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Maria, se tiveres de escolher entre Gstaad, Saint Moritz ou Aspen, qual preferes?

Essa não é uma escolha fácil, Margarida, mas eu acho que o meu estilo encaixa mais em Gstaad.

Tu não me digas que não ficaste fã das escolhas da Bella Hadid em Aspen.

"Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva. É, eu acho que acertaste em cheio. A Bella Hadid no geral, eu e Bella Hadid, Bella Hadid e eu. Rendas e neve não me parece que sejam a melhor mistura, nem o regresso das me fascina, sou sincera, apesar de serem, de facto, mais adequadas às baixas temperaturas próprias do esqui.

Realmente ali a única coisa que nos faz lembrar aquelas imagens glamorosas do antigo après-ski são os casacos de peles que a modelo usou.

É isso, os casacos de pele são uma constante nas imagens glamorosas das estâncias de esqui mais famosas do mundo. A Brigitte Bardot, a Elizabeth Taylor, a Audrey Hepburn ou a Farrah Fawcett desfilaram ao longo dos anos casacos de pele supervistosos, que eram, de facto, a chave daqueles looks de après-ski.

Olha, já a Grace Kelly era mais fã de malhas bem grossas, apesar de também usar alguns detalhes em pelo.

Sim, sempre estilosa. Uma tendência que vejo muito hoje em dia com peças de materiais mais técnicos, mas depois com detalhes um pouco mais retrô em pelo.

Realmente é uma das grandes tendências do après-ski e até da roupa de frio em geral. Mas na realidade, a roupa de malha e tecidos com mistura de lã foram os mais usados na neve nas primeiras décadas do século XX. Sabias é que só na década de 50 é que foram inventadas as primeiras calças de esqui, que eram ligeiramente elásticas. Portanto, antes era tudo assim em malha.

Não devia dar muito jeito. Pois, nada prático.

Eram da marca Bogner. Eram feitas de uma mistura de lã e nylon e tinham uns estribos pra ficarem presas no pé e não subirem. Em 1951, foram capa da revista Grazia e mais tarde tornaram-se um sucesso entre os esquiadores, inspirando os fatos de esqui que seguiram. Inclusivamente, Bogner no dicionário passou a ser sinônimo de calças de esqui.

Ora bem, mas ainda foi preciso esperar algum tempo, certamente, pra ver nascer as calças de esqui mais elásticas e próximas do que conhecemos hoje. E tudo graças a quê? A uma outra inovação têxtil, a lycra.

Completamente, que veio revolucionar toda a indústria.

É muita coisa incluída.

Completamente. Antes da invenção desta fibra, em 1958, as roupas modeladoras femininas usavam borracha, imagina, pra usar elasticidade. Por isso eram superquentes, eram pesadas, apertadas, o que pra modelar a barriga até podia dar jeito, mas eram superdesconfortáveis. E além disso, a borracha tinha um problema, é que perdia a memória, ou seja, aquilo esticava e depois nunca voltava completamente à forma inicial, o que a tornava inútil. Já a lycra, que é uma nova fibra de elastano, podia ser fiada em filamentos muito fininhos, o que permitia que fosse esticada até 500% do seu comprimento original e voltava à sua forma original muito rapidamente. E hoje é usada em praticamente toda a roupa de esporte, de banho.

A estreia internacional deste material revolucionário no desporto foi nos fatos de esqui usados pela equipe masculina francesa de esqui alpino nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1968, em Grenoble, França. A equipe dominou o quadro de medalhas, o que levou outros desportos a escolherem a fibra lycra para os seus uniformes. Pois, eu faria o mesmo. Se a gente venceu com este equipamento, é pra repetir.

Claro. Este ano temos também os Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, em Cortina d'Ampezzo, e claro que acabaram também estes Jogos Olímpicos aqui pra serem o pretexto pro lançamento de várias coleções cápsulas inspiradas na temática. A Lacoste, que é uma marca com licenciamento oficial do Comitê Internacional Olímpico, lançou uma coleção inspirada nos arquivos desportivos da própria Lacoste, mas usou o logotipo original dos Jogos Olímpicos de Inverno de Cortina em 1956.

Sim, pra buscar essa referência. Margarida, depois tens os uniformes das equipes nacionais. No Canadá, por exemplo, colaboram pela terceira vez com a Lululemon, que se inspirou na paisagem do país, traz puffers com mapas, folhas bicolores, tons inspirados em icebergs, etc. E marcas como a Skims não nos deixam esquecer o underwear e o loungewear mesmo nestas ocasiões, porque também apostaram em linhas especiais para a equipe norte-americana. Nós não costumamos pensar nas pistas de esqui, se calhar, como passarela por excelência, mas a verdade é que sai dali muita boa inspiração.

