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As armas e os barcos. E o resto é história. É a terra a fumar. Do Incêndio e Poesia, ainda na zona do Chiado. Que faz um filho, fá-lo por gosto. É que o pai, filho vermelho, troco de colo, fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Há 90 anos era oficialmente criada a Organização Nacional Mocidade Portuguesa, através do Decreto de Lei número 26.611, de 19 de maio de 1936. A Mocidade Portuguesa transformou-se imediatamente numa das mais emblemáticas organizações do Estado Novo e só foi abolida após o 25 de abril de 1974. Todas as crianças entre os sete e os 14 anos tinham, em teoria, de fazer parte dela, e os seus objetivos estavam definidos no primeiro artigo do tal decreto de lei: estimular o desenvolvimento integral da capacidade física da juventude portuguesa, a formação do seu caráter e a devoção à pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever militar. Enfim, a Mocidade Portuguesa foi sinônimo de jovens fardados, braço direito estendido em saudação romana, uma prática que viria a ser abandonada em 1945, por razões óbvias. O emblemático hino do "Lá Vamos Cantando e Rindo" e o cinto com a letra S, que supostamente significava servir, mas que toda a gente achava que significava Salazar. Dois ouvintes já nos tinham enviado, há algum tempo, perguntas sobre a Mocidade Portuguesa. O Miguel Figueiredo gostava de saber o que era exatamente, quais as suas conotações políticas com o Estado Novo e também se a fivela do cinto com o S de Salazar, que já vimos que não era de Salazar, teria sido criada por Humberto Delgado. Não sei se o Rui sabe responder a esta. Já o ouvinte Manuel Rocha alarga o âmbito da questão e pergunta tanto sobre a Mocidade Portuguesa como sobre a Legião Portuguesa. Ele quer saber que objetivos tinham, para que serviam, quem recrutavam e se eram muito participadas. O Manuel Rocha tem ideia de que a Mocidade Portuguesa era mais popular devido à sua vertente desportiva, enquanto a Legião Portuguesa seria uma milícia. Era mesmo assim, Rui?

Sim, a Legião Portuguesa era uma milícia armada para adultos e a Mocidade Portuguesa era uma organização juvenil, mas também paramilitar. Portanto, também tinha um aspecto de milícia. Elas surgiram no mesmo ano, 1936, embora não exatamente no mesmo tempo. Estas duas organizações, e são organizações paramilitares, repito, com uniformes, treino militar, marchas, contacto com armas, bandeiras, aquelas coisas todas. Estas organizações são talvez o aspecto do Estado Novo, ao lado da organização corporativa, que mais lembra o regime fascista italiano. Portanto, é interessante ver como é que surgiram, em que contexto surgiram, para perceber melhor o que também era o Estado Novo ou o que o Estado Novo foi tentado a ser em meados da década de 1930 e depois foi ajustando aquele aspecto que tinha adquirido em 1937.

Quando isso passou a ser problemático, altamente problemático.

Sim, ou ao menos recomendável, ao menos na moda também, que há um lado de moda também. Bem, o primeiro ponto, portanto, estamos em 1936, três anos depois da instalação do Estado Novo, com a Constituição de 1933 e 10 anos depois da instauração da ditadura militar em 1926. Estamos perante organizações que demoraram a surgir na história do regime. Três anos depois da instauração do Estado Novo. E isto é interessante porque não foi porque não houvesse, dentro da situação criada pela ditadura militar em 1926, quem tivesse tentado propor milícia armada, uma milícia de serviço armada. E a ditadura militar nunca deu seguimento a isso, por duas razões. Primeiro, porque há uma determinação do comando das Forças Armadas em manter o monopólio das armas, o monopólio da força armada, digamos assim. E depois também, quando Salazar se torna o líder da situação, sobretudo a partir da sua ascensão à chefia do governo em 1932, é muito nítido que Salazar tem alguma desconfiança em relação a movimentos ou organizações que pudessem escapar ao controle do governo, que pudessem criar uma dinâmica própria, autónoma, e com isso escapar ao controle que ele gostava de exercer sobre o Estado e sobre organizações que estivessem na órbita do Estado. E a propósito disso, já aqui falámos uma vez do confronto entre Salazar e o movimento nacional sindicalista, iniciado por Rolão Preto. Em 1933, Rolão Preto, é o ano também em que Hitler chegou ao poder na Alemanha, Rolão Preto, também com bigode à Hitler, tenta lançar em Portugal o movimento Como os fascistas italianos e como os nazis alemães, com camisas de cor, no caso dos nacional sindicalistas eram azuis, saudações romanas, um chefe carismático, que era o próprio Rolão Preto, e disposição para os combates de rua, confronta várias vezes as oposições de esquerda em distúrbios, em praças e ruas. Ele tem algum apoio de alguns militares que já estão um bocado cansados de Salazar e queriam uma coisa mais dinâmica. Mas Salazar vai resistir ao nacional sindicalismo. Ele vai proibir o movimento nacional sindicalista em 1934. Estes fascistas portugueses, e estes eram mesmo fascistas, vão acabar na oposição ao salazarismo. Logo em 1935, Rolão Preto está envolvido numa conspiração para derrubar Salazar e depois na década de 50, vinte e tal anos depois, ele vai aparecer junto à oposição de esquerda, por exemplo, na campanha de Humberto Delgado em 1958. Rolão Preto está ao lado de Humberto Delgado.

