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E o resto é história.

É a terra com marcha. Do Vicente Pereira ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Atento!

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos ao 51° episódio de "E o Resto é História", que é para nós um episódio muito especial. Hoje celebramos o nosso primeiro aniversário. O primeiro episódio de "E o Resto é História" foi emitido a 3 de julho de 2019 e portanto, estamos todos de parabéns. Parabéns, Rui.

Parabéns.

E parabéns também aos milhares de ouvintes que nos fazem companhia todas as semanas, que nos enviam excelentes perguntas e que têm sido essenciais para o surpreendente sucesso deste programa. Na semana passada, eu disse que íamos preparar um episódio diferente, e aqui estamos nós a cumprir essa promessa. Mas este episódio diferente tem origem no sítio do costume, ou seja, numa pergunta muito curiosa de um dos nossos ouvintes. No já distante dia 13 de fevereiro, o Cláudio Prado mandou-nos um e-mail em que dizia apenas isto: "Fico curioso em saber a que se referem, na história, as falas e as músicas da abertura do podcast." E nós lemos aquilo e pensamos imediatamente: bom, a história dos vários sons que escutamos no genérico de "E o Resto é História" é um belo tema para guardar para o nosso primeiro aniversário. E também é, já agora, uma forma de homenagear a equipa de sonoplastia, que todas as semanas nos ajuda a fazer este programa, o Diogo, o Bernardo, a Beatriz, o Pedro. Muito obrigado a todos e vocês também estão de parabéns. Essa equipa fez o favor de isolar cada um dos sons do genérico de abertura, que nós, já de seguida, vamos escutar e comentar. Então, sem mais demoras, arranquemos com o primeiro som.

As armas e os barões assinalados.

Cá está ele, as armas e os barões assinalados. Este é um daqueles versos que toda a gente aprendeu na escola e que sabe decor, mas para além de ser o primeiro decassílabo de "Os Lusíadas", é uma canção de José Cid, que aqui surge cantada pelo fadista António Pinto Basto. Em 1992, o José Cid lançou um álbum chamado "Camões, as Descobertas e Nós". Se tiverem curiosidade, vão ao Spotify, que ele está lá disponível, onde convoca uma série de amigos para cantar com ele. E este é o início do tema que abre esse disco. Rui, eu adoraria, gostava imenso de te ouvir discorrer sobre a pop nacional e o papel do José Cid na evolução da música popular portuguesa, mas enfim, talvez fique para uma outra oportunidade. Talvez desta vez faça mais sentido discorreres antes sobre aquele verso específico de Camões, que todos sabemos papear, mas que nem sempre compreendemos o significado. O que é que são as armas e os barões assinalados e por que os "Lusíadas", tal como o nosso programa, começa assim?

Talvez seja um bocadinho aborrecido começar desta maneira, mas as armas e os barões assinalados são um plágio.

Portanto, arrancas logo com uma acusação gravíssima ao Luís de Camões.

Enfim, é conhecido desde a época. Não é só assim que começa "Os Lusíadas", é assim que começa a "Eneida", a grande epopeia sobre a fundação de Roma, do poeta Virgílio, do século I a.C., que começa precisamente como "Arma virumque cano": canto o homem e as guerras. Uma das traduções possíveis é esta. E no século XVI, portanto 16 séculos depois, Camões não está apenas a copiar, como qualquer aluno preguiçoso poderia fazer. Está a fazer mais do que isso. Está, por um lado, a fazer aquilo que os neoclassicistas, aqueles que queriam recuperar a idade clássica greco-romana, estavam a fazer no século XVI, que era imitar os gregos e os latinos. Isso não era para eles copiar. Era, por um lado, homenagear aqueles que eles achavam que tinham sido o topo da cultura erudita, mas também tentar realizar algo a que eles aspiravam, que era levar a Idade Moderna à altura da época clássica. Portanto, esta era uma aspiração a reproduzir aquilo que de grandioso tinha essa época clássica, e essa reprodução seria uma criação. Não era um mero plágio, não era uma mera cópia, era uma recriação. E nisso eles mostravam o engenho. Portanto, Camões, ao conseguir encontrar uma fórmula em vernáculo, aquilo que nós chamamos vernáculo, isto é, numa língua derivada do latim, o português, uma fórmula que tivesse a força que tinha a fórmula latina de Virgílio, estava não a copiar, não a traduzir sequer, mas estava a mostrar o seu engenho. E estava a mostrar mais do que isso. Quer dizer, estava a mostrar que era possível ir além dos clássicos também.

Então, mas quando tu falas que a tradução de Virgílio é "os homens e as guerras", o que estás a dizer é que as armas e os barões assinalados são esses homens e são essas guerras.

Sim, os barões de vir não refere exatamente um título nobiliárquico, está a referir os homens, os homens distintos, os homens assinalados, e as armas é uma figura de estilo, estão pela guerra, pelos feitos de armas, digamos assim. Aquilo que ele vai contar é os grandes feitos destes homens distintos. Portanto, Camões está a dizer que ele vai fazer uma epopeia Equivalente à epopeia de Virgílio. Portanto, uma epopeia portuguesa equivalente à epopeia romana. Vai fazê-la em português. Virgílio fez em latim. Vai mostrar o seu engenho, um engenho que se pode comparar com o do poeta latino e vai descrever homens e atos bélicos que são tão importantes ou até tão mais importantes do que aqueles que descreveram quer Virgílio, quer Homero, porque depois, na terceira instância, ele sobe a parada. Ele já tinha posto as coisas num grande desafio, mas depois sobe a parada quando diz também um outro verso, que imagino que as pessoas celebram, que é: "cessem do sábio grego e do troiano as navegações grandes que fizeram". Isto é, esqueçam-se da "Odisséia" e da "Eneida", esqueçam-se do Ulisses, o sábio grego é Ulisses, e do troiano, que é Eneias. Esqueçam-se deles, porque eu vou cantar, vou apresentar alguém que fez coisas muito mais importantes. Aquilo que tem a ver com a fundação de Portugal, a descoberta do caminho marítimo pra Índia, que vão deixar quer Ulisses, quer Eneias e por arrasto os cantores do Ulisses e de Eneias, isto é, Homero e Virgílio, na sombra. Portanto, o que temos aqui é simultaneamente uma homenagem a um precursor. Dante, na "Divina Comédia" também o faz ao fazer de Virgílio o guia que o conduz nos círculos do inferno e do purgatório. É Virgílio que guia Dante. De alguma maneira, Camões está a invocar Virgílio. Isso era o hábito neste tipo de literatura neoclássica, em que repito, a imitação era vista como uma prova de arte, mas ao mesmo tempo ele não está só a fazer esta homenagem, ele está a lançar um grande desafio. Camões está a dizer que vai cantar os maiores feitos de todos os tempos e portanto, e essa é que é a grande desafio dos "Lusíadas" que nós, por vezes, portugueses, na nossa modéstia, não nos apercebemos, ele vai fazer o maior poema épico de sempre. É isso que Camões está a dizer: "Eu vou escrever o maior poema épico de sempre. Melhor do que o de Virgílio, melhor do que o de Homero, quer dizer, melhor do que a 'Odisséia'. Eu vou fazer o maior poema." Digamos que o nosso primeiro toque, a nossa banda sonora começa da maneira mais arrogante possível, a maior arrogância portuguesa de todos os tempos. Somos os maiores e venham aí derrubar as nossas estátuas e ver se conseguem.

