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Bem-vindos de regreso a mais um "E o Resto é Ciência?". Nós vamos hoje terminar uma primeira série deste programa. Estaremos de regreso muito em breve, mas hoje não podíamos começar ou irmos embora sem falar do tempo que está a chegar. E o tempo que está a chegar é a primavera. Quando chega a primavera, nós voltamos a ver céu azul. Neste inverno, em Portugal, poucas vezes chega o céu azul. Voltamos a ter vontade de nos aproximarmos do mar, mesmo quem não vive com o mar à frente, e ter necessidade de ir à procura de azul. E por isso vamos precisamente começar por aqui, que é: por que o céu e o mar são azuis? Nós estamos aqui, olhamos uns para os outros através do ar e o ar parece transparente. Por que se transforma em azul? Um copo d'água também parece transparente. Por que quando nós juntamos muita água, ela é azul? Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, como sempre, geofísico, antigo presidente do IPMA. Miguel, como é que a gente explica isto?

Bem, José Manuel, a questão da cor do céu, da cor do mar, da cor das nuvens, sempre foi uma coisa que intrigou a humanidade há muito tempo. Essencialmente porque imaginem, quando vês o sol, o sol quando está a pino parece ter uma cor, quando está perto do horizonte parece ter outra.

Estamos a falar do sol que nós não conseguimos olhar e do sol que costumamos olhar ao pôr do sol ou ao nascer do sol.

Exatamente. E o nascer para nós, repara bem, vemos quase sempre como branco, se bem que não seja exatamente branco, e o pôr do sol vemos como vermelho ou avermelhado ou alaranjado.

Mas a luz do nascer do sol é mais curta, leva menos tempo, aquelas luzes douradas, do que o pôr do sol, mas apesar de tudo, também são douradas.

Também são douradas. E portanto, o Aristóteles foi talvez o primeiro filósofo natural que tentou compreender este fenômeno da luz, mas na verdade foi Newton, que mais uma vez se reinventa, que conseguiu demonstrar que quando forçava um feixe de luz branca do sol, por exemplo, a atravessar um prisma triangular de vidro, ele verificava que do outro lado do prisma triangular apareciam várias cores, e que toda mundo já conhece, nem que seja pela capa do mais conhecido disco do Pink Floyd, de Dark Side of the Moon. Este não é o Dark Side of the Moon, é o White Side of the Sun, mas seja o que seja, ele conseguiu demonstrar que o branco que nós vemos, na verdade, é uma mistura de muitas luzes. Compreender que o que estava a falar, tanto no caso como no outro exemplo de radiação, radiação que tinha um comprimento de onda diferente, ou o que é a mesma coisa, uma frequência diferente, e verificar que a refração da luz no prisma triangular conseguia separar os vários tipos de cor, os vários tipos de luz que estavam misturados na luz branca do sol.

Mas isso corresponde porque a luz é uma radiação. Enfim, não é só uma radiação, mas é uma radiação. O que acontece quando a luz atravessa um prisma? A radiação é dividida?

Existe uma experiência antiga que é muito fácil de explicar para se perceber o que é a refração da luz no vidro. Vamos imaginar que estás na praia e que tens duas pessoas e que ambas estão a agarrar uma vara grande, com cinco, seis metros. E que vão correr, mas vão correr sem ser perpendicular ao mar, obliquamente ao mar. E há uma altura em que uma delas começa a andar dentro d'água enquanto a outra ainda está a andar em cima da areia. A que está a andar dentro da água, como é evidente, anda mais devagar. E como anda mais devagar, a barra torce. Isto é o que acontece na refração. Na verdade, a velocidade da luz não é igual dentro do vidro e no ar, e não é igual em função da frequência. E, portanto, o que está a acontecer aqui é que há refração do feixe. O Newton foi até um pouco mais inteligente que isso, porque ele salientou sempre, desde o princípio, que o que estávamos a falar do branco e da cor não era um princípio filosófico, mas era apenas a forma como nós percepcionamos com a visão, a radiação que recebemos. E o que estávamos a falar não era apenas de física, era também de fisiologia.