E o Salazar resistiu ao Rolão Preto por não gostar do Rolão Preto ou por não gostar das ideias do Rolão Preto?

Eu acho que ele não gostava do que representava o movimento nacional sindicalista, de um movimento que era autônomo em relação à ditadura salazarista, basicamente. Esse é o principal problema. Depois há um problema também que Salazar tem em relação às ideias de Rolão Preto. Ele acha que o Rolão Preto está a imitar os nazis e os fascistas e que a ditadura portuguesa tem uma doutrina própria definida por ele, Salazar. Portanto, tem estas razões. E depois, claro, também não tinha uma grande consideração por Rolão Preto, que era mútuo, que Rolão Preto também não tinha uma grande consideração por ele. Havia aí nitidamente uma rivalidade entre dois chefes da situação. Reparem, o Salazar dispensa esse tipo de movimentos porque ele tem o apoio das Forças Armadas, através nomeadamente até do presidente da República, o general Carmona, tem o apoio da Igreja, através do cardeal patriarca, um amigo pessoal, o cardeal Cerqueira, e também tem o apoio, nesta altura, de uma parte da direita republicana, dos antigos militantes dos partidos da direita da Primeira República, que tinham aderido em grande número à União Nacional em 1932 e 33. Portanto, ele não precisava dos fascistas nesta altura, e os fascistas, sobretudo como Rolão Preto, que podiam desafiar o poder de Salazar, que iam exigir mais do que Salazar estava a fazer, que iam pressionar o governo para criar uma dinâmica de mobilização fascista no país, que era uma coisa que Salazar não tinha criado até então e nunca criou, aliás, e não estava nada interessado. E portanto, ele não estava interessado numa força de pressão nas ruas, com uma presença nas ruas que o fizesse ir neste ou naquele sentido. Isto não quer dizer que Salazar tivesse resistido a todas as ideias, a todas as teorias do fascismo. Ele aceitou a ideia do Estado corporativo. É verdade que também tinha origens, raízes católicas, não era apenas fascista, mas criou o Subsecretariado de Estado das Corporações em 1933, aliás, que entregou a um jovem que vinha do integralismo lusitano, Pedro Teotónio Pereira. E Teotónio Pereira, quando se tornou membro do governo com responsabilidade pelas corporações, integrou na governação muitos ex-nacionais sindicalistas que não tinham seguido Rolão Preto, isto é, daqueles que tinham achado demais Rolão Preto ter passado à oposição contra o salazarismo e, portanto, mantiveram-se na órbita do regime e depois foram integrados em institutos, organismos corporativos. Da mesma maneira, por exemplo, quando houve o desafio nacional sindicalista, o governo salazarista promoveu a chamada Ação Escolar Vanguarda, que é uma espécie, às vezes parece um antecedente da Mocidade Portuguesa, quer dizer, também uma organização juvenil, neste caso mais até nitidamente estudantil, para organizar a juventude e dar-lhe uma orientação política. Isso acontece em 1933 e nitidamente o objetivo é disputar o terreno ao nacional sindicalismo. O nacional sindicalismo estava a ter um grande sucesso nas escolas superiores, nos liceus e os salazaristas criaram esta Ação Escolar Vanguarda para rivalizar com o nacional sindicalismo. Nunca foi um grande sucesso, nunca passou dos 2000 filiados.

Porque essa não era obrigatória, não é?

Não. A partir do momento em que o nacional sindicalismo foi proibido em 1934, o governo também se desinteressou completamente desta Ação Escolar Vanguarda, isto é, deixou de se interessar e aquilo em 1935, por exemplo, já não tinha qualquer atividade, demonstrando mais uma vez como Salazar só olhava para isto de um ponto de vista político e do seu controle político. Interessava-lhe controlar o espaço público, que controlava através da ditadura, da censura, das proibições, das limitações de atividade política, mas quando apareciam forças a quem ele não podia negar ou atribuir intenções que atribuía às oposições de esquerda, tentava-as limitar desta maneira, criando alternativas e até entrar em choque com elas e proibi-las, como aconteceu com o nacional sindicalismo, de que, repito, já falámos, há aqui um programa sobre o nacional sindicalismo. Portanto, o que Salazar detestava era a possibilidade destes movimentos de repente desenvolverem uma autonomia que começasse a fazer pressão sobre o governo, isso era uma coisa que ele absolutamente dispensava. E com razão, porque outras ditaduras conservadoras que existiram na Europa e que tiveram de conviver com movimentos fascistas, de tipo fascista, como por exemplo, aconteceu na Hungria e na Roménia, que tinham ditaduras conservadoras e depois tinham movimentos fascistas muito fortes, como as Flechas Cruzadas na Hungria ou a Guarda de Ferro na Roménia. O que aconteceu é que essas ditaduras conservadoras, primeiro tentaram entender-se com esses movimentos fascistas e depois acabaram por chegar a confrontos, proibi-los, persegui-los e entrar em guerra com eles. Portanto, nunca foi fácil este convívio entre ditaduras nacionalistas, conservadoras e movimentos que reivindicavam uma natureza nitidamente fascista, revolucionária. Quando estamos a falar de fascista, é uma natureza revolucionária, mobilização das massas, uma presença física e armada nas ruas.