Muito bem. Então, com toda esta arrogância, passamos diretamente para o segundo som que nós ouvimos no nosso genérico.

É apenas fumaça.

Cá está ele. E aqui estamos nós no início de, bem, é um salto de alguns séculos. Estamos nós no início de novembro de 1975, numa manifestação no Terreiro do Paço, e estas são as imortais palavras do almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do sexto Governo Provisório, ladeado então por Mário Soares e Francisco Sá Carneiro: "O povo é sereno, é apenas fumaça", diz ele, após a explosão de granadas de fumo e no meio de muita pouca serenidade. Esse excerto, aliás, pode ser visto no YouTube. O que se passou ali, Rui? Que manifestação era aquela da fumaça?

O que se passou ali, estamos há 40 e tal anos a discutir. Que manifestação é que era aquela? Já situaste o ano é 1975, o mês é novembro de 1975, mas é antes do 25 de novembro de 1975, o que quer dizer que continua a haver em Portugal dois lados: o lado da esquerda revolucionária, que está contra o sexto Governo Provisório. Embora o Partido Comunista esteja no sexto Governo Provisório, também está contra o sexto Governo Provisório. Do outro lado, está o sexto Governo Provisório com os partidos que o apoiam. Dois partidos que compõem o governo, que é o Partido Socialista e o PPD, PSD e o CDS também apoia. E por detrás destas forças políticas, destes movimentos, continuam a estar gente em armas, isto é, homens em armas. Regimentos, cada tem os seus regimentos, portanto, as Forças Armadas estão divididas. O país está dividido. Está dividido a meio por volta de Rio Maior. Acima de Rio Maior manda, vamos chamar, a direita, direita militar e a direita política. A sul de Rio Maior manda a esquerda, a esquerda militar, a esquerda política. Repito, o governo está de um lado. Há muitos comandos militares importantes, como o comando COPCON do Hotel Sarava de Carvalho e uma parte do Conselho da Revolução que está do outro, do lado da esquerda revolucionária. E depois há um presidente, o Costa Gomes, que ainda vai descobrir de que lado é que está. Ninguém sabe bem de que lado é que está. Entretanto, uma das coisas que eles estão a fazer nesta altura, não estão a combater-se, mas estão a medir forças. E uma das maneiras de medir forças era fazer comícios no Terreiro do Paço. O comício no Terreiro do Paço é uma coisa hoje que não se usa, mas usava-se no tempo de Salazar. Salazar fazia comícios, aliás, quando fazia comícios, era no Terreiro do Paço.

Porque é uma praça que dá bem pra ver o tamanho da multidão.

E dava pro governo vir à janela. E portanto, eles estão a fazer comícios também no Terreiro de Paço. As televisões iam lá e depois havia grande discussão se a televisão estava a dar o melhor ângulo pra mostrar quanta gente é que lá está. Portanto, este é o comício de apoio ao sexto Governo Provisório. É um governo, repito, que sucedeu ao quinto governo de Vasco Gonçalves. É o primeiro governo em que o Partido Comunista não domina e, portanto, o Partido Comunista tem um pé dentro e um pé fora. E o chefe do governo, o presidente, o primeiro-ministro, já então que se chamava primeiro-ministro, tinha deixado de se chamar presidente do Conselho, o almirante Pinheiro de Azevedo era uma das figuras mais castiças da Revolução. E tem uma história também curiosa. Ele tinha aparecido em 1974, na noite de 1974, como membro da Junta de Salvação Nacional. Penso que não era conhecido pelo país, acho que não era mesmo. Aparece como membro da Junta de Salvação Nacional em 1974 e até ao sexto governo provisório, ele é considerado Próximo do PCP, próximo dos chamados gonçalvistas, isto é, a esquerda militar ligada ao Partido Comunista. E até penso que é por isso que é facilitada a ida dele pro governo pra suceder Vasco Gonçalves. Isto é, o PCP julga que tem ali uma pessoa, pelo menos, que é compreensiva por ele. Ora bem, às vezes diz-se que o cargo faz o homem e neste caso também aconteceu exatamente isso. Isto é, a partir do momento em que o homem, o nosso almirante, se encontra à frente do sexto governo provisório, torna-se no maior anticomunista que há em Portugal. É uma figura castiça, portanto, resiste ao PCI. O governo é boicotado, o governo é cercado em São Bento por manifestações. E em todas essas ocasiões, o almirante Pinheiro de Azevedo nunca deixa de deixar uma frase memorável. Quer dizer, quando está cercado em São Bento, diz: "Chateia-me estar sequestrado." Vem à janela, quer falar com os manifestantes, os manifestantes gritam. Tem também uma expressão curiosa que eu, com toda a licença dos ouvintes, vou dizer: "Bora merda." É assim mesmo que ele diz às pessoas que lá estavam, que não o deixavam falar. E aqui neste comício: "O povo é sereno, isto é só fumaça." Isto eram frases que se repetiam, que durante anos toda gente repetia uns para os outros como se fossem esquetes humorísticos. As revoluções também são feitas disto, havia outros que também as fizeram, mas ele era de facto uma figura muito castiça, era o almirante sem medo, era frontal. Parecia que nunca havia problemas com ele, pôr as coisas todas terra a terra. No YouTube vão encontrar entrevistas com ele. Ouvi ele a dizer: "Bem, agora o costume é: primeiro fazem-se as reuniões e depois é que se cumprem as ordens." Etc. E portanto, ele foi candidato à presidência da República várias vezes e depois numa dessas vezes até teve um acidente cardiovascular, salvo erro.

