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E o resto é história.

É a terra a fumar.

Do incêndio em Poiava, ainda na zona de Chiados. Falo por gosto. É que eu morro. Morro de amor. Quer transformar este país numa ditadura.

Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a este episódio 301 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Se tivéssemos de escolher a figura que ameaçou de forma mais séria o poder de António de Oliveira Salazar, ao longo dos 36 anos em que ele foi presidente do Conselho de Ministros, parece-me mais ou menos consensual que essa figura seria o general Humberto Delgado, o grande protagonista das eleições presidenciais de 1958. E há dois bons argumentos para justificar essa escolha. Em primeiro lugar, depois daquelas eleições, nunca mais houve eleições presidenciais diretas em Portugal durante o Estado Novo, acabou ali. O presidente da República passou a ser escolhido pela Assembleia Nacional. E em segundo lugar, numa ditadura repressiva, mas onde não abundam os assassinatos a sangue frio, Humberto Delgado e a sua secretária e companheira, Arajatir Campos, foram executados por uma brigada da PIDE, liderada pelo inspetor Rosa Casaco, ao pé de Badajoz, junto à fronteira espanhola, no dia 13 de fevereiro de 1965. Os seus corpos, contudo, só seriam descobertos 70 dias depois, a 24 de abril de 1965, por dois rapazes espanhóis que andavam por ali à caça. E faz agora mais ou menos 60 anos. E eu tenho três perguntas para ti, Rui, a propósito deste caso. Em primeiro lugar, por que o Estado Novo decidiu assassinar Humberto Delgado? Em segundo, este assassinato é um caso único durante a ditadura ou houve outras ocasiões em que tenha sido ordenada a execução, em vez da prisão, de opositores do regime? E finalmente, em terceiro lugar, é possível saber hoje qual o grau de envolvimento de Salazar na morte de Delgado? Sabemos com certeza que foi ele quem deu essa ordem?

Respondo já as perguntas.

Vai já despachar as minhas perguntas? Boa.

Primeiro, não é possível saber com certeza o envolvimento de Salazar. Podemos especular sobre isso, mas não temos-

Não há documentação

...não temos a certeza absoluta. Bem, testemunhos há, só que contam histórias-

Que lhes interessa

...que às vezes podem ser duvidosas. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto, a operação contra o general Delgado não tem paralelo na PIDE, pelo menos em relação a dirigentes da oposição portuguesa. Não penso que haja um paralelo, algo de semelhante. E finalmente, sim, a ditadura tinha razões para pelo menos desejar que Delgado desaparecesse. Sobre este acho que podemos ter mais alguma certeza, ou pelo menos avançá-la com maior confiança, digamos assim. A ideia de que sim, a ditadura tinha razões para desejar que Delgado saísse de cena. E comecemos então por essas razões.

Ok.

Na primavera de 1958, o general Humberto Delgado tinha protagonizado uma campanha eleitoral nunca antes vista em Portugal sob a ditadura. Ele era um militar, era relativamente jovem, 52 anos em 1958. Era um antigo colaborador de Salazar e, portanto, em 1958 ele aparece, e este é o impacto que ele tem, não como um candidato da velha oposição republicana ou de esquerda, mas como um candidato da mudança. Isto é, mesmo alguém que dentro do Estado Novo é capaz de corresponder ao desejo das coisas mudarem, de muita gente que já estava um pouco cansada das restrições políticas e financeiras da ditadura salazarista. Ele faz uma campanha americana, como se disse na altura, com muitos contactos de rua, grandes cenas de multidão. Ele não tem ilusões sobre o sistema eleitoral e sobre a possibilidade de ganhar as eleições. Mesmo assim, o regime teve de lhe reconhecer 23,5% dos votos, quer dizer, quase 1/4 dos votos, que com aquele eleitorado restrito e com a impossibilidade do candidatos que não fossem do regime controlarem a votação, é uma votação impressionante. Um em cada quatro eleitores teria escolhido o general Delgado, mas não era por aí que ele estava a pensar mudar as coisas. Ele estava, sobretudo, interessado em criar uma situação de agitação popular que lhe permitisse convencer outros militares a afastar Salazar. E a possibilidade que ele achava que havia de convencer outros militares tinha a ver com a divisão nas Forças Armadas, provocada pelo desentendimento entre o presidente da República, o general, depois marechal, Carveiro Lopes, e o ministro da Defesa, Santos Costa. Eles tinham se desentendido em 56, 57, 58. Tinha sido a razão pela qual Carveiro Lopes não foi candidato outra vez à presidência da República. Delgado quer aproveitar esse desentendimento. Há muitos militares zangados com a maneira como Craveiro Lopes tinha sido tratado e poderiam estar, se Delgado conseguisse criar aquele ambiente também de contestação nas ruas, disponíveis para avançar para aquilo que era um golpe militar.

Portanto, o Estado Novo assusta-se a sério com Humberto Delgado.

Sim, e com a situação. O Estado Novo avança para as eleições de 58, a elite está dividida, há zangas mesmo muito sérias, e sabe-se que Delgado quer aproveitar isso. O regime está dividido como talvez não tivesse estado antes. Depois volta a estar dividido também, mas está mesmo dividido. Aquilo quebrou-se, aqueles que estavam à volta de Salazar tinham-se dividido.