Mas o que acontece então em 1936 para que Salazar, de certa forma, mude de ideias, embora vá criar uma organização sob o seu controle direto?

O que é que aconteceu? Aconteceu em fevereiro de 1936, no princípio do ano, a vitória das esquerdas nas eleições espanholas e a constituição de um governo de esquerda em Espanha, um governo da Frente Popular, e portanto, um governo hostil à ditadura portuguesa. E depois aconteceu em julho o começo da Guerra Civil de Espanha. Agora, a vitória da esquerda logo em fevereiro em Espanha deu a ideia de que Portugal iria ficar rodeado por um país hostil e a ditadura salazarista percebeu que lhe convinha reforçar-se com gente combativa, integrada em organizações com uma certa dinâmica armada, uma dinâmica ideológica na rua, e não apenas ter a União Nacional, que era aquilo que tinha, e que era uma organização de quadros, gente próxima, antigos políticos dos partidos republicanos, quadros administrativos, cheio de funcionários públicos, uma coisa um pouquinho mais pacífica e mais velha. Portanto, ele precisava de gente mais nova, gente na rua mobilizada. É neste contexto que a primeira instituição a ser criada é a Organização Nacional da Mocidade Portuguesa, e é criada pelo próprio governo, pelo ministro da Educação, o Carneiro Pacheco, em maio de 1936. É curioso, porque os estatutos da União Nacional em 1932 já tinham previsto uma organização de juventude para serviços patrióticos, militares e navais, típico como é a Mocidade Portuguesa. Mas não tinha sido criada, durante quatro anos não foi criada, e quando é criada, não é criada como uma organização da União Nacional, mas como uma organização do Estado, isto é, do governo, sujeita ao Ministério da Educação Nacional e vinculada à preparação militar. A Mocidade Portuguesa, a partir de 1936, vai tornar-se obrigatória, mas em contexto escolar. O governo aliás tem o cuidado de lhe dar uma organização centralizada, presidida por uma comissão nacional nomeada pelo ministro da Educação e depois tem atividades paramilitares, de treino militar, que é dirigida por um comandante da milícia também nomeado pelo governo. É uma organização das escolas, escolas primárias, liceus, tem vários níveis, os lusitos para os sete a 10 anos e depois os infantes, os vanguardistas, os cadetes para os mais velhos. A atividade ocorria aos sábados com marchas, saudações à bandeira, festas desportivas, etc. Quando possível, os jovens deviam estar fardados, mas não era obrigatório estar fardado, tinham de ser eles próprios, as famílias a custear a farda. Era uma farda de calças castanhas, camisa verde escura e o tal cinto com um S. Eu não tenho a certeza em relação à história do Humberto Delgado, mas penso que é daquilo que provavelmente criado-

Tem ar de mito urbano.

Sim, para dar a ideia que o Humberto Delgado, de facto, nos anos 30, é um grande entusiasta nacionalista do salazarismo e depois torna-se um líder da oposição nos anos 50, 20 anos depois, e portanto contam-se muitas histórias que ele tinha sido isso, para além daquilo que ele verdadeiramente tinha sido. A Mocidade Portuguesa faz acampamentos de verão, atividades desportivas, há muitas publicações.

Mas quando tu dizes que o S, achas que é de servir?

Era de servir.

E agrada também de Salazar um bocadinho, se calhar dava jeito. Para manter a ambiguidade.

Havia nitidamente um culto de Salazar, mesmo. Havia quem manda, Salazar. E portanto, o S era bastante conveniente porque servir ao mesmo tempo Salazar. Em 1937.

37, fica para a segunda parte. Sim, muito bem. Nós vamos para um pequeno intervalo, até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar da Mocidade Portuguesa e tu estavas em 1937 quando chegamos a esta parte.

É, 1937, no ano seguinte. Estávamos a falar da Mocidade Portuguesa ainda para rapazes. E em 1937 é criada a Mocidade Portuguesa Feminina para raparigas. Mais uma vez criada pelo Ministério da Educação Nacional, o ministro Carneiro Pacheco, e fica subordinada, curiosamente, a uma outra organização que é a Obra das Mães para a Educação Nacional, que é uma organização de senhoras apoiantes do regime e tem como objetivo ajudar a iniciar no apoio ao regime o resto das jovens portuguesas. A primeira comissária nacional da Mocidade Portuguesa Feminina foi a deputada Maria Guardiola, uma das primeiras deputadas portuguesas, uma vez que o Estado Novo foi o primeiro regime que deu o direito de voto às mulheres e também permitiu que as mulheres fossem eleitas, embora no caso do direito de voto com restrições. E a Mocidade Portuguesa Feminina é a primeira organização a dar educação física às raparigas e integrá-las em desfiles, o que causou alguma discussão. Julgou-se que se estava a masculinizar as jovens com a atividade de esporte e depois as marchas também, e que seria talvez até um pouco contraditório com a ideia de defesa da família, que devia ser o principal centro de educação. Agora estava-se a criar estas organizações em que as raparigas poderiam também ser educadas. O que é que faziam as raparigas na Mocidade Portuguesa? Canto coral, serviços sociais, não tinham a parte da preparação militar, faziam serviços sociais, apoios a isto e aquilo, organizações de apoio social, etc. Portanto, estas mocidades, tanto a Mocidade Portuguesa como a Mocidade Portuguesa Feminina, nunca enquadraram nem de longe toda a juventude portuguesa.

