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Não se sabia por que as aves machos têm cores mais fortes do que as fêmeas. Tudo isto até agora, porque investigadores internacionais, mas a maioria nacionais, descobriram o único gene que é responsável pelas diferenças na coloração de machos e fêmeas, e a descoberta fez capa da prestigiada revista científica "Science".

E conosco temos Pedro Miguel Araújo, é biólogo e investigador do CIBIO, o Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, e também do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente. Muito boa tarde, Pedro Miguel Araújo, é um dos autores deste estudo. Começo por lhe perguntar que gene é este que agora foi descoberto.

Boa tarde. Antes de mais, é o gene BCO2, que está mais presente nas fêmeas mosaico. Foi o gene que nós descobrimos como sendo responsável pela diferença da coloração entre os machos e as fêmeas.

Pedro Miguel Araújo, para quem não é muito entendido no assunto, de uma forma simples, se possível, como é que chegaram a esta conclusão? Quanto tempo é que demoraram a chegar a este gene?

A nossa experiência durou mais ou menos dois anos e pouco. Há vários tipos e variedades de canários. Fizemos vários cruzamentos entre canários mosaicos e não mosaicos. Fizemos várias amostras de sangue para fazer uma sequenciação completa do genoma dos canários mosaicos e dos não mosaicos. Fizemos também a sequenciação de canários da mesma família, que são os serines, que são os mais conhecidos por chamariz. E depois, por comparação, conseguimos chegar a uma região candidata, que se revelou ser este gene que eu acabei de referir, o BCO2, como o principal responsável pela diferença.

Pedro Miguel Araújo, este era um gene que andavam a procurar há muito tempo, certo? É quase como encontrar uma agulha num palheiro. Este era um trabalho que vinha a ser feito há muito tempo e isto era quase um mito, tentar perceber como é que esta questão das cores influenciava ou não, e o facto de estar presente ou não em machos e fêmeas. É verdade?

Sim, a nossa equipa, que é coordenada pelo Miguel Carneiro, lá no CIBIO, sempre se preocupou ou tentou descobrir a razão pela qual neste dimorfismo sexual. Por que os machos, de facto, são mais vistosos que as fêmeas. Porque na natureza isso acontece em vários gêneros de aves, nomeadamente nos passeriformes, que são aves que normalmente têm um grande dimorfismo sexual, em que os machos são muito vistosos, com muita cor, mas o que se pensava é que tinha sido uma evolução seletiva, não uma evolução genética. E nós sempre nos intrigamos com isto e o que nós descobrimos então foi que, afinal, tantos anos de seleção, mas afinal é só um gene que coordena isto tudo e que está mais presente nas fêmeas.

E, portanto, de que forma é que isto pode influenciar a perceção que nós temos da vida em natureza, no caso dos canários, por exemplo?

Sim, nós conseguimos perceber isto em estado controlado, em cativeiro, através de vários cruzamentos e várias comparações, mas isto é importante para perceber, na globalidade, que este tipo de seleção ocorre na natureza. Que este gene está conservado na natureza e se calhar o gene é responsável por uma série de diferenças que nós encontramos em quase todas as variedades de aves.

Claro, exatamente. Portanto, a partir da vossa descoberta, agora há um caminho também a percorrer para alargar tudo isto a um espectro maior de aves, certo?

Exatamente. A facilidade de termos animais em cativeiro permitiu que chegássemos a esta conclusão, que vai abrir outras portas para perceber isto noutras aves.

Pedro Miguel Araújo, agradeço-lhe ter estado conosco aqui na Rádio Observador. É biólogo e investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos. Faz parte também do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente. É um dos autores deste estudo que descobriu o gene que permite perceber por que razão as aves machos têm cores mais fortes do que as fêmeas. Deixo-lhe também este convite, se nos está a ouvir, passar pelo site do Observador. Por lá encontra a imagem que fez capa da revista Science, de um casal de canários mosaico. Uma imagem incrível, um artigo assinado pela jornalista Vera Novais, que lhe conta também mais. Voltemos a falar de ciência, na tarde, em direto, na segunda-feira. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.