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Foram precisas largas horas para a contagem ficar concluída e está mais do que garantido: as eleições do Benfica vão ser decididas na segunda volta. Rui Costa e João Noronha Lopes vão às urnas mais uma vez no dia 8 de novembro. Até lá, esperam-se duas semanas de campanha intensa. Fazemos essa análise neste "O Campeão Especial", com os comentários do Bruno Vieira Amaral, do João Pinto e também do Gabriel Alves. Bruno, começo por ti. Contrariando todas as sondagens, Rui Costa ficou na frente. Muitos, ao longo da semana, deram a vitória praticamente certa a João Noronha Lopes, não sabendo ou não se íamos ter a segunda volta. Noronha Lopes ainda pode dar a volta a isto? Vamos ter aqui uma segunda volta quentinha?

Ainda pode, claro. E a diferença acabou por não ser tão grande como a certa altura se chegou a pensar, mas é uma diferença bastante substancial, mesmo assim, e que surpreende por causa da afluência, desde logo, porque foi uma afluência surpreendente também. E esperava-se, pelo menos foi essa a leitura que foi sendo feita, que uma afluência tão grande significasse um desejo de mudança. Ora isso não se confirmou. Foram votar muitos benfiquistas, muitos sócios, mas não votaram em primeiro lugar pela mudança, e isso é surpreendente. E a vantagem que Rui Costa acabou por alcançar também surpreende, o que não significa que numa segunda volta Noronha Lopes não tenha hipóteses, mas fica bastante ferido, quanto a mim, com este resultado da primeira volta, porque se esperava que a luta fosse mais renhida, o resultado fosse mais equilibrado e tudo indicava que, mesmo havendo uma segunda volta, Noronha Lopes partiria em vantagem. Isto é, ganharia.

Com essa vitória na primeira volta.

Na primeira volta, o que também seria um estímulo. É inquestionável que para esta segunda volta, Rui Costa parte com uma outra confiança e Noronha Lopes parte um pouco mais desconfiado daquilo que consegue fazer. Acho que Noronha Lopes acabou por ser penalizado por uma certa agressividade da estratégia que seguiu nesta fase final, até no último debate que juntou os seis candidatos. Acho que foi penalizado por isso, porque uma coisa, e eu acho que é perfeitamente aceitável, uma coisa são as críticas ao mandato do Rui Costa, à presidência do Rui Costa, mas Noronha Lopes não soube distinguir aquilo que os benfiquistas prezam bastante, que é Rui Costa enquanto símbolo do clube. E ficou demonstrado que esse estatuto ainda vale muitos votos.

João Pinto, os restantes candidatos ficam pelo caminho, mas podem ter influência direta nestes resultados quando começarem a tomar posição ou partido por Noronha Lopes ou Rui Costa?

Olá, bom dia.

Bom dia.

Acho que não. O Vieira fez um favor ao Benfica ao candidatar-se, porque pelo menos mata o mito e isso creio que também lhe tira toda a propriedade para agora poder vir a dizer aquilo que quiser e todos os outros. Mantegas será um capital para uma futura eleição. Mayer e Carvalho, acho que tiveram votações tão baixas que lhes tira também essa legitimidade. De resto, pode haver uma indicação de voto, mas o voto não lhes pertence. Portanto, alguém que votou Mantegas será necessariamente alguém, ou digo eu que é alguém que quer mudar, mas não sei se é alguém que tem vontade de ir perder outra tarde a votar, porque o dele já saiu. Portanto, acho que vamos ver menos votações, acho que vamos ver menos pessoas a votar e acho que vamos ver votar provavelmente só do eleitorado de Vieira é que lá regressarão.

E concordas com o Bruno? Falava aqui da estratégia de João Noronha Lopes, acabou por ser penalizado com essa estratégia mais agressiva perante Rui Costa.

Absolutamente, concordo muito com isso. Acho que Noronha Lopes foi perdendo capital de confiança dos benfiquistas à medida que foi falando, à medida que foi intervindo, muito poucas ideias e realmente muita redundância com o Rui Costa. E o Rui Costa era aquele jogador do Benfica que todos os miúdos da minha idade tinham o pôster. Todos tínhamos o pôster do Rui Costa no quarto e, portanto, custa muito ver alguém a falar daquela maneira para o nosso número 10. E isso realmente custou, e custou bastante.

Gabriel Alves, bom dia. A segunda volta está certa. Rui Costa vai disputar a liderança com João Noronha Lopes. Que cenário antecipas para o dia 8 de novembro e para esta corrida que vai ser até lá? Esta vantagem psicológica deixa Rui Costa claramente mais confiante, não é?