E morreu ainda relativamente novo.

Relativamente novo. Tinha-se tornado bastante popular precisamente por este jeito que ele tinha.

Chegou a ser candidato também à presidência da República.

E com uma votação apreciável, mesmo quando estava já no hospital, ainda teve uma votação, penso que nos dois dígitos, se não estou enganado. Quer dizer, era um personagem truculento, violento. O Mário Soares conta isso. Ele chegou lá, a primeira conversa que teve com o Mário Soares, disse-lhe, se não estou enganado: "Bem, o senhor, Mário Soares, tem que ser primeiro-ministro." E ele disse: "Eu não quero ser primeiro-ministro." "Se não quer ser primeiro-ministro, fica já preso aqui, mande-o já prender." E o Mário Soares diz ao senhor almirante: "Isto não faz sentido nenhum. Ou eu sou primeiro-ministro ou preso, mas como é que é?" Enfim. Depois ele diz: "Desculpe lá, desculpe os meus modos, não era isso que eu queria dizer." E pronto, era assim que ele era.

Vamos então ao terceiro som.

Do incêndio que lavra ainda na zona do Chiado.

Cá está. Incêndio do Chiado. Esta é uma referência a esse terrível incêndio que deflagrou a 25 de agosto de 1988, nos então armazéns Grandela, onde hoje se situa em parte o centro comercial Armazéns do Chiado, na Rua do Carmo. Se nós pensarmos que o complexo das Amoreiras foi inaugurado no final de 1985, Rui, achas que este incêndio de 1988 marca também o fim de uma era, com a ascensão de um Portugal novo rico, que foi a correr para os centros comerciais periféricos e abandonou as lojas de rua? Quer dizer, este Chiado de 88 já não tinha nada a ver com o antigo Chiado de Eça de Queiroz ou de Fernando Pessoa, não é?

É verdade, foi um incêndio bastante simbólico. Aliás, se não estou em erro, foi também um dos acontecimentos que pôs Portugal nos noticiários europeus. Eu em 1988, neste mês, por acaso, não estava em Portugal, e lembro-me ao pequeno-almoço, onde eu estava, toda a gente vir ter comigo dizer: "Lisboa está a arder, o centro de Lisboa está a arder." Uma coisa assim. Enfim, era só o Chiado, não era o centro, mas era só aquela rua do Chiado, não era o centro de Lisboa, mas deu essa impressão, ao ver as imagens, isto é, de que alguma coisa estava a acabar. Isto é, de que alguma coisa já tinha acabado. Quer dizer, o Chiado já não era o Chiado há muitos anos atrás. Aquela cidade antiga onde se ia fazer compras à baixa, onde os netos iam fazer compras, onde os avós faziam compras, nas mesmas lojas, atendidos pelos mesmos empregados que se lembravam do avôzinho. Isto, obviamente, para a classe média. Aquele mundo dos armazéns Grandela. Os armazéns Grandela era o cenário do filme O Pai Tirano dos anos 40, os grandelinhas, etc. Quer dizer, aquele mundo daqueles empregados que têm umas relações com os clientes, ainda às vezes um bocadinho entre um grande servilismo e uma certa irreverência. Enfim, nunca se sabia bem como é que se ia. Tudo isso estava decadente. Ainda não tinha chegado o turismo dos últimos 10 anos.

Deixa-me só interromper-te aí, porque esse mundo estava a acabar e o tempo da nossa primeira parte também acabou, mas nós vamos repregar aí no Chiado e nesse incêndio, já na segunda parte deste programa especial d'O Resto da História. Fique por aí. Olá, sejam bem-vindos de volta a esta segunda parte do programa especial de aniversário do "O Resto é História". Nós estávamos em pleno Chiado e tu estavas a retratar o mundo que acabou, já não existe.

O mundo que não acabou com o incêndio, tinha acabado antes do incêndio já, é bom salientar isso. A Baixa já tinha um aspecto muito desertificado e degradado em meados dos anos 80.

Tinha na altura e entretanto deixou de ter.

E continuou a ter até há pouco tempo.

Até ao pós-Troika.

Enfim, e esperemos que não volte.

Sim, hoje em dia com a Covid, se lá forem também têm o mesmo aspeto.

Exatamente. As coisas agora estão pintadas, as fachadas, antes nem sequer estavam. E havia também um outro pormenor que tinhas reparado: é que o incêndio destes armazéns. Estes armazéns são os armazéns do fim do século XIX, princípio do século XX, iniciados por um grande empresário lisboeta, aliás, republicano, o Francisco Grandela. E foi uma tentativa de introduzir em Paris o grande armazém francês.

Em Lisboa.

Em Lisboa, desculpa. É Lisboa com grandes armazéns parisienses. Introduzir Paris em Lisboa. Aliás, há uma loja que se chama Paris em Lisboa ali perto. Pôr Paris em Lisboa. Portanto, nessa altura já Paris não estava em Lisboa e já Paris provavelmente não era bem Paris. E o incêndio coincidiu precisamente com uma nova cidade. Uma cidade construída à volta dos subúrbios e à volta dos centros comerciais voltados para os subúrbios. Uma cidade de automóveis, isto é, em que os cidadãos se deslocam de automóveis e já não elétrico e a pé, como ainda se fazia no princípio do século XX. Portanto, uma cidade que vai preferir as Amoreiras e depois o Centro Comercial Colombo e depois o Centro Comercial Vasco da Gama. É essa cidade da transição dos anos 80 para os anos 90, que são a segunda grande época de crescimento económico em Portugal na segunda metade do século XX. Isto é, portanto, temos uma época nos anos 60, depois temos aquela interrupção nos anos 70 com a crise do petróleo, a própria revolução do 25 de Abril, os períodos de ajustamento com o Fundo Monetário Internacional. O princípio dos anos 80 começa com o país com muito pouco dinheiro, muita inflação, ou antes, muito dinheiro em notas, mas pouco dinheiro com valor, portanto, não se compra muita coisa. E este fim dos anos 80 é a redescoberta do consumo.

Com a ascensão do cavaquismo e com a chegada dos fundos europeus.

Exatamente. E a redescoberta do consumo, e com os investimentos, etc. E a redescoberta do consumo não se faz no comércio tradicional, e este incêndio dos armazéns Grandela é simbólico por isso. Faz-se já nestas novas superfícies comerciais e que são nos subúrbios, que é onde as pessoas podem comprar.

Primeiro foi a abertura do grande continente da Amadora.