Pois, esse aspecto, aliás, é muito interessante, porque vamos lá ver, quando nós falamos de cores, estamos a falar das cores que nós vemos. E há aqui uma coisa que às vezes pode parecer paradoxal para alguém. Quer dizer, os físicos gostam de coisas que são materializáveis. Enfim, já não é tão assim, mas basicamente é assim. E depois dizemos assim: "Mas está bem, no limite, eu posso estar a ver cores ligeiramente diferentes daquelas que o Miguel está a ver. E posso, sobretudo, estar a ver cores diferentes daquilo que um daltônico vê ou daquilo, por exemplo, se tivesse aqui o meu cão veria, ou se tivesse aqui, se calhar, uma aranha veria." E nós sabemos que isso depende não apenas da luz e das cores, mas depende da forma como nós captamos. E nós captamos as cores nos nossos olhos, em particular numas células cônicas. Nós temos três células cônicas diferentes, cada uma delas capta uma cor, de uma forma simples, poderíamos dizer que é uma mais encarnada, outra mais azul

Mais verde.

Mais verde. Aquilo que nós nos códigos de cores chamamos RGB, que é uma coisa que às vezes vemos nas televisões, tem a ver com red, green, blue. Isso permite nos ter a paleta todas as cores, porque as cores depois misturam-se entre todas elas. Mas há cores que nós não vemos. O chamado ultravioleta e o infravermelho. Que usamos às vezes em alguns aparelhos, sabemos que existe, mas há, porventura, animais que veem. E sabemos que há animais que veem, precisamente porque houve uma experiência com um prisma, com a luz a passar através de um prisma e umas aranhas, uma coisa já no século XIX, e as aranhas não passavam de um limite que ficava antes do limite em que aparecia as cores do prisma. O que queria dizer que devia haver ali qualquer coisa que ela estava a ver e que nós não víamos.

Manuel, ainda bem que não vemos. Nós vivemos mergulhados em radiação. Imagine o que é ligar um micro-ondas e de repente vermos as micro-ondas, ou vermos a radiação do telemóvel e vermos o sinal do Wi-Fi que atravessa todos os quartos das nossas casas. Seria uma coisa completamente infernal. Felizmente, nós temos o espectro do visível e temos uma certa capacidade de distinguir cores. Eu penso que uma pessoa normal distingue cerca de uma centena de cores, mas um daltônico pode distinguir um número muito inferior de cores diferentes. Esta capacidade de nós distinguirmos cores também é uma parte importante da nossa apreciação da pintura.

Pois. Há uma história curiosíssima, que é uma história que se passa com um pintor impressionista muito famoso, que é o Monet. O Monet está muito associado às pinturas de núvens. Não só. Há muitas outras coisas importantes do Monet. Mas o Monet quando já era velhinho, teve aquilo que muitas vezes as pessoas de mais idade têm, que é cataratas. E quando começou a ter cataratas, as cores das suas pinturas tornaram-se mais acastanhadas e amareladas. Ele foi operado às cataratas, tiraram-lhe um cristalino, de um dos olhos. O cristalino também tem uma função de filtrar a luz ultravioleta. E a partir daí as pinturas dele passaram a ser azuladas, esbranquiçadas. Os mesmos motivos, a paleta de cores mudou completamente.

Não, para nós.

Mudou para nós. Claro, para ele provavelmente continuavam a ser iguais.

E esta questão de que nós vemos tudo da mesma maneira, também não está completamente demonstrada. Tem a ver sinuosidades de diferença. Mas a questão que tínhamos ao princípio é assim: mas será que o sol é mesmo branco? E existem duas questões à volta deste assunto. Primeiro, para os astrônomos, o sol é que se chama uma estrela anã amarela, o que é um nome bastante desagradável para chamar o astro rei anã amarela. Mas amarela não tem a ver com a cor. Todas as imagens que nós obtemos fora da atmosfera terrestre, ou seja, pela ISS, a Estação Espacial, ou pelos diferentes veículos espaciais que circulam a Terra, é de que a luz é realmente branca. É branca e isso tem a ver essencialmente com a temperatura da parte exterior do sol, que anda entre os 5500 e os 6000 Kelvin, e que faz com que tenhamos esta capacidade de reconstituir a cor quando nós queremos e separá-la quando queremos. Nós hoje em dia já não temos filmes a preto e branco, temos filmes a cores e, na verdade, o que nós fizemos foi reproduzir no laboratório, reproduzir industrialmente aquilo que é o fenômeno fisiológico natural da nossa capacidade.