Isso é uma coisa que eu queria te perguntar. Era obrigatório, não é?

Sim, mas era relativamente obrigatório. Só era obrigatório onde existisse, e não existia em todos os sítios. Primeiro temos que pensar que nem todos os jovens estavam no sistema de ensino. É só em 1960 que uma primeira geração de crianças em idade escolar entra toda no ensino público. Portanto, todos aqueles que não estavam no ensino ficavam de fora da Mocidade Portuguesa. E depois a Mocidade Portuguesa não existia em todas as escolas primárias, existia em todos os liceus, mas mais uma vez, nem todos os jovens estavam nos liceus.

Eles chegavam ao liceu.

Ou muito poucos chegavam aos liceus e não estavam em toda a escola primária. Portanto, muito provavelmente nunca terão abrangido pouco mais de metade dos jovens portugueses, e só nos anos 50 e nos anos 60. Foram sobretudo organizações urbanas, liceais, aí sim, nos liceus era possível que estivessem mais abrangidos.

E cunhas, também havia cunhas para dispensar.

E havia cunhas também, as famílias bem relacionadas também conseguiam dispensas, como do serviço militar, para os jovens não se chatearem aos sábados com as suas atividades. Mas imagino alguém que estivesse no interior, Trás-os-Montes, na Beira Interior ou coisa assim, numa escola em Castelo Branco, Bragança, numa escola primária aí nesses distritos. Muito provavelmente a probabilidade de ter passado pela Mocidade Portuguesa é mais baixa do que alguém que estivesse num liceu em Coimbra, no Porto ou em Lisboa. Não estou a dizer que não tivesse abrangido muita gente e que não tivesse sido relevante para a experiência de ter sido jovem em Portugal nos anos 40, 50 e 60, mas é muito provável que muito pouca gente tenha tido uniforme e que nem toda a gente tenha alguma vez participado em atividades da Mocidade. A Legião será outra, a Legião Portuguesa.

Que também é criada em 1936.

Também é criada, mais uma vez, pelo governo, Conselho de Ministros, 15 de setembro de 1936, mas em condições um pouco diferentes. A criação da Legião tinha sido exigida umas semanas antes, num grande comício de apoio aos nacionalistas espanhóis, que tinha ocorrido na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, a 28 de agosto, e tinha sido uma organização dos sindicatos nacionais, sobretudo, e também de uma outra organização que existia de apoio à ditadura, que era a Liga de 28 de Maio. Era um comício anticomunista. A guerra civil de Espanha tinha começado em julho. Tinha-se criado em Portugal aquela ideia de que se o governo republicano vencer, o comunismo vai ficar instalado em Espanha. Há um grande alarme a esse respeito. Há este grande comício e que se exige uma milícia armada para os portugueses poderem defender do comunismo, se por acaso os republicanos, que aqui eles tratam como comunistas, vencerem em Espanha e depois quiserem fazer qualquer coisa em relação a Portugal. Salazar não é um entusiasta desta ideia, ele resiste à ideia, acha isso um disparate. Inicialmente, não está nada entusiasmado com a ideia de criar esta milícia armada, mas acaba por ceder e é criada por decisão do Conselho de Ministros esta polícia.

Mas consegue explicar muito brevemente a diferença entre a Mocidade e a Legião? A Legião era só para adultos.

A Legião é para adultos.

Tinhas que ter mais de 18 anos, é isso?

É, a Legião é para adultos

E voluntária.

E voluntária, completamente voluntária. Fazia parte da Legião quem quisesse fazer parte da Legião, mas houve milhares de pessoas que se inscreveram.

Mas ficavam armados? Ficavam com armas?