Exato, que é onde as pessoas podem colocar os automóveis e fazer as compras, etc. Portanto, foi o fim da velha Lisboa do século XX e foi também, durante algum tempo, a prova da incapacidade dessa Lisboa recuperar a vida. Essa vida só vai ser recuperada, de facto, nos últimos seis, sete anos, com o turismo, com os estrangeiros. Tínhamos há dois, três anos uma baixa que era uma baixa já cosmopolita, porque os portugueses tinham deixado, por exemplo, de vir à Baixa. E digamos que este incêndio, que teve também esta característica de depois ter deixado uma ruína ali no meio da cidade que durou imenso tempo a ser completada, porque havia um plano, depois havia outro, depois aquilo não funcionava, depois o que é que se devia fazer. Portanto, ficaram ali as ruínas durante imenso tempo a significar uma certa dúvida sobre o que fazer exatamente com a cidade, isto é, reconstruir ali qualquer coisa, reconstruir o quê, fazer o quê. Se nós quisermos fazer interpretações simbólicas do incêndio e das suas consequências, bem, estaríamos aí durante muito tempo.

Mas até acho que o Marquês Pombal foi mais rápido após o terramoto de Lisboa, não é?

Sim, o Marquês Pombal provavelmente foi mais rápido, embora nós tenhamos de pensar que quando se chega ao século XIX, isto é, 30, 40 anos depois, ainda há ruínas. Lisboa ainda é uma cidade com muitas ruínas do terramoto. Até porque tinham caído edifícios enormes que demoraram imenso tempo a reconstruir. Portanto, não imaginemos também que o Marquês Pombal foi muito melhor.

Vamos então ao nosso quarto som. Cá está. Simão de Oliveira: "Quem faz um filho, fá-lo por gosto." É um dos versos mais citados da história da nossa música popular e faz parte da canção "Desfolhada Portuguesa", com letra de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazaré Fernandes, que representou Portugal no Festival Eurovisão da Canção em 1969. Foi interpretado por Simão de Oliveira e ficou apenas em penúltimo lugar, azar o nosso, mas aquele verso encontrou, de qualquer forma, o seu lugar na história. Por que uma mulher dizer em 1969 "quem faz um filho, fá-lo por gosto" tinha a capacidade de causar polêmica, Rui? Éramos assim um país tão puritano?

Éramos um país com uma ditadura, já não era a ditadura de Salazar Já estávamos na fase de Marcelo Caetano, isso tem importância para este caso. Mas não éramos um país tão puritano, porque uns anos antes tínhamos andado nos cafés e nos salões, todos muito excitados, a comentar o escândalo dos Ballet Rose, isto é, da prostituição infantil, ou mais ou menos infantil, adolescente, que se dizia envolver altas figuras do Estado, incluindo ministros. Quem queria saber notícias disso não lia os jornais portugueses, mas lia os jornais estrangeiros, onde isso era transmitido. Aliás, é por causa deste episódio que Mário Soares é preso e deportado para São Tomé, uma vez que ele é acusado de ter passado informações, ele que era um advogado da oposição, conhecido, ter passado informações para a imprensa estrangeira sobre este caso.

O Ballet Rose também merece, se calhar, uma conversa mais demorada um dia destes.

É um caso curioso, porque depois até houve um editor, depois de 1974, o Fernando Ribeiro de Melo, que se apoderou do processo e publicou o processo na Afrodite, com os nomes riscados. Mas quem quiser ter ali uma visão pouco puritana da sociedade portuguesa sobre o Estado Novo, tem ali. Com as suas proxenetas, com redes de prostituição organizadas, enfim, aquilo funcionava tudo. Aparentemente, a oferta era grande e com uma grande liberdade. Quer dizer, isto é, sem ninguém se sentir assim demasiado-

Chama-se o Processo das Virgens e pode ser encontrado com alguma facilidade na internet.

Durante algum tempo foi fácil encontrá-lo, porque deve ter tido uma tiragem muito grande.

E várias edições.

E várias edições e ficou por aí às vezes.

Mas aqui estamos em 69, não é? Princípio do governo Marcelo Caetano.

Estamos em 79. Estamos no princípio do governo do Marcelo Caetano. Estamos naquela fase ainda de liberalização do regime, que ainda se fala da famosa Primavera Marcelista. Há aqui da parte do Marcelo Caetano, um esforço duplo. Por um lado, ele quer mostrar que as autoridades, perante aquela vaga de contestação que agita o mundo então, sobretudo o mundo estudantil. Houve greves em Coimbra em 1969, houve evidentemente greves estudantis e manifestações estudantis em França, Maio de 68, nos Estados Unidos, etc. Mas também houve cá. Portanto, ele por um lado quer mostrar que há autoridade, mas também quer mostrar que essa autoridade não é uma autoridade de cara de pau, é uma autoridade aberta e que se pode abrir a uma certa irreverência. E a televisão começa a dar os sinais disso. Dá os sinais disso com programas como o Zip Zip, do Raul Solnado, Carlos Cruz e o Fialho de Oliveira. Hoje em dia já há muitas gerações depois, mas numa determinada altura, toda a gente se lembrava deste programa, mais não seja pelo Raul Solnado, que era uma grande figura do humor português naquela altura. E a Desfolhada, de alguma maneira, faz parte deste jogo, digamos assim. Porque não foi só quando ela foi cantar a canção, que se reparou no verso. Quer dizer, obviamente, os versos da canção tinham de ser examinados antes. Viram aquele verso, deixaram passar mesmo assim. Portanto, houve ali da parte do regime, a vontade de deixar passar este verso. Isto é, quiseram que este verso fosse ouvido.

Um verso de Ari dos Santos.

Um verso de Ari dos Santos, um verso em que aparentemente as pessoas faziam os filhos por gosto. E quis se fazer ouvir esse verso, ainda por cima de um escritor, de um poeta, que creio que já na altura era simpatizante do Partido Comunista, ou pelo menos da esquerda antissalazarista, e portanto, isso também foi deixado passar nessa altura. Portanto, há uma decisão. Aquilo não foi uma espécie de: "Ah, conseguiram enganar." Não, a censura deixou passar isso.

Eu agora estou aqui a imaginar que é possível que alguns dos nossos ouvintes na casa de 20 anos ouçam isto e não percebem o que se passa. Porque ouçam para isto e digam: "Então, mas não é suposto fazer-se um filho por gosto?"

Espera um bocadinho, porque nós estamos a evoluir numa tendência que nas últimas semanas, nos últimos meses, que nos vai deixar, provavelmente, olhar para coisas do Estado Novo e dizer: "Mas que tão ousados, tão brejeiros, tão licenciosos que eles eram então", porque estamos a avançar para o puritanismo.

