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As armas e os barcos. E o resto é história. É apenas fumaça. Do incêndio de Coimbra, ainda na zona do Chiado. E faz um filho, fá-lo por gosto. É de pai, filho por meio, troco de corpo, fogo de amor.
Quer transformar este país numa ditadura. Não é mesmo? Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos ao episódio 215 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Há 60 anos, no dia 28 de agosto de 1963, Martin Luther King proferiu em Washington aquele que pode ser considerado, sem qualquer exagero, um dos mais famosos discursos da história, o magnífico "I Have a Dream".
"I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin, but by the content of their character. I have a dream today."
"Tenho o sonho de que um dia esta nação erguer-se-á e estará à altura do verdadeiro significado do seu credo, de que todos os homens são criados iguais. Tenho o sonho de que um dia os filhos de antigos escravos possam sentar-se à mesa da fraternidade com os filhos de antigos donos de escravos. Tenho o sonho de que os meus quatro filhos irão um dia viver numa nação em que não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caráter." Martin Luther King era, nesta altura, um pastor batista de apenas 34 anos e "I Have a Dream" é tanto um discurso como é um sermão oferecido a 200 mil pessoas nos degraus do Lincoln Memorial, 100 anos depois do próprio Abraham Lincoln ter abolido a escravatura nos Estados Unidos. O "I Have a Dream" continua, em parte, a ser um sonho, dado os problemas raciais da sociedade americana, mas a verdade é que as leis de segregação racial no sul dos Estados Unidos acabariam mesmo por cair, muito graças a Luther King, que no ano seguinte receberia o Prêmio Nobel da Paz, e a grandes momentos de mobilização cívica como este, no coração de Washington. Rui, quem foi Martin Luther King e qual o impacto deste espantoso discurso, "I Have a Dream", que eu aconselho, nós aconselhamos todas as pessoas que puderem a verem no YouTube ou ouvirem na totalidade.
Está no YouTube, são cerca de 15 minutos. Vale mesmo a pena ouvir, não só pela eloquência e pela inspiração de Martin Luther King, mas pela reação da multidão, essas 200 mil pessoas que ele está a galvanizar e a transformar. É um momento espantoso, aquilo não é apenas um discurso para ser lido, é um discurso mesmo para ser ouvido na gravação da época, porque é mesmo um acontecimento. É muito difícil ouvir aquele discurso e não se sentir tocado por aquilo que aquele pastor batista está a fazer ali acontecer. Ele não está apenas a partilhar o sonho dele com aquelas 200 mil pessoas que o estão a ouvir e a ver, mas está a fazê-los ver isso. É, de facto, o momento de um profeta. Conhecemos na história dos profetas, das religiões, devem ter sido momentos como aqueles que construíram as religiões, aquela força da palavra, da voz, da eloquência, da retórica, das alusões bíblicas com que o discurso está feito, e aquele crescendo, a maneira como ele vai crescer e como a partir de determinado momento a multidão começa a repetir aquelas frases que ele usa para marcar o discurso. "Now is the time, now is the time." Vê-se que está ali a acontecer qualquer coisa. Portanto, sim, independentemente da nossa maior ou menor capacidade de descrever o discurso, não fiquem por aquilo que nós dissermos sobre o discurso. Vão à internet, procurem, passem aqueles 15 minutos a ver. É, de facto, um grande momento, é espantoso. Não há maneira de descrever aquilo.
Sim, sem dúvida. E 34 anos.
Essa é a coisa mais importante. Se me dissessem assim: "Vamos dizer três ou quatro coisas importantes sobre este homem naquele momento", essa era a primeira coisa que eu diria: 34 anos. Nós associamos estas coisas, estes momentos de transfiguração, de transe coletivo, a profetas que nos aparecem sempre como homens idosos, com a autoridade dos anos, do conhecimento, etc. Reparem, outra figura parecida com a de Martin Luther King no século XX: Nelson Mandela. Nelson Mandela, quando aparece em público, libertado da prisão do regime do apartheid, o manteve durante uma grande parte da sua vida, mas quando ele aparece em público na década de 90, na África do Sul, a pôr termo ao regime racista, é este homem idoso, este estadista sénior. Martin Luther King é um jovem, tem 34 anos, em 1963. Quando ele se envolve na campanha pelos direitos civis, em meados da década de 1950, ainda tem 20 e tal anos, tem 26, 27 anos. É um homem relativamente novo.
Ou seja, as pessoas são transportadas pela sua eloquência. Não é pela idade, não é pelo estatuto.
Pela sua eloquência. Não é também a figura de Nelson Mandela, este homem muito alto, muito grande Martin Luther King é baixinho, é relativamente pequenino. É a voz, é aquela inspiração, aquilo que já desde o tempo das escolas eles o tinham identificado como um orador incrível. E ele, de facto, tem esta força. Se a palavra carisma serve para alguma coisa, serve para descrever fenômenos como o de Martin Luther King, porque não há outra maneira de explicar isso. E depois a outra coisa que é para dizer em relação a Martin Luther King e para compreender este discurso em Washington em agosto de 1963, é que ele não é apenas um ativista político, isto é, alguém que esteja a fazer campanha pelos direitos civis dos afro-americanos nos Estados Unidos. Ele é um sacerdote, é um pastor, é um doutor em teologia. Aliás, ele é apresentado no discurso como Reverend Doctor Martin Luther King, o Reverendo Doutor Martin Luther King vai falar. Ele é doutor em teologia, é um pastor da Igreja Batista do Sul dos Estados Unidos, e mais do que isso, ele é filho e neto de pastores batistas. numa região, o sul dos Estados Unidos, de onde ele vem, onde há esta rede de igrejas batistas afro-americanas, que são igrejas que são formadas e que crescem, sobretudo, em meados do século XIX, um século antes de Martin Luther King estar a falar, durante aquilo que se chama de Great Awakening, que é o Grande Despertar. O que é o Grande Despertar no século XIX nos Estados Unidos? É uma espécie de um grande movimento da religiosidade protestante que há nos Estados Unidos.
Nunca falámos disso aqui, talvez uma grande sombrinha.
Muito daquilo que é a religiosidade atual nos Estados Unidos vem deste momento, em meados do século XIX, este Grande Despertar. É um momento de missionação, de conversão em massa, de formação de igrejas.
Muitos afro-americanos também.