Não, já vamos falar disso. O que o regime tem em 1936? A Mocidade Portuguesa, tem a União Nacional, que tinha sido criada em 1930. Na União Nacional predominam, sobretudo nesta época, gente que vem dos partidos republicanos conservadores, da direita republicana. Isto é, gente que tinha tido experiência política antes, em oposição aos governos da esquerda republicana, tinha apoiado a ditadura, tem alguma importância política e agora transita para esta organização, que é uma organização que não é classificada como um partido, é apenas uma organização de apoio ao governo, uma organização cívica de apoio ao governo, é assim que é apresentada. Tem uma comissão central, desde 1932, Salazar é o presidente. Uma organização, a União Nacional, muito ligada à administração, a atividades eleitorais, isto é, nas campanhas eleitorais de apoio aos candidatos do governo. A Legião Portuguesa é uma coisa completamente diferente. Na Legião Portuguesa vão predominar os entusiasmados com o fascismo verdadeiramente, aqueles que gostavam de andar de uniforme e praticar com armas. E por isso a relação entre as duas organizações é muito má, entre a União Nacional e a Legião Portuguesa. É muito má. E a União Nacional sente-se um pouco esvaziada pela constituição da Legião Portuguesa. Em 1936, a União Nacional entra em decadência, tem menos inscritos, e aqueles que entusiasticamente apoiam Salazar e o regime passam a inscrever-se na Legião Portuguesa. A Legião Portuguesa parece, em 1936, quase que estar a substituir a União Nacional. Há um grande entusiasmo dentro daqueles que apoiam o regime, obviamente. Em relação à Legião Portuguesa, há muita gente que se inscreve. Em 1939, tem 53 mil filiados, dos quais 30 mil têm farda e instrução militar, 30 mil fardados e com instrução. E além de um corpo principal, a Legião tinha depois corpos especiais, como uma brigada naval, uma brigada automóvel, um serviço de informações, que passa a apoiar até a polícia política também, a recolher informações que passava ao ministério do Interior e depois pra polícia, era assim através do Estado. E Salazar que tinha resistido inicialmente, depois aceita em 1937, no aniversário do 28 de maio, e o aniversário de 28 de maio nesse ano está muito focado no desfile da Mocidade e da Legião Portuguesa. E Salazar faz uma pequena nota pra imprensa, com uma frase curiosa. Ele diz: "Não pode haver já entre nós lugar nem para os tímidos, nem para os céticos." Estamos em plena Guerra Civil de Espanha, ainda não se sabe como é que a Guerra Civil de Espanha vai acabar, e o governo de repente sente a necessidade de mobilizar à sua volta a opinião nacionalista, isto é, aqueles que são mais anticomunistas e a favor do Estado autoritário. E, por exemplo, o Manuel Braga da Cruz, que escreveu um grande livro sobre a União Nacional, um estudo importante publicado de Salveirra em 1988, ele diz que há, de fato, um esvaziamento da União Nacional a favor da Legião. E a União Nacional deixa de ter muita atividade e a Legião passa a estar mais presente. Mas na criação da Legião Portuguesa, Salazar continua a ter cuidados. Quais são os cuidados? Cuidados de limitar o alcance da Legião. Primeiro, a Junta Central da Legião e o Comando-Geral da Legião são entregues a oficiais das Forças Armadas e a membros do governo.

Portanto, no topo da hierarquia estava o exército e o governo.

Oficiais das Forças Armadas, membros do governo. Exatamente. O primeiro presidente da Junta Central é João Pinto da Costa Leite, que é subsecretário de Estado das Finanças, portanto, trabalha com Salazar. E o primeiro comandante-geral é o coronel Namorado Aguiar, que tinha sido um dos oficiais da ditadura militar. Também na Mocidade Portuguesa, todo o treino militar é dirigido por oficiais do exército. Predomínio das Forças Armadas sobre estas organizações. Mais, estavas a falar das armas. A Legião não tinha armas próprias.

Ok.

Não tinha armamento próprio. Isto é, quando queria manejar armas, ia aos quartéis receber instrução, e as armas ficavam nos quartéis.

Isso é uma diferença pra outras organizações?

É uma diferença pra outras organizações armadas. Quando nós pensamos nos equivalentes, por exemplo, das milícias armadas no Estado Nacional Socialista Alemão, elas constituem exércitos paralelos em relação às Forças Armadas, isto é, as SA e as SS. As SS têm um exército, têm divisões blindadas com tanques, é um exército paralelo, com uma estrutura hierárquica paralela, e durante a Segunda Guerra Mundial, as forças SS combatem na frente, como divisões equivalentes às Forças Armadas.

As SS alemãs não estavam subordinadas ao exército?

Não, as SS alemãs são do Partido Nacional Socialista São uma hierarquia própria.

Acho que nunca contamos essa história.

É, têm uma hierarquia própria.

Já temos de fazer um episódio das SS.

Durante a Segunda Guerra Mundial, obviamente estão integradas no comando das frentes militares, mas é um comando próprio, tem o seu comandante, que é o Reichsführer-SS Heinrich Himmler, e a partir daí tem os seus oficiais, tem escolas de oficiais próprios, etc. A Legião não tem nada a ver com isso. A Legião é uma série de civis, que metade deles está em farda, e quando querem manjar uma pistola ou dar uns tiros, vão ao quartel e têm lá os oficiais, e além disso são sujeitos aos oficiais das Forças Armadas. Mais ainda, em 1937 e 38, o governo até se dedica a afastar da Legião Portuguesa alguns mais entusiasmados. Quando percebe que há alguém muito entusiasmado, começa a ser afastado. E depois é curioso, em 1939 acaba a guerra civil de Espanha, em abril, e no 28 de maio há outra vez desfiles. E Salazar faz um discurso para a Legião, com palavras incrivelmente ambíguas. Ele diz assim: "Há quem suponha que afastado do país o perigo comunista, teria chegado ao fim a vossa missão." Isto é, a Legião já deixava de ter feito. Mas depois ele diz: "Não, eu não penso nada disso." Mas há quem pense que vocês já não fazem sentido. A Legião já não faz sentido, já não há guerra civil em Espanha, temos agora o general Franco no poder, com os nacionalistas no poder.

E portanto, tu estás a achar que ele na verdade pensava.

Ele já estava a pensar que já não vale a pena esticar mais, já não é preciso.

E se não vale a pena esticar, significa que encolheu?