E Humberto Delgado perde as eleições, mas continua a aparar como uma ameaça. É isso que estás a dizer?

Não, ele nunca esteve à espera de ganhar as eleições. Ele depois das eleições continua convencido que pode provocar esse golpe e volta a tentar, junto dos seus contactos, é um general, tentar convencê-los, até a dizer: "Vejam o que é que aconteceu nestas eleições, mais uma razão para avançarmos para o golpe."

E o que é que faz o regime, então?

O regime tentou isolar, tentou cercar. Uma das coisas que ele faz é conseguir levá-lo a pedir asilo político na embaixada do Brasil em janeiro de 1959, cerca de seis meses depois das eleições. Nessa iniciativa de Delgado, há, por um lado, o receio que o próprio Delgado tem do que é que lhe podem fazer, prendê-lo ou outra coisa qualquer, mas também há, provavelmente, já o papel de agentes duplos que estão junto dele e que o convencem a exilar-se. E o exílio, nesta altura, no princípio de 1959, era a primeira forma de o regime se ver livre dele, isto é, pô-lo fora de Portugal. E neste caso, até por vontade dele.

Quando tu falas em agentes duplos, portanto, alegados amigos de Humberto Delgado, mas que estavam ao serviço do Estado Novo.

Que estão ao serviço, são pagos pela polícia.

E que podem criar até falsas ameaças para o levar a ir embora.

Sim, e convencer ele quando dizem: "Não, o senhor tem de fugir, etc." Para os salazaristas, dissidentes do regime, como era o Humberto Delgado, ou como era o capitão Henrique Galvão, de quem falámos aqui a propósito do assalto ao Santa Maria, são inimigos muito mais perigosos, muito mais perturbadores, muito mais desestabilizadores do que aqueles que eram os oposicionistas do costume. Isto é, os velhos advogados republicanos que vinham da República de 1910, os advogados da baixa de Lisboa, que faziam abaixo-assinados a protestar contra o regime, que eram sempre os mesmos e sempre a fazer as mesmas coisas, havia ali uma rotina, ou mesmo os funcionários clandestinos do Partido Comunista e os militantes do Partido Comunista, que também andavam sempre a fazer mais ou menos a mesma coisa, isto é, organizarem coisas, distribuir avanes, etc. A ideia do Partido Comunista era organizar um dia, um levantamento nacional, mas isso seria dali a dezenas ou centenas de anos.

Humberto Delgado e Henrique Galvão eram mais imprevisíveis.

Eles tinham duas coisas. Por um lado, tinham contactos dentro da ditadura que obviamente os outros oposicionistas não tinham, porque tinham estado dentro da ditadura, eram amigos de gente que ainda continuava ao lado de Salazar e, por outro lado, apostavam, tinham uma estratégia diferente. Não eram estas rotinas, era golpes de surpresa, golpes espetaculares. Um exemplo desses vai ser o sequestro do Paquete Santa Maria em 22 de janeiro de 1961, que tem um enorme impacto internacional, em que Delgado aparece ao lado de Henrique Galvão. Outra tentativa é a sublevação armada a partir do quartel de Beja, em janeiro de 1962, também já falámos aqui.

Já agora, deixamos estar, para quem quiser ir à procura. Eu estive nos nossos arquivos e nós falámos da Revolta de Beja no episódio 130, mas já foi a 5 de janeiro de 2022. E falámos do assalto à Santa Maria no episódio 81, um ano antes, a 27 de janeiro de 2021. Isto dá uma certa nostalgia e mostra que já fomos mais novos. Já fomos mais novos. Mas quem quiser procurar, continua.

Ainda continuamos jovens e cheios de anos. Mas a propósito do chamado Assalto ao Quartel de Beja, Humberto Delgado entrou em Portugal nessa altura, clandestinamente, disfarçado, e depois saiu e publicou na imprensa internacional as fotografias de quando tinha estado em Portugal. Portanto, uma espécie de provocação, uma provocação à polícia política, quer dizer, eu consegui entrar, eu estive aí para fazer uma revolução e, obviamente, a ideia que se deixava era: e posso entrar outra vez e fazer a mesma coisa. E isto é numa altura em que a ditadura salazarista, que durante muito tempo não tinha sido propriamente um grande alvo de atenções internacionais, a partir do começo da guerra em Angola, em 1961 De repente está no interesse dos leitores de jornais em todo o mundo. Isto é, de repente ouvem falar de Salazar, ditadura portuguesa e Humberto Delgado. O leitor de jornais mais atento está agora a par do regime e Humberto Delgado, internacionalmente, vai fornecendo motivos para essa atenção. Não é nada conveniente a um regime que até então tinha estado discreto, tinha beneficiado uma certa discrição. As ações de Delgado incomodam imenso a ditadura de uma maneira que, repito, nem os advogados republicanos, nem os militantes do PCP incomodavam. É verdade que contra isto às vezes diz-se: "Mas em 1963, 64, ele está doente, até é operado na Checoslováquia, é uma pessoa de alguma maneira diminuída fisicamente."

Dizes Humberto Delgado?

Humberto Delgado.

Operado a uma hérnia.

