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Margarida, decora isto: 3, 5, 7.
Estás me a dar a chave do Euromilhões?
Não, é pra tu acertares quando estiveres a fazer a mala. "Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.
Falas quase de certeza de uma das regras seguidas para estas coisas. Três partes de baixo, cinco partes de cima e eis que ficamos com sete dias de essenciais para usar.
Mas há muitas outras formas. Tens uma que vai de um até seis. Um chapéu, dois pares de sapatos, três partes de baixo, quatro partes de cima, cinco pares de meias e seis pares de cuecas. Isto é suposto dar para 15 dias.
E tu espera que ainda há outra, que é ao contrário.
Meu Deus do céu. Vamos lá.
É o método cinco, quatro, três, dois, um. E não, a seguir não se diz ação. Basicamente, temos cinco partes de cima, quatro partes de baixo, três pares de sapatos, duas camadas exteriores e um conjunto de acessórios.
Agora já não sei o que hei de fazer. Isto de ir de férias está a dar muito trabalho.
Calma, tens ainda coisas mais simples que prometem dar para 27 looks, imagina.
Tem muita coisa.
Chama-se 3-3-3 e é muito minimalista: três partes de cima, três partes de baixo e três sapatos.
Vamos assumir que a roupa interior é outro capítulo. Tu sabes que também há uma regra de ouro que diz para levar metade do que estávamos a pensar originalmente.
Sim, tens de levar o dobro do dinheiro.
Também convém, sim, exato. Para mim, o essencial com o tempo é viajar leve, ou seja, levar o menos possível na mala para não ir tão carregado. Sobretudo quando falamos das férias grandes de verão, conseguimos dispensar assim os acessórios mais quentes. Primeira coisa na mala, Margarida, para mim é essencial: fatos de banho.
Parece simples, mas nem sempre é.
Não é.
Até porque é um registo em que, por vezes, pede mais do que uma roupa por dia, por mais descontraído que seja.
Sim, tu tens que pensar nos momentos água salgada e água doce, como eu lhe costumo chamar, na roupa dita de praia. E depois no vestir pós-banho, que não costuma ser a mesma coisa, não dá muito jeito. Mesmo que não tenhas um jantar formal pela frente, queres te sentir um bocadinho mais lavadinho.
Sim, uma das chaves-mestras é apostar nos básicos e neles, aqui sim. Peças que combinam todas umas com as outras, como um puzzle fácil, ou então apostar em vestidos e macacões que na prática já fazem um look completo.
Integral. Um dos truques para elevar os looks é apostar em acessórios mais statement, como costumam dizer. Fazem a diferença por cima de um simples top branco, ou de uns calções práticos, ou até de um vestido maxi, mais fluido. Pode ser um colar, uns brincos mais festosos. Aquela coisa que normalmente não se usa e que depois acaba por fazer todo sentido.
E as férias são também uma ótima oportunidade para largarmos por momentos as carteiras enormes onde levamos de andar. E usarmos apenas uma clutch mais pequena, que também pode ser um acessório desses statements que muda o look.
Precisamente. E temos chinelos rasos, incluindo as populares Havaianas, que se tornaram omnipresentes para diferentes contextos, incluindo até os mais festivos.
E olha que até os fatos de banho. E hoje já os consegues incorporar também aqui.
Usar à noite.
Em looks extra praia, até porque tens uns que são bastante estilosos e até com tecidos brilhantes. Existem várias opções.
Sim, eu diria que é para esquecerem uma coisa: peças muito volumosas. Mesmo que nós achemos que aquilo é muito interessante de vestir, de facto ocupa metade da mala e não vale a pena. Também sapatos que não vamos usar, apesar que devemos sempre ter mais do que um par disponível. Isto é bom ter em conta. E roupa que fica cheia de vincos facilmente também não é uma coisa muito prática.
São coisas a evitar. Apesar de todos gostarmos muito dos linhos, por exemplo.
Pois é, mas não dão jeito nenhum.
Pode ser sempre uma dor de cabeça. E depois tens uma questão mais básica, que é a arrumação da própria mala. É importante preenchermos todos os espaços vazios. Por exemplo, estás a ver as malas de rodinhas que têm aqueles espaços que ficam entre.
As reentrâncias.
As reentrâncias, que são ótimas para colocar roupa interior, pijamas ou t-shirts. Peças que podem ir bem dobradinhas e que preenchem esses espaços. Depois, no caso dos biquínis, podes aproveitar as copas dos sutiãs para meter lá dentro a parte de baixo.
Isso é muito esperto.
Pronto, utilizas aquele espaço vazio.
Rentabilizar, é verdade. Tu também tens sempre aquele método militar, que recomenda enrolar a roupa, em vez de dobrar como nós habitualmente fazemos. Eu pelo menos costumo fazer isso.
