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Margarida, sabes quem é a rainha das selfies?
Deve ser uma das irmãs Kardashian.
Não, quais Kardashian? Ainda elas nem sonhavam com as redes sociais, já a condessa de Castiglione tinha tirado 400 selfies. "Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.
Quando pensamos que o Instagram cimentou o culto da imagem, afinal, já essa senhora andava a fazer escola.
Pois é, essa senhora chamava-se Virginia Oldoni, foi uma figura extraordinária. Casou-se com um conde ainda muito jovem, esteve envolvida na reunificação de Itália, foi para Paris em 1855, tornou-se amante de Napoleão III, vestia de forma muito exuberante, tinha uma tara por usar roxo, imagina tu. Morreu em 1899 e ficou sobretudo muito famosa pelas centenas de retratos artísticos que protagonizava.
Olha, aí está uma bela ligação entre a moda e as artes.
Precisamente. Sobretudo porque havia ali muita produção nas imagens. Não eram simples photos de passe, como diríamos, com ar muito amador, nada disso. E foi um hábito que cultivou até ao fim dos seus dias.
Mas olha que há photos de passe que se tornaram verdadeiros objetos de arte e de moda. Falo, claro, das Polaroids do Andy Warhol, que tiveram como protagonistas muitas personalidades da moda, entre elas Giorgio Armani, Carolina Herrera, Yves Saint Laurent e Diane von Fürstenberg.
Modelos de luxo, não é para todos.
Sim, quem dera há muitos. Mas sabes que esta relação entre a moda e este artista vai mais além. Em 1972, Olston convida Warhol para colaborar num desfile a que chamou "Um acontecimento no palco com Andy Warhol", e que reuniu as modelos de Olston e as superstars que serão as musas do artista. Dois anos depois, o designer de moda cria um vestido com estampado inspirado numa obra do ícone americano e em 1982, o artista também foi o autor da campanha de menswear do designer de moda.
Olha, o Warhol acabou por incorporar referências da moda na sua arte pop, claro, com prints até do Chanel nº 5, o famoso perfume. Mas antes da imagem instantânea e massificada, temos a pintura. Não é, Margarida? Já pensaste na quantidade de vestidos carregados de camadas de leitura que existem nas obras que estão penduradas nos museus?
Na verdade, é a roupa nas telas que nos dá pistas sobre a condição social.
É um verdadeiro itinerário, não é?
Sobre condição social, política e econômica das figuras em destaque. E se não estiverem a par destas referências, o mais certo é acharem, por exemplo, que uma certa senhora está grávida, mesmo sem termos a certeza disso.
Eu aposto que estás a falar do famoso retrato dos Arnolfini, não é?
Exatamente.
É uma obra de Jan van Eyck, uma obra fabulosa, aliás, de 1434. O mestre flamengo mostra-nos um casal a dar a mão. É uma abordagem ao tecido na pintura que cria uma experiência super realista e tridimensional. A senhora surge com um volumoso vestido, com a outra mão sobre o ventre, o que sugere a alguns que estaria à espera de bebé. Mas na verdade, aquele tom verde esmeralda da roupa e as mangas forradas de arminho falam-nos, sobretudo, do estatuto daquela família. Apenas clientes ricos poderiam pagar os tecidos que nós vemos pintados.
Sim, sabemos que pelo menos neste contexto, era bom sinal parecer barriguda.
Pois é.
Isto porque, claro, era sinônimo que havia ali tecido a mais e, portanto, havia meios para comprar metros e metros.
Precisamente, para gastar à vontade.
Exatamente.
Em 1765, há uma onda era mais ousada e escapista. Há uma obra muito emblemática deste período, chama-se "O Baloiço", é um título de uma obra de Fragonard, exemplo do estilo rococó nos círculos da aristocracia francesa. Imagina que um cavalheiro pediu ao artista que pintasse a imagem da sua amante com um belo vestido joaçante a andar de baloiço.
Bem, a mulher devia adorar ter isso em casa.
Pronto, mas aí é que está, porque esta obra foi encomendada para ficar escondida dos olhos de todos, num exercício de frivolidade e capricho muito próprio daquele tempo.
E alguma decência no meio disto tudo. Para poder entrar na sala.
Uma vergonha, também há uma vergonha.
Também temos o famoso vestido pintado em 1883, que foi tão escandaloso que o autor até teve de fugir de Paris e ir-se embora para Londres.