Sim, é verdade, ele tinha estado doente com uma hérnia, tinha sido de facto operado na Checoslováquia, mas em 64 já está cheio de ideias, está muito ativo e a desafiar várias pessoas para um golpe. Ele continua a ser um fator de desestabilização em 1964. Sim, a ditadura tem razões, tem motivos para o neutralizar. Agora, como? Neutralizar como? Prendê-lo. Mas prendê-lo seria-- Humberto Delgado já é muito conhecido. Se o prendessem, seria torná-lo um foco de campanhas internacionais para a sua libertação, isto é, a partir do momento em que se soubesse que ele estava preso em Portugal. Iria haver campanhas, a atenção ainda maior, especulação sobre o que lhe estava a ser feito na prisão, etc. De facto, fazê-lo desaparecer era a opção mais segura. E várias ditaduras e regimes autoritários do mundo tinham feito isso a opositores seus. As ditaduras comunistas do Leste da Europa tinham essa prática de assassinar opositores no estrangeiro. Por exemplo, o governo soviético tinha assassinado Trotsky a 21 de agosto de 1940, no México. Mas no mesmo ano em que Delgado é assassinado, o governo marroquino, por exemplo, é acusado de ter feito desaparecer o líder da oposição, exilado em França, Mehdi Ben Barka, em outubro de 1965, e também desaparece e a polícia marroquina é acusada de o ter feito desaparecer. Agora, quando em 1965, em abril, os cadáveres de Delgado e da sua companheira, a Ara Ajari Campos, são descobertos, há confusão, há dúvidas sobre a autoria do atentado. Isto é, o governo de Salazar nega qualquer responsabilidade, a linha oficial em Portugal passa a ser: Delgado foi morto pelos seus companheiros da oposição. E essa linha é aceite por muita gente.

Mas só quando é descoberto o corpo.

Antes não se sabia o que é que tinha acontecido.

Não se sabia se é que estava desaparecido.

Não, eu já vou explicar isso. É quando aparece o corpo que surgem algumas especulações sobre quem é que o teria assassinado, claro.

E as notícias são imediatas?

E as notícias imediatamente dizem que Delgado teria sido assassinado pelos seus companheiros. Isto é o que o regime diz. E como é que isto pode parecer plausível? Por duas razões. Primeiro, porque havia precedentes de oposicionistas mortos por outros oposicionistas, como o caso do capitão Almeida Santos, que colaborara numa tentativa de revolta militar em Lisboa em março de 1959, fora preso, fugira da prisão e depois aparecera morto na praia do Guincho em 3 de abril de 1960. Pensou-se inicialmente que teria sido a PIDE e afinal tinham sido mesmo os seus camaradas, os seus companheiros da fuga. A história foi contada por José Cardoso Pires em 1982, num romance, e depois adaptada ao cinema por José Fonseca e Costa, em 1987. Este era um caso conhecido. E também se sabia, pelo menos nos meios da oposição, que o PCP, nos anos 50 e 60, teria assassinado alguns militantes acusados de traição, como, por exemplo, Manuel Domingues em 1951. Teria havido assassinatos praticados pela oposição por razões políticas. Essa era uma primeira razão para dar credibilidade à versão da ditadura. A outra razão que dava essa credibilidade eram as divisões políticas entre Delgado e os outros dirigentes da oposição por volta de 1964. Essas divisões eram mais ou menos públicas. Qual era a sua razão? É fácil dizer que Delgado tinha um feitio difícil, que o fazia zangar-se com toda a gente, ou que os outros dirigentes oposicionistas tinham ciúmes de quem saíra há pouco tempo da ditadura e agora queria ser o líder da oposição. Mas a história parece-me que é um pouquinho mais complexa. Delgado, de facto, torna-se um centro de discórdia por uma outra razão também. É porque a oposição está muito dividida e Delgado quer uni-la. E ao tentar unir a oposição, ele próprio se torna o centro dessas questiúnculas entre os oposicionistas. Por exemplo, uma divisão importante na oposição em 64 é a cisão no PCP, provocada pela ruptura entre a União Soviética e a China comunista, e a China de Mao. Isso tinha levado uma parte de militantes do PCP a saírem do PCP e a seguirem uma chamada linha chinesa, é os chamados chineses. Ora bem, isso tinha sido uma das razões para, em 1963, o PCP se aproximar de Humberto Delgado, porque Humberto Delgado representa uma linha de que acha que a ditadura deve ser derrubada através de um golpe militar. Os chineses também querem derrubar a ditadura através da luta armada. O PCP não está muito convencido disso, mas ao aproximar-se de Delgado, tem ao seu lado um dos representantes da ideia da luta armada e portanto vai limitar a margem de manobra daqueles ex-militantes que também queriam a luta armada. O Álvaro Cunhal podia dizer: "Não, mas nós também estamos a preparar uma derrube da ditadura pela violência." Só que Delgado quer ao mesmo tempo manter-se em contacto Com todos os setores da oposição, incluindo os tais chineses, isto é, os comunistas que querem seguir a linha da China comunista. É uma das razões que leva à ruptura entre Delgado e o PCP. Isto é, o PCP exige que Delgado se afaste dos outros militantes comunistas, Delgado recusa-se e é uma das razões para a ruptura da chamada Frente Patriótica de Libertação Nacional, que era uma frente criada por Delgado e o PCP, que está sediada na Argélia, que é para onde Delgado se deslocou em 1963, depois de quatro anos no Brasil, em Argel, no norte de África. Essa divisão tinha sido feíssima, tinha dado origem a confrontos em Argel, onde os vários grupos da oposição estão sediados sob a proteção do ditador argelino Ben Bella. E quando, em 23 de fevereiro de 1965, um colaborador de Delgado em Marrocos, chamado Henrique Cerqueira, anunciou que o general tinha desaparecido, viu-se a divisão da oposição. Grupos exilados declaram à imprensa internacional que se tratava de uma farsa. Isto é, que Delgado estava escondido e que aquilo era um golpe publicitário. Aliás, vários amigos do general são presos em Argel, denunciados por outros grupos da oposição como estando a fazer parte dessa farsa. Isso é notório, isso torna-se notório para toda a gente. A acrimônia e até o rancor que há entre estes dirigentes da oposição.