E que abarca muitos afro-americanos que nestas alturas, por volta de 1840, 1850, constituem as suas próprias igrejas, separadas dos brancos. Mas este Grande Despertar, que afeta também os norte-americanos brancos, é muito importante para compreender a história dos Estados Unidos no século XX. Isto é muito daquilo que acontece nos Estados Unidos a seguir. Como, por exemplo, coisas como na década de 20, ainda também não falámos disso, um dia também podemos falar, a famosa lei seca, a proibição do consumo de álcool, vem deste Grande Despertar. É que este movimento quer mesmo transformar a sociedade americana, este movimento religioso das igrejas protestantes. E um dos resultados deste grande movimento é o fim do consumo de álcool como um meio de modificar os comportamentos das pessoas.
E antes disso, a abolição da escravatura.
A própria abolição da escravatura vem deste grande movimento e depois a luta pelos direitos cívicos dos negros do Sul dos Estados Unidos. Reparem, estes movimentos propriamente políticos ou sociais têm como força por detrás desses movimentos esta dimensão religiosa, quase messiânica, isto é, o fim da escravatura, os direitos civis. E Martin Luther King dá essa ideia, isto é, o reconhecimento dos direitos civis para a população americana nos estados do Sul dos Estados Unidos vão ser o momento da transformação da humanidade. Não diz apenas respeito aos afro-americanos, diz respeito a toda a população dos Estados Unidos e até toda a humanidade. É um momento de transformação. Martin Luther King entra nesta campanha exatamente, não é um pastor protestante que por acaso esteja ali a fazer política. Não, isto faz parte daquilo que é The Great Awakening, que é o Grande Despertar. Aliás, o pai de Martin Luther King já tinha estado envolvido na luta pelos direitos civis no Sul dos Estados Unidos. Uma coisa fazia parte da outra. Isso é muito importante. E claro, ele entra aqui neste sentido de missão, uma missão religiosa. Ele está em Washington em agosto de 1963, numa marcha que é uma marcha pelos direitos civis e por outros direitos sociais também. Ele está como pastor protestante, mas na sua missão religiosa. Ele está ali a fazer um discurso que é um discurso que tem uma dimensão religiosa, porque para ele esta luta tem uma dimensão religiosa. É uma luta em que ele não apenas utiliza os recursos, os métodos da sua experiência como pastor protestante, mas faz sentido para ele fazer aquilo.
Sim. Hoje em dia nós olhamos para a luta pelos direitos civis e qualquer pessoa considera óbvia aquela luta e que estaria quase condenada a ser bem-sucedida, tão evidente era a sua justiça. Mas era assim tão claro naquela altura?
Não era nada claro. Isso é talvez a terceira coisa que nós temos de perceber em relação a Martin Luther King e à luta pelos direitos civis dos afro-americanos nos estados do Sul dos Estados Unidos. Hoje parece simples e até algumas coordenadas da época também parecem simples, por duas razões. A primeira, e este é o paradoxo, talvez, desta luta, é que os afro-americanos, Martin Luther King, em 1963, estão a lutar Por direitos que já foram atribuídos aos afro-americanos. Isto é, os afro-americanos em 1963 estão a comemorar precisamente a declaração da emancipação de Lincoln de 1863. Não é a abolição da escravatura nos Estados Unidos, é a abolição da escravatura nos estados do Sul dos Estados Unidos, isto é, nos estados rebeldes. Por quê? Porque o presidente não tem autoridade pra abolir a escravatura. Mas o presidente dos Estados Unidos em 1863, o que Lincoln usa é os poderes do presidente como chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos num momento de guerra. E no momento de guerra, o presidente dos Estados Unidos tem meios para atacar as bases do inimigo. E uma das bases do inimigo, que são os estados do Sul dos Estados Unidos, é a escravatura. E é em nome dos poderes de guerra do presidente que ele extingue a escravatura nos estados do Sul dos Estados Unidos. Curiosamente, os estados esclavagistas que estavam no lado da União continuaram a ser estados esclavistas, e depois vão abolir a escravatura mais tarde. Isto é uma coisa histórica que tem a ver com a descomplicação da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, nos anos 50 e nos anos 60, em que os afro-americanos no Sul estão a apelar ao presidente e ao governo federal, e o governo federal não tem autoridade para modificar a situação nos estados do Sul dos Estados Unidos. Já vamos falar disso aqui, mas já agora fica esta nota, que torna muito complicada esta luta. Há presidentes que estão do lado daqueles que fazem campanha pelos direitos civis, mas não têm autoridade. Já antecipamos, já agora vamos antecipar um bocadinho, vamos antecipar o resto. Em 1964, o famoso Ato dos Direitos Civis é feito não com base nos poderes de guerra do presidente, porque não pode, mas nos poderes comerciais. É a cláusula comercial da Constituição que permite ao presidente atuar.
Já desenvolvemos isso. Mas aqui agora estamos em 1863.
Nós estamos em 1963.
100 anos. É abolida a escravatura em 1863.
No Sul dos Estados Unidos. Em 1963, a Marcha de Washington está a comemorar esses 100 anos. E portanto, aquilo que os afro-americanos estão a reclamar em 1963, parece que já lhes foi dado. Já lhes foi dado em 1863 pela Declaração da Emancipação, já lhes foi dado em 1868, pela 14ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, que obriga o governo federal e os estados a garantir a proteção igual para todos os americanos sob a lei, incluindo os afro-americanos.
E parecia o caso encerrado.
Aparentemente, eles já têm, de acordo com a Constituição e de acordo com as leis federais, todos os direitos. O que aconteceu foi isto: é que no chamado Sul dos Estados Unidos, isto é, nos 11 estados do Sul dos Estados Unidos que tinham feito parte da Confederação em 1861, aqueles que se tinham revoltado contra os Estados Unidos e que tinham constituído a Confederação. Este Sul é o Sul do ponto de vista do século XVIII. São os estados que ficam abaixo da Pensilvânia e do Ohio e a leste do Novo México. É o Sul clássico dos Estados Unidos no fim do século XVIII. São esses 11 estados, que são os estados da Confederação. Esses 11 estados da Confederação, em 1865, a guerra acaba, deixa de haver escravatura. E em 1868, há esta emenda à Constituição dos Estados Unidos pra garantir que todos os cidadãos americanos, incluindo os antigos escravos, têm este direito. E o que acontece no Sul dos Estados Unidos? No Sul dos Estados Unidos, sobretudo a partir do fim do século XIX, os governos e os parlamentos locais, não esquecer que os Estados Unidos são uma federação em que estes estados têm grande autonomia, isto é, uma grande parte daquilo que acontece nos Estados Unidos não é decidido pelo governo federal, é decidido por estes governos dos estados, com os seus parlamentos, os seus tribunais, etc. Há um mundo dos estados. Nos estados do Sul dos Estados Unidos, os governos desses estados começam a sujeitar os afro-americanos a restrições dos seus direitos, umas vezes de uma forma indireta, outras vezes de forma direta.