E usando, curiosamente, métodos parecidos com aquilo que são os métodos dos nossos olhos. Eu trabalhei toda a vida em jornais. Nos jornais temos uma impressão, diz-se a quatro cores, na prática são a três. Nós vemos uma paleta de cores a partir de quatro cores básicas. No caso concreto é o cian, que é azulão. Cian. Magenta, que é um vermelhão, e depois amarelo. E o preto, porque como imprimimos em papel branco, é necessário compensar isso. E fazemos isso através de pontos, pontos mais pequenos, pontos maiores. Se nós formos a um jornal, a uma revista, e virmos com uma lupa, vemos que tudo aquilo que nós vemos como uma paleta infinita de cores, no fundo são só quatro cores dispostas em pontos numa quadrícula muito fininha. E isso corresponde, no fundo, a um mecanismo semelhante ao dos nossos olhos, que também a partir de três cores básicas, fazemos a paleta de todas as cores.

Aliás, existe uma expressão que é muitas vezes utilizada e que é estranha, que é dizer assim: a íris nos olhos funciona como um diafragma. O cristalino funciona como uma lente e a retina funciona como papel fotográfico. Quando é o contrário. O diafragma é que funciona como a íris, o papel fotográfico funciona como a retina e a lente funciona como o cristalino, porque, na verdade, o homem precede a máquina ainda, felizmente. Não durante muito tempo, mas para já precede a máquina e portanto os meios de gerir e processar a luz, na verdade, o que eles fazem é reproduzir o sistema que nós temos e inversamente para codificar.

Aliás, os olhos na natureza são dos mecanismos mais curiosos, porque nós temos organismos como olhos, que evoluíram de forma separada e sempre para uma forma muito parecida. Os nossos olhos, os olhos dos mamíferos ou das aves, são parecidos com os olhos dos celópedos, de um polvo, e evoluíram É um dos fenômenos da evolução mais estranhos, porque partiram de uma base completamente diferente e ambos chegaram ao mesmo fim, a uma forma parecida. E o mesmo se passa também com alguns insetos, se bem que nos insetos depois haja outro tipo de olhos, mas sempre com o mesmo mecanismo, sempre mecanismos de diafragma.

E repara que quando se fala da experiência de Newton, da separação da luz branca em várias cores, por um prisma triangular, nós não temos prismas triangulares normalmente à nossa disposição em casa, felizmente.

Mas há outra coisa que a gente vê com as mesmas cores.

Mas nós temos um fenômeno que toda gente conhece, que é o arco-íris. E o arco-íris tem algumas parecenças com a experiência de Newton e muitas diferenças.

O que é parecido e o que é diferente?

O que é parecido e o que é diferente? O que é parecido é que essencialmente estamos a falar de refração da luz, que depende da frequência da radiação. E, portanto, temos a separação de uma luz branca em luz de várias cores. O que é diferente? É que, na verdade, as gotas de chuva não são prismas triangulares, são muito perto de serem esferas. E se considerarmos que nós temos uma esfera e que a esfera é iluminada por uma luz branca do sol, o que se verifica é que a luz, quando entra dentro da gota de chuva, sofre refração, mas quando bate na face em frente, é normalmente no ângulo em que ela já não consegue sair da gota de chuva, chama-se isso reflexão total. Porque ela reflete e volta na mesma direção em que incidiu. E na verdade, o que acontece é que não estamos a falar de um fenômeno em que nós estamos a ver, como no laboratório, um feixe incidente e um conjunto de feixes refratados. Estamos a falar de um outro fenômeno em que vemos uma imagem virtual. O arco-íris só existe nos nossos olhos, é uma imagem virtual. Não sei se se lembram quando se davam aquelas lentes na escola secundária e se dizia: "Ah, esta é uma imagem real, invertida e virtual." Isso é uma imagem virtual, imagem que se forma dentro dos olhos. E em que nós vamos ver que a luz se vai espalhar no ângulo que é de cerca de 40 a 40 e poucos graus, da direção em que o sol está. E qual é a direção em que o sol está? Bem, é simples, é a direção que, na nossa cabeça, a nossa sombra. Quando nós olhamos para a nossa sombra, essa direção é a direção que nos dá a altitude do sol. E, portanto, é aí que se forma a imagem. E pode acontecer que ao invés de refletir uma única vez-

É por isso que nós nunca encontramos o pote d'ouro no fim do arco-íris.