Chegou ao fim o nosso tempo desta primeira parte. Voltamos com mais esta história do Humberto Delgado e da morte de Humberto Delgado já a seguir. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a este episódio de "O Resto é História". Nós estamos a falar da morte de Humberto Delgado e Rui, tu estavas a explicar que havia muita conspiração à volta do nome de Humberto Delgado, o que também tornava plausível a hipótese dele não ter sido assassinado pelo Estado Novo, mas por antigos cúmplices, colaboradores, gente que se desentendeu com ele.

Quando os cadáveres aparecem em Espanha, perto da fronteira portuguesa, em abril de 1965, muita gente já tinha constatado a acrimônia que se vivia na oposição, e vendo também em atenção os casos, por exemplo, do capitão Almeida Santos e outros, não afastou a possibilidade de Delgado ter tentado entrar em Portugal, como em 1961, ter se desentendido com os seus correligionários e estes terem o assassinado e escondido os corpos ao pé da fronteira para culpar depois a ditadura em Portugal. Aliás, esta é a versão da ditadura, é a versão que a ditadura faz passar nos jornais portugueses, na imprensa portuguesa, nos meses de maio, junho, no verão de 1965, a estas notícias e às vezes até reproduzindo declarações de líderes oposicionistas nos estrangeiros que se culpam uns aos outros pela morte de Humberto Delgado. Portanto, há a possibilidade do regime dizer: "Nós não tivemos nada a ver com isto, foram eles."

Mas para todos os efeitos, apareceram cadáveres, ainda por cima em Espanha. Imagino que tenham existido investigações judiciais em Espanha, em Portugal, pelo menos.

Depois do aparecimento dos cadáveres, vários oposicionistas, como por exemplo, Mário Soares, que na altura era um advogado em Lisboa e que se tornou advogado da viúva do general, simpatizantes estrangeiros da oposição portuguesa, como a Liga dos Direitos do Homem em França, iniciaram investigações por conta própria. Isto é, começaram a tentar perceber o que se tinha passado, o que o general tinha feito, por que tinha feito aquilo que fez, onde é que ele estava, etc. Além disso, há também processos judiciais. Primeiro em Espanha, porque os cadáveres tinham aparecido em Espanha, portanto há um juiz, o José Maria Crespo Márquez, que é nomeado para fazer o inquérito sobre o assassinato, e depois também em Itália. Em Itália por quê? Porque parecia que as ideias que tinham levado Delgado à Espanha em 1965, a organização tinha começado em Itália. Portanto, há também depois um procedimento judicial em Itália a partir de 1966, onde alguns oposicionistas-

Também por motivo de duvidar da idoneidade da investigação em Espanha?