É possível.

Pede medidas.

Mas aqui o filho por gosto, desculpa, significa evidentemente que há aqui uma alusão ao prazer feminino, não é? Portanto, é exatamente isso que ele está a fazer por gosto.

Sim, há esse prazer, o gosto.

Desculpa, mas tu ias contar uma história.

Mas eu ia contar a história. Quando na internet estive à procura do filme, no arquivo da RTP, aliás, das imagens da Simone a cantar. Depois interessei-me e, por exemplo, encontrei também o Pedro Almodóvar a ler na RTP, numa sessão, o seu poema ao rapaz da camisola verde, que também é numa gravação de agosto de 1969.

Que tem claramente uma leitura homossexual, que depois mais tarde foi gravado também por Fernando Namora, uma canção famosa, que é uma má letra.

Exatamente. E estava lá todo o país oficial e toda a gente, e acho que ninguém tinha dúvidas. Aliás, o poema não deixava muitas dúvidas sobre aquilo. Já agora, uma referência às ciências sociais, uma nota ao Michel Foucault. O Michel Foucault no primeiro volume do Autor Francês, que foi em 1974, mas muito conhecido na universidade hoje em dia. O Michel Foucault escreveu uma história da sexualidade nos anos 80 e o primeiro volume ele explicou que era típico Das chamadas libertações na história da sexualidade, convencer-nos que éramos muito reprimidos no passado, senão não havia libertação. Portanto, digamos que cada libertação precisa da ideia de que éramos imensamente vitorianos, como eu diz, e reprimidos para sentirmos a libertação com um entusiasmo ainda maior, quando por vezes o que se passa é substituição de repressões por outras, como agora, por exemplo, a que estamos a ver atualmente, em que há um novo condicionamento que provavelmente há 20 ou 30 ou 40 anos seria visto como a instauração de uma nova idade puritana e vitoriana, portanto uma regressão. Mas está-nos a ser apresentado outra vez como uma espécie de libertação. Mas enfim, como nós falamos do passado e não do presente, avancemos.

Avancemos então para o som número cinco.

"Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas."

Esta é a frase de abertura do primeiro comunicado dos militares que fizeram o 25 de abril de 1974, que foi lido pouco depois das 4:00 da manhã no Rádio Clube Português pelo jornalista Joaquim Furtado. Era ele que se encontrava de serviço nessa noite quando os estúdios foram invadidos pelos militares do MFA. Quando ouvimos o curto comunicado na íntegra, temos de prestar tributo à sua moderação, Rui. É um apelo à calma, que as pessoas fiquem em casa e à ausência de conflito. Diz coisas como: "Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal" ou "Apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas, no sentido de serem evitados quaisquer confrontos. Há que evitar a todo o custo divisões entre os portugueses" e há ainda a referência à expressão: "Há expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português." Diz-me, Rui, um historiador lê isto com alguma surpresa ou esta linguagem pacifista é normal num golpe de Estado?

Isto dá vontade de dizer como ao Júlio Dantas: como são diferentes as revoluções em Portugal. Isto diz-me alguma coisa pessoalmente. Eu acompanhei a emissão, era muito novinho, mas eu acompanhei uma parte da emissão na rádio durante este dia, 25 de abril de 1974. Ouvi muitos destes comunicados. E penso que eu ouvi muitos destes comunicados como a maior parte dos portugueses ouviu, isto é, sem saber bem o que é que se estava a passar, o que se queria, para onde é que se estava a caminhar nos sítios onde nós estávamos. Eu não vivia em Lisboa, não estava a acontecer nada. E sobretudo, eu vivia num país onde, tinha 11 anos, e já lia jornais. O meu interesse por história começou em grande parte pelos jornais. Foram os jornais que me começaram a fazer interessar por história. E uns meses antes tinha havido uma guerra no Médio Oriente, a Guerra de Outubro, entre Israel e os árabes, e eu, como muitos colegas meus da mesma idade, tínhamos seguido as operações militares pela imprensa e, portanto, tínhamo-nos habituado a ver os jornais. E isso tinha dado-nos um contraste muito grande entre um mundo em que aconteciam determinadas coisas e um país onde não acontecia nada. Isto pode parecer estranho a alguém que hoje se lembre: "Mas Portugal estava em guerra em Angola, Moçambique e na Guiné." Só que a guerra em Angola, Moçambique e na Guiné, na imprensa portuguesa, apareciam uns quadradinhos muito pequeninos lá na última página com os nomes daqueles que tinham morrido em combate. Portanto, era uma guerra que não estava muito visível. A guerra israelo-árabe estava muito mais visível. Este dia, 25 de abril, é um dia que nesta época, para muita gente e durante muito tempo, dividiu o tempo. Lembro muito frequentemente nas conversas, quando nós dizíamos: "Lembras-te que fomos não sei onde, mas quando é que fomos? Foi antes do 25 de abril ou foi depois do 25 de abril?" O 25 de abril era aquela marca. Mas no próprio dia, como já disse ao princípio, foi um pouquinho um mistério. Isto é, quem é que era o MFA? Movimento das Forças Armadas. Movimento das Forças Armadas não diz nada, diz que é um movimento das Forças Armadas. Quem é que estava à frente do Movimento das Forças Armadas? Aquilo era anônimo, rigorosamente anônimo, nem o nome, não se sabia. O que queriam fazer exatamente também não era claro ao princípio. Houve muita gente que pensou que era um A. Havia aquela gente que pensava que a ditadura não era suficientemente ditadura, era preciso torná-la ainda mais forte, ou então era preciso acabar com a ditadura, também ninguém sabia. E quando aparecem aquelas imagens, o jovem capitão no Largo do Carmo, ninguém sabe quem é que é o jovem capitão, nem exatamente quem é que está por detrás dele. Aliás, é uma das questões que Marcelo Caetano constantemente coloca, que é: estou a falar com quem? O que espanta hoje, precisamente, é o lado ordeiro destas comunicações. Calma, autoridade, ordem. E lembro-me muito bem, isto é curioso, porque à noite, nessa noite de 25 de abril, o meu pai levou-me pela primeira vez a ouvir algo que ele ouvia frequentemente, que era a Rádio Voz da Liberdade. Já aqui falámos.

Com Manuel Alegre.