Precisamente, John Singer Sargent pintou "Madame X", um retrato de Madame Pierre Gautreau, em que a beleza americana aparece com vestido preto com um decote generoso, para aquela época, pelo menos, preso por uma corrente, tão moderno que parece que podia ter sido fotografado ontem.
Sim, temos muitos casos desses. Aliás, muitos designers hoje em dia também acabam por ir visitar alguns quadros. Depois, também tens o movimento contrário. Quando as pinturas saltam para os vestidos. Foi o caso do vestido que a Ariana Grande usou na Met Gala em 2018, que tinha estampado, imagina tu, a cena do juízo final da Capela Sistina, isto numa criação da Vera Wang.
E os mestres da exuberância, claro, a Dolce & Gabbana, em 93 lançaram o vestido Vênus, com a Vênus de Milo estampada, e em 2018 dedicaram todo um desfile ao Renascimento italiano e tinha as peças com pedaços de quadros de Leonardo Da Vinci, Ticiano, Botticelli, entre muitos outros.
E ainda neste segmento de quadros que passam para a roupa, temos também a incontornável coleção Mondrian, da Yves Saint Laurent, em 1965.
Maravilhosa.
É provavelmente das ligações entre moda e arte mais famosas, mas tens mais coisas, inclusivamente a Saint Laurent. Mais tarde, a marca volta às artes com uma camisa inspirada no quadro "A Blusa Romena", de Matisse. Isto no início dos anos 80.
Sabes que há um acessório que eu invejo muito, que são as luvas que a Elsa Schiaparelli faz a partir de umas mãos de Manuel, e que são pintadas pelo Picasso em 1935. É mesmo um daqueles acessórios incríveis. E claro, temos sempre o vestido Lagosta, outro clássico, de 1937, com o toque de Salvador Dalí, que no ano seguinte ainda coassina o vestido das lágrimas. Porque eu lembro-me sempre de Almada Negreiros, um dos nossos modernistas multidisciplinares virtuosos, que entre tudo o que fez e criou, também fez uns incríveis figurinos e todas as cenografias para as não menos incríveis festas de Helena de Castelo Melhor, por exemplo.
É verdade, mas também não podemos deixar de falar Uma coleção de alta-costura aqui no inverno de 2015, Victor & Rolf, em que os próprios vestidos pareciam quadros arrancados da parede. Porque ainda vinham com a moldura e tudo.
Precisamente.
Para ser mais exata, prontos para pôr na parede.
Aquilo ocupava algum espaço. Mas sim.
Mas foi exatamente o que aconteceu. As modelos surgiam com o que pareciam vestidos e saias, e os dois designers retiraram em alguns looks, não em todos, as peças do corpo da modelo e puseram na parede. E de fato, para mim, é uma das coleções mais geniais quando falamos da junção deste universo. Vale a pena procurar o vídeo para ver.
Em termos pop, teremos sempre a união entre dois britânicos, o artista Damien Hirst e o designer Alexander McQueen. Quem é que não se lembra daquela coleção de 2013 com os motivos da caveira?
E que ainda hoje é uma marca da marca. E de McQueen temos também outro momento absolutamente marcante, aqui que também junta a tecnologia com a arte e com a moda. Quando na coleção de primavera-verão de 99, assistimos a um vestido ser pintado ao vivo por dois braços robóticos, enquanto a modelo girava sobre si própria e parecia ali atacada pela maquinaria. Mas na verdade, o vestido de repente transformou-se numa tela.
Sim. Marida, pode dar a ideia que esta relação entre arte e moda é coisa para já ter passado de moda. Porque estamos aqui a falar de algumas referências mais do passado, mas não é bem verdade.
Pelo contrário, tornou-se obrigatória no século XXI. Na ligação ao teatro, por exemplo, cada vez mais designers, até nacionais, vão colaborando com este universo. Olha, tu tens por cá figurinos de António Tenente de Behen, entre outros. E lá fora também, agora recentemente, na dança com Giorgio Armani a assinar os figurinos do baile da Ópera de Viana, ou Chanel, que tem também uma longa ligação ao Ballet Ópera de Paris.
Pois é. E nos ecrãs também. A ficção também explodiu, as plataformas têm cada vez mais conteúdos. E olha, em breve, fiquem atentos, porque vão poder ver peças da dupla portuguesa Ernest W. Baker num dos vilões da série "Euphoria".
E eu já nem sei em que temporada é que vai. Mas vou começar a ver para apanhar isso.