É por isso que o pote d'ouro não se encontra, é tão difícil, porque tal como o arco-íris, é uma imagem virtual. E quando, em vez de uma reflexão total, temos duas reflexões totais dentro da mesma gota, o que pode acontecer, então nós temos um arco-íris secundário. Nós podemos ter arco-íris primário e arco-íris secundário. Temos uma separação de cores que para os olhos normais, ou seja, não daltônicos, corresponde às mesmas cores que todos aprendemos, que era o V.A.A.V.A.A.V, que são as sete cores do arco-íris, cujos nomes em português são ligeiramente alterados para poder dar este: o alaranjado em vez do laranja e o anilado em vez do anil. De forma a ser possível dar esta descrição. E este arco-íris é muito interessante, porque acontece que, por vezes, as gotas ao caírem perdem um bocadinho a sua forma esférica e ao perderem a sua forma esférica, o arco-íris que gera é ligeiramente diferente em termos de separação das cores. Mas nós perdemos um bocadinho do nosso sentido inicial. O nosso sentido inicial era por que o céu é azul.

Exatamente. Temos que falar do céu azul.

E, portanto, por que no meio disto tudo o céu é azul? Bem, para se perceber por que o céu é azul, isto foi uma questão que foi estudada e explicada por um físico do século XIX, que é conhecido por Lord Rayleigh, se bem que o nome próprio dele não seja propriamente o nome do seu título nobiliárquico. E que ele chama a atenção de que a luz, quando incide no meio, e a atmosfera é um meio, que ela sofre dispersão. Aquilo cuja tradução para brasileiro, que eu penso que até é mais simpática que a portuguesa, que é espalhamento. Ela espalha-se. Só que o espalhamento, tal como a refração, depende também da frequência. E ele estabeleceu o princípio físico, ou seja, a descrição para dizer qual era a variação do espalhamento com a frequência. E ele demonstra que ela é na quarta potência da frequência. E repare, significa que as radiações com maior frequência, ou seja, maior energia, ou seja, mais azuis ou mais violetas, é aquela que se espalha mais. E portanto, quando nós olhamos pro céu, nós o que estamos a ver é o espalhamento de Rayleigh, da luz do sol branca, e por isso é que ele nos parece azul.

Mas há uma altura em que o céu nos parece vermelho. O que acontece nessa altura? Parede repente o espalhamento, enfim, segundo essa lógica.

O espalhamento é sempre igual. Nós é que não vemos sempre toda a parte do espalhamento. Aliás, nunca vemos toda a parte do espalhamento. Quando o sol está alto, nós o que vemos é o espalhamento real e é o que nos dá é azul. Quando o sol se aproxima do horizonte, nós já vamos ver uma parte desse espalhamento. Provavelmente, até vemos aquele que é mais luz direta do que outra coisa. E nessa altura, depende da nossa relação geométrica com o sol, podemos apanhar a parte mais vermelha, que é o que acontece quando está muito perto do horizonte, mais alaranjada, mais amarelo, que é digamos, a parte de frequências inferior do sol. Não é que ele não esteja a espalhar-se no azul, claro que está. Mas é que nós estamos a ver, já não está na direção do observador. E portanto, tudo o que se passa tem a ver com a nossa relação, nossa com o sol, se estamos a ver realmente o espalhamento de Rayleigh quando olhamos pro céu, ou se, na verdade, estamos já só a ver uma parte desse espalhamento numa certa gama de frequências.

Mas, por exemplo, isso explica também por que nós chamamos ao nosso planeta o planeta azul Que é aquela ideia daquele pequeno planeta azul, que é uma coisa muito querida da ficção científica.

É assim, o nosso planeta, claro que explica uma parte dessa descrição. Da mesma forma que, por exemplo, quando descrevemos Vênus, dizemos que é o planeta branco.

E Marte, o planeta vermelho.

Marte, o planeta vermelho. E repare, são sempre razões diferentes e têm muito a ver com a constituição das atmosferas respectivas. Marte praticamente não tem atmosfera e, portanto, é uma visão muito rarefeita. O que nós temos, essencialmente, é a retrodifusão da componente sólida. Vênus, inicialmente, temos grandes quantidades de vapor d'água e de quase estado líquido na atmosfera. Não é bem estado líquido, mas grandes densidades, e portanto, vemos como branco. E nós na Terra vemos como azul, porque, na verdade, vemos essencialmente retrodifusão.