Dá lá exemplos disso.
De forma indireta, por exemplo, quando um Estado retira o direito de voto aos analfabetos. Uma grande parte dos afro-americanos ex-escravos são analfabetos. Isto era retirar o direito de voto à maior parte, a quase todos os afro-americanos no fim do século XIX. De forma direta, por exemplo, quando as escolas ou meios de transporte foram segregados. Isto é, como aconteceria na África do Sul a partir de meados do século XX. Isto é, quando os estados dizem: há escolas para brancos e há escolas para negros, há lugares nos autocarros para brancos e há lugares nos autocarros para negros, há restaurantes para brancos e há restaurantes para negros. Aquilo que se chama a segregação racial. A separação.
Que era uma coisa que não existia no tempo da escravatura.
Não havia necessidade disso. A maior parte dos afro-americanos eram escravos.
Mas havia gente livre.
Sim, mas eram poucos.
Mas os poucos que havia podiam ir aos restaurantes.
Não havia leis de segregação racial. A segregação racial não é uma tradição. A segregação racial, as famosas leis de Jim Crow, como são conhecidas. Jim Crow é uma espécie, iríamos traduzir por o Zé Corvo, quer dizer, é um boneco que representa os afro-americanos de uma maneira até pejorativa, derrogativa. As leis de Jim Crow, que é o nome que se dá a essas leis de segregação racial, é do fim do século XIX, princípio do século XX, meados do século XX. Muitas destas leis são leis dos anos 1930 e 1940. Quando elas começam a ser contestadas, são leis relativamente recentes ainda. Esta segregação racial, este é o outro lado, é recente e não é nacional nos Estados Unidos. A maior parte dos estados, 39 estados em 50 estados, não tem segregação racial. São os 11 estados do Sul que têm a segregação racial.
Também é onde vivia naquela altura a maior parte da população.
Ora bem, como é que isto tem impacto sobre a população afro-americana? Em 1900, no princípio do século XX, 90% dos afro-americanos ainda vivem nos estados do Sul dos Estados Unidos. Portanto, são afetados de uma maneira devastadora por estas leis de segregação raciais. E o efeito é enorme. Por exemplo, no estado do Alabama, em 1960, os afro-americanos são 30% da população, mas só 13,7% dos afro-americanos é que estão registrados como eleitores. Isto quer dizer que um terço da população do Alabama não tem direito de voto, por causa destas leis, neste caso aqui leis indiretas que diziam que era preciso saber ler e escrever e satisfazer determinados requisitos para ser eleitor. E claro, tudo isso tinha sido feito de uma maneira propositada para excluir os afro-americanos aí de uma maneira indireta.
Muito bem, nós chegamos ao final desta primeira parte de "E o Resto é História". Voltaremos a seguir para falar mais um pouco de "I Have a Dream" e de Martin Luther King. Até já. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte de "E o Resto é História". Estamos a falar de Martin Luther King, a propósito do seu magnífico discurso "I Have a Dream", mas neste momento estamos a falar da segregação racial.
Para voltar àquilo que nós estávamos a dizer, em princípio, combater a segregação racial devia ser relativamente simples. Estamos a falar de os afro-americanos reclamarem direitos que pela Constituição já têm. Estamos a falar dos afro-americanos reclamarem direitos numa parte do território da federação, os 11 estados do Sul, e estamos a falar dos afro-americanos reclamarem direitos, agora nos anos 1950, 1960, durante esta campanha pela reclamação dos direitos civis, quando aquelas teorias racialistas do século XIX, que tinham justificado a discriminação racial em nome da ideia de que havia raças superiores e raças inferiores, estavam completamente desacreditadas. Por quê? Porque tinham ficado associadas ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial e, portanto, ao Holocausto. As Nações Unidas, a UNESCO, em 1950, tinha feito uma importante declaração sobre a raça, que negava que houvesse qualquer relação entre diferenças intelectuais ou de personalidade e a cor da pele, isto é, as diferenças intelectuais ou de personalidade não eram determinadas pela cor da pele ou por qualquer outras características biológicas. A UNESCO tinha declarado isso, os países tinham todos reconhecido isso. Em 1951, a UNESCO volta a fazer uma declaração importante a dizer que o Homo sapiens é uma só espécie, a humanidade é toda igual.
E portanto, o conceito de raça não existe.
Nós, neste momento, na década de 1950 e 1960, o racismo está completamente desacreditado, não tem aquela base pseudocientífica que tinha tido no século XIX. Não há gente credível nas universidades, nas academias, na política, a defender posições racistas. Portanto, em princípio, deveria ser fácil ir contra uma discriminação que remete para questões raciais. Mas há três grandes dificuldades que tornam árdua esta luta de Martin Luther King. A primeira é uma dificuldade ideológica: os defensores da segregação racial nos anos 1950 e 1960 já não são racistas. Eles dizem: "Não, nós não temos nada a ver com racismo." O que eles diziam era que a cor da pele formava comunidades com identidades diferentes. Essas identidades remetiam para costumes diferentes, visões do mundo diferentes, e o que era melhor para cada uma dessas comunidades era estar separada, era desenvolverem-se de uma maneira separada umas das outras.
Certo.
Os defensores da segregação racial diziam isso. E depois tinham uma base, isto é muito importante, tinham uma base legal para isso, que é a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos de 1896, que é um dos primeiros casos em que é litigado a segregação racial no Supremo Tribunal. E o Supremo Tribunal disse então que a segregação racial não era anticonstitucional, era constitucional. E por quê? Era constitucional desde que fossem assegurados a todas as comunidades separadas os mesmos serviços. Isto é, as comunidades eram separadas, mas deviam ter todos os mesmos serviços. Desde que tivessem todos os mesmos serviços, não era anticonstitucional. Era o princípio do separados, mas iguais. Desde que a separação correspondesse a uma igualdade. Isto é, há escolas para brancos e escolas para negros, mas há escolas para todos. Então aí já não é anticonstitucional. Isto é uma decisão do Supremo Tribunal. Deixa-me só dizer isto. E reparem, é isso que permite também que Martin Luther King E isto correspondia mais ou menos a uma situação que havia no sul dos Estados Unidos. De facto, havia escolas pra brancos, havia escolas pra negros, havia lugares no autocarro pra brancos e havia lugares no autocarro pra negros. Martin Luther King tinha feito a sua carreira, por exemplo, de pastor, tinha estudado na universidade no sul dos Estados Unidos. Por quê? Porque haviam universidades para negros.
