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Máxima.
Junho foi o mês mais quente em todo o mundo. Os dados divulgados pelo Serviço Europeu para as Alterações Climáticas, no passado mês de junho, registam precisamente isto. O organismo europeu prevê ainda que estes números venham a atingir recordes nos próximos cinco anos. Junta-se agora a nós Margarida Silva, investigadora da Escola Superior de Biotecnologia. Margarida Silva, bem-vinda, obrigada pela disponibilidade.
Obrigadíssima por convite, muito boa tarde.
E começo por lhe perguntar: estamos a falar de que valores, exatamente? Este aumento regista-se em que valores?
São valores preocupantes, mas o número absoluto, se é mais um grau, se é mais meio grau, não é a coisa mais importante. O importante é olhar pra tendência global. Não é a primeira vez que o mês de junho é o mais quente jamais registrado. Em anos passados, isso também tem acontecido. Portanto, o que nós estamos a ver é uma tendência crescente em que, com o passar do tempo, com o passar dos anos, a temperatura média do planeta está a subir e com isso nós sabemos que vem uma quantidade de desastres.
De consequências.
Desestabilizações, de consequências negativas. E, portanto, temos que perceber aqui que não é por ser este mês de junho mais quente que há um problema. O problema é que nós há décadas que andamos a alterar o clima de tal maneira que já vai ser muito difícil reverter e evitar o pior destas consequências.
Neste caso concreto deste dado divulgado, estamos aqui a falar de meio grau, portanto 0,53 °C, a temperatura aumentou, a temperatura média do mundo. Portanto, como diz, o importante não é, de fato, o número, é sim pensar nas consequências que isto trará. Margarida Silva, que consequências? Vamos a elas.
As consequências são uma longa e tremenda lista. A começar pela pobreza, porque isto vai criar desestabilização social. Os picos de calor vão causar incêndios, as vagas de frio vão impossibilitar a agricultura, as inundações que antigamente aconteciam a cada 100 anos, agora começam a acontecer quase a cada ano, as secas prolongadas, as tempestades, toda a alteração dos padrões climáticos vai alterar profundamente a nossa capacidade de resistir, a capacidade dos ecossistemas se manterem e, portanto, vai levar à extinção das espécies, vai pôr em causa a agricultura, vai levar a enormes fluxos migratórios, vai levar à subida do nível médio das águas dos oceanos e, portanto, todos os países e cidades que estão à beira do mar vão perder terreno. Só pra ter uma ideia, embora, obviamente, eu não estou a dizer que isto vá acontecer em breve, nem sequer podemos ainda perspetivar exatamente quando acontecerá, mas o mais provável é que a Groenlândia, que é a maior ilha do mundo, pertence à Dinamarca, está lá perto do Ártico, está com o gelo a derreter a altíssima velocidade, muito mais pressa do que se pensava há uns anos. Quando todo aquele gelo tiver derretido, o nível d'água nos oceanos vai subir sete metros só por causa do gelo da Groenlândia. Nem sequer estou a falar do gelo na Antártida. Portanto, nós estamos perante tendências globais tão massivas, tão problemáticas, tão difíceis de interromper, que ou agimos agora enquanto as coisas ainda têm uma janela de oportunidade, ou então não vale a pena, porque nós já não vamos conseguir reverter processos.
Margarida Silva, mas quando fala dessa janela de oportunidade, quer dizer que ainda vamos a tempo, apesar destes números impressionantes?
À medida que o tempo passa, a janela de oportunidade fica mais estreitinha. E, portanto, quanto mais estreita for, mais coragem política é necessária, mais investimento, mais radical tem que ser a mudança e, portanto, mais difícil é conseguir chegar lá. Aquilo que os cientistas têm consensualizado é que se a temperatura média do planeta subir acima dos 2 °C pré-revolução industrial, nós não vamos conseguir manter a sociedade tal como a conhecemos até aqui. Muita coisa vai mudar. E o que é preciso, se calhar, que se conecte com esta informação é que nós já temos conhecimento científico há décadas. Ou seja, as coisas não estão a mudar à velocidade que deviam. Não é por falta de tecnologia, não é por falta de conhecimento credível, não é por falta, sequer, de capacidade social para implementar as mudanças. Não, a razão pela qual as coisas não estão a mudar é porque existe lucro em manter as coisas no status quo. Se nós deixarmos de vender petróleo, porque é um dos principais causadores das alterações climáticas, é a queima dos combustíveis fósseis, petróleo e carvão, gás natural. Se nós deixarmos de vender, se trocarmos para energia solar, fotovoltaica, eólica, etc, vai haver muitas empresas infelizes porque deixaram de fazer milhões por minuto como fazem até agora. E essas empresas poderosas que são, conseguem condicionar governos, países, partidos, sem nenhuma dificuldade. Portanto, por muito que o discurso político já incorpore esta preocupação Esta realidade das alterações climáticas, na prática, não existe capacidade de mudança, porque o lucro na situação atual é demasiado grande para quem manda quer mudar.
Margarida Silva, queria só perguntar-lhe também uma coisa, que não temos muito tempo. Temos falado dessa necessidade de ação global, também desses efeitos a nível global, e significa que Portugal não está imune aos efeitos desse aquecimento, certo?
Isso é verdade. Aliás, nós temos passado por meses muito difíceis devido à pandemia e há um paralelo que se pode estabelecer, é que tal como na pandemia, no caso das alterações climáticas, ninguém está a salvo enquanto não estivermos todos a salvo. Estamos literalmente todos no mesmo planeta e portanto, quando começar a acontecer, já começou a acontecer. Mas a partir do momento em que começa a acontecer, todos vão pagar a fatura, ninguém está a salvo. E portanto, Portugal, que ainda por cima é extremamente dependente das ligações económicas com outros países, que face às alterações climáticas, já começaram com grandes mudanças nas suas políticas económicas de importação e exportação. Portugal é um dos países frágeis, mas está longe de ser o mais frágil. O que é preciso é que Portugal não sinta que está sozinho, mas possa liderar, junto com outros, as mudanças que nós temos necessariamente de implementar antes que seja demasiado tarde.
Margarida Silva, agradeço-lhe ter estado conosco, é investigadora da Escola Superior de Biotecnologia. Falamos aqui de alterações climáticas, dos dados divulgados pelo Serviço Europeu para as Alterações Climáticas do programa Copérnico. O mês de junho foi o mês mais quente em todo o mundo, desde que há registros. Amanhã voltaremos a falar de ciência. Se quiser voltar a ouvir esta edição, partilhá-la com alguém, vai ficar disponível já a seguir, em podcast, nas plataformas habituais e também em observador.pt. Basta procurar pelo nome da rubrica E igual. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.