Ou então aquela arrumação vertical.
Essa é ótima.
Também se pode usar nas gavetas de casa e que permite ver melhor as peças de roupa.
Precisamente.
Uma coisa é certa: tudo o que for mais volumoso deve ir vestido para aliviar o resto da bagagem. Pelo menos é algo muito comum, sobretudo assim no regresso de viagem.
Em que a pessoa já pesa mais.
Vens pesado e parece que as malas encolhem. A mim acontece-me sempre isso.
Há sempre coisas a mais do que nós levamos inicialmente. Há pelo menos mais duas ideias que me parecem muito sensatas quando viajamos. Para já, levar sempre um saquinho dobrado. Aqueles saquinhos de pano que temos por todo lado, para o caso de ser preciso encher com um extra qualquer. E uma echarpe larga. Pelo menos no caso das senhoras, eu acho que isso dá muito jeito. Podendo improvisar um top, uma bela saia por cima de uma parte de cima como um top, uma camisola, uma t-shirt Também dá para proteger o pescoço, até no avião dá imenso jeito. Para protegeres os ombros, se for necessário, em momentos mais frescos e ao mesmo tempo aquilo não ocupa muito espaço. É muito mais discreto que um casaco, menos volumoso.
É uma bela dica e o YouTube e afins estão cheios de ideias para usar lenços de formas diferentes. Nós estamos aqui a falar de leveza, mas isso era uma coisa impossível há umas décadas.
Absolutamente. A começar pelas malas. Nós hoje temos, por exemplo, pequeníssimas clutches Louis Vuitton, mas a marca começou por ser conhecida pelos seus grandes baús de viagem. Muito antes da moderna e funcional tecnologia que nós temos hoje por todos os lados. Aliás, nos anos 60, a Audrey Hepburn pediu à marca que fizesse uma versão mais pequena da Keepall e foi assim que surgiu a famosa Speedy Bag, que usava muito em aeroportos, lá na vela com a sua Speedy.
Sim, nessa era, a Gucci também marcava muito aqui o ritmo e graças à Jackie Kennedy, que até batizou um dos modelos assim mais prestigiados.
É verdade. Mas, Margarida, tu já pensaste nas malas que os nossos antepassados tinham que levar só para transportar louças ou os atoalhados, as roupas de cama, aquelas coisas todas?
É que viajava-se, de facto, com muita coisa. Era o contrário de hoje. E era um sinal de status. Pelo menos um sinal mais óbvio. Aliás, os navios no século XIX transportavam três classes de passageiros e cada uma tinha permissão para levar um volume diferente de bagagem. Claro que os passageiros de cabine, a mais alta de todas, dispunham de muito mais espaço de bagagem e tinham também as grandes cabines privadas onde podiam viver durante meses. Porque as viagens também duravam muito tempo, aquilo era quase uma mudança de vida. Onde se podiam guardar os bens pessoais, mas também a mobília. Aliás, no Titanic isso vê-se muito bem.
Hoje também acabas por ter um pouco essa categorização nas companhias aéreas. Aliás, quanto mais malas levas, mais pagas pelo bilhete. E claro, se optares por um bilhete em primeira classe, tens um serviço completamente diferente.
Sim, e a verdade é que muitos de nós também se começaram a preocupar em viajar leves também por essa questão económica. Para além, claro, do incômodo que é andar com aquele peso todo atrás. Mas ainda se vê por aí muita gente com aqueles kits incríveis, aqueles conjuntos de malas todas a condizer, tudo muito instagramável.
Para fotografia. Ainda se mantém, de facto, um pouco essa ideia de status associada ao levar muita bagagem, sobretudo se forem malas de marcas muito conhecidas, famosos monogramas facilmente identificáveis, mas é um pouco uma realidade paralela que se vive muito nas redes. Porque de prática acaba por ter muito pouco, como dizias.
Ou nada mesmo.
Sim, até para coisas que nós já não precisamos de levar.
E os próprios hotéis e as casas de férias também foram mudando. Muitas vezes tu até podes chegar com uma mala grande, mas depois chegas ao sítio e não tens muito bem onde arrumar.
Exatamente. O mundo da hospitalidade mudou muito, de facto. E as malas para chapéus, tu lembras-te disso? Aquilo era adorável, mas hoje servem, sobretudo, para decorar.
Completamente. Tal como os antigos autocolantes das viagens feitas. Tivemos uma série de itens que se tornaram portáteis, justamente a pensar em deslocações. Como os oratórios e as custódias. Que ganharam versões miniaturas às que existiam nas igrejas e em casas particulares na altura das viagens da nobreza, isto quando a nobreza ainda andava de carruagens puxadas a cavalo.
Precisamente. Com o advento das viagens aéreas, foi preciso cortar nas dimensões das bagagens, mas não pensem que as restrições começaram só agora, porque isto é muito antigo.