O que eu ia perguntar era: sim, há lugares para brancos e para negros nos autocarros, mas uns vão na parte da frente e outros ficam na parte de trás.
O grande problema desta separação é que, obviamente, não corresponde a uma igualdade.
Claro.
Não há igualdade absolutamente nenhuma. Primeiro, tudo aquilo que correspondia aos serviços para negros. Há um facto primeiro: as escolas, as universidades negras têm menos financiamento, menos recursos do que as instituições similares para brancos. Há logo uma desigualdade facto. E depois havia uma outra coisa: a separação consagra um preconceito entre os brancos, isto é, o da inferioridade dos negros. Eles têm menos recursos. Os seus lugares no autocarro são os de trás, não são os da frente.
Certo.
Consagra uma situação de supremacia de um grupo em relação ao outro. Não consagra nenhuma igualdade. Mas reparem, isto é o argumento, obviamente, dos adversários da segregação racial, mas os argumentos dos outros era que não estavam a fazer discriminação, isto é, não estavam a impor nenhuma supremacia, pelo contrário, estavam apenas a separar. E o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha dito que não era anticonstitucional. Há aqui uma dificuldade ideológica. Não basta chamar racistas a estes indivíduos, porque eles dizem: "Isto não é racismo, são duas populações diferentes, que não se dão bem uma com a outra e devem ser mantidas à parte pra viverem cada uma como quiserem." O argumento não é assim tão fácil de fazer nos debates. E depois há uma dificuldade social, e essa dificuldade social é também muito importante. O sul dos Estados Unidos é a região mais pobre dos Estados Unidos na primeira metade do século XX. Os negros estão entre os mais pobres, mas muita da população branca deste sul dos Estados Unidos também é pobre. E a segregação racial no sul dos Estados Unidos é apoiada por estes brancos pobres, que veem na segregação racial uma forma de aumentarem o seu estatuto. Isto é, eles são pobres, mas fazem parte da população que tem mais-
Mais direitos.
Mais direitos. É um patrimônio deles, e há um grande apoio da população branca e da população branca pobre à segregação racial. Veem isso como quase que a única coisa que os distingue dos afro-americanos pobres. Ambos são pobres, mas eles são brancos e os outros não são. Se lhes tirassem esse estatuto, de repente eles sentir-se-iam tão... não teriam nada para fazerem parte de uma, apesar de tudo, brancos pobres ainda fazem parte desta raça dominante, digamos assim, no sul dos Estados Unidos.
E ao mesmo tempo, a nível demográfico, também já tinham existido alterações.
E depois havia uma outra coisa que tinha a acontecer desde o século XIX, que é: a população afro-americana está a crescer. Em 1810 são 1,3 milhões, em 1910 são 9,8 milhões. Está a crescer, mas está a pesar cada vez menos. Isto é, a população afro-americana no sul dos Estados Unidos está se a tornar uma minoria cada vez mais pequena. Por quê? Por causa das grandes migrações europeias no século XIX e no século XX. Nos Estados Unidos, a população afro-americana representava 19% da população total dos Estados Unidos em 1810. 19%, um quinto. E em 1910, 100 anos depois, no princípio do século XX, já só representa 10%. Está se a tornar uma minoria cada vez mais pequena. E depois é uma minoria cada vez mais pequena nos Estados Unidos, toda concentrada no sul dos Estados Unidos, que é 90% dos afro-americanos vivem nos 11 estados do sul dos Estados Unidos. E nesse sul dos Estados Unidos, 80% desta população afro-americana, em 1900, vive no campo como pequenos agricultores. Nós estamos a falar de uma população afro-americana, que basicamente são pequenos agricultores, rendeiros, analfabetos, no sul dos Estados Unidos. É uma população muito isolada. Concentrada numa pequena parte do todo. Nos Estados Unidos, não há pequenas partes do território, todos os territórios são gigantescos, mas numa parte do território. E é muito fácil isolá-la, intimidar e discriminar contra esta população. Reparem, se esta população estivesse a crescer e a pesar, e fosse urbana, alfabetizada e rica era muito mais difícil discriminar.
Tu ainda estás a falar no início do século XX, não é?
Estou a falar no início do século XX.
Depois as coisas vão começar a mudar.
Vamos manter a ordem só para não complicar. O sul dos Estados Unidos é quase um mundo à parte nos anos 50 e 60, em meados do século XX. É um mundo à parte e esta população afro-americana é uma população especialmente exposta à discriminação. Toda rural, analfabeta, concentrada numa parte do território, é fácil mantê-la à parte. Isto é um mundo à parte. No caso do Martin Luther King, ele cresce no sul dos Estados Unidos. A primeira vez que vai ao norte dos Estados Unidos é nos anos 40, em 1944. E pra ele é uma coisa Espantosa. Ele escreve aos pais absolutamente espantado e diz: "Imagine, estou aqui no norte dos Estados Unidos, nuns estados mais acima, e aqui nós podemos ir aos mesmos restaurantes dos brancos." É uma coisa espantosa. É umas centenas de quilómetros acima, no mesmo país, e as coisas são completamente diferentes. Porque não há segregação racial em Nova Iorque, não há segregação racial na Califórnia, não há segregação racial na cidade de Chicago. Não há. Mas baixa-se e entra-se neste Dixie, no mundo do sul dos Estados Unidos, onde está a maior parte da população negra, e aí começa o mundo Jim Crow.