Não encolheu logo, não, porque depois há a Segunda Guerra Mundial, e a Segunda Guerra Mundial vai dar outra vez uma dinâmica à Legião, que fica associada à defesa civil do território. Eu estive a falar agora da Legião e desta limitação da Legião, mas nós encontramos a Mocidade Portuguesa a ser limitada também da mesma maneira. O primeiro comissário nacional é Francisco José Nobre Guedes. Ele segue o modelo dos fascistas das organizações juvenis do fascismo italiano. A ideia inicial era concentrar toda a atividade juvenil, em termos destas organizações, na Mocidade Portuguesa. É essa a ideia do seu comissário nacional, é a ideia também do ministro da Educação Nacional, o Carneiro Pacheco, mas não é a ideia da Igreja Católica. A Igreja Católica tinha lançado o Corpo Nacional de Escuteiros, e o cardeal patriarca Gonçalves Cerejeira recusa-se a dissolver o Corpo Nacional de Escutas. Quer dizer: "Não, vamos manter os escuteiros, vamos manter organizações juvenis católicas, não vamos dissolver-nos para haver só a Mocidade Portuguesa." E portanto, nunca houve só a Mocidade Portuguesa, continua a haver organizações como os escuteiros. E o cardeal patriarca não só conseguiu manter o Corpo Nacional de Escutas, como conseguiu impor uma direção religiosa superentendida pela Igreja à Mocidade Portuguesa. A partir de 1939 é criado o cargo de diretor da formação moral da Mocidade Portuguesa, que é entregue a um padre, o padre Manuel Rocha, que aliás tinha sido um dos fundadores da Juventude Operária Católica. E no caso, por exemplo, da Mocidade Portuguesa Feminina, todos os dirigentes vêm das organizações católicas. Temos, por um lado, as Forças Armadas e a Igreja e o governo, claro, a tutelar estas organizações e a conter estas organizações dentro de limites, que são os limites que convêm ao governo e também convêm à Igreja e convêm às Forças Armadas também. Isto é sempre limitado, nunca deixam estas coisas ganharem uma vida própria e com grande entusiasmo. Em 1940, torna-se comissário nacional da Mocidade Portuguesa Marcelo Caetano, professor da Faculdade de Direito, era um colaborador de Salazar no Ministério das Finanças como assessor jurídico e depois vai ser uma das grandes figuras do Estado Novo. E Marcelo Caetano investe muito na Mocidade Portuguesa. Mas investe na Mocidade Portuguesa com duas perspetivas que não eram exatamente as iniciais. Primeiro, na prática, ele tenta fazer da Mocidade Portuguesa outros escuteiros. É isso que ele faz da Mocidade Portuguesa. No âmbito escolar, sobretudo nos liceus, a ideia de preparação física, etc. Acampamentos de verão, convívio, etc. Por outro lado, ele tenta fazer da Mocidade Portuguesa uma espécie de escola onde ele possa ir pescar a futura elite política, recortar a futura elite política. E por isso, por exemplo, Marcelo Caetano não gosta da obrigatoriedade da Mocidade Portuguesa, logo nos anos 40. Ele gostava de torná-la voluntária, precisamente porque quer tornar aquilo uma seleção, uma elite, não uma organização de massas, mas uma escola de quadros, desde pequenos apanhar pessoas capazes nos liceus para os formar na ideologia, nas doutrinas do regime e os interessar numa atividade cívica e política e depois criar os futuros quadros. E para isso investe muito, por exemplo, nas escolas especiais de graduados, os chamados graduados da Mocidade Portuguesa, que já são os mais velhos, aqueles que continuam na Mocidade Portuguesa depois já daquela idade De serem mais jovens nas escolas.

Rui, nós ainda temos aqui mais algumas coisinhas para dizer sobre a mocidade portuguesa, mas chegamos ao final do tempo para quem nos está a ouvir em direto em FM. Para essas pessoas, eu despeço-me e até para a semana, os outros já sabem, podem ouvir mais um pouco desta conversa em podcast. Muito bem, nós tínhamos falado também há pouco da Segunda Guerra Mundial e tu estavas a dizer que aí continuou intensa a Legião. E a mocidade, imagino.

E a mocidade, claro. Na Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, viu-se os riscos da Legião Portuguesa.

Houve entusiasmo?

Houve demasiado entusiasmo de vez em quando. Na Segunda Guerra Mundial, o governo de Salazar foi neutral, fiel à aliança britânica, mas a Junta Central da Legião Portuguesa, em junho de 1941, quando a Alemanha nazi atacou a União Soviética, em nome do anticomunismo, apoiou a Alemanha nazi.

Com a autorização do Marcelo Caetano?