Completamente. Aliás, os Jogos de Inverno representam, desde o seu lançamento, uma forte inspiração pra grandes casas de moda. Em 1924, que foi o lançamento destas Olimpíadas, a Hermès, a Chanel, a Vionnet decidiram todas desenhar casacos trespassados, calças subidas, coisas mais práticas e elegantes, a pensar nestas pistas cobertas de neve. E quatro anos depois, foi a vez de Elsa Schiaparelli, que adorava esqui, era uma fã da modalidade e era mãe de uma campeã de descida. Ela também estava muito envolvida neste universo.

É por tirar filha, obviamente.

E acabou também por lançar uma coleção a pensar mesmo no esqui desta vez, com casacos de lã, camisolas justas com capuz, chapéus tiroleses e óculos tartaruga, que acabaram por se tornar itens indispensáveis entre os mais fashionistas das pistas.

Claro que a dimensão mais global surge muito com o cinema de Hollywood nos anos 60, incluindo com "A Pantera Cor-de-Rosa", imagina. E depois temos nomes como a Audrey Hepburn, que não teve esquiaparelhi, mas teve o seu amigo Givenchy para assinar aquele look maravilhoso da abertura do "Charade". Imaginas quando ela está a comer ao fresco ali na esplanada, em Megève, com a sua balaclava, que curiosamente é uma peça que voltou muito agora nos últimos tempos, e os seus óculos cor tartaruga Pierre Marly. Aliás, os óculos são, de facto, um componente essencial destes looks.

Completamente. E por essa altura, há outra inspiração muito forte que é a corrida espacial.

Pois é. É uma fase muito de cores vibrantes, arrojadas, para não falar do lurex e do vinil. Nomes como Pierre Cardin, André Courrèges e mesmo o Dior começaram a desenhar criações pensadas para estrelas, como a Sophia Loren ou a Princesa Grace de Mônaco, que estava sempre bem em todo lado, como sabemos, incluindo na neve, e até Bardot em Méribel. Há ali uma série de figuras desta era dourada também com o lifestyle a chegar às pistas de esqui, que de facto fez imensa escola.

Se pensarmos bem, é uma inspiração. A lua e o espaço faz imenso sentido, porque o próprio cenário da neve também pode ser um pouco mais fora da caixa. E depois tens dentro da moda um caso muito especial, que é a italiana Moncler, que nasce enquanto marca vocacionada para criar equipamento técnico para expedições de montanha em 1952, e se torna mais tarde numa marca de moda, tendo inclusivamente desfile de alta-costura. A fama desta marca começa em 54, quando o alpinista Lionel Terray decidiu explorar o potencial das roupas técnicas para excursões, trabalhando diretamente com a Moncler numa linha especial para a expedição ao segundo pico mais alto do mundo.

É uma coisa muito técnica.

Exatamente. E é aqui que começa, de facto, a fama.

Mas olha, os casacos de penas da Moncler, que também se popularizaram de alguma forma, mais próximos daquilo que nós conhecemos, só surgiram nos anos 70. E precisamente a pensar nos esquiadores. Foi um modelo Nepal, era na altura assim que era conhecido, até tinha uma ombreira em couro para apoiar os esquis, que dá imenso jeito.

Um detalhe incrível.

Já a grande reviravolta que leva a Moncler para o universo da moda é em 2006, quando começam, de facto, a criar coleções de alta-costura, uma jogada que ninguém esperava. Depois até tivemos aquelas imagens ótimas daqueles vestidos gigantescos, com aquele material.

E que se tornou mais relevante depois em 2018, com o projeto Genius, em que convidaram vários designers e artistas para reinterpretar o universo Moncler e é possível ver os tais vestidos compridos, acolchoados. Tive o Pierpaolo Piccioli, a seguir a Simone Rocha, o Craig Green, Richard Quinn, Jonathan Anderson. Portanto, tivemos nomes incríveis a participar neste projeto.

E depois tens também quem faça o caminho inverso, que é curioso, ou seja, casas de moda que depois têm linhas especializadas na neve. Como a Gucci, que voltou ao tema com uma coleção cápsula lançada no final de 2025. A Fendi, que lançou uma linha de esqui muito antes, em 2016. A Prada, que começou a comercializar roupa para este desporto ainda nos anos 90.

Bem, já há tanto tempo.

E depois a Dior, com a linha Dior Alpes. O que é que todas essas linhas de luxo acabam por ter em comum? Logotipos por toda a parte. Margarida, em grande parte das suas propostas, lá estão eles, além de apostarem também, obviamente, em lojas e pop-ups nos principais destinos de neve, porque as pessoas continuam a fazer compras.