Mas isso também tem a ver com a lógica da federação que já tinha esta-
Exatamente. E há esta outra dificuldade legal, que é: os Estados Unidos são uma federação, os estados são muito autónomos, têm governos, parlamentos e legislação própria, e os segregacionistas nos anos 50 e 60, a segregação racial, vão defendê-los também como instituições próprias dos estados do sul dos Estados Unidos. E não admitem que o governo federal e que o Congresso interfira nos estados, porque é uma violação dos direitos dos estados. Essa é a outra dificuldade, que vai ser ultrapassada com o presidente invocando os seus poderes comerciais. Porque é muito difícil, de facto, ir contra isto. E depois há uma quarta dificuldade, além da dificuldade legal, que é a dificuldade política. Os segregacionistas do sul dos Estados Unidos fazem parte do Partido Democrata, exatamente, fazem parte do Partido Democrata, fazem parte do grande partido da esquerda americana. O grande partido da esquerda americana é o partido da segregação racial. A esquerda americana apoia a segregação racial. O Partido Democrata é um partido que domina completamente o sul dos Estados Unidos desde o século XIX. Todos os governos do sul dos Estados Unidos são do Partido Democrata. E o Partido Democrata, que é o partido dos progressistas, da esquerda social-democrata e até socialista do norte dos Estados Unidos, é o partido da segregação racial do sul dos Estados Unidos. O Partido Democrata tem estas duas feições, estas duas caras, digamos assim. E o Partido Democrata, e este é que é o problema, não é só o partido que está no poder nos 11 estados da antiga confederação, é o partido que desde os anos 30 está no poder no governo federal. Isto é, os presidentes dos Estados Unidos são democratas, exceto o presidente Eisenhower entre 1952 e 1960. As maiorias do Congresso, no Senado e da Câmara dos Representantes são democratas, e estas maiorias dependem do apoio dos senadores e dos representantes do sul dos Estados Unidos. E um presidente, isto é, o Partido Democrata ir contra a segregação racial, é ir contra a base do seu poder. E os presidentes como Kennedy e Johnson, mesmo querendo favorecer os afro-americanos, têm que ter muito cuidado, porque isso é afetar o poder que eles têm. Porque eles dependem de maiorias no Congresso baseadas nos democratas do sul. E os democratas do sul, sobretudo no Senado。 Reparem, o Senado, os senadores são escolhidos não em função da população, mas dos estados. O sul dos Estados Unidos, no Senado, tem uma força enorme. São 20 e tal senadores que estão lá e que fazem as maiorias, e que são todos democratas. E os presidentes têm que ter muito cuidado com isto. Não é fácil ir contra a segregação racial, que é apoiada pelos democratas do sul. Um presidente que vai contra a segregação racial, o que faz é destruir o poder do Partido Democrata e dar o poder ao Partido Republicano. E o Partido Republicano é o partido do norte, o Partido Republicano não tem força nenhuma no sul. Acho que, salvo erro, o Partido Republicano no sul só tem um senador. Em todo o sul tem um senador. As eleições no sul eram assim. Os resultados das eleições no sul eram assim: em primeiro lugar, o vencedor era o candidato do Partido Democrata. Em segundo lugar, o candidato que ficava em segundo lugar, é um outro candidato do Partido Democrata que tinha estado a lutar contra o outro candidato do Partido Democrata. Em terceiro lugar, era o outro candidato do Partido Democrata. E em quinto e sexto vinha um candidato do Partido Republicano. Isto era a máquina política que o Partido Democrata tinha no sul. Reparem, o Partido Republicano é o partido de Lincoln, o Partido Republicano é o partido que aboliu a escravatura e era odiado no sul dos Estados Unidos. Era o partido dos afro-americanos. Era o partido que no sul dos Estados Unidos, onde os afro-americanos quando podiam votar, votavam no Partido Republicano. E era o partido de estado.
É bom ter essa noção, porque hoje em dia não é só diferente, é quase ao contrário.
Os republicanos são aqueles que são mais críticos e mais, enquanto partido, adversários da segregação racial. Aliás, Martin Luther King até tem boas relações com a direita republicana, mas nos anos 50 e 60 também tem um problema com o Partido Republicano. É que o Partido Republicano não apoia a segregação racial, que é mantida pelo Partido Democrata no sul dos Estados Unidos, mas o Partido Republicano é um partido que é contra o aumento do poder do governo federal. Isto é, está contra o aumento do poder do governo federal, porque é uma coisa que está acontecendo nos Estados Unidos desde o New Deal do Franklin Roosevelt O Partido Republicano é contra o aumento do poder do governo federal. Ora bem, o ataque à segregação racial no sul dos Estados Unidos tem vindo através do governo federal, porque localmente o Partido Democrata domina completamente o poder. E há no Partido Republicano adversários de legislação que acabe com a segregação racial no sul dos Estados Unidos, não porque eles sejam a favor da segregação racial, mas porque são contra o uso de poderes do governo federal para atacar o poder dos estados. Essa é outra dificuldade política. Quem, como Martin Luther King, está a fazer campanha pelos direitos civis, tem o Partido Democrata contra, mesmo aqueles que no Partido Democrata, como os presidentes, até são simpatizantes da causa dos direitos civis, mas são cautelosos porque não querem perder o poder por causa do apoio que o Partido Democrata tem no sul dos Estados Unidos. E depois, no caso do Partido Republicano, o Partido Republicano é o partido de Lincoln, é o partido contra a escravatura, etc., mas há muitos senadores e representantes do Partido Republicano que não querem o governo federal a fazer mais coisas.
Ok, mas essas são as más notícias. Estás aqui a dar más notícias há imenso tempo. Quais são as boas notícias?
Agora vamos dar as boas notícias, que é os recursos que Martin Luther King tem, apesar de tudo, pra lutar pelos direitos civis dos afro-americanos. Bem, o primeiro recurso é este: é o antirracismo. O racismo está desacreditado depois da Segunda Guerra Mundial. E isso mesmo afeta toda a elite americana. E, sobretudo, afeta no momento da Guerra Fria. Durante a Guerra Fria, depois de 1948, e já antes, a União Soviética usa constantemente a segregação racial nos estados do sul dos Estados Unidos para atacar os Estados Unidos e sobretudo para tentar desacreditar os Estados Unidos no terceiro mundo. Reparem, em África, na Ásia, estão a vir estas novas nações a libertarem-se do colonialismo europeu e obviamente esses governos dividem-se: vamos ficar do lado dos Estados Unidos, vamos ficar do lado da União Soviética. E a União Soviética tinha este argumento, que era: bem, os Estados Unidos, põem-se do lado dos Estados Unidos. Vejam o que eles têm no sul dos Estados Unidos, a segregação racial. Há na elite americana muitos políticos que acham que até mesmo pra combater melhor a União Soviética, tem que se resolver o problema do sul dos Estados Unidos. Aquele problema não pode ser continuado a ser tratado como uma coisa: "Aquilo é só daqueles 11 estados, não afeta o resto". Não, tem que se enfrentar aquele problema. Esse é um recurso que Martin Luther King tem para combater a segregação racial. O outro recurso é a mudança da própria população afro-americana. Essa população mudou muito em meados do século XX. Em 1900, a maior parte dos afro-americanos são camponeses analfabetos. Só 20% é que vivem em cidades, a maior parte vivia nos estados do sul dos Estados Unidos. Ora, isso muda em meados do século XX. Há primeiro uma grande migração entre os anos 1940 e depois até aos anos 1970. Uma grande parte dos afro-americanos saem do sul dos Estados Unidos e vão para as cidades do norte. Na década de 1960, a população afro-americana já é completamente diferente do que tinha sido no princípio do século XX, 50 anos antes. 80% dos afro-americanos já vivem em cidades. Reparem, 50 anos antes era só 20%. Isso dá a ideia da transformação. E depois, só 50% é que ainda estão no sul. Reparem, era 90% que estavam no sul. Em 50 anos, quase metade passou para o norte nos Estados Unidos. O que isso quer dizer?