Começa a ver tudo.
Exatamente. E tens muitas colaborações com artistas também. Tivemos o lançamento da Salsa com o Aka Corleone, que contou com peças exclusivas pensadas em conjunto com o artista. Foi, na verdade, um exercício de construção de conceito e design com peças que obrigaram a experimentar novos fittings para a marca.
Isso é sempre interessante.
E depois, claro, que também tens os estampados de algumas obras nas peças, neste caso inspiradas em bandeiras de diferentes países.
É ótimo, porque podes levar um bocado de moral para casa. Muitas vezes o Aka Corleone faz assim estes trabalhos de maior dimensão, até nos espaços públicos. E neste caso, podemos levar um bocadinho do padrão sem ter que destruir património. Usá-lo, andamos com ele tranquilamente no corpo.
É isso mesmo. E como esta colaboração, há outros exemplos. Em 2025, a Atlanta Mocassin também colaborou com a pintora Maysa Champa Limon, a Pull&Bear com o Bráulio Amado. Em 2024, a +351 com a Joana Al Stolfi também. Portanto, há aqui muitos exemplos desta tendência. Além da parte estratégica, do buzz que isto cria em torno das marcas, outro aspecto que eu acho fundamental é que isto faz as marcas crescerem internamente, porque se pensares bem, ao trazeres um olhar externo para dentro do teu produto e do teu processo, obriga as equipas de design e até de produção a mudar o chip e a procurar novas soluções. Isto pode ser mesmo um gatilho de mudança para alguns processos. Eu acho isto muito interessante.
É, olha, os desfiles e apresentações também são dos formatos mais óbvios a cruzar referências artísticas. Nós temos um ótimo exemplo disso, também recente com a Joana Vasconcelos. Primeiro, a produzir uma peça gigante, para um desfile da Dior.
Que correu mundo.
Que correu o mundo. E agora, mais recentemente, com as suas peças a fazerem parte da mais recente exposição dedicada a Valentino também. A banda sonora é relevante, pode incluir atuações ao vivo, decorrer em museus, ser filmados por realizadores de renome e receber o selo de aprovação de estrelas das artes sentadas na fila da frente. Portanto, os desfiles também acabam por encapsular muito esta interseção toda.
E aliás, até são muitas as estrelas da música, cinema e televisão que lideram campanhas de moda, ou que se afirmam como embaixadores das próprias marcas.
Sabes que se pensarmos bem, nós até temos fenômenos como o movimento Dandy, também já com muitos anos em cima, em que a curadoria da aparência e da postura nos convida a vestir e viver como se fôssemos uma obra de arte. Portanto, desde logo ali temos a semente para esta forma de agir.
Completamente. Depois tens aqueles casos em que a arte passa mais por despir do que por vestir.
Também pode ser.
A artista contemporânea Marina Abramovic não é apenas um ícone de estilo, também é conhecida pelas suas performances radicais.
Bastante radicais. Em 1974 esteve longamente sentada sem se mexer, o que já por si é desafiante. À sua frente havia uma mesa com 72 instrumentos e acessórios. O público tinha carta branca para usar essas peças na artista como quisesse. Ela acabou toda picada, cortada, ferida, enfim. E claro, também com a roupa um pouco, para não dizer muito desfeita.
O que é um bocado perturbador, não é?
É, mas a arte é mesmo assim. Como a vida também.
Completamente. E não nos podemos esquecer também do impacto que os diferentes gêneros musicais, sobretudo, têm na moda, do pop ao hip-hop.
Que é o punk também. E o próprio pop também.
Tendências de moda que vão e voltam que parece um ioiô, na verdade.
Sim, vamos sempre oscilando. Olha, e grandes artistas que também diversificaram a sua criação nesse sentido. O Picasso fez cerâmica também. O Matisse dedicou-se ao têxtil. A Sonia Delaunay também contribuiu para a moda, portanto, vão ali picando diferentes áreas.
Olha, não vás mais longe. As grandes casas de moda têm vindo a recrutar para as suas direções criativas grandes nomes das artes. Olha, o Pharrell Williams, por exemplo, com a Louis Vuitton, que é uma relação ótima e que está a resultar muito bem.
Sim, na verdade, é raro o artista que não lança hoje a sua própria marca de moda.
Mas marcas de celebridades dá todo um outro episódio.
Sim, é um facto. Vou já tomar nota e bom, até para a semana.
Até para a semana.