Não. É porque há elementos em Itália que têm a ver com a ida de Delgado à Espanha. E além disso, há também investigações na Argélia, onde aliás, grupos hostis a Humberto Delgado se apossaram dos papéis do general e puderam examinar a sua correspondência. E o que tudo isto, isto é, as investigações dos oposicionistas, dos seus simpatizantes estrangeiros e as investigações judiciais em Espanha, que era em Itália, o que apuraram na segunda metade dos anos 60? Apuraram duas coisas. Primeiro, apuraram os movimentos, isto é, fixaram os movimentos. E os movimentos aqui são os primeiros movimentos de Humberto Delgado. Humberto Delgado entrou em Espanha a 11 de fevereiro de 1965, vindo de Marrocos com passaporte falso em nome de um cidadão brasileiro. Teria chegado a Badajoz a 12 de fevereiro, de onde escreveu vários postais a amigos a dizer que estava em Badajoz, e saiu do hotel no dia 13 de fevereiro e aí desaparece. Dia 13 de fevereiro de 1965. Estas investigações e estes processos judiciais apura, fixa isto, os movimentos do general. E depois fixa também, ou apura também, outros movimentos Parecem ter a ver com estes. No dia 13 de fevereiro de 1965, teriam passado a fronteira em Villanueva del Fresno, vindos de Portugal, dois automóveis com quatro indivíduos, que o chefe da polícia portuguesa na fronteira apresentou ao chefe da polícia espanhola, e disse que eles iam entrar em Espanha. E esses carros regressaram a Portugal na madrugada do dia 14. Portanto, entraram no dia 13, regressaram no dia 14 e foram apresentados, quando entraram, pelo chefe da polícia local na fronteira portuguesa, que era um agente da PIDE. A PIDE era também a Polícia Internacional e Defesa do Estado, era quem fazia as fronteiras. Foi apresentado ao chefe da polícia espanhol que os recomendou. Quem é que eles eram? Não se sabia, porque as matrículas eram falsas e os passaportes eram também falsos. Sabia-se os nomes deles, mas percebeu-se logo que eram nomes falsos. Sabia-se isso. Mas há aqui uma correlação com os movimentos do general Delgado. Segundo, soube-se também, e daí o processo em Itália, que segundo a correspondência, quem tinha incitado ou organizado ou levado Humberto Delgado a ir à Espanha e a Badajoz, tinha sido pessoas que estavam em Itália, nomeadamente um português chamado Mário de Carvalho, que se dizia ser um oposicionista e que teria dito ao general Delgado, segundo a correspondência, que havia uma conspiração militar em marcha em Portugal e que precisavam dele para liderar e que o encontro em Badajoz seria um encontro entre o general Delgado e estes dirigentes oficiais que estavam envolvidos na conspiração militar em Portugal para combinarem o que iriam fazer. E seria este Mário de Carvalho aquele que convenceu o general, aparentemente era ele que estaria em contacto com estes opositores em Portugal ou conspiradores militares em Portugal. Havia também, em relação a este Mário Carvalho, uma outra figura que dava pelo nome de Ernesto Castro e Sousa, que teria sido o mensageiro entre Mário de Carvalho e estes revoltosos conspiradores em Portugal. Duas coisas aqui que eram importantes. Primeiro, nenhum destes, nem Mário Carvalho, nem Ernesto Castro e Sousa, eram conhecidos da oposição portuguesa. Eles diziam ser da oposição. Então Ernesto Castro e Sousa era completamente desconhecido. Havia talvez alguns indícios de Mário Carvalho, mas Ernesto Castro e Sousa era completamente desconhecido. E depois havia outro dado: é que um dos portugueses que tinha entrado de automóvel em Espanha no dia 13, dava pelo nome de Ernesto Castro e Sousa. Tinha sido um dos nomes.

Mas os passaportes eram falsos.

Havia aqui uma pessoa que tinha este nome, que era um nome falso, mas que tinha estado em Itália e que tinha estado na fronteira. Isto é o que estas investigações apuram. Isto já era material suficiente para em junho de 1965, o juiz espanhol Crespo Márquez, ao falar com Mário Soares, lhe dizer que está convencido que se tinha tratado de uma operação da PIDE. Isto é, o juiz espanhol terá dito a Mário Soares que isto tinha sido uma operação da PIDE, mas que estava um pouquinho perplexo, dizia o juiz espanhol, pelo amadorismo de tudo aquilo. Eles tinham deixado marcas por todo lado. Aparentemente, diz Mário Soares, haveria até um boletim do Totobola português, no lugar do crime, onde haveria vestígios de sangue e de cartuchos de bala. Isso é a versão que Mário Soares conta no "Portugal Amordaçado", publicado em 1972 em francês. Agora, se Mário Soares, por exemplo, no "Portugal Amordaçado", obviamente ainda não sabe descrever como é que foi a operação, mas também ele próprio já não tem dúvidas nenhumas que é uma operação da PIDE. Apesar de tudo, muitas pessoas até 1974 continuam a ter dúvidas sobre a autoria do assassinato. E essas dúvidas continuam a ser alimentadas pelas divisões, pelos rancores entre os grupos da oposição que se acusam uns aos outros de serem agentes da PIDE.

Mas desculpe, até 74 não houve nenhum julgamento, não houve nada, alguma investigação?

Há investigações em Itália, há procedimentos judiciais em Portugal. Em Portugal, não, em Portugal não tem nada a ver com nada. Eles dizem que a posição oficial do regime é que não sabe o que aconteceu, não tem nada a ver com nada. E oferece para colaborar, até eles dizem: "Nós colaboramos com as instâncias internacionais, estamos abertos, somos os principais interessados em descobrir. Estamos muito interessados em descobrir." Mário Soares é interrogado na PIDE, em determinada altura, nos anos 60, pelo inspetor Pereira de Carvalho, que o interroga e diz: "O que o senhor sabe sobre o assassinato do general Humberto Delgado, porque achamos que o senhor, Mário Soares, esteve envolvido nesse crime." E Mário Soares diz: "Como é que pode suspeitar uma coisa dessas?" No interrogatório, a simulação é levada aos extremos. Não temos nada e suspeitamos de vocês todos que devem ter assassinado o general. Chegamos a 25 de abril de 1974. Em 25 de abril de 1974 abrem-se os arquivos da PIDE, mas abre-se também uma investigação, finalmente, em Portugal, porque um dos advogados que em 1965 tinha trabalhado com Mário Soares para zelar pelos interesses da família, apresenta uma queixa na Polícia Judiciária Em relação ao assassinato de Humberto Delgado e a Polícia Judiciária inicia uma investigação, aliás, em colaboração com a Comissão de Extinção da PIDE. Inicialmente, o inspetor da PIDE que está preso, Álvaro Pereira de Carvalho, que era um dos mais seniores, num primeiro interrogatório, aparentemente terá dito que não sabia de nada. Portanto, mantém a versão anterior dizendo: "Não faço ideia, não sei o que se passou, nada." Agora, os investigadores descobrem duas coisas importantes. Primeiro, descobrem os relatórios de um tal Oliveira, enviados de Itália para a PIDE. E esse Oliveira é alguém que está junto de Humberto Delgado e que organiza a viagem a Espanha em colaboração com a PIDE. Portanto, confirma-se que Humberto Delgado tinha caído numa cilada, aproveitando provavelmente até o facto de ele não conhecer bem o meio da oposição e, portanto, poderem-lhe ser apresentadas pessoas como sendo grandes oposicionistas e ele não ter uma história, não ter um conhecimento da oposição portuguesa que lhe permitisse dizer: "Mas eu nunca o vi na oposição. Claro, eu tinha estado até 1958 nos meios da ditadura, não conheço quem está na oposição." Mas, portanto, há aqui uma primeira confirmação de que tinha havido uma cilada. E a seguir, o que é que acontece? As novas autoridades, depois de 25 de abril de 1974, conseguem prender em Angola o chefe do posto da polícia, que em 1965 tinha apresentado os quatro portugueses, os quatro indivíduos que tinham entrado de carro em Espanha, ao chefe da polícia espanhola. E esse chefe do posto da polícia, que é preso em Angola, identifica imediatamente os quatro indivíduos. Eles perguntam quem é que eles eram e ele identifica que são quatro agentes da PIDE, Rosa Casaco, Agostinho Tienza, Ernesto Lopes Ramos, Casimiro Monteiro e além disso, o antigo chefe do posto da polícia diz também que este Ernesto Lopes Ramos era Ernesto Castro e Sousa, era o nome falso que ele usava. Portanto, de repente, estão ali os quatro.