Escavou a segregação.
Quer dizer que uma grande parte desta população já não está sujeita à segregação racial, já vive nas cidades do norte. Ao sair do sul, constituiu uma nova comunidade urbana, muito mais educada, muito mais atenta aos seus direitos, com uma presença cada vez maior na cultura, por exemplo, na música, no desporto. Já não é uma minoria pobre, na parte pobre dos Estados Unidos. É uma minoria já relativamente próspera, ou mais próspera do que tinha sido, na parte mais próspera dos Estados Unidos, e que já é capaz de fazer pressão nacional. Reparem em Washington, esta marcha de afro-americanos em 1963, apoiada pelas igrejas, mas eles já têm uma representação nacional, é na capital que eles estão. De repente, a luta pelos direitos civis tem uma dimensão nacional que não podia ter tido da mesma maneira no princípio do século XX.
Muito bem. Nós vamos continuar a falar de Martin Luther King, mas no podcast. Para quem está a ouvir em FM, eu despeço-me. Até pra semana. Muito bem, então estavas a dar na fase das boas notícias.
Primeiro, este descrédito do racismo e tudo aquilo que tinha a ver com discriminação racial. Depois, uma nova comunidade afro-americana que tem meios e que tem um alcance que não tinha tido antes. E depois, em terceiro lugar, as táticas. A tática que é usada, e aí Martin Luther King faz bastante diferença. O movimento dos direitos civis tinha, desde o princípio do século XX, uma face legal, uma dimensão legal Que era a contestação jurídica nos tribunais da segregação racial. Eles levavam casos aos tribunais de porque é que umas crianças afro-americanas não eram admitidas numa escola por causa da segregação racial. E havia uma organização que era a National Association for the Advancement of Colored People, fundada em 1909, e uma das coisas que essa associação fazia era pôr em tribunal estas escolas que se recusavam a aceitar crianças afro-americanas.
E em 1954, o Supremo Tribunal já tinha invalidado a segregação racial.
Em 1954, o Supremo Tribunal tinha reconhecido que a segregação racial não salvaguardava o princípio dos separados, mas iguais. Isto é, que a separação em si criava uma desigualdade. Criava até sentimentos de inferioridade na população que estava afastada daquelas escolas, que eram as melhores escolas, que ofendia os direitos dessa população. Não era por os afro-americanos terem uma escola para eles, que fazia com que os seus direitos não fossem afetados quando era recusada a sua admissão numa escola dos brancos, porque essa escola dos brancos era uma melhor escola, tinha mais recursos, tinha professores mais bem pagos, tinha mais reputação. E ser recusado lá era uma declaração de inferioridade, independentemente de haver uma escola, que aliás era pior, para eles. E o Supremo Tribunal, em 1954, reconhece isso, mas o Supremo Tribunal, em 1954, diz que a segregação racial não é constitucional, mas não diz quando é que a segregação racial deve acabar. Isto é, não diz que deve acabar e não diz como é que deve acabar, deixa a coisa no ar. Este movimento tem agora esse argumento legal destas decisões que começa a ganhar muito. Há um famoso advogado, que é Thurgood Marshall, que se especializa em casos de direitos civis no Supremo Tribunal. Este Marshall é uma figura muito importante também. Ele vem ser depois juiz do Supremo Tribunal, mas ele vai ao Supremo Tribunal constantemente com casos. Em 32 casos que ele apresenta perante o Supremo Tribunal, ganha 29. Ele está a ganhar constantemente os casos todos. Mas só que esses casos são o Supremo Tribunal a dizer: "Sim, isso é anticonstitucional, isso não pode ser." E depois o que é que se faz?
Certo.
O que se faz é que é preciso fazer campanha. É aí que entra Martin Luther King a partir de meados da década de 50, a partir de 1955. Martin Luther King, o que é que ele faz? Ele recusa. Isto é, sim, é preciso fazer esta luta legal, mas não podemos estar à espera. Não podemos ser passivos, nós, afro-americanos, que ele representa. Não podemos ser passivos. Não podemos estar à espera também de uma transformação gradual, que era outra coisa que diziam: "Não, mas isto vai mudando gradualmente com o tempo, isto vai acabar." Não, temos de provocar a mudança. E provocar a mudança tem que ser através da desobediência. Vamos fazer boicotes, os autocarros obrigam os afro-americanos a ir nos lugares de trás. E então o que é que vamos fazer? Vamos sentar nos lugares da frente e quando formos presos, porque reparem, eles estão a violar uma lei. Aquilo são leis. A segregação racial é legal nestes 11 estados do sul dos Estados Unidos. Eles são presos. O Martin Luther King foi preso uma quantidade enorme de vezes. Vamos ser presos e então vamos usar também outros cursos. Por exemplo, vamos boicotar as companhias de transporte, as empresas de transporte, que obrigam os afro-americanos a sentar atrás. É uma das coisas que Martin Luther King faz em Montgomery, em Alabama, que é aqueles meses todos em que os afro-americanos vão a pé, mas não usam os autocarros. A maior parte dos clientes, dos utentes dos transportes públicos eram afro-americanos. As companhias começam a ficar todas arruinadas e acabam por ceder finalmente, aceitar que os afro-americanos podem sentar onde quiserem, atrás ou à frente.
Mas estás a falar de uma desobediência pacífica, que também é um ponto fundamental.