Bem, nós terminamos a primeira parte. Vamos fazer agora aqui um pequeno intervalo. Já regressamos pra segunda parte do "O Resto é Ciência". Estamos de regreso ao "O Resto é Ciência", mais um programa. Estamos a falar de azul. Estivemos a falar de azul até agora. Estivemos a falar, sobretudo, do céu, do sol, do crepúsculo, mas, além disso, temos também o mar, porque o mar pode ter cores variadas, mas a cor dominante do mar continua a ser o azul, não é, Miguel?

A cor dominante do mar é o azul nos primeiros metros do oceano. Como sabes, existe o famoso poema do Fernando Pessoa, que diz: "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu." Mas, na verdade, o azul que nós vemos no mar não é o espelho do céu. Se bem que, em parte, é verdade que também há esse efeito.

Mas a água, à primeira vista, é tão transparente como o ar. À primeira vista.

Mas reparem, tal como no espalhamento da atmosfera, nós estávamos a ver a retrodifusão nas moléculas da atmosfera. Nós quando estamos a falar do mar, estamos a ver retrodifusão ou espalhamento nas moléculas da água e nas partículas que a água tem. E é por isso que o mar também tem esta variabilidade de cores. Vamos não esquecer o Mar Vermelho, que agora é tão popular nas notícias da televisão. E nós temos muitas vezes a situação em que o mar nos aparece como verde e como azul, mas na verdade, o que nós estamos a ver são sempre partes, são sempre figuras que têm a ver com o espalhamento. Claro que se nós entramos dentro do mar a uma profundidade acima das dezenas de metros, ele é negro.

Escuro, mas é porque não há luz.

E não há luz.

Não há luz.

E, portanto, o mar em si é muito azul quando nós temos água muito rasa e muito transparente. E à medida que a água tem profundidades maiores, a clareza pode começar a perder-se. Os comprimentos de onda azuis penetram sempre mais nas águas oceânicas do que outros comprimentos de onda. E por isso é que nós temos a percepção de que o mar é azul.

Está bem, mas antes de irmos a isso, temos que regressar melhor ao mar. Há um outro fenômeno que ainda está na relação entre o sol, o céu e o mar. Nós ainda há pouco falámos de termos luz branca do sol durante o dia, depois temos uma luz amarelada e um sol vermelho ao fim do dia. Mas há uma coisa que, quem tem memória dos livros de Júlio Verne, quem se recorda também de um filme de Éric Rohmer, ambos têm o mesmo título, "O Raio Verde". A ideia é que há uns momentos mágicos onde nós estamos a olhar pra um pôr do sol e ele é capaz de emitir um raio verde. E houve até uma discussão durante muito tempo sobre se isso era real ou era uma ilusão de ótica. E nós hoje sabemos que é real.

Bem, como sabes, a história do livro de Júlio Verne é dizer que aqueles que são capazes de observar o raio verde ao pôr do sol encontram o amor da sua vida.

É quase como encontrar o pote d'ouro.

Exatamente. O que se passa é que o apreendimento do raio verde é real. O amor da sua vida depende de muitas coisas. E não parece ser um bom método pra encontrar o amor da sua vida. Mas é verdade que este é um dos fenômenos mais talvez até difíceis de observar, mas ele tem uma base física real.

Só pra teres ideia do que estamos a falar, porque nem toda mundo é obrigado a ter lido Júlio Verne. O raio verde será no momento em que o sol desaparece na linha do horizonte, haverá um momento de qualquer coisa verde. Eu estou a dizer qualquer coisa verde, porque eu devo dizer que tinha a ideia que era mesmo um raio, de repente saía assim uma espécie de flecha verde.

E pode haver um pequeno clarão.

E pode haver um pequeno clarão. Mas também pode ser, porque entretanto houve quem fotografasse, e nas fotografias é como se o sol tivesse um capacete verde.

Exatamente. E estamos a falar, foi fotografado em 1960, portanto já foi há bastante tempo. É um fenômeno físico real.

E no observatório do Vaticano.

Vaticano, exatamente, que é um sítio que Que penso não ter características especiais para ver o raio verde. As praias portuguesas com um bom horizonte serão claramente melhores, mas o que é preciso é que o dia, a atmosfera esteja muito límpida, que é o que acontece, por exemplo, depois de uma pequena chuva. Normalmente os aerosóis da atmosfera ficam em menor quantidade e a atmosfera fica muito transparente.

A ideia é que a atmosfera junto ao mar no verão é transparente, é uma ficção, porque ela está cheia de vapor d'água.

E de sal, e de cloreto de sódio.