Os quatro responsáveis.

Ora bem, Ernesto Lopes Ramos e Tienza estão presos. Aliás, Ernesto Lopes Ramos é preso, Agostinho Tienza já estava preso. E quando são interrogados, eles confessam. Confessam terem participado na operação e terem assistido ao assassinato de Humberto Delgado. E nesse momento, isto é, em que esses agentes confirmam isso, Álvaro Pereira de Carvalho, o inspetor da PIDE, é interrogado outra vez e ele próprio também agora admite. E o diretor da PIDE, que também estava preso, Silva Pais, também admite. E aliás, os dois confirmam que o tal Oliveira tinha sido essencial na cilada montada a Humberto Delgado e que esse Oliveira era Mário de Carvalho. Tal como a oposição já suspeitava nos anos 60. E mais, Rosa Casaco tinha fugido, estava em Espanha, mas em junho de 1974 oferece-se também para prestar um depoimento em Espanha aos investigadores portugueses e nesse depoimento também confirma a operação, diz que foi ele que comandou a operação e que tinha assistido ao assassinato do general Delgado.

A partir daí não há dúvidas do que se passou.

Em 1974, por confissão dos agentes, fica confirmado que tinha sido uma operação da PIDE. Mas persistem ainda muitas dúvidas. E, por exemplo, essas dúvidas vão permitir especulação, debates, discussões públicas muito grandes. Em 1976, por exemplo, há um livro que é um best-seller de um amigo do general, Henrique Cerqueira, que propõe a teoria que o general teria caído numa armadilha da PIDE, mas teria sido entregue à PIDE pelos restantes oposicionistas, isto é, que teriam levado o general a cair na cilada. Portanto, isso dá uma grande discussão. O livro, aliás, são dois volumes, tem uma venda enorme. Em 1976, 77, muita gente discute aquilo. Portanto, uma espécie de: sim, foi a PIDE, mas com a colaboração da restante oposição. Há outras teorias. Alguém que em Itália também está envolvido na trama para levar o general a Badajós, é um médico italiano, Ernesto Bisogno, que era um amigo de Mário de Carvalho, e a partir desse médico italiano também há quem imagine que o crime podia ter sido cometido por uma espécie de internacional fascista, depois com a colaboração de várias polícias secretas. Depois as teorias acastelam-se. Ora bem, o problema agora aqui é o da versão dos responsáveis e dos agentes da PIDE. Isto é, aquilo que eles contam. Eles, de repente, tornam-se as principais fontes sobre o crime e as versões que eles contam deixam muitas dúvidas. Por exemplo, Silva Pais, o diretor da PIDE, diz que discordou sempre da operação, isto é, que nunca esteve de acordo com aquela operação. Portanto, digamos, lava as mãos, diz: "Eu estive sempre contra isso." Aliás, Rosa Casaco também diz que não tinha entusiasmo nenhum, que achava que aquilo era uma coisa que não se devia ter feito, mas que acabaram por fazer. E negam duas coisas. Eles dizem que o objetivo da operação nunca tinha sido matar Delgado. Não tínhamos razões para isso, era prendê-lo, era esse o objetivo. E em relação ao Salazar, dizem que Salazar não tinha dado ordem Para nada e até provavelmente nem conhecia bem os pormenores da operação.

Da operação.

Portanto, é possível que Salazar não soubesse tudo? É, porque às vezes as polícias, em regimes ditatoriais, não só não precisam de instruções, mas também não dão a informação toda aos seus superiores. Não é preciso, e os seus superiores também agradecem não terem a informação toda. Não precisam e também não querem. Agora, é possível que Salazar não soubesse absolutamente nada? É muito improvável. Isto é, que a PIDE tomasse estas iniciativas sem dar conta a Salazar. Isto é, assumindo uma responsabilidade extraordinariamente grave perante Salazar.