Completamente. E até tens quem se tenha aventurado por estas andanças mais recentemente, o que mostra que é de facto uma tendência. E aqui tens a Louis Vuitton, a Balenciaga, que revela que este nicho de mercado, pelo menos dentro do mercado de luxo, é algo em que vale a pena apostar. Mas não é só no mercado de luxo. A verdade é que a tendência, se calhar, começa por ser inspiracional nesse universo, mas depois se alastra para marcas como a Oysho, a Columbia, que têm uma grande oferta nesta área.

O que revela que as férias nos Alpes, que durante tanto tempo foram um postal da família perfeita para Hollywood e para a aristocracia, é hoje algo muito mais democratizado, até porque existem, de facto, experiências, montanhas, qualidade de neve e hotelaria para todos os bolsos.

Completamente. E esta ligação às casas reais é bem mais antiga do que imaginas. Todos nos lembramos das imagens icônicas da Princesa Diana em fato de esqui cor-de-rosa choque.

Sim, basta ir aos anos 80.

Acompanhada com a Sarah Ferguson e toda a família. É um retrato, como dizes, de uma família perfeita, ninguém fazia adivinhar o que viria a acontecer depois.

Sim, Margarida, é quase tão trágico como aquelas fotos para as redes sociais em que se percebe claramente que as pessoas não estão a esquiar, não sabem esquiar, mas precisam de fazer conteúdos. E é o quê?

Enquanto isso, para essas pessoas, eu acho que as marcas de luxo pensam muito nos logotipos.

Mas pelo menos são bem vestidas. Podem estar paradas e bem vestidas.

Das coisas que podem estar no cenário mais branco que há, que é aquele que está tão cheio de logotipos, já se percebe logo qual é a marca.

Eu penso que até já deve haver aplicações para isso.

Imagina, se achas que já há pessoas que fazem.

Tenho quase a certeza.

Mas enfim, há decisões bem mais sensatas do que ir comprar um fato macaco da Dior ou da Fendi, que não é para todos os bolsos. Pode-se sempre alugar material em vez de comprar.

Vamos à parte prática.

Ir aos armários de pais e amigos, ver o que sobra. Ou andar a ver como toda a gente põe fotografias na neve. Podes ver dos teus amigos quem é que esteve na neve a semana anterior a tu e pedir emprestado. Também pode ser uma boa técnica. E depois tens sempre plataformas de segunda mão, como a Vinted, onde podes ter ótimos achados, até para as crianças. Eu própria já fiz isso. E nem foi para a neve, foi para ir para uma zona que tinha uma temperatura muito baixa e que precisava de um fato quentinho. Portanto, esta ideia também de que às vezes vamos comprar uma coisa de neve e depois nunca mais vamos usar.

Podes usar noutros contextos.

Exatamente. Com o frio que tem estado, isto no interior do nosso país também não é assim tão descabido ter uma coisinha mais quentinha. Outra boa opção é procurar em grandes superfícies de desporto, mas não nas lojas físicas, necessariamente. Mais online, porque muitas vezes o que acontece é que eles têm tanta oferta que acabam por não expor.

Sim, de facto, são boas indicações para quem vai a sério, para quem não vai precisar de pôr o seu filtro, ou mesmo que vá pôr um filtro fingindo que está noutro sítio qualquer, não interessa. Isto é "new use", como se costuma dizer. Olha, Margarida, o que eu adorava saber é que roupa usaria a mulher do rei Humberto I na neve.

Não devia ser tão cômodo como as opções atuais.

Mas poderia ser chiquíssimo. Também é interessante.

Mas sei que ela era muito popular por vestir trajes regionais nos seus périplos por Itália.

Sim, sabes porque eu trouxe aqui este nome? Porque imagina bem que a rainha Margarida de Sabóia, dela que falamos, já era uma grande amante dos Alpes e em 1893 mandou construir a Cabana de Margarita, no Monte Rosa. Ela ainda lá está, simbolicamente, e tem alguma utilidade. Mas é sobretudo um ponto turístico. Entre o Vale da Aosta e a fronteira suíça, ali a 4554 metros de altura Parece que para a inauguração do projeto, ela, que era uma grande entusiasta da neve, fez a subida a pé, o que deixou os guias impressionadíssimos.

A resistência para subir montanhas. Aí está uma coisa que eu não tenho.

Tu não tens, mas também não tens uma pista com o teu nome, como é o caso de Marguerita, mas não andas longe.

Não ando nada longe, porque eu passo muitas vezes por Marguerita.

Só de fora.

Só não sei se é pela pista ou pelo cocktail.

Olha, aí está uma boa dupla. Eu também não sei, não vou arriscar aqui respostas, mas é certamente uma ótima dupla para provar depois do esqui. Portanto, até para a semana.

Até para a semana.