E de cloreto de sódio. Eu tenho uma noção muito clara disso, porque do sítio onde vivo, só no inverno é que consigo ver as Berlengas distintamente. Ficam a 80 km de distância. No verão, quase nunca consigo ver, apesar de supostamente ter a atmosfera mais limpa do que no inverno.

E portanto, se pensarem bem, mais uma vez na capa do disco do Pink Floyd, nós para estarmos a ver o verde, temos que estar a ver aquela parte do espectro, desculpem o nome, mas é o nome real, que é verde, que está encostado ao azul, mas para o lado das menores frequências. E isso acontece geometricamente numa altura temporal muito pequena, porque como é evidente, a maior parte do espalhamento que o sol faz à atmosfera é azul. Portanto, já temos que não estar a ver o azul, se está fora da nossa linha do horizonte. Não estamos ainda a ver o fim do pôr do sol, mas há ali um instante em que é muito possível nós termos a capacidade de ver o verde quase diretamente. E esse raio verde é uma questão muito procurada, essencialmente por motivos românticos, mas por uns motivos ou por outros, é um fenômeno interessante da natureza e que mostra bem como a luz que nós recebemos e que interpretamos no nosso cérebro, na verdade, é simultaneamente um fenômeno físico e um fenômeno fisiológico.

Exatamente. Enfim, devo dizer que eu nunca consegui ver o raio verde, mas não sei se não estaria a procurá-lo bem. Agora, as próximas vezes que tentar ver o raio verde, vou tentar procurar um capachinho em vez de um raio. Mas dito isto, e voltando ao nosso oceano, estavas a dizer há pouco que além do azul, pode ter outras cores que são influenciadas pelo fundo, pelas partículas, saber se tem, por exemplo, muitas algas em suspensão, razão porventura o mar Vermelho é mar Vermelho.

Ou ter sedimentos.

Ou ter sedimentos. Temos aquela ideia de que nas praias mediterrânicas é turquesa. Mas aí há muito sal, é água bastante salgada. O que também pode ter influência ou não.

O facto de a água não ter muitas partículas não é necessariamente uma boa coisa. Eu sei que é muito bonito e do ponto de vista dos portais ilustrados de férias, imagina-se sempre as Caraíbas, que hoje em dia, coitadas, estão cheias de sargaço e não tão propriamente transparentes. Mas água transparente, por vezes, até pode ser pelas piores razões, do ponto de vista de poluição química.

Quer dizer, pelas razões que é uma água sem vida.

Sem vida. E portanto, nós quando queremos água com vida, que é o que queremos no oceano, não quer dizer que o azul seja exatamente, não é o azul transparente, seja o que nós procuramos, porque o azul é sempre porque é a radiação que mais penetra na água. Agora, o sal é outra questão. A água do mar é salgada. E eu sei que há muita gente que, porque eu fiz essa pergunta ainda há pouco tempo, quando estive numa visita a um país africano, sobre por que o mar é salgado. Isto era um país costeiro, numa zona costeira, mais exatamente na cidade de Lagos.

Lagos da Nigéria.

Lagos da Nigéria, mas Lagos é o nome português, que foi posto por um português. Não sei se tinha nenhuma relação com a cidade de Lagos, no Algarve.

Era possível que tivesse.

Mas era possível que tivesse, mas ela tem lagos. Não é por isso que são lagos, são braços de mar, mas são interpretados como lagos. E na verdade, por que a água do mar é salgada? E a água do mar é salgada por uma razão muito simples de explicar. Na verdade, o ciclo da água faz com que a água evapore do oceano, é transportada para a atmosfera e em menos de uma semana precipita de novo. E ao precipitar de novo, ela vai, como já vimos aqui num programa anterior, vai escorrer uma boa parte nas zonas continentais, outra parte infiltra-se, e quando volta ao oceano, ela está carregada de sais. Está carregada de sais que têm a ver com a erosão das massas continentais. Quando ela evapora outra vez, a água evapora, mas os sais não. E, portanto, os sais vão se acumulando cada vez mais no oceano e o oceano fica salgado. Mas nem todo o oceano tem o mesmo nível de salinidade. Por exemplo, o oceano Pacífico é menos salgado que o oceano Atlântico.

Talvez porque seja maior?

Seja maior, tenha mais precipitação, eventualmente. O Mediterrâneo é muito mais salgado que o Atlântico.