Tendo em conta a lógica de funcionamento do Estado Novo, não me parece.

É muito improvável. E depois, claro, depois de acontecer, é muito pouco provável que Salazar não tivesse noção de que os agentes da PIDE tinham feito qualquer coisa que se tratava de encobrir. Portanto, a esse nível, ficaram estas dúvidas. Além disso, Rosa Casaca, Ernesto Lopes Ramos e Tiensa, que eram os agentes no local, constroem uma versão em que o assassinato aparece, no caso de Lopes Ramos e Tiensa, como um acidente resultando da luta entre o general Delgado e um dos outros agentes da PIDE presentes, que é Casimiro Monteiro. A ideia era prender Delgado, mas Delgado ofereceu resistência e Casimiro Monteiro envolveu-se em luta com ele e, segundo esta versão, teria havido disparos e teria morto a tiro. Aparentemente, também é a versão que o próprio Casimiro Monteiro terá contado ao seu filho, que foi ouvido numa reportagem depois da RTP em 1992. Portanto, há esta ideia do acidente. Rosa Casaca introduz uma nuance aqui. Rosa Casaca admite que tenha havido uma iniciativa de Casimiro Monteiro. Isto é, que não foi um acidente, mas Casimiro Monteiro imediatamente tratou de assassinar o general num ato inesperado para o resto da equipa. Isto é, o resto da equipa não estava à espera de Casimiro Monteiro, um dos quatro agentes da PIDE, ter tomado a iniciativa de assassinar o general. Curiosamente, Casimiro Monteiro, que está a ser acusado pelos outros agentes.

Ser o responsável.

É o que está fugido na África do Sul e nunca foi ouvido. É possível isto? É possível que se tivesse tratado apenas de um rapto e depois por acidente tivesse havido mortes? É, mas repito, trazer o general para Portugal, prendê-lo em Espanha e trazê-lo para Portugal com a secretária, era algo que iria trazer imensos problemas ao regime. Se era esse o objetivo da operação, então aquilo estava se tornando quase um disparate. É possível que nem todos os agentes soubessem o que se ia fazer? É, no sentido em que há várias fações na PIDE. Por exemplo, Álvaro Carvalho atribui tudo a um outro inspetor, Barbieri Cardoso, que também não é ouvido, também está fugido. É possível que houvesse várias frações na PIDE e que uma delas podia estar a atuar sem conhecimento das outras. Mas é muito improvável que alguém tivesse organizado um pequeno grupo de agentes para depois correr o risco de sujeitar esse grupo a uma surpresa no terreno. Portanto, há muita coisa que não se percebe. Isto é, por exemplo, também porque se o objetivo era assassinar, por que não foram usados outros meios para o assassinato? Por exemplo, recorrer a mercenários estrangeiros ou uma bomba. Por que os corpos foram deixados em Espanha? Portanto, isto tudo permite construir muitas teorias, mas temos de admitir uma coisa: é que estes casos, na vida real, nunca têm a coerência perfeita dos filmes e da ficção. Há muitas coisas contraditórias que podem ser usadas para construir teorias. Há imensos livros com várias explicações do que é que aconteceu, uns mais credíveis do que outros. É possível que o objetivo da operação tivesse sido apenas raptar o general e que, por acidente, tivesse havido mortes? É possível, mas repito, trazer o general para Portugal, na companhia da sua secretária, teria causado imensos problemas ao regime.

Pois, porque não era um, mas dois. Nós não temos falado da secretária, mas a secretária de Humberto Delgado, que algumas fontes dizem que seria também sua amante, era simplesmente a pessoa errada no local errado. A PIDE não tinha nada de especial contra ela, mas não a podia deixar viva como testemunha.

Não, é uma pessoa extraordinariamente corajosa, que quis acompanhar o general mesmo numa deslocação muito perigosa à Espanha. Está com ele, podia ter ficado no hotel, mas quis ir com ele até ao local.

Isso significa que também desconfiariam de alguma coisa? Ou seja, tinham a noção de que podia ser perigoso?

Eu creio que devia haver uma relação entre os dois Que faziam com que ela devia ter uma personalidade que a fazia querer estar na linha da frente. Portanto, tem essa disponibilidade. Os agentes da PIDE têm de contar com o general, têm de contar com ela. Imagina que raptam, trazem para Portugal. Eles sabiam que tinham sido capturados em Espanha, obviamente iriam dizer que tinham sido capturados em Espanha. Contra o general há até um julgamento em tribunal e uma condenação por causa do Santa Maria. Há matéria, mas contra a Arajari Campos não há nada, não há acusação nenhuma, portanto teria de ser libertada. Ela iria contar a história se fosse libertada. A ideia de raptarem, como disse, fazerem de Humberto Delgado, preso em Portugal, o motivo de grandes campanhas internacionais para a sua libertação. Se esse era o objetivo, de facto, era um objetivo extremamente duvidoso.

A secretária também poderá ter sido uma surpresa ali? Eles não estarem à espera que ela estivesse presente?