Com Manuel Alegre. E Manuel Alegre, que eu ouvi pela primeira vez nessa noite, estava absolutamente exaltado. Isto é, o Manuel Alegre pedia a toda a gente para sair à rua, para atacar não sei já o quem e o quê, quer dizer, pra derrubar, também já não sei o quem e o quê, mas uma exaltação medonha, e era o contraste total com aquilo que estava num país em revolução, portanto, o Manuel Alegre estava em Agel, num país em revolução, na rádio e na televisão, que era: fiquem em casa, não saiam, a polícia fique quieta, cumpram as ordens das Forças Armadas, estejam todos tranquilos. A preocupação é dar sempre esta impressão de controle, de tranquilidade. Muito ao fim da noite, aparece a Junta de Salvação Nacional, os oficiais generais foram os primeiros caras que nós vemos identificados. O general Spínola fardado, o general Costa Gomes à civil, o almirante Pinheiro de Azevedo, o general Carlos Galvão de Melo, e por aí fora, eles dão também a mesma impressão. Isto é uma impressão de uma grande calma. Sim, aí já percebemos, vai haver liberdade, vai haver eleições, mas na ordem e respeitando a integridade territorial da pátria. E aí percebemos o que é que estava a passar. Isto é uma revolução que acontece num país que está em guerra, isto é, que tem operações militares na Guiné, em Angola e Moçambique e que portanto não pode entrar em caos. O caos seria fatal. É necessário dar a ideia de que as coisas estão totalmente sob controle. Era uma revolução num país que estava em três continentes, tinha quase 200 mil homens em armas em três frentes de combate e, portanto, o grande risco era dar a ideia de que isto se estava a desintegrar. A preocupação era a unidade e evitar qualquer divisão. Essa era nitidamente a maior preocupação de quem fez a revolução naquele dia. Nós, hoje, que estamos habituados a um país europeu, este retângulo europeu, às vezes não nos apercebemos desta outra dimensão do país.

E assim termina esta segunda parte de "E o Resto é História". Mas como este é um programa especial, vamos ter uma terceira parte. Até lá. Olá, sejam bem-vindos à terceira parte. Terceira parte é uma estreia de "E o Resto é História". É um programa especial de aniversário e por isso também mais comprido do que é costume, mas certamente que os nossos ouvintes não estarão aborrecidos. Estamos a passar em revista os oito sons que compõem o nosso genérico de entrada do programa "E o Resto é História". Vamos então para o som número seis e vai ser um grande golo.

Gol de Eusébio!

Cá está, não podia faltar um cheirinho a futebol. Este é um golo de Eusébio, relatado por Artur Agostinho, mais especificamente o quarto golo do Benfica. Na verdade, não foi um dos melhores do jogo, este foi marcado de pênalti, da segunda vez que o Benfica foi campeão europeu, a 2 de maio de 1962. Esse era o grande Benfica de Eusébio, Coluna e Simões e do treinador Béla Guttmann, o famoso da maldição, que então enfrentou o Real Madrid de Puskás e de Stéfano num jogo mítico em que ganhou o Benfica por 5 x 3, depois de ter estado a perder 2 x 0. O fato do relato ter sido feito por Artur Agostinho lembra-me, Rui, que ele próprio pode ser um tema interessante para um dos próximos programas, tendo em conta os livros autobiográficos que publicou após o 25 de Abril.

Bem interessante.

Mas enfim, isso fica pra outra oportunidade. Para já, propunha-te que falássemos de futebol e não sobre a performance do Benfica, mas sobre o papel que o futebol desempenhou no tempo do Estado Novo. Ele foi assim tão importante para o regime, para ser um dos famosos três F de Fado, Fátima e Futebol?

Foi fundamental para o Estado Novo, foi fundamental para o atual regime. Os três F não são uma característica do Estado Novo, são uma característica de vários regimes e de várias situações, porque o Fado, Futebol e Fátima foram os primeiros grandes objetos de atração de massas e os primeiros grandes temas populares da rádio e da televisão. E foram também as grandes formas de projeção de Portugal no exterior. Tiveram estas três características: foram grandes fenômenos de massas, foram a base da cultura audiovisual em Portugal e foram a projeção de Portugal no exterior. O Fado era único, a Amália Rodrigues tornou-se nossa primeira artista com projeção internacional. Fátima tornou-se um dos maiores santuários europeus em meados do século XX. E o futebol ganhou campeonatos nos anos 60. Era o hóquei patins e o futebol, mas ganhou campeonatos e, portanto, há uma cultura popular e radiofónica.

Campeonatos europeus, não é?

Campeonatos europeus. Há uma cultura popular e radiofónica e televisiva, depois, que foi constituída à volta destas três grandes atividades. E isto tornou-se tão grande que permitiu alguns exageros. Por exemplo, o Jorge Bettencourt Nisca, o diretor e o dono do Rádio Clube Português, costumava dizer que se em 1910, quando foi proclamada a República, já houvesse futebol E talvez televisão, admitamos nós também agora aqui, não teria havido República. As pessoas teriam ido para os campos de futebol, não teriam ido para os comícios do Partido Republicano. O que ele está a dizer? Ele está a dizer que o clubismo futebolístico substituiu o clubismo político que caracterizou uma cidade como Lisboa nos anos de 1910. Aliás, o clubismo futebolístico articulou-se também com o bairrismo, isto é, os clubes dos vários bairros e das várias vilas e cidades. Com as classes sociais, havia clubes também de determinadas classes sociais e classes profissionais também, associados a fábricas, por exemplo, no Barreiro, as fábricas da CUF, havia clubes operários, havia clubes de gente de bem. Portanto, permitiu a uma sociedade expressar-se e entrar em luta entre si mais ou menos pacificamente. E o Eusébio, finalmente, ainda tinha a outra característica, que era também de corresponder um bocadinho àquele modelo da sociedade multirracial, antirracista do Estado Novo. O Estado Novo, nesta altura, era muito antirracista. Nas escolas, então, havia um combate contra quaisquer sinais. Bem, era um nível simbólico que funcionava também, atendendo à quantidade de jogadores que vinham do ultramar. Claro que o Estado Novo era antirracista para manter o domínio colonial. Tinha se feito antirracista para provar que havia igualdade entre as pessoas nos territórios que mantinha em África, ao contrário do que diziam as Nações Unidas. Mas quem cresceu sob o Estado Novo nesta época teve o Eusébio no futebol, o Chibanga no toureiro, o Eduardo Nascimento e o Duo Negro na canção, o Mário Domingues na literatura, os deputados africanos da Assembleia Nacional, e depois todos aqueles militares africanos, como o Marcelino da Mata, que eram condecorados. E nos livros da escola tinha uma série de heróis, que eram heróis locais. Lembro do Aniceto Rosário, que tinha morrido a combater por Portugal quando Goa, ou anteriormente umas localidades indianas, tinham sido invadidas, e que nos era dado como o grande herói português. Os grandes heróis portugueses com que eu cresci no fim dos anos 60 e princípio dos anos 70 eram todos como o Eusébio.