Mas aí o Mediterrâneo, porventura, é uma outra história, porque o Mediterrâneo já esteve seco. E portanto, quando esteve seco, tinha um fundo de sal com centenas de metros de espessura. E agora quando voltou a encher Enfim, é uma história que talvez um dia possamos contar aqui. Quando voltou a encher, uma parte desse sal pode ter sido dissolvido. Mas independentemente disso, é um mar fechado.

É um mar fechado, o balanço hidrico.

É um mar fechado, portanto, muito daquilo vem de escoamentos.

E há poucos rios grandes que desaguam no Mediterrâneo. Há poucos rios importantes.

Há o Nilo, apesar de tudo, o mais comprido, mas não tem muita água. Comparativamente com o Congo, com o Amazonas.

Exatamente. Não tem a ver com o Congo, com o Níger ou com o Amazonas. E a precipitação também é mais variável. Estamos a falar da zona do Mediterrâneo, que a precipitação é variável e a temperatura é elevada. Portanto, a água do Mediterrâneo é uma água mais salgada que a água do Atlântico, e devo dizer que do ponto de vista oceanográfico, o fluxo, a lente da água mediterrânica é afetada quase até os Açores. Porque a mistura também é lenta, ao contrário do que nós temos sempre tendência a imaginar, não só o ar frio se mistura mal com o ar quente, como a água muito salgada se mistura mal com a água menos salgada. É uma massa d'água que é praticamente independente. Do ponto de vista químico, os dois íons que estão mais presentes no oceano como resultado desse processo de erosão é o íon cloro e o íon sódio. Por isso é que o cloreto de sódio, que como sabem, é o sal das cozinhas, como muitas vezes se diz, é o essencial componente iônico que está presente na água do mar. E claro que nas zonas em que a precipitação é maior, como a zona do Equador, a zona intertropical, a água tem menos densidade na zona em que domina essencialmente a evaporação, à medida que a massa d'água se propaga para norte, como vimos quando discutimos o AMOC, vai havendo evaporação e vai aumentando a salinidade. Quando a salinidade aumenta muito, a temperatura baixa, afunda, e nós temos a corrente profunda do oceano.

E quando chegamos muito ao norte, há menos evaporação, provavelmente aí também temos água menos doce.

Claro, e ela afunda, afunda perto dos polos. Existe uma outra fonte de sais e de minerais na água do mar, que é a interação com a litosfera.

A litosfera é o que está por baixo, aquilo onde vêm os vulcões.

É aquilo onde vêm os vulcões. O que se passa é que nós temos sempre uma tendência de pensar que o fundo do mar é intransponível pela água, quando, na verdade, ela é quase um passador. As rochas têm muitos interstícios, têm muitas regiões que podem ser utilizadas pela água pra circular. Por isso é que nós temos aquíferos. Temos aquíferos, não é porque haja nenhum rio subterrâneo, é porque as rochas têm uma elevada permeabilidade. O mesmo acontece no oceano. E existe uma região do oceano, que é as cristas médias, onde o fundo do oceano se forma.

É o sítio onde está a ser formado, neste caso, o fundo do oceano, mas é, de alguma forma, a nova crosta terrestre, que vai, por exemplo, abrindo o caso concreto do Atlântico, a Europa e a África estão a afastar-se da América, porque há uma crista central onde está a nascer terra, digamos assim.

Eu pensei que era só por causa da crise do Irão, mas aparentemente a geofísica também assegura cerca de 2 cm de afastamento entre a Europa e a América. E aliás, nós que somos portugueses, sabemos que temos os Açores, em que temos duas ilhas que estão do lado americano e as outras todas do lado euro-asiático, talvez um pouco africana, até.

Flores e Corvo estão cada vez mais distantes de Santa Maria e São Miguel.

Exatamente, cerca de 2 cm por ano.

E ali no meio, de vez em quando, há vulcões, não é?

Ali no meio há vulcões, há muita circulação d'água, há até regiões que podem ter circulação d'água a temperaturas muito elevadas e com libertação de elementos químicos, em particular, que produzem mineralizações, que têm vários tipos de minerais, alguns deles muito importantes do ponto de vista econômico. Aliás, devo dizer assim, penso que todos nós, ou pelo menos muitas pessoas, terão ouvido falar das minas de Nevescovo, como uma das mais importantes minas portuguesas, que são na chamada faixa piritosa do Vale do Tejo, e que durante alguns anos, nós ainda éramos um pouco mais novos do que somos agora, garantia uma parte significativa das exportações portuguesas.