A partir de sim, obviamente que sim. É natural. Mas no dia 8 de novembro, que é a segunda volta, aquilo que já ouvi chamado de uma epopeia democrática com os 85.710 sócios a votar, não acredito que estejam lá tantos. Falou e bem o Bruno, que Rui Costa é um símbolo do clube. É verdade. Mas a pergunta é esta: o voto de mudança ou voto da evolução na continuidade? O que é que os benfiquistas querem? Querem um voto em projeto ou querem o voto num símbolo? E isto faz-me trazer aqui, de forma sintética, algo que li hoje de um amigo meu, benfiquista daqueles duros e pudorosos. Olha, não sei. Um dia desses apresento-lhe o João Pinto para ficarem os dois a conversar. No final dos anos 90, numa assembleia, estou a citar numa assembleia geral, um sócio pede a palavra. "Vocês andam por aí a falar passivos para aqui, passivo para ali E que o Benfica precisa é de um defesa-direito. E diz o Dr. Pedro Cortez, benfiquista, não mudou muito desde aí para cá. O Benfica é uma sociedade anônima, é uma empresa, e a verdade é que esta epopeia democrática destes sócios, e é bom dizê-lo, mostrar esta vitalidade associativa de um país pequeno aos investidores, que embora não seja tudo, mas olham com atenção a estes temas, e fica bem ao ego, mas olham a estes temas com atenção, porque os investidores são extremamente importantes, porque o futebol hoje é empresarial, pura e dura. E os sócios do Benfica têm que perceber uma coisa: no caso do Benfica, todos mandam até ao final da eleição. Daí para a frente, os sócios do Benfica, os sócios daquele, os sócios do outro, os sócios do aqueloutro, aqui, ali, lá fora, onde quer que seja, já mandam muito pouco, porque depois quem manda é a empresa, aquilo que são as vicissitudes empresariais que são necessárias para que tudo ande. E, portanto, os benfiquistas têm que pensar nisso. E já uma nota aqui, e já o disse e vou referir.

Já te estás a antecipar quanto a isso.

Na segunda volta, não vai haver jogo na Luz. Vamos ver quantos lá estão e o que é que vai acontecer a 25.703 votos vazios, onde é que eles vão ficar na segunda volta.

Bruno, se tivesses que dar uma nota às eleições do Benfica no seu geral, ou se quiseres também particularizar em algum caso, a quem é que davas uma nota?

Para as eleições, claramente um 20, porque foram uma manifestação de grande vitalidade do benfiquismo. Os resultados também demonstram outra coisa, que ao contrário do que muitos poderíamos pensar, o momento desportivo já não tem assim tanta influência. Os benfiquistas foram capazes de separar as águas. Ou então não acreditaram que outro no lugar de Rui Costa tivesse feito muito melhor. Acredito também que votaram com uma perspetiva de mudança. Mudança com o mesmo protagonista. Nenhum benfiquista está contente de ganhar um campeonato em quatro anos, de não ganhar nenhuma Taça de Portugal durante o mandato. Não há nenhum que esteja satisfeito com isso. Mas quando, por exemplo, se fazem ataques em relação a vendas dos jogadores, falou-se muito da questão do João Neves e depois veio-se com aquela coisa de ir falar com as famílias dos jogadores, enfim. Os clubes portugueses vão precisar a continuar de vender os jogadores, isso é inevitável. A questão é saber como, quem é que vende, em que condições é que vendem e isso não vale a pena vir com retórica e dizer que comigo seria muito diferente, porque todos os benfiquistas têm essa noção. E de facto, os resultados desportivos, que ultimamente não têm sido bons, não pesaram assim tanto na decisão dos benfiquistas. Agora, ter uma afluência de 85 mil sócios em dia de jogo ou sem ser em dia de jogo, já houve eleições em dias de jogo, é uma manifestação de grande envolvimento dos sócios com o clube.

É democracia a funcionar?

E de preocupação. Se nós tivéssemos este nível de participação na política, nas eleições para o Parlamento, nas eleições autárquicas, seríamos um país certamente muito diferente e muito melhor.

João Pinto, alguma nota que queiras deixar?

Eu pessoalmente sempre tive aqui alguma aversão a consensos, algum ódio pela unanimidade e gosto muito destas coisas, do pluralismo, de aparecerem muitos candidatos, da malta poder escolher entre diversos projetos. E portanto, para mim esta foi a coisa mais saudável das eleições do Benfica, aparecerem seis candidatos e no fim ganhou o mesmo, ganhou o Rui Costa, mas gostei muito e a minha nota de campeão seria para isso, seria para as muitas opções que apareceram para os sócios do Benfica.

Gabriel Alves, em 30 segundos.

Sou mais rápido. Vinte para o ato democrático que envolveu toda esta eleição do Benfica. A democracia ganhou.

E fica por aqui esta edição especial de "E o Campeão É". Mais logo, depois da 01:10 a.m., há uma nova edição, mas também para falar sobre o Sporting e do jogo de mais logo do Futebol Clube do Porto, que vai jogar em casa do Moreirense.