Pois bem, ficas também a saber, Rui, que o meu irmão queria que eu me chamasse Chibanga.

Ora vai, um ótimo nome.

Eu nasci em 73, portanto imagina o que se perdeu.

Chibanga Tavares. Agora tinhas um nome. Era apropriação cultural ainda, eras capaz de ter roubado com alguma estátua.

Vamos então ao sétimo som. A grande Amália dispensa apresentações, portanto continuamos no Estado Novo, não só pelo fato de ser um dos três F que acabamos de referir, mas também porque de cada vez que se quer escolher uma canção que retrate uma certa mitologia do Estado Novo, essa escolha recai invariavelmente sobre "Uma Casa Portuguesa". A canção "Uma Casa Portuguesa" foi gravada por Amália em 1952, tornando-se um sucesso internacional, mas a canção nasceu em Moçambique. Amália não foi sequer a primeira a interpretá-la, mas sim uma cantora chamada Sara Chaves. E essa canção tem letra de Reinaldo Ferreira, que é filho do famoso repórter X, talvez um dia também podemos falar dele. Isto só daqui nascem mais sete programas, e do jornalista e autor de peças de teatro de revista, Vasco Matos Siqueira. A música é de Artur Fonseca e a intenção original, diz-se, não era propriamente fazer uma apologia do Estado Novo. Diz a lenda, e esta história foi contada pelo Nuno Pacheco no jornal Público, que os autores da letra estariam num hotel de Lourenço Marques a ensaiar versos pornográficos quando o autor da música os chamou à razão, alertando-os para o fato de estarem numa respeitável casa portuguesa. E assim, seja por ironia ou não, acabamos com versos como: "A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente" e outros que tais, igualmente capazes de encaixar no famoso adágio do "pobrete, mas alegrete". Rui, tu dirias que "Uma Casa Portuguesa" traduz bem essa ideia de um país conformado com a sua própria pobreza? E Portugal era isso nos anos 50 do século XX?

Há um paradoxo na "Casa Portuguesa". Portugal, nos anos 50, já não estava conformado com a sua própria pobreza. Foi precisamente nos anos 50 e nos anos 60 que Portugal saiu da pobreza. O mundo mudou, abriu-se no pós-guerra, em relação aos protecionismos dos anos 30, e permitiu aquilo que iriam ser as causas do enriquecimento em Portugal. A imigração, por um lado, para a maior parte das pessoas, as exportações, a industrialização e as exportações ligadas aos mercados externos, sobretudo depois da adesão de Portugal à EFTA em 1960, e o turismo de massas, que chega também entre os anos 50 e os anos 60. Portanto, a casa portuguesa mudou de vez e deixou de ser pobrete e alegrete na passagem dos anos 50 e 60. Portanto, há uma dupla ironia desta canção da modéstia, que é feita numa sessão de versos malcriados, e de uma canção que representa uma modéstia que estava a começar a ser posta em causa pelo desenvolvimento do país. Nos anos 50 e 60, quando a canção se divulgou, o país já não queria só pão e vinho sobre a mesa, o país queria o automóvel à porta e a televisão em cima da mesa. Agora, a canção pode representar outra coisa, e daí talvez a sua popularidade. Talvez a nostalgia de uma inocência perdida. De quando as coisas pareciam simples e nós nos contentávamos com coisas simples antes de sermos mergulhados no consumo. Antes do consumo se tornar uma opção e se tornar também uma obrigação para manter um certo status. Repara que na Itália, por exemplo, há também o mesmo fenômeno associado aos filmes neorrealistas, em que também há uma espécie de estética da pobreza, que depois é contrastada para criticar a sociedade industrial e consumista dos anos 60 e 70. Isso, por exemplo, é muito nítido no cinema de Pier Paolo Pasolini, em que ele faz muito esse contraste entre a Itália ainda pobre, mas genuína. E ele não é um fascista, é um antifascista. Estamos a falar de alguém que é um comunista, aliás, mas ele ainda faz esse contraste entre essa Itália pobre, mas genuína, ainda não prisioneira das multinacionais, dos consumos, e depois a outra Itália americanizada, a Itália da democracia cristã, etc. Obviamente, para grande infelicidade dele, os italianos nunca tiveram a mínima dúvida sobre a Itália que preferiam. Era a Itália dos automóveis, era a Itália das televisões, era a Itália dos bons apartamentos, não era a Itália das doenças, não era a Itália da polenta, não era a Itália dos bairros de lata. A pobreza é só alegre para quem vê de muito longe.

Exatamente, é isso mesmo. Vamos então ao oitavo e último som.

Quer transformar este país numa ditadura. E existem imensos exemplos históricos.

"Olhe que não, olhe que não." E é assim que concluímos a nossa galeria de oito sons de um genérico que dura apenas 24 segundos. O "Olhe que não, olhe que não", diz Álvaro Cunhal a Mário Soares quando este o acusa de querer transformar Portugal numa ditadura, nos estúdios da RTP a 6 de novembro de 1975. Um momento histórico por inúmeras razões, desde logo, por esta: foi o primeiro debate a ser transmitido pela televisão portuguesa e o mais longo de sempre. Três impressionantes horas e ainda mais 40 minutos. Já não se faz disto hoje em dia, Rui. Mas diz-nos, qual foi a importância desse debate ocorrido apenas 19 dias antes do 25 de novembro de 1975? Já falámos aqui. O PCP estava mesmo a querer transformar o país numa ditadura?