Completamente. Mas ao menos nos anos 70, e graças a Bernard Sado, trouxeram-nos malas com rodinhas. Uma coisa prática.
Isso foi uma autêntica revolução nas viagens.
17 anos mais tarde, já foi o piloto Robert Pape, que faz um update desta mala e a torna um bocadinho mais pequena, ainda mais fácil de movimentar. E é, na verdade, assim que nasce a primeira mala de cabine.
De cabine. A história não é assim tão simples. De facto, é verdade é que as malas de rodinhas, como conhecemos hoje, são obras destes cavalheiros, mas já nos anos 40 começaram a aparecer anúncios de produtos que aplicavam a tecnologia das rodas às malas. Eram dispositivos conhecidos como o carregador portátil, que era uma espécie de dispositivo com rodas aplicado à mala. São os primórdios desta invenção.
Mas tu sabes que a moda não pegou. Só depois nestes anos 70 é que a coisa se tornou mais popular.
Eram mais as mulheres, será também por isso.
Exatamente, porque eram mais as mulheres que tinham mais bagagem e em alguns casos, menos força para carregar ou menos mãos, porque normalmente as mulheres tinham ou uma criança ou uma cesta.
Além da mala, mais alguma coisa pela mala, é verdade. Mas claramente não se chamavam Amelia Earhart, a incrível pilota aviadora, que em 1933 registou a sua própria linha de bagagem leve e feita para durar. Ela pensou no que era essencial.
Era pioneira em tudo. Era incrível. No século XXI, chegamos a outro patamar no que toca à bagagem. Estamos a falar de malas inteligentes que estão equipadas com funcionalidades como localização GPS, carregadores integrados, que é uma coisa que dá muito jeito, e fechaduras biométricas. E até tens umas que andam sozinhas.
Que maravilha! Eu adorava que pudessem aplicar essa tecnologia aos humanos, nos aeroportos, para nós não termos que caminhar tanto. Não fosse só às malas.
Eu gostava era de ter sempre à mão outra coisa essencial.
O passaporte.
Não. Mas se eu fosse a rainha Isabel II, por exemplo, não precisava de passaporte.
Não precisavas.
Mas além de ter um médico sempre comigo, andaria sempre com um saquinho de sangue, para o caso de acontecer alguma coisa.
Ela andava sempre de mala, que é prática comum entre essas figuras, porque tu és ex-chefe de Estado, claro que pode dar jeito. Outra coisa que parece um pouco tétrica, mas que este tipo de personalidades de alto perfil também exige a situação, é que levem sempre na mala roupa preta, a pensar numa ocasião de luto inesperada, coisa que a então princesa Isabel não tinha à mão quando soube da morte do seu pai. Ela estava em África quando ascendeu ao trono. É importante estar sempre a posto se levar uma coisa negra ali na mala.
É verdade. Eu acho que isso a partir de uma certa idade, todos nós devíamos ter em conta.
Antes de mais, é um facto.
Mas coisas mais comuns: medicamentos, toalhas higiénicas são ótimos também.
Sim. Por outro lado, para evitar excesso e redundância desnecessários, eu acho que nós devíamos seguir aquela regra que é evitar coisas que pertencem a uma categoria chamada just in case.
Eu sou a rainha do just in case.
Ou em caso de surgir a oportunidade, como nós diríamos em bom português, que é aquela coisa de pode ser que seja preciso. Mas no fundo, a não ser que seja algo realmente muito planeado, normalmente não sai do fundo da mala. Fica ali só a atrapalhar e nós não chegamos a usar.
Mas por outro lado, tens sempre aquelas pessoas mais previdentes que trazem sempre consigo uma muda de roupa para o caso de lhes perderem a bagagem.
Mas isso eu acho que faz imenso sentido. Aliás, eu sei que sai caro, mas não deixa de ser até uma ótima desculpa para ir comprar roupa nova.
É, se nos perderem a mala. Portanto, se quisermos renovar o guarda-roupa, podemos prescindir disso. Mas podes nem precisar, Maria. Quando perderam as malas da Olivia Munn, o Michael Kors enviou-lhe roupa nova para ela ter o que vestir. Eu acho que ela fez de propósito também para conseguir um guarda-roupa novo.
É uma boa estratégia. Olha, quem teve menos sorte foi a Elizabeth Hurley, que já contou em termos uma história ótima de viagem. Ela diz que uma vez quando fez a sua mala, estava tão alcoolizada, imagina tu, que só quando chegou a Roma é que descobriu que apenas tinha levado roupa interior. Não tinha levado mais nada.
Mas pelo menos não lhe faltava tudo.
Pois é, há muita gente que se esquece é do contrário. Já me aconteceu o oposto.
Já a nós o que nos falta é tempo para continuar com esta conversa.
Até breve.
Até breve.