É provável, não sabemos. Não sabemos exatamente o que aconteceu. Sabemos que ela é assassinada e muito provavelmente estrangulada. Aliás, o próprio general, que todos os agentes da PIDE dizem que teria sido morto a tiro, há também a hipótese de não ter sido morto a tiro, isto é, de ter sido morto à pancada.

Não há certezas sobre isso?

Também aparentemente não. Ou pelo menos há várias teorias sobre isso e imagino que não haja certezas em termos de exame de autópsia para averiguar. Repara que os cadáveres são descobertos dois meses depois, muito degradados mesmo. Além de terem sido regados com cal, de terem sido desenterrados por animais que teriam danificado os cadáveres. Não é provavelmente fácil tirar todas as conclusões e muito provavelmente também em meados dos anos 60 não há os recursos que nós hoje por vezes vemos naquelas séries. É possível que tivesse sido uma espécie de um acidente numa operação de rapto, mas repito, eu acho isso um bocadinho duvidoso. Parece-me um bocadinho duvidoso. Agora, é possível que tendo a operação o objetivo do assassinato, é possível que nem todos os agentes soubessem que isso ia acontecer? É possível, no sentido em que sabemos que há várias fações na PIDE, dos inspetores, por exemplo, Álvaro Carvalho atribui tudo a Barabieri Cardoso, mas mais uma vez é um inspetor que não está preso, que fugiu, mas ele diz que foi ideia de Barabieri Cardoso. Sistematicamente os culpados são sempre alguém, isto é um clássico nestas situações.

Que não está na sala.

Os que não estão é que são os culpados. Mas há várias fações na PIDE, é possível que uma delas pudesse estar a atuar sem o conhecimento das outras. É possível isso, mas também me parece um bocadinho improvável que alguém organizasse um pequeno grupo, quatro homens, para depois correr o risco de sujeitar esse grupo a uma surpresa, ao choque de um deles tomar uma iniciativa que os outros três não faziam ideia absolutamente nenhuma que iria acontecer. É verdade que também se pode dizer que isso explicaria talvez o atabalhoamento e a trapalhada que se seguiu depois. Mas enfim, creio que também parece um bocadinho improvável. E é óbvio que sabemos também que depois do que aconteceu em Badajoz, a equipa regressa e ninguém aparentemente é sancionado. Todos eles continuam as suas carreiras. Casimiro Monteiro vai depois para África. Há quem tenha saído da PIDE, como Ernesto Lopes Ramos, que passa a ser um advogado. Mas aparentemente ninguém é sancionado.

Também não havia nenhuma conclusão a essa altura.

E não havia interesse absolutamente nenhum da própria PIDE em sancionar, que era uma forma até de confessar o crime. Há muita coisa que nós ainda continuamos a não ter certezas. Por exemplo, se o objetivo era o assassinato, por que não foram usados outros meios para assassinar o General Delgado? Por exemplo, contratar mercenários estrangeiros, que poderiam matar no estrangeiro, longe de Portugal, ou usar outros recursos, como uma bomba, que depois mais tarde vai ser usada, por exemplo, no assassinato do líder da FRELIMO, Eduardo Mondlane. Por que não foi usado contra Delgado? Por que os corpos foram deixados em Espanha? Por que os corpos não foram trazidos para Portugal e feitos desaparecer completamente? Em relação a tudo isto, nós podemos usar para construir teorias, para construir interpretações. Agora, também temos que ter em atenção que estes casos, na realidade, nunca têm a coerência, a perfeição que têm nos filmes. Isto é feito por pessoas que às vezes não atuam da melhor maneira, cometem erros, ficam nervosos, que esquecem-se de fazer isto ou fazer aquilo. E depois é sempre aquele caso que é quando nós olhamos para tudo aquilo que aconteceu com muita atenção, de repente começamos sempre a notar coisas estranhas e a permitir-nos construir interpretações diferentes sobre o que aconteceu. É um caso destes. Há vários livros sobre o caso do General Humberto Delgado, publicados em português depois dos anos 70 Com várias interpretações. Aquilo que sabemos de certeza é uma operação da PIDE. Sabemos que o general foi assassinado nesta operação, pelo menos por um agente da PIDE. Os outros dizem que foi Casimiro Monteiro, muito provavelmente. Portanto, sabemos que terá sido assassinado por um agente da PIDE. Agora, o objetivo era assassinar? Quem é que teria dado ordens para isso? Por que se procedeu desta maneira? Bem, aí há muitas interpretações, portanto, podemos interpretar. Há vários factos a que uns autores dão importância e outros não dão importância. Nós não vamos acrescentar aqui, no "O Resto é História", essas interpretações. Aquilo que eu aqui tentei fazer foi, sobretudo, dar às pessoas a ideia de como é que podia haver dúvidas, como é que houve dúvidas na segunda metade da década de 60 em relação à PIDE ser ou não responsável pelo assassinato do general Delgado. E depois de 1974, quando ficou confirmado que tinha sido uma operação da PIDE, como é que continuou a haver dúvidas em discussão sobre o que se tinha passado? Portanto, não tentei resolver os mistérios ou as dúvidas que há em relação a este caso. Tentei, sobretudo, dar aos ouvintes uma ideia de por que há dúvidas e por que há várias interpretações. Pensei que era o objetivo principal.

Muito bem. E assim termina, com estas dúvidas e algumas certezas, esta edição de "O Resto é História". Voltamos para a semana.