Aliás, essa faixa começou com outras minas, já vem muito detrás dos romanos. Há umas que são, enfim, temos paisagísticas hoje em dia muito visitadas, São Domingos, perto de Mértola, mas essas eram quase à superfície. Nevescovo, não. Nevescovo era preciso ir buscar a pirita lá bastante abaixo.

A mais de dezenas de metros, e aparentemente há outros objetivos que estão a ser identificados neste momento. Pois é, essa região era um oceano. As pirites de Nevescovo tiveram a sua gênese exatamente na mesma situação que outras pirites estão a ter neste momento, a sul dos Açores e a norte dos Açores, nas fontes hidrotermais, perto das fontes hidrotermais, como precipitação exatamente de pirites, não muito longe da superfície, mas de formas altamente concentradas, e que um dia destes, mais 400 milhões de anos, menos 400 milhões de anos, poderão ser exploradas em terra. Agora, pra serem exploradas, tinham que ser exatamente no fundo do mar. Estamos a falar de uma coisa que estará De 2 mil e qualquer coisa a 3 mil metros de profundidade. Estamos a falar de regiões que são muito produtivas do ponto de vista biológico, que têm faunas exóticas e têm plantas exóticas.

Temos aquelas regiões onde há uma vida que não depende do sol.

Uma vida que não depende do sol.

São os únicos sítios do mundo, creio eu, em que a fonte de energia que alimenta a vida não é o sol.

Não é o sol, e o ciclo da clorofila normalmente é importante à superfície. Mas temos ainda outra coisa, são zonas que são muito procuradas pela investigação biotecnológica, porque têm a capacidade de possuir princípios ativos que são capazes de ser reativos a temperaturas muito elevadas. Tipicamente, a temperatura que tu podes medir acima de uma fonte hidrotermal é de algumas centenas de graus Celsius, tipo 350, 400 graus. Se nós somos capazes de ter princípios ativos capazes de operar a essas temperaturas, então nós temos a capacidade de, em Terra, ter elementos químicos que são muito relevantes pra biotecnologia. E é por isso que eles são tão procurados do ponto de vista da microbiologia e da química das fontes hidrotermais. Portugal tem algumas nas suas plataformas estendidas. A mais conhecida, porque foi a primeira que foi observada, é conhecida pelo nome de Lucky Strike, apenas porque foi descoberta por acaso.

De?

Lucky Strike, como a marca de tabacos. Exatamente porque foi descoberta por acaso, por um colega americano, que fez uma dragagem e de repente veio-lhe uma chaminé hidrotermal dentro da draga. Se bem que, claro, ele estava à procura de uma coisa parecida com aquilo, mas desde então até agora, já foi há umas décadas, têm sido feitos muitos cruzeiros de investigação. Eu tive a sorte de participar num deles, até no fundo do mar.

Então tu foste lá baixo?

Já fui lá baixo.

Não te aconteceu o que aconteceu àqueles milionários?

Não. As expedições científicas são muito mais cuidadosas do que essas, infelizmente para os participantes. Mas para dizer que existe uma riqueza que é ecológica e que é econômica, simultaneamente, e que tem levado um grande esforço científico pra compreensão, não só dos processos biológicos, como processos físicos, como processos químicos. E nestes processos, a estrutura química da água do mar também sofre alguma alteração, porque começa a ter dissolvido outro tipo de elementos, que não vêm propriamente dos continentes, vêm de dentro da Terra.

E também é sal? Também é cloreto de sódio?

Também podem ser sais.

Também podem ser sais. Não obrigatoriamente cloreto de sódio.

Não obrigatoriamente cloreto de sódio.

Bem, nós chegamos ao fim de mais um programa. Chegamos também ao fim desta primeira série de "O Resto é Ciência". Vamos ter agora que interromper por razões várias durante algumas semanas. Esperemos que poucas, não sabemos quantas, talvez uma, duas, três, e estaremos de regresso muito em breve com mais programas e novos temas. Sempre consciência e na medida do possível, sempre a falar de fenômenos que nos estão a inquietar. Neste caso, está nos a inquietar porque está a demorar, que é a primavera. Hoje falámos de céu azul, mar azul e também um pouco de sal. O sal que durante tanto tempo chegou a ser a moeda da humanidade. Miguel, até à próxima.

Até à próxima.