Essa é a outra dimensão de Martin Luther King. Ele quer a desobediência pacífica, a desobediência civil, mas uma desobediência, como ele diz, com dignidade e disciplina. Isto para ele é muito importante. Tem dois aspetos pelos quais é importante. O primeiro é, como ele diz, ganharmos uma certa superioridade moral. Repare, esta população afro-americana não está apenas sujeita à discriminação, está sujeita também à violência. Esta minoria é agredida pela polícia, é agredida pelos brancos, que por vezes são eles que são capazes de deitar fora de um restaurante um afro-americano que lá entra. A população branca no sul dos Estados Unidos sente-se com direitos a exercer violência sobre esta população. O que Martin Luther King diz é: "Nós não vamos responder com violência. Nós vamos responder com uma dignidade que eles não têm."
Tal como Gandhi tinha feito na Índia.
Esta é a inspiração da desobediência civil, de uma forma pacífica, de Gandhi. E aliás, Martin Luther King visita a Índia, fica impressionado com as histórias do movimento para a independência da Índia contra a administração britânica. E ele, no sul dos Estados Unidos, vem introduzir a mesma coisa. O que significa renunciar à violência? Renunciar à violência quando o nosso grupo está a ser agredido, significa disciplina. Nós temos de manter uma grande disciplina pra quando estamos a ser agredidos, não responder. E isso ele também quer dar. Isto é, esta população afro-americana que é tratada como uma população primitiva, rude, dar esta lição aos Estados Unidos e ao mundo, desta capacidade de organização e de disciplina. E portanto, ele diz: "Isto é fundamental, nós darmos esta lição de dignidade". E isso tem um grande efeito, de fato. Isto é, a presença de todos organizados. Aliás, na marcha em 1963 em Washington, mais uma vez essa preocupação pacífica. "Nós vamos ser pacíficos, nós não vamos responder à força com a força. Nós vamos adquirir uma grande autoridade moral."
E aí a dimensão religiosa também é muito importante, não é?
E essa é a outra dimensão que ele tem. Esta visão de um profeta. O discurso de 1963, em Washington, é uma retórica profundamente religiosa, está cheio de alusões bíblicas. É este discurso que é um espetáculo, que é esta transformação, que já falamos, desta população, desta imensa massa que está perante 200 mil pessoas. E reparem aquilo que Martin Luther King está a partilhar é um sonho, mas que é uma visão. Ele está a partilhar uma visão, isto é como um profeta, está a partilhar uma visão. E esta é uma visão muito importante, é a visão de um mundo onde a cor da pele não tem importância, onde negros e brancos são todos filhos de Deus. É isso que ele está a dizer.
É inclusivo.
É isso que ele está a dizer. E isso é uma coisa muito importante, que é chamada a atenção logo em 1961, num artigo para a revista Harper, por um escritor afro-americano muito importante, que é o James Baldwin. Ele diz: "Martin Luther King é o primeiro, entre os afro-americanos, que fala de uma maneira igual para negros e para brancos". Isto é, ele diz aos brancos: "Esta luta é também para vocês. Vocês nunca serão livres se nós não formos livres". Isto é, a vossa liberdade passa pela nossa liberdade, porque os Estados Unidos nunca serão um país livre se nós continuarmos nesta situação, não temos direitos de voto, não podemos ir às escolas onde vão os brancos, no sul dos Estados Unidos. Portanto, enquanto nós não formos livres, ninguém é livre nos Estados Unidos e isso é uma luta pela liberdade de todos. Ele está a falar também para os brancos, está a dizer: "Aquilo que nós vamos fazer é transformar os Estados Unidos de acordo com aquela que foi a visão dos pais fundadores dos Estados Unidos, da Constituição, que é um país criado na liberdade, em que todos são iguais e livres. Portanto, é isso que nós vamos conformar finalmente."
Ele também diz: "Venho levantar esse cheque."
É, venho levantar o tal cheque que foi passado aos afro-americanos e não tinha cobertura, mas ele vem cobrá-lo. Ele convida toda a gente a participar. Aliás, ele no discurso faz referência a todos os brancos que estão ali também com eles na marcha, quer dizer, também é pela liberdade deles.
E havia muitos brancos também.
E há muitos brancos. Esta visão messiânica dele, esta visão religiosa, a ideia da luta pelos direitos civis como um momento de transformação política e religiosa dos Estados Unidos, é absolutamente fundamental. Eu diria que é absolutamente fundamental e ao ouvir o discurso, nós temos essa sensação. Isto é, é um discurso que eu acho que envolve toda gente que tiver boa vontade, envolve-nos a todos.
É um justo.
Exato, é um momento de liberdade e de justiça, como ele aliás diz. E quando ele acaba com aquela frase final do "Free at last. Free at last", é muito difícil uma pessoa não se sentir comovido com aquilo. É uma coisa fortíssima, porque ele está a anunciar ali na Terra, naquele momento, algo que para os cristãos, é algo que só pode ser obtido pela graça divina. Aliás, ele diz: "Graças a Deus todo-poderoso". Ele está a dar ali uma dimensão que aquilo é a vontade de Deus. É também a vontade de Deus que está a ser realizada ali. Tem uma força enorme. O movimento existe, existe condições pro movimento ter realizado os seus objetivos, mas Martin Luther King tem mesmo uma importância fundamental. Porque ele dá voz a isto. Os outros não faziam estes discursos. Também havia outras figuras religiosas no movimento, mas ele de fato é este pregador, este pastor das igrejas batistas que tem de fato esta inspiração, e é quase uma inspiração profética que ele tem. E consegue transmitir naquele momento. O resultado é 1964, no ano seguinte, o presidente Lyndon Johnson finalmente avança com o Civil Rights Act, que proíbe qualquer discriminação baseada na cor, sexo, religião e proíbe a segregação racial em escolas, transportes públicos, restaurantes, hotéis, cinemas, etc. Mais uma vez, repetir, baseado em quê? Baseado na cláusula comercial.
Mas explica lá essa cláusula comercial, já falaste dela várias vezes.
Isso é uma cláusula que é muito usada, porque é aquilo que É algo que na Constituição americana era reservado para o governo federal, para o presidente.
Com essa cláusula, o presidente conseguia entrar nos estados.
O presidente não pode afetar a legislação do estado, mas o presidente pode regular as relações comerciais. Quer no setor público, quer no setor privado.
E qual era o argumento comercial? É o que me analise.
O argumento comercial era que não podia discriminar, por exemplo, clientes. O presidente, isto é, um hotel não pode.
