consenso nacional suficiente, de facto, para haver uma alteração, nomeadamente na emenda da Constituição, que possa ter esse efeito prático. Mas nem me parece que o próprio candidato Donald Trump tenha vontade de o fazer, na medida em que ele sabe que esta questão, para uma grande parte do seu eleitorado, é uma questão muito sensível e que o eleitorado não está minimamente disponível em fazer alguma, digamos assim, revisão desta matéria.
Faltam pouco mais de três meses para essas eleições de novembro. Agora a campanha é marcada, naturalmente, por este atentado contra Donald Trump, o ex-presidente norte-americano, candidato republicano a essas eleições. Muito obrigada, Lívia Franco, por ter vindo direto ao assunto. Obrigada.