Precisávamos de muito tempo para discutir isso. É um longo debate e é um grande documento histórico. Isto é, nós gostaríamos de ter debates noutras situações da nossa história, o equivalente. Eu gostava de ter o filme do debate entre o Infante Dom Henrique e o Infante Dom Pedro sobre para onde é que se deveria ir na nossa exploração dos oceanos, ou o debate entre o Costa Cabral e o José Estevão sobre a forma da monarquia, ou entre o Afonso Costa e o António José de Almeida sobre que república iríamos ter, ou entre o Cunhal Leal e o Salazar sobre que tipo de regime nos anos 20 é que convinha a Portugal. Não temos, mas temos este. Este é um grande debate, as pessoas acompanharam durante este tempo todo. Obviamente, se isto tivesse acontecido noutros países, havia para aí uma quantidade de teses de doutoramento, livros e artigos sobre este debate. Aqui, como é Portugal, nós temos muito mais coisas que fazer do que isso, mas há algumas histórias engraçadas que o próprio Mário Soares conta. Ele obviamente estava consciente da importância enorme deste debate e estava preocupado em preparar-se. Então parece que havia lá uma equipa a tentar prepará-lo sobre finanças, sobre isso, sobre aquilo, até encontrar alguém que eu creio, estou a citar de memória, que era o Vítor Cunharria, que lhe diz: "Mas o que é que o senhor está aqui a fazer?" "Estou aqui a estudar as coisas." Ele diz: "Ó homem, vá para casa, vá dormir." E o Mário Soares foi para casa, dormiu e diz que foi a melhor preparação para o debate. Quando chegou ao estúdio, estava fresquinho, tinha tomado um banho, tinha dormido toda a tarde e estava ótimo. Isto é uma história engraçada. O Mário Soares sabia que ia em vantagem para o debate. Por quê? Este era um debate em que Cunhal estava a fazer um grande esforço para se reconciliar com o Soares, depois do comportamento um bocadinho agreste que tinha tido com o Soares durante o ano de 1975, quando o PCP tinha beneficiado da influência que exercia através da facção ligada a Vasco Gonçalves no Movimento das Forças Armadas. Vasco Gonçalves tinha sido primeiro-ministro, portanto o PCP tinha tido uma enorme influência no país desde março, sobretudo, 1975 até agosto de 1975, e durante essa época tinha-se permitido tratar mal todos os outros partidos, incluindo o Partido Socialista e incluindo Mário Soares. Mário Soares conta isto, como Cunhal o tratava de cima do cavalo. Ora bem, este é um Cunhal isolado, é um Cunhal que está a sentir o país escapar-lhe completamente. Há uma revolta anticomunista no norte, as sedes do Partido Comunista estão a ser incendiadas no norte. Cunhal sente que está a ser isolado e, portanto, isto é uma tentativa de aparecer um Cunhal simpático para com Mário Soares. Sorridente, cordato, ponderado, moderado, etc. E Soares sentiu imediatamente isso e percebeu imediatamente que era fácil destruir essa imagem. E, portanto, aparece um Cunhal moderado à defesa e aparece um Mário Soares extraordinariamente agressivo e a empurrar constantemente Cunhal contra as cordas, donde Cunhal não se pode defender, porque senão parece mal. Cunhal é apanhado na sua situação. E a grande frase de Soares não é apenas essa da ditadura, é outra, é uma frase terrível que eu lembro-me de ver ao vivo o debate, e lembro-me que foi a destruição de Cunhal, quando Soares se vira para ele e diz: "O senhor mete medo às pessoas." Eu estou a citar de memória, mas penso que a memória não falha. "O senhor mete medo às pessoas." E viu-se Cunhal sem saber o que é que havia dizer. Isto é completamente contra a parede. "O senhor mete medo às pessoas." Uma frase terrível, uma coisa terrível para dizer, e era o grande problema de Cunhal, Cunhal metia medo às pessoas. Em novembro de 1975, o doutor Álvaro Cunhal metia medo. Metia medo, porque tinha a influência enorme que ainda mantinha nos militares, tinha a União Soviética por trás, tinha, de facto, a ideia que queria instaurar uma ditadura em Portugal, como é óbvio. Era a opção dele. Não era, obviamente, uma ditadura imediata. Melo Antunes tinha explicado isso numa entrevista ao Nouvel Observateur, quando tinha dito à revista francesa, quando lhe perguntaram: "Acha que o Partido Comunista quer tomar o poder em Portugal?" Melo Antunes, conselheiro da Revolução, diz: "Sim, o Partido Comunista quer tomar o poder em Portugal, mas a prazo, não o quer tomar já. Ele neste momento quer reforçar as suas posições, mas sobretudo o Partido Comunista quer manter uma situação que lhe permita continuar a exercer a influência que teve no verão de 75, sem dar a cara." Isto é, o que o PC quer é que haja uma situação Militar, isto é, com um grande predomínio militar, em que o PCP possa exercer a sua influência através da influência que tem nos militares e não abertamente. Portanto, não, o PCP não quer transformar Portugal na União Soviética, o PCP não quer transformar Portugal em Cuba, o PCP não quer transformar Portugal na RDA, porque sabe que isso era uma loucura, porque sabe que uma grande parte da população não aceitava isso, porque sabe que Portugal é um país da NATO e um país dependente do mercado comum e seria destruído num mês. Mas o Cunhal é um stalinista e enquanto stalinista é muito flexível nos seus instrumentos e encontrou uma maneira de resolver o problema de tomar o poder num país da NATO. E é através das Forças Armadas. Infiltrar as Forças Armadas, criar um regime em que as Forças Armadas mantêm o poder através do Conselho da Revolução, através da Presidência da República e exercer por meio das Forças Armadas. Agora, nessa altura já não lhe bastava estar com as Forças Armadas, ele precisava que o Partido Socialista aceitasse isso. E Mário Soares não aceita isso. Ele diz mesmo a brincar: "E depois o que é que me acontecia? O senhor dava-me uma medalha Lenin?" Não, Mário Soares não está disposto a colaborar nesse regime de comunismo discreto. E é esse choque que se vê neste debate.

Que de certa forma antecipa o plebiscito de 25 de novembro, não é?

Exatamente. Umas semanas depois, o Cunhal acaba por perder aquilo que era um dos seus instrumentos de influência, que é a esquerda militar. Ainda tenta manter-se agarrado depois ao Conselho da Revolução, à Presidência da República, quando ela é exercida pelo General Lannes, mas nitidamente em perda.

Muito bem.

A força do PC, que tinha tido apenas 12% nas eleições para a Assembleia Constituinte em 25 de abril de 1975, a força do PC era as Forças Armadas. E a influência que tinha nas Forças Armadas. O PC, como diz Mário Soares, tinha constituído em Portugal um partido militar. E era esse partido militar que ficou destruído em novembro de 1975.

Muito bem. E assim terminar a nossa coleção de oito sons. E assim está explicado, da melhor forma que nós fomos capazes, o genérico de "E o Resto é História". Espero que o continue a ouvir muitas vezes, semana após semana. Nós estaremos aqui de novo na próxima quarta-feira. Até lá.

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