Não, estamos a falar da Legião Portuguesa, não é da mocidade, é da Legião Portuguesa. Reparem, a Legião Portuguesa, digamos que a Junta Central estava um bocadinho obrigada a isso para mostrar até coerência anticomunista e uma vez que a Alemanha nazi, quando atacou a União Soviética, quis criar a ideia na Europa de que estava a fazer uma campanha contra o comunismo e, portanto, que todos os anticomunistas europeus deviam apoiar aquilo que era o objetivo de destruir a União Soviética. E, portanto, a Legião Portuguesa, digamos, a Junta Central talvez tenha sido levada a isso também para cobrir o terreno e não deixar outra gente dizer: "Mas como é que é? Temos aqui a Legião Portuguesa, anticomunista. Existe neste momento na Europa uma cruzada contra o comunismo dirigida pela Alemanha nazi e a Legião Portuguesa está neutral e diz que não tem nada a ver com isso." Não, tem de participar. Agora, isso só aconteceu, esse entusiasmo só se deixou manifestar enquanto a Alemanha nazi apareceu em vantagem. Quando a Alemanha nazi deixou de estar em vantagem, imediatamente a fervura baixou, e a partir de 1942, o governo limita a atitude pró-nazi da Legião Portuguesa e reduz a Legião à defesa civil do território. Portanto, é nitidamente uma preocupação em reduzir a sua autonomia, o seu ativismo político. Aliás, essas mesmas preocupações de não haver grande mobilização, grande entusiasmo, ao contrário do que acontecia nos regimes fascistas, em Itália e na Alemanha, onde constantemente comícios, as pessoas a participarem, organizações, marchas, etc. Aqui, as pessoas a serem convidadas a aderir aos partidos únicos, tal como na União Soviética, exatamente a mesma coisa, os comunistas faziam o mesmo. Aqui não.

Não queria demasiada politização.

Mesmo, por exemplo, a União Nacional, em 1934, nas primeiras eleições, dos candidatos do governo, menos de metade é que eram membros da União Nacional. O próprio governo candidatou a deputado gente que não era da União Nacional.

Também não eram de outros partidos, porque não existiam. Eram independentes.

Sim, mas não eram da União Nacional. Repara, na Alemanha nazi, em Itália fascista, eram todos fascistas, eram todos nazis. Aqui, mesmo os próprios deputados, metade não era da União Nacional, o que dava imediatamente uma indicação a toda a gente que queria fazer carreiras, queria progredir, que talvez não fosse absolutamente necessário fazer parte da União Nacional. Isso não era assim na Itália e na Alemanha ou na União Soviética, em que era preciso também ser do Partido Comunista para fazer carreira. Mas, por exemplo, dos 199 membros do governo do Estado Novo, só 29% é que foram da União Nacional. Em toda a história do Estado Novo, isto é menos de um terço. Dos 608 deputados da Assembleia Nacional, eleitos durante o Estado Novo, só 45%, menos de metade é que foram da União Nacional. Não era um partido único, eles diziam que não era partido, nem era único. Era uma organização cívica de apoio ao governo. Mas não há um investimento, nem sequer na União Nacional.

Integra o questão do partido, verdadeiramente.

Da União Nacional.

Que não é partido.

Que não é partido.

Mas que era uma espécie de...

Sim, a oposição chamava de partido único, constantemente. Dizia que era partido único. Eles diziam: "Não, não somos." E por que não era partido único? Não era partido único porque se dizia que estava aberto a pessoas de todas as ideologias. Ao contrário de um partido que tinha uma ideologia, a União Nacional apoiava o governo, não tinha uma ideologia. Portanto, todas as pessoas de boa vontade, que queriam que o país progredisse e que confiavam no doutor Salazar para fazer o país progredir, independentemente de serem sociais-democratas, cristãos-democratas, enfim, o que fossem, católicos, monárquicos, republicanos, etc, podiam participar na União Nacional. A ideia era essa. Por isso é que aquilo não era chamado um partido, que era para dar a ideia que estava aberto a toda a gente, e que toda a gente podia lá participar. E também, obviamente, para não terem grandes aspirações aqueles que lá estavam. Marcelo Caetano, que vai estar à frente da União Nacional depois no fim dos anos 40, princípio dos anos 50, queixa-se. Não tem recursos nenhuns, não tem nada, basicamente não existe. Existe nas campanhas eleitorais, quando há eleições, aparece algum apoio, mas praticamente aquilo não existe. O que existe verdadeiramente é o Estado, é a polícia, é as Forças Armadas, é a Igreja, é isso que existe, é com isso que o Salazar conta para dominar o país e foi mais ou menos sempre com isso, sobretudo, que ele contou. Mas de vez em quando, em determinados momentos, precisou de ter estas organizações. Às vezes precisou de ter e as organizações começaram a falhar. Aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de 1943, 1944, as pessoas começaram a perceber que a Itália fascista e a Alemanha nazi iam perder a guerra e que os aliados iam ganhar. E os aliados iam ganhar e muito provavelmente poderiam talvez considerar que este regime aqui em Portugal não era exatamente aquilo que eles pensavam útil para a Europa, embora tivesse ajudado os aliados, embora nunca se tivesse encostado demasiado. Mas sentia-se isso. E aquilo que se vê também em termos do recrutamento da Legião Portuguesa, é que o número de inscritos começa a cair brutalmente. Deixou de estar na moda, digamos assim. Começa a cair e o próprio governo começa a tratar a Legião Portuguesa, vai reduzindo a dimensão, é praticamente um serviço auxiliar do exército com alguma colaboração com a polícia política em termos de informações. É isso que vai sobreviver.

Mas ela sobrevive até quando, a Legião?

Até 1974. Existe até 25 de abril de 1974.

E não desempenhou nenhum papel durante a Guerra Colonial?