É o argumento azar.
As instituições públicas não podem, um restaurante dizer: "Não, nós, o dono do restaurante, não aceitamos gente com esta cor da pele." E o presidente dos Estados Unidos pode dizer: "Não, não pode fazer isso." Com base na cláusula comercial. É este poder que é usado para acabar com a segregação racial. E depois, tão importante como essa lei de 1964, o Voting Rights Act de 1965, que proíbe quaisquer testes para serem reconhecidos direitos de voto.
Testes de literacia, exato. Podia ser analfabeto e votar. Um analfabeto não podia ser proibido.
É interessante, esta legislação passa com o apoio dos republicanos, 80% dos republicanos votam o Civil Rights Act, e com o apoio dos democratas do Norte. Só 63% dos democratas é que votam esta legislação. Isto é uma legislação posta perante o Congresso por um presidente democrata, mas os democratas do Sul votam todos contra, maciçamente. 95% dos representantes dos estados do Sul, os democratas, votam todos contra esta legislação. Agora, esta legislação tem um impacto imediato, e isso é também muito importante para dar a ideia do que é que isto correspondia, porque podia-se dizer: "Não, mas os afro-americanos, no fim, até nem estavam muito preocupados." Não. No estado do Alabama, só o caso do exemplo do estado do Alabama, que eu já referi. Em 1960, só 13% dos afro-americanos é que estão registrados como eleitores. Em 1969, nove anos depois e cinco ou quatro anos depois do Voting Rights Act, 61% dos afro-americanos já estão registrados como eleitores. Isto é, as pessoas usaram imediatamente esses direitos. Usaram esses direitos quando os puderam usar. Mas mesmo assim, não continuou a ser fácil, isso nunca foi fácil. Mesmo depois desta legislação, foi necessário, no Sul dos Estados Unidos, continuar a lutar pelo fim da segregação racial. O Martin Luther King teve outros problemas além daqueles que eu disse. Ele teve problemas com aqueles grupos afro-americanos que queriam optar pela violência, e que o acusavam dele estar a pactuar e não ser suficientemente violento. Aliás, há grupos de afro-americanos que querem a segregação racial também, como por exemplo, a Nation of Islam, que quer também a separação entre negros e brancos. Martin Luther King tem do lado contrário, gente a acusá-lo de pactuar com o Malcolm X, que costumava ser um adversário dele. E depois o próprio Martin Luther King, na sua luta pelos direitos civis, tem de embrulhar a desobediência civil, a contestação à segregação racial, num pacote com outras contestações, para aumentar o apoio ao movimento. Por exemplo, a contestação à guerra do Vietname a partir de 1965. E isso vai tornar Martin Luther King suspeito por questões de segurança interna, isto é, o FBI começa a pensar: bem, este indivíduo talvez possa estar a ser manipulado pelos agentes soviéticos e pelos comunistas. E ele começa a ser sujeito, por exemplo, a vigilância, as suas conversas são gravadas, etc. Toda essa documentação de vez em quando aparece, porque obviamente vão revelando aspectos da vida privada do Martin Luther King, como qualquer outro indivíduo teria. Tem aspectos também da sua vida pessoal, que não são propriamente um santo. Aliás, ele nunca disse que era um santo, era um pecador como todos os outros, mas que tinha aquela visão. Esses elementos da sua vida privada começam a ser usados para o atacar e para o tentar desacreditar. E reparem, esta vigilância policial é autorizada pelo governo do Partido Democrata. Isto é, até pelo Robert Kennedy, que é o procurador, o irmão do presidente Kennedy, que autoriza o Hoover, que é o chefe do FBI, a autorizar. O Hoover diz: "Nós temos a suspeita que há agentes soviéticos ali a manipularem Martin Luther King." Portanto, ele tem de deixar o FBI procurar. E curiosamente, um dos conselheiros de Martin Luther King, que está mais próximo e que de fato tinha tido um passado comunista, que é o Bayard Rustin. Era uma das bases da suspeita do FBI. Este Bayard Rustin nos anos 60 está se tornando cada vez mais conservador e vai acabar, aliás, na direita. É uma figura também historicamente curiosa, é um afro-americano, que além de ser um militante na luta pelos direitos civis, também é homossexual e também é um grande combatente pela luta dos direitos dos homossexuais, e depois é um conservador. Mas Martin Luther King, em meados da década de 60 nos Estados Unidos, ele continua a sua campanha num ambiente cada vez mais carregado. O presidente Kennedy tinha sido assassinado em 1963, está um ambiente de violência, de confronto, aliás, associado depois às revoltas estudantis e à contestação da guerra do Vietnã. Há uma grande preocupação em relação a ele, à segurança dele. Ele começa a refletir isso também e acaba por ser assassinado por um indivíduo cadastrado, como acontece com o presidente Kennedy, como acontece com o irmão do presidente Kennedy, o Robert Kennedy.
As razões.
Aliás, como acontece também com o grande campeão da segregação racial no Sul dos Estados Unidos, que é o governador do Alabama, George Wallace, que também é vítima de um atentado no princípio dos anos 70, salvo erro, que o deixa paralisado. Há esta violência, há este ambiente de violência em que indivíduos às vezes isolados tentam.
E nunca se percebe bem, às vezes, as razões.
E se fazem parte de conspirações ou não.
Já aconteceu com Kennedy também.
Mas Martin Luther King é assassinado a 4 de abril de 1968, em Memphis, Tennessee, e depois é impressionante ver o discurso O último discurso que ele faz, 3 de abril de 1968.
No dia anterior.
No dia anterior.
À morte.
E que é um discurso que é difícil lê-lo sem ficar impressionado. É um discurso em que ele fala dele próprio, o que vai acontecer. E eu cito aqui o discurso, ele diz: "Eu vi a terra prometida. Eu posso não chegar lá com vocês." Isto é nitidamente a situação de Moisés, o profeta. "Mas eu quero dizer-vos hoje que nós, como um povo, chegaremos à terra prometida. Eu não estou preocupado com nada. Eu não tenho medo de ninguém. Os meus olhos viram a glória da vinda do Senhor." Era assim que ele encarava. Isto, de facto, dá uma força muito grande a quem ouve.
Muito bem. E assim se cumpriu. Bom, nós acabamos este "E o Resto é História" muito especial, sobre uma personagem muito especial, e voltaremos cá de novo para a semana, à nossa rotina. Até lá.