Previdenciar, obter informações para dar. Não, nas colónias há outras organizações civis armadas que apoiam as Forças Armadas, mas que eu saiba, a Legião não tem significado aí. Que eu saiba, salvo melhor opinião, como dizem os juristas. Eu disse que tanto a Mocidade Portuguesa como a Legião Portuguesa faziam lembrar as organizações fascistas, mas de facto as diferenças são fundamentais. Primeira diferença: estas organizações dependem do governo e não de um partido único. Como na Itália e na Alemanha, são organizações de um partido, aqui não, são organizações do Estado. Segunda diferença fundamental: estão enquadradas pelas Forças Armadas e, no caso da Mocidade Portuguesa, pela Igreja também. Isto é, são dependentes de outras instituições e não são organizações suficientemente autónomas com líderes próprios que lhes permitissem assumir um papel e uma influência que não conviessem ao governo. Por exemplo, a Mocidade Portuguesa tem concorrência das organizações católicas, que continuam a ser permitidas. A Ação Católica, que é lançada pela Igreja em 1933, é uma organização muito importante. Tem 94 mil associados em 1959, portanto, é uma das grandes organizações no país e depois tem muitas juventudes. A partir de 1935 cria juventudes. Cria a Juventude Operária Católica, a Juventude Escolar Católica, a Juventude Universitária Católica, que vão ter uma influência muito grande.

Nos anos 50 estavam do lado do regime, mas 20 anos depois deram a volta.

E 20 anos são muitos, começam a transitar para a oposição ao salazarismo. Aliás, muitos destes líderes da Juventude Universitária Católica vão ser líderes depois de partidos e de organizações depois de 1974, PSD, PS, até às vezes da extrema-esquerda, que vem também das juventudes católicas. Mas as juventudes católicas têm uma importância muito grande na dinâmica de criação de clubes, publicações, etc. Claro que todos eles desejam que podiam ter mais, porque a Igreja também não está interessada em perder o controle destas organizações. É verdade que tanto a Legião Portuguesa como a Mocidade Portuguesa se mantêm depois de 1945, isto é, depois de passar a moda oficial dos fascismos. E basicamente há duas razões para isso. Primeiro, porque de facto há fascistas no regime e é preciso entretê-los com alguma coisa e de vez em quando eles são úteis. Quando há maior confronto com a oposição, às vezes é com aquela gente que o governo tem de contar para fazer frente às oposições. E depois, porque também foram às vezes investidos por algumas fações dentro do próprio regime. Por exemplo, Marcelo Caetano, no caso da Mocidade Portuguesa, é nítido. Marcelo Caetano nos anos 40 vai investir muito na Mocidade e depois vai manter colaboradores seus à frente da Mocidade Portuguesa, como por exemplo, Baltazar Rebelo de Sousa, que vai ser um dos comissários nacionais.

O pai de Marcelo Rebelo de Sousa.

E há muitos adeptos do chamado Marcelismo, isto é, do governo Marcelo Caetano a partir de 68, que vêm da Mocidade Portuguesa. A Mocidade Portuguesa de repente torna-se uma fonte daquilo que são, para muitos, os liberais do regime, curiosamente. Mas são aqueles que são adeptos de Marcelo Caetano. Há ali uma escola, a tal escola de quadros, de gente da Mocidade.

Como Marcelo ambicionou, portanto, conseguiu.

E conseguiu criar ali, por exemplo, Baltazar Rebelo de Sousa é um caso nítido, porque Baltazar Rebelo de Sousa também vinha da Mocidade Portuguesa e depois foi comissário nacional e depois colaborador de ministro de Marcelo Caetano. No caso da Legião também há determinadas fações do regime que investem na Legião, tem Henrique Tenreiro, tem a Brigada Naval da Legião Portuguesa, é mais ou menos uma milícia pessoal dele nos anos 60 e nos anos 70. Só para acabar a história, a Mocidade Portuguesa deixa de ter preparação militar em 1966 e deixa de ser obrigatória em 1970. Para as raparigas, a Mocidade Portuguesa Feminina já tinha deixado de ser obrigatória nos liceus desde 1956. Quando estamos a falar da Mocidade Portuguesa e da Legião Portuguesa, não estamos a dizer que tivessem sido irrelevantes, que não contassem, não. Ainda por cima criaram uma simbologia, um simbolismo do regime para muita gente. Quando pensava no regime, no Estado Novo, pensava na Mocidade e na Legião, curiosamente. Embora o Estado Novo fosse sobretudo o Estado, as Forças Armadas, o apoio que tinha de uma parte do clero, uma parte importante do clero. O governo nunca permitiu que estas organizações tivessem uma dinâmica própria, isto não porque estivesse preocupado em distinguir-se dos regimes fascistas, mas sobretudo porque estava preocupado em mandar, em controlar a situação e viu sempre riscos em deixar que os entusiastas da Legião, os entusiastas da Mocidade Portuguesa, de repente começassem a pensar que podiam influenciar a política em Portugal, e em Portugal a única pessoa que podia influenciar a política era o doutor Salazar, e ele dispensava outros influencers neste caso.

Muito bem. E é assim que terminamos esta edição do "O Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história.

É a pedra escombra.

194 ainda na zona do Chiado. Aqui, porque quando começou a viver dentro das muralhas...

Quer transformar este país numa ditadura. Entendeu? Entendeu?

Não, atenção.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.